sábado, 12 de novembro de 2011

O Juízo Final

O Juízo Final

Pintura do Juízo Final por Fra Angelico
Iterum venturus est cum gloria iudicare
vivos et mortuos

Ele virá em glória para julgar os vivos e os mortos”. Os povos da terra “verão o Filho do Homem chegar sobre as nuvens do céu com grande poder e majestade.” A volta gloriosa de Cristo como juiz é uma das verdades mais freqüentemente ensinadas pela Sagrada Escritura. “Não há ninguém que duvide desse juízo final, anunciado nas sagradas Escrituras, a não ser aqueles que, devido a uma cega e obstinada incredulidade, não crêem nas próprias Escrituras” (S.Agostinho, A Cidade de Deus, 20,30).

Cristo juiz

O objeto do advento final de Cristo não é um cataclismo cósmico, ou “a grande turbulência”, que chama mais a nossa atenção, mas, sim, o Julgamento. Em que deve ele consistir?

Julgar significa: dizer o que é justo. Tal é a função dos juízes civis e eclesiásticos: exercer a justiça. Ora, a justiça de Deus é a expressão de Sua sabedoria: “ela constitui a ordem das coisas conforme à idéia da sua sabedoria” (S. Tomás, Suma Teológica, I, 21, a.2) A função de Cristo juiz será, pois, a de manifestar a sabedoria da obra divina.

O fim da história do mundo

A obra divina começou no primeiro dia da criação. A ordem da natureza foi fundada durante os seis dias e foi concluída pela criação do homem, à imagem e semelhança de Deus. Tendo o pecado pervertido essa obra, Deus produziu outra criação, uma nova humanidade, por Jesus Cristo e em Jesus Cristo. A obra de Deus prossegue na história. A história do mundo desenrola-se e cumpre-se pelos atos livres dos homens. Eis porque não existe um sentido da história; são os homens que fazem a história. Porém esses atos são incluídos nos desígnios da Providência e dentro do governo divino. Deus é o senhor da história, que Ele conduz para a glória final de Cristo e dos eleitos. Portanto há, sim, um sentido da história, mas não existe história profana. Sem Jesus Cristo a história é absurda. Todo o seu desenrolar tem em vista o advento glorioso do Salvador.

Entretanto, não decorre daí que a humanidade esteja em progresso espiritual contínuo. Muito pelo contrário, constatamos o domínio das forças do mal. Os livros sagrados anunciam-nos provações e perseguições; e Nosso Senhor fez a pergunta: “Quando o Filho do Homem retornar, será que ainda encontrará a fé sobre a terra?” (Luc., 18,8)

A vinda da justiça

Essa história do mundo e da Igreja é para nós bem enigmática. Sabemos, teoricamente, que nada acontece fora da vontade de Deus. Mas quantas injustiças e infelicidades, quantas mentiras e perseguições, provações e sofrimentos! A nossa própria vida, a vida de outras pessoas, e numerosos acontecimentos suscitam perplexidade, até mesmo revolta ou desespero. Não há somente santidade no mundo e o mal permanece triunfante. O grito dos perseguidos sobe até o céu: “Eu vi sob o altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus, e do testemunho que tinham dado, e eles gritavam com voz forte: “Até quando, Senhor santo e verídico, reterás o teu julgamento, e não vingarás o nosso sangue dos habitantes da terra?” (Apoc. 6, 8-10).

O julgamento particular de cada homem é uma primeira resposta a essa espera de justiça. Pois cada homem, no instante da sua morte, comparece perante Deus e recebe a retribuição que lhe for devida. A sentença é imediatamente executada para aqueles que são condenados ao inferno. Para os demais, a entrada no céu pode ser adiada, se não estiverem ainda completamente purificados do pecado; mas são salvos.

Entretanto a seqüência desses julgamentos particulares deixa a justiça insatisfeita. São eles o segredo de Deus, permanecendo ignorados dos homens. E o homem continua vivendo na terra pela sua reputação, sua honra - ou sua desonra - , sua descendência, as obras que lhe sobrevivem; ou então, pelo contrário, ele é esquecido, morto não só fisicamente como também social e historicamente.

É o julgamento geral que completa a obra da divina justiça. Nele a vida de cada pessoa será manifestada e julgada em relação com a universalidade dos homens, não mais apenas no seu mérito individual: “o homem deve ser julgado como fazendo parte da totalidade do gênero humano; assim como se diz que alguém é julgado segundo a justiça humana, quando é julgada a comunidade da qual faz parte”(S. Tomás, Comentário sobre as Sentenças, IV Sent., d.17, Q.1, sol.1, ad 3. “O juízo universal concerne mais diretamente à universalidade dos homens do que a cada um deles”, ibid.).

Não é que Deus reveja a sua sentença de salvação ou de danação para cada homem! Essa sentença aparecerá publicamente e em toda a sua sabedoria. Saber-se-á então quem faz parte da humanidade nova, a Igreja, e quem lhe é estranho; pois nem todos os homens são membros da Igreja, e entre esses membros muitos são membros mortos. As hipocrisias serão desmascaradas, as santidades aparentes serão dissipadas, as reputações enganosas serão arruinadas; todo um mundo artificial de obras factícias desabará, e serão vistos o seu vazio e a sua vaidade. Como num relâmpago, ficarão evidentes à inteligência de todos as obras de cada um e a separação do bem e do mal (S. Tomás, op. cit., IV Sent., d.17, Q.1, sol.2.).

Atualmente a sucessão dos acontecimentos parece ir contra as exigências da justiça. O mal triunfa, o bem é vencido. Os atos virtuosos não são recompensados. A injustiça leva ao sucesso. “Nesse julgamento serão revelados os mistérios ainda escondidos da justiça divina: com efeito, atualmente os atos de uns servem ao proveito dos outros, de modo diferente do que pareceriam exigir suas respectivas obras; mas então, terá lugar a separação universal dos bons e dos maus; os maus não mais progredirão graças aos bons, nem os bons graças aos maus; é por causa desse progresso que hoje os bons e os maus estão misturados, enquanto o estado da vida presente prossegue sob o governo da divina providência” (S. Tomás, op. cit., IV Sent., d.17, Q.1, sol.1.) Hoje tudo está misturado; as felicidades e as aflições terrestres advêm a todos indistintamente, contradizendo, ao que parece, as exigências da justiça. “As duas Cidades, a de Deus e a da terra, têm parte igual dos bens e dos males desta vida; mas sua fé, sua esperança e sua caridade são diferentes, até que o juízo final as separe e cada uma delas chegue ao seu fim que não terá fim.” (S. Agostinho, A Cidade de Deus, 18,54)

Revelação da sabedoria divina

Então serão desvendadas as obscuridades da história. O escândalo da vitória do mal não mais existirá. As injustiças, os infortúnios, as mentiras, as perseguições, as provações e os sofrimentos, todos esses males que têm oprimido a pobre humanidade, aparecerão como ornamentos que constituem a glória dos santos e do Corpo Místico. Não só saberemos, mas veremos que Deus preferiu permitir o mal a fim dele tirar um bem maior, edificando a Cidade de glória pela Cruz. A “felix culpa” não será mais um mistério.

Todos verão que Deus tudo criou e tudo governou para a glória de Cristo e do seu Corpo Místico, “o homem perfeito, a cabeça primeiramente, a seguir o corpo composto de todos os membros, que receberão a última perfeição em seu tempo.” (S. Agostinho, op. cit., 22,18).

A espera e a contemplação do mistério do juízo final dão ao cristão uma “bem-aventurada visão de paz” (Hino da Dedicação) sobre os acontecimentos do mundo e os de sua própria vida. Ele adora a sabedoria dos desígnios da Providência na escuridão da fé, enquanto aguarda contemplá-la naquele dia derradeiro.

(Fonte: Site do Mosteiro da Santa Cruz - Boletim nº 18, setembro de 1999, Suplemento)

PS.: Grifos meus.
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