terça-feira, 6 de março de 2012

Vantagens da dor


Deus alcança, pois, o Seu fim, enviando a dor aos homens, que podem, se quiserem, dela auferir inapreciáveis vantagens.

Se um golpe rude e seco ferir um seixo, ressalta uma centelha e produz-se um fogo que ilumina e abrasa. Da alma ferida pela dor, também ressalta uma centelha de amor, que pode produzir um vasto incêndio. Mas assim como a centelha tirada da pedra alumia antes de abrasar, assim também a dor, antes de atear na alma o incêndio de amor, produz claridade.

Essa centelha ilumina, em primeiro lugar, aquele a quem atinge, revelando-o a si mesmo e aos outros, dando-lhe a conhecer melhor suas fraquezas e suas virtudes. A alma começa por descobrir os seus defeitos: verifica que a causa de seus vivos sofrimentos não passa de amor próprio, de vontade própria; compreende que uma alma, abrasada de amor divino, ficaria indiferente em seu lugar àquilo que a faz chorar, ou, ao menos, daria pouca importância a esses males corporais, a essas contrariedades, repreensões, ou injustiças que tanto a magoam.

Serão suas virtudes profundas e sólidas? É ainda a dor que lha provará. "Que sabe aquele que não foi experimentado?" (Ecli 34, 9). Ninguém pode garantir que um homem que não sofreu seja forte e corajoso; sua atividade laboriosa está presa, talvez, ao seu temperamento ardente; esforça-se e dedica-se, mas quanto a moderar o seu entusiasmo não lhe seria possível. Que a provação o atinja, que a enfermidade o prostre, que a dor lhe torture os membros, e logo cessará todo desejo de atividade; não poderá mais dedicar-se senão por meio de corajosos esforços. Se tal homem continuar a labutar, então não poderemos mais pôr em dúvida à sua energia: a dor é, pois, a pedra de toque da virtude.

A dor é sobretudo a pedra de toque da humildade. É agradável, é uma felicidade para o cristão generoso trabalhar para a glória de Deus, esforçar-se por Lhe ganhar almas, por torná-lO mais conhecido e mais amado. Mas, se vier a fracassar em seus mais santos empreendimentos, enquanto outros alcançam êxito como aceitará ele a humilhação do revés? como assistirá ao êxito de outrem? Se só procura a Deus, que lhe importa por quem Deus seja servido, por quem seja glorificado?

"Eldade e Medad profetizam", disseram um dia os hebreus a Moisés. "Por favor, não os deixeis", exclama Josué. "E por que, responde o homem de Deus, por que esta inveja? Ah, praza aos céus que todo o povo o profetize e que o Senhor penetre a todos de seu Espírito!" São Paulo, na prisão, não podia mais pregar o Evangelho; então alguns de seus irmãos, invejosos e disputadores, entregaram-se à pregação com a idéia de que seu êxito, despertando a inveja do prisioneiro do Cristo, lhe tornasse mais pesados os grilhões. "Que importa! exclama o apóstolo; contanto que o Cristo seja conhecido, alegro-me e me alegrarei sempre" (Fp 1, 18). Quando a provação não desperta logo em nós esses protestos sinceros de desinteresse, patenteia claramente que, no próprio bem praticado, visávamos nossa satisfação pessoal ao mesmo tempo que a glória de Deus.
             
Se na obra que empreendemos surgem contradições, se nosso procedimento é censurado, se o acerto de nosso intento, ou a prudência de nossas decisões forem contestadas, se nos retirarem a obra começada, para confiá-la a outros, da maneira pela qual recebemos essas humilhações infere-se a pureza de nosso propósito.

Dá-se o mesmo com as demais virtudes, a doçura, o amor do próximo. A provação denota-lhes a sinceridade e perfeição. Ensina-nos, pois, a nos conhecermos a nós mesmos, e a melhor conhecermos a Deus. Adquirimos, na provação bem aceita, uma idéia mais justa de Sua santidade, que exige uma purificação severa, mesmo das almas aparentemente muito puras; de Sua sabedoria insondável, cujas veredas são tão diferentes das nossas; de Seu poder, que pode tirar o bem do mal; de Seu amor, que se manifesta mesmo quando castiga: quos amo castigo, e que sabe unir a paz e o consolo às mais duras provações.

A provação ilumina a alma sincera, desvenda-lhe o mal oculto nas dobras de seu coração. Faz mais, porém, que, revelar o mal, ataca-o, destrói-o, contanto que saibamos tirar proveito de sua ação benfazeja.

A dor, humilhando-nos, torna-nos melhores. Faz-nos sentir mais vivamente nossa incapacidade e nosso nada.

Um ferido, que não pode mais levantar-se, recorre aos transeuntes, não se prevalece mais de suas forças. Assim também aquele a quem o sofrimento feriu, humilha-se e solicita socorro e alívio, mesmo junto a seus inferiores, ou àqueles a quem não estima. Se, como é freqüente, os homens são incapazes de consolar aquele que sofre, então este volta-se para Deus, implorando-O humilde e insistentemente. Quantas vezes a dor aproximou de Deus homens que a prosperidade dEle afastara? Abençoado o sofrimento que leva o filho pródigo ao lar paterno.

Se a dor converte muitos pecadores, santifica também muitas almas piedosas. Parece até impossível que certas almas alcancem a perfeição sem passar pelo sofrimento. Purificam-se, primeiro, de tudo quanto nelas é impuro, imperfeito, de tudo quanto, em suas, obras, não é sobrenatural. Temos ótima ocasião de desaprovar e de afastar para longe de nós as preocupações egoístas, que nem sequer suspeitávamos, e que se manifestam nas separações, nos reveses e contradições, aceitando alegre e amorosamente a vontade divina. Sim, meu Deus, permitindo Vós esta separação, este malogro, estas críticas, quisestes privar-me dos prazeres humanos que se misturavam à alegria de trabalhar para Vós; só me resta agora a satisfação de haver feito o bem e procurado agradar-Vos; as consolações naturais que teria encontrado, além do êxito, nos aplausos e na estima do próximo, Vós mas retirais; a dor que sinto, prova quanto as desejava; mas de bom grado renuncio hoje a elas e me regozijo de não ter outra recompensa senão a de Vos agradar.

Este ato de verdadeiro amor é tão agradável a Deus, que, para no-lo fazer praticar, permitirá por vezes o fracasso de obras, excelentes em si (1).

Teremos assim ocasião de nos tornarmos mais puros e mais santos, o que Deus deseja antes de tudo. Ele prefere ser glorificado pelas nossas virtudes do que pelas nossas obras, pela nossa humildade e nosso amor, do que pelos mais brilhantes êxitos exteriores.

Quantos atos de virtude não poderá ainda a dor suscitar? No sofrimento, a fé se ilumina, a esperança se torna ardente e inabalável, o amor se fortifica e se dilata. A prática destas três virtudes teologais brota espontaneamente da alma fiel, entregue à dor; e quantas outras virtudes não as acompanham? a paciência, a renúncia, a suavidade, virtudes tão belas, tão agradáveis a Deus, se exercem como que naturalmente e acrescem muito aos méritos já adquiridos.

Sem o sofrimento preparado pela Providência, quem seria bastante corajoso para aplicar a si mesmo o ferro e o fogo que suprimem e consomem os apegos imperfeitos, as afeições puramente naturais, esses inúmeros laços que encadeiam as almas, impedindo-as de voar para as alturas da perfeição? 

1) Quando São Luís empreendeu as cruzadas, não tinha outro fito senão a glória de Deus; entretanto, só encontrou reveses e desgraças; Deus, porém, permitindo tais provações, fez dele um santo.

(O Caminho que leva a Deus - Cônego Augusto Saudreau) 

P.S: Continua com o post : Do aproveitamento da dor.
P.S2: Ver primeira parte: Fim providencial da dor.
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