terça-feira, 4 de setembro de 2012

Primeira parte: liberdade, felicidade e oblação

Fonte da tradução: Salve Regina

Inicio uma série de artigos sobre paz interior.
Neste primeiro artigo trato da verdadeira liberdade dos filhos de Deus, diametralmente oposta a licença do liberalismo e dos mundanos. Como abordarei todos os aspectos que dizem respeito a beatitude sobrenatural, imperfeita nesta vida e cumprida apenas na eternidade.
D. Curzio Nitoglia
[Tradução: Gederson Falcometa]

PRIMEIRA PARTE
Liberdade, felicidade e oblação



Þ              Se vivemos na graça de Deus, a SS. Trindade habita fisicamente e realmente na nossa alma. Os Santos nos convidam a entrar na parte mais profunda dela (o “espírito”, que é a alma elevada à ordem sobrenatural) e a permanecemos na presença amorosa de Deus. Também nas circunstâncias externas mais difíceis e desfavoráveis, temos dentro de nós um espaço de paz interior que ninguém pode perturbar, porque está presente Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Esta é uma verdade de Fé que todo cristão deveria conhecer, e que, uma vez conhecida e crida, deve ser vivida e cultivada. Deus está presente em nós para conhecer-nos, amar-nos e conviver conosco, e nós devemos conhecê-lo, amá-lo e viver junto a Ele. Esta é a natureza da vida espiritual ou sobrenatural: Fé, Esperança e Caridade vividas na meditação ou colóquios com Deus. Enquanto não vivermos sobrenaturalmente, estaremos angustiados, aleijados e privados de verdadeira paz e liberdade da alma, que apenas Deus conhecido, amado e vivido pode nos dar. São Paulo nos revela: “Onde está o Espírito do Senhor, aí existe a liberdade” (2 Cor., III, 17). Se quisermos viver, apesar das provas e das cruzes da vida terrena, em paz com Deus, com nós mesmos e possivelmente com o próximo, devemos aprofundar na meditação desta verdade e buscar vivê-la quotidianamente. Somente então, nada nos sufocará interiormente, ainda que exteriormente as vicissitudes possam ser extremamente adversas e dolorosas.

Þ              O homem conquista a verdadeira liberdade interior e a paz da alma na medida em que fortifica a sua Fé e a vive na Esperança e na Caridade, mediante a oração e os Sacramentos. 

Þ              Conditio sine qua non para fortificar as Virtudes teologais é a verdadeira humildade de coração, que consiste em esvaziar-se do nosso amor próprio ou do nosso “eu” para dar espaço a Deus que nos ama e quer ser amado.  A verdadeira liberdade consiste em estar livre do erro e do pecado, que apenas o Bem e o Verdadeiro nos dão. O liberalismo é o pervertimento egocêntrico desta máxima e faz da liberdade não um meio, mas um fim e absoluto, uma espécie de ídolo ou falsa divindade, que nos tornaria patrões e capazes de fazer aquilo que queremos, incluindo o mal e o erro. Jesus, ao invés nos revelou: “a Verdade vos fará livres” (Jo, VII, 32), enquanto “quem faz pecado, é escravo do pecado”. Deus quer que nós reconheçamos não sermos nada e que Ele é tudo. “Eu sou Aquele que é, tu aquela que não é” disse Jesus a S. Catarina de Siena. Portanto não devemos nos preocupar com aquilo que não podemos fazer com as nossas forças. Deus é onipotente e muitas vezes quer para nós aquilo que nós não queremos, mas Ele pode aquilo que nós não podemos fazer. Então, se nos chama a uma tarefa tenhamos confiança na sua Providência onipotente e misericordiosa, a qual nos ajudará a fazer aquilo que sozinhos não conseguiríamos jamais cumprir. 

Þ              O homem foi criado para a Felicidade ou Beatitude, que poderá conseguir perfeitamente apenas no Paraíso, depois de ter atravessado muitas provas ou “cruzes” (“cruz” vem do latim “cruciari” que é ser atormentado). Apenas a via do calvário e do tormento leva a Ressurreição. Sobre isto não devemos nos iludir. Mas nem sequer ver jansenisticamente a vida como feita apenas de penas e de dores. Não. Nesta vida terrena existem alegrias e dores, e a dor deve ser vivida positivamente, como meio de refinamento espiritual que nos aproxima de Deus. Não deve ser absolutizada, nem recusada, é uma realidade com a qual devemos fazer as contas todos os dias, mas que podemos superar e transmutar em “ouro” com a ajuda da graça do Senhor.

Þ              A alma é aberta ao infinito, embora sendo finita em si mesma. O homem tem o desejo de conhecer e amar alguma coisa de espiritual e infinita que é Deus. Pelo qual não pode e nem deve conduzir uma vida raquítica e atrofiada. S. Agostinho depois de ter buscado a felicidade nos bens materiais, nos prazeres sensíveis e na filosofia maniqueísta, escreveu nas Confissões: “Tu nos fez para Ti, ó Senhor, e o nosso espírito é infeliz até que não encontre paz em Ti”. Apenas qualquer coisa de infinito, o Summum Bonum et Verum, que é Deus, pode dar a verdadeira paz – relativa sobre esta terra e absoluta apenas na outra vida – ao homem, que tem uma alma espiritual aberta ao infinito e que não pode ser satisfeita pelas coisas finitas e limitadas. O conhecimento e o amor do Verdadeiro e do Bem nos dão a felicidade e a liberdade, o erro e o mal nos tornam infelizes e escravos (S. Catarina de Siena, Diálogo, cap. 51). O homem sente a necessidade de ser conhecido, benquisto, amado pelo próximo e sobretudo por Deus, o qual é o único que pode fazê-lo perfeitamente e segundo as nossas reais necessidades, que os homens podem não conhecer e que certas vezes, até fogem de nós mesmos. 

Þ              A verdadeira liberdade interior não é uma “conquista social e política do homem moderno”, que se emancipou de toda autoridade humana e divina (“nem Deus, nem patrão”), para o cristianismo e a sã filosofia a liberdade é uma faculdade que nos ajuda a escolher os melhores meios para fazer o bem e fugir do mal. Essa consiste exatamente no contrário da “liberdade” ou melhor “licença” moderna: livre é quem se uniformiza e conforma a realidade verdadeira e boa e a Deus autor da realidade criada. Devemos pedir a Deus para reforçar em nós, feridos pelo pecado original, esta capacidade, que é um meio e não um fim, de forma que possamos ser verdadeiramente livres e não abusar ou usar mal da liberdade fazendo o mal e aderindo ao erro, os quais são sinais defeituosos de liberdade, mas não são a essência da liberdade, como por exemplo, a doença é sinal de deficiência de vida: tem a virtude da força e o dom e fortaleza do Espírito Santo que aperfeiçoam em nós o querer e o operar de modo que são segundo a natureza, que tem como fim o verdadeiro e o bem e não contra a natureza e desordenada ao erro e ao mal. Apenas o santo, que é o verdadeiro cristão, é verdadeiramente livre, porque – como ensina S. Paulo – perdeu o próprio “eu” para fazer viver nele Jesus Cristo (“vivo jam non ego, sed Christus vivit in me”). Depois do pecado original a nossa personalidade é vulnerável, um pouco “original” e apenas perdendo a nossa para adquirir aquela de Jesus Cristo poderemos ter uma sã e plena personalidade, livre e dona de si e dos acontecimentos, e não escrava do amor próprio, do egoísmo, daquilo que acontece em torno de nós: “Quem quer preservar a sua vida a perderá, mas quem a perder por amor a mim a salvará” (Mt., XVI, 25). Só o que está dentro de nós, pode nos fazer o bem ou o mal, enobrecer ou nos diminuir. Aquilo que acontece em torno de nós, não deve nos preocupar. Esta é a verdadeira liberdade, que poderemos alcançar apenas com a ajuda da graça de Deus: “Sine Me nihil potestis facere” nos revelou Jesus. 

Þ              Muitas vezes nos enganamos e pensamos que a verdadeira liberdade e felicidade são alguma coisa exterior, dependente das circunstâncias que estão ao nosso redor. Também Santo Agostinho antes de converter-se tinha cometido este erro: “Quaerebam Te foras sed intus eras; Te buscava fora de mim, mas tu estavas dentro e eu fora de mim” (Confissões, liv. X). Que não são as circunstâncias da vida a limitar a nossa liberdade e a paz da nossa alma. Certamente essas ainda exercitam um certo influxo sobre nosso ânimo, mas não o determinam. É dever nosso, superar certos obstáculos externos que nos impediriam de fazer o bem e evitar o mal. Todavia o essencial não consiste nas circunstâncias externas a nós, mas na nossa vontade. Não devemos (e não podemos) mudar a realidade, porém podemos e devemos mudar nós mesmos em relação a Deus e ao próximo. 

Þ              Santo Tomás de Aquino ensina que “um homem é dito bom, não porque tem boa inteligência, mas porque tem uma boa vontade”. Então, é sobre a nossa vontade que devemos trabalhar para melhorá-la e torná-la verdadeiramente livre e em paz consigo mesma. A vontade humana será livre se submissa à vontade de Deus e capaz de comandar as paixões da sensibilidade de forma que o corpo obedeça à alma e essa a Deus. A monotonia da vida quotidiana e mesmo os sacrifícios que nos faz enfrentar podem ser transformadas e sublimadas pelo homem interior que vive unido a Deus, o qual de Deus obtém tudo (“eu posso tudo Naquele que me fortalece”, S. Paulo). O amor que nos faz sair de nós mesmos e nos une a Deus, nos dilata e nos torna “participantes” de maneira limitada e finita da Natureza do próprio Deus (2 Epístola de São Pedro). Se nos sentimos em dificuldade, angustiados ou “no aperto”, quase aprisionados e privados de liberdade e paz, o problema não se encontra especialmente no lugar onde vivemos, mas sobretudo em nós, na nossa alma e na falta de verdadeiro amor sobrenatural por Deus e pelo próximo, que nos torna frios, egoístas, curvados sobre nós e estéreis. A liberdade e a paz se encontram em nós mesmos, na nossa alma espiritual e livre, não nas coisas que nos circundam. Certamente algumas circunstâncias podem ser difíceis, mas somos nós a piorar a situação pela nossa falta de Fé e de Amor. 

Þ              Se olhássemos todas as coisas a luz da Fé e amássemos sobrenaturalmente, também as cruzes mais pesadas, tudo se transformaria em meio e em graça; este é o segredo. O cristão, mediante a graça de Deus, tem a capacidade real de crer, esperar e amar em cada circunstância e isto o torna capaz de tirar um bem espiritual de cada mal que possa tocá-lo ou feri-lo. Ainda em cárcere, ainda sobre o patíbulo nos resta a capacidade de crer, esperar e amar e então de sermos livres e em paz com Deus; certamente é uma paz interior, da parte superior da alma (intelecto e vontade), que não excluí o sofrimento da sensibilidade. Jesus no Getsêmani quer provar “medo, cansaço e tristeza” na parte sensível da sua humanidade, mas ao mesmo tempo a sua alma gozava da visão Beatifica. Não devemos jamais confundir o sentir com o querer. Se a sensibilidade sofre em certas circunstâncias, a alma com a ajuda da graça divina pode sempre continuar a crer, esperar e amar em liberdade e paz de espírito. 

Þ              A liberdade interior não consiste tanto no escolher aquilo que queremos, mas no dizer “sim” também àquilo que não nos dá prazer e que encontramos à frente. Nossa Senhora disse “fiat” ao Anjo que lhe anunciava a sua Maternidade divina e o seu Calvário aos pés de Jesus crucificado. Esta é a verdadeira liberdade interior que também nos faz superar com amor as provas mais árduas, porque nessas vemos a mão de Deus e a amamos. A liberdade consiste mais no dar-se que no possuir ou dominar. É preciso saber como aceitar a realidade, tal qual ela é, e não como nós gostaríamos que ela fosse, com esperança e amor, dia após dia, para fazer-lhe um sacrifício a Deus. 

Þ              O problema, a dificuldade começa propriamente quando bate a nossa porta aquilo que não nos dá prazer, que nos contraria e nos faz sofrer. Mas é precisamente nestas situações que devemos usar da vontade livremente para conseguir a paz interior, aceitando aquilo que nós não tínhamos projetado e mesmo que nunca iríamos querer. O segredo para obter a plena liberdade interior consiste no recusar os nossos caprichos, os nossos gostos, porque a nossa natureza é ferida pelo pecado original e nos faz tender para aquilo que em si, não é bem, mas parece sê-lo para nós (o bem aparente que não é bem real). 

Þ              Aceitar aquilo que entra em colisão com a nossa “vontade de potência”, que coincide com a “liberdade” absoluta ou melhor licença, aceitar os nossos limites, dizer sim a uma situação imprevista e não desejada que a vida nos apresenta, é isto, que o homem moderno, manchado pelo liberalismo, não sabe mais fazer e é por isto que não é mais verdadeiramente livre com a “liberdade dos filhos de Deus”. Gostaríamos de controlar tudo, como um “deus”, mas isto é impossível e as situações que não conseguimos “criar” segundo o nosso gosto tornam-se ocasião de desesperação e revolta. Ao invés, se soubéssemos aceitar-lhe com os olhos da Fé, então seria ocasião de crescimento e de uniformidade a vontade de Deus. 

Þ              Se conseguíssemos aceitar uma realidade que a primeira vista parece negativa e pode ainda sê-lo em si e por si, mas que aceitada a luz de Deus e amada em Deus pode ser transmutada em qualquer coisa de boa, toda dificuldade se tornaria assunta a Deus. Posso aceitar-me apesar dos meus limites, conaturais a minha natureza, porque sei que Deus me ama se eu O amo malgrado as minhas deficiências. Partindo do nada Deus criou o mundo, partindo das nossas misérias humanas, Deus pode produzir coisas esplêndidas como a santidade. Na aceitação daquilo que não gostamos é a Fé, a Esperança e o Amor em Deus que de cada mal tira um bem. Por exemplo, se sou pobre e digo sim a minha pobreza com Fé amorosa para Deus, a pobreza torna ocasião de santificação, como ocorreu a Jesus. Como se vê não é a realidade a determinar-nos, mas o nosso modo de vê-la e aceitá-la com confiança ou recusá-la com revolta desesperada. A felicidade depende da nossa livre escolha, que, é feita segundo a ordem querida por Deus, é verdadeira e boa e leva a paz e a beatitude. O bom ladrão aceitou com amor a cruz e se salvou enquanto o mau ladrão a recusou, se revoltou, morreu desesperado e se condenou. A mesma circunstância pode ser ocasião de felicidade ou infelicidade, segundo a vontade com a qual a vivemos. A parte principal depende de nós, sempre prevenidos e ajudados pela graça divina. 

Þ              Os erros que se compreendem e se corrigem são o “adubo” que faz crescer o nosso espírito. Se ao invés nos obstinamos nesses e não queremos corrigi-los, permanecem “chorume” e o nosso espírito não cresce, mas se rotula na lama. “Errare humanum est, perseverare diabolicum”. Na segunda parte veremos a aceitação de si mesmo, como via para alcançar a paz de espírito. 

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