segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Estudante-zangão!


Não é sem motivo que se costuma citar a abelha como um modelo de diligência. A aplicação laboriosa com que ela recolhe o mel, de flôr em flôr, é coisa admirável. A abelha atarefada e o estudante estudioso se assemelham.

Nós outros, homens, - mormente quando ainda estudantes, - devemos tirar de muitos livros, de muitas observações e experiências, os conhecimentos que nos serão necessários na vida, o que reclama de nós uma perseverança  infatigável.

A semelhança, porém, entre a abelha e o estudante vai mais longe. Ambos têm uns parentes nada honrosos. A abelha tem um primo degenerado: o zangão. Ele tem traços comuns com a prima; zumbe exatamente do mesmo modo, e até mais forte; voa também, de flôr em flôr. Às vezes, pousa num rochedo com perfeita seriedade, como se quisesse dizer: "Eu, tiro mel até mesmo da pedra". Mas, ao cabo de um dia todo, de atividade volta sempre sem mel para casa.

Ora, como é que faz o zangão-estudante? Fica sentado diante do livro aberto, exatamente como os camaradas. Folheia-o como eles, e até mais. Arregala os olhos com absoluta seriedade como se também dissesse: "Eu, tiro ciência até da capa do livro". A mamãe acarinha-o compassiva: "Meu pobre filho, você se cansa demais!"

Mas ele apenas finge aplicar-se ao estudo. Porque, se as idéias lhe sucedem na mente, não têm, contudo, na maioria das vezes, relação nenhuma com  a lição ... E isso ainda não seria nada; mas sucede também que imagens e fantasias malsãs achem asilo com o zangão torna-se completa: é no monturo que as larvas desse inseto se desenvolvem quase sempre...

O livro dos Provérbios, do Antigo Testamento, esboça um excelente retrato do homem preguiçoso que "quer e não quer" (13,4), que morre "ferido pelos próprios desejos" (21,35). Pois não é sua vida toda, apenas encadeamento sem fim de suspiros e de desejos infrutíferos?

O preguiçoso nunca pode resolver-se a coisa alguma: enxerga num trabalho dez vezes mais dificuldades do que existem realmente; sente arrepios ante a menor tarefa, e acaba quase sempre por furtar-se a ela. "Um leão está passeando lá fora, poderia estrangular-me na rua!" (22,13), diz ele consigo, arrepiado. "Essa lição de álgebra é horrivelmente difícil; é me impossível aprendê-la", e fecha o livro, antes mesmo de começar.

Tenta tudo; tem uma pequena idéia de tudo; mas não sabe nada seriamente. Parece-se com esses canivetes grossos que, além de lâminas, trazem um sacarrolhas, uma colher minúscula, uma tesoura e um abotoador, ferramenta completa, mas de qualidade inferioríssima.

Como te lastimo, pobre estudante-zangão, que assim perdes os melhores anos da tua juventude!

(O moço de caráter - Dom Tihamér Tóth)
PS: Grifos meus
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