sábado, 16 de janeiro de 2010

Do incomparável amor da Mãe de Deus Nossa Senhora



Do incomparável amor da Mãe de Deus Nossa Senhora.

Mas em tudo e em toda parte, quando eu faço comparações, não entendo falar da Santíssima Virgem Mãe, Nossa Senhora. Ó Deus! não; pois ela é a filha de incomparável dileção, a toda única pomba, a esposa toda perfeita (Cânt. 6,8). Sobre essa rainha celeste eu pronuncio de todo o meu coração este amoroso mas verdadeiro pensamento, de que ao menos pelo fim dos seus dias mortais a sua caridade excedeu a dos Serafins.

Porquanto, se muitas filhas ajuntaram riquezas, esta as excedeu a todas (Prov 31,29). Todos os Santos e Anjos só são comparados às estrelas, e o primeiro deles à mais bela delas: porém esta é bela como a lua (Cânt 6,9), fácil de ser escolhida e discernida entre todos os Santos, como o sol entre os astros. E, passando mais além, eu ainda penso que, assim como a caridade dessa mãe de amor excede em perfeição a de todos os Santos do céu, assim também ela a excerceu mais excelentemente, digo mesmo nesta vida mortal.

Ela nunca pecou venialmente, como a Igreja o considera. Nunca teve, pois, vicissitude, nem retardamento no progresso do seu amor, antes subiu de amor em amor por um perpétuo adiantamento; nunca sentiu contradição alguma do apetite sensual; e portanto o seu amor, qual verdadeiro Salomão, reinou-lhe pacificamente na alma, e nela fez todos os seus exercícios à vontade.

A virgindade do seu coração e do seu corpo foi mais digna e mais honrosa do que a dos Anjos. Eis por que seu espírito não dividido (I Cor 7, 33-34) nem repartido, como fala São Paulo, estava todo ocupado em pensar nas coisas divinas, em como ela agradaria a seu Deus (Tb.32).

E, enfim, o amor materno, o mais premente, o mais ativo, o mais ardente de todos, amor infatigável e insaciável, que não devia ele fazer no coração de tal Mãe e para o coração de tal Filho?

Oh! por favor, não alegueis, que essa santa Virgem foi, contudo, sujeita ao dormir: não, não me digais isto, Teótimo. Pois não vedes que o seu sono é um sono de amor? de sorte que seu próprio esposo quer que a deixem dormir tanto quanto lhe aprouver. Ah! guardai-vos bem, conjuro-vos, diz ele, de acordar minha bem-amada até que ela o queira (Cânt 2,7).

Sim, Teótimo, essa Rainha Celeste nunca adormecia senão de amor, visto que não dava nenhum repouso ao seu precioso corpo senão para revigorá-lo, a fim de que ele servisse melhor ao seu Deus depois: ato certamente muito excelente de caridade. Porque, como diz o grande Santo Agostinho, ela nos obriga a amar os nossos corpos convenientemente, enquanto são necesários para as boas obras, enquanto formam uma parte da nossa pessoa, e enquanto serão participantes da felicidade eterna.

Certamente, um cristão deve amar seu corpo como uma imagem viva do corpo do Salvador encarnado, como saído da mesma haste com Ele, e por conseguinte pertencendo-Lhe em herança e consanguinidade, mormente depois que renovamos a aliança pela recepção real desse Divino Corpo do Redentor, no adorabilíssimo Sacramento da Eucaristia, e depois que, pelo batismo, confirmação e outros sacramentos, somos dedicados e consagrados à suma bondade.

Mas, quanto à Santíssima Virgem, ó Deus, com que devoção não devia ela amar seu corpo virginal, não somente porque era um corpo manso, humilde, puro, obediente ao santo amor, e que estava embalsamado todo de mil sagradas suavidades, mas também porque era a fonte viva do corpo do Salvador, e lhe pertencia tão estreitamente de uma pertinência incomparável. Era por isso que, quando ela punha seu corpo angélico no repouso do somo, dizia: Ora eia, ó tabernáculo da aliança, arca da santidade, trono da Divindade; aliviai-vos um pouco do vosso cansaço, e reparai as vossas forças por esta doce tranquilidade.

E depois, meu caro Teótimo, não sabeis que os sonhos maus, proporcionados voluntariamente pelos pensamentos depravados do dia, de alguma sorte fazem vezes de pecado, porque são como que dependências e execuções da malícia precedente? Assim, de certo, os sonhos provenientes dos santos afetos da vigília são considerados virtuosos e sagrados.

Meu Deus, Teótimo, que consolação ouvir São Crisóstomo (Hom. X De penitentia) contando um dia ao seu povo a veemência do amor que dedicava a ela!

"Forçando a necessidade do sono as nossas pálpebras, diz ele, a tirania do nosso amor para convosco excita os olhos do nosso espírito; e múltiplas vezes no meio do meu sono pareceu-me que eu vos falava: porque a alma costuma ver em sonho por imaginação o que pensa durante o dia. Assim, não vos vendo com os olhos da carne, nós vos vemos com os olhos da caridade".

Oh! doce Jesus, que devia sonhar Vossa Santíssima Mãe quando dormia e seu coração velava?

Não sonhava ver-Vos ainda dobrado nas suas entranhas, como estiVestes nove meses, ou então pendente dos seus peitos e estreitando-lhe docentemente o seio virginal? Ai! quanta doçura naquela alma!

Talvez ela haja muitas vezes sonhado que, assim como Nosso Senhor outrora lhe dormira muitas vezes sobre o peito, como um cordeirinho na branda ilharga de sua mãe; assim também ela dormia no Seu lado perfurado, como uma branca pomba no buraco de um rochedo seguro (Cânt 2,14).

De tal sorte que o seu dormir era mui semelhante ao êxtase quanto à operação do espírito, embora, quanto ao corpo, fosse um doce e gracioso alívio e repouso. Porém, se, como o antigo José, ela jamais sonhou com a sua grandeza futura, quando no céu fosse revestida do sol, coroada de estrelas, e tendo a lua a seus pés (Gn 32,9; Apoc 12,1), quer dizer, toda circundada da glória de seu Filho, coroada de glória dos santos e com o universo debaixo dos pés; ou se, como Jacob, ela viu o progresso e os frutos da redenção feita por seu Filho em favor dos Anjos e dos homens (Gn 38,12):

Teófilo, quem poderia jamais imaginar a imensidade de tamanhas delícias?
Quantos colóquios com o seu caro Filho! quanta suavidade de todas as partes!

... Em suma, assim como o asbesto (substância mineral filamentosa, incombustível), pedra preciosa, por uma propriedade sem igual conserva para sempre o fogo que concebeu, assim também o coração da Virgem Mãe permaneceu perpetuamente inflamado do santo amor que ela recebeu de seu Filho, mas com esta diferença todavia:

Que o fogo do asbesto, não podendo ser extinto, também não pode ser aumentado; ao passo que as chamas sagradas da Virgem não podendo nem perecer, nem diminuir, nem ficar no mesmo estado, nunca cessaram de tomar incrementos incríveis até o céu, lugar da sua  origem; tanto é verdade que essa Mãe é a mãe de bela dileção (Ecli 24,24), isto é, a mais amável como a mais amante, e a mais amante como a mais amada Mãe desse único Filho, que é também O mais amável, O mais amante e O mais amado Filho dessa única Mãe.

(Excertos do livro: Tratado do amor de Deus - São Francisco de Sales - Livro III)
PS: Grifos meus
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