sexta-feira, 27 de maio de 2016

Literatura: uma barca no meio do oceano

Fonte: Blog do [cultor]

Por Rafael Ruiz, “Literatura e crise – Uma barca no meio do oceano”, p. 20-26.

Por que lemos? Perguntava-se muitas vezes C.S. Lewis. Resposta: para saber que não estamos sós. Para aprender a construir prédios, para saber sobre cálculos e alíquotas, para fazer tabelas e gráficos temos muitos cursos e disciplinas, contudo, para saber como ser humanos e não cair sozinhos no abismo da desumanização, só podemos aprender com o que os outros seres humanos – aqueles que foram os mais humanos dos humanos – nos deixaram na arte, na música, nas letras, na poesia, nos romances.
Holden, a personagem criada por Salinger em O Apanhador no campo de centeio, é um colegial que procurou a conversa com o Prof. Antolini porque se encontrava confuso, desnorteado e, principalmente, revoltado com o estado de coisas na sociedade em que vivia. A conversa foi ficando, para Holden, cada vez mais pesada, mesmo assim, o Professor deu-lhe uma dica preciosa antes de despedi-lo. Um conselho para poder sobreviver no meio daquela sociedade que Holden já detestava:
(...) você vai descobrir que não é a primeira pessoa a ficar confusa e assustada, e até enjoada, pelo comportamento humano. Você não está de maneira nenhuma sozinho nesse terreno, e se sentirá estimulado e entusiasmado quando souber disso. Muitos homens, muitos mesmo, enfrentaram os mesmos problemas morais e espirituais que você está enfrentando agora. Felizmente, alguns deles guardaram um registro de seus problemas. Você aprenderá com eles, se quiser. Da mesma forma que, algum dia, se você tiver alguma coisa a oferecer, alguém irá aprender alguma coisa de você. É um belo arranjo recíproco. E não é instrução. É história. É poesia” (SALINGER, 1951, p. 184).
É isso que a Literatura pode proporcionar. Ficar enjoados com o comportamento humano quando é execrável. Ficar revoltados com o comportamento humano quando é injusto. Ficar enjoados, ficar revoltados e confusos e assustados e, ao mesmo tempo, saber que muitos outros homens já se sentiram assim, enjoados como nós, tristes como nós, assustados como nós. Mas é desse sentimento e dessa certeza que brota a força e a coragem para ir além, muito além da máscara de realidade (dura, concreta, “real”) que fomos construindo ao longo da Modernidade, muito além disso para tomar as decisões, para dar o passo e sonhar e, como Hamlet, tentar colocar o mundo nos seus eixos ou, como Romeu, enfrentar quaisquer dificuldades, pelo amor de Julieta.
(...) A Literatura, de fato, força o leitor a cair em si. Permite enxergar o concreto, o real circunstanciado, na sua simultânea concretude fática e universalidade abstrata. Lendo um livro, apaixonando-nos por Julieta, ou por Romeu, ou por Ana Karenina ou por Liévin, aprendemos não o que é o amor em sua conceituação abstrata, mas o que é amar, na sua realidade mais real, e complexa, e difícil e, por isso mesmo, mais desafiadora e atrativa. Lendo um livro, captamos não o que é o conceito de homem, mas o que ele é no seu existir, na sua complexidade, na sua insuficiência, nas suas carências e contingência. Parece-me que a Literatura permite encontrar os ossos e a carne dos conceitos. Dá-nos a circunstância, a complexidade, a ambiguidade, a cor e a textura do real. Dá-nos tudo aquilo que o conceito abstrato nos esconde e teima em fazer-nos acreditar que não existe – a tensão de uma espera, a ansiedade de uma procura, as lágrimas de uma derrota, a alegria inexprimível de um encontro – quando, na verdade, isto é que dá o tom e o sentido humano da vida.
É aí que entra a Literatura, como uma barca no meio do oceano. A Literatura ensina-nos algo que nenhuma outra disciplina nos ensina, e que o Prof. Antolini dá como último conselho a Holden: 
“Você começará a conhecer as suas medidas exatas, e vestirá a sua mente de acordo com elas” (SALINGER, 1951, p. 185). É disso que se trata: encontrar nossas medidas.
Não há receitas prontas e universais para todos e cada um. Não há planos prontos à espera de uma aplicação rigorosa e exata. Não há um peso e uma única medida que conserte o mundo em que vivemos. Há muitas formas e maneiras de ser e viver humanamente e a Literatura introduz-nos nessa pluralidade complexa da vida humana, onde cada um aprende, ou não, a conhecer suas medidas. Cada um as suas. Cada um de nós, que entra na vida cheio de sonhos, de paixão e de entusiasmo, não pode ser engessado pelo sistema técnico, racional e instrumental, tem de encontrar o espaço de liberdade necessário para encontrar as próprias medidas. Isso só é possível no encontro com as Artes e, especificamente, com a Literatura.
A Literatura é uma barca no oceano da vida. Se estivermos dispostos a embarcar, acabaremos encontrando-nos com Hamlet e Ofélia, e com o Quixote e Dulcinéia; com Ulisses e Penélope ou com Aliocha e Gruchenka, e entenderemos mais um pouco (só mais um pouco, e nunca tudo, porque é realmente impossível) sobre “a maneira de ver o próximo e si mesmo, de atribuir valor às coisas pequenas ou grandes, de encontrar as proporções da vida, e o lugar do amor nela, e sua força e seu ritmo, e o lugar da morte, a maneira de pensar ou não pensar nela e outras coisas necessárias e difíceis como a rudeza, a piedade, a tristeza, a ironia e o humor”.
Sei que estou repetindo as palavras de Ítalo Calvino, já citadas algumas páginas atrás, mas é que me parecem extremamente necessárias e importantes. O conhecimento que a Literatura nos dá da vida é pequeno, porém, insubstituível. A vida é também uma barca no oceano, mas se nos empenharmos em navegar sozinhos, o único que encontraremos, ao voltar a vista atrás, serão as “estelas en la mar”, como dizia o poeta espanhol Antonio Machado[1]. Não há um Manual pronto que nos ensine a viver a própria vida. Não há um “Aprenda a viver a vida em cinco semanas”.
Se for assim, como é que se aprende a viver? Aprende-se a viver vivendo e isso é, ao mesmo tempo, prazenteiro e doloroso, doce e amargo, suave e duro. Aprende-se a viver vivendo cada dia, com seus grandes ou pequenos momentos, intimamente, refletindo no que se apresenta a nós, para dar-lhe uma resposta sincera e bem-intencionada, e voltando a refletir sobre essa experiência, e sofrendo, se for necessário. Ninguém está livre de ser marcado dolorosamente, de ter feridas em carne viva, que podem cicatrizar rápida ou muito lentamente.
Se ocuparmos o nosso lugar nessa imensa barca que é a Literatura, experimentaremos ânsias, medos e esperanças de muitas personagens, sentiremos as ondas e as calmarias nas travessias das suas vidas. Saberemos que não estamos sós em tudo aquilo que as pessoas à nossa volta parecem não nos acompanhar e teremos descoberto que a vida não é um problema a resolver, antes, parece-se mais com uma grande peça teatral em que estamos convidados a atuar, porque somos do elenco principal.


[1] O poema de Antonio Machado, Cantares, contém os versos: “Y al volver la vista atrás/ se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar/Caminante, no hay camino, sino estelas en la mar”, que podemos traduzir por: “E ao voltar a vista atrás, vê-se o caminho que nunca se voltará a pisar. Caminhante, não há caminho, apenas esteiras no mar”.


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