domingo, 29 de maio de 2016

9. CONSERVAR A CALMA E O DOMÍNIO DE SI MESMO

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.



9. CONSERVAR A CALMA E O DOMÍNIO DE SI MESMO

São precisos tanto mais calma e autodomínio em educação quanto o ritmo da criança, é diferente do que assinala o adulto. Além disso, perdida em seu sonho interior, a criança não compreende à primeira vista o que dizeis. Se vossa voz é demasiado forte ou estridente, o seu aparelho auditivo só registra sons destituídos de significação. Agitada, ralhada, sacudida, a criança perde o pouco de controle que tem de si mesma, afoba-se, torna-se desajeitada, tímida, medrosa. Se tais fatos se repetem com freqüência, arrisca-se a adquirir o famoso complexo de inferioridade que dela fará um vencido pela vida ou um revoltado.
• Quando a criança se aplica a fazer o melhor que pode, convém deixá-la tanto quanto possível entregue ao seu tempo, que normalmente é mais longo do que o do adulto, para todos os gestos cuja execução exige uma coordenação e uma exatidão que não são inatas. Certos psicólogos já notaram que os “Depressa! depressa! avia-te...” longe de provocar a ação, complicam-na para quem deve cumpri-la, tornando-a de qualquer modo “mais custosa”. 
• Não é sempre fácil conservar a calma. Aos numerosos cuidados pessoais que acabrunham os que têm encargo de família se acrescentam a trepidação da vida moderna, o rápido desgaste dos nervos, sobretudo quando a casa não dispõe mais do que de uma peça precária ou insuficiente.
Todavia, cumpre a todo preço conservar vossa calma. Obtereis dez vezes mais resultados com dispêndio dez vezes menor de energia nervosa. O equilíbrio de vossos filhos, bem como a sua confiança em relação a vós, acham-se em jogo.

• Para conservar vossa calma, persuadi-vos, antes de tudo, de sua importância para vós e para os vossos filhos. Quando vos sentirdes esgotados (e tanto quanto possível não espereis por esse limite extremo), parai ao menos por três minutos. Isolai-vos. Se puderdes, deitai-vos; abandonai-vos; distendei vossos músculos; respirai três ou quatro vezes profundamente; figurai como seríeis se estivésseis calmo; levantai-vos com um sorriso. É fácil verificar que tudo irá muito melhor.
• Na maior parte do tempo, as crianças só enervam porque estão enervadas.
• Salvo a hipótese de mau tempo, cuidai de que vossos filhos tomem ar todos os dias e possam brincar alegremente. Conservar uma criança o dia inteiro fechada num apartamento, é conservar um leão na jaula, é pedir um esforço inumano.
• Não vos esqueçais de que a criança calca, instintivamente, o seu comportamento sobre o que percebe no das pessoas grandes. Se tentamos tranquilizar uma criança que nem sequer sonhou ter medo, ou consolar uma outra que nem imaginou desesperar, criamos nós mesmos o medo ou o desespero. 
 • Uma criança bate com a cabeça e chora. Não se trata de mimá-la além das medidas. Não é caso também de puni-la porque se machucou. O pai ou a mãe, irritados, exclamam por vezes: “É bem feito!” justificando em seguida este juízo: “Não devias correr... podias prestar mais atenção... se fizesses o que te disse não te terias machucado!” Ralha-se com o pobre ente porque se machucou, ou mais exatamente por se estar aborrecido com o fato de ele se ter machucado. A vítima protesta, aliás, contra tanta incompreensão por meio de berros cada vez mais agudos.
• Um amuado, um colérico vê-se sempre desarmado pela calma dos que o cercam. Encerrado na sua própria tolice, não pode decentemente desviar o seu rancor contra ninguém. Não tem outro recurso senão pedir uma trégua honrosa.
Se, ao contrário, sente que os outros se exasperam por sua causa, compreende mais ou menos conscientemente que atingiu os fins e está pronto a recomeçar na primeira oportunidade.
• Não respondais à cólera com a cólera. Podeis exigir que a criança se domine quando vós mesmos não sois disso capazes? Ao contrário, em relação a uma tal criança dai prova de uma calma redobrada. Bater não adianta nada.
• Assim como a calma impõe, o nervosismo superexcita. Os gestos bruscos desconcertam a criança: para ela, uma pessoa grande é, antes de tudo, alguém forte e calmo no domínio de si mesmo. Vendo-a encolerizada a ponto de exceder-se, vendo-a enervada, irritada e... irritante, seu respeito diminui e a autoridade perde a força.
• Genoveva (14 anos) não se entende muito bem com a mãe, e, entre outras coisas, percebe que ela não consegue dominar-se.
Por várias vezes, como sua mãe a esbofeteasse, disse-lhe: “Bate, sei que isto te alivia os nervos!” A mãe via-se obrigada a parar. Resultado: a mãe em questão não tem mais autoridade sobre a filha, a quem não inspira qualquer dose de respeito.
• Já se definiu a calma como “a majestade da força”. Domínio interior, que faz com que só se dê uma ordem importante depois de refletir e em conhecimento de causa, e que permite julgar com maior imparcialidade o que convém ao bem da criança. Domínio externo, transparência do interno, que se lê na serenidade do rosto, do olhar, da atitude, dos gestos, da linguagem. 
• O humor uniforme, o equilíbrio no humor deve presidir aos estudos dos pequenos como dos maiores. Não sacudais a criança, não a cumuleis de ralhos, não a façais viver entre as tempestades e os raios da impaciência. Não griteis a todo instante: “Nunca farás coisa alguma! — Não prestas para nada! — Serás a vergonha da família!” Tempo e vigor perdidos. Em vez de representar esse melodrama, repetir com doçura, incansavelmente, o que a criança não compreendeu. Pois nunca se trata de outra coisa. A criança diz absurdos quando não compreende ou não gosta do que lhe ensinam.[1]
• Se nos dermos ao trabalho de vigiar atentamente, o dia inteiro, nossas atitudes diversas em relação aos nossos filhos, quantas reprimendas inúteis ou excessivas não chegaremos a descobrir? Quantas proibições intempestivas, quanto barulho e quantos gritos... Como são barulhentas as crianças do mesmo modo que os educadores! E dizer que os segundos fazem barulho para impedir que as primeiras o façam!
Levantamos com muita frequência a voz e devemos reconhecei que a maioria das frases que dirigimos aos nossos filhos no transcurso de um dia são ditas em tom elevado, autoritário, irritado, zangado, e que, afinal de contas, em 50% dos casos, poderíamos muito bem haver calado ou falado calmamente.
Porque somos um metro mais altos do que as crianças e devemos baixar os olhos para vê-las, elevamos a voz. Elas, porque devem erguer os olhos para ver-nos, sentem-se impotentes e esmagadas.
Não nos debruçamos com bastante frequência sobre a criança. Falamos-lhe do alto e de longe.
Se tiverdes uma observação a fazer ao vosso garotinho, agachai-vos diante dele de modo a olhá-lo de perto e à mesma altura: notareis que a vossa voz será muito mais doce. Vede o que acontecerá se vos acenderdes de raiva nessa posição.[2]
• Não tendes o direito de perder o controle de vós mesmos. Que jamais os nervos vos dominem. Não ofereçais às crianças o vosso próprio espetáculo quando não fordes mais senhores de vós mesmos. Não há nada como o nervosismo colérico para vos fazer perder o prestígio e a autoridade.
• Para favorecer na criança a conquista do corpo pelo espírito, o adulto não tem muita coisa a fazer. Dar-lhe um pouco de espaço, deixá-la mexer-se, fornecer-lhe material para as suas experiências. Mas o que acima de tudo lho deve ser dado é a calma. Porque o ruído dissipa a fatiga. O silêncio favorece o esforço e conduz ao recolhimento. Nada disso é difícil.
Logo que apreendeu a tarefa da criança, o adulto toma espontaneamente uma atitude de respeito. Habitua-se a falar em voz baixa c a contar as palavras. Evita intervir indiscretamente e impor-se. Não julga mais; compartilha; vem em socorro.
É assim que, na grande obra que se realiza aos olhos do adulto. Este não atribui a si mesmo mérito ou papel principal, mas humildemente se aplica a secundar na criança os esforços de coordenação que, ao tornar-se homem a criança, devem culminar finalmente no triunfo do espírito.[3]


___________________

[1] R. Benjamin. Vérités sur l'Éducation, pág. 107 (Ed. Plon). 
[2] Th. Van Beckhoudt. "Au niveau de l’Enfance”, na revista La Famille. 
[3] Héléne Lubienska de Leval, na revista Éducation.
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