sábado, 2 de junho de 2012

"... triunfem as Vossas chagas nas nossas bandeiras"

Nota do blogue: Segue trechos de um discurso feito pelo Padre Antônio Vieira numa época em que os holandeses haviam conquistado uma parte considerável do Brasil impregnados da heresia do protestantismo. Esses acontecimentos segundo o autor da biografia - João Francisco de Lisboa - excitavam em todos ânimos, sentimentos de terror, então, ordenaram-se preces públicas na Bahia, sendo o Pe. Antônio Vieira o último a pregar.

Saudações,
Letícia de Paula

P.S: É preciso saber compreender esse sermão.


Padre Antônio Vieira

"Não hei-de pregar hoje ao povo, não hei-de falar com os homens, mais alto hão-de subir as minhas palavras; a Vosso peito divino se há-de dirigir o sermão... Olhai, Senhor, que já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos que Vós lhes dais ou permitis: já dizem que, porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus o ajuda, e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece, e somos vencidos... Oh! Não o permitais, Deus meu, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis, não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que destruísseis; por Vós o digo, e pela honra do Vosso santíssimo nome, que tão impudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o pérfido calvinista, dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados, faz argumentos da religião e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua a verdadeira; veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade [...]

"Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as Vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a fé romana, que professamos, é fé, e só ela a verdadeira e a vossa [...]

"Considerai, Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai a quem tirais as terras do Brasil, e a quem dais. Tirais estas terras àqueles portugueses a quem escolhestes entre todas as nações do mundo para conquistadores da Vossa fé, e a quem destes armas, como insígnia e divina singular, vossas próprias chagas. E será bem, supremo Senhor e Governador do universo, que às armas e chagas de Cristo, sucedam aos rebeldes a seu rei e a Deus? [...]

"Imaginemos pois (o que até fingido e imaginado faz horror) imaginemos que vêm a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses; que é que há-de suceder em tal caso? Entrarão por toda a cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo, nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos.

"Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua honestidade: chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs: chorarão os sacerdotes, vendo que as coroas sagradas os não defendem; chorarão inocentes, porque nem a esses perdoará a desumanidade herética. Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras, arrebatarão essa custódia em que agora estais adorado dos anjos, tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes; derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo: e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas, nem às imagens tremendas de Cristo crucificado, nem às da Virgem Maria [...]

"No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e mesmo sendo àqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a Lhe tocar, nem a lhe perder o respeito. Assim, foi e assim havia de ser.

"Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de Vossa mãe, como consentis agora que se Lhe façam tantos desacatos?

Nem me digais, Senhor, que lá era pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a arca do testamento, e só por que Oza a quis tocar, Lhe tirastes a vida [...].

"Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um profeta, se Lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar Vossos santos, lhes ficam ainda braços para os delitos?

"Enfim, Senhor, despojados assim os templos, e derrubados os altares, acabar-se-á o culto divino: nascerá erva nas igrejas como nos campos, nem haverá quem nelas entre... Chorarão as pedras das ruas ... Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam: morrerão os católicos sem confissão nem sacramento: pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão neles os infames nomes de Calvino e de Lutero: beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, e chegaremos a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: Menino, de que seita sois? Um responderá, seu sou calvinista; outro, eu sou luterano. Pois isto se há-de sofrer, meu Deus? Quando quisestes entregar Vossas ovelhas a Pedro, examinaste-lo três vezes, se Vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais desta maneira, não a pastores senão a lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o Vosso rebanho? aos hereges as almas?

Já sei, Senhor, que Vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos [...]"

(Vida do Padre Antônio Vieira por J. F. Lisboa - Clássicos Jackson - páginas.11 à 18)
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