segunda-feira, 18 de junho de 2012

O MELHOR CAMINHO



Por um cartuxo anônimo
Intimidade com Deus


            A fidelidade a certas práticas religiosas não basta para tornar o homem interior. Aquele que merece verdadeiramente este nome não pára de rezar quando a sua boca emudece, nem de louvar a Deus quando tem de falar de coisas indiferentes. O perigo duma regularidade demasiado exterior é pôr limites à vida do espírito e tornar puramente mecânica a expressão da piedade. Quase que não é necessário insistir nisto, visto que o Evangelho nos adverte várias vezes do perigo: «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim» (Mat., XV, 8).

            O que importa na vida espiritual não é o número das orações nem a acumulação das práticas, mas a continuidade de uma fé viva, o abandono generoso de si próprio e a união íntima com Nosso Senhor. O valor das virtudes mede-se pela sua fonte: os nossos atos valem pelas nossas intenções, e desde que estas se elevem constantemente para Deus pela fé, pela esperança e pela caridade, não há nada na nossa existência que não possa ser uma ação de graças, que não dê glória eterna ao Pai. «Nem todo o que diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus; mas o que faz a vontade do meu Pai, que está
nos céus, esse entrará no reino dos céus» (Mat., VII, 21).

            Enquanto não tivermos ouvido o chamamento a uma vida interior, não teremos compreendido bem as palavras de Cristo. E enquanto o nosso coração se contentar com palavras de rotina, quase automáticas, estaremos com certeza muito longe de cumprir o preceito: Amai com todo o vosso entendimento e de todo o vosso coração! É necessário que a nossa vida seja tocada por Ele, e até que a nossa pessoa deixe de nos pertencer para se entregar toda ao amor: a intimação de Deus não pode ter outro sentido. À medida que nos aproximamos de Deus, opera-se uma transformação no nosso ser, que se espiritualiza e se adapta àquilo que ama. Seria um grande perigo para a nossa alma se ela se limitasse a fórmula e gestos convencionais e não explorasse essa parte mais profunda onde Deus a espera. «Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Porque é destes adoradores que o Pai procura. Deus é espírito; e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram (João, IV, 23-24).

            Mais de um caminho se apresenta ao homem que quer caminhar na luz seguindo os conselhos do Mestre. Uns entregam-se a uma vida de penitência, outros procuram o retiro e a solidão, outros ainda sentem-se chamados para a pobreza evangélica: cada um destes meios é adotado e valorizado de maneira especial por certas famílias religiosas. Mas que seria da pobreza, da solidão e até da penitência, se não fossem animadas de uma intenção pura e verdadeiramente divina? Na verdade, podemos abandonar o mundo e os seus prazeres, aprender a renunciarmos a nós próprios e a dominarmo-nos com uma intenção egoísta; não é necessário ser-se cristão para ter qualquer destes ideais: a Grécia e a Índia tiveram heróis do ascetismo filosófico que não se aproximaram sequer da santidade. Nenhuma virtude deve ser despregada, porque o que ocupa o lugar que ficou livre por essa falta de vigilância é sempre uma forma de amor-próprio: o que importa precisamente é não descurar um dever, enquanto estamos cumprindo outro.

            E como o perigo desta parcialidade está espreitando constantemente a nossa vontade imperfeita, precisamos de apoiar a nossa ação, a nossa própria visão dos valores, no ponto mais alto - o mais seguro. É Deus que no-lo indica, felizmente, e nos convida a ele pela boca do Apóstolo: «Aspirai, pois, aos dons melhores. E eu vou mostrar-vos um caminho ainda mais excelente. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E ainda que eu distribuísse todos os meus bens no sustento dos pobres, e entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, nada me aproveita» (I Cor., XII, 31- XIII, 1-3).

            Por mais medíocre que a nossa vida tenha sido até agora e por mais desanimadora que nos pareça a sua recordação, não temos nenhum motivo para pôr de parte este recurso: pelo contrário, é nosso dever pedir à fonte suprema que nos dê as forças que nos faltam, que nos faça voltar o amor eterno. As faltas cometidas nunca devem servir de pretexto para uma timidez da alma, como se o amor de que ela precisa estivesse reservado para almas escolhidas. Na verdade, não é assim que fala o divino Mestre: quando uma pecadora pública ousa banhar-Lhe os pés com as suas lágrimas e enxugá-los depois com os cabelos, toma a sua defesa contra as críticas do Fariseu, homem justo, contudo, e de conduta irrepreensível: «Não me deste o ósculo da paz, e esta, desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés. Não ungiste a minha cabeça com bálsamo; e esta ungiu com bálsamo os meus pés. Pelo que te digo: são-lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou» (Luc., VII, 45-46).

            A caridade deve fecundar toda a nossa vida, é ela que devemos procurar em todas as coisas e deve ser a razão constante das nossas ações. É preciso deixarmo-nos guiar pelo amor para que ele cresça na nossa alma. Ninguém falou de caridade com mais entusiasmo do que o convertido de Damasco, e ninguém se deixou levar mais por ela do que ele próprio, que tão ardentemente desejava a morte libertadora para estar com Cristo. «Porque o amor de Cristo nos constrange, diz ele, pois sabemos que Cristo morreu por todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles» (lI Cor., V, 14-15).

            Deus obrigar-nos-ia quase, pelo poder do Seu amor, a entregarmo-nos a Ele: no entanto, rigorosamente, Ele não exerce pressão sobre a alma, pois criou-nos livres e o amor vive de liberdade.

            A caridade é o laço vivo entre o Pai e o Filho: ela deve ser também o laço que liga as vontades e as inteligências para uni-las a Deus. É um dom inestimável que recebemos no batismo: mal chegamos a este mundo, Deus confere-nos o direito de cidadania no Céu. O Seu Espírito, como uma porta interior, derrama em nós a caridade divina: «O amor de Deus está derramado em nós, diz São Paulo, pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (Rom., V, 5).

            Nós, a quem Deus escolheu para combatermos em Seu nome, não podemos, de maneira nenhuma, contentar-nos em cultivar esta ou aquela virtude: não há nenhuma, seja dito mais uma vez, que não seja necessária. Elas crescem e frutificam à medida que cresce o amor; da mesma maneira perdem o brilho e o valor à medida que a caridade enfraquece. E é isso que o Apóstolo nos faz ver: «Acima de tudo isto, tende caridade, que é o vínculo da perfeição» (Col., III, 14). «Que todas as vossas obras sejam feitas em caridade» (Cor., XVI, 14). O amor não descansa senão quando alcança uma vitória total: como não há-de isto ser verdade, antes de tudo, para o amor infinito que deu tudo e não pode satifazer-se com fragmentos ou restos da nossa capacidade de amar?

            O amor sabe aproveitar todas as ocasiões para tocar o coração do amado: nas horas de alegria, dá graças; nas horas de dor prova a sua fidelidade. A aceitação filial de tudo o que nos cabe, a calma certeza de que nada acontece sem uma intenção da caridade divina para conosco - por mais doloroso que o acontecimento nos pareça -, este consentimento e esta confiança são uma oração constante, graças à qual tudo se vive por amor de Deus. Deste modo, a nossa conduta está de harmonia com o eterno desígnio, «vivemos de acordo com o fundo das coisas».

            Uma intenção recolhida e renovada durante o dia tantas vezes quantas as nossas ocupações materiais no-lo permitam, mantém o nosso coração elevado para Deus: é uma oferta que o mais pobre dos pecadores está à altura de fazer, quando considera a sua miséria. Aos pés da cruz, diante do tabernáculo, nos momentos sagrados que se seguem à santa comunhão, unimo-nos a Jesus nosso amigo, e qualquer que seja a razão que nos afasta dEle, podemos voltar sem demora para Cristo num novo impulso de amor. Percorrendo assim com Ele o caminho da nossa vida, somos levados a compreender melhor a Sua palavra que se resume neste preceito e nesta promessa de amor - como reconheciam, depois de terem caminhado na Sua divina companhia, os discípulos de Emaús: «Não é verdade que sentíamos abrasar-se-nos o coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Luc., XXIV, 32). 
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