terça-feira, 12 de junho de 2012

O FARDO LEVE

Por um cartuxo anônimo
Intimidade com Deus


            A precisão do olhar interior e a clara consciência do que nos é pedido são coisas da maior importância para a alma que se esforça por atingir a perfeição, pois a vontade de nos elevarmos para Deus não tardará a ser destruída pela falta de ânimo, se as perspectivas do progresso espiritual forem falseadas, e elas são-no muitas vezes por causa da importância que se dá às dificuldades, aos obstáculos criados pela natureza, aos conflitos inevitáveis no caminho da ascensão espiritual. É à luz da fé que devemos considerar e pesar os elementos do nosso destino: a realidade, como nos mostrou Jesus Cristo, só nos dá a escolher entre a luz e as trevas, entre Deus, que é o Ser, e o Seu adversário, para quem só pode ficar o nada. Não nos deixam abandonados numa alternativa incerta: não há escolha mais segura nem mais simples do que a do amor. «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o entendimento» (Luc., X , 27).

            Deus oferece-nos a luz e só a luz. «E a nova que ouvimos dele, e que vos anunciamos, é esta: Que Deus é luz e não há nele nenhumas trevas. Se dissermos que temos sociedade com ele, e andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade» (I João, I, 5-6). Esta luz que nos ilumina é o Seu próprio espírito e o Seu amor: é ela que trazemos em nós no tempo e na eternidade. Ela é o fogo que o Filho veio acender na terra, garantindo-nos que o seu único desejo é que Ele «queime e ateie os corações». Se nos entregarmos a esta chama, deixaremos de ser estranhos para Deus, e já não seremos contados no número dos Seus servos, mas sim no dos Seus amigos e confidentes. «Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando. Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo aquilo que ouvi de meu Pai» (João, xv, 14-15).

            Se ouvirmos as palavras de Jesus, não poderemos pecar. Pois o que vive na luz não pode perder-se: Deus serve-lhe de guia. Não porque consideremos a perfeição como nossa, como um bem adquirido. Pelo contrário, temos defeitos e somos extremamente fracos, sabemo-lo melhor do que nunca, pois estamos libertos da mentira que nos trazia iludidos: «Se dissermos que não temos pecado, nós mesmos nos enganamos, e não há verdade em nós. Porém, se confessarmos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar os nossos pecados, e nos purificar de toda a iniqüidade» (I João, I, 8-9).

            O cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo lavou-nos no Seu sangue, santificou-nos e divinizou-nos. «Temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo justo, que é a propiciação pelos nossos pecados» (I João, II, 1-2).

            Se vivermos na verdade, fugimos do pecado e a caridade pura faz-nos sentir a sua urgência. Ter a pretensão de adquirir a intimidade de Deus à custa do próximo não seria mais que uma grosseira ilusão: as palavras de Deus ecoam constantemente no nosso coração atento: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo: nenhum outro mandamento é mais importante do que este» (Mat., XII, 31).

            Amamos o Pai e não podemos deixar de amar nEle o nosso próximo. Quem não ama o próximo, não ama na verdade a Deus, e não tem a vida em si mesmo: e já uma presa da morte. «Se alguém disser: Eu amo a Deus, e odiar o seu irmão, é um mentiroso» (I João,
23, IV, 20). Mas se amamos a Deus e amamos os homens nEle, conhecemos a paz divina: já não há lugar no nosso espírito para a inquietação e a dúvida. Para quem tem fé, estes termos são equivalentes e designam o próprio Deus: a vida é luz e o amor é verdade. Ora a verdade torna-nos livres, e o sol da justiça dissipa as trevas em que a nossa alma enfraquecia, no cativeiro. «Ele libertou-nos do poder das trevas para nos levar para o reino do seu Filho bem-amado» (Col., I, 31).

            A nossa vida torna-se cada dia mais segura na claridade divina. Já não temos medo dos conflitos e dos sofrimentos interiores: protegido por esta paz, o nosso amor expande-se livremente. «Graças a Deus, que nos deu a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, trabalhando sempre cada vez mais na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor» (1 Cor., XV, 57-58).

            É a fé que nos revela este mistério inesgotável, o mistério do amor: somos chamados a viver com Deus numa intimidade mais profunda do que todo o pensamento, pois pertencemos-Lhe por uma escolha eterna. Foi nestes termos que o Filho orou por nós: «Pai, glorifica-me junto de ti mesmo, com aquela glória que tive em ti, antes que houvesse mundo. Manifestei o teu nome aos homens, que me deste do mundo; eles eram teus e tu mos deste, e guardaram a tua palavra» (João, XVII, 56).
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