sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Recolhimento e as grandes atividades humanas - Final

A oração


A terceira belíssima atividade do homem é a oração.

Dizer que, sem recolhimento, não pode haver verdadeira oração, é o mesmo que dizer que, sem câmara escura, não se podem revelar chapas fotográficas.

Se Alexis Carrel chama a oração "a forma de energia mais poderosa que o homem é capaz de gerar", não é para admirar que esta energia só se possa produzir dos grandes reservatórios do recolhimento, escuros, silenciosos, assim como a força e a luz, frutos desses outros reservatórios gigantescos, que quanto mais profundos e silenciosos, tanto mais energias podem desenvolver.

Já na Escritura é tão clara esta verdade, que oração e recolhimento sempre se acompanham, e, não raras vezes, se confundem, como se fora uma coisa só.

Não é sem razão. Pois, em geral, é a dissipação que impede a oração.

Almas, mesmo que puras e humildes, mas distraídas (o que raramente acontece, pois a pureza e humildade são ótimos materiais para o recolhimento) como poderão rezar?

E até mesmo o pecador, no recolhimento, dobra o joelho e fala com seu Deus.

Quantas vezes o vimos, na modelar Penitenciária de S. Paulo, onde a prisão celular absoluta, num regime perfeito de trabalho e de silêncio, isto é, regime de concentração, ao menos exterior, é o mais importante fator de regeneração, pois faz o sentenciado entrar em si mesmo e começar sua vida de oração.

Por que é que o mar nos convida tanto a rezar? assim como a floresta e o campo? E podemos também perguntar, por que é que a cabine de um avião é tão propícia para uma boa meditação? Erraria quem dissesse que é o medo que leva a alma a orar. De modo nenhum. O medo pode produzir, quando muito, uma oração vocal precipitada, não, porém, a oração calma, interior. Esta é fruto do recolhimento, da solidão, ao menos interior.

Com gratidão nos lembramos de nossas freqüentes travessias pelas caatingas requeimadas do nordeste baiano, montado em modesta cavalgadura, longe de toda a comitiva - solidão perfeita, silêncio impressionante - só quebrado às vezes pelo chocalho das cabras peregrinas - não sei se em um claustro se poderá rezar com tanta facilidade assim.

A vida de Carlos de Foucauld, o extraodinário ermitão dos nossos dias no Saara, figura singular de visconde, de oficial, de explorador e escritor, de Marrocos, irmão trapista, servidor desconhecido de convento, e, finalmente, sacerdote de Deus, no deserto sem limites, é um tratado completo, vivo, do que se pode dizer sobre a oração e o recolhimento.

A heróica carmelita de Dijon, Irmã Isabel da Trindade, nas suas notas, cartas e meditações, parece que esgota o assunto - recolhimento - que tem como a mais bela floração, a sua profunda e admirável oração: "Ó meu Deus, Trindade que eu adoro" - obra prima de nossa época, no que concerne à nossa conversação com Deus. Teólogos de renome comentaram largamente esta oração sublime, deixando ainda muito que se escrever. Foi uma alma que compreendeu a fundo o recolhimento teresiano, exterior e interior; essas cavernas silenciosas de abnegação e de gozo.

Sta. Teresinha, ainda muito pequena, já compreendia a necessidade de recolhimento para a oração. Muita vez, escondia-se atrás de, um móvel ou de uma porta, e quando lhe perguntavam o que estava ali a fazer sozinha, respondia uma grande lição, cheia de candura: "Estava a pensar". E todos sabiam que era em Deus e nas coisas de Deus que ela estava pensando.

A oração, todos o sabem, ao menos teoricamente, é uma conversação com Deus - a quem nos dirigimos, a quem ouvimos. Ora, para falarmos, para ouvirmos, necessário é que se faça um tal ou qual silêncio, uma tal ou qual solidão - e esse silêncio e solidão, ainda que mínimos, se chama recolhimento, naturalmente mínimo também. Por isso; diz a Escritura que o Espírito Santo fala em nós com gemidos inenarráveis, para nos mostrar a atenção e delicadeza com que o devemos escutar.

Carrel diz que "a oração é o esforço do homem para chegar até Deus, para pôr-se em comunhão com um Ser invisível, criador de todas as coisas, suprema sabedoria, verdade, beleza e força, pai e redentor da humanidade". Ora, para tudo isso, quem não vê que um trabalho sério é necessário, que consiste, em primeiro lugar, em criar o ambiente quer interior, quer exterior, - que se chama recolhimento ou concentração - para que haja perseverança neste "esforço" e ele alcance o seu resultado.

É verdade que aqui dizemos o que dissemos sobre o estudo, isto é, que este ambiente interior pode ser tão forte e profundo que mesmo no meio de muito movimento e barulho, ele se conserve imperturbável e fecundo. Quantas vezes, vemos edificado, um sacerdote rezando atentamente, o seu breviário, em um bonde ou trem. Não sei que missionário dizia, com graça, que nunca rezava melhor o seu breviário do que em uma movimentada estação de estrada de ferro. E nós o cremos, sem dificuldade. Porque onde o esforço deve ser maior, também maior será a comunicação de Deus Nosso Senhor.

Lembramo-nos, com veneração, de uma cena edificante na grande Catedral de Buenos Aires, por ocasião do Congresso Eucarístico, de 34. Centenas de bispos, sacerdotes, autoridades, esperavam a entrada solene do Sr. Cardeal Pacelli. De repente, um zum-zum passa pelo grande templo. Era o Legado Pontifício que chegava. Todos se levantaram, viraram-se para trás, alguns até subiram nos bancos. Diante de mim, um venerando velhinho rezava imperturbável, de joelhos, o seu terço, alheio a toda curiosidade. Ali estava a imagem perfeita do recolhimento na oração. Depois o soubemos: era o presidente das Conferências Vicentinas de todo o mundo.

De São João Berchmans se conta que rezava com tal recolhimento, principalmente depois da santa comunhão, que os seus confrades jovens e velhos o contemplavam de propósito, para se sentirem mais fervorosos, mais abrasados em devoção.

É tal a união entre a oração e o recolhimento, que este, quando intenso e aquecido pelo amor, se transforma em oração elevada, a que os autores espirituais chamam de "oração de recolhimento", isto é, um estado de quietação da alma na presença de Deus, sem grande esforço, mas com grande fruto para seu aperfeiçoamento e possível apostolado. A oração do recolhimento é a oração da presença por excelência: a alma olha, humildemente, para seu Senhor e o Senhor olha, misericordiosamente, para a alma.

E se há verdadeira pureza, humildade e perseverança, o recolhimento pode levar a alma a estes estados místicos, superiores que Santa Teresa, João da Cruz, Ruysbroek e tantos outros, descrevem com tanta profundeza.

A doutrina do "nada" tão corajosamente exposta pelo doutor carmelitano, não é outra coisa senão a doutrina do recolhimento mais completo e mais heróico; tanto exterior como interior. A alma não procura nada, nada, nada senão a Deus. Nada vê senão a Deus. Nada goza senão a Deus. E só em Deus, vê todas as criaturas.

E se não devemos desejar graças extraordinárias, por que não havemos de nos alegrar com graças que nos unem mais e mais a Deus Nosso Senhor e nEle nos transformam? "Aspirai aos melhores dons", escreve S. Paulo aos Coríntios.

Não digamos que é difícil rezar. Não digamos que é difícil falar com o Rei.

Talvez o que seja, deveras, difícil é entrar em Seu palácio, na sala de audiências.

Ora, o palácio verdadeiro do Rei do céu é a alma humana, por mais modesta, que seja.

Mas esta alma só se acha pelo recolhimento interior, garantido, quanto possível, pelo recolhimento exterior. 

(Recolhimento por D. Fr. Henrique Golland Trindad O.F.M. Bispo de Bonfim, 1945)

P.S: Ver primeira e segunda parte AQUI e AQUI.
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