quarta-feira, 30 de maio de 2012

NOBREZA ESPIRITUAL


Por um Cartuxo anônimo - Intimidade com Deus

            É no mundo do homem, em que tudo lisonjeia os sentidos e a vaidade, que devemos criar uma solidão sagrada, praticar a renúncia e deixarmo-nos despojar de acordo com as exigências da graça. Mas nenhuma perda resulta para nós de tudo isso: de cada vez que renunciamos a uma satisfação aparente, é-nos assegurado um aumento de verdadeiros bens. Os prazeres que o mundo procura são uma decepção constante, gelam o coração e deixam-no vazio diante da morte, enfraquecem o seu instinto de nobreza e privam-no da sua paz, e levam-no muitas vezes ao desespero. Pois este mundo continua surdo à palavra de Cristo e recusa-se a acreditar na verdade que lhe diz respeito, defende-se com a ira contra a alegria de Cristo, contra Deus e contra os seus, cuja sentença receia. «Agora vou para ti; e digo estas coisas estando ainda no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude do meu gozo. Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também eu não sou do mundo» (João, XVIII, 13-14).

            Não é o nosso valor pessoal que nos torna dignos do olhar de Deus: Ele só procura em nós a imagem do Seu Filho, o fruto da Sua paixão e a riqueza que mereceu para nós morrendo por nós. Esta lembrança do amor infinito é, infelizmente, ignorada pela maior parte dos homens, e parece estar perdida para eles. Outros, embora não a desconheçam completamente, só tiram dela um medíocre proveito, porque não penetram em espírito até à sua realidade profunda e só traduzem na sua vida uma parte mínima dela. Teremos nós a coragem de pagar com tão grande ingratidão a generosidade divina?

            Sermos chamados à dignidade de filhos de Deus e termos a possibilidade ilimitada de tirar dos tesouros da Sua graça uma semelhança cada vez maior com o Filho, é um destino que não pode ser comparado com nenhum daqueles que as potências criadas nos prometem. Deus quer comprazer-Se em nós e o Seu desígnio eterno é tornar-nos semelhantes a Jesus. «Porque os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos» (Rom., VIII, 29).

            Não há ninguém que não seja convidado para esta glória: para nela participar, basta seguir fielmente as inspirações da graça, viver interiormente e procurar o essencial, isto é o amor em todas as ocasiões que se nos depararem durante o dia. Não temos nenhuma razão válida para retardarmos o nosso consentimento, para continuarmos a preferir as vozes da natureza e os ruídos do mundo à oração de Cristo. Quem não procura a união com Deus e não mantém com Ele uma relação viva, porque prefere uma pobreza sórdida aos dons mais ricos que o Espírito incita constantemente a aceitar. Deus não afasta nenhum homem da Sua amizade; pelo contrário, insiste com todos de tal maneira, que o Seu convite quase que força as vontades rebeldes, e toda a tragédia das nossas vidas consiste neste desprezo que opomos à generosidade divina. O ambiente frio da ausência de Deus dá-nos um antegosto da condenação eterna: em vez de um céu interior, é um inferno que trazemos dentro de nós, quando o elo se rompeu por culpa nossa. Pois infelizmente temos o poder de asfixiar a semente que foi posta na nossa alma para crescer e dar fruto. Todo o nosso tempo, todas as nossas forças, as nossas faculdades e as nossas capacidades devem ser consagrados a este crescimento da vida eterna. Os objetos e os atos mais insignificantes devem continuar a alimentá-la para que nada se perca da obra de Deus.

            Com efeito, não há nada que não possa e não deva ser santificado pela dádiva, que não possa servir para a glória do amor numa criatura humana unida ao Verbo divino. Não recusemos nada do que nos é pedido para esta vida misteriosa dentro de nós, e vê-la-emos desenvolver-se até a plenitude que ultrapassa todas as palavras. «Até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito, segundo a medida da idade completa de Cristo; para que não mais sejamos meninos flutuantes, e levados, ao sabor de todo o vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro, mas, praticando a verdade na caridade, cresçamos em todas as coisas naquele que é a cabeça, o Cristo» (Efés., IV, 13-15).

            Acontece com a vida interior o mesmo que acontece com a vida vegetal e os cuidados que esta requer: é preciso eliminar todas as excrescências adventícias ou anormais que fariam desviar o seu impulso e ameaçariam o seu fruto. Daí o conselho para visarmos a única coisa necessária, para não nos perdermos no que é meramente acidental. Para levar até à sua plenitude a obra que Deus começou em nós, precisamos de ter uma consciência delicada, que compreenda logo as sugestões de Deus, e uma coragem viril para as seguir sem compromissos. Que seja Deus a única razão profunda e o motivo de todas as nossas ações! Nenhuma autoridade no mundo tem            o direito de nos desviar. Lutaremos sempre para manter a nossa intenção pura e agradável a Deus. «Se o teu olho for simples, todo o teu corpo terá luz» (Mat., VI, 22).

            O Salvador diz que são bem-aventurados os pobres em espírito, que não estão presos às coisas deste mundo, e não querem possuir mais nada senão Ele. Não têm o coração fechado no horizonte duma riqueza terrestre: têm-no aberto para o céu. Não estão à espera dos privilégios dos primeiros lugares, nem das vantagens da fortuna: não procuram parecer grandes aos olhos do mundo, sabem que não são nada diante de Deus, que distribui pelos humildes as suas riquezas e lhes revela os seus segredos. Foi para nos advertir que Cristo proferiu estas ameaças: «Ai de vós, ricos! porque tendes a vossa consolação neste mundo! Ai de vós, os que estais saciados! Ai de vós quando os homens vos louvarem!» (Luc., VI, 24-26).

A renúncia àquilo a que os homens chamam riqueza é uma das primeiras garantias da liberdade interior. Bem-aventurados os que se despojam e se deixam despojar em espírito de fé! A sua pobreza de um dia transformar-se-á em riqueza duradoura e alcançarão a paz. Eles não a trocariam por todos os tesouros do mundo: são as arras da eternidade. «Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus!» (Mat.,V, 12).

Conservarmo-nos voltados para Deus em todas as nossas ocupações não significa, de nenhum modo, abandonar o próximo, ignorar as realidades que nos cercam. O dever mais elevado não exclui a fidelidade às ocupações secundárias; pelo contrário, inspira-a e exige-a. Aqueles cujo espírito se volta para a verdade primária são os que se entregam às tarefas mais insignificantes: encontram nelas o clarão da glória divina, tão puro como nas ocupações que - sem razão - costumam ser consideradas como nobres ou importantes. Ouvem constantemente as palavras de Cristo: «Tudo o que fizeste a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mat., XXV, 40). «E todo o que der a beber um único copo de água fria a um destes pequeninos só a título de ser meu discípulo, na verdade vos digo que não perderá a sua recompensa» (Mat., X, 42).

            O crescimento e o desabrochar da semente divina nas almas fiéis é um espetáculo que os anjos contemplam. Ultrapassa o horizonte dum destino pessoal: ressoa na harmonia dos mundos, a quem esta sagração de uma criatura confere uma nova beleza. Se a história registrasse os acontecimentos segundo a sua importância real, uma alma que se torna filha de Deus ocuparia um lugar muito mais importante do que as coroações e as conquistas. Assim como o pecado perturbou todo o universo, assim também o regresso do homem à intimidade divina restitui à criação a ordem e o brilho perdidos. Um inimigo de Deus que se torna Seu amigo é uma aurora mais luminosa do que a de um novo sol no firmamento. «Os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai» (Mat., XIII, 43).

            Logo que o homem, vivendo da fé, renuncia generosamente a si próprio, fica inundado de luz e transformado pelo amor. Mas primeiro é necessário que à nossa volta o mundo se tenha reduzido ao silêncio, ou pelo menos que a sua voz seja dominada pelo sim e pelo amor da alma que responde à graça divina. É este diálogo interior que dá sentido ao universo e habitua o homem à condição eterna. «Vós já não sois hóspedes, nem adventícios, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efés., II, 19).

            A criatura entra assim na mais íntima relação com o Criador, que Se inclina para ela com terna solicitude para satisfazer os seus desejos. «Conforme a determinação eterna que ele realizou em Jesus Cristo Nosso Senhor, no qual temos segurança e acesso a Deus com confiança, por meio da fé nele» (Efés., III, 11-12).

            O amor não escolhe palavras, exprime-se sem se importar com fórmulas ou convenções: «A boca fala da abundância do coração» (Mat., XII, 34). De resto, quando dois corações que se amam se encontram um com o outro, o silêncio é muitas vezes mais expressivo do que as palavras: traduz melhor a comunicação imediata duma plenitude. Que alegria entregarmo-nos totalmente a Jesus e pertencermos-Lhe sem condições! E que enriquecimento para nós se, recolhendo-nos, soubermos dar lugar ao Espírito de Cristo, num consentimento de todo o nosso ser, numa comunhão muda de alma com alma! É isto que o Mestre espera de nós: quer-nos unidos a Ele com toda a simplicidade, para que o nosso coração no meio das preocupações e dos deveres de estado, não se afaste um só instante da Sua presença. «É preciso orar sempre e não cessar de o fazer» (Luc., XVIII, 1).

            É uma coisa que ultrapassa as nossas capacidades naturais, mas se, ajudados pela Sua graça, cumprirmos fielmente as condições enunciadas no Evangelho de Cristo, podemos estar certos de que Ele Se antecipará aos nossos desejos. Pois Ele tem sede de Se dar e de espalhar o Seu amor sobre os homens, que se mostram tão ingratos para com a caridade infinita e parecem desprezar as Suas tentativas de aproximação. Até mesmo entre aqueles que parecem querer dedicar-se ao Seu serviço de coração sincero, encontramos muitas vezes uma imperfeita consciência das exigências e dos dons do amor: o próprio zelo que os leva à ação parece tornar impossível o calmo abandono em que estabeleceria com Deus uma relação interior, pessoal e viva. Contudo, esta união não poria o mínimo obstáculo à sua atividade, e nada os desculpa de não fazerem caso da fonte mais rica que o Criador fez brotar: Ele quer agir pelas nossas mãos, quer que sejamos instrumentos ao Seu serviço, instrumentos dotados de liberdade e de vida sobrenaturais, na medida em que se prestam à vontade divina. É assim que o homem se realiza e se ultrapassa. «Todos aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus» (Rom., VIII, 14).

            Deixarmo-nos armar cavaleiros de Cristo é entrarmos na família divina: já não estarmos sós, estamos acompanhados pelo céu que trazemos dentro de nós. «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a Ele, e faremos nele morada» (João, XIV, 23).

            Tal é a abundante recompensa que nos traz a fé vivida no amor os horizontes humanos foram ultrapassados; doravante é com Deus que contamos para nos guiar: Ele ilumina os nossos passos e mostra-nos o caminho. A única coisa que precisamos fazer é segui-lO: a noite acabou, a luz da alvorada anuncia-nos o dia eterno. A terra ainda está na sombra, é verdade, mas ela diminui cada vez mais e desaparece ante a pureza da manhã. A própria sombra é testemunha da aproximação da luz que a projeta. A verdadeira luz revelou-se aos nossos olhos e apareceu-nos. «Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós» (João, XIV, 20). 
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