quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Recolhimento e as grandes atividades humanas - 2ª. Parte

O estudo


O estudo, que também é trabalho, se bem que trabalho mental, usufrui os benefícios, incalculáveis do recolhimento fecundo.

Sabem os mestres, perfeitamente, que a distração é a maior inimiga do estudo proveitoso. 

Criar uma atmosfera recolhida para quem estuda é ter realizado já a metade do trabalho, na certeza quase do resultado.

Inesquecível a impressão que nos causou a primeira vez que penetramos, com os nossos dez anos, no grande salão de estudos do saudoso ex-ginásio Conceição, de S. Leopoldo (R. Gr. do Sul) dos Padres Jesuítas: As grandes carteiras pretas, as passadeiras pesadas, as cortinas alvas contra o sol, os quadros, a grande imagem de Nossa Senhora, a dominar tudo; os meninos debruçados sobre os livros, em profundo silêncio, mantido por um prefeito, oh! como tudo convidava à concentração! Nunca me vira em ambiente assim. Não havia remédio: era preciso estudar.

Mais tarde, encontrei a mesma sedução salutar na cela do convento, que, se o lugar de repouso e oração, é também lugar de estudo, onde o recolhimento é, realmente, convidativo.

Um jovem médico, muito estudioso, dizia-me: "como gostaria de viver em convento, mas só... para poder estudar!" Era o ambiente de recolhimento que, de certo, o atraía.

Conta-se do filósofo Balmes que depois de ter lido algumas páginas ou linhas, envolvia a cabeça, em sua larga capa, e, assim, numa posição de recolhimento forçado, meditava, meditava...

Os gabinetes dos homens de estudo têm uma atmosfera peculiar. Ordenados meticulosamente ou em completa desordem (e Afonso Rodrigues, o velho mas querido escritor ascético da Companhia de Jesus, achava linda explicação para as duas situações) nos dão a impressão de uma oficina onde se trabalha de fato. Um rádio ali a gritar, um gênio descontrolado a explodir, uma língua a tagarelar, ficaria tudo isso ali quase tão feio como em uma igreja.

E devia-se bater, com escrúpulo, à porta de uma oficina, assim, silendosa, com medo de perturbar o recolhimento científico que ali reina. 

E quando se fala com um homem que sai dos seus estudos sérios, tem-se a impressão de que ele desce de outras regiões.

"Deus me livre - dizia-nos um estudante, aliás, alegre - morar em uma "república". O meio é de completa dissipação. Quem poderá estudar?"

Rui Barbosa sentenciava, com muita razão, que o que lemos, só se torna nossa propriedade, quando o sabemos assimilar. Ora, para assimilar uma leitura, a concentração ou recolhimento é de primeira necessidade.

É verdade, também, que este recolhimento, pelo domínio da curiosidade e guarda do silêncio, nós podemos levar sempre conosco, em qualquer parte, em um hotel, em um bonde ou trem, em uma praça movimentada, e, ali, isolando-nos de tudo, pelo esforço próprio, gozarmos quase os benefícios de um gabinete ou cela.

Lembramo-nos, de momento, do grande homem de ciência, Padre João Gualberto, em um bondezinho de Petrópolis, ou do nosso acadêmico Tristão de Ataíde, em um carro da "Leopoldina", engolfados em sua leitura, que nós, tanta vez, procuramos imitar nos ônibus movimentados de Ipanema e Copacabana. Ao último perguntamos, certa vez, o que lera, com tanto interesse, do qual nada o distraíra, do Rio a Petrópolis: fora um tratado árido de um filósofo espanhol.

Outra vez, é mais recente o caso, um alto funcionário federal que viajava na Leste, Baía-Joazeiro, enquanto todos bebiam, sofregamente, as últimas novidades dos jornais do dia, ele lia atentamente um livro de feição severa; depois o soubemos, era um livro de meditações. Como é bonito!

Em todos esses casos, era o recolhimento, fruto do esforço próprio no meio do torvelinho, que tornava possível e frutuoso o estudo, a leitura.

E não sabemos de que jovem ferreiro árabe se conta que aprendeu quantidade considerável de línguas recolhendo-se intensamente sobre seus livros, durante os minutos em que o ferro se incandescia.

Não há dúvida, o recolhimento é para o estudo e para a leitura séria o que o ar é para a vida: atmosfera própria das grandes cogitações. 

(Recolhimento por D. Fr. Henrique Golland Trindad O.F.M. Bispo de Bonfim, 1945)

P.S: Continuará com o post: A oração.
P.S2: Ver primeira Parte AQUI.
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