sábado, 2 de abril de 2011

O terceiro Pilatos – O medo

O terceiro Pilatos – O medo


Não se deve perder de vista durante essas laboriosas negociações o coração de Jesus Cristo. De pé, sempre atado, digno e silencioso, o Mestre lá está que tudo segue e tudo aguarda: que íntima tortura! Continua Ele a assistir à Sua progressiva decadência; cada minuto fá-lO descer. E, inversamente, a cada minuto Ele vê subir a onda popular que vai arrebatá-lO. Ao lado dEle agita-se aquele só que O pode salvar: esse tem apenas uma palavra a dizer, mas esta palavra ele não a ousa dizer. E Jesus tem pena, cala-Se; e, nesse silêncio profundo, pensa em todos os Pilatos do futuro; Há-os públicos, há-os secretos.

Os públicos são todos os chefes de Estado que podem sustar o mal, entravar a perseguição: sob o pretexto de não haverem sido eles que fizeram a lei, varrem se si a responsabilidade. – Lava as tuas mãos, Pilatos, elas ficarão limpas, mas a nódoa está no fundo da tua alma, e aí ficará. A lei feita sem ti não podia ser executada sem ti. Tu não tinhas feito a lei que condenava Jesus à morte, e, todavia Ele não morreu senão por tua causa.

Os Pilatos secretos somos nós em face da tentação, cedendo terreno de minuto em minuto diante do Barrabás vergonhoso que se ergue entre nós e Jesus. Non hunc, sed Barabbam. Qui potest capere capiat.

Se alguém teve de curtir uma cruel decepção, foi o Procurador quando ouviu a exclamação de todo aquele povo em delírio. Uma espécie de despeito apoderou-se dele: não terá ele então meios de sair-se daquilo? Reponta esse despeito nesta palavra que ele lança ao populacho:

- Que quereis então que eu faça de Jesus?

Foi então que prorrompeu como espontaneamente e pela primeira vez este brado de morte:

- A cruz! A cruz!

Pilatos pareceu revoltar-se. Zurziu os Judeus que vociferavam com esta apóstrofe mordaz:

- Eu crucificar o vosso Rei?
-A cruz! A cruz! Respondeu a multidão.

O Romano fez como se não ouvisse. Volveu então ao seu projeto de cruel flagelação; sem dúvida, a vista do sangue apaziguaria a populaça.

- Vou mandar flagelá-lo, exclamou; é tudo o que vos posso conceder, porque, em verdade, repito-vo-lo pela terceira vez, não acho nada nele que mereça a morte.

E mandou flagelá-lO; sabemos como os algozes se desobrigaram, e em que estado reapareceu A vítima.

Ao primeiro olhar lançado sobre Ela, Pilatos esperou que chegaria finalmente a tudo salvar. Que cólera, que ódio subsistiria ante Aquele farrapo sangrento?

Ai! Ele não sabia que o sangue embriaga os que o vêem correr. Ignorava que a sua covardia descendente o pusera de nível com aquele povo, até mais baixo do que ele, e que, embora falasse do alto do terraço, ele é quem agora estava dominado pela plebe.

- Eis o homem! Exclamou ele.

Equivalia a dizer-lhes:

- Estais satisfeitos agora? Acreditai bem que já lhe não dará a fantasia de se proclamar Rei. Vede: eis o homem!

Os soldados haviam-se rido grosseiramente no pátio interior quando O entrajavam com o manto escarlate e O coroavam irrisoriamente de espinhos. Pilatos esperava que o ridículo entrajo de Jesus O salvaria, e que Este poderia sair das suas mãos definitiva e moralmente morto pelas chacotas e pelos riso. Porém a multidão já não ria. Mercê dos sacerdotes e dos anciãos, chegara a esse grau de bestialidade em que já se não diverte com caretas, frangalhos sangrentos e pauladas; até o sangue que escorre sob os flagelos já não bastava para ela: já não a fazem rir quando ela reclama a morte.

Há neste brado tremendo: À morte! que sai de milhares de peitos, uma superioridade sinistra que esmaga todas as vontades contrárias e aniquila todos os bons desígnios. À morte, ululava a plebe, e escandia esse brado – temo-lo ouvido depois nas nossas revoluções múltiplas, - bem decidida a não cessar de gritar enquanto não obtivesse aquela cabeça.

Pilatos balbuciava em vão algumas palavras que a populaça não ouvia mais. O tumulto crescia.

- A cruz! A cruz! À morte!
- Mas é o vosso Rei, tentou gritar o procurador.
- Não, o nosso Rei é César, redargüiam os sacerdotes que se conservavam na primeira fila.

- A cruz! A cruz! Continuava a uivar a multidão ao fundo, desdobrando e ampliando cada vez mais a sua sombria linha invasora.

- Mas Ele nada fez de mal, repetia desesperadamente o Romano, atestando uma vez mais a inocência de Jesus.

- Disse-se Filho de Deus, bradaram os sacerdotes; a nossa lei é formal nesse ponto, por causa disso ele deve morrer.

Filho de Deus! Finalmente o grande agravo era apresentado. Eles não tinham ousado até agora proferi-lo; pediam a morte para O agitador, a morte pela recusa do imposto, a morte para o louco que se dizia Rei: tudo isto, aos olhos de um homem judicioso e calmo, não justificava semelhante pena.

Desmascaravam-se finalmente: a morte para O blasfemador, pois se disse Filho de Deus.

A estas palavras, Pilatos tremeu. E por que, em verdade? Ia ele crer na divindade dAquele ente escorchado, tiritante diante dele? Não se sabe, mas de repente ei-lo que entra, manda trazer Jesus à sua presença, argúi-lo insistentemente... não conhecemos tudo o que foi dito entre aqueles dois entes a sós, face a face, o homem podendo salvar o Deus, e o Deus querendo certamente salvar o homem. O que sabemos é que, ao cabo daquela conversa solitária e misteriosa, Pilatos saiu absolutamente decidido a livrar Jesus. Exinde quaerebat Pilatus dimittere eum. Enfim ele vai ser mais firme e falar como senhor.

Tudo era, pois, novamente posto em questão. Era o nó antes do supremo desenlace.

Não há dúvida alguma que Pilatos deve ter manifestado essa intenção. Quaerebat. Procura, quer, forceja, está decidido. Simultaneamente fraco e violento, ia balançado de uma borda à outra, conforme o impulso. Agora está na borda da coragem.

Compreenderam-nos os sacerdotes e os anciãos. Acaso vai tudo escapar-lhes?

Jogam então o seu último e poderoso trunfo: e, pegando-se do título de Rei com que Jesus se adornava e que Pilatos só fazia relembrar-lhes, adiantam-se insolentemente:

- Se não o condenas (logo, Pilatos estava novamente indeciso), não és amigo de César. Quem quer que se diz Rei opõe-se a César.

Sabia-se o que queria dizer esta palavra: opor-se a César; César não sofria contradições e chamava-se Tibério.

É certo que esse Tibério estava na mole e voluptuosa Capri, bem longe... Mas os delatores estavam em toda parte, e um aceno do amo, mesmo de longe, como outrora a varinha de Tarquínio, fazia tombarem todas as cabeças.

Num minuto Pilatos viu repassarem todos os antigos quadros e a temível intervenção do imperador.

Volveu à borda da fraqueza; agarrou-se-lhe desesperadamente, e largou tudo o mais.

Ensurdecido pelos clamores, bestificado por aquela luta sem desfecho, sentindo todo o esforço fazer-lhe perder terreno, fatigado – desculpado talvez aos seus próprios olhos – por aquelas tentativas infrutíferas: Tradidit voluntati corum, fazei dele o que quiserdes, exclamou com um gesto timorato e descoroçoado. Mas, - e foi este como que o indigno consolo dado em último pábulo à sua consciência, - mas ele é inocente, e eu serei inocente, eu, da morte deste justo, e dela lavo as mãos, e vós respondereis por esse sangue e por essa morte, vós.

Deplorável restrição, lastimáveis palavras, quando uma só se lhe pedia, a única que ele devia dizer e que só ele podia dizer: Não quero.

Assim se epilogou, ao fim de quatro horas, esse drama de violência e de covardia.

E agora Cristo se vai, está condenado, está tudo em ordem, tudo deve estar justo: o Procurador assinou. Ele próprio escreveu a grandes traços na prancheta de madeira: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. É o crime, parece; poderia ter posto: Filho de Deus; teria sido igualmente verdadeiro. E ele acaba de lavar as mãos repetindo: “Sou inocente da morte deste homem”.

Sim, pensa-o ele, talvez; porém, até o fim dos séculos e para além, não se crerá tal, e repetir-se-á: Passus sub Pontio Pilatos, crucifixus, mortuus est. Creio em Jesus Cristo que padeceu sob Pôncio Pilatos e morreu crucificado.

Et nunc, reges, intelligite, erudimini qui judicatis terram. E agora, reis e juízes da terra, compreendei e aproveitai (Sl. 2,10).

(A subida do Calvário, pelo Padre Luís Perroy. S. J.; 3ª Edição; editora Vozes, 1957, continua com o post: Jerusalém)

PS: Grifos meus.
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