quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Da indiferença que devemos praticar no que respeita ao nosso adiantamento nas virtudes


Deus ordenou fazermos tudo o que pudermos para adquirir as santas virtudes: nada esqueçamos, pois, para sermos bem sucedidos nesta santa empresa. Mas, depois que houvermos plantado e regado, saibamos que a Deus é que cabe dar o crescimento (I Cor 3,6) às árvores das nossas boas inclinações e hábitos. É por isso que da Sua divina providência é que devemos esperar o fruto dos nossos desejos e trabalhos. De modo que, se não sentirmos tal como quereríamos o progresso e adiantamento dos nossos espíritos na vida devota, não nos perturbemos, fiquemos em paz, reine sempre a tranqüilidade nos nossos corações. A nós compete cultivar bem as nossas almas, e portanto é preciso cuidar fielmente disto. Mas quanto à abundância do fruto e da messe, deixemos o cuidado disto a Nosso Senhor.

O lavrador nunca será repreendido se não tiver bela colheita, mas sim se não houver lavrado, e semeado bem as suas terras. Não nos inquietemos de nos vermos sempre noviços no exercício das virtudes; porque no mosteiro da vida devota cada um se considera sempre noviço, e nele toda a vida é destinada à prova, não havendo aí sinal mais evidente de ser não somente noviço, mas digno de expulsão e reprovação, do que se pensar e se ter por professo; porquanto, segundo a regra dessa ordem, não é a solenidade, e sim o cumprimento dos votos, que torna os noviços professos. Ora, os votos nunca são cumpridos enquanto há alguma coisa a fazer para a observância deles; e a obrigação de servir a Deus e de fazer progressos no Seu amor dura sempre até à morte.

Mas no entanto, dir-me-á alguém, se eu conheço que é por minha culpa que meu adiantamento nas virtudes é retardado, como poderei deixar de me entristecer e de me inquietar? Eu disse isto na Introdução à vida devota; mas repito-o de bom grado, porque isto nunca pode ser bastante dito. Devemo-nos entristecer pelas faltas cometidas, com um arrependimento forte, sossegado, constante, tranqüilo, mas não turbulento, não inquieto, não desanimado. Conheceis que o vosso retardamento no caminho das virtudes é proveniente de vossa culpa? eia pois, humilhai-vos perante Deus, implorai a Sua misericórdia, prostrai-vos ante a face da Sua bondade, e pedi-Lhe perdão da vossa culpa, confessai a vossa falta, e pedi-Lhe misericórdia ao ouvido mesmo do vosso confessor, para lhe receberdes a absolvição; mas, feito isto, ficai em paz, e, tendo detestado a ofensa, abraçai amorosamente a abjeção que está em vós pela demora de vosso adiantamento no bem.

Ai! meu Teótimo, as almas que estão no purgatório lá estão sem dúvida pelos seus pecados, que elas detestaram e detestam supinamente: mas, quanto à abjeção e dor que lhes ficam de estarem detidas naquele lugar e privadas por um tempo do gozo do amor bem-aventurado do paraíso, elas as sofrem amorosamente, e pronunciam devotamente o cântico da justiça divina: Justo sois, Senhor, e equitativo é o Vosso juízo (SI 77, 37).

Aguardemos, pois, com paciência nosso adiantamento; e, ao invés de nos inquietarmos por termos feito tão pouco avanço no passado, procuremos com diligência fazê-lo mais no futuro.

Vede, rogo-vos, essa boa alma: ela desejou grandemente e procurou libertar-se da cólera, coisa em que Deus a favoreceu, pois a libertou de todos os pecados que da cólera procedem. Ela morreria de preferência a dizer uma só palavra injuriosa, ou desferir um só dardo de ódio. Sem embargo, ainda está sujeita aos assaltos e primeiros movimentos dessa paixão que são certos ímpetos, impulsos e arrancos do coração irritado, a que a paráfrase caldaica chama frêmitos, dizendo: Fremi; e não queirais pecar, onde a nossa sagrada versão disse: Irai-vos, mas não pequeis (SI 4, 5), o que efetivamente é uma mesma coisa: pois o profeta não quer dizer senão que, se a ira nos surpreender, excitando em nossos corações os primeiros frêmitos da cólera, resgardemo-nos bem de nos deixar levar mais avante nessa paixão, visto que pecaríamos. Ora, se bem que os primeiros ímpetos e frêmitos absolutamente não sejam pecado, não obstante a pobre alma que deles é acometida com freqüência perturba-se, aflige-se, inquieta-se, e pensa fazer bem entristecendo-se, como se fosse o amor de Deus que a provocasse a essa tristeza; e no entanto, Teótimo, não é o amor celeste que faz essa perturbação, pois ele não se molesta senão pelo pecado; o nosso amor-próprio é que quereria fôssemos isentos da pena e do trabalho que os assaltos da ira nos dão. Não é a culpa que nos desagrada nesses ímpetos da cólera, pois aí absolutamente não há pecado; é a pena de lhes resistir que nos inquieta.

Essas rebeliões do apetite sensual, tanto na ira como na cobiça, são deixadas em nós para nosso exercício, a fim de praticarmos a valentia espiritual resistindo-lhes. É ao Filisteu que os verdadeiros Israelitas devem sempre combater, sem que jamais possam abatê-lo; podem enfraquecê-lo, mas não aniquilá-lo. Ele nunca morre senão conosco, e conosco vive sempre; de certo ele é execrável e detestável, porquanto é saído do pecado e ao pecado tende perpetuamente. É por isso que, assim como nós somos chamados terra, porque somos extraídos da terra, e nos tornaremos em terra (Gn 3, 19), assim também esta rebelião é chamada pecado pelo grande Apóstolo, como proveniente do pecado e tendente ao pecado, embora absolutamente não nos torne culpados senão quando a secundamos e lhe obedecemos (Rom 7). Donde o mesmo apóstolo advertir-nos de fazermos de modo que esse mal não reine em nosso corpo mortal para lhe obedecer às cobiças (Rom 6, 12). Ele não nos proíbe sentir o pecado, mas somente consentir; não ordena que impeçamos o pecado de vir a nós e de estar em nós, porém manda que ele não reine em nós. Ele está em nós quando sentimos a rebelião do apetite sensual; mas não reina em nós senão quando consentimos nele. O médico nunca ordenará ao febricitante não ter sede, pois seria uma impertinência muito grande; mas dir-lhe-á, sim, que se abstenha de beber, ainda que tenha sede. Jamais se dirá a uma mulher grávida, que não tenha vontade de comer coisas extraordinárias, pois isto não está em seu poder; mas dir-se-lhe-á, sim, que refreie seus apetites, a fim de que, se forem de coisa prejudicial, desvie deles a imaginação, e tal fantasia não lhe reine no cérebro.

O aguilhão da carne, mensageiro de Satanás (2 Cor 12, 7), picava rudemente o grande São Paulo para o fazer precipitar no pecado. O pobre apóstolo sofria isso como uma injúria vergonhosa e infame, e era por isso que lhe chamava uma bofetada (Ib.) e achincalhe, e pedia a Deus lhe aprouvesse livrá-lo dele; porém Deus lhe respondeu: Ó Paulo, minha graça te basta, pois minha força se aperfeiçoa na enfermidade: e, aquiescendo a isso, esse grande homem diz: Portanto, de bom grado me gloriarei nas minhas enfermidades, a fim de que a virtude de Jesus Cristo habite em mim (Ib. 9).

Mas, notai, por favor, que a rebelião sensual está nesse admirável vaso de eleição, o qual, recorrendo ao remédio da oração, nos mostra que por esse meio devemos combater as tentações que sentimos. Notai ainda que, se Nosso Senhor permite essas cruéis revoltas no homem, nem sempre é para puni-lo de algum pecado, mas para manifestar a força e virtude da assistência e graça divina; e notai, enfim, que não somente não nos devemos inquietar nas nossas tentações nem nas nossas enfermidades, mas devemos gloriar-nos de sermos enfermos, a fim de que a virtude divina apareça em nós, sustentando a nossa fraqueza contra o esforço da sugestão e tentação; pois o glorioso apóstolo chama as suas enfermidades os ímpetos e brotos de impureza que ele sentia, e diz que se gloriava nelas, porque, embora as sentisse por sua miséria, contudo pela misericórdia de Deus nelas não consentia.

Certamente, como eu disse mais atrás, a Igreja condenou o erro de certos solitários que diziam que neste mundo nós podíamos perfeitamente ser isentos das paixões de ira, de cobiça, de temor e outras semelhantes. Deus quer que tenhamos inimigos, Deus quer que os repilamos. Vivamos, pois, corajosamente entre uma e outra vontade divina, sofrendo com paciência sermos assaltados, e tratando, com valentia, de fazer frente e resistência aos assaltantes.

(Tratado do Amor de Deus por São Francisco de Sales, páginas 459 a 463)

PS.: Grifos meus.
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