domingo, 29 de maio de 2011

VI- TERCEIRA PALAVRA: JOÃO E MARIA

VI- TERCEIRA PALAVRA: JOÃO E MARIA


Assim, toda a vida passada de Jesus reconstitui-se aos pés da Cruz nas recordações comovidas e agitadas dos assistentes. Maria, Madalena, o próprio ladrão, a se dar crédito à piedosa lenda que faz desse ladrão um miraculado de Cristo no deserto, na estrada do exílio quando a Sagrada Família fugiu para o Egito: - outras tantas testemunhas do passado. Todas as santas mulheres que O seguiram pelos caminhos da Galiléia e da Judéia, e que lá estão, ao longe, também devem repassar as recordações de outrora, sobretudo a hora do seu primeiro encontro com o Cristo; as palestras familiares, à tarde, ao frescor cadente da noite, debaixo das grandes figueiras, dos opulentos sicômoros, ou através dos eloendros que beiram as margens encantadoras de Tiberíades: o Mestre gostava tanto de ali pregar a Sua nova e insólita doutrina!

Tudo revive, por conseguinte, aos olhos deles, e essas múltiplas imagens formam uma auréola de glória, de amor e de saudade em torno do Semblante lânguido do Senhor.

Estava ainda lá, com as três Marias, Salomé, a mãe ambiciosa dos filhos de Zebedeu, Tiago e João: como ela também não havia de se lembrar da hora em que, tomada de uma pretensão bem perdoável às mães, se abeirava do Cristo no caminho, dizendo-Lhe: - Mestre, quero pedir-Vos uma coisa. – Oh, que é? – Já que sois Rei, sobretudo já que o ides ser, fazei que meus dois filhos, João e Tiago, se assentem no Vosso Reino um à Vossa direita e outro à Vossa esquerda. – Ó mulher, não sabeis o que estais pedindo. O Meu Reino, mas vede-lhe as insígnias hoje: o trono, uma cruz; a coroa, espinhos; as jóias, o Meu sangue que borbota; o Meu título está pregado lá em cima, lede-o; e os que estão a Minha direita e à Minha esquerda, dois crucificados como Eu. Não, em verdade não sabeis o que pedis. João e Tiago, sois capazes de beber no Meu cálice? – Sim, Senhor. – Sim?... mas este cálice é fel, vinagre, são as lágrimas que Me escorrem dos olhos, é a cólera de Meu Pai, é o desprezo dos homens, é o abandono dos Meus. E bebereis tudo isto? Oh! não sabeis o que estais pedindo. O bom ladrão mendigar-Me-á uma simples lembrança, bem longe de reclamar lugares de escolha; e há de ter a lembrança e há de ter o lugar.

Todo o que se exaltar será humilhado, e todo o que se humilhar será exaltado.

Como todos estes pensamentos, como todos esses longínquos quadros deviam vir flutuar em torno de Salomé, mormente quando ao lado daquele Jesus moribundo, desconsiderado e escarnecido, ela avistava de pé seu filho João! Ele lá estava sozinho.

E o outro, Tiago? aquele que pedia também um lugar junto ao Rei e afirmava poder beber no mesmo cálice? Fugiu, esconde-se; João está só, e era o mais moço.

E também este, naquele cimo ensangüentado, deve pensar nos dias antigos, e as suas recordações comovidas escrevem uma página da vida passada do Mestre.

A hora do primeiro encontro impõe-se-lhe amorosamente à memória, porque há sempre que tornar a esse instinto do coração que, em face do ser amado, amesquinhado, rebusca avidamente as primeiras imagens do seu primeiro amor.

João pensa, assim, naquelas margens do Jordão onde o Precursor batizava no meio dos compridos caniços afilados e das moitas de tamargueiras que beiravam o rio. Naquele dia do primeiro encontro, o Batista estava sozinho naquelas margens tão frescas e contrastarem violentamente com a planície arenosa de Jericó, talada como um leito de torrente enxuto. Estava só com dois discípulos, André de Betsaida e João filho de Salomé e de Zebedeu, pescador, como André, no lago de Genesaré.

São quatro horas da tarde, o ar está mais tépido, o sol vai sumir-se para as bandas de Jerusalém, por trás dos montes da Quarentena.

Súbito, faz-se ouvir um ruído de passos; João Batista se volta: é Jesus. A Sua alva figura sobressai através das folhagens.

- Eis o Cordeiro de Deus, murmura o Batista.

André e João apreenderam essa palavra escapada ao Precursor, deixam-no e põem-se a seguir timidamente Jesus que caminha na frente.

Em dado momento, o Cristo se volta.

- Que quereis? Perguntou-lhes. – Mestre, saber onde morais. – Vinde e vede.

Aonde os conduziu Ele? A que retiro? A Jericó? Mais além, para o lado do Mar Morto? Ou na direção da fonte de Eliseu? Não o sabemos, mas sabemos que eles ficaram com Ele todo o resto do dia; sabemos também que, no dia seguinte ao dessa entrevista, André, encontrando-se com seu irmão Simão, dizia-lhe: - Encontramos o Messias. E sabemos mais que, há algum tempo daí, passando Jesus por diante da barca de João e de Tiago, os dois irmãos que pescavam com seu pai Zebedeu, o Mestre diz: - Vinde e segui-Me.

Assim foi feito. João estava capturado. Lembrava-se dessa captura deliciosa, e também do quanto entrara depois na intimidade do Senhor, a ponto de repousar a cabeça no Seu peito, quase rosto contra rosto. E hoje, que mudança! Sobretudo quando, contemplando aquele Semblante conspurcado e desdourado, revia-o nas suas lembranças brilhantes como o sol, no cimo do Tabor.

No lugar daqueles dois ladrões havia então Elias e Moisés: o céu falava, o Cristo rutilava, alvejara-se-Lhe a veste de uma alvura de neve... e agora, naquela escuridão crescente do Calvário, João já não via senão três agonizantes que estertoravam em três cruzes.

Evidentemente devia operar-se-lhe uma subversão no espírito: ele não compreendia, não apreendia o porquê de tantos sofrimentos.

Nem nós, tampouco, compreendemos na nossa vida a causa misteriosa das provações que nos acabrunham: faz-se mister uma luz mais alta do que a da nossa razão. Creiamos, porém, que isso é justo, que isso é bom, que isso é glorioso para Deus. Este ato de fé é a única luz que sobrevive a muitas sombras, e que brilha através dos destroços esparsos da nossa pobre vida...

Nesse ínterim, o céu se velava cada vez mais de trevas inexplicáveis: foi nesse momento, foi no meio do desconcerto que naturalmente devia causar esse fenômeno, que subitamente Jesus chamou por Sua Mãe:

- Mulher, diz Ele docemente, Mulier...

Não estaquemos ante a frieza aparente de um termo que em realidade e na língua do lugar é um termo de respeito e de veneração afetuosa.

“Ele chama por Sua Mãe, diz Santo Ambrósio, porque a Sua ternura de Filho devia este último testemunho a semelhante Mãe”. (Epístola à Igreja de Verceil).

Que frêmito não deve ter sacudido todo o coração de Maria! Como Ela Se aproximou da Cruz, quase a colar os lábios aos membros de Seu querido Filho, estendendo os braços para cima, e mais ainda toda a Sua alma!

- Mulher, Mãe!... é o último apelo dos moribundos. Aqueles que assistem; testemunhas contristadas, às agonias dos hospitais, aos últimos estertores do ferido nos campos de batalha, surpreendem-se de ouvir brotar, nos extremos delírios, como um grito lancinante, esse doce nome de mãe. É um clamor desesperado ao ente a quem mais havemos querido. Quando o homem sente que tudo lhe vai fugir, por um derradeiro instinto volve-se então para aquele que nunca abandona porque sempre amou, e chama: Minha mãe!

Naquele espírito que soçobra só há um semblante que sobrenada a tudo o mais: minha mãe! E é como que uma invencível esperança de que essa mãe reclamada vencerá todos os obstáculos e todas as distâncias, para vir uma última vez beijar aquela fronte que empalidece e aqueles lábios que morrem...

“Santa Maria, Mãe de Deus e mãe nossa, rogai por nós pecadores, agora, mas, sobretudo na hora da nossa morte”.

Eu compreendo esta oração, ela é feita para mim, ó meu Deus; e nesse último apelo ao coração tão bom de minha Mãe do céu eu saberei por tudo quanto minha alma ainda conservar de ternura e de súplica.

- Mulier, Mulher, Mãe, dizia, pois Jesus, esse será doravante o Vosso filho!... e indicou João com o olhar.

- Eis aí Vosso Filho em Meu lugar, ó Mulher, em Meu lugar, ó Mãe!...

E, volvendo para o discípulo a quem amava os olhos dolorosos, murmurou:

- Eis aí vossa Mãe.

E, isto dizendo, reengolfou-Se num grande silêncio.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: o grande silêncio.)
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