domingo, 5 de agosto de 2012

A Misericórdia Insondável

Nota do blogue: Acompanhe este Especial AQUI.

Por um cartuxo anônimo
Intimidade com Deus



            «Quem, como Deus?» Em várias passagens das Escrituras - na divisa do arcanjo que há-de vencer Lúcifer, e num salmo de louvor, - encontramos esta pergunta, de certo modo ociosa, visto que tem de ficar sem resposta. Grito de admiração e desafio, ela marca o ponto mais alto do pensamento, que não pode ser ultrapassado: é um grito de lucidez para acordar a nossa alma. 
«Bendito seja o nome do Senhor, desde agora e para sempre!
Desde o nascer do sol até ao seu ocaso, é digno de louvor o nome do Senhor!
Excelso é o Senhor sobre todas as nações, e a sua glória está acima dos céus: Quem, como o Senhor, nosso Deus, que habita nas alturas?»
(Salmo CXIII, 2-5) 
            Nada pode medir a distância entre a natureza divina e a nossa, e o espírito não conhece nenhuma estrada que a transponha. O homem não pode elevar-se até ao céu, por mais que tente fazê-lo. Esta divinização de si próprio que lhe é sugerida pelo inimigo no Éden - «Sereis como deuses» (Gén., III, 5) -, leva-o à terrível queda cujas conseqüências ainda não deixaram de se fazer sentir sobre nós. E, no entanto, aquilo que nós não podemos fazer nem propriamente esperar, é-nos revelado pela Providência divina como sendo a vontade de Deus: «O que é, pois, o homem para que vos lembreis dele, o filho do homem, para que penseis nele?» (João, III, 19). Com efeito, a alma não ultrapassa os seus limites, mas Deus desce até ela: «E ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu» (João, III, 13.)

            Deus vem até nós para solicitar a nossa amizade e para nos fazer tomar parte na Sua glória. Toma a forma do homem pecador; a Santidade assume misteriosamente as nossas faltas: «ele não cometeu pecado, nem se encontrou engano na sua boca; quando o amaldiçoavam, não amaldiçoava; sofrendo, não ameaçava, mas entregava-se àqueles que o julgavam injustamente; foi ele mesmo que levou os nossos pecados em Seu corpo, sobre o madeiro, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por Suas chagas fostes sarados» (I Pedro, 11, 22-24).
            Foi assim que, na Sua suprema humilhação, nos deu a possibilidade de nos tornarmos semelhantes a Ele. Não fomos nós que demos o primeiro passo para nos aproximarmos dEle, foi Ele que o deu para se aproximar de nós. «Não fostes vós que me escolhestes; eu é que vos escolhi a vós» (João, V, 16). Humilhou-Se para nos exaltar, fez-Se pobre para nos tornar ricos. «A caridade de Deus consiste nisto: em não termos sido nós os que amamos a Deus, mas em que Ele foi o primeiro que nos amou a nós, e enviou o Seu Filho como vítima de propiciação pelos nossos pecados» (I João, IV, 10-19). Amemos a Deus nós também, porque Deus nos amou primeiro.
            Despojou-Se da Sua glória para nos revestir dela; derramou o Seu sangue para no-lo dar. Morreu para que nós vivêssemos e participássemos da natureza divina, e pôs-Se a Si próprio em último lugar: «Eu porém sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe» (Salmo XXII, 7). Deixou que O insultassem, flagelassem, que O coroassem de espinhos e crucificassem, para expiar, à custa de sofrimentos sobre-humanos da alma e do corpo, a nossa sensualidade e o nosso orgulho. A Sua vida foi cortada como a de um malfeitor, para podermos ter no céu uma morada eterna. Dá-nos continuamente provas da Sua amizade e do Seu amor para que encontremos nelas a nossa felicidade. Mostra-nos o Seu coração aberto para acabar com todas as nossas dúvidas: é com estranha insistência que somos chamados por esta caridade divina, diante da qual continuamos tantas vezes, silenciosos e frios, o nosso caminho. «Meu filho, dá-me o teu coração» (Sab. XXIII, 26).
            Com provas tão evidentes, Deus obrigar-nos-ia por força a acreditar no ardor do Seu amor por nós, se o amor próprio não nos tapasse a vista, como se fosse a parede dum cárcere. «É preciso que seja levantado o Filho do homem, a fim de que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna » (João, III, 15). Ele faria conosco o pacto da mais perfeita intimidade, se nós quiséssemos ouvir a Sua voz e amá-lO acima de tudo. Porque Ele quer dar-Se sem reservas e receber por inteiro o nosso coração. «E eu, uma vez elevado da terra, ei de atrair tudo a mim» (João, XII, 32).
            Ele cuidará de nós com mais ternura do que a mãe que tem um filho doente, se Lhe dermos a nossa inteira confiança. «Descarrega sobre o Senhor os teus cuidados, e Ele te sustentará» (Salmo LIV, 23). Ele bem nos disse, e disse-o sem rodeios, que não somos nada, que nenhum fruto nascerá de nós, senão na medida em que estivermos em comunhão com Ele. Mas é a Sua própria obra que de opera em nós, é a Sua vida que nos dá vida quando O recebemos, para dar o fruto puro e perfeito que é o louvor do Pai. «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos os que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus, àqueles que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus» (João, I, 11-13).
            «Ficai em mim que eu ficarei em vós». Este apelo de Cristo contém todos os Seus mandamentos e todas as Suas promessas, - oferece-nos o céu cá na terra. O Verbo arde no desejo de Se unir a nós: foi por isso que Se fez homem, que sofreu e derramou o Seu precioso sangue; foi por isso que morreu abandonado do Pai: para nos arrancar das nossas trevas e levar-nos à glória da verdade. Foi por isso que orou durante a Sua vida terrena, e por isso é que é hoje o nosso intercessor junto do Pai e nos dá o alimento da Sua carne e a bebida do Seu sangue. «O que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que vive me enviou e eu vivo pelo Pai, assim o que me comer a mim, esse mesmo também viverá por mim» (João, VI, 57-58).
            É por isso que Ele derrama no nosso coração a torrente da Sua graça; inunda-nos de riquezas incalculáveis cujo valor infinito somos incapazes de avaliar: ficaríamos cegos se levantássemos uma ponta do véu que as esconde aos nossos olhos. Sentir-se-ia imensamente consolado no Monte das Oliveiras - é o que nos indica a Sua queixa - se tivesse encontrado fé, uma fé mais profunda e mais pura, nos Seus eleitos; esta consolação ainda hoje Lhe é recusada por aqueles que O conhecem mas não O reconhecem e não aceitam as Suas palavras com aquela plenitude de sentido que Ele lhes deu, e para sempre. «Pai, quero que onde eu estou, estejam também comigo aqueles que me deste, porque me amaste antes da criação do mundo» (João, XVII, 24). 
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