sexta-feira, 27 de julho de 2012

Um prefácio muito interessante...

Nota do blogue: Criança é muito movida pelas paixões, por isso existe grande risco da criança se perverter ainda na infância mesmo não chegando a tal "idade da razão" (sete anos), por exemplo: tire um brinquedo da mão de uma criança de um ano e veja o escândalo que ela faz. E ao mesmo tempo em que ela é movida pelas paixões ela tem um vigor e facilidade muito grande em aprender, mesmo no campo espiritual, por isso a importância da educação dada pela mãe (em primeiro lugar, pois é a que mais fica com a criança e recebeu de Deus dons para essa honrosa missão) no âmbito físico, intelectual, moral e espiritual. A criança será o que a mãe quer que ela seja -- assim dizia um grande educador moralista -- e para isso requer paciência, atenção, psicologia infantil, exemplo, vontade de ser santa e tempo, e por saber disso a Igreja que é Mãe e Mestra sempre ensinou que a mulher foi feita para o lar, ela é comparada a "uma lareira" (Mons. Landriot), pois que aquece, ilumina e traz aconchego para a família, justamente o que a sociedade feminista e comunista não prega. 

Letícia de Paula

A Mãe segundo a vontade de Deus


       Nenhuma pessoa há, por mais inteligente e instruída que seja, que possa racionalmente dispensar-se de volver a atenção para os seus deveres, comparando freqüentes vezes e muito a sério, o que é com o que devia ser. É no esquecimento do dever que nascem os grandes males. A arte de bem viver aprende-se, praticando-se; mas não se pode praticar convenientemente, se o espírito a não meditar e aprofundar. Quantas vezes ouvimos dizer: «Ô! se eu pensasse, não fazia isso, se soubera o que me veio a acontecer, teria procedido doutro modo»? - E porque não pensastes a tempo; para evitardes um arrependimento tardio e talvez inútil?
            Porque o orgulho, a vaidade, o capricho e o amor próprio se meteram, de permeio. É necessário, pois, que cada um, no seu estado e condição, procure compenetrar-se bem dos deveres que tem a cumprir, e veja o modo como os cumpre. Todos nós devemos caminhar para um mesmo destino sobrenatural, mas por diversos caminhos, conforme o papel que temos de representar cá na terra, segundo o plano da Providência. Basta fixarmos os olhos na sociedade, para em breve descobrirmos até que ponto se estende a influência que nela exercem as mães de família. Abalanço-me a dizer que para regenerar a sociedade só duas coisas eram necessárias: bons pastores no meio das paróquias e boas mães no seio das famílias com estes dois fatores não haveria dificuldades que se não vencessem.

            É-me sempre grato registrar o aparecimento de um livro que possa contribuir para a grande obra da educação doméstica e social. Quando li o nome de Berthier no frontispício desta obra - A Mãe segundo a vontade de Deus - recordei-me do prazer com que há anos lera três excelentes tratados do mesmo autor, e desde logo ajuizei do valor da obra.
            Como, porém o editor português me pedia a minha humilde opinião, entendi que não devia dá-la sem primeiramente ler o livro. Agora posso afirmar que encontrei, na leitura desta prestimosa obra, a confirmação plena do subido conceito que já formava do seu autor: é um livro excelente, em que as mães de família têm muito que aprender. Mas encontrará ele o acolhimento que merece? Não haverá muitas mães que se recusem a recebê-lo, pelo fato de já se considerarem bastante instruídas nos seus deveres? É de crer que sim.
            Nunca somos tão pequenos como quando nos levantamos nas asas do orgulho, para passarmos por grandes. A soberba é inimiga da sabedoria; quem presume que não necessita de aprender, está muito mal disposto para começar a instruir-se. Demais, é sabido que a ignorância voluntária não exime de responsabilidade e a fraqueza do nosso espírito exige que repassemos com freqüência aquilo mesmo de que já temos conhecimento.
            Por outro lado a educação é essencialmente prática; encontra resistências que é necessário vencer. Nem todas as crianças se podem educar pelo mesmo processo, assim como, nem todos os terrenos se podem fertilizar com a mesma cultura.
            Ora, se nenhuma arte se exerce bem sem aprendizado, como será possível que uma mãe, sem ciência nem experiência, saiba encaminhar pela senda do bem as criancinhas que Deus lhe confia? «O fim da educação moral, diz Pérez; é desenvolver e disciplinar, em ordem à consecução do maior bem individual e social, as forças inatas que determinam o homem a obrar»
            À semelhança do agricultor que arranca o joio e fomenta o desenvolvimento do trigo, assim o educador há de favorecer na criança a evolução das tendências boas e comprimir as más. Para isto requere-se um grau de instrução que as mães de família entre nós raríssimas vezes possuem. Bem vindas sejam, pois, todas as publicações que tendam a levantar o nível da nossa educação moral. Um bom livro que se lança no meio de um povo é um dique que se opõe contra a onda do vicio. «Parece provado, diz Martin, que a má literatura pode mais na ordem do mal, do que a boa na esfera do bem».
            À vista disto, grande obra deve ser o atacar as más leituras e divulgar as boas. Estas duas vantagens conseguem-se há um tempo, propagando livros como - A Mãe segundo a vontade de Deus.
            É mui intima a aliança que prende as mães aos filhos: a sorte deles depende delas, mas a salvação delas também até certo ponto depende deles, isto é da educação que lhes legarem. Somos em geral o que nossas mães quiserem fazer de nós: bons ou maus, amantes da virtude ou dados ao vicio, conforme a educação que recebemos na infância. É doutrina corrente entre os grandes pedagogistas que todos os caracteres são susceptíveis de se modificarem, sob o influxo assíduo duma disciplina bem orientada. «Não posso fazer nada de meus filhos, dizem muitas mães, são irascíveis e desobedientes, não fazem caso das minhas advertências».
            Não podeis? É verdade que não podeis agora? Sim, porque desde o berço criastes os vossos meninos com todo mimo; deixastes crescer e multiplicar os cardos e as silvas, onde devíeis cultivar flores e frutos. Agora começais a doer-vos com a dura impressão dos espinhos, que devíeis ter arrancado ou quebrado; quereríeis antes gozar agora dos frutos que não semeastes. Começa a ser amargurada a vossa vida, mas isso não é o pior; depois da vida vem a morte, depois do tempo abre-se a eternidade: como vos defendereis diante de Deus?
            Mal com os vossos filhos, que não vos respeitam, mal com Deus que há de castigar as nossas negligências, - para onde apelareis? Terrível situação! Mais, olhai para o mundo, e vede os grandes males que ocasionais â sociedade: plantastes árvores estéreis e nocivas; os vossos filhos, a quem não legais o patrimônio de uma boa educação, serão pais e as vossas filhas serão mães à vossa imagem e semelhança, calculai, se podeis, as lágrimas, as dores, os infortúnios de que sois causa.
            Morrereis raladas de desgostos e cruciadas de remorsos; mas os vossos filhos, os vossos netos, os vossos descendentes continuarão a pecar em vosso nome. A vossa maldade não morre; continua ainda a perpetuar-se cá na terra com abominável incremento, nessas vítimas infelizes que vós imolastes ao demônio. Pobres criaturas!
            Se ao menos tivessem sido arrastadas à desgraça por um inimigo estranho, ou por um amigo fingido, haveria menos razão para lhes lamentar a sorte; mas vê-las cair no abismo, arrojadas pelo braço de suas próprias mães - é duro, é cruel é diabólico, ó mães!
            Ide bater às portas das penitenciárias, chamai à vossa presença um dos maiores facínoras que aí esteja expiando os, rigores da justiça humana, perguntai-lhe os seus crimes e comparai-os com os vossos, pesai as culpas, medi as responsabilidades e vede em fim quem é que rouba mais almas a Deus, quem é que acarreta maiores males sobre a sociedade!
            Praza a Deus que os escritores católicos, os oradores sagrados e os diretores de almas consagrem à educação moral a importância que ela merece!

Foz do Douro, Dia de Todos os Santos de 1898.
Padre Manuel Marinho


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