domingo, 15 de julho de 2012

SOBRE OS PERIGOS DO TECNICISMO pelo Papa Pio XII


            Muitos, deslumbrados pelo efêmero esplendor dos ideais e das obras humanas, circunscrevem o olhar aos limites do criado, incapazes de levantá-lo ao Criador, princípio, harmonia e fim de tudo o que existe.

Þ    O PROGRESSO TÉCNICO

            A estes homens em trevas desejamos convidar, antes de mais nada, a reconhecerem a causa que hoje os cega e torna insensíveis ao que é divino. Não é senão a exagerada e, algumas vezes, exclusiva estima do chamado "progresso técnico". Este, primeiramente sonhado como mito onipotente e manancial de felicidade, e depois levado com toda sorte de recursos até às mais audazes conquistas, impôs-se às consciências como fim último do homem e da vida, substituindo-se portanto a qualquer espécie de ideais religiosos e espirituais. Hoje, vê-se com clareza cada vez maior que a sua indevida exaltação cegou os olhos dos homens modernos, tornou surdos os seus ouvidos, a ponto de se verificar neles o que o Livro da Sabedoria flagelava nos idólatras de seu tempo: são incapazes de reconhecer através do mundo visível Aquele que é, de descobrir pela obra o artista. Muito mais hoje - para aqueles que caminham nas trevas - permanecem envolvidos em absoluta obscuridade o mundo do sobrenatural e a obra da Redenção que transcende toda a natureza e foi levada a termo por Jesus Cristo.

Þ    VEM DE DEUS E CONDUZ POR SI A DEUS

            No entanto não se devia verificar tal extravio; e estas Nossas censuras não hão de ser entendidas como reprovação do progresso técnico em si mesmo. A Igreja ama e favorece os progressos humanos. É inegável que o progresso técnico vem de Deus; pode e deve, portanto, conduzir a Deus. O crente admira as conquistas da técnica, serve-se delas para penetrar mais profundamente no conhecimento da criação e das forças da natureza, que procura dominar com máquinas e instrumentos, a fim de reduzi-las ao serviço do homem e ao enriquecimento da vida terrena. Ao fazer isto sente-se como arrastado a adorar o Doador daqueles bens que admira e utiliza, sabendo bem que o Filho eterno de Deus é o "primogênito de todas as criaturas, pois nele foram feitas todas as coisas nos céus e na terra as visíveis e as invisíveis".

Þ    A TÉCNICA MODERNA NO APOGEU DO ESPLENDOR E DO RENDIMENTO

            A técnica, de fato, conduz o homem hodierno a uma perfeição nunca antes atingida no domínio do mundo material. A máquina moderna permite um modo de produção que substitui e multiplica a energia humana do trabalho. Este liberta-se inteiramente da contribuição das forças orgânicas e assegura um máximo de potencial extensivo e intensivo, e ao mesmo tempo um máximo de precisão. Abraçando com um olhar os resultados dessa evolução, parece-nos colher da própria natureza o assentimento satisfeito a tudo quanto o homem nela operou e o incitamento a que proceda ulteriormente na investigação e utilização de suas extraordinárias possibilidades. Ora, é evidente que toda pesquisa e descoberta das forças da natureza efetuadas pela técnica, resultam em procura e descoberta da grandeza da sabedoria, da harmonia de Deus. E deste modo considerada a técnica quem a poderá desaprovar ou condenar?
             
Þ    O PERIGO DE QUE ELA OCASIONE GRAVE DANO ESPIRITUAL

O "espírito técnico"

            No entanto parece inegável que a mesma técnica, levada no nosso século ao apogeu do esplendor e do rendimento, se transforma por circunstâncias de fato em grave perigo espiritual. Diríamos que dá ao homem moderno, inclinado diante do seu altar, um sentido de auto-suficiência, e de satisfação plena de suas aspirações de conhecimento e de poder sem limites. Com o seu múltiplo emprego, a absoluta confiança que suscita, as inexauríveis possibilidades que promete, a técnica moderna desenvolve, em torno do homem contemporâneo, visão tão vasta que leva muitos a confundi-lo com o próprio infinito. Atribui-se-lhe, por conseqüência, uma autonomia impossível, que por sua vez se transforma, no pensar de alguns, em errada concepção da vida e do mundo, que se designa com o nome de "espírito 'técnico". Mas este, em que consiste exatamente? Em se considerar como o mais alto valor humano e da vida tirar o maior proveito das forças e dos elementos da natureza; em se colocarem como fim, de preferência a todas as outras atividades humanas, os possíveis métodos técnicos de produção mecânica, vendo neles a perfeição da cultura e da felicidade terrena.

Þ    TENDE A RESTRINGIR A MATÉRIA O OLHAR DO HOMEM

            Há, antes de tudo, erro fundamental nesta falseada visão do mundo, originada pelo "espírito técnico". O panorama, à primeira vista sem limites, que a técnica desvela aos olhos do homem moderno, reduz-se, por mais extenso que seja, a um aspecto parcial da vida, no conjunto da realidade, visto exprimir apenas as relações desta com a matéria. É assim um panorama alucinante, que vem afinal a encerrar o homem - demasiado crédulo na imensidade e onipotência da técnica - numa prisão vasta mas limitada, e portanto, com o tempo, insuportável ao seu genuíno espírito. O olhar, bem longe de prolongar-se através da realidade infinita, que não é só matéria, sentir-se-á oprimido pelas barreiras que esta necessariamente lhe opõe. Daqui provém a recôndita angústia do homem contemporâneo, tornado cego por se ter voluntariamente circundado de trevas.

Þ    TORNA-O CEGO AS VERDADES RELIGIOSAS

            Quando se deixa embriagar pelo "espírito técnico" bem mais graves são os danos que o homem sofre no setor das verdades propriamente religiosas e nas relações com o sobrenatural. O evangelista São João alude também a essas trevas, que o Verbo de Deus encarnado veio dissipar. Impedem a compreensão espiritual dos mistérios de Deus.
            Não que a técnica, em si mesma, leve a renegar os valores religiosos, por força da lógica; esta, como dissemos, conduz antes a descobri-los. Mas esse "espírito técnico" põe o homem em condição desfavorável para procurar, ver e aceitar as verdades e os bens sobrenaturais, A mente, que se deixa seduzir pela concepção da vida ditada pelo "espírito técnico", fica insensível desinteressada e, portanto, cega diante das obras de Deus, de natureza completamente diversa da técnica, como são os mistérios da fé cristã. E o próprio remédio - que consistiria num redobrado esforço para estender o olhar para além da barreira das trevas e para estimular na alma o interesse pelas realidades sobrenaturais - é inutilizado logo de início pelo mesmo "espírito técnico". Este, com efeito, torna os homens incapazes de reconhecer a extrema instabilidade e superficialidade do nosso tempo. Tal defeito devem necessariamente reconhecê-lo como uma das suas conseqüências aqueles mesmos que aprovam verdadeira e sinceramente o progresso técnico. - Os homens impregnados do "espírito técnico" dificilmente encontram a calma, a serenidade e a interioridade requeridas para poderem reconhecer o caminho que leva ao Filho de Deus feito homem. Esses chegarão pelo contrário a denegrir o Criador e a sua obra, declarando construção defeituosa a natureza humana, por a capacidade e ação do cérebro e dos outros órgãos, necessariamente limitada, impedir a realização de cálculos e projetos tecnológicos. - Estão ainda menos aptos para compreender e estimar os altíssimos mistérios da vida e da economia divina, como o mistério do Natal, em que a união do Verbo Eterno com a natureza humana põe em jogo realidades e grandezas bem diferentes das consideradas pela técnica.
            O pensamento deles segue outros caminhos e outros métodos, dominado pela unilateral sugestão daquele "espírito técnico" que não reconhece, nem aprecia como realidades senão o que pode exprimir-se em relações numéricas e cálculos utilitários. Julgam assim decompor a realidade nos seus elementos, mas tal conhecimento fica à superfície e move-se numa direção apenas. É evidente que o homem, adotando o método técnico como único instrumento da investigação da verdade, deve renunciar a penetrar, por exemplo, as profundas realidades da vida orgânica e, mais ainda, as da vida espiritual, as realidades vivas do indivíduo e da sociedade humana, por não poderem decompor-se em relações quantitativas. Dum espírito assim conformado como se poderá pretender assentimento e admiração diante das imponentes realidades a que fomos elevados por Jesus Cristo, mediante a sua Encarnação e Redenção, a sua Revelação e a sua Graça? - Prescindindo mesmo da cegueira religiosa que deriva do "espírito técnico", o homem, quando possuído por ele, é diminuído no seu pensamento, nisso precisamente que o torna imagem de Deus. Deus é inteligência infinitamente compreensiva, ao passo que o "espírito técnico" faz tudo para coarctar no homem a livre expansão da inteligência. - Ao técnico, mestre ou discípulo, que pretende salvar-se desta diminuição, não basta simplesmente profunda formação intelectual, mas é sobretudo necessária formação religiosa. Esta, ao contrário do que se tem por vezes afirmado, é a mais apta para proteger o seu pensamento contra influências unilaterais. Então desaparecerá a estreiteza do conhecimento; então a criação há de aparecer iluminada em todas as dimensões especialmente quando se esforçar diante do presépio por compreender "qual é a largueza, o comprimento, e a altura e a profundidade, e o conhecimento da caridade de Cristo". Em caso contrário, a Idade técnica realizará a sua monstruosa obra-prima de transformar o homem num gigante do mundo físico, à custa do espírito reduzido a pigmeu do mundo sobrenatural e eterno.

Þ    A INFLUÊNCIA DO "ESPÍRITO TÉCNICO" NA ORDEM NATURAL DA VIDA DOS HOMENS MODERNOS E NAS RELAÇÕES RECÍPROCAS ENTRE ELES

            Mas não fica por aqui a influência exercida pelo progresso técnico, uma vez que seja acolhido na consciência como coisa autônoma e como fim em si mesmo. Ninguém deixa de ver o perigo dum "conceito técnico da vida", que está em considerar a vida exclusivamente pelo lado dos valores técnicos, como um elemento e fator técnico. A sua influência repercute-se tanto no modo de viver dos homens modernos, como nas recíprocas relações entre eles.
            Olhai-o por um momento em atividade no meio do povo entre o qual já se difunde, e notai em especial como alterou o conceito humano e cristão do trabalho, e que influência exerce na legislação e na administração. O povo acolheu favoravelmente, e com razão, o progresso técnico, porque diminui o peso do esforço e aumenta a produtividade. No entanto, é preciso confessar que, se tal sentimento não se mantém nos devidos limites, o conceito humano e cristão do trabalho sofre necessariamente prejuízo. Do mesmo modo, do inexato conceito técnico da vida, e portanto do trabalho, deriva considerar-se o tempo livre como fim em si mesmo, em vez de o olhar e utilizar como justo alívio e restabelecimento, ligado essencialmente ao ritmo da vida ordenada, na qual repouso e trabalho se alternam num tecido único, e se integram numa só harmonia. - Mais visível é a influência do "espírito técnico" aplicado ao trabalho, quando se tira ao domingo a sua dignidade singular - como dia do culto divino e do repouso físico e espiritual para os indivíduos e para as famílias - e ele se reduz, em vez disso, a um dia de folga como outros no decurso da semana. Estes podem até ser diferentes para cada membro da família, quando se espera obter maior rendimento de tal distribuição técnica da energia material e humana. Igual influência se verifica quando o trabalho profissional está de tal maneira condicionado e sujeito ao "funcionamento" da máquina e dos instrumentos, que arruína rapidamente o trabalhador, consumindo-lhe um ano de exercício da profissão a força de dois ou mais anos de vida normal.

Þ    NA DIGNIDADE PESSOAL DELES, NA ECONOMIA GLOBAL

            Renunciamos a expor com mais vagar como este sistema, inspirado exclusivamente em vistas técnicas, ocasiona, ao contrário do que se esperava, desperdício de recursos materiais e também das principais fontes de energia - entre as quais é preciso incluir sem dúvida o próprio homem, - e como por conseqüência esse sistema deve vir a revelar-se peso dispendioso para a economia global. Não podemos todavia deixar de assinalar a nova forma de materialismo que o "espírito técnico" introduz na vida. Bastará citar que ele a esvazia do seu conteúdo, porque a técnica é ordenada para o bem do homem e do complexo dos valores espirituais e materiais que respeitam à sua natureza e à sua dignidade pessoal. Onde, porém, a técnica dominasse autônoma, a sociedade humana transformar-se-ia numa multidão incolor, em qualquer coisa de impessoal e esquemático, contrária portanto ao que a natureza e o seu Criador mostram querer.

Þ    ... E NA FAMÍLIA

            Sem dúvida grandes partes da humanidade não foram ainda atingidas pelo chamado "conceito técnico" da vida; mas é de temer que, onde quer que penetre sem reservas o progresso técnico, cedo se manifeste o perigo das deformações indicadas. E pensamos com particular angústia no perigo que ameaça a família que na vida social é o mais sólido princípio de ordem pois consegue suscitar, entre os seus membros, inúmeros serviços pessoais que se renovam cotidianamente, e consegue ligá-los com vínculos de afeto à casa e ao lar, além de que desperta em cada um o amor da tradição familiar na produção e na conservação dos bens de uso. - Onde, porém penetra o conceito técnico da vida, a família afrouxa o laço pessoal da sua unidade, perde o calor e estabilidade. Não permanece unida senão quando exige a produção em massa, para a qual se corre com insistência cada vez maior. Já não temos a família como obra de amor e refúgio de almas mas apenas como desolado depósito; ou de mão-de-obra para a produção, ou de consumidores dos bens materiais produzidos, segundo peçam as circunstâncias.

Þ    O "CONCEITO TÉCNICO DA VIDA" FORMA PARTICULAR DO MATERIALISMO

            O "conceito técnico da vida", portanto, não é outra coisa senão forma particular do materialismo, enquanto oferece, como última resposta à questão da existência, uma fórmula matemática e de cálculo utilitário. Por isso o desenvolvimento técnico de hoje, como se tivesse consciência de estar envolto em trevas, manifesta inquietação e angústia, que notam especialmente os que se aplicam febrilmente em procurar sistemas sempre mais complicados e arriscados. Um mundo assim guiado não pode dizer-se iluminado da luz nem animado da vida, que o Verbo, esplendor da glória de Deus veio comunicar aos homens, ao fazer-se homem (1).

(I) Alocução, Sacro Colégio, 24 de dezembro, 1953.

***

No princípio da história da Igreja, durante o Império de Trajano, Santo Inácio de Antioquia escreveu um pensamento que fascina até os espíritos modernos, como a descoberta de um tesouro de experiência, duas vezes milenar: "Nos tempos em que é odiado pelo mundo, o cristianismo não é questão de palavras persuasivas, mas algo grandioso".
            Verdadeiramente, na crise religiosa de nosso tempo - a mais grave, talvez, que a humanidade atravessou desde a origem do cristianismo - a racional e científica exposição das verdades da fé, embora possa ser eficaz e em realidade o seja, por si só não basta. E nem mesmo bastaria o exemplo, infelizmente muito escasso, de uma vida cristã realizada por convenções habituais. Hoje é necessária a grandeza de um cristianismo vivido em sua plenitude, com uma perseverante constância; exige-se o esquadrão valoroso e ousado daqueles que - homens e mulheres - vivendo no meio do mundo, estão a todo momento prontos para combater por sua fé, pela lei de Deus, por Cristo, com os olhos fixos nele como modelo a ser imitado, como Chefe a ser seguido nas lides apostólicas.
            Mesmo recentemente, foi dado ao cristianismo o conselho - se quer ainda conservar alguma importância, se quer superar o ponto morto -, de adaptar-se a vida e ao pensamento moderno, às descobertas científicas e às extraordinárias potências da técnica diante das quais suas fórmulas históricas e seus velhos dogmas não seriam senão luzes do passado, quase extintas.
            Que erro! E como ele mesmo descobre a ilusão vaidosa de espíritos superficiais! Parecem querer fazer com que a Igreja entre em um leito de Procusto, nos estritos limites das organizações puramente humanas. Como se a nova configuração do mundo, como se o domínio presente da ciência e da técnica ocupassem tudo e nenhum outro espaço livre deixassem para a vida sobrenatural, que de toda parte desabrocha! Esta não pode ser abolida nem (que a Igreja favorece e promove) fazem ressaltar, com amor força e eficácia do que antes, a “eterna potência de Deus”.
            O pensamento e a vida moderna, devem, entretanto, ser reconduzidos a Cristo, e reconquistados para Ele. Cristo, sua verdade, sua graça, não são menos necessários à humanidade de nosso tempo do que à de ontem e de anteontem, de todos os séculos passados e futuros. Tal é a única fonte de salvação.
            Querer traçar uma nítida linha de separação entre a religião e a vida, entre o sobrenatural e natural, entre a Igreja e o mundo, como se entre si nada tivessem de comum, como se os direitos de Deus nenhum valor tivessem, na multiforme realidade da vida cotidiana, humana e social, é coisa completamente divorciada do pensamento católico, é coisa abertamente anticristã. Quanto mais, portanto, potências obscuras agravam suas pressões, quanto mais é necessária da parte da Igreja, uma ação tenaz, perseverante, para reconquistar e submeter todos os campos da vida humana ao suavíssimo império de Cristo, a fim de que seu espírito bafeje mais amplamente, sua lei mais soberanamente reine, e seu amor vitoriosamente triunfe. Eis o que se deve entender por Reino de Cristo.
            Esta missão da Igreja é bem árdua; e não são senão desertores inconscientes ou iludidos os que, em homenagem a um mal-entendido “supernaturalismo”, quereriam reduzir e confiar a Igreja ao campo “puramente religioso”, como dizem, enquanto que, com isso, não fazem senão favorecer o plano de seus adversários (2).

(2) Alocução, Sacro Colégio, 24 de dezembro, 1953 (sic, original italiano).

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos. 
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