sábado, 14 de julho de 2012

Condições - por um cartuxo anônimo

Por um cartuxo anônimo
Intimidade com Deus



             Uma tentação até certo ponto mais grave do que a do pecado, porque ameaça fazer parar para sempre o movimento da alma para Deus, é a da mediocridade. 
            «Não sou nenhum santo nem posso vir a sê-lo: o verdadeiro sábio não é aquele que conhece as suas limitações? Estou resolvido a evitar as faltas graves, mas sinto que não fui feito para as cumeadas da vida espiritual: deixo isso para as almas privilegiadas, entre as quais não posso ser incluído». Falar desta maneira é cair num erro perigoso. Não é a humildade, mas sim o mais renitente amor-próprio que se alia ao receio das dificuldades e dos sacrifícios para nos sugerir estas miseráveis desculpas. O Salvador diz-nos, pelo contrário, que as nossas faltas não podem impedir-nos de O seguir: os Seus santos não são os que não caem, mas os que não se resignam a ficar ao nível do chão. «O justo cai sete vezes e sete vezes se levanta» (Prov., XXIV, 16).
            É precisamente a nossa qualidade de pecadores e a nossa fraqueza tantas vezes provada que nos valem o chamamento de Deus, que nos convida a voltar para Ele. Precisamos do Bom Samaritano porque somos criaturas sofredoras e frágeis e as nossas feridas estão à espera de um bálsamo. É quando caímos que Ele nos oferece uma nova vida. «Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os enfermos. Ide e aprendei o que quer dizer: Quero misericórdia e não sacrifício; porque eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mat.; IX, 12-13).
            Enquanto nos recusarmos a aderir à vontade divina, a tentar a nossa realização na união com o Filho por meio de uma vida cujos esforços são todos inspirados pelo amor, somos ovelhas perdidas que andam afastados do aprisco e do pastor. A dádiva mais preciosa que o Verbo nos concedeu, se for tratada com ligeireza por aqueles que se conformam com a mediocridade espiritual, acaba por ficar completamente perdida para eles.
            Foi com este sentido que foi dito: Ai dos tíbios! O Senhor sabe a que perigos estamos expostos e como é fraca a nossa carne: previne-nos com palavras de ardente urgência que até mesmo as almas cheias de graças não podem esquecer: «Vigiai e orai para não cairdes em tentação!» (Mat.; XXVI, 41).
            A aceitação da mediocridade é o resultado dum cálculo miserável, e esse cálculo é errôneo, como todos os do amor-próprio. A cruz não é de modo nenhum uma meia medida, e não se pode chamar amor de Cristo, ao que se opõe abertamente a estas palavras: «Se alguém quer vir comigo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me» (Mat.; XVI, 24).
            Teríamos lugar entre os ricos e os privilegiados da economia divina se aceitássemos com simplicidade, tal como nos é oferecido, o amor misericordioso. Procuramos nos homens o que eles não nos podem dar, e condenamo-nos assim a não sair do nível humano em que nos sentimos asfixiar. A maior graça pode ser neutralizada num coração que dá demasiada importância a si próprio, que só timidamente ousa enfrentar as dificuldades: Os próprios sacramentos pouco podem aproveitar a quem não se abre para os receber e não renuncia a si próprio. Desejaríamos, para acordar estas almas, ouvir a voz de São Paulo: «Ó insensatos, quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, vós ante cujos olhos foi já representado Jesus Cristo como crucificado entre vós? Onde está, pois, o vosso entusiasmo? Filhinhos meus, por quem eu sinto de novo as dores do parto, até que Jesus Cristo se forme de novo em vós; bem quisera eu estar agora convosco e mudar a minha linguagem; porque estou perplexo a vosso respeito» (Gál.
III, 1; IV, 15, 19-20).
            Para que a vida divina - a nossa luz -, brilhe serenamente em nós, é necessário primeiramente que esteja assegurada uma certa ordem. A água e o fogo não podem coexistir no mesmo lugar, porque uma expulsa o outro; o dia exclui as trevas: o mesmo acontece na alma. Enquanto esta se entregar, por uma covardia mais ou menos consciente, às potências inimigas de Deus, o Salvador não pode tomar posse do seu reino nela. Recusamos a Deus o que guardamos para nós próprios por desconhecimento e desprezo dos Seus direitos essenciais. O Seu amor não pode deixar de ser ávido: exige todo o coração do homem e o homem inteiro; tal é a medida da Sua justiça. É neste sentido que se fala nos zelos de Deus (Ex., XX, 5).
            Pôr em dúvida a bondade do Pai e o Seu desejo do nosso bem é ofendê-lO: esta dúvida fere a honra e o coração dum Deus. «Estendi as minhas mãos todo o dia para um povo incrédulo e rebelde» (Is., LXV, 2). Sejamos humildes finalmente e pequenos na mão que se nos estende e deixemo-nos levar por ela onde Deus quiser. «Eu posso tudo naquele que me fortifica» (Pil., IV, 16).
            As lutas e as provações existem em todas as vidas, mas quando o coração se sente confiante e eleva para Deus a sua oração, tem nisso um penhor seguro da verdadeira vitória. «Aproximai-vos confiadamente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia, para sermos socorridos em tempo oportuno» (Hebr., IV, 16).
            Quem se alista com este consentimento sob a bandeira do céu, encontra no Absoluto divino o que o mundo exterior não lhe podia prometer sem mentir. Pois este mundo é de uma estreiteza asfixiante e reina nele a tristeza: só chega ao limiar da alma, cujos degraus sobem até ao infinito. Poucas são as pessoas, cremos, que não estão influenciadas por essas dialéticas que desconhecem o primado do espírito e levam a pensar que a defesa do homem depende, primeiro que tudo, de condições econômicas. Ora não são os homens privados de desafogo material aqueles cuja personalidade se atrofia, mas todos os que se recusam a ocupar com gratidão o seu lugar na harmonia viva do universo e da graça. Pouco importa achar um lugar humilde ou elevado, grande ou pequeno: estas palavras mudam de sentido quando intervém o amor. «E Deus escolheu as coisas vis e desprezíveis segundo o mundo e aquelas que não são, para destruir as que são» (I Cor., I, 28).
            Este poder, que a caridade tem, de inverter as medidas e transferir os valores permite à alma fiel encontrar o lado luminoso de cada coisa e iluminar ao mesmo tempo todas as faces da realidade. A tristeza é, sem dúvida, natural em muitas circunstâncias. No entanto, ela deve transformar-se em paz (a paz cuja raiz é a certeza bem-aventurada), quando o olhar se fixa na realidade divina e mergulha na sua transparência. E nem mesmo a lembrança dos nossos fracassos e dos nossos erros nos deve ser amarga. Saibamos finalmente que, só por nós, somos incapazes de ter um bom impulso, mas que isso não nos entristeça: é uma razão mais forte para nos entregarmos nas mãos de Deus e tudo esperarmos dele. «Não nos julguemos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento como vindo de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus» (II Cor., III, 5).
            Evidentemente que não é sem trabalho e sacrifício que o olhar se orienta assim para o seu objeto divino e aprende a fitá-lo fielmente. É muito fácil deixar-se distrair pelas mínimas coisas e apaixonar-se, infelizmente, pelas mais fúteis. A concentração paciente no que é essencial é um esforço indispensável para a vida do espírito: «Tu afadigas-te e andas inquieto com muitas coisas, mas só uma é necessária» (Luc., X, 41-42).
            Esta única coisa necessária é o Verbo encarnado.
            Ainda que tropecemos muitas vezes no caminho e sucumbamos em certos momentos sob o peso da cruz, a nossa fé deve recompor-se e robustecer-se em cada passo que damos nas suas pegadas divinas. Ele é a nossa coragem, a nossa força e a nossa alegria: servi-lo não é um dever, mas uma graça infinitamente preciosa - servire regnare est. «Vinde a mim todos os que trabalhais e vos achais fatigados, e eu vos aliviarei!» (Mat.; XI, 28). 
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