domingo, 19 de junho de 2011

Os recreios, os divertimentos e todas as coisas ordinárias da vida

Os recreios, os divertimentos e 
todas as coisas ordinárias da vida 


Além das ações ordinárias que pertencem ao nosso estado e ao nosso gênero de vida, também os nossos recreios e passatempos devem ser santificados, afim de que Jesus possa colher constantemente no nosso coração uma abundante messe de glória e amor. Ai! quantas pessoas nas comunidades não perdem durante o tempo dos recreios o que ganharam pela observância da regra e pela oração! De sorte que, na vida religiosa, é mais fácil a mortificação que o recreio. 

Marianno Sozzini, religioso do Oratório de Roma, conta que um dos Padres do seu tempo costumava todos os dias, ao passar do refeitório para a sala do recreio, orar para obter os quatro principais dons do Espírito Santo, que são a caridade, a alegria, a paz e a paciência, pois são "necessários estes quatro dons para tornar o recreio geral e útil". 

Algumas pessoas familiarizaram-se de tal modo com esta prática da presença de Deus, que mesmo passeando ou conversando lhe dizem no fundo do seu coraçao, a cada passo que dão: "Por vós, por vós; propter te, propter te"  O mesmo fazem quando estão à mesa e a cada movimento que fazem ao tomar a refeição. Santa Maria Madalena de Pazzi recomendava às suas noviças que oferecessem pela glória de Deus até o pestanejar, até o menor movimento de seus membros; e prometia-lhes, se observassem esta prática, que iriam direitas ao céu depois da sua morte, sem passarem pelas chamas do purgatório. Afim de lhes incutir mais profundamente este hábito no coração, costumava surpreendê-las a cada uma por sua vez, quando se entregavam às suas ocupações, e perguntava-lhes com que intenção trabalhavam. Se alguma não respondia logo, a santa compreendia que essa empreendera a sua tarefa sem haver formado uma intenção, e a repreendia por haver perdido uma ocasião de merecer, e privado Deus duma satisfação. 

Notou-se na Vida de Gregório Lopez (e isso foi sem dúvida uma espécie de milagre), que durante três anos completos dissera a Deus em seu coração, cada vez que respirava, estas palavras: "Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu." E este hábito ganhara nele tanta força que, se acaso acordava de noite, recomeçava imediatamente esta oração. Não podemos nós imitar tal exemplo, mas amaremos mais, a Deus sabendo que suscitou homens que assim praticaram. Bendita seja por todo o sempre a Santíssima Trindade, por todas as graças que tem espalhado sobre os anjos e no coração dos homens!

Há fiéis que desejam dar-se inteiramente a Deus, e que praticariam voluntariamente algumas destas austeridades que se lêem na vida dos Santos; mas a sua saúde é má ou delicada, ou não têm a coragem de fazer penitência; ou ainda, e este é o caso mais comum, faltam-lhes ao mesmo tempo a saúde e a coragem. Precisamos dum tratado da perfeição para uso dos valetudinários. As pessoas duma saúde delicada são ao mesmo tempo mais e menos capazes de trabalhar na glória de Deus do que aquelas, a quem uma doença grave retém no leito da dor. 

Vamos dar a esta proposição os esclarecimentos e explicações que ela pede. Acerca dos valetudinários, tomando-se esta palavra no sentido mais moderno, os livros espirituais quase todos guardam silêncio, se bem que o terceiro tratado da Santa Sophia do Padre Baker contém coisas, que perfeitamente se lhes poderiam aplicar. Parece que S. Bernardo escolhia intencionalmente sítios insalubres para estabelecer mosteiros, por considerar uma saúde fraca como poderoso auxiliar da vida contemplativa e dos exercícios interiores. Mas hoje a irritabilidade dos nervos, os reumatismos e a moleza da educação, substituem com vantagem o ar insalubre dum lugar palustre. Como quer que seja, poderá uma dessas enfermidades impedir um valetudinário de ser um santo, ou de praticar virtudes heróicas? Não. Se as pessoas desta categoria quizerem cumprir os seus deveres para consigo mesmas, encontrarão penitências que lhes não causarão sofrimentos corporais, que não sejam capazes de suportar, e que nenhuma influência terão nas suas enfermidades. 

E evidente que um escrupuloso emprego do nosso tempo é precisamente uma penitência deste gênero. Podemos prometer a Deus que nunca dissiparemos voluntariamente os momentos que nos dá, ocupando-os com coisas de nenhum mérito. Esta resolução não e certamente fácil de executar em nossos dias, e muitas vezes pesará como um jugo incômodo sobre a nossa liberdade natural. Se a observarmos, pois, fielmente, faremos uma excelente penitência, e ao mesmo tempo colheremos uma abundante messe para a glória da Deus, para os interesses de Jesus e para a salvação das almas. 

Mas não se deve concluir daqui que as recreações são defesas. Ninguém ignora a história de S. Carlos Borrorneu e da sua partida de xadrez. Enquanto outros falavam do que se apressariam a fazer se soubessem que morreriam dentro duma hora, o Santo disse que, pela sua parte, acabaria a sua partida de xadrez, pois a tinha começado somente para glória de Deus, e nada desejava tanto como ser chamado á presença do seu Juiz em meio de uma ação empreendida para Sua glória. E fácil merecer ao jogo, pois todos os recreios, por assim dizer, proporcionam ensejos de se praticar algumas virtudes. 

É possivel adquirir méritos na leitura dum romance insignificante, contanto que seja este o seu único ou o seu maior defeito (1) ; em primeiro lugar, porque é um dever; em certo modo, dar alguma folga ao espírito, o que se não pode encontrar senão numa ocupação interessante; depois, porque o contraste da ficção dessa ligeira narrativa com as graves verdades da fé, que nos preocupam, leva-nos a fazer mais dum ato da ação de graças pela fé e pelos outros favores, que temos recebido. 

1. Não falo senão do que é possivel, para assim dar a inteligência completa do meu pensamento. Contristar-me-ia o ser contado entre os que preconizam a leitura dos romances. O espírito do meu livro é tirar o maior bem possível daquilo que não é mau em si. 

Mas não é fácil merecer dissipando inutilmente um tempo precioso, andando daqui para ali, sem um fim determinado, suspirando por que as horas passem ligeiras, maldizendo tudo que nos rodeia, entregando-nos, enfim, a conversações tão frívolas quão pouco caridosas. A maior parte das pessoas piedosas não são tão escrupulosas quanto o deveriam ser no emprego do seu tempo. Contudo, se S. Carlos, como cremos, está um grau mais acima no céu, por causa da sua partida de xadrez, é bem deplorável que se percam tantas ocasiões de merecer e de fazer avançar os interesses de Jesus. 

A maior ou menor pontualidade que pomos no emprego do nosso tempo é como um termômetro que marca o grau de fervor do nosso amor

Se um operário forte e ativo obtivesse permissão para passar um determinado número de horas em uma mina de ouro donde a terra houvesse já sido tirada, e onde não houvesse mais nada a apanhar que o metal puro, não consideraria ele como insensato o homem que lhe propusesse suspender o seu trabalho, quando a fadiga o não obrigasse a isso? Pois é este precisamente o nosso caso a respeito das ações ordinárias da nossa vida e dos nossos recreios.

O trabalho verdadeiramente penoso para os tornar meritórios foi feito pelo nosso divino Salvador; as pedras e o lodo foi o que Lhe coube em sorte; para nós deixou só o ouro mais precioso. Mas as horas são contadas, apressemo-nos pois, a recolher o nosso tesouro, pois não sabemos o tempo que ainda nos resta. Ai! não conheceremos jamais o valor do tempo senão quando se nos escapar das mãos para nos deixar na eternidade. E então, ó doce Salvador, seremos conVosco ?



Santa Gertrudes disse um dia a Nosso Senhor que desejava edificar-Lhe uma arca espiritual, e perguntou-Lhe como se devia haver para isso. Eis a resposta que Ele lhe deu: 

"É opinião geralmente espalhada entre vós que a arca de Noé era formada de três andares, e que as aves ocupavam o mais alto, os homens o do meio e os animais a parte inferior. Toma pois essa arca por modelo e reparte os teus dias segundo esse sistema. Desde manhã até ao meio dia, Me oferecerás louvores e ações de graças em nome da Igreja universal, com os sentimentos do amor mais terno, por todos os benefícios que tenho espalhado sobre os homens desde o começo do mundo, e principalmente pela adorável misericórdia em virtude da qual, desde a aurora até ao meio dia, Me deixo oferecer ao Padre Eterno, no santo sacrifício da Missa, para salvação dos homens. Enquanto as pessoas do mundo, insensíveis aos Meus benefícios, se abandonam ao prazer e alegria, e na sua ingratidão Me esquecem, oferece-Me tu por elas contínuos louvores: assim figurarás deter os pássaros no seu vôo, e encerrá-los no andar superior da arca. Depois do meio dia até á noite cuida de praticares boas obras, em união com a intenção puríssima que animava todas as obras da Minha santa humanidade, a fim de compensares as negligências do resto do mundo: assim reunirás os homens na arca. Desde o anoitecer até ao amanhecer protesta, na amargura do teu coração, contra a impiedade com que os homens, não contentes de Me recusarem o seu reconhecimento pelo que tenho feito por eles, se esforçam em provocar a Minha cólera com toda a sorte de pecados: oferece-Me, pois, para obter o seu arrependimento, os sofrimentos e amarguras da Minha Paixão e morte, e assim ajuntarás os animais na parte inferior da arca." 
Quando Nosso Senhor traçava assim a Santa Gertrudes o plano dos exercícios do seu dia, sabia quais eram os seus trabalhos e ocupações: sabia que ela, por obediência à sua regra, devia com suas filhas espirituais ter todos os dias algum recreio e ocupar-se de todas as minudências do governo do seu mosteiro. 

Uma outra prática igualmente proveitosa consiste em fazer da solidão o que fazeis das vossas ocupações. Quando estais só ou acordais durante a noite, oferecei a vossa solidão em união com a de Jesus no sepulcro e no tabernáculo; e fazei isto para obter para vós e para os que amais, a graça duma boa morte:

- Para morrer na graça de Deus;
- para vos encontrardes, nessa última hora, cheios de méritos, a fim de mais glorificardes a Deus no céu ; 
-  para não deixardes a vida senão depois de haverdes contribuído para a salvação dum grande número de almas;
4º- para que não fique após de vós celebridade ou um nome prestigioso, mas imiteis Jesus, que morreu sem honras entre dois ladrões;
- para que não tenhais que passar pelas chamas do purgatório; 
- para deixardes uma abundância de satisfações de que não necessiteis, mas que vá aumentar o tesouro de que a Igreja tira as suas indulgências; 
- para que possais glorificar a Deus na terra, ainda depois da vossa morte, pela recordação das vossas boas obras, pelos conselhos salutares que houverdes dado, pelos livros de piedade que tenhais escrito, ou pelo fruto das vossas orações.

Pela prática da oblação, as circunstâncias mais ordinárias podem converter-se em ocasião de merecimento com tanto que estejamos em estado de graça. Cada um dos nossos atos meritórios é para Deus um aumento de glória, um verdadeiro progresso dos interesses de Jesus, e fonte de muitas graças para as almas de nossos irmãos, em razão da comunhão dos Santos. Ora aqui está outra maneira de aquirir merecimentos por ocasião das coisas mais ordinárias- é elevar-nos a Deus pela vista das criaturas. Esta prática é uma das que os santos seguiram mais geralmente com mais fervor. 

Lancicius nos diz :

"Quando saís de vossa casa e vedes as pessoas que param na rua para conversarem, orai para que não digam coisas inúteis de que um dia houvessem de dar contas. - Sentis o vento que sopra com violência, orai pelos que andam no mar. - Se passais perto duma taverna e ouvis o barulho dos que lá dentro bebem, orai para que não ofendam a Deus, e para que se confessem os que tiveram essa infelicidade." 
Tendo Santo Atanásio enviado ordem a S. Pambo para deixar o deserto e ir a Alexandria, o piedoso solitário, dirigindo-se aonde era chamado, encontrou nas ruas da cidade uma atriz na mais elegante semi-nudez. Vendo-a, começou a chorar. Perguntaram-lhe a razão das suas lágrimas e ele respondeu:

"Duas coisas me afligem profundamente: em primeiro lugar, a condenação eterna dessa mulher, e depois o ver que eu faço menos pela glória de Deus do que essa atriz para agradar a alguns libertinos."
Assim se serviu do pecado como de um escabelo para se elevar a Deus. Quando sentis a chuva bater nas vossas janelas, agradecei a Deus e formai interiormente o desejo de Lhe oferecer tantos atos de fé, de esperança, caridade, contrição, ações de graças de humildade, de adoração, de rogo, quantas as gotas que caíram durante a borrasca; implorai um aumento contínuo dos socorros da graça a fim de que vós e vossos irmãos possais sempre fazer as vossas ações com perfeição, e glorificar a Deus tanto quanto é dado fazê-lo ao poder humano.

Quando, ao passear ou viajar, passais por uma aldeia, vila ou cidade:

- Pedi a Deus, pelos merecimentos dos que habitam esse lugar, que tenha piedade de vós; 
2º- rendei-Lhe ações de graças por todas as bênçãos que derramou, derrama, ou derramará sobre essas habições; 
- recommendai-Lhe todas as necessidades desses habitantes e suplicai-Lhe que ouça as suas orações; 
- chorai os pecados que aí se têm cometidos;
- pedi a remissão deles;
-  recomendai a Deus as almas dos fiéis que aí se têm morrido.

Surius, na Vida de S. Fulgêncio, refere que tendo ido este Santo a Roma ao ver os palácios dos nobres exclamou: 

"Qual nao deve ser a beleza da Jerusalém celeste se Roma tanto resplandece na terra! E se neste mundo tantas honras são apanágio dos que só procuram a vaidade, qual não será a glória dos santos engolfados na contemplação da verdade!"
Lemos na Vida de S. Martinho de Tours que viajando um dia para visitar a sua diocese, se sentiu profundamente aflito à vista dum alcatraz que pescava, pois lhe representava ao vivo os meios de que o demônio se serve que para apanhar as almas. São Boaventura diz-nos que S. Francisco usava muito freqüentemente desta prática. E eis o que Ribadeneyra diz de Santo Inácio:

"Vimo-lo muitas vezes elevar-se das coisas mais pequenas a Deus, que é poderoso até nos menores objetos; a vista duma pequena planta, duma folha, dum fruto, ou dum pequeno inseto bastava para o transportar num momento às regiões celestes."

Monsenhor Strambi dá-nos os seguintes pormenores acerca do bem-aventurado Paulo da Cruz, fundador da Ordem dos Passionistas (Vitam page 137- Nota do blogue: hoje Santo). O Senhor recompensava as suas santas intenções e os seus piedosos desejos com as mais abundantes consolações espirituais, e nas suas viagens para visitar as casas da sua Ordem, fazia do recolhimento o doce alimento da sua alma. Um dia em que se dirigia ao ermo de Santo Euligio, voltou-se para o seu companheiro dizendo-lhe:

"De quem são estas terras?
"São de Gallese" lhe respondeu o companheiro. Mas Paulo, elevando a voz, perguntou de novo: 
"De quem são estas terras?"

Não compreendendo o seu companheiro o sentido da pergunta, o bom Padre, tendo dado mais alguns passos, voltou-se para ele com uma fisionomia radiante como o sol, e exclamou: 

"De quem são estas terras? Ah! tu não me compreendes; pertencem a Deus onipotente."


E ao dizer estas palavras, a impetuosidade do seu amor o ergueu e impeliu a alguma distância no caminho. Doutra vez que se dirigia de Renacina a Ceccano através da floresta de Fossanova, depois de haver visitado o mosteiro em que São Tomás de Aquino morrera, chegou a um sítio onde o bosque era mais espesso, e dirigindo-se repentinamente ao seu companheiro, exclamou:

"Oh! não ouves estas árvores e suas folhas, que te gritam de toda a parte: ama a Deus, ama a Deus!"

E inflamando-se cada vez mais no amor divino, tornando-se a sua fisionomia radiante, continuou em alta voz:

"Oh! como pode ser que não ames a Deus? Como pode ser que não ames a Deus?" E quando voltaram a entrar na estrada romana, dizia a todas as pessoas que encontrava: "Meu irmão, ame a Deus, ame a Deus; Ele merece tanto o seu amor! Não ouve como até as folhas das árvores lhe gritam que o ame? Ó amor divino, ó amor divino!"

E falava com tanta unção, que os viandantes não podiam reprimir as lágrimas. Além disto, dizem que tudo lhe servia para lhe recordar a idéia de Deus, e que imaginava que todas as criaturas tinham voz para gritar ao homem: "Ama Aquele que te criou!" Viam-no muitas vezes passear pelo campo, principalmente na primavera, e examinar com atenção todas as flores que encontrava, tocá-las com o seu bastão, e dizer-lhes: 

"Calai-vos, bem vos ouço! censurais-me pelo meu pouco amor a Deus. Calai-vos."

Tinha o costume de dizer aos seus religiosos que as flores os convidavam incessantemente a levantarem seus corações nos sentimentos de amor e adoração ao seu celeste Criador.

Como os gostos que levam cada qual á devoção variam até ao infinito, os meus leitores perdoarão o longo extrato que vai seguir-se, tirado da Vida do Padre Pedro Lefèvre, companheiro de Santo Inácio, por Orlandini. Este religioso possuia em grau supremo o dom de converter tudo em oração. 

Quando se aproximava de alguma cidade ou de qualquer povoação, tinha o costume de orar pelos seus habitantes, e pedia a Deus que fizesse com que o anjo encarregado da guarda daquele lugar, e os anjos da guarda de todos os que ali moravam desempenhassem as suas funções com uma atenção especial. Invocava também os santos Padroeiros dessas povações, e rogava-lhes que rendessem graças, pedissem perdão, ou obtivessem novos favores para os habitantes, e suprissem todas as negligências e omissões destes, a fim de que Deus não ficasse privado da glória que Lhe é devida. 

Quando arrendava uma casa ou mudava de habitação, a primeira coisa que fazia ao entrar era ir ajoelhar-se em todas as salas e compartimentos da nova casa, em todos os recantos em que podia penetrar, e pedir aí a Deus que afastasse daquella morada os espíritos malignos, os perigos e trabalhos. Na sua oração lembrava-se de todas as pessoas que até então houvessem vivido naquela mesma casa e das que nela viessem viver de futuro, e pedia com fervor que nenhum mal sucedesse ás suas almas. 

Punha tal cuidado em encontrar em todas as coisas um objeto de oração, que tendo ido ao palácio de certo príncipe para ouvir um sermão, que se pregava na capela, e sendo repelido por um porteiro que o não conhecia, não viu nesta afronta senão uma nova ocasião para orar. Um homem que tanto gostava da oração quando gozava saúde, não podia deixar de se entregar a ela com assiduidade quando doente. Retido, em Louvain, no leito em que o sofrimento o impedia de gozar o menor repouso, as suas penosas vigílias forneciam-lhe motivo de oração. Então mesmo que a sua cabeça enfraquecida mal podia suportar a violência do mal, não cessava de orar e de unir os seus sofrimentos à coroa de espinhos de Nosso Senhor, até que o amor que o consumia rebentava numa torrente de doces lágrimas. 

Entretinha esta oração incessante com a variedade das suas devoções. A vida de Jesus Cristo era o alimento principal da sua contemplação quotidiana. Pois aonde poderia a alma encontrar alimentação mais abundante, doçura mais apetecível? Não obstante, para entreter a sua piedade, inventou uma multidão de métodos de oração, que as suas leituras lhe sugeriam, bem como as doutrinas da qual estava imbuído, ou as inspirações do Espírito Santo. Mas preferia três desses métodos, que achava ao mesmo tempo tão úteis, suaves e fáceis, que recomendava aos confessores que os ensinassem aos seus penitentes. 

Em primeiro lugar, tinha uma grande confiança nas Ladainhas; repetia-as constantemente e as aplicava a todas as circunstâncias. Servia-se delas não só para pedir algum favor, que é o objeto ordinário das Ladainhas, mas para louvar a Deus, render-Lhe ações de graças, ou para todo o outro exercício da virtude de religião. Uma das suas práticas era penetrar na corte do céu, e lá, ao pé do trono da Santíssima Trindade, suplicava ao Pai que se regozijasse no Filho e no Espírito Santo; ao Filho que partilhasse esta alegria no seio do Pai e do Espírito Santo, e finalmente ao Espirito Santo que se regozijasse no Pai e no Filho. Com isto queria exprimir a felicidade que as três Pessoas divinas gozam umas nas outras, e que na linguagem da escola se chama complacência. 

Depois, suplicava à Rainha do céu que adorasse a Santíssima Trindade em seu nome, ou em nome de alguma outra pessoa, viva ou morta; e por outro lado conjurava à Santissima Trindade que abençoasse esta boa Mãe por todos os benefícios que por Suas mãos são espalhados na terra. Depois percorria os coros dos anjos e as ordens dos bem-aventurados, pedindo-lhes que oferecessem ações de graças e louvores, em seu nome 
ou no de outra pessoa, a Deus, à Santissima Virgem, ou em particular a alguns anjos e santos. 

O segundo método que seguia nas suas orações consistia em percorrer todos os mistérios da vida e morte de Nosso Senhor, apropriá-los engenhosamente ao tempo e circunstâncias, e em seguida, em nome de cada um deles, invocava separadamente as três Pessoas da Santíssima Trindade e os espíritos celestes.

O seu terceiro método era percorrer um após outro os mandamentos de Deus e da Igreja, os artigos de fé, os sete pecados mortais e as virtudes contrárias: as obras de misericordia, os cinco sentidos corporais e as três faculdades da alma. A própria variedades destes assuntos sugeria-lhe afetos diversos; eram perdões a implorar, favores a pedir, ações de graças a render, não só por si ou por outras pessoas vivas, mas também pelos mortos. Suplicava a Deus que lhes remitisse o resto do que ainda lhe devessem à conta do primeiro mandamento, do segundo, e assim por diante.

Fazia o mesmo a respeito dos pecados, das obras de misericórdia, dos sentidos corporais e das faculdades da alma.

(Tudo por Jesus ou caminhos fáceis do amor divino, pelo Rev. Pe. Frederick William Faber, superior do oratório de S. Filipe de Neri - de Londres - Doutor em Teologia, Tradução portuguesa, H. Garnier.)

PS: Grifos meus.
PS2: No futuro, irei digitalizar esse livro.
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