segunda-feira, 20 de junho de 2011

Natividade de Nossa Senhora por um Cartuxo

Nota do blogue: Segue um bonito sermão feito por um cartuxo (anônimo).

Natividade de Nossa Senhora


Hortus conclusus, soror mea sponsa, 
hortus conclusus, fons signatus.

És um jardim fechado, minha irmã, 
minha esposa, um jardim fechado, 
uma fonte selada

(Cântico dos Cânticos) 

Ser contemplativo é receber o Verbo divino concebê-lO espiritualmente e manter com Ele uma só vida. A Virgem é, portanto o modelo dos contemplativos, é a Mãe da verdade, como o é da beleza e do amor. Cabe-nos imitá-lA como filhos generosos e fiéis. 

Cada um dos símbolos que nos ajudam a compreender o mistério da missão de Maria são também os símbolos da alma que ama e possui Deus na solidão interior: Torre de Marfim, Casa Dourada, Fonte Selada, Espelho de Justiça, Arca da Aliança... As virtudes de Maria, os dons que manifesta e dons que nEla brilham, são por excelência as virtudes, as condições e os privilégios da vida contemplativa. 

Segundo o hino que cantamos nas vésperas de cada uma das Suas festas, Maria distingue-Se, pela Sua doçura, de todas as mulheres, entre tantas virgens e mães às quais Deus concedeu a mansidão, mansidão que, aliás, é força e poder. Mas tudo o que é virginal ou maternal, Maria, a nova Eva espiritual, possui-o em alto grau. 

Disse-se que a mansidão é o resumo de todas as virtudes cristãs: é feita, sobretudo de paciência e de boa vontade, de respeito e de amizade por todas as almas e até por todos os seres, porque os mansos são-no até para os seres inanimados. É, no fundo, um acordo com a vontade de Deus, uma terna concórdia com tudo o que existe; é também a primeira atitude a exigir, revista ela a forma que revestir, daquele que deseja purificar e libertar a sua visão interior. Não há vida contemplativa sem uma enorme paciência. A luz apenas entra nas almas pacíficas; a tranqüilidade é a primeira disposição necessária para se tornarem transparentes as profundezas do espírito. A arte de contemplar as coisas divinas é uma arte calma. 

A mansidão é feita também de indulgência e de misericórdia, de uma lucidez que ilumina os seres na sua claridade divina, fixando deles apenas as razões que temos para confiar e amar. São João da Cruz acentuou bem quanto esta boa vontade é indispensável a todo o progresso interior. A nossa vocação é inteiramente virginal e mariana: Maria não teve de condenar o mundo, este é que se veio quebrar de encontro à Sua mansidão: assim deve ser uma alma contemplativa, cuja missão não é julgar os homens mas repousar em Deus. 

Uma outra virtude que nos admira em Maria, e que devemos prezar acima de tudo, é a pureza. Maria é como que a encarnação da pureza, e esta, por outro lado, está tão ligada à sabedoria que se pode chamar a virtude essencial do contemplativo. 

Não se trata somente da luta contra os pecados da carne, mas daquela delicadeza de espírito que nos faz reservarmo-nos para as mais altas alegrias. Ser puro é saber estabelecer e conservar a solidão da alma com o seu Deus, é reconstituir interiormente o Paraíso. Sabemos como a Virgem Santa está prefigurada no paraíso terrestre, reserva inacessível ao século, lugar de delícias, sem manchas, sem conflitos, onde está colocado o novo Adão. 

Esta figura designa também a alma contemplativa, jardim fechado onde reina a felicidade imediata de receber a vida divina num recolhimento comparável ao que sem dúvida reinava na aurora do mundo sobre a natureza imaculada. É preciso que não haja nada nem ninguém entre Deus e a alma, mas tão somente essa liberdade virginal do primeiro instante. Então, uma criação nova se produz e se repete sem cessar: a geração do Homem-Deus em nós. 

Que poderemos inferir praticamente destas breves reflexões sobre as semelhanças que devem ligar as nossas almas à alma da nossa Mãe? Tomemos a resolução de nos fecharmos às preocupações estranhas e, através do recolhimento, penetraremos nas fontes mais profundas do nosso ser e, tal como Maria, reservar-nos-emos para as mais belas alegrias; conservaremos esta alegria através dos sofrimentos, das separações e das atribulações, para que ela atinja a sua plenitude, difunda a sua ação consoladora e acabe por se fundir na alegria de Deus que permanecerá como realidade única quando a figura deste mundo tiver passado

(Silêncio com Deus - Um Cartuxo, prólogo de G.B.Torello, com imprimatur, 1959.)

PS: Grifos meus.
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