quarta-feira, 15 de junho de 2016

13. SER E PARECER UNIDOS

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.



13. SER E PARECER UNIDOS

Um dos problemas mais graves da educação é o do bom entendimento entre os educadores. A criança começa por desconcertar-se quando se choca com a desinteligência entre os que têm por missão guiá-la. Depois, tendo percebido a falha em que seu capricho possa infiltrar-se, disso se aproveita ao máximo com enormes riscos para a sua formação.
• Se é verdade que os educadores em geral (família, escola, clero) deveriam, no interesse da criança, assinalar positivamente um mútuo acordo, o princípio é mais valioso ainda para o entendimento sem fissura que deve existir entre papais e mamães, pois aqui se acrescenta um elemento afetivo de alta voltagem, e todo sinal de dissensão entre os pais reage dolorosamente no coração do filho, mesmo que aí encontre uma vantagem imediata.
• Eis algumas regras vitais que os jovens esposos jamais deveriam infringir:


1. Nunca discutiremos diante dos nossos filhos. Se, como em todos os lares (é preciso ser realista), há momentos — que esperamos sejam os mais raros e mais breves possíveis — em que nos entendemos menos bem, buscaremos nos explicar a sós, nunca diante de testemunhas.
2. Jamais trocaremos censuras diante das crianças.
3. Jamais nos contradiremos diante das crianças, sobretudo a respeito delas.
4. Jamais um autorizará às escondidas o que o outro proíbe.
5. Jamais tomaremos um dos nossos filhos por confidente de nossos desgostos mútuos.
6. Jamais faremos alusão aos defeitos e, com mais razão ainda, às faltas, um do outro.
7. Jamais um dirá alguma coisa que venha a ser prejudicial ao respeito e ao afeto das crianças relativamente a um ou a outro.
8. Jamais diremos a uma criança: “Sobretudo não contes a mamãe!” ou “Não digas nada ao papai!”
9. Teremos positivamente o cuidado de reforçar a nossa autoridade mútua em todas as circunstâncias.

• Guardai-vos de deixar transpirar o menor sinal de desunião entre vós, a menor divergência no modo de tratar vossos filhos; cedo, eles se aperceberão que podem servir-se da autoridade da mãe contra a do pai, e vice-versa; resistirão dificilmente à tentação de se aproveitarem dessa disparidade para a satisfação de todas as suas fantasias.[1]
• O pai sem a mãe ou a mãe sem o pai, quando ambos existem, é algo de deplorável. Das duas autoridades, aquela que se abstém, ou que não se mostra senão para lisonjear, amolecer, acariciar, torna-se desprezível para a criança, fazendo-lhe a outra odiosa. Não há situação mais falsa e mais poderosa para produzir inevitavelmente a criança “estragada”.
Por igual, nunca pude ouvir — sem lamentá-los e corar por eles, e que ocorre todos os dias — pais dizerem a uma criança: “Se não tiveres juízo, contarei a teu pai!” ou o que é pior ainda: “Contarei à tua mãe!” Mas, quem sois, mãe ou pai infelizes, que assim falais? Não recebestes de Deus nenhum direito, nenhuma obrigação séria, nenhuma autoridade a exercer? Não sois mais do que testemunha impotente, encarregada de dar conta do que se passa à vossa esposa ou ao vosso marido? E que falsas e funestas noções introduzis na alma dessa criança![2]
• O pai, às vezes, com um rápido olhar ou um dar de ombros, pode reduzir a nada todo o esforço educativo da mãe junto ao filho. Uma olhadela de cumplicidade ao filho a quem a mãe faz uma censura justificada, e ei-lo seu aliado na luta contra a mãe; uma leve carícia sobre a mão da garotinha no momento em que a mãe ralhar fortificará tanto mais a criança contra as justas razões que a mãe lhe apresentar daí em diante.
Uma menina de 14 anos dizia: “Quando quero ter ou fazer alguma coisa, mamãe às vezes não quer. Papai está sempre comigo. Somos dois contra um, o que significa que sou eu a vencedora.”
• Nada mais contra-indicado do que dizer a uma criança: “Vou contar a papai, esta noite, como foste mau. Vai ver o que te acontece...” Se aos olhos das crianças, fazeis passar o papai por um bicho-papão, como quereis que ele possa ter a confiança e o afeto dos filhos?
• A criança é um ser que tem necessidade, para se desenvolver em todos os sentidos, de viver numa atmosfera de paz, de amor e de serenidade. A segurança daí resultante é para ela condição de desenvolvimento.
• Eis um fato que as estatísticas não cessam de confirmar: a quase totalidade das crianças desequilibradas, associais ou delinquentes, pertence a famílias em que o pai ou a mãe não vivem em boa harmonia.
• Contradizer-se diante de uma criança a seu respeito, é nela falsear a noção do bem e do mal, pois que para ela — por isso mesmo criança — o que é bem é o que os pais permitem, e o que é mal é o que proíbem. Não há nada como isso para desorientar uma consciência infantil.
Nada mais ridículo e mais pernicioso do que procurar tornar-se popular às custas de um ou de outro — um mimando, enquanto o outro dá ordens ou castiga. 
Nada mais artificioso ou mais antipsicológico do que fazer perguntas como estas: “De quem gostas mais, do papai ou da mamãe?... Quem é mais severo, papai ou mamãe?... " A verdadeira resposta de uma criança normal num lar normal será esta: “Gosto tanto de papai como da mamãe com todo o meu coração, e os dois gostam igualmente de mim."
• Quando infelizmente a união de corações entre pai e mãe não existe mais, é preciso ter a coragem de dissimulá-lo ao máximo em benefício da criança. Dai-lhe tanto tempo quanto possível um lar normal.
• Se a concepção da criança devo ser, no plano divino, a consequência de uma união de amor entre os esposos, com mais fortes razões essa união deve persistir durante os anos de formação. Ela se torna cada vez mais necessária à medida que a criança cresce e chega o estado de julgar os que a cercam. Se o fato de ser concebido sem amor já constitui uma infelicidade, pelo menos a criança disso não tem consciência. O mesmo não ocorre à medida que a sua personalidade se desenvolve. A desunião dos pais se lhe vai afigurando penosa na proporção em que dela toma consciência, e o resultado será o de provocar em seus sentimentos psicoses de que será frequentemente vítima durante o resto da vida.
Quando a criança respira no lar uma atmosfera de indiferença e de frieza, sua alma resseca e se torna incapaz dos movimentos generosos do coração. Fazendo nascer nela a nostalgia de um meio em que o seu coração pudesse desabrochar na alegria, fixa-se numa disposição habitual de hostilidade relativamente ao meio familiar. Quando à indiferença se junta a hostilidade mútua dos pais, a revolta e a crueldade encontrarão na criança um terreno já preparado. Porque seus pais disputam constantemente em sua presença e a seu respeito, ela mostrar-se-á por seu turno hostil e briguenta nas suas relações com o próximo.
Ao atingir a adolescência, tendo de enfrentar por sua própria conta o problema do amor, o exemplo dos pais ser-lhe-á como uma tela a lhe impedir a descoberta das leis mortais. Não podendo imaginar que o verdadeiro amor possa diferir dos laços que unem os pais, ver-se-á impelida à má conduta e procurará nos falsos amores as alegrias de que a sua infância e adolescência foram privadas.
As consequências da desunião dos pais são de tal ordem que quase sempre a elas devemos atribuir as faltas da infância culpada. Há correlação estreita entre a multiplicação de divórcios, última consequência da desunião dos pais, e os desvios de conduta da adolescência.[3]
• Que nos seja permitido insistir sobre o entendimento que deve estabelecer-se entre os esposos quanto às atitudes a tomar com relação aos filhos. Não somente, como é óbvio, eles não devem exibir o espetáculo de seus desacordos, permitindo um o que o outro proíbe, como devem buscar uma verdadeira colaboração, pondo em comum a firmeza e a ternura para apreciar o que convém ao caráter de cada um dos filhos. E se tomam uma determinação bem pensada em comum, devem realizar essa união sagrada de esforços que constituirá a força invencível de sua autoridade. As crianças não demoram em discernir as divergências possíveis nas atitudes dos pais, e são notáveis diplomatas para explorá-las cm benefício de seus próprios caprichos. Decerto, pode às vezes ser penoso para o pai, que volta à casa após um dia de trabalho, ou para a mãe que teve de cuidar da casa e dos garotos, esquecerem a própria fadiga visando assegurar a “frente única” da educação, em vez de se concentrarem em si mesmos ou de apenas trocar queixas pessoais. Mas esse esquecimento de si mesmo é portador de sua própria recompensa.
Nada mais apropriado para entreter o mútuo amor dos esposos do que pôr em comum suas orações, suas preocupações, suas observações, sua afeição paterna e materna. Assim, continuam a obra inaugurada pela fundação do lar e pelo aceno à vida; colaboram na atividade criadora e redentora de Deus e, ao mesmo tempo, se educam mutuamente. Trabalhando para formar homens e cristãos, os pais encontram incessantemente na ajuda mútua que lhes é imposta, caso consintam aceitar com um só coração a tarefa comum, ocasião de se unirem mais estreitamente, com um amor mais desinteressado, mais elevado e mais rico porque mais fecundo e mais cristão, mais intimamente penetrado de caridade divina.[4]
• De passagem, um pequeno conselho: Mães, que os vossos deveres maternais não vos façam jamais esquecer vossos deveres de esposa. Pais, compreendei os cuidados de vossa mulher, o seu trabalho para que tudo corra bem, as dificuldades que encontra; dai-lhe vosso apoio e vosso estímulo.
• De quando em vez, reencontrai-vos fora de vossos filhos. Refazei uma curta viagem de núpcias; ao menos um passeio. Juntos, vosso amor reencontrará uma nova juventude para o maior bem de vossos filhos.





[1] Sua Santidade Pio XII, Alocução, 1941. Op. cit.
[2] Mons. Dupanloup, op. cit., tomo 2, pág. 298.
[3] Pr. Viollet, L'Amour éducateur, Cahiers de L’Association du mariage (mars, 1943). 
[4] Mons. Brunhes, Lettre Pastorale sur l'Éducation (26 de fevereiro de 1944).
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