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quarta-feira, 17 de abril de 2013

§A avareza/Conclusão

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.
A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey


            A avareza está em conexão com a concupiscência dos olhos, de que já falamos (n.° 199).
            Exporemos:
            1. ° a sua natureza;
            2. ° a sua malícia,
            3. ° os seus remédios.

1. ° Natureza. A avareza é o amor desordenado dos bens da terra. Para mostrar onde se encontra a desordem da avareza, importa recordar, primeiro, o fim para que Deus deu ao homem os bens temporais.
A) O fim, que Deus se propôs, é duplo: a nossa utilidade pessoal e a dos nossos irmãos.
            a) Os bens da terra são nos concedidos para ocorrerem às necessi­dades temporais do homem, tanto da alma como do corpo, para conser­varem a nossa vida e a dos que dependem de nós, e para nos darem meios de cultivarmos a inteligência e demais faculdades.
            Entre esses bens:

           1) uns são necessários para o presente ou para o futuro: é um dever adquiri-los por meio do trabalho honesto;
            2) os outros são úteis para aumentar gradualmente os nossos re­cursos, assegurar o nosso bem-estar ou o dos outros, contribuir para o bem público, favorecendo as ciências ou as artes. Não é proibido desejá-los para um fim honesto, contanto que se reserve uma parte para os pobres e para as boas obras.
            b) São-nos também dados estes bens para socorrermos os nossos ir­mãos que estão na indigência. Somos, pois, em certa medida, tesoureiros da Providência, e devemos dispor do supérfluo para assistir aos pobres.

B) Agora já nos é mais fácil mostrar onde se encontra a desordem no amor dos bens da terra.

§III. A preguiça

 Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.
A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey


            A preguiça é um vício anexo à sensualidade, porque vem, afinal, do amor do prazer, enquanto este nos leva a evitar o esforço o incômodo. Há, efetivamente, em todos nós uma atividade ao menor esforço, que nos paralisa ou diminui a atividade.   Exponhamos:

            1.º a sua natureza;
            2.º a sua malícia;
            3.º os seus remédios.

1. ° Natureza. A) A preguiça é uma tendência à ociosidade ou ao menos à negligência, ao topor na ação. Às vezes é uma disposição mórbida que vem do mau estado da saúde. As mais das vezes, porém é uma doença da vontade, que teme e recusa o esforço. O preguiçoso quer evitar qualquer trabalho, tudo quanto lhe pode perturbar o sossego e arrastar consigo fadigas. Verdadeiro parasita, vive, quanto pode, a ex­pensas dos outros. Manso e resignado, enquanto o não inquietam, impa­cienta-se e irrita-se, se o querem tirar da sua inércia.
            B) Há graus diversos na preguiça.

terça-feira, 16 de abril de 2013

§ II. A luxúria

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A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey


1. ° Natureza. Assim como quis Deus que andasse anexo um prazer sensível ao alimento, para ajudar o homem a conservar a vida, assim ligou um prazer especial aos atos pelos quais se propaga a espécie humana.
            Este prazer é, conseguintemente, permitido às pessoas casadas, con­tanto que usem dele para o nobilíssimo fim para que foi instituído o matri­mônio, a transmissão da vida; fora do matrimônio, é rigorosamente interdi­to esse prazer. A despeito dessa proibição, há infelizmente em nós, a partir sobretudo dos anos da puberdade ou da adolescência, uma tendência mais menos violenta a experimentar esse prazer, até mesmo fora do matri­mônio legítimo. É esta tendência desordenada que se chama luxúria, e é condenada em dois preceitos do Decálogo: 6.° Guardar castidade nas pala­vras e nas obras, 9.° Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos.
            Não são, pois, somente proibidos os atos externos, senão também os atos internos consentidos, imaginações, pensamentos, desejos.
          E com toda a razão: porque, se alguém se demora, de propósito deli­berado, em imagens, em pensamentos desonestos, ou em maus desejos, logo os sentidos se perturbam, produzindo-se movimentos orgânicos, que muitas vezes serão prelúdio de atos contrários à pureza. Quem quiser, pois, evitar esses atos, tem de combater pensamentos e imaginações perigosas.

2. ° Gravidade destas faltas.

ART. II. Dos pecados anexos à sensualidade / § I. Da gula

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A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey

ART. II. Dos pecados anexos à sensualidade 
§ I. Da gula


            A gula não é senão o abuso do prazer legítimo que Deus quis acom­panhasse o comer e o beber, tão necessários à conservação do indivíduo. Exponhamos:

1. ° a sua natureza;
2. ° a sua malícia;
3. ° os seus remédios.

            1.º Natureza. A gula é o amor desordenado dos prazeres da mesa, da bebida ou da comida. A desordem consiste em procurar o prazer do alimento, por si mesmo, considerando explícita ou implicitamente como um fim, a exemplo daqueles que fazem do seu ventre um deus, «quorum Deus venter est»(Fl 3,19) ou em o procurar com excesso, sem respei­tar as regras que dita a sobriedade, algumas vezes até com prejuízo da saúde.
            Os teólogos assinalam quatro maneiras diversas de faltar a essas regras:
  • Praepropere: isto é, comer antes de sentir necessidade, fora das horas marcadas para as refeições, e isto sem motivo legítimo, só para satisfazer a gula.
  • Laute et studiose: buscar iguarias esquisitas ou preparadas com de­masiado apuro, para gozar delas mais; é o pecado dos gulosos ou gastrô­nomos.
  • Nimis: é ultrapassar os limites do apetite ou da necessidade, enfar­tar-se de comida ou bebida, com risco de arruinar a saúde; é evidente que só o prazer desordenado pode explicar este excesso, que no mundo se chama glutonaria.
  • Ardenter: comer com avidez, com sofreguidão, como fazem certos animais; e esta maneira de proceder é considerada no mundo como gros­seria. 
            2. ° A malícia da gula vem de escravizar a alma ao corpo, mate­rializar o homem, enfraquecer a vida intelectual e moral, preparando-o, por um pendor insensível, ao prazer da volúpia, que, em substância, é do mesmo gênero. Para lhe determinarmos com precisão a culpabilida­de, importa fazer esta distinção.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

§ III. A ira

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A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey


         A ira é uma aberração daquele sentimento instintivo que nos leva a defender-nos, quando somos atacados, repelindo com força. Diremos:
            1. ° a sua natureza;
            2. ° a sua malícia,
            3. ° os seus remédios.

            I. Natureza da ira.

            Há ira paixão e ira sentimento.
            1.º A ira, considerada como paixão, é uma necessidade violenta de reação, determinada por um sofrimento ou contrariedade física ou mo­ral. Esta contrariedade desencadeia uma emoção violenta que distende as forças no intuito de vencer a dificuldade: sentem-se então impulsos de descarregar a cólera sobre pessoas, animais ou coisas.
            Distinguem-se duas formas principais: a cólera rubra ou expansiva nos fortes, e a cólera branca ou pálida, ou espasmódica nos fracos. Na primeira, bate o coração com violência e impele o sangue para a perife­ria: acelera-se a respiração, purpureia-se o rosto, incha o pescoço, dese­nham-se as veias sob a pele; eriçam-se os cabelos, faísca o olhar, saltam das órbitas as pupilas, dilatam-se as narinas, enrouquece a voz, entre­cortada, exuberante. Aumenta a força muscular, todo o corpo se disten­de para a luta, e o gesto irresistível fere, quebranta ou afasta violenta­mente o obstáculo. - Na cólera branca, contrai-se o coração, torna-se a respiração difícil, cobre-se a face de palidez extrema, goteja a fronte suor frio, cerram-se as maxilas, guarda-se um silêncio impressionante; mas a agitação, contida no interior, acaba por estalar brutalmente, des­carregando-se por meio de golpes violentos.
            2.º A ira, considerada como sentimento, é um desejo ardente de repelir e castigar um agressor.

            A) Há uma cólera legítima, uma santa indignação, que não é senão o desejo ardente, mas radical, de infligir aos criminosos o justo castigo. Foi assim que Cristo Senhor Nosso entrou em justa cólera contra os vendilhões que com o seu tráfico contaminavam a casa de Seu Pai; o sumo sacerdote Heli, pelo contrário, foi severamente censurado por não ter reprimido o mau procedimento de seus filhos.
            Para ser legítima, a cólera tem que ser:
a)      justa no seu objeto, não tendo em vista senão castigar a quem o merece e na medida em que o merece;
b)      moderada no seu exercício, não indo mais longe do que reclama a ofensa cometida e seguindo a ordem que demanda a justiça;
c)     caritativa na sua intenção, não se deixando arrastar a sentimen­tos de ódio, não procurando senão a restauração da ordem e a emenda do culpado. Qualquer destas condições que falte, haverá excesso repre­ensível. - É sobretudo nos superiores e pais que a cólera é legítima; mas os simples cidadãos têm por vezes direito e dever de se deixarem infla­mar de cólera santa, para defenderem os interesses da cidade e impedi­rem o triunfo dos maus; é que, efetivamente, há homens que a doçura deixa insensíveis, e nada temem senão o castigo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

IV- Os remédios do orgulho

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A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey

                   

            838. Já dissemos (n.º 27) que o remédio mais eficaz contra o orgulho é reconhecer que Deus é o autor de todo o bem, e que, por conseguinte, só a Deus pertence toda a honra e glória. De nós mesmos não somos mais que nada e pecado, e por conseguinte, não merecemos senão esquecimento e desprezo (n.º 208).

            839. 1.º- Não somos mais que nada: É esta uma convicção fundamental que os principiantes devem haurir da meditação, refletindo lentamente, à luz divina, nos pensamentos seguintes: não sou nada, não posso nada, não valho nada.

            A) Não sou nada: aprouve, é certo, à Bondade divina escolher-me entre milhões e milhões de possíveis, para me dar a existência, a vida, uma alma espiritual e imortal, e por esses benefícios devo-Lhe dar graças todos os dias. Mais:

            a) eu saí do nada, e pelo meu próprio peso tendo para o nada, aonde me precipitaria infalivelmente, se o meu Criador me não conservas: pela Sua ação incessante; o meu ser não me pertence, pois, mas é todo inteiramente de Deus, e a Deus é que eu devo fazer dele homenagem.

            b) Este ser que Deus me deu é uma realidade viva, um imenso benefício, de que jamais Lhe poderei dar graças excessivas; mas, por mais admirável que seja, este ser, comparado ao Ser divino, é um puro nada, “tanquam nihilum ante te[1], tão imperfeito é!    

           1) É um ser contingente, que poderia desaparecer, sem que nada faltasse à perfeição do mundo;
           2) é um ser de empréstimo, que não me é dado senão com a reserva expressa do soberano domínio de Deus;
           3) é um ser frágil que não pode subsistir por si mesmo e necessita de ser sustentado a cada instante por Aquele que o criou. É, pois, um ser essencialmente dependente de Deus, sem outra razão de existir mais que dar glória ao seu autor. Esquecer esta dependência, proceder como se as nossas qualidades fossem completamente nossas e envaidecermo-nos delas, é pois erro, loucura e injustiça inconcebíveis.

            840. E o que dizemos do homem na ordem da natureza, mais verdade é ainda na ordem da graça: esta participação da vida divina, que faz a minha dignidade e grandeza, é um dom essencialmente gratuito, que tenho de Deus e de Jesus Cristo, que não posso conservar muito tempo sem a graça divina, que não aumenta em mim senão com o concurso sobrenatural de Deus (n.º 126-128); é, pois, caso para dizer: “Gratias Deo super inenarrabili dono eius[2]. Que ingratidão e injustiça atribuir a si mesmo a menor parcela deste dom essencialmente divino! “Quid autem habes quod non accepisti? Si autem accepisti, quid gloria ris quasi non acceperis?[3].

            841. B) Não posso nada por mim mesmo: é certo que recebi de Deus faculdades preciosas que me permitem conhecer e amar a verdade e a bondade. Estas faculdades foram aperfeiçoadas pelas virtudes sobrenaturais e pelos dons do Espírito Santo; e mal poderíamos admirar em excesso esses dons da natureza e da graça que tão perfeitamente se completam e harmonizam. Mas de mim mesmo de minha própria iniciativa, não posso nada para pôr em ação e os aperfeiçoar: nada, na ordem natural, sem o concurso de Deus: nada, na ordem sobrenatural, sem a graça atual, nem sequer, formar um bom pensamento salutar, um bom desejo sobrenatural. E, sabendo isto poderia eu envaidecer-me destas faculdades naturais e sobrenaturais, como se elas fossem inteiramente propriedade minha? Ainda aqui seria ingratidão, loucura, injustiça.  

            842. C) Não valho nada: se considero o que Deus pôs em mim e o que em mim opera pela Sua graça não há dúvida que sou um valor: “empti enim estis pretio magno[4]... tanti vales quanti Deus: valho o que custei e custei o sangue de Deus!” Mas a honra da minha redenção e santificação é a mim que deve referir-se ou e a Deus? A resposta não pode oferecer a menor dúvida. - Apesar de tudo, diz o amor próprio vencido, ainda tenho alguma coisa que é minha e me dá valor: é o meu livre consentimento ao concurso e a graça de Deus. Certo que temos nisso alguma parte, mas não a principal: esse livre consentimento não é mais que o exercício das faculdades que Deus nos deu gratuitamente, e, no próprio momento em que o damos, é Deus que opera em nós, como causa principal: “operatur in nobis et velle et perficere[5] E, por uma vez que consentimos em seguir o impulso da graça, quantas vezes lhe resistimos, quantas vezes não cooperamos com ela senão imperfeitamente! Verdadeiramente que não temos neste ponto nada de que nos ufanar, senão de que nos humilhar.
            Quando um grande mestre pintou uma obra-prima, é a ele que atribuímos e não aos artistas da terceira ou quarta ordem que foram seus colaboradores. Com mais força de razão devemos atribuir os nossos méritos a Deus, como causa primária e principal, pois que segundo canta a Igreja, depois de Santo Agostinho, Deus coroa os seus dons, quando
coroa os nossos méritos, “coronando merita caronas dona tua[6].
            Assim pois, seja qual for a luz a que nos consideremos, seja qual for o preço imenso dos dons que há em nós, e até mesmo dos nossos próprios méritos, não temos o direito de nos jactarmos deles, mas o dever de os referir a Deus na mais sentida homenagem de ação de graças, pedindo-lhe ao mesmo tempo perdão do mau uso que deles temos feito.

            843. 2.º- Sou pecador, e, como tal, mereço o desprezo, todos os desprezos com que aprouver a Deus esmagar-me. Para disso nos convencermos, basta recordar o que dissemos do pecado mortal e venial.

            A) Se tive a infelicidade de cometer um só pecado mortal, mereço eternas humilhações, pois que mereci o inferno. Posso ter, é certo, a doce confiança de que Deus já me perdoou; mas nem por isso deixa de continuar a ser verdade que cometi um crime de lesa-majestade divina uma espécie de deicídio e suicídio espiritual (n.º 719), e que, para expiar a ofensa à Majestade divina, devo estar disposto a aceitar, a desejar até todas as humilhações possíveis, as maledicências, as calúnias, as injúrias, os insultos: tudo isso fica muito aquém do que merece aquele que uma só vez ofendeu a infinita Majestade de Deus. E, se O ofendi muitas vezes, qual não deve ser a minha resignação, a minha alegria até, quando tenho ocasião de expiar os meus pecados por meio de opróbrios de curta duração!?

            844. B) Todos nós temos cometido pecados veniais, e, sem dúvida, de propósito deliberado, preferindo a nossa vontade e o nosso prazer à vontade e glória de Deus. Ora isto, como dissemos (n.º 715), é uma ofensa à Majestade divina, ofensa que merece humilhações tão profundas que, nem mesmo com uma vida inteira passada na prática da humildade, poderíamos por nós mesmos restituir a Deus toda a glória de que injustamente O despojamos.
            Se a alguém parecer exagerada esta linguagem, lembre-se das lágrimas e penitência austera dos Santos, que não tinham cometido senão faltas veniais, e que nunca se podiam persuadir que faziam demais para purificar a sua alma e reparar os ultrajes infligidos à Majestade divina. Estes Santos viam nisto mais claro do que nós; se não pensamos como eles, é porque estamos obcecados pelo orgulho.
            Devemos, pois, como pecadores, não somente não procurar a estima dos outros, mas desprezar-nos a nós mesmos e aceitar todas as humilhações que a Deus aprouver enviar-nos.



[1] Sl., 38, 6.
[2] II Cor., 9, 15.
[3] I. Cor., 4, 7.
[4] I. Cor., 4, 7.
[5] Fl., 2, 13.
[6] Prefácio de todos os Santos.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

III. A malícia do orgulho

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A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey

         

            Para bem se julgar desta malícia, pode-se considerar o orgulho em si mesmo ou nos seus efeitos.

            832. 1.º - Em si mesmo: A) O orgulho propriamente dito, o que consciente e voluntariamente usurpa, ainda mesmo implicitamente, os direitos de Deus, é pecado grave, o mais grave até dos pecados, diz Santo Tomás, porque não se quer submeter ao supremo domínio de Deus.

            a) Assim, querer ser independente, recusar obediência a Deus ou aos Seus representantes legítimos em matéria grave, é pecado mortal, porque é revoltar-se contra Deus, nosso legítimo soberano.
            b) É falta grave também atribuir-se a si mesmo o que vem manifestamente de Deus, sobretudo os dons da graça, porque é negar implicitamente que Deus seja o primeiro princípio de todo o bem que há em nós. Muitos contudo o fazem, dizendo, por exemplo: eu sou filho das minhas obras.
            c) Peca ainda gravemente quem quer operar para si, com exclusão de Deus, porque isso equivale a negar-Lhe o direito de ser nosso último fim.

            833. B) O orgulho atenuado que, conquanto reconheça a Deus como primeiro princípio e último fim, Lhe não dá tudo o que Lhe é devido, antes Lhe rouba implicitamente uma parte da Sua glória, é falta venial bem caracterizada. Tal é o caso dos que se gloriam das suas boas qualidades e virtudes, como se estivessem persuadidos que tudo isso lhes pertence como próprio; ou então o dos que são presunçosos, vaidosos, ambiciosos, sem contudo fazerem nada que seja contrário a uma lei divina ou humana em matéria grave. Podem contudo estes pecados degenerar em mortais, impelindo-nos a atos gravemente repreensíveis. Assim a vaidade, que em si não passa de falta venial, torna-se grave, quando leva a contrair dívidas que se não poderão pagar, ou a excitar-nos outros amor desordenado. É preciso, pois, examinar também o orgulho nos seus resultados.

            834. 2.º- Em seus efeitos: A) O orgulho que se não reprime chega por vezes a efeitos desastrosos. Quantas guerras não foram ateadas pelo orgulho dos governantes e às vezes dos mesmos povos? Sem ir tão longe, quantas divisões nas famílias, quantos ódios entre particulares se devem atribuir a este vício? Os Santos Padres ensinam com razão que ele é a raiz de todos os outros vícios, e que ademais corrompe muitos atos virtuosos, porque nos leva a praticá-los com intenção egoísta.

            835. B) Encarando esses efeitos pelo lado da perfeição, que é o que nos interessa, pode-se dizer que o orgulho é o seu maior inimigo, porque produz em nossa alma uma lastimosa esterilidade e é fonte de numerosos pecados.
            a) Priva-nos, efetivamente, de muitas graças e merecimentos:

            1) De muitas graças, porque Deus, que dá com liberalidade a Sua graça aos humildes, recusa-a aos soberbos: Deus superbis resistit, humilibus autem dat gratiam[1]. Pesemos bem estas palavras, Deus resiste aos soberbos, porque diz M. Olier[2], como o soberbo ataca diretamente e aborrece a soberania divina, Deus lhe resiste às pretensões insolentes e horríveis “e, como se quer conservar no que é, abate e destrói o que se ele contra Si”.
            2) De muitos merecimentos: uma das condições essenciais do mérito é a pureza de intenção; ora o orgulhoso opera para si, ou para agradar aos homens, em lugar de trabalhar para Deus e assim merece a censura dirigida aos Fariseus, que faziam as suas boas com ostentação, para serem vistos dos homens, e, por esta razão, não podiam esperar recompensa de Deus “alioquin mercedem non habebitis apud Patrem vestrum qui in caelis est ... amen, amen, dico vobis, receperunt mercedem suam”.[3]

            836. b) É, além disso, fonte de numerosas faltas:

            1) faltas pessoais: por presunção, expõe-se um ao perigo em que sucumbe: por orgulho, não quer ceder instantemente as graças de que precisa, e cai; depois vem o desalento correndo até perigo de dissimular os pecados na confissão;
            2) faltas contra o próximo: por orgulho, não se quer ceder, ate mesmo quando se não tem razão, empregam-se a picuinhas mordazes na conversação, travam-se discussões ásperas e violentas que acarretam dissensões e discórdias; daí, palavras amargas, injustas até, contra os rivais, para os abater, críticas acerbas contra os superiores, recusa de obedecer às suas ordens.

            837. c) É, enfim, uma causa de infelicidade para quem cede habitualmente ao orgulho: como o orgulhoso quer ser grande em tudo e dominar os seus semelhantes, para ele deixa de haver mais paz e repouso. E na verdade, como por um lado não pode sossegar, enquanto não consegue triunfar de seus rivais, e por outro jamais o consegue completamente, vive perturbado, agitado, infeliz. Importa, pois buscar remédio para este vício tão perigoso.



[1] Tg., 4,6.
[2] Introduction, ch. VI. I. re Sect.
[3] Mt., 6,12.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

II. Os defeitos que nascem do orgulho

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.

A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey




            Os principais são a presunção, a ambição e a vanglória.

            827. 1.º- A presunção é o desejo e a esperança desordenada de querer fazer coisas além das próprias forças. Nasce de ter o homem opinião demasiado subida de si mesmo, das suas faculdades naturais da sua ciência, forças, virtudes.

            a) Sob o aspecto intelectual, crê-se o presunçoso capaz de discutir e resolver os mais intrincados problemas, as questões mais árduas ou ao menos, de empreender estudos em desproporção com os seus talentos. - Persuade-se facilmente que tem muita discrição e sabedoria, e, em vez de saber duvidar, decide com entono as questões mais controversas.
            b) Sob o aspecto moral, imagina que tem bastante luz para se guiar e que não há grande utilidade em consultar um diretor. - Persuade-se que, apesar das faltas passadas, não tem que temer recaídas, e lança-se imprudentemente nas ocasiões de pecado, em que sucumbe; daí desânimos e despeitos que são muitas vezes causa de novas quedas.
            c) Sob o aspecto espiritual, é mais que medíocre o seu gosto das virtudes ocultas e crucificantes, prefere as virtudes brilhantes; e, em vez de construir sobre o fundamento sólido da humildade, afaga sonhos de grandeza de alma, força de caráter, magnanimidade, zelo apostólico, triunfos imaginários com que a fantasia doira o futuro. Logo, porém, às primeiras tentações graves se percebe quão fraca e vacilante é ainda a vontade. Às vezes chegam-se até a menosprezar as orações comuns e as que se acoimam de pequenas práticas de piedade; tem aspirações talvez a graças extraordinárias, quem ainda está nos princípios da vida espiritual.

            828. 2.° Esta presunção, junta ao orgulho, gera a ambição, isto é, o amor desordenado das honras, das dignidades, da autoridade sobre os outros. Como presume demasiado das próprias forças e se julga superior aos demais, quer o ambicioso dominá-los, governá-los, impor-lhes as suas próprias idéias.
            A desordem da ambição pode-se manifestar de três maneiras, diz Santo Tomás[1]:

            1) buscando as honras que se não merecem e ultrapassam os nossos meios;
            2) buscando-as para si, para a própria glória, e não para a glória de Deus;
            3) parando no gozo das honras por si mesmas, sem as fazer servir ao bem dos outros, em contrário da ordem estabelecida por Deus, que exige que os superiores trabalhem pelo bem dos inferiores.
            Esta ambição estende-se a todos os campos:

       1) ao campo político, em que o ambicioso aspira a governar os outros, e muitas vezes à custa de quantas baixezas, de quantos compromissos, de quantas covardias que cometem, para obterem os votos dos eleitores;
          2) ao campo intelectual, procurando com obstinação impôr aos outros as próprias idéias, até mesmo nas questões livremente controvertidas;
         3) à vida civil, buscando com avidez os primeiros lugares, as funções de mais brilho, as homenagens da multidão;
        4) e até mesmo a vida eclesiástica; pois, como diz Bossuet, “quantas precauções se houveram de tomar, para impedir nas eleições, até mesmo eclesiásticas e religiosas, a ambição, as intrigas, os enredos, as solicitações secretas, as promessas e os manejos mais criminosos, os pactos simoníacos e os outros desmandos tão comuns nesta matéria, e Deus sabe se com tudo isso se terá conseguido pouco mais que encobrir ou paliar esses vícios, longe de se haverem inteiramente desarraigado”. E, como nota São Gregório, não passam assim as coisas, até mesmo entre os membros do clero, que querem ser chamados doutores e procuram avidamente os primeiros lugares e os cumprimentos? É, pois, mais comum do que se poderia julgar à primeira vista este defeito, que se relaciona também com a vaidade.

            829. 3.° A vaidade é o amor desordenado da estima dos outros.
            Distingue-se do orgulho, que se compraz na sua própria excelência. Mas geralmente a vaidade deriva do orgulho: quem se estima a si mesmo de maneira excessiva, deseja naturalmente ser estimado dos outros.

            830. A) Malícia da vaidade. Há um desejo de ser estimado que não é desordem: desejar que as nossas qualidades, naturais ou sobrenaturais, sejam reconhecidas, para Deus ser por elas glorificado e a nossa influência para o bem ser por esse modo aumentada, em si não é pecado. A ordem pede, efetivamente, que o bem seja estimado, contando que se reconheça que Deus é o autor de todo o bem e que só Ele deve Ser por isso louvado e engrandecido. Quando muito, pode-se dizer que é arriscado demorar o pensamento em desejos desses, porque se corre perigo
de desejar a estima dos outros para fins egoístas.
            A desordem consiste, pois, em querer ser estimado por si mesmo sem referir essa honra a Deus, que em nós pôs tudo quanto há de bom: ou em querer ser estimado por coisas vãs que não merecem louvor; ou enfim em procurar a estima daqueles, cujo critério não tem valor, dos mundanos, por exemplo, que não apreciam senão as coisas vãs.
            Ninguém descreveu melhor este defeito que São Francisco de Sales: “Chamamos vã a glória que nos atribuímos, ou por coisa que não existe em nós, ou por coisa que está em nós, mas não é nossa, ou por coisa que está em nós e é nossa, mas que não merece que dela nos gloriemos. A nobreza da raça, o favor dos grandes, a honra popular, são coisas que não estão em nós, senão em nossos predecessores ou na estima de outrem. Há quem todo se envaideça e pavoneie, por se ver em cima dum bom cavalo, por levar um penacho no chapéu, por estar vestido suntuosamente, mas quem não vê esta loucura? É que, se há glória nessas coisas, essa glória é para o cavalo, para a ave ou para o alfaiate... Outros miram-se e remiram-se, por terem o bigode frisado, a barba bem penteada, os cabelos anelados, mãos muito finas, por saberem dançar, tocar, cantar; mas não será de ânimo vil, querer encarecer o seu valor e acrescentar a reputação com coisas tão frívolas e ridículas? Outros, por um pouco de ciência, querem ser honrados e respeitados do mundo, como se cada qual tivesse obrigação de ir à escola a casa deles e tê-los por mestres; é por isso que os chamam pedantes. Outros narcisam-se extasiados na própria formosura e crêem que toda a gente os galanteia. Tudo isto é extremamente vão, insensato e impertinente, e a glória que se toma de tão fracos motivos chama-se vã, louca e frívola”.

            831. B) Defeitos que derivam da vaidade. A vaidade produz vários defeitos, que são como a sua manifestação exterior; em particular a jactância, a ostentação e a hipocrisia.
            I) A jactância é o hábito de falar de si ou do que pode reverter em seu favor, no intuito de se fazer estimar. Há alguns que falam de si mesmos, de sua família, de seus triunfos com uma candura que faz sorrir aos que escuta; outros têm uma habilidade rara para fazerem deslizar a conversa para um assunto em que possam brilhar; outros ainda falam timidamente dos seus defeitos com a esperança secreta de que os desculparão, pondo em relevo as suas boas qualidades.
            2) A ostentação consiste em atrair sobre si a atenção por certas maneiras de proceder, pelo fausto que alardeia, pelas singularidades que dão o que falar.
            3) A hipocrisia toma os exteriores ou as aparências da virtude, ocultando sob essa máscara vícios secretos muito reais.



[1] Sum. Theol., II-II, q. 131 a.1.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Orgulho e os vícios anexos

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.

A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey


§ I. O orgulho em si mesmo

820. O orgulho é um desvio daquele sentimento legítimo que nos leva a estimar o que há de bom em nós, e a procurar a estima dos outros na medida em que ela é útil às boas relações que devemos manter com eles. Não há dúvida que podemos e devemos estimar o que Deus pôs em nós de bom, reconhecendo que Ele é o primeiro princípio e o último fim de tudo: é um sentimento que honra a Deus e nos leva a respeitar-nos a nós mesmos. Pode-se, outrossim, desejar que os outros vejam esse bem, que o apreciem e dêem por ele glória a Deus, do mesmo modo que devemos reconhecer e estimar as qualidades do próximo: esta mútua estima não faz senão favorecer as boas relações que existem entre os homens.
Mas pode haver desvio ou excesso nestas duas tendências. Por vezes esquece o homem que Deus é autor desses dons, e atribui-os a si mesmo: o que é evidentemente desordem, porque é negar, ao menos implicitamente, que Deus é o nosso primeiro princípio. Assim mesmo, pode alguém ser tentado a operar para si próprio, ou para ganhar a estima dos outros, em lugar de trabalhar para Deus e de lhe referir toda a honra do que faz: é também desordem, porque é negar, implicitamente ao menos, que Deus é o nosso último fim. Tal é a dupla desordem que se encontra neste vício.
Pode-se, pois, definir: um amor desordenado de si mesmo que faz que o homem se estime explícita ou implicitamente, como se fosse o seu primeiro princípio ou último fim. E uma espécie de idolatria, porque o homem se considera como o seu próprio Deus, segundo faz notar Bossuet (n.º 204). - Para melhor combatermos o orgulho, exporemos:

1.º- as suas formas principais;
2.º- os defeitos que ele gera;
3.º- a sua malícia;
4.º- os seus remédios.

I. As principais formas do orgulho

821. 1.º A primeira forma consiste em se considerar a si mesmo o homem, explícita ou implicitamente, como seu primeiro princípio.
A) Há relativamente poucos que explicitamente se amem de forma tão desordenada que cheguem a considerar-se primeiro princípio de si mesmos.
a) É o pecado dos ateus que voluntariamente rejeitam a Deus, por não quererem senhor; ni Dieu, ni maitre. É deles que fala o Salmista, quando assevera: “Disse o insensato em seu coração: não há Deus. Dixit insipiens in corde suo: non est Deus[1]. Foi equivalentemente o pecado de Lúcifer, que, pretendendo ser autônomo, recusou submeter-se a Deus; o dos nossos primeiros pais, que, desejando ser como deuses, quiseram conhecer por si mesmos o bem e o mal; o dos hereges, que, como Lutero, se negaram a reconhecer a autoridade da Igreja estabelecida por Deus; e o dos racionalistas que, ufanos da própria razão, não querem submetê-la à fé. É, outrossim, o pecado de certos intelectuais, que, demasiadamente orgulhosos para aceitarem a interpretação tradicional dos dogmas, os atenuam e deformam, para os harmonizarem com as suas exigências.

822. B) É maior o número dos que caem implicitamente neste defeito, procedendo como se os dons naturais e sobrenaturais, que Deus nos liberalizou, fossem completamente nossos. Reconhece-se, é verdade, em teoria que Deus é o nosso primeiro princípio; mas na prática, tem-se da própria pessoa uma estima desmesurada, como se cada um fosse autor das qualidades que possui.
a) Há quem se compraza nas suas qualidades e merecimentos, como se fosse único autor deles: “A alma, vendo-se bela, diz Bossuet, deleitou-se em si mesma e adormeceu na contemplação da própria excelência: deixou um momento de se referir a Deus: esqueceu a própria dependência; primeiramente demorou-se e depois entregou-se a si mesma. Mas, procurando ser livre até se emancipar de Deus e das leis a Justiça tornou-se o homem cativo do seu pecado”.        

823. b) Mais grave é o orgulho dos que se atribuem a si mesmo a prática das virtudes como os Estóicos; dos que imaginam que os dons gratuitos de Deus são frutos dos nossos merecimentos e que as nossas boas obras nos pertencem mais que a Deus, quando em realidade é Ele a sua causa principal; ou enfim, dos que nelas se comprazem como se fossem unicamente suas.

824. C) É este mesmo princípios que faz que o orgulhoso exagere as suas qualidades pessoais.

a) Fecham-se os olhos sobre os próprios defeitos, e remiram-se as qualidades com óculos de aumento; por esse processo chega o homem a atribuir-se qualidades que não possui ou que ao menos não têm mais que a aparência da virtude; e assim é que, dando esmola por ostentação, julgará que e caritativo, quando não passa de orgulhoso; imaginará que é um santo, porque tem consolações sensíveis, ou escreveu belos pensamentos ou excelentes resoluções, quando na realidade está ainda nos primeiros degraus da escala da perfeição. Outros crêem ter uma grande alma, porque fazem pouco caso das pequenas regras, querendo-se santificar pelos grandes meios.
b) Daí a preferir-se injustamente aos demais não vai mais que um passo: examinam-se à lente os defeitos alheios, nos próprios nem se sonha; vê-se o argueiro nos olhos do vizinho, nos próprios não se enxerga a trave. Por este caminho chega muitas vezes o orgulhoso, como o Fariseu, a desprezar os irmãos; outras, sem ir tão longe rebaixa-os injustamente no próprio conceito, julgando-se melhor que eles, quando na realidade lhes é inferior. Do mesmo princípio vem procurar dominar os demais e fazer reconhecer a sua superioridade sobre eles.
c) Com relação aos Superiores, traduz-se o orgulho pelo espírito de crítica e revolta, que leva a espiar os seus mais pequeninos gestos ou passos, para os censurar: quer-se julgar, sentenciar de tudo. Deste modo se torna muito mais difícil a obediência; sente-se enorme dificuldade em acatar a sua autoridade e decisões, em pedir-lhes as licenças necessárias; aspira-se à independência, isto é, em última análise, a ser seu primeiro princípio.

825. 2.º A segunda forma do orgulho consiste em se considerar um a si mesmo explícita ou implicitamente como seu último fim, fazendo as próprias ações sem as referir a Deus e desejando ser louvado, como se elas fossem completamente suas. Este defeito deriva do primeiro; pois, quem se considera como seu primeiro princípio, quer ser também seu último fim. Aqui seria mister renovar as distinções já feitas.
A) Explicitamente, pouquíssimos são os que se consideram seu último fim, exceto os ateus e os incrédulos.
B) Muitos são, porém, os que procedem na prática, como se estivessem imbuídos desse erro.
a) Querem ser louvados, cumprimentados pelas suas boas obras, como se fossem os seus autores principais e tivessem o direito de proceder por sua conta, para satisfação da própria vaidade. Em lugar de referirem tudo a Deus, entendem antes que devem receber felicitações pelos seus pretensos triunfos, como se tivessem direito a toda a honra que daí provém.
b) Procedem por egoísmo, pelos próprios interesses, dando-se-lhes muito pouco da glória de Deus, e ainda menos do bem do próximo. E assim, vão até o excesso de imaginar praticamente que os outros devem organizar a sua vida para lhes agradarem e prestarem serviço; fazem-se assim centro e, a bem dizer, fim dos demais. Não será isto usurpar inconscientemente os direitos de Deus?
c) Sem irem tão longe, há pessoas piedosas, que se buscam a si mesmas, se queixam de Deus, quando Ele as não inunda de consolações, se desalentam, quando se vêem na aridez, e imaginam assim falsamente que o fim da piedade é gozar das consolações, sendo que em realidade a glória de Deus deve ser o nosso fim supremo em todas as ações, mas sobretudo na oração e nos exercícios espirituais.

826. É, pois, forçoso confessar que o orgulho, sob uma ou outra forma, é defeito muito comum, até mesmo entre as pessoas que se dão à perfeição, defeito que nos segue através de todas as fases da vida espiritual e que só conosco morrerá. Os principiantes quase nem sequer dão por ele, porque não se estudam assaz profundamente. Importa chamar-lhes a atenção para este ponto, indicar-lhes as formas mais ordinárias deste defeito, para as tomarem por matéria do exame particular.



[1] Sl 13,1.- 2- Tr. de la Concupiscense, ch XI