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sábado, 28 de setembro de 2013

O BOM COMBATE NA ALMA GENEROSA - Parte XVI

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.

O BOM COMBATE 
NA
ALMA GENEROSA

Missionárias de Jesus Crucificado de Campinas



Falai, Senhor, que a Vossa serva Vos ouve.

Escuta, filha, o que Vos vou dizer. Vou ensinar-vos que a ciência das ciências é Me amar.

Ensina-me, Senhor, Vós bem sabeis que nada sei; tende de mim compaixão.

Quanta bondade, ó meu Deus, tendes usado para comigo. Vendo minha ignorância, Vos compadecestes de mim! Oh! Senhor, como sois caridoso, a Vossa caridade é infinita! Em troca disso, que Vos darei, ó meu Deus? Ah! miserável como sou, nada tenho a não ser miséria! Lembrei-me nesta hora que tenho a minha vontade, que desde a muito Vos pertence, porém, como gostais de ver as almas renovar esta oferta, eis, Senhor, que hoje, mais uma vez Vos dou, para sempre, meu coração!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

XI – QUARTA PALAVRA: O DESAMPARO

XI – QUARTA PALAVRA: O DESAMPARO


De todas as horas dolorosas, a mais cruel é a em que o homem vê a solidão fazer-se em torno de si. Quer nos venha bruscamente após uma desgraça, quer, antes, nos invada em seguimento à velhice: poucos escapam a esse isolamento dos últimos dias, e as vidas mais felizes naufragam finalmente na indiferença dos homens e das coisas.

Que contraste, então, entre a agitação, a solicitude, as lisonjas do começo, e os abandonos do fim!

Todos aqueles a quem amamos já se foram, e os que nos rodeiam não nos hão conhecido; nada mais recebemos, muito é se temos a quem dar; aliás, é tarde demais para atar relações que a morte deverá romper tão em breve, e a gente encerra penosamente a sua carreira como um estranho numa terra que nos vai fugir. É o desamparo final. É o último golpe que Deus vibra no nosso instinto, que se apegava a tudo o que respirava vida e movimento, a tudo quanto reputávamos a felicidade.

Jesus quis, na Sua Paixão, experimentar essa dolorosa solidão: mas, neste caso como em todos os demais, Ele não vibrou em Si mesmo os golpes a meio, porém levou tão longe quanto possível a crueldade do desamparo: era preciso.

Começou por operar em torno de Si esse desamparo de maneira fulminante.

Dentro em vinte e quatro horas faz-se uma desagregação súbita e imprevista em tudo o que se edificava a Seus lados; pode-se dizer que houve no fim da Sua vida uma verdadeira catástrofe: Ele caiu sem transição do triunfo no desprezo, e com rapidez assombrosa.

Ei-lO na Cruz: está no fim das Suas três horas de agonia, as trevas já O envolvem como as sombras do túmulo, mas se pode distingui-lO naquele patíbulo que é o Seu derradeiro leito, o Seu derradeiro pouso, o Seu derradeiro bem. Ele já não está na terra, mas também não está no céu, está suspenso de pregos, retido numa vida expirante por chagas alargadas.

Há quarenta e oito horas apenas, Ele não apareceria nas ruas de Jerusalém que não fosse aclamado por todos; ufanos de um mestre cuja fonte já se nimbava com a coroa real, os Seus discípulos caminhavam de fronte erguida... Mas, hoje, onde estão? Que resta deles? Um em doze. O povo renegou-O, os sacerdotes entregaram-nO, tudo se voltou contra Ele, e Ele próprio, para acrescentar os últimos traços a esse supremo desamparo, acaba de Se desfazer de Sua Mãe.

Nada mais tem: resta-Lhe, porém, Seu Pai do céu.

É exatamente no momento em que nada mais tem que o homem reduzido a esses cruéis apuros compreende e sente que Deus é tudo. A sua voz ganha então acentos que penetram o céu, e o seu olhar mortiço reveste, pelo desprezo que ele faz dos homens, um lume de dignidade e de grandeza incomparáveis.

Quando o Papa Bonifácio VIII, uma das mais alevantadas imagens do poder pontifício, viu-se, na idade de oitenta anos, abandonado por todos os cardeais e entregue aos seus inimigos, ei-lo que subitamente se reanima: na sala vazia e erma, de onde todos haviam fugido, restavam-lhe o seu trono: sentou-se nele com todas as exterioridades da majestade pontifícia, e ali, assistido por um cardeal e por um religioso – os únicos fiéis, - de tiara à cabeça, de cruz na mão, Rei supremo e grande apesar de tudo, enquanto as portas cediam sob a pressão brutal e sacrílega dos enviados de Filipe de França, ele exclamava: “Ao menos quero morrer como Papa...” Almeno vaglio morire come Papa.

Poucas atitudes tão altivas, e todos, amigos ou inimigos, se inclinam ante essa grandeza que morre de pé.

O que dá essa coragem é, com a visão claríssima da injustiça e da covardia dos homens, a consciência da nossa integridade e também a confiança num Deus que tudo vê: e então naturalmente os nossos olhos se elevam para o alto, apelando para Aquele que é a própria justiça.

Todos estes sentimentos e outros ainda mais vivos já os experimentara Jesus no curso tão agitado da Sua vida pública: quanta vez, para Se justificar, Ele invocara Seu Pai do céu, e o Pai Lhe respondera!

Hoje, pois, nesta hora suprema e túrbida da Paixão, neste exato ponto a que chegou, abandonado de todos, entregue, perdido, sem socorro de fora, moribundo a quem nada pudera já proteger: é o momento de Se volver perdidamente para o céu distante, onde Ele é sempre ouvido.

E eis aí por que, num derradeiro esforço, por um último instinto, Ele soergue a fronte pesada, abre os olhos apesentados, pra procurar lá em cima, como um esteio supremo, Seu Pai.

E Este Lhe faltou.

No momento decisivo, o apoio procurado fugia-Lhe: e o seio daquele Pai, que ainda ontem se abria aos Seus menores desejos, vai fechar-se inexoravelmente àquele que Se dignou de fazer-Se “Pecado” por nós (2 Cor. 5,21).

Os homens jamais provarão tão cruel desamparo. A hora escura do fim ilumina-se, não raro, para eles de uma radiação da bondade celeste; quando tudo nos há fugido, quando tudo nos abandona, quando os nossos passos já não têm nem luz nem arrimo: é então que, nessa noite suprema, se levanta para nós, no fundo da nossa estrada, qual derradeiro sol, o coração de nosso Pai do céu.

Não há pecador, por mais criminoso que seja, que, apelando para o Deus, não ouça logo o Pai que Lhe responde.

Assim não foi, porém, na noite do Calvário.

São quase três horas. Há duas horas e meia eu Cristo Se engolfou num silêncio tão profundo quanto às trevas que O circundam. Que fazia Ele nesse grande silêncio? Porque, nem mesmo ao redor dEle, o quer que seja que ouse perturbá-lO.

O ladrão perdoado calou-se; o ladrão pecador a custo tartamudeia as suas antigas blasfêmias, hebetado pelo sofrimento, pelo pavor e pela noite.

O povo aos poucos retirou-se. Os fariseus bem que perpassam ainda ao pé da Cruz, ao trote espantado das suas mulas, para verem o estado da vítima: mas já não ousam escarnecer tão abertamente. Os próprios soldados falam mais baixo, e Maria, arrimada ao Seu novo filho, olha estupefata para o antigo que fecha os olhos e Se cala.

Que silêncio, que lúgubre pesadume naquele ar escurecido, que assombro circula em volta aos três patíbulos!

E Jesus, qual afogado que perde o pé e se submerge pouco a pouco num mar profundo, Jesus parece desaparecer e abismar-se naquele silêncio solene. Que procurava Ele então nesse silêncio?

Procurava a Deus, Seu Pai: - “Meu Pai, Eu sei que Vós Me escutais sempre”. Na Sua derrocada geral, quer-se-Lhe, pois apegar, porque dEle é que espera a palavra de paz e de lenitivo que Lhe recusam os homens.

E espera, e nada vem, nem mesmo um anjo como ontem à noite no momento da agonia. E as águas sobem, parece que a onda passou por sobre Jerusalém, que o dilúvio voltou com a sua marcha ascendente e irresistível. O desamparo avança, estreita-O; banha o Calvário, já cobriu quantos Se Lhes agitavam ao pé: Madalena, João, Sua Mãe, tudo desapareceu. Quando Ele abre os olhos amortecidos pelo pranto e pelo sangue, vê só negror, confusão, horror; e tudo isto sobe sempre, sobe incessantemente. Eis que o Seu peito sagrado é atingido; alguns instantes mais, e a vaga passada, atulhada dos destroços de toda a humanidade pecadora, vai-se-Lhe embater contra o semblante.

- Ó Pai, ó Pai, exoro-Vos e Vós não Me ouves, peço-Vos socorro e Vós não Me ajudas: mutatus es mihi in crudelem (Job. 30,21); como Vos tornaste cruel para comigo, as Vossas delícias e as Vossas complacências!

E, a onda sobe sempre; e Ele não pode fugir, está cravado, e sente aquela morte lenta que O assalta e O sufoca.

- Ó Pai!...

Se Jesus Cristo fosse um simples homem, depois de sentir a terra toda refugá-lO, os Seus abandoná-lO, e o próprio céu extinguir os seus raios luminosos e a sua suprema esperança, teria caído então no abismo sem fundo do desespero.

Se Lhe não experimentou as irremediáveis feridas, por isto que a divindade retinha em suas garras poderosas a sua humanidade desfalecente e nas últimas, experimentou-lhe pelo menos todos os sombrios horrores, e, no momento em que a onda negra que tudo invadira em volta dEle subiu tanto que Lhe tocou os lábios, a garganta estrangulada pelo pavor, pelo tédio e pela ânsia derradeira, teve um soluço que lançou na noite da natureza e na de todos os corações este apelo desolado e pungente:

- Meu Deus! Meu Deus! porque então também Vós Me abandonastes?...

Este lamento dilacerador perdeu-se no horror do silêncio, como um último apelo do homem que soçobra sem esperança no fundo das ondas. Estava acabado.

- Não. – Não queria ouvi-lO? – Não. – Repudiava-O então? – Certamente. E, antes que Lhe estender a mão para O retirar daquele mar medonho, ter-Se-ia inclinado sobre aquele agonizante e tê-lO-ia mergulhado nEle.

Ó Senhor, como Vos tornaste cruel para com Ele!

Assim O queria a hora e o peso da justiça eterna.

Ao de fora só se ouviu o grito desesperado do moribundo; por dentro, Jesus continuava as Suas queixas dolorosas: os profetas conservaram-nos esses gritos da Sua angústia que persistiam em subir para o coração fechado do Pai piedoso.

- “Ah! dizia Ele (Sl. 21, Comentário de Bossuet), eu choro, rujo sem esperança: aos outros Vós escutáveis no entanto; outrora, bastou que Meu pai Abraão Vos rogasse, e Vós lhe entregáveis cinco reis. Isaac, Jacob, José, Moisés, os Israelitas no deserto, a todos os escutáveis, mas a Mim!... será porque Me tornei um verme desprezível, contorcido pela dor? Ai! Já nem sou um homem, sou a vergonha do povo... eles se riem todos à volta de Mim: e Vós Vos calais! Neste dia de horror Me abandonais: ter-Me-ia Eu feito desprezível aos Vossos olhos por estar imerso num incrível pavor?

“Dantes Vós Me protegíeis; desde o Meu nascimento um anjo me abria o Egito, outro dali Me fazia volver; outros Me serviam no deserto; ontem havia um para me fortificar: e hoje quem é que está em torno de Mim?

“Touros, leões, feras encarniçadas; os homens são como caçadores que Me perseguem; pois bem, vede: a caça está encurralada, acuada, não pode mexer-Se, a matilha estraçalha-A: e Vós Vos calais!

“Meu Deus, Meu Deus, olhai para Mim, serei bastante digno de pena? Quid dicam? Já nem seio o que dizer!... Pater, salvifica me ex hac hora: Pai, salvai-Me, salvai-Me desta hora: eu não posso nada por Mim. Escorro como água, derreto-Me como cera, estou desconjuntado, as Minhas juntas não se agüentam mais, toda a Minha força secou... já nem sequer posso falar-Vos...

E aquela cabeça tornava a pender, esmagada pelo horror, e aquele rosto espavorido não sabia onde deter os olhares desolados.

Haverá mais incrível desamparo? Era preciso.

E é esta terrível necessidade que causa o desespero misterioso e divino de Jesus.

O desespero provém, com efeito, de uma possibilidade e de uma impossibilidade, e é do conflito violento destas duas realidades que brota a dor intensa do desespero.

- Eu poderia ter evitado esta horrível desgraça, chama O desesperado, e eis que já não posso sair dela: este será o verme eterno dos réprobos.

- Poderia ter-Me subtraído a esta horrível fiança pelos pecadores, exclama Jesus na Cruz: a escolha Me era deixada, e Eu quis atirar-Me neste mar sem fundo: e dele já não posso sair.

Podia não beber esta taça envenenada, o veneno requeima-Me as entranhas e seca-Me o sangue, e Eu não posso mais vomitá-lo. Os pecadores da humanidade estão pregados na Minha carne como a Minha carne está pregada na Cruz. Eu podia escapar à justíssima cólera de Deus, e fui Eu quem a chamou sobre Mim: tenho de suportá-la toda.

Eis o que podia dizer consigo mesmo o Cristo, e, como última conseqüência, devia Ele acrescentar – e era a mais atroz dentada do desespero:

- “Não só não posso ter nenhum socorro humano, mas já nem sequer mereço o socorro divino”.

Não se pode ir mais longe: abandonado dos homens, abandonado de Deus!

- Oh! como! Senhor meu, também Vós Me rejeitais? Depois disto, que mais poderia Eu esperar?

Há está diferença entre a agonia do horto e a da Cruz: que na primeira Cristo não está sem esperança; há ainda um lampejo no Seu coração angustiado: Meu Pai, tudo Vos é possível, ainda podeis, pois, afastar este cálice. E Jesus apega-Se perdidamente a este relâmpago.

Porém na Cruz não há mais esse lampejo: toda possibilidade é tirada: o Pai tem que ser severo, é o terrível vencimento da fiança: era preciso.

Oportuit Christum pati.

Ó pobre Jesus, por quê? Por quê?

Eu pecara, e necessário se fazia que Jesus, “penetrado todo dos meus pecados, pecador Ele próprio” (Bossuet), sentisse o grande castigo próprio do pecado: o desamparado.

Eu abandonara Deus, e mister se fazia que, carregando sobre Si todos esses culposos abandonos, Ele lhes suportasse o castigo tremendo que me era devido por uma eternidade: o desamparo.

Terrível pena de talião: olho por olho, dente por dente, abandono por abandono, desamparo por desamparo.

Provou Ele essa pena, é dela que morre hoje. Mas justa essa morte é que me salva, e por causa do atroz desamparo em que agoniza aquele divino pecador é que, doravante abençoado e perdoado, eu já não serei desamparado.

E, se este é o último golpe da justiça, é também o da bondade: em verdade, Ele não podia ir mais longe para expiar e para me tranqüilizar.

Oração

Senhor, eu atinjo aqui a obra-prima da Vossa bondade para comigo.

De todos os instantes sagrados da Vossa cruel agonia, nenhum me é mais preciso do que este do Vosso inteiro desamparo.

Um Deus por todos abandonado para que o não seja eu nunca; este último golpe do Vosso amor há de triunfar da minha desconfiança.

Eu creio, sinto, vejo que agora Vós quereis salvar-me.

Ó divino desamparado, a Vós é que eu ei de invocar nos Seus supremos abandonos, e a Vós é que oferecerei, até lá, todos os meus desamparos. Amém.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957.)

terça-feira, 31 de maio de 2011

VII- O GRANDE SILÊNCIO

VII- O GRANDE SILÊNCIO


Esse silêncio devia durar mais de duas horas. Durante esse lapso de tempo as trevas ir-se-ão cada vez mais adensando; tudo se espavorirá em torno do augusto moribundo, e as palavras que Ele acaba de pronunciar operarão lentamente, qual germe poderoso, nas almas.

O perdão, lançado indistintamente sobre todos os algozes e sobre todos os soldados, já inclina o coração do centurião e o dos seus homens... E dentro em pouco, prostrando-se, eles vão ser os primeiros a exclamar: este era verdadeiramente o Filho de Deus!

A misericórdia divina concebida ao ladrão enche-o, eleva-o, purifica-o, e aquele santo moribundo conserva a alma deliciosamente ocupada com aquela soberana e divina compaixão.

Aquela dupla palavra: Mulher, eis aí Vosso filho! João, eis aí vossa mãe!... oh! como opera a um tempo suave e dolorosamente no coração de Maria e de Seu novo filho!

A princípio, ao primeiro enunciado dessa palavra, João e Maria devem ter-se entreolhado... e, nesses recíprocos olhares, que respeitosa veneração da parte do novo filho!... que ternura do lado da nova Mãe!

Em seguida Maria compreendeu, com a reflexão e pela operação divina que agia nEla, compreendeu todo o singular alcance dessa doação. Indubitavelmente, e é o primeiro sentido verdadeiro falando daquele modo Jesus não fazia mais do que cumprir os deveres de um bom Filho. Ele partia, morria: Sua Mãe ali estava, ia ficar sozinha, e Ele não quer que Ela fique assim sem arrimo e isolada. Queria dizer que Ele ainda se ocupava com Ela, mesmo durante a Sua vida pública. Nem tudo está relatado nos evangelhos: há um evangelho do coração que se não escreve, sente-se.

Jesus se vai, e quer que alguém O substitua: Seus olhos procuram, há um apóstolo presente... Ah! se Pedro ali estivesse! Aquela Mãe inconsolável tocava-lhe de direito, a ele, o chefe da Igreja, o vigário, o representante de Cristo. Mas não estava. E então Jesus dá à felicidade de João aquilo que houvera talvez dado ao primado de Pedro, se este tivesse sido fiel.

Há horas em que Deus procura: feliz de quem se acha então sob os olhares do Senhor!

Portanto Maria se torna a Mãe de João, e João deverá ter para com Ela toda a ternura de Jesus.

Porém a Virgem penetrou mais a fundo na palavra de Seu Filho: dá-Lhe Ele coisa melhor e Lhe pede mais. Ela compreendeu-O.

É uma maternidade mais extensa; e, segundo a tradição da piedade cristã, para corresponder a Seu Filho, que lhO pedia moribundo, Ela devia amar no novo filho todos os homens presentes, todos os homens futuros.

E é precisamente esta dolorosa maternidade que executa a Sua obra durante aquelas duas horas de silêncio.

- Ah! meu Jesus, que é que Me pedis? Todos os homens presentes?... E Maria olha à volta de Si. Há lá João, certamente o Seu olhar se compraz nele, mas há também os algozes, os soldados, os motejadores, os sacerdotes e os fariseus. Será mister ir até estes? – Ó Mãe dolorosa, é mister. Que revolvimento nas Suas entranhas! Uma vez mais, é mister.

E os homens vindouros? Ai! Assim como Seu Filho, do alto da Cruz, abraçava com Seu olhar divino todas as gerações, do pé da Cruz Maria deve estender a amplitude da Sua maternidade a todos os homens futuros.

Não recueis ante esta tarefa, ó minha Mãe, vinde até mim e estreitai-me nesse cruel amplexo!

Ela assim faz; porém, ao mesmo tempo em que se Lhe operava nas entranhas essa nova e cruel parturição, o coração se Lhe rasgava sob a ponta do gládio prometido por Simeão. Ela compreendeu então o alcance da sinistra profecia; mas, como via Seu Filho oferecer as mãos e os pés aos cravos, ofereceu Seu coração ao gládio, e foi desta ferida cruenta que nós nascemos, naquela hora de silêncio e de trevas, ao pé da Cruz, a dois passos do ladrão perdoado, ao lado de Madalena chorosa, e na aproximação simbólica e divina de João e Maria.

E Jesus contemplava tudo do alto ao Seu trono sangrento; e pôde dizer então, como após os dias da primeira criação, que tudo tinha sido bem feito: et vidit Deus quod esset bonum (Gên. 1,12).

Desde aquela hora do Calvário, desde aquele parto laborioso e novo, Maria tem pelo mundo duas classes bem distintas de filhos.

Há a raça de João: as almas puras ou purificadas. A estas, as carícias e as doçuras dos olhares de uma Mãe que ama neles a vida de Seu Jesus, a graça. Quantas se encontram, ó Mãe, dessas almas seletas? Eu vejo só um João no Calvário.

E há a raça dos algozes. Ai! Quem há que possa lisonjear-se de lhe não pertencer ou de lhe não haver pertencido?

- Quem comete o pecado não crucifica de novo Jesus Cristo? E ao lado dessa Cruz incessantemente erguida não deve haver uma Mãe incessantemente de pé e dolorosa? Ela lá está, mas nós lá estamos com Ela, e Ela nos ama.

E é este talvez um dos maiores milagres de Deus, o haver sabido de tal sorte atrair a Si os pecadores, que deles tenha feito filhos de Sua Mãe; porque aquela hora lúgubre Maria não somente Se digna de recebê-los, como ainda os procura, vai atrás deles, retém-nos e lhes abre o Seu coração como o melhor e o mais seguro dos refúgios.

Sancta Maria, refugium paccatorum, ora pro nobis.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: Quarta palavra: O desamparo.)

domingo, 29 de maio de 2011

VI- TERCEIRA PALAVRA: JOÃO E MARIA

VI- TERCEIRA PALAVRA: JOÃO E MARIA


Assim, toda a vida passada de Jesus reconstitui-se aos pés da Cruz nas recordações comovidas e agitadas dos assistentes. Maria, Madalena, o próprio ladrão, a se dar crédito à piedosa lenda que faz desse ladrão um miraculado de Cristo no deserto, na estrada do exílio quando a Sagrada Família fugiu para o Egito: - outras tantas testemunhas do passado. Todas as santas mulheres que O seguiram pelos caminhos da Galiléia e da Judéia, e que lá estão, ao longe, também devem repassar as recordações de outrora, sobretudo a hora do seu primeiro encontro com o Cristo; as palestras familiares, à tarde, ao frescor cadente da noite, debaixo das grandes figueiras, dos opulentos sicômoros, ou através dos eloendros que beiram as margens encantadoras de Tiberíades: o Mestre gostava tanto de ali pregar a Sua nova e insólita doutrina!

Tudo revive, por conseguinte, aos olhos deles, e essas múltiplas imagens formam uma auréola de glória, de amor e de saudade em torno do Semblante lânguido do Senhor.

Estava ainda lá, com as três Marias, Salomé, a mãe ambiciosa dos filhos de Zebedeu, Tiago e João: como ela também não havia de se lembrar da hora em que, tomada de uma pretensão bem perdoável às mães, se abeirava do Cristo no caminho, dizendo-Lhe: - Mestre, quero pedir-Vos uma coisa. – Oh, que é? – Já que sois Rei, sobretudo já que o ides ser, fazei que meus dois filhos, João e Tiago, se assentem no Vosso Reino um à Vossa direita e outro à Vossa esquerda. – Ó mulher, não sabeis o que estais pedindo. O Meu Reino, mas vede-lhe as insígnias hoje: o trono, uma cruz; a coroa, espinhos; as jóias, o Meu sangue que borbota; o Meu título está pregado lá em cima, lede-o; e os que estão a Minha direita e à Minha esquerda, dois crucificados como Eu. Não, em verdade não sabeis o que pedis. João e Tiago, sois capazes de beber no Meu cálice? – Sim, Senhor. – Sim?... mas este cálice é fel, vinagre, são as lágrimas que Me escorrem dos olhos, é a cólera de Meu Pai, é o desprezo dos homens, é o abandono dos Meus. E bebereis tudo isto? Oh! não sabeis o que estais pedindo. O bom ladrão mendigar-Me-á uma simples lembrança, bem longe de reclamar lugares de escolha; e há de ter a lembrança e há de ter o lugar.

Todo o que se exaltar será humilhado, e todo o que se humilhar será exaltado.

Como todos estes pensamentos, como todos esses longínquos quadros deviam vir flutuar em torno de Salomé, mormente quando ao lado daquele Jesus moribundo, desconsiderado e escarnecido, ela avistava de pé seu filho João! Ele lá estava sozinho.

E o outro, Tiago? aquele que pedia também um lugar junto ao Rei e afirmava poder beber no mesmo cálice? Fugiu, esconde-se; João está só, e era o mais moço.

E também este, naquele cimo ensangüentado, deve pensar nos dias antigos, e as suas recordações comovidas escrevem uma página da vida passada do Mestre.

A hora do primeiro encontro impõe-se-lhe amorosamente à memória, porque há sempre que tornar a esse instinto do coração que, em face do ser amado, amesquinhado, rebusca avidamente as primeiras imagens do seu primeiro amor.

João pensa, assim, naquelas margens do Jordão onde o Precursor batizava no meio dos compridos caniços afilados e das moitas de tamargueiras que beiravam o rio. Naquele dia do primeiro encontro, o Batista estava sozinho naquelas margens tão frescas e contrastarem violentamente com a planície arenosa de Jericó, talada como um leito de torrente enxuto. Estava só com dois discípulos, André de Betsaida e João filho de Salomé e de Zebedeu, pescador, como André, no lago de Genesaré.

São quatro horas da tarde, o ar está mais tépido, o sol vai sumir-se para as bandas de Jerusalém, por trás dos montes da Quarentena.

Súbito, faz-se ouvir um ruído de passos; João Batista se volta: é Jesus. A Sua alva figura sobressai através das folhagens.

- Eis o Cordeiro de Deus, murmura o Batista.

André e João apreenderam essa palavra escapada ao Precursor, deixam-no e põem-se a seguir timidamente Jesus que caminha na frente.

Em dado momento, o Cristo se volta.

- Que quereis? Perguntou-lhes. – Mestre, saber onde morais. – Vinde e vede.

Aonde os conduziu Ele? A que retiro? A Jericó? Mais além, para o lado do Mar Morto? Ou na direção da fonte de Eliseu? Não o sabemos, mas sabemos que eles ficaram com Ele todo o resto do dia; sabemos também que, no dia seguinte ao dessa entrevista, André, encontrando-se com seu irmão Simão, dizia-lhe: - Encontramos o Messias. E sabemos mais que, há algum tempo daí, passando Jesus por diante da barca de João e de Tiago, os dois irmãos que pescavam com seu pai Zebedeu, o Mestre diz: - Vinde e segui-Me.

Assim foi feito. João estava capturado. Lembrava-se dessa captura deliciosa, e também do quanto entrara depois na intimidade do Senhor, a ponto de repousar a cabeça no Seu peito, quase rosto contra rosto. E hoje, que mudança! Sobretudo quando, contemplando aquele Semblante conspurcado e desdourado, revia-o nas suas lembranças brilhantes como o sol, no cimo do Tabor.

No lugar daqueles dois ladrões havia então Elias e Moisés: o céu falava, o Cristo rutilava, alvejara-se-Lhe a veste de uma alvura de neve... e agora, naquela escuridão crescente do Calvário, João já não via senão três agonizantes que estertoravam em três cruzes.

Evidentemente devia operar-se-lhe uma subversão no espírito: ele não compreendia, não apreendia o porquê de tantos sofrimentos.

Nem nós, tampouco, compreendemos na nossa vida a causa misteriosa das provações que nos acabrunham: faz-se mister uma luz mais alta do que a da nossa razão. Creiamos, porém, que isso é justo, que isso é bom, que isso é glorioso para Deus. Este ato de fé é a única luz que sobrevive a muitas sombras, e que brilha através dos destroços esparsos da nossa pobre vida...

Nesse ínterim, o céu se velava cada vez mais de trevas inexplicáveis: foi nesse momento, foi no meio do desconcerto que naturalmente devia causar esse fenômeno, que subitamente Jesus chamou por Sua Mãe:

- Mulher, diz Ele docemente, Mulier...

Não estaquemos ante a frieza aparente de um termo que em realidade e na língua do lugar é um termo de respeito e de veneração afetuosa.

“Ele chama por Sua Mãe, diz Santo Ambrósio, porque a Sua ternura de Filho devia este último testemunho a semelhante Mãe”. (Epístola à Igreja de Verceil).

Que frêmito não deve ter sacudido todo o coração de Maria! Como Ela Se aproximou da Cruz, quase a colar os lábios aos membros de Seu querido Filho, estendendo os braços para cima, e mais ainda toda a Sua alma!

- Mulher, Mãe!... é o último apelo dos moribundos. Aqueles que assistem; testemunhas contristadas, às agonias dos hospitais, aos últimos estertores do ferido nos campos de batalha, surpreendem-se de ouvir brotar, nos extremos delírios, como um grito lancinante, esse doce nome de mãe. É um clamor desesperado ao ente a quem mais havemos querido. Quando o homem sente que tudo lhe vai fugir, por um derradeiro instinto volve-se então para aquele que nunca abandona porque sempre amou, e chama: Minha mãe!

Naquele espírito que soçobra só há um semblante que sobrenada a tudo o mais: minha mãe! E é como que uma invencível esperança de que essa mãe reclamada vencerá todos os obstáculos e todas as distâncias, para vir uma última vez beijar aquela fronte que empalidece e aqueles lábios que morrem...

“Santa Maria, Mãe de Deus e mãe nossa, rogai por nós pecadores, agora, mas, sobretudo na hora da nossa morte”.

Eu compreendo esta oração, ela é feita para mim, ó meu Deus; e nesse último apelo ao coração tão bom de minha Mãe do céu eu saberei por tudo quanto minha alma ainda conservar de ternura e de súplica.

- Mulier, Mulher, Mãe, dizia, pois Jesus, esse será doravante o Vosso filho!... e indicou João com o olhar.

- Eis aí Vosso Filho em Meu lugar, ó Mulher, em Meu lugar, ó Mãe!...

E, volvendo para o discípulo a quem amava os olhos dolorosos, murmurou:

- Eis aí vossa Mãe.

E, isto dizendo, reengolfou-Se num grande silêncio.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: o grande silêncio.)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Segunda palavra: o bom ladrão

Segunda palavra: o bom ladrão


Este episódio do ladrão é um dos mais maravilhosos, dos mais consoladores para nós no grande drama do Calvário.

O que primeiro admira é a rapidez que empolga a cena. Algumas palavras se cruzam por sobre a cabeça inclinada de Jesus Cristo, uma prece a esse Cristo, uma resposta de Jesus, e está tudo acabado. Mas também está tudo mudado. Aquele bandido, coberto de todos os seus crimes mais ainda do que do seu sangue, torna-se, num abrir e fechar de olhos, um santo tão purificado e um eleito tão autêntico, que merecerá naquele dia mesmo ser o companheiro de Cristo no paraíso.

- Hoje, digo-te em verdade, Eu, este Rei achincalhado, mas eterno, hoje mesmo estarás comigo no paraíso – Que rapidez!...

Deus não precisa de muito tempo para entrar numa alma, para transformá-la completamente: e é o que é consolador para nós. Mas, nessa ação tão rápida, que drama profundo e pungente: é mister acompanhar-lhe todas as peripécias.

São, portanto, três na cruz, a dominarem com suas cabeças lívidas e já moribundas a multidão que lhes ondeia aos pés. Ora, daqueles três, só um tem a fronte curvada como um convencido, como um verdadeiro condenado que se envergonha dos seus crimes e os reconhece: é o Cristo.

Os outros dois estão no paroxismo da dor e da revolta. Um frêmito de ódio sacode-lhes os pobres membros regados de sangue. Eles parece terem esquecido todo o seu passado, não pensam em qual tenha sido a sua vida e qual também a sua justa condenação. Voltam-se contra Jesus, que parece a causa do seu suplício. Teriam eles sido crucificados naquele dia mesmo se o Cristo não tivesse tido de o ser? Ele lhes é, pois, ao menos a causa da sua morte antecipada, e em razão disto raivam, rangem de furor, blasfemando o divino Pendurado da Cruz.

Et latrones qui crucifixi erant cum eo improperabant ei (Mt. 27,44).

Jesus, cujo ouvido divino percebe todas as intenções secretas, condói-Se deles mais talvez do que os de baixo; sente nas palavras deles a dor abrasadora que os aguilhoa: e por eles tanto quanto pelos algozes foi que Ele deixou cair a sua doce e primeira prece: - Pai, perdoai-lhes, porque eles, principalmente eles, não sabem o que fazem.

Ó mistério das eleições divinas! Ó profundeza das potências da nossa vontade! Os dois ouviram a santa e abençoada palavra. Um se cala, opresso, aturdido por aquele golpe de misericórdia; o outro, entregue todo à sua dor, ao seu violento desejo de viver, à raiva de ter sido crucificado mais cedo por causa daquele Jesus, o outro, apanhado no ar todas as blasfêmias que sobem de baixo, pega de uma à passagem e exclama:

- Se verdadeiramente és o Cristo, começa por te salvares a ti mesmo, e a nós depois!...

Esta impetração não tinha nada, em si, de blasfêmia: o ladrão exacerbado clama àquele Messias, àquele taumaturgo, àquele Filho de Deus, que se salve a Si, e a eles ainda por cima. Não pede sequer a salvação para si só: Et nos, porém nós contigo, nós dois que estamos sofrendo e morrendo atrozmente. É provável, entretanto, que esse pedido tenha sido acompanhado e seguido de mais odiosas blasfêmias.

Insinua-se o evangelista: um dos ladrões, diz ele, blasfemava contra Ele, chamando:

- Salva-te então a ti mesmo e a nós dois contigo.

Mas a resposta brusca, viva do outro ladrão é a prova disso. Não é mesmo uma resposta, é uma violenta réplica:

- Oh! como! Brada o ladrão que estava defronte, nem tu também tens medo de Deus?... embora estejas morrendo no mesmo suplício?... Ainda para nós é só justiça; mas ele, ele não fez mal.

Que significa isto, em verdade? Eis então aquele ladrão, aquele celerado que cuspia blasfêmias havia apenas um instante, e que subitamente se faz advogado daquele a quem insultava? Chega até a falar de um Deus que estaria ali... pertinho... Será o delírio da agonia, será a demência do sofrimento que assim o fazem disparatar?

Há naquelas palavras uma sucessão rápida de sentimentos que denota o trabalho de uma graça excessiva.

O ladrão ouviu e ainda ouve todas as blasfêmias que sobem para a cruz: ouviu ao mesmo tempo a prece e o silêncio daquele Cristo pregado naquela cruz, daquele Cristo a quem alternativamente e por mofa chamam de Messias, de Rei dos Judeus, de Filho de Deus. A princípio ele se admira; mas em seguida parece apreender a monstruosa injustiça que cravou no mesmo patíbulo aquele Cristo benfeitor e a eles... celerados.

Sente então – por esse instinto supremo de justiça – que um Deus mais cedo ou mais tarde vingador paira sobre aquele drama do Calvário:

- Então não o temes... esse Deus, clama ele ao companheiro... nós, nós temos só aquilo que merecemos... mas Ele, esse companheiro que ai está, no meio... que mal fez?...

E olha para ele... e, à medida que fala, dir-se-ia que uma luz lhe invade o espírito.

- Não, não, esse ente que morre como nós, e que perdoa, e que ora morrendo, não é um ente vulgar: coroaram-no irrisoriamente... e cruelmente... mas, e se fosse um Rei? Matam-no porque ele é o falso Messias: mas, e se fosse o verdadeiro?

Se fosse o Filho de Deus... o próprio Deus?...

- É, eu creio, sinto, confesso-o e imploro-o...

E, volvendo os olhares súplices para o Cristo, murmurou:

- “Senhor, lembrai-vos de mim... quando chegardes ao vosso reino!”

Ó conversão estranha, exclama São João Crisóstomo. Ele vê um crucificado... e confessa um Rei da Glória! (Crisóstomo, homilias. De cruce et latrone.)

Vê chagas abertas e sangue que corre, diz Santo Ambrósio, e, bem longe de o crer um criminoso, reconhece-o como um Deus! (Ambrósio, sermão 50).

Ele não clama como os outros, diz Eusébio: Se é Deus, salva-me; mas sim: Já que és Deus, livra-me do julgamento futuro. (Eusébio, homilia de Latrone beato.) Meu Senhor e meu Mestre... dignai-vos de Vos lembrar de mim...

Assim, aquele homem já não crê, vê, a fé foi absorvida.

Ele já está nos esplendores da graça, compreendeu num instante toda a economia da vida e da morte divinas. (Cornélio a Lapide – Comnent. in Lucam, c. 23 ss 40 – chega até a dizer que, chamando ao companheiro: Neque tu times Deum? [Tu também não temes a Deus?] videtur Christum denotare eumque confiteri esse Deum, q. e.: Times vindictam Christi quem blasphemas, quia ipse non tantum est homo sed et Deus”; parece designar o Cristo e confessar que ele é Deus; ou seja: Não temes a vingança do Cristo que blasfemas? Porque Ele não é só homem, mas também Deus. – Santo Ambrósio e Eusébio têm esses mesmos sentimentos.) O homem que está ali no meio é um Deus, e está condenado embora não tenha feito mal algum, e morre por ser o grande celerado, o grande miserável da humanidade.

Mas é também o Rei lá do alto: tem, pois um reino, um palácio, servos: vai subir a esse reino, e pode fazer ali entrar quantos quiserem crer nEle.

E então ele crê, espera, ama, aquele, pobre ladrão sem letras e sem ciências, repleto de pecados e de ignomínias; mas ele sabe divinamente que todos os seus pecados, todas as suas ignomínias lá estão sobre aquele homem-Deus, como a púrpura real do Rei que Ele é: e diz docentemente fazendo-Se pequeno na Cruz, não podendo estender a mão como um mendigo, mas estendendo a alma dolorida e radiosa:

- Meu Senhor e meu Rei, lembrai-Vos de mim, - uma simples lembrança! – quando entrardes no Vosso grande reino.

E Jesus, que não pode mexer-Se, imóvel também, e Jesus, que não pode nem erguer a cabeça para o ósculo de amor nem levantar os braços para o perdão supremo, Jesus diz-lhe, entretanto com uma irradiação de bondade e de alegria inefável:

- Hoje, amigo, sou eu quem te diz, estarás junto a mim no paraíso.

No paraíso! Com Ele! Ouviste, ó pobre facinoroso? E entre a imobilidade dolorosa daqueles dois homens passou-se num instante a maior e a mais rápida ação que jamais tenha havido.

E agora o ladrão se clã: Jesus igualmente não diz mais nada; porém os seus dois semblantes se entreolham e os seus dois corações se falam: “In hoc enim totius forma salutis”, diz Santo Ambrósio (Sermão 50). E eis aqui todo o segredo da salvação eterna.

Reconhecer um Deus lá onde há um simples homem, e um homem humilhado; discernir através dos desfalecimentos do supliciado a glória do Rei eterno! E, quanto a nós, nas particularidades da vida, não nos escandalizarmos com a mão que nos fere: bem mais ainda, beijarmos essa mão quando nos lacera ou se retira; muito melhor, não murmurarmos do silêncio, às vezes esmagador, de Deus, e da convivência que Ele parece emprestar aos nossos inimigos: enfim, por toda parte e sempre firmes na fé e ardentes no amor, aguardarmos a “revelação futura” e consentirmos em murmurar o nosso Credo até o fim, nas trevas do Calvário: repito, é toda a santificação. In hoc totius forma salutis. Desde agora a noite pode vir, há ao pé da grande vítima um facho que arde: a alma luminosa do ladrão, que lhe ilumina a pavorosa agonia com a rutilação da bondade divina. Ele vela, ora, espera. “Comigo, no paraíso, hoje”; isto lhe basta, e ele torna a entrar na sua escuridão e na sua imobilidade.

Como Deus é bom! Como, depois do que acabamos de ver, não crermos que ele queira perdoar-nos?

Que é que nos impediria, aliás, de receber essa inesgotável misericórdia?...

Olha para o Calvário, ó minha alma: seriam os teus pecados? O número deles? A malícia? Toda a vida pregressa do bom ladrão é como que aniquilada num instante; abisma-se nesta palavra:

- Hoje, comigo, no paraíso. – Mas e ontem?
- Que importa o ontem? Se hoje estás no paraíso, que mais te é preciso?...
- Seria o tempo que te faltaria? Alguns segundos bastaram àquele criminoso.
- É a justiça de Deus que te assusta? – Onde está ela? Na Cruz. Em ti só vejo agora a obra da bondade. E então? Que é que pode atormentar-te?

Ó tortura, ó grandeza, ó suprema piedade de Deus! Ó meus pecados, como me inquietais pouco! Tivesse-os em cem vezes mais, que é preciso para os fazer para sempre perdoar?

É preciso estar na cruz: estaremos ao menos quando morrermos. É preciso reconhecer que sofremos justamente: é a única vantagem que devemos auferir dos nossos pecados. Finalmente, é preciso mendigar um olhar do Rei Jesus. Memento mei; menos do que um olhar, uma lembrança basta.

Tudo o que não passa de um temor ultrajante para com um Deus tão bom. Não só Ele perdoa, não só esquece, mas ao mesmo tempo diz:

- Estarás comigo hoje.
- E o purgatório?
- Comigo, digo-te, e no paraíso. Então eu não posso tudo apagar, tudo tirar, quando me apraz? Ecce agnus Dei qui tollit peccata mundi. Se eu tiro os pecados do mundo, não estão dentro os teus?...

E eis aí o segredo da paz e da confiança dos nossos últimos momentos.

- Mas eu sofro constrangido e forçado.
- Que importa, se sofres!

“Pois Jesus perdoa facilmente aos que sofrem com Ele e fazem um sacrifício voluntário dos seus males mesmos forçados” (Bossuet – meditação para o tempo do Jubileu, 5ª consideração.)

- Mas...
- Pára com as tuas objeções, alma ainda orgulhosa até o fim: acaso o pobre discute quando estende a mão? Estende a tua, recebe, e fica para sempre na gratidão.

Há almas santas que guardam sempre em reserva alguma força a fazer valer contra a justiça de Deus: uma irrisão!... teias de aranha diante de uma chama ardente!... mais vale ainda depender só da sua piedade.

Ir-se para Deus pobre, nu, vazio e despojado, nada mais tendo depois de ter tido tudo; só lhe poder apresentar a própria miséria e decadência, abeirar-se daquele juiz temível que penetra os anjos, e apresentar-se-Lhe sem advogado, sem inocência e sem reparação: de certo, que mais tremenda desgraça!... A não ser que se sinta desabrochar docemente nos lábios, com o espírito do bom ladrão, esta oração única que tudo salvará: In sola misericordia Domini spero salutem. Só da compaixão do Senhor espero a minha salvação. Amém (Epitáfio de uma antiga pedra sepulcral na igreja de São Remígio, em Reims.)

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: Terceira palavra: João e Maria.)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Os últimos traços do semblante: Pai, perdoai-lhes

Os últimos traços do semblante: Pai, perdoai-lhes


Foi do seio turbulento daquelas zombarias que se elevou, doce e vitoriosa como um incenso em meio aos acres vapores do holocausto, a primeira palavra do Cristo na Cruz. A horrível crucifixão acaba de ser concluída, o patíbulo está ereto, é o momento em que todo o corpo, suspenso de chagas, experimenta a mais intensa dor. Reina desordem no Calvário: gritos, ameaças, soluços, maldições cruzam-se como setas em torno daquele semblante.

Foi então que daquela boca contraída escapou este grito: “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”.

São os últimos traços do semblante do Senhor que se perfazem. Assim como, no momento de entregar o seu quadro, o pintor se concentra e, nos derradeiros toques do pincel, faz passar o resto e o supremo do seu ideal, assim também a Bondade divina termina a Sua obra difundindo-se em tintas mais profundas sobre todo o semblante do Cristo.

Pai, perdoai-lhes!” É uma prece, é um ato de humildade também: o Filho que tudo pode suplica ao Pai que perdoe; em verdade, não podia Ele próprio perdoar? É, ademais, uma doçura que desculpa, que atenua, que procura o que há de bom e de menos mau nos culpados, para justificar o perdão: porque importa que esse perdão seja justificado, tanto a delicada bondade de Deus receia magoar poupando e humilhar absolvendo.

Eles não sabem o que fazem”. Como haveriam de sabê-lo, aqueles homens habituados àquela tarefa? Era acaso o seu primeiro crucificado? Será o último?

Nada deve parecer mais indiferente do que o algoz. Ele mata indistintamente, como outros compram, vendem, edificam e traficam; aquilo se torna uma função da sua existência. Acaba ele, pois, por matar com insensibilidade.

Assim faziam os algozes de Jesus: batendo a golpes redobrados naquelas mãos que se crispam, naqueles pés que se retraem de dor, eles pensam nos proventos que vão tirar da sua rude tarefa, têm o olho no rosto no vaso de vinho que lhes pagará o suor, e no monte das vestes da vítima que eles vão repetir entre si. É preciso dizer todas as coisas como devem ter-se passado.

Meu pai, Vós bem o vedes, eles não sabem o que fazem”.

Os próprios sacerdotes, os anciãos e todo o povo que moteja também ignoram, não sabem. São Paulo (I Cor 2,8) di-lo-á mais tarde: se eles tivessem conhecido que aquele era o Deus de glória, nunca O teriam crucificado. Mas não conheceram, crucificaram-nO mesmo por se haver Ele dito o Messias: logo, é que Ele não o era mesmo.

Matando-O, pretendem eles, ao contrário, render preito à verdade, restabelecer tudo na ordem, confundir a impostura e salvar o povo de perigosa credulidade: “Pai, perdoai-lhes a todos, verdadeiramente eles não sabem o que fazem”.

Nem tampouco aqueles soldados sabem o que fazem, aqueles que, sentados aos pés dos três patíbulos, esperam pelo fim, calejados que estão de convulsões de supliciados e dos estertores daquelas cruéis agonias. – “A eles também, Pai, dignai-Vos de perdoar, porque são ignorantes e não conhecem”. Assim aquela voz do alto, qual orvalho que se esparzisse em derredor, lança sobre todas aquelas almas rancorosas ou indiferentes a doçura e o frescor do perdão.

Esta palavra já nos mostra as culminâncias do Cristo. É a superioridade da bondade. No declínio da sua vida humana, quando Ele sente tudo ceder em torno de Si, a Sua bondade sobe ao ápice como um sol que dardeja ainda sobre ruínas, e o Seu primeiro raio de luz é um perdão universal.

A humanidade, que ficou sendo a mesma, tem sempre necessidade desse perdão. Elevemos, pois, os olhos para essa radiação da bondade indulgente que forma a última e sublime expressão do semblante de Cristo.

Perdoar: poucas palavras há que sejam a um tempo mais perturbadoras e mais consoladoras para o coração do homem.

Perdoar: parece que poucos atos nos sejam tão difíceis, tanto nos custa, decaídos como somos, sermos bons. Aos olhos do mundo, quem perdia facilmente é um fraco: a honra interessa-lhe pouco, nada de grande há que esperar dele.

Em compensação, quem não perdoa sabe fazer-se respeitar, temem-no: é a fórmula do poder pagão: oderint dum metuant, que me odeiem pouco me importa, contanto que me temam. Bem o sabia Jesus Cristo, e foi por isto que Ele quis que a Sua primeira palavra de crucificado fosse uma expressão de perdão.

Nós não perdoamos facilmente porque, no fundo, nos custa compreender que entre homens do mesmo sangue, irmãos pelo destino, unidos pelos mesmos instintos, possa haver essa cruel desunião que se chama o ódio: ao menos é uma homenagem prestada à fraternidade do gênero humano.

E tão verdade é isto, que, quanto mais próximos somos pela família, pelas afinidades e pelo sangue, tanto mais difícil se torna o perdão. Que de mais áspero, às vezes, nos seus rancores do que dois irmãos que sugaram o mesmo leite, amaram a mesma mãe, e cujas vidas se haviam entrelaçado como os ramos de uma virente e mesma vida?  Abismo insondável do coração humano.

Não perdoamos, ainda, facilmente, porque não motivamos os nossos perdões. Cumpre, entretanto, procurar a circunstância atenuante: creiamos que ela lá está. Bem a descobriu Jesus que o crucificavam. Está nisto todo o trabalho divino da caridade. O homem é melhor, no fundo, do que parece; há poucas almas, por mais perversas que sejam, que não tenham ocultas algumas fibras sensíveis. É até estas que deve descer a caridade: é mister ir buscar o verdadeiro homem muito ao fundo, para aí o amar.

Mas, para podermos executar essa obra laboriosa, temos primeiramente que nos elevar e dizer: Pater, pai! Só então saberemos abaixar-nos para dizer: Irmão. Assim também, à medida que nos formos alteando, iremos vendo os óbices à união minguarem, e aquilo que nos pareciam montanhas perder-se aos poucos e confundir-se na linha da planície. Quais os que, no fim da sua vida, não enxergam haverem, muitas vezes, exagerado o seu ódio ou o seu amor?

Era meditando ao pé daquela Cruz, era recolhendo essa suave palavra, que os santos sentiam a alma se lhes fundir de indulgência. Um coração bom é um coração para o qual Deus é bom: mas Ele o reconhece, e então dá daquilo que recebe.

O último raio de luz da santidade é a bondade, a que dá e, sobretudo a que perdoa. Nunca quando imita essa divina prerrogativa, e é por isto que o perdão das injúrias opera às vezes tão depressa a transfiguração e adapta tão bem o semblante da criatura ao do Criador, que a semelhança é completa. Ora, não há serem salvos senão os que forem achados parecidos com Jesus Cristo, e com Jesus Cristo crucificado.

Oh! quando Ele inclinar sobre o nosso leito de morte a cabeça lânguida e coroada de espinhos, e quando murmurar com os lábios frios: - Pai, perdoai-lhe!... apressemo-nos a inclinar-nos sobre a nossa própria vida, antes que ela finde, sondemos, esmerilhemos o nosso passado, para descobrir nele algo que tenhamos a perdoar.

Felizes nós se pudermos achá-lo, para que possamos com segurança murmurar por nossa vez: - Assim como eu perdoei, meu Deus, dignai-Vos de perdoar-me!

Se nada encontrarmos, formulemos mesmo assim esse desejo de suprema indulgência, esse desejo de tudo atenuarmos, de sermos bom, supinamente bom no nosso declínio, a fim de entrarmos, da outra banda, na aurora eterna com o verdadeiro semblante que perdoou.

Quando, no cimo do Calvário que começa a escurecer ligeiramente, caía essa palavra sublime, era um pouco depois da sexta hora. Bem diversamente impressionou ela quantos a ouviram.

Maria foi a primeira a distingui-la; ainda quando fora só um respiro, o Seu ouvido de Mãe, que estava como que colado à boca do Filho, tê-lo-ia recolhido. Mesmo compreendendo aquela sublime generosidade... – ela era nossa Mãe, Jesus vai proclamá-lo dentro em pouco, - Ela não se sentiu menos dolorosamente comovida... pensando nesse perdão divino lançado naquele cimo árido sobre tantos corações mais áridos ainda, e nesse apelo de amor que, com a continuação dos tempos, devia repetir-se, tantas vezes ressoar inútil e sem resposta.

Também Madalena deve ter ficado surpreendida: mas, depois de baixar os olhos sobre si mesma e de rever todo o seu passado, compreendeu, exultou de compreender... e que ósculo de gratidão não devia ela imprimir naqueles pés sangrentos enquanto se elevava a sublime prece, eco do seu próprio perdão: - Pai perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem!...

João, as santas mulheres ficaram suspensos: aquilo era demais. Os soldados também não compreenderam; nunca semelhante palavra vagara nos lábios das suas vítimas comuns. Os Judeus e os fariseus, se a ouviram, aumentaram com ela os seus risos zombeteiros e os seus sarcasmos vergonhosos.

Só um homem, que blasfemava ao lado mesmo do Cristo que perdoava, foi ferido como que por um golpe certeiro, irresistível e vencedor.

Calou-se subitamente, olhou estupefato para aquele ente singular: era um dos ladrões.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: Segunda palavra: O bom ladrão.)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

As zombarias

As zombarias



Através das vozes silenciosas daquelas recordações que subiam do coração de Maria, do de Madalena, até o coração de Jesus Cristo, suprema consolação à Sua dor, ai! há outras vozes que também sobem, mas como a acre e cáustica fumarada do ódio: importa ouvi-las.

A princípio tudo é barulhento no cimo do Calvário. É a explosão do furor satisfeito e, como quer que esta última cena do drama cruel se desenrola normalmente e Deus lá em cima fica silencioso, ninguém se constrange. Povo, algozes, soldados, sacerdotes e fariseus falam, gritam, vão e vêm agitados... e zombadores.

A zombaria, irrisão; parece que todo aquele ódio acumulado deste tantos dias acaba de fundir-se enfim numa nota única, acerba e mordaz: a zombaria.

Era fitando uma última vez que aquele semblante cujos olhos os haviam dantes intimidado, e cuja boca os zurzia com verdades violentas, que os escribas e os anciãos desembestavam numa suprema zombaria.

Sobem, pois, em lufadas de ódio aquelas palavras escarninhas e cruéis, por sobre Madalena sempre abismada ao pé da Cruz, por sobre Maria que Se conserva de pé, e, qual derradeira bofetada estrondosa e vencedora, aplicam-se à face pálida do Cristo agonizante.

Na Paixão do Senhor, diz Bossuet, “faz-se um tão estranho ajuntamento de irrisões e de crueldades, que quase não se sabe qual domina, e, todavia predomina a risota”. (2º Sermão sobre a Paixão, 1º ponto.)

Qual a razão disto? Por que aquele cenário de confusão, aquela atmosfera de zombarias?

Como explicar aqueles propósitos feitos de desonrar a vítima? Muito mais: quando já não há suplícios a lhes infligir porque ela está cravada imóvel e sangrenta, e, porque já os esgotaram todos, a zombaria persiste em subir até ela. Por quê? Insisto.

Há como que um prazer malsão que lhe rememora até as suas menores palavras, - bem gravadas haviam sido, pois, - para tirar delas um suco amargo com que o abeberam.

- Vamos, tu que te gabavas de destruir o Templo de Deus para reconstruí-lo em três dias, experimenta agora descer da cruz!

E não se contentam com estas apóstrofes diretas: pode o Cristo ouvir todos os diálogos que se trocam a Seu respeito. Crudelíssima picada são do ódio os golpes indiretos: prefere a gente os que ferem em pleno rosto.

- Vede, dizem os sacerdotes ao povo, ele salvava os outros, mas não pode salvar-se a si.

Era pôr-Lhe à mostra a impostura.

- Dizia-se o Filho de Deus, fiava-se em Deus: acaso Deus se mexeu para vir livrá-lo?

E por sob aquela borrasca de ódio e de zombaria todas as cabeças revoluteiam, e até naqueles que passam e se vão embora pode Jesus perceber aqueles últimos meneios de cabeça que parecem dizer-Lhe brutalmente: Ora bem, está tudo acabado e bem acabado, tudo está feito e bem feito.

Esse contágio da zombaria dominante ganha mesmo até os algozes e os soldados de serviço que guardam os três patíbulos.

Quem era, com efeito, que induzia aqueles soldados sentados aos pés da vítima, depois de Lhe jogarem as vestes, a ainda Lhe oferecem sarcasticamente de beber, como se ela pudesse abaixar-se para molhar os lábios no vaso que Lhe apresentavam?

- Os soldados, diz São Lucas, escarneciam por sua vez, e, aproximando-se da cruz, ofereciam-lhe irrisoriamente um vinho grosseiro (Lc. 22,36).

Enfim, nada há, nem mesmo o Seu último grito de angústia, que não seja objeto de zombaria sinistra.

Quando o pobre condenado, esmagado, “derretido como cera ardente e que escorre” (Sl. 21,15), põe-se a gritar desesperadamente: “Eli, Eli, lamma sabactani”: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? – e um pouco depois: “Tenho sede!”, dizem os guardas:

- Agora está ele a chamar por Elias.

E ao soldado que se levanta e corre a embeber uma esponja em vinagre para Lhe umectar os lábios moribundos: - “Deixa, esperemos a ver se Elias vem despendurá-lo da cruz!”

Era alguns instantes antes do último suspiro; e havia ainda uma zombaria que se elevava até aos ouvidos daquele agonizante. Certo, pode-se afirmá-lo agora, naquele lúgubre quadro é mesmo a risota que excele: pergunto ainda, por quê?

Do lado dos homens que escarnecem cabeceando, a razão é clara, cruelmente clara. A zombaria é o triunfo do orgulho ferido, mas vencedor. Sob os ímpetos violentos desse orgulho, ela penetra, cinde, vai buscar no fundo da vítima os últimos resíduos da honra, para melhor estraçalhá-la e para, assim, matar mais definitivamente aquele homem aos olhos de todos. A zombaria é, pois, uma arma letal, mas que atinge mais fundo do que a morte.

Morrer achincalhado e escarnecido é morrer a toda esperança de sobrevivência na memória pública: as ressurreições parecem impossíveis para aqueles que a zombaria matou.

Compreende-se então por que os Judeus, sacerdotes e fariseus, tenham querido perseguir até às últimas vascas da morte aquele homem que tanto os humilhara e que, além disso, alardeara ressuscitar ao cabo de três dias. Era preciso que não restasse nada: e a tanto se havia chegado. Tal era o plano dos homens.

O plano de Deus é bem mais alto, conquanto o mesmo no fundo. Efetivamente, se a zombaria assim aniquila a sua vítima, talvez o Cristo tenha querido ser zombado, posto a ridículo, sinistramente troçado, para ser mais bem aniquilado. Era também o seu programa dele. Exinanivit semetipsum (Filip 2,2). Exinanite usque ad fundamentum (Sl. 136,7).

Àquele Cordeiro que carregava os pecados do mundo fazia-Se mister não somente o cutelo que abre as veias e esgaravata as entranhas, mas ainda a frecha aguda. Envenenada, do riso e do sarcasmo que investirá até contra a Sua doçura, contra o Seu sublime e divino silêncio. Melhor não podia Ele aniquilar-Se nem suprimir-Se. Quando já não resta à vítima moribunda a honra ou a piedade das recordações, haverá em verdade morte mais completa e mais extensa? Como tal, o holocausto não podia ser mais perfeito.

Esta razão já basta para tudo explicar: outras há, porém, mais tocantes para a nossa piedade.

Jesus, que via longe, sabia tudo o que teriam de sofrer mais tarde os Seus eleitos dessa zombaria tenaz, - é a arma preferida do mundo. Quis ser-lhes então um modelo consolador, que eles nunca poderiam atingir, sem dúvida, mas a que ao menos poderiam visar.

É este, com efeito, um lado da Paixão que apenas sobejas vezes temos de imitar.

Nem a todos é dado ter os cruéis estigmas dos cravos ou as marcar dos espinhos e dos flagelos: os padecimentos do martírio são o quinhão do pequeno número. A quem é, porém, que não é dado sofrer, um dia ou outro, particularmente ou em público, aos olhos dos seus, aos olhos dos estranhos, sofrer, digo, algumas humilhantes irrisões?

Deridetur justi simplicitas (Job. 12,4).

A singela confiança do Justo é, muitas vezes, objeto das zombarias; as menores são ser acoimado de exagero ou de pequice por se querer amar a Deus contrariamente a qualquer usança do mundo.

Tais derrisões são tanto mais dolorosas quanto nos virão, às vezes, daqueles que nos são próximos, e de quem esperávamos um conforto.

Noti mei quase alieni recesserunt a me, lamentava-se Job (19,15): e o profeta: factus sum opprobrium et vicinis meis valde, et timor notis (Sl. 30,12).

É então o momento de levantarmos os olhos para o semblante aniquilado do Salvador na Cruz e contemplarmos, por cima da coroa sangrenta, essa outra, não menos dolorosa, que lhe formavam em torno da cabeça inclinada todas as zombarias que ascendiam cínicas e odientas.

Por fim, e é esta uma razão mais alta ainda, se Jesus assim quis morrer sob os golpes reiterados do escárnio público, é que contava triunfar com isso abertamente do seu maior inimigo, “o do diabo”. (Bossuet, 2º Sermão sobre a Paixão) – Tende confiança, diz-nos aquela boca que procuram desonrar, e sobre a qual se escarram os últimos desprezos, tende confiança, Eu venci o mundo.

- E onde, Senhor? – Na Cruz. – E como? – Pela Cruz.

Maneira divina que me confunde: sim, vence Ele esse inimigo assumindo aquilo que ele mais teme: a humilhação. Ora, como Ele sabe, por natureza, repelir o mal e escolher o bem, diz-nos assim bastante alto que a ignomínia, quando não vem do pecado, não é um mal; que a irrisão nos não rebaixa, e que o conjunto esplendoroso dos favores do mundo não passa de miserável pobreza sendo a única riqueza o possuir Aquele que é a riqueza eterna: Deus.

O mundo clama o contrário; Jesus desprezado desmascara-o; um inimigo desmascarado é um inimigo meio vencido.

Jesus vai, porém, mais longe, e não se detém nesta primeira vitória, persegue o inimigo, e do alto da Cruz mostra-nos a sua fraqueza de fundo.

De feito, não podia Ele mostrar melhor a vaidade das forças do mundo do que dignando-Se de consentir em ser aparentemente derrubado por ele.

À feição de um gigante que se compraz às vezes em se deixar pear um instante pelos débeis laços de uma criança, porque sabe que romperá quando quiser a frágil rede daquelas teias de aranha, e que afinal de contas os golpes de uma mão tão pequena e tão vã não passam de um brinquedo de que ele zombará por seu turno, quando lhe aprouver.

Exsurgat Dominus et dissipentur inimici ejus (Sl. 67,2).

Cuido ver o sobressalto do Mestre, abatido um instante por aquela chusma de mundanos que acumularam sobre eles míseros entraves: um rebate do Senhor, e eles desaparecem para todo o sempre.

Como são, pois, pouca coisa as forças soberbas do mundo! A prova disso Pompéia no seio do Seu triunfo no Calvário mesmo.

Julga ele ter dado cabo de Jesus porque o pôs a ridículo: aguarda-lhe o último suspiro. Ora, mal se exalou esse último suspiro, através das últimas zombarias, só porque a terra se remexe um pouco e um rochedo se fende, logo a multidão dos zombadores se escoa como água: os mais ardorosos lá se vão batendo no peito, e o centurião, que também zombava talvez como os demais, cai de joelhos dizendo: “Este homem verdadeiramente era o Filho de Deus”.

Ó mundo, onde está então o teu poder? Em último golpe ainda, e adeus de ti. Este último golpe dá-lho sempre Jesus na Cruz, Ele não tem melhor campo de batalha. Acaba, assim, de triunfar do mundo servindo-se contra ele da mesma arma de que o mundo se servira para O aniquilar: o desprezo.

Não o leva em conta; aquele montão de opróbrios, todas aquelas zombarias, aquelas irrisões, Ele não faz nenhum caso delas.

Sustinuit crucem confusione contempta (Heb 12,2), diz-nos São Paulo: sofreu a Cruz desprezando o pejo. Eis aqui a arma escolhida e última que vence finalmente o mundo. Desprezamo-lo; os seus ataques, as suas blandícias, desprezemos tudo nele, ele é de todo ponto desprezível, porque é fraco, porque é falso.

Fraco, porque é o primeiro a tremer ante os desprezos, e porque abandona tudo para os não suportar.

Falso, porque não pode dar nem riqueza nem paz duradoura: todas as suas promessas são mendazes.

“Olha e passa”, non ragioniam di lor, ma guarda e passa (Dante, O Inferno, canto III.), era a fórmula do desprezo antigo. Vamos até aí; passemos altaneiros por diante dele: a altanaria cristã é o desprezo do mundo.

Quem quer que penetrou neste mistério terá compreendido aquilo a que São Paulo chama “o tesouro superior das ignomínias de Cristo” (Heb. 11,26); é aí, ó minha alma, que cumpre as tuas esperanças e as tuas miras.

Bem elevado cimo é este das culminâncias de Cristo desprezador e desprezado. Quando um homem há tomado pé sobre si mesmo, pode atingir essas culminâncias, mas lhe é forçoso palmilhar ruínas bem caras para ter esse arrojo.


(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: Os últimos traços do semblante: Pai, perdoai-lhes)