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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Educação sobrenatural: XVI - Prudência

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL

XVI PARTE - A VOCAÇÃO PARA A VIDA CRISTÃ NO MUNDO


II - PRUDÊNCIA

Qual a matéria sobre que pode e deve exercer-se a prudência dos pais?
Os pais devem tomar todas as precauções para assegurar a felicidade temporal e eterna de seus filhos. Estes, sem dúvida, são os primeiros interessados; mas são levianos, inexperientes, muito confiados, muito apaixonados; procedem por impressão e por sentimento, e não pela reflexão e juízo; têm muito "coração" e "razão escassa".

Pertence aos pais cristãos, sérios e educadores, suprir aquilo que lhes falta, examinando e resolvendo com prudência a questão: - da idade; da religião; da maneira de proceder; da saúde;- da seriedade de espírito; da coragem; da bondade; da fortuna; das relações.

Que se deve pensar com relação à idade em que convém casar seus filhos?
É preciso considerar:

- A idade da donzela;
- a idade do mancebo;
- a idade relativa do mancebo e da donzela.

Em que idade se devem casar as donzelas?
"A prudência, a razão, o próprio afeto que lhes deveis, o futuro dos novos filhos, impõe-vos o dever de não casar as vossas filhas muito cedo" (Mgr. Pichenot)

É preciso:

- Deixá-las fortalecer e crescer: as esposas muito jovens dão à luz filhos muito débeis e inspiram-lhes menos respeito.

- Obrigá-las a uma aprendizagem da vida da família e da vida doméstica: quando tiverem a idade legal, podem, sem perigo para elas, e sem dano para os outros, suportar os encargos e desempenhar os deveres do seu novo estado?

- Dar-lhes o tempo de se fortalecerem na prática dos deveres da vida cristã: muitas passam do colégio para o casamento; e, depois de talvez terem comungado todos os dias, chegam a nem ao menos cumprir o preceito pascal.

Em que idade de devem casar os filhos?
Não caseis os vossos filhos muito tarde, diz Mgr. Pichenot. "As delongas, sem um motivo sério, só podem ser prejudiciais aos jovens que se desejam casar e à própria união que desejam contrair".
(P. Hoppenot, catecismo do casamento, p. 145-146)

Como podem as delongas ser prejudiciais aos jovens que se desejam casar?
Porque os jovens estão na idade das paixões violentas, que fazem que a sua virtude corra o mais sério perigo. O remédio está no próprio casamento, um dos fins do qual, segundo o catecismo do Concílio de Trento, é apaziguar as revoltas da carne...

Que aconselha a prudência com relação à idade relativa dos jovens?
Duas coisas:

- Que haja uma certa diferença;
- que esta diferença não seja muito considerável.

Em que sentido é desejável que haja uma certa diferença entre os esposos?
"No sentido de que o marido deve ser ordinariamente um pouco mais idoso que a sua mulher: é o voto da natureza, a indicação da Providência".
(Mgr. Pichenot)

E porquê?

"Porque a mulher é mais precoce; e o homem, ordinariamente menos refletido, levado como é pelo fogo do seu temperamento e do seu caráter, tem necessidade de alguns anos mais para adquirir o peso, a maturação, a posição, a experiência necessárias ao chefe de família que quer compreender os seus deveres, como é preciso, e cumpri-los. Demais, o nível restabelece-se em pouco tempo; o homem conserva-se melhor que a mulher; a maternidade faz envelhecer, e ambos hão-de acabar por, bem depressa, ter, de fato, a mesma idade".
(Mgr. Pichenot)

Quais são os inconvenientes duma grande diferença de idade entre os esposos?
- A simpatia é necessariamente menor.

- A parte mais jovem abandona facilmente o lar.

- O esposo abandonado é presa dos golpes envenenados do mais torturante ciúme.

- Os filhos sofrerão, talvez toda a sua vida, por efeito desta desigualdade de idade entre o pai e a mãe.

- Correrão o perigo de ficar órfãos muito cedo.

Quais são as obrigações da prudência com relação à religião dos jovens esposos?
- É preciso proceder de maneira que se tornem impossível os casamentos entre pessoas de religiões diferentes;

- é preciso colocar a religião no primeiro plano das condições que se exigem para determinar a sua escolha.

Por que se devem rejeitar os casamentos entre católicos e hereges?
Porque a Igreja lhes causa horror a ponto de considerar a heresia um impedimento do matrimônio.

Donde provém este horror?
Do perigo da perversão a que estão expostos o cônjuge católico e seus filhos.

"É necessário a abstenção de semelhantes matrimônios, sobretudo pela razão de fornecerem ensejo de o cônjuge católico se encontrar numa sociedade e de participar de práticas religiosas proibidas; são também uma causa de perigo para a religião do esposo que for católico; são um obstáculo à boa educação dos filhos, e levam muitas vezes os espíritos a considerar todas as religiões como iguais, sem fazerem distinção alguma entre a verdade e o erro".
(Leão XIII Encíclica, Arcanum)

Que se deve pensar das dispensas que a Igreja concede algumas vezes?
Deve-se pensar que a Igreja só concede estas dispensas com dificuldade, e por graves razões, com o fim de evitar um mal maior. Mas a Igreja priva os casamantos assim contraídos das bênçãos solenes, que se compraz em lançar sobre os seus verdadeiros filhos, mostrando por isso a tristeza ea inquietação que lhe causam estas uniões, tão prejudicias à fé.

Por que deve a religião ocupar o primeiro lugar das exigências formuladas pelos pais, quando se trata de escolher um companheiro ou uma companheira para seus filhos?
1º- "Porque, para os cristãos, o casamento não é somente uma união de vidas, mas a fusão das almas, fusão que não pode ser real e completa, se não houver a comunicação da religião"; (P. Hoppenot)

- porque, sendo o matrimônio um sacramento dos vivos, seria um sacrifício recebê-lo sem ser em estado de graça, e, por conseqüência, sinceramente religioso;

- porque um jovem ou uma donzela que amam como se devem amar, isto é, que tanto cumprem preceitos religiosos como os deveres mundanos, nunca poderão consentir na ligação de sua vida à duma criatura sem religião, em estado perpétuo de condenação às penas eternas; por conseguinte, só desposarão um cristão praticante.

Que incoveniente haveria em desprezar esta recomendação?

"Há de temer que o homem sem religião diminua, pouco a pouco, a religião da sua companheira e acabe até por extingui-la. Far-lhe-á primeiramente abandonar as práticas de devoção e de conveniência; depois, os deveres essenciais; a seguir os princípios, os sacramentos, o Decálogo, a Igreja, Jesus Cristo, o próprio Deus. Em poucos anos, a piedade da esposa torna-se frouxa, a sua fé abala-se, desconcerta-se, as suas recordações da educação cristã esfriam e desaparecem, a sua consciência parece um farrapo. Um belo dia, a mulher encontra-se ao nível do homem. Ei-los semelhantes um o outro, sem práticas, sem crenças, sem esperanças, como dois astros extintos, como dois anjos fulminados".
(Mgr. Gibier, A desorganização da família, p. 136)

- Se é a mulher que não tem religião:

- O marido bom cristão não pode ser feliz;
- demais, está constantemente em perigo de perder a fé;
- o marido que, de fato, não é cristão, nunca o chegará a ser;
- "a mulher lançará uma nódoa no nome do seu marido, e tornará o seu interior suspeito e infeliz" (Mgr. Pichenot);
- a mulher nunca poderá educar cristãmente os seus filhos.

Liga-se, geralmente, bastante importância a esta questão de religião?
Não cremos.

E fazemos votos porque todos os noivos possam repetir com sinceridade as palavras do duque Luís da Turíngia, o feliz esposo de Santa Isabel da Hungria:

"Eu quero possuir a minha Isabel. Pela sua virtude e piedade, quero-lhe mais que a todas as terras e a todas as riquezas do mundo". (Montalembert, Santa Isabel da Hungria, cap. V)

Que é preciso exigir em relação à maneira de proceder?

"O homem que, na sua primeira juventude, cometeu algumas fraquezas, poderá, pelo menos se estiver seriamente convertido, desempenhar fielmente os seus deveres de pai e de esposo. Mas, se se mostrou francamente libertino, evitai consentir em tal casamento; há imensas probanilidades de que um jovem, por tanto tempo e fundamentalmente imerso no vício, recaia, mais dia menos dia, nos seus desregramentos".
(Charruaum Às mães, p. 233-234)

"Com respeito a uma donzela, deve
-se ser mais severo. Na grande maioria dos casos, não podeis confiar nela se, na sua juventude, as suas relações mesmo superficiais não foram de todo irrepreensíveis. Para cometer estas faltas, ela devia ter violado o pudor natural do seu sexo. Estas fraquezas indicam uma tendência bem acentuada para o mal. Há a recear novas recaídas".
(Charruaum Às mães, p. 233-234)

Deve fazer-se grande caso da saúde?
"Sem dúvida nenhuma, pois que a saúde é um fator necessário na criação duma família (P.Hoppenot). Há jovens que nunca deveriam casar e que fazem necessariamente do seu diadema nupcial uma mortalha; jovens que encontram o seu ataúde no berço do primeiro recém-nascido. Há jovens que só transmitem a vida entregando-se à morte, e cujos filhos expiarão a sua imprudência, para não dizer outra coisa".
(Mgr. Pichenot)

Há muito tempo que o Espirito Santo disse:

"Um corpo cheio de vigor vale mais que os maiores rendimentos. Não; não há riqueza possível ao tesouro duma boa saúde". (Ecli. XXX, 15,16)

É preciso também fazer caso da ciência?
É o P.Hoppenot que nos vai responder:

"Da ciência religiosa necessária à salvação, sim; e também das ciências profanas necessárias ao marido no seu mister ou profissão. Na escolha que fizer, nada melhor que o homem ligar-se a uma mulher cultivada, capaz de o seguir e de o compreender, se, deixando, por um instante, a vulgaridade da vida, sentir prazer em aportar às regiões do espírito e do gosto; mas que o homem se defenda da mulher sábia.

Que esqueça que a sua tarefa é estar em sua casa, e que é duma sopa bem feita que se vive e não duma bela linguagem".

Quanto a diplomas, dois são indispensáveis à jovem esposa na sua casa:

Diploma elementar: diploma de amabilidade.
Diploma superior: diploma de dedicação.

Não haverá nada melhor que a ciência e o espírito?
- O senso firme e reto: "Uma mulher sensata edifica a sua casa, e uma mulher insensata destrói-a por suas próprias mãos", dizem os Provérbios (XIV, 1);

- a serenidade de espírito.

"Os pais que pensam  em casar uma filha, desejam ordinariamente encontrar um genro sério. Mas, se se trata de casar um filho, a seriedade do espírito não passa, muitas vezes, a seus olhos, duma qualidade meramente acessória para a donzela que deve ser a sua companheira. 'A minha nora é uma tontinha que só pensa em divertir-se, dizia um dia uma dama, que tinha por toda a parte a reputação de pessoa sensata; mas, acrescentava ela, é encantadora, e, além disso, a seriedade de meu filho vale pela dos dois; de resto é preciso que a mulher o desemburre um pouco e que não se demore nesse trabalho".
(Charruau, Às mães, p. 28)

Que tristeza.

Que se deve exigir em relação à coragem?
- Os pais que querem seriamente a felicidade de suas filhas, nunca devem aceitar para genro um homem, sem posição, sem carreira sem uma ocupação certa...

- Não devem escolher de maneira nenhuma uma nora que não tenha o amor do trabalho e do trabalho manual.

"Se eu quisesse mal a um jovem, e se a vingança fosse permitida, desejar-lhe-ia para esposa uma ledora de romances". (Mgr. Pichenot)

É permitido procurar a beleza?
"Com certeza, responde o Catecismo do Concílio de Trento. Jacob, na Escritura, não é censurado por ter preferido Raquel a Lia, por causa da sua beleza. Mas com uma condição: Que esta beleza não seja uma máscara enganadora, mas sim o reflexo duma alma virtuosa". (P.Hoppenot)

As pessoas sérias desconfiam sempre um pouco:

"Não quereris, dizia-nos um dia um jovem de muito senso, desposar uma jovem cuja beleza desse que falar. Julgar-me-ão, talvez, original; mas tenho esta convicção muito arraigada". Não tinha razão? (Charruau, Às mães, p. 241. O Talmude conta que duas vezes por ano as jovens filhas de Jerusalém, vestidas de branco, iam dançar nas vinhas, dizendo: Vede rapazes, e tratai de escolher bem; não vos prendais com a beleza, mas consultai antes a família, porque a graça é enganadora e a beleza é vã. A mulher que teme a Deus é que será louvada).

Que se deve pensar da fortuna?
- É permitido desejar um dote suficiente, que permita sustentar a posição de cada um e educar, sem grandes dificuldade, um grande número de filhos;

- mas fazer da fortuna a questão principal, à qual se subordinem todas as outras é, ao mesmo tempo, insensato e anti cristão.

"A menina X é amável e boa; havia de dar uma excelente mulher; agradar-me muito, mas não tem nada! É impossível pensar nisso.


Não gosto desta menina; se não fosse tão rica, não pensaria nela um instante... Mas que dote! que esplêndido dote! É caso para pensar: Nunca poderia esperar um tão belo partido. Seria, na verdade um grande estúpido se não aproveitasse esta ocasião!... Decididamente aceito!"
(Charruau, Às mães, p. 240-241)

É este, na verdade, um raciocínio sem razão, mas está na moda. Não é uma companheira que se procura, é um dote; e crê-se, de boa mente, ser-se muito sensato quanto tão loucamente se procede (Charruau, Às mães, p. 240-241).

- Que os pais se não esqueçam nunca do velho provérbio: "Mais vale fama que riqueza". E que o jovem se persuada de "que a fortuna da mulher não substituirá nunca no lar a afeição verdadeira e desinteressada". (P. Hoppenot)

Que se deve pensar das relações que precedem o casamento?
- São necessárias.

Como no casamento não há noviciado, diz São Frncisco de Sales, quero que haja, ao menos, um apostolado; porque não admito que se case primeiramente e que se ame depois, se for possível.

É preciso então que os jovens saibam previamente se são feitos um para o outro, se se podem compreender e amar. Daí, a necessidade das entrevistas.

- São perigosas.

Quanto mais puros são os jovens, mais expostos então a ser arrastados pela violência das suas afeições nascentes. E, depois, o casamento poderá não se fazer: é preciso então que o rompimento não se torne impossível, se for julgado necessário.

Por conseqüência, as entrevistas serão pouco frequentes, cheias de reserva, sempre na presença e sob a vigilância duma mãe. Enfim, quando o casamento estiver decidido, que se faça o mais depressa possível.

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: III - O desinteresse)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A educação sobrenatural: XV- A vocação para a vida cristã no mundo

A EDUCAÇÃO SOBRENATURAL


XV - A VOCAÇÃO PARA A VIDA CRISTÃ NO MUNDO

"Falai, Verbo eterno, e falai assaz alto para vos fazerdes ouvir, apesar do ruído confuso que os meus sentidos e as minhas paixões produzem no meu espírito."
(Mgr.Pichenot)

Que comporta, sob o ponto de vista da educação, a vida cristã no mundo?
Duas coisas:

- A escolha duma profissão manual ou liberal;
- ordinariamente, pelo menos, o matrimônio.

1º- A escolha de uma profissão

Que se deve considerar, antes de mais nada, quando se trata de determinar a profissão do filho?
É preciso considerar, primeiro que tudo, as tendências e as aptidões...

Os pais seguem sempre fielmente esta recomendação?
Não, infelizmente.

Seja por ignorância, seja por egoísmo, seja por interesse, um certo número de pais dão a seus filhos, um gênero de vida que nem lhes agrada, nem lhes convém...

Que devem fazer os pais para evitar a decisão prolongada (escolha de carreira) nos filhos?
- Devem esforçar-se por deslindar as aptidões, as forças, as aspirações da criança que lhes é confiada;

- Devem ouvir, recolher, reter e explorar as pequenas confidências que certas circunstâncias fazem brotar do seu coração: "Eu quero ser religioso e tratar os doentes; eu quero ser religioso e orar por aqueles que nunca oram; eu quero ser soldado e morrer pela Pátria".

"... Mães portuguesas (Nota de rodapé: No original diz: mães francesas): deveis ter respeito por aquelas palavras, e alegrar-vos com elas. Não são a prova duma vocação, pela simples razão de que se não pode dizer: 'Sei uma língua difícil', quando se balbuciam apenas uma ou duas frases. Mas podem anunciá-la; e ficarão retraídas e nunca mais as ouvireis, se zombardes delas, se vos mostrardes indiferentes ao impulso desta pequena alma, que revelava o sacrifício e se dispunha para ele. São esses os mistérios em que tocais diariamente".
(René Bazin, Um dever maternal, artigo do Eco de Paris)

- Se estas confidências escasseiam completamente, os pais deverão provocá-las, multiplicando as situações susceptíveis de revelar a criança a si mesma: Corrégio, Lesueur, etc., encontraram, num instante, graças a uma circunstância reveladora, o caminho por onde deviam seguir.

Que mais se deve ainda considerar antes de determinar a profissão da criança?
- É preciso atender à saúde, para não se imporem à criança obrigações que não poderia cumprir, ou às quais não poderia fazer frente, a não ser se esgotasse antes da idade.

- É preciso atender ao nascimento, para não lançar a criança num meio social onde seria tentada a envergonhar-se de seus pais e de sua família.

3º- É preciso atender à fortuna, para não colocar imprudentemente a criança numa situação instável e expô-la, ao menor choque, a desabar na ruína.

Que se deve fazer depois de ter determinado a profissão da criança?
É preciso dar-lhe ou mandar-lhe ministrar uma educação em relação com a função especial que vier a desempenhar na sociedade.

Mgr. Dupanloup chama situação popular àquela que prepara  para as profissões operárias e agrícolas; educação intermediaria à que a encaminha para as profissões industriais e comerciais; e alta educação literária à que forma para as profissões liberais. (Da educação, T.1, p. 258)

2º- O matrimônio

Como se devem os pais encarar a questão do casamento de seus filhos?
- Com discrição.
- Com prudência.
- Com desinteresse.

I - A discrição

Sobre que deve exercer-se a discrição dos pais?
A discrição dos pais deve ter por objeto:

- a própria decisão;
- os meios de a fazer conhecer;
- a maneira de compreender a nova vida dos jovens esposos.

Por que devem os pais encarar com discrição a decisão que seus filhos podem tomar, com relação ao matrimônio?
Porque o "casamento exige uma verdadeira vocação" (Charruau, Às mães, p. 222); e esta vocação não deve ser considerada como absolutamente certa, pelo único fato de se tratar dum assunto que nem se relaciona com o estado eclesiástico, nem com a vida religiosa.

"Evitai aconselhar a vossos filhos o casamento, se eles não sentirem nenhuma inclinação para este estado de vida. Muito provavelmente não são chamados a ele; de outra forma é bem de crer que se sentissem atraídos".
(Charruau, Às mães, p. 222)

Qual seria o melhor meio de resolver prudentemente a questão?
Seria dar aos interessados alguns dias de recolhimento, de exercícios.

Qual seria o objeto especial deste recolhimento?
- Um estudo: o estudo da vocação em geral, e mais especialmente do chamamento para a vida do matrimônio.

- Uma promessa: a promessa de cumprir na vida conjugal, se para ela se for chamado, todas as obrigações que se impõe ao cristão.

Qual é o segundo objeto da discrição dos pais?
Consiste em não crer que, para conseguir colocar as suas filhas, seja preciso fazer de tudo de afogadilho, levá-las a todas as festas, vesti-las ridiculamente com trajes que dão na vista, etc.

"Fazer-se notar não é necessariamente distinguir-se. Longe disso".
(Nicolay, As crianças mal educadas, p. 159)

... O que é preciso, é preciso. O que quer dizer que as pessoas sérias sabem tão bem dosear a reserva e a complacência, as obrigações da vida de família e as concessões que convém fazer à vista da sociedade, a modéstia e a expansão, que a estima e a simpatia se ligam ao seu nome, que conseguem uma reputação sólida e de valor, e que obtém o melhor resultado, pelo emprego dos melhores meios.

Quais são as obrigações que a discrição impõe aos pais, após o casamento de seus filhos?
- Os pais devem eclipsar-se e condescender em nunca mais ocupar o primeiro lugar no coração do filho e da filha.

É Deus que assim o quer. "O homem deixará seu pai e sua mãe para se unir a sua esposa, e serão dois numa só carne". (Gen, II, 24) E, tanto pela força das coisas, como pela própria graça do sacramento, uma afeição nova se apodera do coração, soberana e dominadora; o amor destrona a piedade filial, embora a não extinga: Pode, acaso, uma filha desligar-se de seu pai? Não, sem dúvida.

Mas, este filho e está filha amam duma outra maneira; a hierarquia dos sentimentos sofreu modificações, e são os pais os sacrificados. Isto é penoso, mormente para a mãe; e não nos admiramos de que produza algumas vezes uma tentação de ciúme. Não era Branca de Castela, essa mãe tão perfeita, ciosa de Margarida de Provença, mulher de Luís?

Mas é preciso resistir a isso a todo o custo. Uma mãe cristã há-de encontrar na sua fé e na graça de Deus a força de se esquecer, de impor silêncio à natureza, e de repetir, sem amargura, as palavras de São João Batista: Oportet illum crescere, me autem minui- É preciso que ele cresça e que eu diminua (João, III). Para eles, a afeição e a felicidade; para mim, o esquecimento e a solidão.

- Os pais, quando puderem, devem tomar à letra o princípio: Cada um em sua casa.

"É raro, com efeito, que os jovens se encontrem bem em casa de seus pais; e é mais ainda que os pais se encontrem bem em casa se seus filhos. Influências que se cruzam no lar doméstico provocam cedo ou tarde choques e conflitos inevitáveis. A prudência está em saber evitar as complicações. Não há lugar para duas abelhas-mestras na mesma colmeia; é preciso que o novo enxame, que os novos esposos sejam senhores de si, se coloquem noutra parte e vivam em sua casa".
(Mgr. Pichenot)

Que, ao menos, sejam senhores da sua vontade.

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: II- A prudência)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A EDUCAÇÃO SOBRENATURAL

A EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
 

XIV - A EXTENSÃO DA VIDA SOBRENATURAL

Qual é a divisão deste capítulo?
- A vocação em geral (art. I);
- a vocação religiosa e sacerdotal (art. II);
- a vocação para a vida cristã no mundo (art. III).

Artigo I - A vocação em geral
"Ninguém escapa à sua vocação. Está em nós desde o instante em que, pelo nosso primeiro grito, à entrada no mundo, dizemos: Presente!"
(Heeri Lavedan, Bom ano, mau ano, 7ª série, p. 278)

Que é a vocação?
A vocação é o chamamento de Deus.
Este chamamento é multiforme:

- Como cristãos, somos todos chamados à perfeição e à salvação neste mundo e à felicidade eterna no outro: é a vocação geral.

- Como homens e como cristãos, para nos ajudarmos a atingir o fim natural e o fim sobrenatural da existência, somos chamados a esta ou àquela função especial, a uma ou outra situação, a um certo gênero de vida: é a vocação particular. Não nos ocupamos aqui senão desta última.

Quais são os princípios que esclarecem a questão?
- Deus é autor da sociedade.
"Formou-a de condições variadas, de estados diferentes, cuja reunião compôs um todo harmonioso, que corresponde às necessidades de todos e de cada um."
(Mgr.Pichenot, ob. cit., p. 331)
- Deus, que nada faz inútil, que não se arreda no caminho, destina e chama os homens a ocupar os diversos estados, cujo conjunto constitui a sociedade e é necessário ao seu bom funcionamento.

- Deus, que proporciona os meios ao fim, distribui os Seus dons segundo o destino de cada um.
"Reparte os talentos, os atrativos, as qualidades próprias ao estado que nos destina. Prepara-nos também as graças, as luzes, os socorros próprios deste estado para nos fazer vencer as dificuldades, evitar os perigos e cumprir todos os deveres."
(Mgr. Pichenot, ob. cit., p. 331)

Qual é a conseqüência prática que deriva destes princípios?
É que é da primeira e máxima importância abraçar o estado a que somos chamados:
"Porque é aí, e ai somente, que os nossos gostos serão satisfeitos, os nossos meios utilizados, as nossas aptidões exercidas com proveito; e temos a certeza de encontrar todos os recursos que nos serão necessários."
(Pichenot, ob. cit., p. 331)
Quais são os meios a tomar para cada um chegar a conhecer a sua vocação?
Há três principais:

- Recorrer a Deus pela oração.

Foi Deus que escolheu o estado que devemos abraçar; é Ele só que no-lo pode fazer conhecer; daí a obrigação de O consultarmos. É preciso orar com retidão, com docilidade, com recolhimento.

2º- Dirigir-se àqueles que estão no lugar de Deus, quer dizer, primeiramente aos pais; em geral, ninguém se deve afastar da sua maneira de ver; depois ao diretor, que tem a graça de estado para explicar e resolver o problema, com a condição de lhe ser exposto singelamente em todos os seus aspectos.

3º- Estudar-se e consultar-se a si mesmo. Deus, que proporciona os meios ao fim, estabeleceu uma harmonia entre o destino, duma parte, e os gostos, as aptidões e o caráter, de outra parte. Pertence ao homem pesar todas estas coisas, estudando-se e consultando-se a si mesmo, á luz da razão e da fé.

Quantas espécies há de vocações?
Há duas espécies principais de vocação: a vocação que consagra a vida ao serviço de Deus; e a vocação para a vida cristã no mundo.

A vocação para o serviço de Deus é susceptível de três formas:

- A vocação religiosa acrescida da vocação para o estado eclesiástico: é a dos religiosos padres.

- A vocação religiosa sem a vocação para o estado eclesiástico: é a das religiosas e a dos religiosos não padres.

- A vocação para o estado eclesiástico sem a vocação religiosa: é a do clero secular.

A vocação para a vida cristã no mundo considera ordinariamente como normal o casamento e a escolha dum emprego, duma situação, duma profissão manual ou liberal.

Artigo II - A vocação religiosa e sacerdotal 
"Se a graça duma vocação sacerdotal bafejar o vosso filho, se a graça da vocação religiosa bafejar a vossa filha... deixai soprar a graça, e, como Maria, humilde escrava, dizei o Ângelus da submissão".
(E. Julien, Do berço à escola, p.105)

Como devem encarar os pais a vocação religiosa e sacerdotal?
1º- Devem considerá-la como uma honra.
Com efeito, a Igreja sempre tem preferido a virgindade cristã ou o celibato religioso ao casamento.
"Se alguém sustentar que o estado de matrimônio deve ser preferido ao estado da virgindade ou do celibato, e que não é melhor nem mais santo permanecer no estado de virgindade ou do celibato do que entrar no estado do matrimônio: seja anátema".
(Concílio de Trento, Sess. XXIV, can. 10)

- Devem considerá-la como uma graça ou, antes, como uma série ininterrupta de graças maravilhosas, que se atraem umas às outras, pelo jogo sobrenatural dos votos formulados, e pela fecundidade das funções cumpridas. Uma mãe de família, uma verdadeira cristã, escrevia há pouco tempo, falando de sua filha, que partia para o noviciado:
"Quando considero a delicadeza do seu coração, a elevação da sua alma, e tantas qualidades admiráveis com que Deus a enriqueceu, sinto que me seria bem duro entregar a um homem semelhante tesouro. Jesus Cristo será o seu esposo: eu O bendigo". 
Eis aí a linguagem da fé.

3º- Devem considerá-la uma fonte de graça para eles mesmos. Deus, com efeito, nunca Se deixa vencer em generosidade; e a esse pai e a essa mãe, que lhe sacrificaram o que tinham de mais caro, Ele reserva favores escolhidos, cujos benefícios sentem durante a vida e, sobretudo à hora da morte.

Entre todas as graças, a mais preciosa, a mais desejável é, evidentemente, a graça duma boa morte.
"É um fato comprovado pela experiência: os pais que oferecem generosamente os seus filhos para o serviço de Deus, têm, geralmente, uma morte santa. É esta a regra geral é, que eu saiba, não apresenta exceções".
(Charruau, Às mães, p. 269 e 364) 
O pai e a mãe têm o direito de impedir os seus filhos de seguirem a sua vocação?
Não, mil vezes não.

Efetivamente, as crianças pertencem a Deus antes de pertencerem a seus pais; e seria uma verdadeira usurpação, cometida em prejuízo dos direitos do Criador, oporem-se ao chamamento divino.

E, se Jesus, na idade de doze anos, faz chorar de inquietação a mais santa de todas as mães, quando Lhe teria sido tão fácil adverti-lA dos Seus desígnios,
"foi para dar a vosso filho a coragem de vos ver chorar, e a vós, sua mãe, a de oferecê-lo generosamente".
(Charruau, Às mães, p. 269 e 364)

Os pais têm o direito de experimentar a vocação de seus filhos?
Sim, os pais têm o direito de experimentar a vocação de seus filhos, para saber se verdadeiramente vem de Deus, porque, até nisto, pode haver engano.

Que qualidades deve ter esta prova para ser legítima?
1º- Deve ser sincera.
2º- Deve ser esclarecida.

Que se deve entender por estas palavras: A prova deve ser sincera?
Deve entender-se que a prova não deve servir de pretexto a nenhuma tentativa de aniquilamento da vocação.

Têm-se visto pais que, sob o pretexto de examinar a vocação de seus filhos, contrariam a piedade e suprimem os melhores exercícios. Outros pedem conselhos, até que hajam obtido uma aprovação do seu olhar interesseiro. Outros impelem-nos para os prazeres e para as distrações do mundo. Outros, enfim, o que é raro, levam-nos pelos caminhos do vício.

São manobras desleais e criminosas.

Que significa estas palavras: A prova deve ser esclarecida?
Estas palavras significam que os pais, que usam do direito de experimentar a vocação de seus filhos, não devem deixar-se influenciar pelas fórmulas especiosas que infiltrem no seu espírito, nem pelos temores quiméricos que atormentem o seu coração.

Quais são as fórmulas especiosas cuja aplicação poderia prejudicar a prova da vocação?
Há quatro principais:

- Se a vocação é sincera, resistirá a tudo;
- a criança é vítima duma ilusão: os pais devem defendê-la de si mesma;
3º- o meu filho, a minha filha faziam bem melhor, se ficassem no mundo;
- eu admitiria uma Ordem ativa; mas uma Ordem contemplativa!... Pra quê?

Que responder à fórmula: "Se a vocação é sincera, resistirá a tudo"?
O seguinte:
"Que diríes do pai de família que fizesse este raciocínio: Mandei deitar o meu filho num quarto muito úmido. É verdade que, passado algum tempo, tossia um pouco. A princípio, isso inquietou-me; mas consultei um médico muito afamado, que me disse que não havia nisso perigo algum. Se seu filho tiver um peito robusto, disse-me ele, não há nada a temer da umidade; se esse jovem perdesse o vigor nesse quarto doentio, é porque a sua constituição deixaria muito a desejar. Aqui não há meio termo; e procederá prudentemente, obrigando-o a dormir nesta espécie de cave. A unidade é justamente a pedra de toque das constituições fortes e sólidas. Após esta experiência, saberá o que tem a fazer."
(Charruau, p. 274)
É luminoso, convincente, peremptório.

Que responder à fórmula: "A criança é vítima duma ilusão"?
Isto diz-se quando um jovem ou uma donzela pedem para entrar num noviciado onde poderão, durante um não, dezoito meses, ou dois anos, estudar de novo, em plena liberdade, uma vocação já provada.

E, quando se trata de casamento, deixa-se, sem escrúpulos, prender por toda a vida uma menina de dezoito anos, que se fia na palavra dum jovem, que ela apenas conhece há dois meses!

Onde está a precipitação?
E quem está em risco de ser vítima de ilusões?

Que responder à fórmula: "O meu filho e a minha filha farão maior soma de bem no mundo; são precisos bons pais e boas mães de família; e depois há tantas obras a sustentar, tantos apostolados a exercer... etc."?
A questão está mal posta.

Não se trata dum bem problemático que se possa fazer aqui ou acolá. Trata-se da vontade de Deus. Qual é a vontade de Deus? Eis a questão. E não é lógico sofismá-la.

Que responder à fórmula: "Admitia uma Ordem ativa, mas uma Ordem contemplativa!... Pra quê"?
Sem querer examinar largamente a questão da excelência relativa das diferentes Ordens religiosas, notemos somente alguns elementos para responder:

1º- Na narração de São Lucas (Cf. Luc. X, 38-42), de que a Igreja tirou o Evangelho para a Missa da Assunção, Marta é a vida ativa; Maria é a vida contemplativa. E Nosso Senhor diz: Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada.

2º- Tem-se dito: Santa Teresa salvou tantas almas, orando e sacrificando-se no seu mosteiro, como São Francisco Xavier, evangelizando reinos inteiros.

- A Santíssima Virgem, silenciosa e meditativa em Nazaré, foi, por isso, inútil à salvação dos homens? Os trinta anos de vida oculta de Nosso Senhor terão menos valor, para a redenção do mundo, do que os três anos da vida pública?

Quais são os temores quiméricos que assustam o coração de certos pais, perante a vocação religiosa de seus filhos?

- A desonra da família;
2º- a infelicidade do filho;
- o esquecimento a que o eleito de Deus votará seus pais.

A família pode, seriamente, considerar como uma desonra dar um dos seus membros ao serviço imediato e pessoal de Deus?
Seriamente, mão; mas há meios de tal modo infectados pelo espírito do mundo, que neles parece considerar-se como uma desonra o que é sobrenaturalmente uma glória, e como uma humilhação o que, cristãmente falando, é um prestígio e uma dignidade.

Em que é quimérico o temor da infelicidade da criança consagrada ao serviço de Deus?
Em que este temor não tem nenhum fundamento. Nada iguala, pelo contrário, a graça que Deus concede àqueles em que Ele desperta uma verdadeira vocação religiosa; é a felicidade na terra para obter a felicidade no céu.

E São Paulo, inspirado por Deus, diz claramente: "Se casardes a vossa filha, fareis bem; mas se a não casardes, fareis muito melhor". (I Cor., VII, 88)

Que vale o temor que têm certos pais de se verem esquecidos pelo eleito de Deus? 
"É uma calúnia absurda acusar a vida religiosa de egoísmo. Ela não destrói o coração: pelo contrário dilata-o, eleva-o, purifica-o; e em lugar dum amor natural e terrestre, que se ama a si mesmo, enche-o dum amor todo espiritual e todo divino que só ama a Deus e a salvação das almas. A vossa filha pedirá por vós, será o anjo da guarda da família, o pára-raios da casa paterna. Não, não é verdade que a graça destrua a natureza, e que a castidade enfraqueça a sensibilidade: ela consagra-a e eterniza-a. Quantas piedosas afeições, desenvolvidas ou mesmo nascidas à sombra dos claustros, e que o lar doméstico não conhece!

Recordai-vos da Mãe de Chantal, a jovem baronesa de Thorens. Recordai-vos de Santa Paula, acompanhando o ataúde da filha, chorando copiosamente. Julgavam que morreria, e o velho São Jerônimo não sabia o que fazer para a consolar. Nunca uma mulher pagã chorou tanto os seus filhos, diziam os pagãos."
(Mgr. Pichenot)
(Catecismo da educação pelo Abade René de Bethléem, Livraria Figueirinhas, Porto, continua com o post: A vocação para a vida cristã no mundo)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Educação sobrenatural - XIII - Os frutos da vida sobrenatural

A EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
XIII- OS FRUTOS DA VIDA SOBRENATURAL


"Aquele que permanece em mim e em quem eu permanecer,
produzirá muito fruto."
(Joan., XV, 5)

Quais são os principais frutos da vida sobrenatural?
São: a fé (art. I); a esperança (art. II); o amor de Deus (art. III); o amor a Igreja (art. IV).

Artigo I -A fé

"A nossa fé é um candelabro espiritual que ilumina e aquece a alma."
(São Tomás de Aquino)

Donde vem a fé para a criança?
A criança recebeu, no batismo, a fé infusa, uma virtude secreta, uma disposição íntima que a inclina a crer, um gérmen abençoado que só espera desenvolver-se e engrandecer. As criancinhas batizadas têm afinidades sobrenaturais com as verdades cristãs, que ainda não conhecem. Esta fé virtual, esta crença implícita é quanto lhes basta por agora; crêem pelo coração da Igreja e pelo coração de sua mãe.

Que se deve fazer quando a criança atinge a idade da razão?
Quando a criança atinge a idade da razão, é obrigada a fazer um ato de fé explícito e formal.

A mãe deve vigiar o primeiro despertar da sua inteligência para a colocar, imediatamente, em relação com as verdades reveladas, com a ordem sobrenatural.

Mas não se deve assustar; a criança não as admira de nada, está preparada para tudo. Ser-lhe-á impossível, durante muito tempo ainda, sem dúvida, dizer por que é preciso crer; mas crê sem hesitar. A sua adesão é franca, inteira; nenhuma dúvida a assalta; e isto não é somente o resultado da credulidade, natural da sua idade, é também o fruto do Espírito Santo que a ilumina e lhe faz dizer: "Eu creio". Pode-se afirmar que, depois do batismo, a criança é naturalmente cristã.

Como se deve então apresentar à criança os ensinamentos da fé?
É preciso apresentar-lhe os ensinamentos da fé com uma clareza proporcionada à sua inteligência; pô-los ao seu alcance; servir-se de exemplos, de comparações, de lembranças; é preciso descrever-lhe a religião. A verdade há-de penetrar tal qual é na sua alma, infiltrar-se-á nela, porque, quando a verdade não é contrariada por paixões ou preconceitos, basta mostrar-se para triunfar.

"Nada é tão tocante como a fé simples e ingênua duma verdadeira mãe, nas relações com seus filhos, sobretudo quanto está razoavelmente esclarecida; dir-se-iam pequenos anjos que escutam as predicas dum arcanjo ou dum querubim."
(Mgr. Pichenot)

Deve contentar-se como  ensinamento pela palavra?
É preciso ajuntar-lhe o exemplo.

"O coração e as mãos devem estar de acordo com os lábios."
 (Mgr. Pichenot)

Uma mãe deve viver da fé, como o justo da Escritura, e isto a fim de criar em volta de seu filho uma atmosfera impregnada de espírito cristão, para lhe infundir a religião no sangue, alimentar com ela a sua alma para a vida.

Artigo II - A esperança

Que é o objetivo da esperança?
É tríplice, no dizer de São Bernardo, a saber:

- A esperança do perdão: spes veniae;
- a esperança da graça: spes gratiae;
3º- a esperança da glória: spes gloriae.

É importante criar nas crianças a esperança do perdão?
Sim, porque:

1º- As crianças pecam e por vezes mortalmente.

"Sacramentei e enterrei uma pobre criança que morrera vítima de pecados; não tinha mais de onze anos."
 (Mgr. Pichenot)

2º- As crianças são culpadas, pelo menos de pecados veniais. E o pecado venial, é já um grande mal; arrefece o amor de Deus; impede o aumento interior da vida sobrenatural; expõe às chamas do purgatório.

Qual é o melhor meio de fortalecer nas crianças esta esperança do perdão?
É habituá-las a repararem prontamente os pecados que cometem.

É preciso dizer-lhes que Deus é bom como um pai, terno como uma mãe, e mais que uma mãe, segundo a linguagem da Sagrada Escrituras.

É preciso  ensinar-lhes que nem sempre têm necessidade de confissão para obter o perdão dos pecados veniais: um Pater bem dito, um sinal da cruz bem feito, um bocado de pão bento comido com fé, a bênção dum bispo ou dum padre, e com mais forte razão a do Santíssimo Sacramento, com o ato de contrição ou de caridade, o Confiteor dito do fundo do coração, e podem ficar purificadas.

Não há a temer alguma presunção no desenvolvimento desta esperança?
Pode ser.

Mesmo assim é preciso ensiná-la: a confiança na misericórdia honra Deus e fortalece o coração.

"Mais vale que as crianças caiam um dia no purgatório por um pouco de presunção do que possam cair por desesperança no inferno. Porque foi maldito Caim? Porque matou seu irmão? Não. Por que se perdeu Judas? Por causa da sua traição? Não. Por causa da sua primeira Comunhão sacrílega? Não; foi porque não tiveram confiança. A desesperação é um pecado contra o Espírito Santo, um pecado que não pode ser perdoado."
(Mgr. Pichenot)
Por que é preciso formar nas crianças a esperança da graça?

- Porque a presunção é o fundo do seu caráter; de nada duvidam e imaginam não ter necessidade de ninguém. É preciso, portanto, ensinar-lhes que, sem a graça, não podemos nada, nem evitar o mal, nem fazer o bem, nem salvar-nos: isto é um caso de fé.

- Porque as crianças, jovens presunçosas, não tardam a experimentar a sua fraqueza, e são tanto mais tentadas a desanimar quanto maior era a confiança que tinham em si próprias. É preciso dize-lhes então que se pode tudo com a graça de Deus, humildemente solicitada, generosamente seguida.

Como se pode excitar nas crianças a esperança da glória?
- Dizendo-lhes que a recompensa do céu é segura, abundante, eterna;

- amparando-as no cumprimento dos seus deveres, pela perspectiva, sobrenaturalmente aberta a seus olhos, da eternidade bem-aventurada;

- recordando-lhes alguns traços da vida dos santos mais especialmente instrutivos na matéria.

A mãe de São Sinforiano dizia-lhe, no momento em que o conduziam ao suplício:

- Meu filho, meu filho: lembra-te da vida eterna; olha os céus; não tenhas pena desta vida, pois vais trocá-la por uma melhor.

Santa Felicidade de Roma, a mãe dos Macabeus, sustinha a fé e a coragem dos seus sete filhos com o pensamento da Ressureição gloriosa, quando eles estavam nas mãos do carrasco.

Artigo III - O amor de Deus

"Ah! quem não ama a Deus é louco".
(Vida do bem-aventurado Crispim, p.109)

Qual é a importância do amor de Deus?
É imensa.

"A maior desgraça neste mundo, a origem de todos os erros e de todos os vícios, é não se amar a Deus."
(Mgr. Pichenot)


Como se deve fazer para excitar, no coração da criança, um verdadeiro amor a Deus?
É preciso persuadi-la de que ela mesma é objeto dum grande amor da parte de Deus.

Se não se ama Deus, ordinariamente pelo menos, é porque não se crê que se é amado por Ele. Se se tivesse a convicção, a persuação íntima desta verdade: que Deus nos ama desde toda a eternidade, que nos ama apesar das nossas faltas e fraquezas, que nos quer amar sempre, ser-nos-ia impossível não nos ligarmos a Ele, porque o amor chama o amor, como o fogo chama o fogo: é uma lei da natureza, é uma lei do coração.

Quais são as verdades que convencerão mais facilmente a criança do amor de Deus pra com ela?
1º- É primeiramente a criação com as múltiplos benefícios de Deus espalhados na ordem da natureza; a primavera e o perfume das suas flores, dessas flores que nasceram, dizem os poetas, do sorriso de Deus, que arrebatavam os santos em êxtases de reconhecimento; o estío e as suas messes douradas, com as quais Deus nutre o corpo e a alma de cada um de nós; o outono e os seus frutos variados e saborosos, que fizeram dizer a Bernardim de Saint-Pierre que as plantas trazem consigo a sua teologia; o inverno, enfim, e a bênção do seu fogo, das suas águas e das suas longas noites reparadoras.

- O benefício da sua própria existência, que lhe vem de Deus.
A mãe dos Macabeus dizia aos seus sete filhos no dia do seu martírio:

- Não sei como aparecestes no meu seio; porque não fui eu que vos dei o espírito, a alma e a vida nem mesmo fui eu que organizei os vossos corpos e reuni os vossos membros, mas foi o Criador do mundo que fez tudo.

A criança recebeu esta existência de preferência a uma infinidade de outras que teriam sido melhores do que ela. Deus, em seu lugar, poderia ter feito um anjo ou uma estrela. Porque a criou a ela? Amor, amor. E essa existência nunca lhe será arrebatada: é indestrutível. Esta existência traz consigo uma multidão doutros benéficos, que a criança compreenderá quando seu pai ou sua mãe compararem o seu estado com o estado daqueles que sofrem: ou enfermos, os deserdados da vida.

- Os mistérios da Encarnação, da Redenção, da Eucaristia, da eternidade bem-aventurada.

Artigo IV - O amor da Igreja

"Não há melhor mãe neste mundo"
(Provérbio cristão da idade média)

Por que se deve inspirar às crianças o amor da Igreja?
Porque a Igreja é nossa mãe.

"Deus deu-no-la para dirigir os nossos passos para o céu, para curar os nossos males, pensar as nossas chagas, ressuscitar-nos, se tivermos a desgraça de perder a vida da alma, levar-nos nos Seus braços do berço à tumba, até à vida que não acabará jamais."

Não é preciso inspirar-lhes também o amor pelo Sumo Pontífice?

Sim.

O Sumo Pontífice foi eleito por Jesus Cristo como Seu vigário sobre a Terra e chefe supremo de toda a Igreja. É preciso convencer as crianças a tirarem do seu pequeno mealheiro a parte do Papa, generosamente lançada no Dinheiro de São Pedro.
 
"Outrora, diz o Pe. Charruau, criancinha caíram doentes com a dor causada pela notícia de que o pequeno exército de Pio XI tinha sido derrotado pelos Piemonteses."
(Charruau, Os nossos filhos, p. 135)
 
Este amor parece que tende a diminuir: é preciso reanimá-lo por todos os meios. Não zombemos do generoso ardor desse homenzinho de sete anos que queria ser zuavo e que fazia todos os dias exercícios, a fim de se preparar para expulsar de Roma o rei da Itália e tirar aos alemães a Alsácia Lorena.
 
"Num homem de sete anos há muito do que ele será aos trinta."
(P.Charruau, Às mães)
 
É suficiente inspirar crianças o amor da Igreja e do Sumo Pontífice?
É preciso ainda fazer-lhes compreender, amar e sustentar as obras católicas: o Dinheiro do clero; a propagação da Fé, a Santa Infância, a Obra de São Francisco de Sales, as escolas católicas de todos os graus e mais especialmente os seminários, as obras post-escolares, as obras sociais católicas, as obras de propaganda, etc.
 
Alguns pensam assim:
 
- No colégio. - "Dantes, nos bons tempos de antanho, contava o P.Charruau (Os nossos filhos, p. 146), quando um missionário nos visitava no colégio e nos falava dos milhares de almas que tinha a converter, e da fraqueza dos seus recursos, abríamos com entusiasmo as nossas bolsinhas e quase sempre dávamos tudo sem contar. Não nos ralhavam por esta falta de economia. Pelo contrário, quando chegava a noite e contávamos o que se passara durante o dia, as nossas mães apertavam-nos nos braços e, beijando-nos na fronte, diziam-nos:
 
- Meu filho, fizestes bem.
 
E deixavam-nos muito dias sem dinheiro para não diminuirmos o nosso mérito.
 
Hoje encontrareis poucas crianças capazes desta generosidade. É esta falta de coragem provém, sobretudo, ficai certos disto, da moleza com que, atualmente, se educam as meninas e os rapazes."
 
- Na vida. - As crianças poucas vezes ficam tão boas como os pais e as mães; e, quando desaparece algum nobre velho que era a providência dum bairro, duma cidade, duma diocese, algumas vezes dum país inteiro, não é geralmente substituído. Nós mesmos temos observado, e julgamos poder emitir uma opinião fundamentada, que em certos meios a generosidade dos pais, comparada com a dos filhos, está na proporção de dez para um.
 
De que provém?
1º- Da moleza da educação;
 
2º- do luxo que faz estabelecer o lar que começa no mesmo pé de igualdade que aquele em que os pais acabaram após uma vida de trabalho;
 
3º- desse erro deformante que leva os pais a tomarem para si, até ao fim da sua vida, todas as obrigações de seus filhos. Necessariamente, diminuem assim a ação pessoal, e habituam os seus descendentes a nada fazerem.
 
(Catecismo da educação, pelo abade René de Betléem, continua com o post: A extensão da vida sobrenatural)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Educação sobrenatural - XII - A ressurreição da vida sobrenatural

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
XII- A RESSURREIÇÃO DA VIDA SOBRENATURAL


"Se o pecador se desvia da maldade que praticou...
fará viver a sua alma."
(Ezequiel, XVIII, 27)

Como se opera a ressureição da vida sobrenatural?
A ressurreição da vida sobrenatural opera-se normalmente pela  recepção do sacramento da Penitência.

Em que idade convém levar a criança à confissão?
"É impossível estabelecer uma regra uniforme. Certas crianças muito precoces têm a razão suficientemente desenvolvida par acometer um pecado grave, desde a idade de três ou quatro anos. É  uma exceção, de acordo; mas não é uma suposição quimérica. Conheci um menino de três anos e meio ou quatro, raivosamente invejoso da sua irmãzinha. Manifestava por ela o mais violento rancor.
- Ah! - dizia ele com uma entoação impossível de esquecer- um dia que a mamãe e a criada não estejam, levo-a a casa do senhor X... (este indivíduo morava no quarto andar) e de lá atiro-a pela janela. Que vos parece esta maneira de pensar tão precoce?"
(Charruau, Às mães, p.41, 42 e 44)

As criancinhas cometem facilmente pecados mortais?
Facilmente, não.

Mas, "muitos pais iludem-se e crêem facilmente que seus filhos são duma inocência absoluta, quando é certo que o pecado mortal, infelizmente, já feriu a sua alma. Poder-se-ia contar, a este propósito, mais duma história tristemente elucidativa".
(Charruau, Às mães, p. 41, 42 e 44)

Não há uma circunstância em que é preciso absolutamente fazer confessar a criança que manifesta vislumbres de razão?
Sim.
Quando há perigo de morte.

Não vale dizer que, se numa tão tenra idade a criança cometeu algum pecado grave, provalvemente já não se lembrará dele. Porque, seja embora gratuita esta suposição, a teologia ensina-nos que não é o esquecimento do pecado mortal que põe a alma em graça com Deus. É preciso, para isso, a contrição perfeita, com o desejo de se confessar, ou a absolvição com a contrição ao menos imperfeita. Então, mas só então, todos os pecados, mesmo aqueles que involuntariamente se esqueceram. são perdoados, e a alma recupera a graça perdida.

Como se deve preparar a criança para receber o sacramento da Penitência?
- É preciso primeiramente elevá-la a uma atmosfera sobrenatural.

- Em seguida facilitar a confissão dos pecados cometidos pelo exame de consciência e a confissão no padre confessor.
- Prepará-la também para a contrição.
- Inspirar-lhe sobretudo em horror profundo pelo sacrilégio.
- Familiarizá-la, enfim, com as fórmulas em uso na diocese onde se confessa.

Qual é o meio de elevar a criança a uma atmosfera sobrenatural?
1º- É fazer-lhe considerar o padre como representante de Nosso Senhor, cujo lugar ocupa, partilhando dos Seus poderes e comunicando o perdão.
- É dizer-lhe e fazer-lhe crer que, no momento da absolvição, é o próprio sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo que corre na sua alma para a purificar, santificar e divinizar.

Como se pode ajudar a criança a fazer o exame de consciência?
A mãe, de ordinário, conhece o seu filho a fundo: sabe o que ele tem feito, dito, pensado ou sentido muito melhor do que ele próprio o sabe. Pode, portanto, ensinar-lhe facilmente a ler a sua consciência. Para o conseguir, procederá por interrogações; assim despertará as lembranças, fixar-se-á a atenção e lhe dará o mérito, e quase que a alegria, de ele mesmo descobrir aquilo de que tem de arrepender-se.

Pode dar-se o caso de a criança negar de boa fé, apesar de culpada; a mãe insistirá, concretizará mais as perguntar, encaminhá-la-á, recordando ao pequeno aprendiz do exame de consciência algumas circunstância que acompanharam a culpa, e desta maneira obterá suavemente dos seus lábios uma palavra de confissão.

Que doce e consoladora tarefa para uma mãe!

No entanto, tenha cuidado em não abusar. Pode fazer tudo da primeira vez; da segunda, já um tanto menos; da terceira, menos ainda; e retirar-se-á pouco a pouco, até deixar à criança uma iniciativa cada vez maior, até que o santuário de sua alma esteja inteiramente fechado e ele possa preparar-se por si só.

"Há coisas que as mães devem fingir nunca saber, embora estejam ao corrente de tudo."
(Pichenot)

Como se deve inspirar à criança a confiança de que tem necessidade?
- Falar-lhe com convicção do segredo da confissão;
2º- habituá-la a um grande respeito pelo padre;
- penetrar a sua alma duma veneração profunda pelo confessor.

Que se pode dizer à criança, relativamente ao segredo da confissão?
- Que o padre não revelará a quem quer que seja aquilo que sabe pela confissão;
- se, por um impossível, o fizer, cometerá um grande crime, que o tornará merecedor do inferno;
3º- que ele antes quererá morrer do que violar um segredo tão grande e tão sagrado.

A história de São João Nepomoceno ilustra dum modo útil esta verdade essencial.

"Intimado por Wenceslai, imperador da Alemanhã e rei da Boémia, a revelar a confissão da imperatriz Joana, o santo bispo afrontou todas as ameaças do tirano e pagou com a vida a sua fidelidade ao sigilo sacramental. Alguns anos após a sua morte, abriram o seu túmulo. O corpo estava inteiramente decomposto, com exceção da língua, que foi encontrada fresca e intacta... Deus glorificava por esta maravilha o mártir da confissão."
(segundo Charruau, ob. cit., p. 46)

Como se pode criar na criança o respeito pelo padre?
- Pelo exemplo.

Que os pais não julguem, não critiquem, nem escarneçam os ministros de Deus. Que testemunhem, em toda a sua atitude, um verdadeiro culto pela sua pessoa e pelo seu ministério. Os inimigos da religião têm tentado todo o possível para rebaixar o padre: "No fim de contas, dizem eles, é um homem como qualquer outro". Os pais e as mães que repetissem essa frase teriam que censurar-se por haverem vibrado um golpe mortal no respeito, dentro da alma de seus filhos; tornar-se-iam, sem o querer, cúmplices dos sectários e dos franco-mações.

- Pela contristada repressão de toda a falta.

Encontrávamos-nos um dia com uma família, falávamos com a mãe de questões de educação e emitíamos esta idéia muito verdadeira, infelizmente: que as crianças bem educadas são muito raras. Uma rapariga de quinze anos, orgulhosa como um pavão, porque tinha sido adulada, amimada e estragada, saía e entrava na sala onde nos encontrávamos. Não podendo ficar indiferente à nossa reflexão, que a feria pela sua flagrante verdade, segredou ao ouvido da mãe:

- E ele (ele éramos nós) teria sido bem educado?

A mãe limitou-se a responder, com ar sorridente:

- Ah! sua má!

E a prova de que a sua desaprovação era meramente negativa, é que nos repetiu, sem mesmo sentir a necessidade de se desculpar, a graça da filha, que nós não tínhamos ouvido. (Autêntico). Era, de fato, uma insolência completamente atentatória do respeito que se deve inspirar às crianças pelo padre.

- Por certas manifestações exteriores.

Antigamente, à passagem do padre, as crianças ajoelhavam-se para receber a sua bênção. Se não se pode ou se quer restabelecer esta piedosa prática, habituem-se pelo menos as crianças a saudar o padre e, quando o ministro e Deus visitar a família, que a mãe lhe peça a bênção para os seus filhinhos, e que estes a recebam de joelhos, com as mãos postas.

A veneração acrescenta alguma coisa ao respeito?
Faz subir a alma um degrau no caminho sobrenatural, onde o respeito a tinha já colocado: dá-lhe um sentimento de religiosa afeição; prepara para todas as docilidades. Felizes as crianças educadas na estima desta virtude! temos conhecido algumas desse número!

- Foi o snr. abade que o disse, observavam elas. E isto era sagrado!
- Foi o meu confessor que me aconselhou! E isto era indiscutível!

Oh! as maravilhas que nós operaríamos! As belas almas que nós formaríamos. Os sólidos alicerces de salvação que lançaríamos! As consolações que nós gozaríamos!

Qual é o fruto natural deste respeito e desta veneração?
É a confiança.

A confiança é necessária?
É um meio de salvação, absolutamente necessário em certas circunstâncias. Porque, enfim, um grande número de crianças cairão, quando crescerem, em pecado mortal; deverão então recorrer ao padre, ministro do sacramento da Penitência, para serem perdoadas. A confissão será fácil, se for inspirada pela confiança; seria que se impossível, se não tivesse, pelo menos, o respeito como ponde de apoio.

A confiança é geralmente praticada?
Não.

Menos ainda que o respeito e a veneração, que ela exige sempre, mas que não acompanha necessariamente. Mesmo as crianças relativamente bem educadas sabem bem o que é esta virtude: e, quando se quer fazer-lha compreender, quando se quer levá-las a praticá-las, sente-se que para a abertura da alma há um obstáculo, uma pedra, que faz pensar naquela de que as santas mulheres diziam: "Quem nos levantará a pedra do túmulo?"

Sim, há aí uma pedra; e, quando conseguimos derrubá-la, a libertação da alma é acompanhada duma tal explosão de alegria que nós reconhecemos a necessidade natural da confiança e, consequentemente, a deformação e má educação da alma que a não pratica. - Que infelicidade não me haverem educado nesta confiança! - exclamava uma jovem no dia em que, por fim, compreendeu a doçura, as vantagens e a necessidade desta virtude.

Qual é o complemento desta confiança?
É, da parte da criança e de seus pais, a submissão às direções espirituais do seu padre confessor. Só ele é juiz: deve ser um juiz escutado. Quantas vezes nos tem sucedido pedir a uma criança que venha confessar-se todas as semanas, e obter uma resposta como esta: - A mamãe disse que bastava confessar-me de quinze em quinze dias.

Não! não! não!

Como se pode preparar a criança para a contrição?
- A criança, de ordinário, não pensa nisso. É preciso, nesse caso, pensar por ela.

- A criança corre o risco de fazer uma idéia falsa da contrição: é preciso, pois, instruí-la bem. "Um menino respondia um dia, no catecismo, que a contrição perfeita é aquela que é séria, e a contrição imperfeita é a que não é séria". (Charruau, Ás mães, p. 47). Vê-se que perigos uma semelhante instrução religiosa pode fazer correr à vida sobrenatural e à salvação da alma.

- A criança expõe-se a não tornar sobrenatural o seu arrependimento; é preciso ajudá-la a fazer com o seu coração e com a sua fé a tríplice peregrinação clássica: ao calvário, ao céu e ao inferno...

Que é preciso que a criança saiba com respeito à comunhão sacrílega?
É preciso falar-lhe de modo que se lhe inspire um horror profundo por este grande pecado. E, não obstante, fazer-lhe notar que, se tiver tido a infelicidade de imitar Judas no seu crime, não deveria segui-lo na desesperação, mas confessar-se quanto antes, para alcançar a graça de Deus. Será oportuno avisá-la de que o padre nunca se admirará das confissões que lhe fazem, porque conhece o coração humano e, como Nosso Senhor, está cheio de ternura e compaixão para com os pobres pecadores.

Quais são as regras e as fórmulas às quais é preciso habituar a criança?
Mgr. Pichenot não desdenha entrar nalgumas particularidades:

"As crianças tiram as luvas, põem-se de joelhos, fazem o sinal da cruz e dizem: 'Abençoai-me, meu Padre, porque eu pequei'. Meu Padre! esta palavra abre o coração, dá a confiança, e transporta a alma a outro mundo. Recomendai-lhe que diga o Confiteor em português (Nota de rodapé: No original diz em francês) e corretamente, o que é muito raro. Que digam: 'eu pecador me confesso' e não 'eu confesso' a 'Deus Todo Poderoso' e não 'a Deus o Pai todo poderoso'; porque eles não se devem confessar à primeira primeira pessoa da Santíssima Trindade somente, mas a todas três ao mesmo tempo. E depois, dizendo: 'o Pai todo poderoso, criador do céu e da terra' e ei-los perdidos! 'E a vós meu Padre', estas palavras são essenciais para distinguir esta oração, no confessionário, da que se diz nos exercícios da noite e da manhã. Não se trata aqui precisamente da confissão a Deus, mas da confissão do padre: 'E a vos meu Padre, que pequei muitas vezes" habituai-as a não dizerem - o que é uma falta e um contra senso 'e a vos, meu Padre, que rogueis por mim'. Que façam pausa em chegando às palavras 'por minha culpa'; porque é no meio do Confiteor que se deve fazer a confissão e dizer os pecados. Quando tenham dito tudo e respondido às perguntas do confessor, que terminem por estas palavras: 'Acuso-me também de todos os pecados de que me não recordo e de todos os pecados de minha vida passada; de tudo peço perdão a Deus, e a vós, meu Padre, a penitência e a absolvição, se me julgais digno dela'. E devem acabar o Confiteor, batendo no peito e dizendo: 'Por minha culpa'..."

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: Os frutos da vida sobrenatural)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Educação sobrenatural - XI - Os amparos da vida sobrenatural

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
XI - OS AMPAROS DA VIDA SOBRENATURAL


"A vida da alma é Deus"
 (Santo Agostinho)

Quais são os amparos da vida sobrenatural?
São: a oração (art. I); a Confirmação (art. II); a Comunhão(art. III).

Artigo I - A oração

"Uma criança para orar precisa do coração de sua mãe"
(Mgr. Pichenot)

Qual é a primeira oração que a criança deve fazer?
É a oração dos gestos. Consiste em ajoelhar; juntar as mãos; baixar os olhos; bater no peito; em fazer o sinal da cruz, etc.

Esta oração tem algum valor?
"Hábitos maquinais! - murmuram os pretensiosos da pedagogia. Parece-nos que, se um Pascal, na plenitude  do gênio, podia implorar algum auxílio para a pobre máquina humana, contar com o hábito para despertar a sua fé, não pode haver presunção alguma em usar do mesmo gênero de incitamento para os mais pequeninos. Quando a idade da vida puramente física tiver passado, o seu corpo, ajudando a alma no seu mais alto serviço, lhe recordará, instintivamente, pelas suas atitudes, que é a hora de retomar a plenitude da sua vida espiritual sob o olhar de Deus".
(Bouvier)

Que orações de devem fazer dizer à criança quando começa a falar?
Orações muito curtas e muito simples:

Jesus, dou-Vos o meu coração”; “Jesus abençoai o papai e a mamãe... e toda a família”; “Jesus tornai o meu coração semelhante ao Vosso”, e outras do mesmo gênero, sugeridas pelas circunstâncias à piedade engenhosa das mães de família.

Que desenvolvimento convém dar a oração da criança que vai crescendo?
Um desenvolvimento progressivo em relação com a idade e a capacidade da criança. É preciso nada exagerar; porque o essencial não é que a oração seja longa, mas que seja bem feita.

Quais as condições a realizar para que a oração seja bem feita?
- É preciso incutir na criança, desde a mais tenra idade, o hábito e fazer bem a sua oração.
- É preciso explicar-lhe, a pouco e pouco, o sentido das fórmulas que emprega.
3º- É preciso exigir que a sua atitude seja séria e recolhida, dando-lhe o exemplo.
- É preciso ter cuidado que ninguém faça barulho em volta da criança enquanto desempenha este dever.
- É preciso que pronuncie as palavras pausadamente, sem se apressar e sem gaguejar.

Numa excelente família, muito cristã, piedosa, séria, assistimos um dia, por acaso, à oração da noite das crianças. Eram três ou quatro, com uma aia sem autoridade; recitavam as rezas com uma precipitação que lembrava um concurso de velocidade, com modulações que pareciam às vezes gritos, com sorrisos, movimentos nervosos de cabeça e dos olhos; parecia tudo uma comédia. E a isto chamava-se dizer a sua oração (autêntico).

Não seria para desejar que as crianças que não assistem ainda à oração comum pudessem recitar separadamente, e cada uma por sua vez, as orações que convém à sua idade?

Devemos contentar-nos com a oração individual?
- É preciso, o mais cedo possível, fazer participar a criança da oração comum, feita em família, pelo menos a noite.

2º- É também preciso iniciá-la sem demora a participar dos cultos divinos, conduzindo-a aos exercícios religiosos, ainda antes que a idade a isso obrigue.

"Vi em Anvers o famoso quadro de Rubens - Jesus pregado na Cruz; o artista representou no Calvário uma mulher amamentando o seu filhinho. O pequenino, à vista de Deus crucificado, parece comovido, esquece o seio de sua mãe, volta a cabeça e contempla com os seus grandes olhos o tocante espetáculo. Na imaginação do pintor há uma idéia verdadeira. Os nossos mistérios sagrados têm alguma coisa que está ao alcance de todas as idades. As crianças cristãs sentem o que não compreendem, adivinham o que ainda não sabem".
(S. Diniz Areopagita)

Artigo II - A Confirmação

"Conduz-me o batizado, vestido com uma túnica branca, junto do bispo, que o unge com o óleo santo e deificante".
(S. Diniz Areopagita)

Em que idade se deve receber o sacramento da Confirmação?
O sacramento da Confirmação pode ser validamente recebido antes da idade da razão: na primitiva Igreja dava-se aos pequeninos, mesmo de peito; é ainda o uso dos Gregos e das Igrejas de Espanha.

Seria vantajoso que a criança recebesse este sacramento na idade da razão.

Mgr. Roberr, bispo de Marselha, tendo resolvido adotar esta prática, recebeu, em 22 de junho de 1897, uma carta elogiosa do papa Leão XIII, na qual se lê, entre outras coisas:

"Damos os maiores elogios aos vossos desígnios... Desejamos vivamente que aquilo que por vós foi sabiamente regulado, seja fiel e perpétuamente cumprido".

Praticamente, que se deve fazer?
Não depende evidentemente do pai e da mãe fazer confirmar os filhos em certa e determinada idade. Mas, se as circunstâncias deixam à sua escolha a determinação do tempo, é preferível antecipar a retardar a administração do sacramento.

Quais são as vantagens do sacramento da Confirmação na educação da criança?
- A maturação da vida sobrenatural, que dá a força de professar a fé, e a coragem de combater os inimigos da salvação.

- O caráter, que faz da confirmação um soldado de Jesus Cristo.

3º- O aumento da graça santificante.

E, como a educação tem o seu coroamente na bem-aventurança eterna do céu, que satisfação não é para um pai e uma mãe saberem o seu filho de posse duma graça santificante aumentada, "porque é de fé que a recompensa celeste será na proporção da graça habitual que a alma possua no momento de abandonar o corpo"!

Santa Teresa disse que, "se os homens conhecessem o valor dum só grau de glória, julgariam não o pagar muito caro com os sofrimentos e trabalhos duma longa vida".
(Charruau, Às mães, p.41)

Artigo III - A Comunhão

"Como o veado corre para as águas vivas, a minha alma corre para Vós, ó meu Deus".
(Ps. XLI, 1)

Como preparará a mãe o seu filho para a primeira Comunhão?
Inspirando-lhe um grande amor pela Santa Eucaristia e um profundo respeito pela casa de Deus.

Porque meios chegará a mãe a inspirar um grande amor pela Eucaristia?
- No lar - Instruirá a criança neste grande mistério; falar-lhe-á muitas vezes de Jesus, que habita no tabernáculo; inspirar-lhe-á o desejo de se unir a Ele; fará que se ajoelhe à passagem do Santíssimo Sacramento, quando é levado aos doentes ou em procissão.

Na Igreja - Aí levará freqüentemente a criança; obriga-la-á a fazer piedosamente o sinal da cruz e a ajoelhar; mostrar-lhe-á o tabernáculo, dizendo-lhe que é ali que Jesus habita, que de lá está olhando para ela.

Um menino de cinco anos, instalo por sua mãe a dizer o que mais o impressionava na catedral de Bolonha sobre o Mar, que visitava pela primeira vez, indica o tabernáculo.

- Porquê?
- Porque Ele está ali! (Autêntico)

Depois far-lhe-á recitar uma pequenina oração. Estas visitas serão repetidas o maior número de vezes possível; devem ser desejadas pela criança e concedidas como uma espécie de recompensa.

Por que é preciso que a criança seja educada num profundo respeito pela Casa de Deus?
Porque estamos convencidos de que não há nada a esperar de bom duma criança que não tem respeito pela igreja.

Numa paróquia, aonde nos conduziram as vicissitudes da guerra, fomos obrigados a descer do nosso lugar, durante o exercício, para ir ao fundo da igreja admoestar e separar dois pequenos, que tagarelavam e riam duma maneira escandolosa. E, durante esse tempo, a mãe dum deles, piedosamente ajoelhada junto da mesa de comunhão, com os outros filhos mais crescidos, convencia-se, sem dúvida, de que cumpria todos os seus deveres de estado, e que, neste ponto, fazia a vontade de Deus.

Pobre e cega mãe, que de lágrimas não derramará!
Pobre criança mal educada ... seria quase um milagre, que se não perdesse!

Como receberam os verdadeiros educadores o decreto de Pio X relativo à idade da primeira comunhão?
Com um frémito de alegria: a sua alma rejubilou de gozo e de reconhecimento; as suas concepções sobre a formação cristã encontraram nas palavras pontifícias um remate e um apoio; e agradeceram a Deus com efusão esta graça, a maior de todas as graças, há tanto tempo sonhada.

Enfim, estavam isolados os apóstolos muito pouco sobrenaturais, que continuavam os erros condenados por Nosso Senhor quando dizia: "Deixai vir a mim as criancinhas e não as afasteis" (Marc. X,14).

Enfim, o Salvador poderá tomar posse, antes que o pecado as tenha manchado, destas pequenas almas de criancinhas tão límpidas, tão luminosas, tão delicadas e tão amáveis. (Nota de rodapé: "Os padres espanhóis, quando dão a comunhão a uma criancinha, dizem-lhe: Que Jesus entre em teu coração antes do pecado". Bouvier)

Enfim, o Criador, o Pai, poderá abraçá-las, acariciá-las, inundá-las de graças e de bênçãos, prepará-las, formá-las, santificá-las, salvá-las! Enfim, os pais, sobrenaturalmente cuidadosos da sua responsabilidade, gozarão, desde o primeiro dia da vida racional de seus filhos, da colaboração quotidiana, íntima e pessoal de Nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo, amigo das criancinhas, zelador das almas, a verdadeira luz, a sabedoria eterna.

E, bem longe de retardar a hora bendita do primeiro contato divino, esforçar-se-ão por a aproximar por todos os meios ao seu alcance, interpretando a idade da razão no seu espírito bem melhor que na sua letra.

Todos os educadores terão apreciado do mesmo modo o favor insigne da comunhão precoce?
Não.
Tem havido resistências.

Os meus netos vão fazer a sua primeira Comunhão, dizia um dia uma avó, mas lamento-o; submeto-me, porque é preciso; porém, incomodada. E as disposições interiores refletiam-se na fisionomia e não podiam deixar de se traduzir nas suas palavras, em detrimento da formação de seus netos, que tinham, aliás, nove e dez anos, quando comungaram pela primeira vez. (autêntico).

Que razões alegam para sustentar esta oposição?
- A pouca inteligência da criança;
- O sacrifício, sem compensação, das vantagens da antiga primeira Comunhão solene.

Que se há de responder à objeção da pouca inteligência da criança?
Eu não queria, dizem certas mamães, que meu filho comungasse tão novo: não sabe o que faz.
Nós respondemos:

- Se, na verdade, uma criança não for, aos sete anos capaz de comungar, a não ser que seja idiota, o que é uma exceção, é porque a sua mãe faltou a todos os deveres de educadora.

2º- Certas crianças, das quais se diz que não sabem o que fazem, quando se trata da primeira Comunhão, são apresentadas, em todas as outras circunstâncias, como pequenos prodígios de inteligência e de precocidade.

Que de há de responder à objeção que se apoia nas vantagens perdidas da primeira Comunhão solene?
Havia, com efeito, algumas vantagens na antiga disciplina: a primeira Comunhão solene era bela, edificante, convertedora...; marcava uma data na vida; deixava ordinariamente vestígios inapagáveis. Poderia perguntar-se se esta impressão era bem sobrenatural, ou se não provinha, em grande parte, dos presentes recebidos, das festas de família, das distrações exteriores... Mas, deixemos isso. Tomemos as coisas pelo melhor.

Mesmo nesta hipótese, ousar comparar as vantagens da primeira Comunhão solene com o benefício sobrenatural da Comunhão precoce, necessária e facilmente seguida de muitas outras Comunhões, é não compreender nada das coisas da vida espiritual, da santificação e da salvação.

Qual pode e deve ser a frequência das Comunhões da criança que foi uma vez admitida à Mesa Santa?
Uma vez admitida a criança à primeira Comunhão, é convidada a comungar todos os dias. As condições a realizar são as mesmas que se exigem às pessoas adultas: o estado de graça, a reta intenção, o jejum natural.

Somente, como as crianças são aprendizes, precisam dum mestre nos exercícios da Comunhão, como em todos os outros exercícios. O mestre não é preciso procurá-lo: é o pai ou a mãe, que devem normalmente acompanhar os seus filhos à Mesa Sagrada, ajudá-los a preparar-se, e a fazer ação de graças.

Não se levantam objeções contra esta direção?
Sim; e numerosas objeções. Diz-se:

- É uma sujeição acompanhar as crianças;
2º- Não se pode orar convenientemente;
- As crianças estão quase constantemente distraídas;
4º- A Comunhão obriga as crianças a levantarem-se muito cedo.

Que se deve responder à primeira objeção: É uma sujeição acompanhar as crianças?
Respondemos: Onde é que vós, pais e mães, aprendestes que a educação é uma partida de prazer?

Não será verdade, pelo contrário, que é uma longa paciência, uma série quase ininterrupta de atos de virtude? E esta responsabilidade, da qual o pensamento não pode e não deve desviar-se, não seria uma alavanca suficiente para elevar o vosso espírito, o vosso coração e a vossa vida à altura de todos os sacrifícios?

Que se deve responder à segunda objeção: Não se pode orar convenientemente?
Respondemos: Se os pais, na sua preparação e na sua ação de graças, só têm as distrações ocasionadas pelo cumprimento do seu dever de estado, com respeito a seus filhos, poder-se-ia propô-los como modelos de recolhimento.

São na verdade distrações?
Orar não é fazer orar os outros?

Os pensamentos e os sentimentos que insinuam a seus filhos, são diferentes daqueles de que tem necessidade para si próprios? E as observações que fazem ao pequeno comungante, que está a seu lado, não poderia servir-lhe de ocasião para recuperarem a posse do próprio espírito e do seu coração?

Que responder à terceira objeção: As crianças estão quase constantemente distraídas?
- Deus não pede a cada um senão aquilo que pode dar; espera, pois, muito menos das crianças do que dos adultos.

- As distrações das crianças vêem-se, porque, insuficientemente senhoras de si mesmas, traduzem no exterior o que são interiormente, e por isso de diz: Estão quase constantemente distraídas. As distrações dos adultos não se vêem porque conservam a compostura e parecem, algumas vezes pelo menos, melhores do que realmente são.

Mas, aos olhos de Deus, que sonda os espíritos e os corações, que se não deixa seduzir por aparências, qual é a melhor comunhão: a da criança que se não recolhe senão uns segundos, ou a do adulto que parece recolhido durante muitos minutos?

Que responder à quarta objeção:  A Comunhão obriga as crianças a levantarem-se muito cedo, para que possa ser frequente?
Entendamo-nos bem!

A criança tem, por exemplo, seis ou sete anos. Os bons autores dizem-nos que, a partir dos três anos, o repouso da noite deve durar de dez a doze horas, suprimindo-se a sesta do dia.

Donde concluímos, e parece legitimamente, que a partir dos seis ou sete anos, é possível, sem inconveniente, contentarmo-nos com o que é considerado como mínimo para os três anos: quer dizer, dez horas. Ora, se a criança se deita à hora razoável, às 20 ou 20 horas e meia, poderá levantar-se às 6 ou 6 e meia (Nota de rodapé: As horas consagradas ao sono podem ser variadas com o fim da adaptação da vida das crianças aos hábitos do seu meio). Onde está então a dificuldade de comungar?

Estas indicações não são teóricas, e, por conseguinte, irrealizáveis?
Nós pensamos, pelo contrário, que em muitas famílias a educação constitui um incitamento ao sono, que ultrapassa os limites do que a criança reclama naturalmente.

Para nos convercermos disso, basta notar a facilidade com que a criancinha de três ou quatro anos desperta após  dez ou onze horas de repouso. Até parece que "o somo conveniente que faz repousar as crianças lhes dá um sangue melhor, as torna alegres e vigorosas" (Fénelon).

É só depois de estar formada na escola da preguiça paternal, maternal ou familiar, que a criança sente a necessidade, fictícia e adquirida, dum sono mais prolongado, que atinge muitas vezes proporções exageradas. Quando muito, há tanta necessidade de dormir como de comer. A sobriedade quer que se deixe "a cerimônia no prato" segundo uma expressão popular. A energia cristã quer que se deixe o sono nos lençóis.

Aquele que come até à completa saciedade é um glutão. Aquele que dorme atá ao esgotamento da necessidade de dormir é um preguiçoso.

Na realidade, que é que há no fundo destas diversas objeções?
Há o temor do sacrifício, do sacrifício material, do sacrifício intelectual, do sacrifício moral.

No entanto, devemos reconhecer que Deus é sábio bastante para atingir um duplo fim com uma só prescrição. Sim! Deus, chamando à Santa Mesa as crianças que Ele ama e quer salvar, porpõe-se atingir também os pais, torná-los mais cristãos, mais sobrenaturais, mais perfeitamente educadores.

(Catecismo da educação pelo abade René de Bethléem, continua com o post: A ressurreição da vida sobrenatural)

PS: Grifos meus.