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terça-feira, 14 de setembro de 2010

As dores de Maria (Conclusão)

Nota: Prometi e cumpri. Amanhã é o dia de Nossa Senhora das dores (Sete dores de Nossa Senhora), transcrevi o piedoso capítulo escrito pelo Pe. Júlio Maria sobre este tema. Confira os demais posts aqui: As dores de Maria

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AS DORES DE MARIA
VIII - CONCLUSÃO


Após a consideração minunciosa das dores da angusta Virgem e das disposições que animaram a doce co-redentora, que nos resta ainda a dizer? Nada mais do que recolhermos estes raios esparsos e reunir todas estas dores num foco imenso, escrevendo nele a palavra "amor".

O amor é, de fato, o princípio, a base e coroação de todo este drama doloroso, como ele é a fonte e o princípio da bondade e da misericórdia da divina Mãe.

Por que Maria é tão poderosa e tão cheia de ternura para conosco?

- Porque Ela nos ama.

Por que Maria é tão transbordante de misericórdia para com os pobres pecadores?

- Porque Ela os ama.

Por que a divina Mãe consetiu entregar o Seu Filho aos algozes e à colera dos malfeitores, e condenou-Se a sofrer com Ele e por Ele?

- Por que Ela ama os homens e quer salvá-los.

Depois de cada dor de Maria, como depois de cada sofrimento de Jesus, pode-se exclamar: "Sic dilexit mundum. - É porque amaram o mundo".

A salvação do mundo! - Eis, com efeito, o termo de tudo.

Deus quis salvar o mundo, e quis salvá-lo pelo sofrimento. E, não contente de sofrer só, Ele associou Sua própria Mãe, à Sua obra redentora.

Podia Ele dar-nos uma prova maior do Seu amor?...

- Sofrer por outrem é sublime!

Mas fazer sofrer, para salvar um inimigo, àqueles que amamos mais terna, mais apaixonadamente, é divino!

E eis o que nosso Salvador não hesitou em fazer. Fixando-o o Seu olhar sobre esta criatura pura e ideal, que Ele amava mais do que todas as outras criaturas reunidas, Ele ousou dizer:

Ó minha Mãe, minha Bem-Amada, Minha privilegiada, eis a humanidade perdida, eu poderia salvá-la por uma simples palavra; mas quero que ela saiba que eu a amo, e, para mostrar-lho, morrerei por ela. E não o bastante!

Para mostrar-lhe toda a intensidade e toda a extensão de Meu amor, vou sacrificar aquela que mais amo depois de Minha divindade - Minha Mãe!

Vai, pois, ó Virgem benigna; que a dor te triture como uma vítima! Que as angústias te estreitem como um círculo de ferro! Vai, sofre, imola-Te comigo... vive e morre para a humanidade, e que, por este sinal, ela compreenda o amor que lhe tenho, pois permito que a Minha própria Mãe seja vítima para a sua salvação.

E foi visto tão grande espetáculo! - Uma Mãe imolando o Seu Filho e imolando-Se a Si mesma para a salvação dos Seus algozes.

"Deste modo, diz São Bernardo, Maria vive e não vive, morre e não pode morrer. Ela vive, porém morrendo; morre, mas conservando a vida; Ela morre e não pode morrer; tem uma vida mais penosa do que a morte".

Eis o que nos representa o Calvário. Eis como Maria se torna a nossa Mãe, e por que preço Ela adquire este título que devia proporcionar-Lhe tão pouca consolação. Ela deu à luz os pecadores entre angústias e dores. É preciso que o Seu título de Mãe dos homens Lhe custe o Filho. Ela não pode ser Mãe dos cristãos senão com a condição de dar à morte o seu Filho único.

Que dolorosa fecundidade!

Recordo-me aqui de São Paulino de Nola, que, falando de sua parenta, Santa Melânia, a quem de numerosa família nada mais restava que uma criancinha, traça a Sua dor por estas palavras:

"Ela estava com esta criança, sobrevivente infeliz de uma grande ruína, que, bem longe de a consolar, aguçava as suas dores, e parecia que lhe fora deixada para fazê-la lembrar-se do seu luto, antes que para reparar a sua perda".

Não vos parece que estas palavras foram ditas para representar as dores da divina Mãe?

"Mulher, diz Jesus, eis aí o vosso filho".

"Esta palavra, diz Bossuet, num arroubo de gênio, esta palavra mata-A e fecunda-A. Ela tira das Suas entranhas, com a espada e gládio, estes novos filhos, e entreabe-se o Seu coração com uma violência incrível, para aí entrar este amor de Mãe, que Ela deve ter a todos os fiéis.

Ó filhos de Maria, filhos de sangue e de dor, continua o eloquente prelado, podeis ouvir sem lágrimas nos olhos os males que causais à Vossa Mãe? Podeis esquecer os gemidos, entre os quais Ela vos deu à luz?

Gemitus matris tuae ne obliviscaris. - Não esqueças os gemidos de tua mãe.

Lembra-te dos lamentos de Maria, lembra-te das dores cruéis com que dilaceraste o Seu coração no Calvário; deixa-te comover pelos gemidos de uma Mãe. Ó pecador, qual é o teu pensamento?

Queres elevar uma outra cruz, para nela pregar Jesus Cristo?

Queres fazer com que Maria veja o Seu Filho crucificado ainda uma vez?

Queres coroar a Sua cabeça com espinhos, calcar aos pés, ante os Seus olhos, o Seu sangue do novo Testamento e, por um tão horrível espetáculo, reabrir ainda todas as feridas do Seu amor materno?

Praza a Deus que não sejamos tão desnaturados!
Deixemo-nos comover pelos gemidos de uma Mãe.

Meus filhos, diz ela, até agora nada tenho sofrido, tenho como nada todas as dores que Me afligiram na cruz. O golpe que me dais  por causa dos vossos pecados, eis o que me fere. Vejo morrer o Meu Filho querido, mas, como Ele sofre pelo vossa salvação, consenti em imolá-lO, eu mesma; deixai que eu traga este amargor com alegria.

Meus filhos, crede no Meu amor. Parece-me não ter sentido este martírio, quando o comparo às dores que me causa a vossa impenitência. Mas, quando vos vejo sacrificar as vossas almas ao furor de Satanás, quando vos vejo a perder o sangue de Meu Filho, tornando inútil a Sua graça, é então que me sinto mais vivamente tocada.

Eis, meus filhos, o que trespassa o coração; é isto que me arranca as entranhas".

(Bossuet: Sermão sobre a compaixão da santa Virgem)

O ódio ao pecado e o desejo de reparar as nossas faltas, por uma vida pura e cheia de amor, eis, de fato, qual deve ser a conclusão do estudo das dores de Maria.

Amar é tornar-se semelhante, tanto quanto possível, ao objeto de nossas afeições.

Maria é a pureza, é o amor!... Como Ela, sejamos puros, amemos e consolemos as Suas dores pela nossa fidelidade em corresponder à graça, para que as Suas lágrimas não se tornem inúteis, mas façam germinar em nossas almas uma seara de virtudes, um desabrochar de santidade!

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

VII- MARIA, RAINHA DOS MÁRTIRES

AS DORES DE MARIA
VII- MARIA, RAINHA DOS MÁRTIRES


De tudo o que acabamos de dizer resulta que Maria é, verdadeiramente, em toda a extensão da palavra, a "Rainha dos mártires".

Que mártir sofreu jamais dores semelhantes às Suas? Qual entre os nossos heróis é àquele em cujas torturas poderíamos verificar caracteres, imensidade e profundeza semelhante àqueles que são o fundo e que forma o complemento das dores de Maria?

É um sentimento admitido por todos os teólogos que uma dor suportada por amor de Deus é capaz de causar a morte e suficiente para constituir o martírio, mesmo que não ocasionasse a morte. É assim que São João Evangelista é reputado mártir, embora não tenha expirado na caldeira de óleo fervente, saindo dali mais forte do que antes.
(Brev. Rom. Dia 06 de maio)

Para merecer a auréola do martírio basta, pois, segundo Santo Tomás, que levemos a obediência até ao seu grau supremo, que é oferecer-se a si próprio à morte.
(Summ. 2.2 q. 124 a 3)

Ora, Maria, o fez em grau que ultrapassa a toda concepção humana.

"Se o Seu coração não caiu sob os golpes de um algoz, diz Santo Afonso, o Seu coração bendito foi trespassado pela dor que Ela sentiu da Paixão de Seu Filho, dor que bastava para Lhe dar mil vezes a morte. Daí devemos concluir que Maria não foi somente mártir em toda a força do termo, mas que o Seu martírio sobrepujava ainda a todos os outros" (S. Lig., Sermão sobre as Dores de Maria), visto ter sido ele mais longo, mais intenso e mais profundo.

Ó Virgem Maria, Vós bem podeis dizer com o salmista:

"A minha alma se desvaneceu na dor, e os meus anos decorreram nos gemidos", pois a dor Vos foi sempre presente, foi o Vosso pão cotidiano, Vos revestiu de todas as partes, penetrou-se e Vos consumiu inteiramente, Vosso martírio atinge o infinito, sois verdadeiramente a Rainha dos mártires.

Não repercutiu em Vosso coração a Paixão do vosso Jesus, que foi mais do que o Rei dos mártires? E Vós mesma não esperastes os dias da Paixão para entregar o Vosso coração às agonias mortais?...

Ainda jovem, aprendestes com os profetas a história antecipada dos sofrimentos do Vosso Jesus. E a partir desta primeira revelação, quantas lágrimas ardentes correram sobre as Vossas faces virginais!

E tornando-Vos Mãe de Deus, quem poderia exprimir os gládios que então Se cravaram em Vosso coração para trespassá-lo?

E, no entanto, nada mais eram que os pressentimentos da Paixão.

No dia em que ela se realizou, que martírio de sangue não produziu no Vosso coração, ó boa Mãe! Pois todas as circunstâncias da Paixão de Jesus, expirando em sofrimentos inauditos, reproduziram se dolorosamente em Vós, Sua Mãe.

Sim, Jesus foi o Rei dos mártires, e Vós, ó Maria, fostes a Rainha dos mártires.

Duas coisas elevaram o martírio de Maria acima dos tormentos de todos os mártires reunidos - o tempo e a intensidade.

O tempo, que mitiga as dores comuns, não aliviou as dores de Maria, mas, ao contrário, aumentou-as. De uma parte, Jesus aparecia a Sua santa Mãe cada vez mais belo e mais amável, à medida que crescia. E, de outra parte, o dia de Sua morte se aproximava sempre.

"Assim como a rosa cresce entre os espinhos, dizia o anjo a santa Brígida, assim também a Mãe de Deus progredia em anos, no meio das tribulações. E como os espinhos crescem ao mesmo tempo que a rosa, assim adiantou-Se em idade, Maria, esta rosa escolhida do Senhor, sentiu que os espinhos das Suas dores penetravam mais profundamente em Sua alma".

Segundo uma outra revelação a Santa Brígida, a Santíssima Virgem lhe diz que, mesmo depois da morte  e da ascensão de Seu Filho, Ela tinha a Paixão continuamente presente no Seu pensamento; e, quer tomando os Seus alimentos, quer trabalhando, o Seu coração amante estava ocupado nesta lembrança.

Quanto à intensidade, é como um abismo insondável.

"Se Deus não tivesse conservado a vida de Maria por um grande milagre, diz Santo Anselmo, a Sua dor teria sido suficiente para Lhe dar a morte a cada instante que Ela passava na terra".
(De excel. Virg. c.5)

Como é que os sofrimentos da humilde Virgem foram muito mais intensos que os de todos os mártires?... Eles o foram, sobretudo, de três modos;

Primeiramente, a alma sobrepuja o corpo, tanto quanto os sofrimentos da alma ultrapassam os do corpo.

Em certa ocasião, Nosso Senhor disse a Santa Catarina que entre as dores da alma e as do corpo não há comparação possível- Inter dolorem animae et corporis, nulla est comparatio.

Ora, foi no corpo que os mártires sofreram os golpes do ferro e do fogo. Maria, ao contrário, sofreu em Sua alma, segundo a profecia do santo velho Simeão.

O segundo modo, como o faz notar Santo Antonino (P. 4.t. 5. c. 24, par. I), consiste no fato de que o suplício dos mártires atinge à perda da própria vida; o da Santíssima Virgem consiste no sacrifício de uma vida que Lhe era muito mais cara do que a Sua própria vida - a vida de Seu Filho.

Deste modo Ela sofreu não somente em Sua alma tudo o que Jesus Cristo sofria em Seu corpo, mas a vista dos sofrimentos de Seu Filho afligiu mais o Seu coração que se Ela  mesma tivesse padecido todos eles.

"Jesus sofria nos Seus membros, e Maria no Seu coração", diz o bem-aventurado Amadeu - Ille carne, illa corde passa est (de laud. B. Virg. Hom 5), "de modo que, ajunta São Lourenço Justiniano, o coração de Mãe se tornou como o espelho das dores do Filho; os escarros, os golpes, as chagas, tudo o que Jesus sofria, vinha refletir-se nEla". - Passionis Christi speculum effectum erat cor Virginis; in illo agnoscebantur sputa, convicia, verbera, vulnera (De Trin. Chr. Ag. C. 21).

Dizem que os pais sentem mais vivamente os sofrimentos dos Seus filhos do que os seus sofrimentos pessoais. São Bernardo nos dá a razão disto:

"A alma está mais naqueles que ela ama do que naquele que ela anima" - Anima magis est ubi amat quam ubi animat.

Se isto é verdade, podemos dizer, portanto, que "Maria sofreu mais vendo as dores do Seu querido Jesus, do que se Ela mesma tivesse sofrido toda a Paixão". - Maria torquebatur magis quam si torqueretur in se; quoniam supra se incomparabiliter diligebat id unde dolebat.
(Se laud. B. Virg. Hom 5).

É a conclusão do bem-aventurado Amadeu. Enfim, um terceiro modo é que o martírio de Maria foi privado de toda consolação. Sem dúvida, os mártires sentiram vivamente os tormentos que lhes infligiam os tiranos, mas seu amor a Jesus lhes tornava doces e amáveis os seus sofrimentos.

Mais eles amavam a Jesus Cristo, menos sentiam os tormentos da morte; e a vista de um Deus crucificado bastava para os consolar. Mas que consolação hauria a Mãe de Jesus ante o espetáculo dos Seus sofrimentos, já que os próprios sofrimentos deste Filho querido eram o objeto da Sua aflição e o amor que Lhe tinha era o Seu único e mais cruel algoz?

Portanto, o martírio de Maria consistia precisamente na compaixão que Ela sentia à vista do seu Filho inocente e querido entregue a tão horrorosos suplícios. E, por conseguinte, mais Ela amava, mais amarga era a Sua dor, e mais se afastava toda consolação.

É o que se quer representar, quando apresentamos os santos mártires, cada qual com o seu instrumento de suplício: São Paulo, com a espada; Santo André com a cruz; São Lourenço, com a grelha...

Quanto à bem-aventurada Virgem, representamo-lA tendo em Seus braços o Seu divino Filho morto, porque só Jesus foi o instrumento do Seu martírio, em razão do amor que Ela Lhe consagrava.

Depois disso, figuramo-nos a Mãe de Deus de pé, junto à Cruz, na qual Jesus expira, dirigindo-nos estas palavras do profeta:

"Ó vós todos que passais por este caminho, considerai-me e vede se há dor semelhante à minha dor". - O vos omnes qui transitis per viam! attendite et videte se est dolor sicut dolor meus (Thren.I).

Vós que passais a vossa vida na terra, sem sequer lançardes um olhar de compaixão sobre a Vossa Mãe aflita, detende-Vos um instante para considerar-me e ver se entre todos aqueles que são presa da aflição e dos tormentos, há um só cuja dor seja  semelhante à minha.

"Não, ó Mãe desolada, responde-Lhe são Boaventura, não há dor mais cruel do que a Vossa, porque não há filho mais querido do que o Vosso". - Nullus dolor amarior, quia nulla proles carior
(Off. comp. B. Virg.).

Eis como o martírio da amável Virgem ultrapassou as dores de todos os mártires, pois Ela sofreu em Sua alma, enquanto os mártires sofreram no corpo. A Sua dor cresceu durante toda a Sua vida, enquanto que a dos mártires sofreram no corpo. A Sua dor cresceu durante toda a Sua vida, enquanto que a dos mártires tinha um termo muitas vezes limitado.

Enfim, Ela não teve consolação alguma.

Ó sim, ó Maria, Vós sois verdadeiramente Rainha dos mártires. Ninguém merece melhor a soberania sobre a dor do que Vós, que sofrestes como nunca sofreu criatura alguma.

E quais são os nossos deveres para com a nossa Mãe desolada?... Escutemos a própria Santíssima Virgem dizer a Santa Brígida:

"Minha filha, eu passo em revista todos os habitantes da terra, para ver se há entre eles quem pense em meu martírio e se comova ao vê-lo; mas eu encontro muito poucos. E tu, minha filha, não faças como o grande número, não te esqueças de mim, considera as minhas dores, e chora comigo tanto quanto o podes".

O próprio Nosso Senhor revelou à bem-aventurada Verônica de Binasco que, de certo modo, Ele se comprazia mais em ver-nos compadecidos das dores de Sua Mãe, do que dos Seus próprios sofrimentos.

Eis as Suas palavras:

"Minha filha, as lágrimas derramadas sobre a Minha Paixão são por mim amadas; mas, como amo com um amor imenso a minha Mãe Maria, é-me mais agradável a meditação das dores que Lhe causou a Minha morte".
(Boll, 13 jan.)

Acrescentemos que preciosos favores foram concedidos àqueles que meditam muitas vezes sobre as dores desta Mãe querida.

Em seu "Journal de Marie", Marchèse relata uma tradição antiga, que nos mostra São João Evangelista chorando a morte daquela que ele tomara por todo o seu bem. Para consolá-lo, e por ter ele velado sobre os últimos anos de Maria, Nosso Senhor dignou-Se aparecer-Lhe, em uma visão, acompanhado de Sua Mãe.

O santo ouviu Maria pedir ao Seu Filho que concedesse alguma graça particular àqueles que honram as Suas dores.

Jesus prometeu quatro principais, que são:

1- Aqueles que invocam a Mãe das dores merecerão fazer, antes da morte, uma penitência sincera dos Seus pecados.

2- O próprio Jesus os protege em suas tribulações, sobretudo na hora da morte.

3- Ele imprimirá neles a memória de Sua Paixão, e lhes dará a recompensa do Ceú.

4- Colocá-los-á nas mãos de Sua Mãe, a fim de que deles disponha segundo o seu parecer, e lhes alcance todas as graças que quiser.

Portanto, amenos, honremos e consolemos a amável e doce Rainha dos mártires.
Choremos com Ela na terra, a fim de termos a felicidade de um dia nos alegrarmos com Ela no Céu.

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o último post: Conclusão)

PS: Grifos meus.

domingo, 12 de setembro de 2010

VI- AS RAZÕES DAS DORES DE MARIA

AS DORES DE MARIA
VI- AS RAZÕES DAS DORES DE MARIA


A vista das imensas dores desta Virgem tão compadecida, perguntamos imediatamente a nos mesmos como Deus permitiu que Ela fosse triturada a este ponto.

A questão merece seguramente uma resposta, pois Ela supõe o conhecimento dos sublimes desígnios de Deus sobre Maria, e nos ensina como é que devemos carregar as cruzes que a Providência coloca sobre nossos ombros, e mesmo desejar o sofrimento por amor de Deus.

Os sofrimentos de Maria não eram necessários, por necessidade absoluta, para operar a redenção do mundo, mas Deus quis que fossem necessários por necessidade de conveniência.

"O ódio da serpente infernal, diz São Crisóstomo, começara por Eva a perpetrar o desastre original; convinha, por conseguinte, que Maria, nova Eva, interviesse no ato da reparação, efetuado pelo novo Adão".
(S.J.Crys.: De interdict)

É o mar de Deus a Maria.

Pode o amor dar algo de melhor do que a si mesmo?...

Ora, em Jesus tudo era sofrimento. Maria deverá, portanto, assemelhar-Se ao Seu divino Filho, deverá participar das Suas dores, porque participa do Seu amor.

A lei que atinge a Jesus deverá envolver Maria. E esta lei, nós o sabemos, era uma lei de sacrifício e de expiação, em que a ignomínia e a abjeção deviam chegar quase ao aniquilamento. Maria teria sido um simples instrumento e não uma mãe, se Ela tivesse  sido separada de todas estas coisas.

O crescimento dos méritos da Santíssima Virgem foi mais uma razão dos Seus sofrimentos. E sobretudo nos sofrimentos que se acumulam os méritos. A qualidade de Mãe de Deus não teria sido uma razão suficiente para que Maria fosse elevada ao céu, sem a graça santificante que precedeu e seguiu esta dignidade da maternidade divina.

A elevação legítima de Maria devia depender  dos Seus méritos e os Seus méritos deviam ser adquiridos evidentemente por uma longa série de sofrimentos. (Cfr. Bourdaloue: Sermão sobre a Assunção)

Como avaliar então os arrebatamentos que atualmente enchem no céu a alma de nossa Mãe querida e nos quais Ela reconhece as recompensas especiais devidas a cada uma de Suas dores?...

E por prodigiosa que seja a grandeza da recompensa, Ela vê pormenorizadamente como correspondeu a cada um dos Seus sofrimentos em particular, e como esta recompensa nasceu dos Seus sofrimentos.

Setenta e dois anos de alegria estática jamais teriam, na ordem atual dos desígnios de Deus, elevado o Seu trono tão próximo do trono de Deus. (Jamar: Maria Mãe da dor)

Uma terceira razão das dores da Imaculada era a glória que Deus devia receber dEla.

A maior misericórdia de Deus para com as criaturas é o permitir-lhes contribuírem à Sua glória e fazê-lo de um modo inteligente e livre.

Mas quem melhor do que Maria se achava em condições de procurar esta glória? Ela que era tão próxima de Deus e tão vibrante de amor e de vida sobrenatural. Dela Deus pode receber mais glória não só do que de qualquer outra criatura, mas ainda do que de todas as criaturas reunidas, excetuando-se, evidentemente, a natureza de Jesus Cristo.

A Mãe de Jesus estava cumulada, sem dúvida, das graças poderosas que exigia uma correspondência tão maravilhosa à vontade divina, mas Ela nunca recebeu do Seu divino Filho dom algum, ao qual ligasse tanto apreço, como à Sua compaixão. Não! para ganhar o mundo, Ela não teria consentido em se privar da menor circunstância que pudesse agravar a Sua dor.

Portanto, foi Maria quem pagou, por assim dizer, a dívida que os santos tinham contraído com Jesus pela Sua paixão e que eles nunca podiam saldar.

Maria, ao pé da Cruz, era o mundo em adoração, pois nenhuma criatura adorava então a Jesus em Suas humilhações. Tudo se concentrava, pois, na pessoa desta Virgem das dores; Ela era como que o centro, o coração e a voz do mundo inteiro.

A quarta razão das dores de Maria é que Ela era mãe, e qual é a mãe que não sofre para com o seu filho?...

A mãe não é mãe por um título nobiliárquico, e, sobretudo, ela não pode ser "Consoladora dos aflitos", como Maria o deveria ser, por um simples decreto emanado da vontade. Poderia dar-se isto, mas Deus não o quis.

A sentença promulgada contra Eva: "Darás à luz na dor", é, ao mesmo tempo, uma lei e um mistério, uma condenação e uma profecia.

A partir deste momento a dor se torna uma condição inevitável para a mulher se tornar mãe, tanto na ordem natural, como na ordem da graça. A qualidade de mãe é inseparável da qualidade de mártir.

"Maria, ao pé da Cruz, diz São Bernardino de Sena, adquiriu o titulo de Mãe dos cristãos com o preço das mais incompreensíveis dores e, gerando-nos à graça, Ela sentiu, ao mesmo tempo, todas as dores suportadas pelas mães que comunicam a vida na natureza aos seus filhos. Maria sentiu-as todas ao mesmo tempo, gerando-nos à graça ou dando-nos à luz da graça, e deste modo, os seus sofrimentos igualaram os sofrimentos de todas as mães".

A razão por ele apresentada prova-nos que Maria tendo-nos gerado a todos para a salvação, teve que sofrer para casa um de nós em particular.

Uma quinta e última razão que entrevemos das dores da Virgem, é o desígnio de Deus em dar-nos Maria por modelo.

A dor caracteriza mais ou menos toda a vida humana e, encerrando em si os meios particulares de união com Deus, desarranja e perturba, mais do que qualquer outra coisa, as nossas relações com Ele.

cristãmente a dor é talvez a obra mais elevada e mais árdua que temos nós a realizar, e está em grande parte nos desígnios de Deus que a soma das dores que devemos suportar cresça com o grau de santidade que nos torna capazes de as suportar.

E, sob este ponto de vista, que horizonte luminoso se abre aos nossos olhos!...

A mais pura, a mais doce, a mais santa das criaturas nos aparece esmagada e triturada pela dor e nos ensina como devemos sofrer e como devemos galgar o Calvário da nossa vida.

Como é doce, nas horas de lassidão e de provação, apoiar a cabeça e o coração sobre o coração sanguinolento de Maria!

Como aí irradia levemente o amor, através das lágrimas e das angústias!

Como ele atrai e repousa o coração! Como ele nos pede sobretudo um pouco de reciprocidade de amor, a pequena chama de nosso coração para uni-la ao incêndio do coração da "Virgem das dores"!

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, segue com o post: Maria, Rainha dos mártires)

PS: Grifos meus.

sábado, 11 de setembro de 2010

V- A IMENSIDADE DAS DORES DE MARIA

AS DORES DE MARIA
V- A IMENSIDADE DAS DORES DE MARIA


De boa vontade empregamos em nossa linguagem esta grande palavra "imensidade". Raramente ela é justificada pela soma ou pelo peso dos nossos sofrimentos. De fato qual é a dor humana, que em nada se possa atenuar, seja da parte da terra, onde temos e onde sabemos encontrar tantos refúgios, apoios e distrações, seja da parte do céu, tão poderoso para consolar-nos e sempre tão propenso a fazê-lo?

Mas, quando dizemos de Maria que a Sua dor é imensa, é absolutamente e terrivelmente verdade.

"Todos os rios correm ao mar, escreve o Sábio, e o mar nunca transborda".

Compreendei que estes rios são torrentes de angústias, e que este mar, em que tudo se precipita, e que Deus fez tão vasto para receber e conter tudo, é o coração da Virgem imaculada, e tereis aí uma imagem da imensidade da Sua desolação.

É ante o pensamento desta imensidade das dores de Maria que a Igreja exclama, com o profeta Jeremias:

"Ó vos todos que passais pelo caminho, considerai vede se há uma dor semelhante à minha dor! A quem vos hei de comparar, ó filha de Jerusalém? A quem direi que vos assemelhais?... Onde encontrarei alguma coisa igual aos vossos males? O excesso dos vossos males é semelhante a um mar. Quem porá nele um limite?"

É do mesmo modo que os doutores e os santos falaram da grandeza dos sofrimentos de Maria.

Santo Anselmo disse:

"Qualquer que tenha sido a crueldade maquinada contra os mártires, era superficial, ou antes, não era nada, comparada à crueldade da paixão de Maria".
(De excell, Virg. C.V)

Um anjo revelou a Santa Brígida que "se Nosso Senhor não tivesse sustentado miraculosamente Sua Mãe, Ela não teria podido conservar a vida durante o Seu martírio".

Eis o eco de todos os santos e de todos os doutores. Procuremos compreender, por um rápido exame, que de fato foi sim... Donde provém a imensidade das dores da Virgem imaculada?... Provém sobretudo, de quatro causas. Meditemo-las aqui atentamente.

O que nos mostra antes de tudo a imensidade destas dores é que elas ultrapassaram todos os tormentos dos mártires.

Não somente, diz o Pe. Faber (no livro: Aos pés da cruz), nunca houve um único mártir, por prolongadas ou complicadas que tenham sido as suas torturas, que igualasse a Maria em sofrimentos, mas mesmo as angústias de todos os mártires reunidas, com a Sua variedade e intensidade, não se aproximaram da agonia de Sua paixão.

Os mártires sentiram uma consolação inefável em contemplar a Jesus, cuja beleza e glória os fortificavam. O seu espírito estava repleto desta luz divina. A sua agonia era mitigada e contrabalançada, quase metamorfoseada pela consolação interior que experimentavam na sua alma inundada de graça e de amor. Mas onde a visão interior de Maria procurará uma consolação? É preciso que os Seus olhos espirituais lancem os seus olhares lá onde os Seus olhos corporais já estão fixos, isto é, sobre Jesus, e é esta visão que causa a Sua tortura.

Ela vê a Sua natureza humana, e Ela é a Sua Mãe, e Mãe acima de todas as outras mães, amando como nunca outra mãe amara; e muito mais ainda como nunca poderiam amar todas as mães reunidas, se pudéssemos reunir a totalidade dos seus atos de amor, no mais enérgico e mais inexprimível dos atos.

Ele é o Seu Filho!...  que Filho!... e de que modo maravilhoso!...

Ele é o Seu tesouro e o Seu tudo! Que fonte de torturas agudas, vivas, mortais, incomparáveis, havia nesta contemplação! E entretanto, não estava tudo aí, pois havia mais ainda: aí havia a natureza divina do Salvador.

Jesus tinha direito às adorações de todos os homens, e ninguém O via como Maria. Jesus era Deus, e Ele não recebia nenhuma das homenagens devidas à Sua divindade. Ele era Deus, e Maria O via, através da obscuridade do eclipse, coberto de sangue, de escarros, de lama, de chagas repelentes, de contusões lívidas.

Que significava tudo isso sobre uma pessoa divina?...

É inútil indagar um nome para uma dor, como a que submergia a alma de Maria Santíssima. Jesus,  a alegria dos mártires, aqui é como o algoz de Sua Mãe! Nenhum martírio foi igual àquele e não lhe podemos atribuir outro nome que o de "imensidade de dores", a "dor incompreensível".

Em segundo lugar, os sofrimentos da Santíssima Virgem podem ser chamados imensos, em relação às Suas proporções com as Suas outras qualidades, isto é, que se depois de Jesus e para Jesus Ela tivesse que ter a preeminência de dor, os Seus sofrimentos deviam ser proporcionados à Sua dignidade, à Sua santidade e às Suas luzes.

Dores proporcionadas à Sua dignidade, e Ela era Mãe de Deus. Dignidade tal, diz São Tomás, que a própria Onipotência não teria podido imaginar uma grandeza mais elevada. É dizer que era impossível imaginar uma dor maior do que a da Mãe de Deus!

Dores proporcionadas também à Sua santidade. As provações dos santos são sempre medidas sobre a sua força e a sua capacidade de sofrer, e análogas aos seus méritos, que elas igualam, e aos quais se ligam de um modo particular.

Ora, quem dirá a santidade e os méritos de Maria?...

Questão insolúvel, falta de algarismos, dissemos precedentemente.

Mas, se esta santidade não é absolutamente ilimitada (e é a menor coisa que dEla se possa dizer), não sabemos ao menos que enorme fardo de sofrimento exigia uma tal santidade para alcançar o Seu nível e fecundá-la, amadurecê-la, acrescê-la e coroá-la, por uma outra imensidade - a imensidade da dor.

Dores proporcionadas, enfim, às Suas luzes.

O conhecimento aguça sempre mais a dor, e a sensibilidade aumenta a sua violência. Ora, todo o ser da Santíssima Virgem estava repleto de luz. Não só uma razão e uma inteligência de perfeição extrema resplandeciam em todas as Suas faculdades, mas a Sua vida interior se passava no seio de uma atmosfera sobrenatural, toda de luz.

Nas Suas dores inenarráveis, este conhecimento que A esclarecia era uma tortura terrível.

Podemos bem dizer que ninguém, exceto o Salvador, compreendeu perfeitamente a paixão, nem pode avaliar e agrupar todos os horrores no que ele tem de mais hediondo; ao menos a compreensão que delas teve Maria é a única que se aproximou da que tinha o Seu Filho.

Assim, pois, ainda que, a extensão das dores da Santíssima Virgem nos escapa, porque não podemos medir a extensão das luzes sobrenaturais a que elas eram proporcionadas e com as quais cresciam talvez simultâneamente.

As dores de Maria são ainda por causa da sua multidão.

Cada olhar, cada palavra ou ação de Jesus causava à doce Virgem, uma superabundância de sofrimentos nos quais o passado e o futuro se confundiam em uma visão única, mas terrível, sempre presente à Sua alma.

E se, por causa da sua multiplicidade, não podemos contar todas as aflições da Santíssima Virgem, ao menos qual não foi a sua violência, quando todas se concentraram como que sobre um ponto único e culminante, donde se espalharam a cada momento e de todos os lados sobre a Sua alma, com uma tal diversidade de sofrimentos que não poderíamos imaginar?...

Maria pôde dizer com justiça:

"A minha amargura é a mais amarga de todas as amarguras".

Há também um outro ponto de vista, sob o qual as dores de Maria foram verdadeiramente imensa: - é a superioridade a tudo o que a força humana pode suportar. De fato, elas ultrapassaram em energia ao mais robusto homem.

É opinião unânime dos autores, apoiada sobre as revelações dos santos, que Maria conservou a vida por milagre sob o peso dos Seus intoleráveis sofrimentos. A previsão que Ela teve das Suas dores foi tão viva, que, sem um socorro particular de Deus, Ela não teria podido viver sob um aguilhão tão cruel.

Não vemos, algumas vezes, pais ou mães que morreram de desgosto?... Na expressão de nossas dores de ordinário há algum exagero e a imaginação as aumenta. Mas nos sofrimentos de Maria tudo era verdadeiro e real. Elas eram avivadas pela perfeição superior da Sua natureza, pela Sua graça superabundante, pela beleza perfeita, e, sobretudo, pela divindade de Jesus.

Deste modo, cada uma das Suas dores era perfeitamente aceita, quer na sua intensidade, quer na sua extensão, quer na sua duração. Sua natureza física, isenta dos estragos do pecado, estava repleta da mais enérgica vitalidade, dotada da mais terna e viva sensibilidade; por conseguinte, era de uma capacidade única para sofrer.

Logo, nada houve em Maria, quer na Sua razão, quer nos Seus sentimentos, que pudesse amortecer um só dos golpes que Ela recebia.

Esta realidade das dores de Maria, é na verdade muito extraordinária, e foi preciso o coração de um Deus, para permitir que a Sua Mãe sofresse tanto pela nossa salvação. E nós correspondemos às vezes tão mal e tão covardemente às ternuras que tantas dores nos revelam.

Até quando seremos ingratos?... E quando, enfim, misturaremos algumas lágrimas de compunção à torrente de dores de nossa Mãe?...

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: As razões das dores de Maria)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

IV - CARACTERES DAS DORES DE MARIA

AS DORES DE MARIA
IV - CARACTERES DAS DORES DE MARIA


Os caracteres distintivos das dores da santíssima Virgem têm uma relação estreita com as fontes de que tiveram a sua origem. Assinalemos alguns deles. O Seu estado far-nos-á compreender mais o amor que Maria nos testemunha pelas Suas dores e excitar-nos-á a corresponder-Lhe por um amor recíproco mais extenso e mais generoso.

Estes caracteres são em número de quatro.

1- O primeiro destes caracteres particulares das dores de Maria foi que eles duraram toda a Sua vida. A dor que a nós se apega, algumas vezes deixa-nos sentir menos fortemente o seu aguilhão.

A desgraça que persegue um homem no decorrer de toda a sua vida parece, em certas ocasiões, fatigar-se de o perseguir, e muda então de direção, como se renunciasse à sua presa, ou como se quisesse conceder-lhe algum descanso. Mas "para Maria tal não se deu, diz o Pe. Faber, a dor era-Lhe como inerente".

"Quando Deus quer consolar uma alma, Ele a inebria, disse Mons. Gay, mas, quando Ele quer desolar uma delas, Ele a tritura".

"Ele me estabeleceu em uma aflição tão profunda, que permanece o dia inteiro", dizem os livros santos.

De que se trata?... Da sexta-feira santa, em que morreu o Salvador, depois de haver passado pelo crisol de Sua Paixão. Mas este dia começava desde a véspera e, para Maria, ao menos, Ele tinha um dia posterior. A véspera era o Getsêmani; o dia seguinte era o santo sepulcro, ou , para melhor dizermos, esta véspera era a vida terrestre e humilhada de Jesus; e este dia seguinte eram todos os anos que Maria ainda devia passar na terra sem Ele.

O Calvário era um círculo em que tudo se concentrou: o passado, o futuro, o céu, a terra e o próprio inferno com o seu ódio, a terra com os seus crimes, o céu com os seus esplendores; mas o ponto central destes raios tão divergentes era o coração triturado de Jesus e o coração desolado de Sua Mãe.

2- Mas as dores da Virgem não eram somente de todos os instantes de Sua vida; elas também cresciam continuamente. Mais familiar se Lhe tornava a visão dos sofrimentos, mais Ela sentia o seu doloroso amargor. Quando os primeiros ventos da tempestade começaram a soprar sobre o Seu coração, Ela apertou contra ele o Seu Jesus. Ele Lhe parecia mais amável que nunca. Deste modo decorreram os doze primeiros anos. Depois vieram os outros dezoito anos, em que cada palavra, cada olhar, cada movimento de Jesus estavam repletos de mistérios divinos.

Finalmente, chegaram os três anos do ministério público do Salvador e as Suas palavras, as Suas obras, os Seus milagres pareceram carregar o mundo de mais belezas sobrenaturais do que Ele podia suportar. E então, ó dor, os homens se precipitaram com furor, para extinguir esta luz que os feria com o seu brilho e fulgor.

A medida que crescia assim a beleza de Jesus, crescia igualmente o amor de Maria, e com o Seu amor crescia a Sua agonia. Ah! é que a presença de Jesus se tornara para Ela um hábito do qual não podia se afastar sem deixar de viver. E é assim que os Seus sofrimentos aumentaram mais depressa do que crescem as plantas na primavera; e eles aumentariam com tanto maior rapidez, quanto mais se aproxima o termo fatal.

3- O terceiro caráter das dores de Maria é que Ela suportou tudo voluntariamente por amor. Ó Deus, mil vezes misericordioso e clemente, tereis, porventura, depositado esta coroa, este fardo, esta montanha , este mundo de aflições sobre a cabeça de Maria, a Vossa imaculada e a privilegiada do Vosso Coração, se Ela mesma, vendo Jesus carregado por Vós de iniquidades, não Vos tivesse pedido instantemente que A deixásseis participar deste cargo?...

Quando a dor atinge aquilo que amamos, sobretudo aquilo que amamos infinitamente mais do que a nós mesmos, quando Ela não só a atinge, mas o encerra, o esmaga, o penetra, o inunda, o desola, e acaba por matá-lo, proibir então ao amor de sofrer (supondo-se que isto fosse possível), seria impeli-lo a um estado tão violento, e infligir-lhe um suplício tão grande que os sofrimentos mais atrozes, recebidos do objeto amado, ao lado deles, pareceriam um refrigério e uma libertação.

Sim, Maria devia sofrer! Seu amor a Deus e o amor que Deus Lhe tem o exigiam.

Não poderíamos conceber uma mãe sem lágrimas ao lado de um filho ensangüentado, e nem para Deus e nem para nós seria admissível tal suposição.

Qualquer coisa teria faltado eternamente à beleza moral de Maria, se Jesus a tivesse subtraído a esta imolação, pela qual Ele resgata o mundo. Parece que, amando-A por tantos títulos, Ele não A teria amado até ao grau supremo do amor, pois que Lhe teria recusado dar esta grande e alta prova do Seu amor, que consiste em sofrer por aqueles que amamos, e em sofrer por amor.

Aliás, não há mérito onde não há amor habitual de Deus. Se as dores da Santíssima Virgem não tivessem tirado a Sua origem de Seu amor, elas não teriam sido meritórias: do excesso de amor vinha o excesso de sofrimento.

4- Um quarto caráter das dores de Maria é a resignação com que ela suporta o peso de angústias que sobre Si se acumulam. Nada podemos imaginar de maior do que a violência dos tormentos de que foi torturado o coração maternal desta Virgem Santíssima.

"Mas, não! enganamo-nos, diz Santo Amadeu; acima dos sofrimentos e das dores de Maria há qualquer coisa de maior e de mais admirável - é a coragem com que Ela os suporta. O prodígio de Sua resignação tão calma eleva-A infinitamente acima do prodígio dos Seus sofrimentos. Vede: a Sua aflição está no auge, e, entretanto, Ela não se entrega a gemidos. O que Ela sofre é inexprimível, e, no entanto, Ela não está abatida - Ela fica de pé e imóvel, com uma constância e uma grandeza de alma que ultrapassam a grandeza do Seu sofrimento".
(Sto. Amadeu: Homil. 5 de mart. B. Virg)

E Santo Anselmo acrescenta:

"A Sua face não manifesta qualquer sinal de impaciência; os Seus lábios não proferem uma só palavra de murmúrio, de indignação ou de vingança; o Seu coração está repleto de amargura, e di-lo-iam impássivel; a Sua alma está abismada de dor e as lágrimas misturadas de lamentos. Ó maravilhoso acorde de pudor e de coragem, de paciência e de amor! A mais pura, a mais delicada e a mais tímida de todas as virgens é a mais magnânima, a mais heróica de todas as mulheres".

Em Sua alma mais do que crucificada é impossível descobrir-se o menor traço de indignação. Ela não faz o mínimo apelo à justiça; Ela vê tudo, mas só olha uma coisa: Jesus. O Seu coração se entrega à justiça divina, com a doçura e a resignação de um cordeiro, e Ela Se Lhe entrega toda inteira, com Ele e como Ele.

Quantos a desejar qualquer castigo para os outros, quaisquer que sejam, dos crimes que causaram ou cercaram este grande sacrifício, Ela não teve necessidade, nem o pensamento e, muito menos ainda, a tentação.

Por toda parte e sempre, mas sobretudo no Calvário, Ela é a "mulher", a mãe, a Virgem clemente, a advogada dos pecadores, a Mãe de Misericórdia.

Ó Maria, incomparável Virgem e Mãe, possa tanta ternura tocar enfim o meu coração e penetrá-lo de reconhecimento e de amor! Para me salvar e para me santificar é que sofrestes tanto!

Eu não posso reconhecer um tal benefício senão pelo amor. Fazei, pois, que a minha alma seja penetrada por ele e que eu viva dele, até à minha hora derradeira.

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: A imensidade das dores de Maria)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

III- AS FONTES DAS DORES DE MARIA

AS DORES DE MARIA

III- AS FONTES DAS DORES DE MARIA



Após a consideração das dores  de que foi repleta a vida da Rainha dos mártires, e fizeram da Sua existência um martírio prolongado, e de cada um dos Seus dias uma etapa para o Calvário, detenhamo-nos nos pormenores dos Seus sofrimentos.

De fato, em parte alguma o amor cintila tão puro, tão desinteressado e tão atraente, como através das lágrimas e das dores.

Aliás, a Virgem não sofre senão por amor. O Seu corpo virginal não está crucificado, mas, ao contrário, que gládio trespassou a Sua alma! gládio de duplo gume, afiado incessantemente pelo Seu amor a Jesus e o Seu amor aos homens.

Antes de tudo, quais eram as fontes principais destas dores?... Quatro principalmente:

A primeira, era ver Jesus morrer, e não poder morrer com Ele. Não há uma só mãe que, em semelhança circunstâncias, não tivesse desejado vivamente a morte. Para um coração triturado, a morte é preferível à vida. E, se a morte se apresenta, não como uma separação, mas como uma união realizada mais íntima, que mãe aflita a não consideraria uma inexprimível favor?...

Tal se dá com Maria. Jamais um filho foi, aqui na terra, tão querido de sua mãe, como Jesus de Maria; jamais um filho foi tão bom e tão belo, tão amável e tão verdadeiramente "filho" como Jesus.

Os direitos do pai e da mãe concentravam-se, ao mesmo tempo, no coração da Virgem. Ela só O havia gerado, e isto sobrenaturalmente, de tal modo que Jesus era como duas vezes Seu Filho. E este Seu Filho estava revestido, ao mesmo tempo, de todos os atrativos da humanidade e de todos os encantos da divindade.

Que amor veemente, digamos melhor, que paixão divina não devia excitar, no coração de Maria, a contemplação das amabilidades infinitas de Jesus!

E este Filho, tão divinamente amado, partia desta vida, partia, deixando a Sua Mãe só, desolada, com o coração transbordando do mais veemente desejo de segui-lO, e com a Sua alma cheia de dolorosas lembranças do Calvário.

Jesus ia-se embora... Desde então Ele não estaria mais com Ela, para falar-Lhe do céu... E Ela estaria separada dEle.

Mas, então, por que vivia Ela ainda?...

Sua união com Ele era habitual e tão estreita que Ela Se tornara a Sua vida; e agora, na hora suprema, esta união ia ser rompida, quando Ela desejava o mais vivamente possível assemelhar-Se a Ele!

Como, pois, era prodigioso o amor de Maria, para obedecer assim à vontade de Seu Filho no Calvário, vontade esta que Lhe prescrevia a separação e a obrigava a prolongar a Sua vida durante vinte e quatro anos de um incompreensível martírio! (Dizemos 24 anos, na opinião de que Maria viveu até 72 anos; mas uma outra diz 63 anos)

A segunda causa da aflição para Maria foi o ser Ela testemunha ocular da Paixão, sem poder aliviar os sofrimentos do Seu divino Filho. As revelações dos santos nos ensinam que a Santíssima Virgem, embora corporalmente ausente do Getsêmani, assistia em espírito e seguia interiormente às diversas fases da agonia do Salvador.

Mas Ela estava corporalmente presente no caminho do Calvário, e na crucifixão; Ela O seguia e assistia (com que dor!) a cada nova tortura que a impiedade judaica inventava para aumentar os sofrimentos do Seu Filho. Ela assistia a tudo, via tudo e Se desolava por não poder proporcionar o menor alivio a Jesus.

Os espinhos faziam o sangue correr lenta e penosamente, sobre os olhos do Salvador, e Maria não podia Se aproximar para enxugá-lO.

Os lábios de Jesus estavam ressequidos e descorados pela sede, e a Mãe desolada nem sequer podia ir depor neles [um refrigério].

Esta cabeça dolorida, admirável aos olhos dos anjos e tão divinamente radiante de dor e de amor, desaparecia sob o pó, o suor e o sangue... e a Virgem nem mesmo podia, como a Verônica, enxugá-la com o Seu véu, e lavá-la com as Suas lágrimas.

Depois, Ela vê o Seu Filho suspenso no patíbulo dos malfeitores, com as mãos e os pés trespassados, e com o corpo sangüinolento e lívido. A cabeça do divino paciente cai para trás, os espinhos penetram mais fundo, e, inclinando-Se para a frente, todo o corpo fica suspenso dos pregos, que Lhe dilaceram mais as Suas mãos delicadas.

Oxalá pudesse Ela sustentá-lO nas Suas mãos maternais e deixá-lO repousar nelas até à hora suprema, em que Ele deve morrer!

Mas, não! Esta última consolação não Lhe será dada, senão depois que Ele tiver expirado.

Uma terceira fonte das dores de Maria é a visão distinta que Ela tem do pecado, e a apreciação que Lhe inspiram as cenas sangrentas da Paixão e do Calvário.

Com efeito, não podemos duvidar de que Nosso Senhor tenha permitido que Ela participasse, em certa medida, do Seu conhecimento sobrenatural da extensão do pecado, da sua excessiva malícia e do ódio que ele excita em Deus, conhecimento este que distinguiu Jesus e deu aos sofrimentos da Sua Paixão o seu verdadeiro caráter.

Foi a visão do pecado que crucificou a alma de Jesus no Jardim das Oliveiras; foi à visão da cólera do Seu Pai contra o pecado, que Ele pediu com tanta tristeza que Se Lhe afastasse esta cálice.

Lemos que Santa Catarina de Gênova caiu desfalecida, um dia, quando Deus lhe mostrou, em uma visão, que horror é preciso ter a um só pecado, mesmo venial.

Em Maria não podia haver este desfalecimento, pois os dons que Lhe havia outorgado o Seu divino Filho ultrapassavam os dos santos, o mais que poderíamos dizer; por conseguinte, o Seu horror ao pecado sobrepujava a todas as nossas concepções. Deste modo, apareceu aos Seus olhos, sobre os ombros chagados do Seu Filho, a visão hedionda e repelente dos pecados do mundo inteiro.

Ela via como era verdadeiramente a Deus que o pecado atingia, ofendia e cobria de opróbrios. O terror que deles sentia o Salvador fazia-Lhe sofrer mil mortes interiores.

Faltam-nos palavras para pintar um tal suplício. Enfim, a estas fontes tão cruéis de sofrimentos acrescenta-se a perda prevista de tantas almas, para as quais o sangue divino ia ser inutilmente derramado. É a quarta fonte.

Pensemos no valor de cada gota deste sangue divino. Ele foi derramado para cada alma em particular; e, entretanto, quantas almas perdidas para a eternidade! Eis o preço que Cristo pagou para o resgate das almas; e, entretanto, Ele vê desaparecer o Seu valor.

Se uma só alma, para a qual toda esta Paixão foi sofrida de propósito, tivesse que perecer para toda a eternidade, tornando inútil, pelas suas ofensas, o amor do seu Salvador, que angústia imensa era a Sua dor, pois que não era só uma alma, um número incalculável delas que haviam de perder-se!...

Ah! Jesus sofria, sobre a Cruz, uma outra crucifixão invisível, e muito mais angustiosa do que aquela que aparecia aos algozes e aos espectadores; era a crucifixão de um coração saciado de sofrimento ao pensar na multidão inumerável dos que se separariam dEle, que deixariam de ser Seus membros e que se perderiam irrevogavelmente.

Também neste cálice Maria teve o Seu importante quinhão. E se, neste momento, Ela discerniu o que este pensamento Lhe fazia sofrer por causa do Seu imenso amor a Jesus, e por via de conseqüência, por causa do Seu imenso amor às almas, Ela viu então dois abismos separados e hediondos, nos quais Ela devia entrar voluntariamente, apesar do horror que deles A afastava.

E nesta multidão de pecados, cujo peso torturava a alma virginal de Maria, estavam os nossos próprios pecados. A Virgem os distinguiu, e o Seu olhar cheio de lágrimas elevou-se ao céu, para implorar-nos o perdão e a misericórdia.

Quando, enfim, amaremos nós aquela que nos amou tanto, e que, para provar-nos o Seu amor, submeteu-Se a angustiosas torturas e a suplícios intensos!

Digamos-Lhe, portanto, com a Igreja: "Ó Mãe, ó fonte de amor, fazei que eu sinta a Vossa dor, e que eu chore conVosco".

"Eia Mater, fons amoris,
Me sentire vim doloris
Fac ut tecum lugeam!"

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: Caracteres das dores de Maria)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

II- A DOLOROSA PAIXÃO DE MARIA

AS DORES DE MARIA

II- A DOLOROSA PAIXÃO DE MARIA

Antes de considerarmos pormenorizadamente as imensas dores da Virgem-vítima, lancemos um olhar sobre o conjunto do Seu martírio, para compreendermos o Seu lado íntimo, que é, sem contradição, o mais penoso e o mais comovente.

O Filho de Deus Se fizera homem. A Virgem possuía o Desejado das colinas eternas. Ele Se tornara Seu Bem-Amado, o nosso Emanuel.

Haviam decorrido quarenta dias, dias de êxtase, quando Ela é obrigada a Se apresentar no templo de Jerusálem, para as cerimônias do resgate de Jesus, como o primogênito, para a Sua própria purificação. Era a lei.

O velho Simeão acabava de entrar no templo, ao mesmo tempo que a sagrada Família. Toma o Menino em seus braços, e, sob a inspiração do Espírito Santo que o animava, estava prestes a entoar um cântico de alegria. De repente, o seu rosto se perturba, os seus olhos cheios de lágrimas, fixam-se em Maria, e ele percebe, em uma visão profética, tudo o que esta Mãe terá que sofrer. Ele exclama, designando Jesus:

"Ele será o alvo de contradição". E em seguida, dirigindo-se a Sua Mãe: "Uma espada de dor trespassará a Vossa alma".

Maria escutara em silêncio esta terrível predição. Parece que Simeão não profetizou senão para Ela somente, ele, que é o profeta do gládio!

O lúgubre porvir apareceu-Lhe então: o Seu Jesus será imolado um dia, e Ela já Se imola com Ele.

Nobre filha de Israel, como o sofrimento já se torna, desde esse momento, a Vossa partilha! Desde esse dia ficais ciente da sorte que aguarda o Vosso Filho e Vosso Deus. E quem poderá descrever as Vossas apreensões? Elas eram ao mesmo tempo terríveis e delicadas. Terríveis pela sua intensidade, e delicadas na sua formação, pois, tinham, ao mesmo tempo, algo de Virgem e algo de Mãe.

Receios virginais que uma sombra é suficiente para aumentar, terrores de mãe que Lhe fazem apertar o Seu tesouro contra o seio, como para ocultá-lO aí. A nossa natureza, pecaminosa e endurecida, tem dificuldade em calcular semelhante inquietação. Ela Lhe provinha dos acontecimentos: o massacre dos inocentes, a fuga precipitada para o Egito, a perda de Jesus. Pobre Mãe, desde então Ela não viveu mais!

Um único pensamento deve ter ocupado a Sua alma: "Virão procurá-lO? Seria agora, quando me vejo separada daquele que é toda a minha vida?"

Ela Lhe sobrevinha no calmo retiro de Nazaré da leitura dos livros santos. "O Cristo será entregue à morte", dizia Daniel.

"Transpassaram minhas mãos e os meus pés, e contaram todos os meus ossos", Lhe explicava Davi. Que pressentimentos deviam dar-Lhe estas passagens! Que terror secreto!...

Inquietação que trazia, enfim, o pensamento do pecado, e que era o mais terrível. Ela sabia que o Seu divino Filho era o Redentor, o Salvador; que Ele vinha para resgatar os homens, e tomar sobre Si todas as suas iniquidades. Este pensamento enchia-A de admiração, mas também a mergulhava num terror horrível. A iniquidade de todos cair sobre o Meu Filho, ó céus, que cargo terrível!

Um violento combate, diz S.Tomás de Vilanova, devia se travar nela então. Dois amores gigantescos estavam em luta no Seu coração, como em uma arena: o amor de Seu Filho e o amor do gênero humano, que devia resgatar. - Pugnabant igitur in Virginis corde, ut in campo plano, duo illi gigantes amores, amor Filii et amor mundi, sesumque Virginis in diversa trahebant.

O primeiro Lhe fazia aborrecer a morte, e o segundo Lhe fazia aceitá-la. Ela era mãe, e o Seu coração, com toda a Sua energia, repelia a morte. Mas, como Mãe do Redentor, Ela dizia ao gládio do dia da apresentação: "Oh! trespassai-me, antes de trespassá-lO!"

E, depois desta hora, decorriam os dias, cheios de alegria que Lhe causava a presença do Seu Jesus. Mas também cheios de amargura e dos sofrimentos, que trazia ao Seu coração este pensamento constante: um dia Ele será imolado!

Apertando nas Suas as mães tão ternas de Jesus, parecia sentir já os pregos que deveriam atravessá-las. Abaixando a Sua fronte tão pura, Ela já sentia a coroa de espinhos. Estreitando-o ao coração, Ela já O contemplava, em espírito, coberto de sangue e de feridas, com o lado aberto e derramando por sobre os homens, até à última gota, o Seu sangue divino.

Ó dor e angústia da ternura materna!

Como em liras perfeitamente acordes, que ressoam uníssonas, a oblação de Jesus era a oblação de Maria. Seus corações estavam inebriados juntamente, com o pensamento de sacrifício. Depois, veio a hora da separação.

Jesus começa a Sua vida pública. Novos temores para Maria! Sem dúvida, o dia do sacrifício se aproxima a grandes passos! Ela o prevê e o espera. O ódio dos fariseus já Lhe é conhecido. Perseguem o Seu Jesus. Querem apoderar-se dele. Depois, numa tarde, vêm-Lhe dizer: Jesus está preso. Gente armada de bastões, cordas e gládios, prendeu-O no Getsêmani, guiada por um traidor, e O conduziu a Caifás.

Oh! que nos reserva o dia de amanhã?...
Que terrores não sentiu esta desolada Mãe!...

Jesus esta preso! e Ela é impotente para libertá-lO, para aliviá-lO. Jesus, longe dEla, nas mãos de Seus mais implacáveis inimigos! Que tristeza, que dor!... estar separada de um Filho tão amado, já condenado infalivelmente, de antemão, e nada poder fazer para unir-Se a Ele.

É o supremo sofrimento!

Que terror, quando Lhe dizem: Quem o julga é Caifás, é Pilatos, é Herodes.
Pobre Mãe! Quantas dores!...

E quando Ela reencontrou o Seu Filho na encosta que conduz ao Calvário, Ele havia sofrido de tal modo, desde a Sua separação que Lhe apareceu como não tendo mais algo de humano! Isaías Lho havia feito compreender. E o Seu coração não A enganara.

Que momento, quando os Seus olhares se encontraram!
"Meu Filho!"
"Minha Mãe!"

E Jesus subia até ao lugar de execução; e Maria, acompanhada de algumas piedosas mulheres, seguia o "Homem das dores".

Enfim, eis que o Cordeiro de Deus chegou até o cume do Gólgota. Maria bem sabia que Ele devia ser o Homem das Dores. Mas, quando a realidade veio e apareceu aos Seus olhos, quando Ela percebeu o corpo de Seu Filho dilacerado e triturado pelos azorragues da flagelação da manhã, quando Ela viu o Seu rosto, extenuado e irreconhecível, jorrando sangue, inundado do suor da morte, a cabeça encerrada num feixe de espinhos, o brado de Sua alma foi: "Oh! como os profetas o haviam dito bem! e como são sobrepujados os meus receios! Em que estado, pois, puseram o meu Bem-Amado!"

De fato, as Suas suspeitas e Sua previsões eram excedidas. As profecias estavam realizadas ao pé da letra. Agora compreendia melhor o sentido da palavra de Isaías; o Seu coração de Mãe se esforçava por compreender toda a extensão do "Ele será o Homem das Dores!" Seu espírito e Seu coração procuravam penetrar a fundo o sentido destas outras palavras: "Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos".

Pobre Mãe, Ela havia interpretado que eles contariam os Seus ossos, depois que Ele estivesse morto, ao passo que Ela mesma poderia contá-los, no corpo hirto do Seu Filho.

Chegou o momento supremo do holocausto!

Lágrimas e gemidos dos mártires nunca se podem igualar, mesmo em conjunto, à vivacidade e à imensidade das dores que a divina Mãe sofreu no Seu peito oprimido! Tão cruel era ao Seu coração o espetáculo do deicídio, que se desenrolava ante Seus olhos. Os algozes lançam Jesus sobre a Cruz. Ela percebe então os cravos com que vão pregá-lO; Ela ouve os golpes do martelo; Ela vê a crueldade do suplício, que jamais fora aplicado ás vítimas imoladas no templo, ou aos criminosos executados fora dos muros.

Os buracos preparados na madeira da Cruz, estão demais afastados; e eles empregam cordas, para puxarem violentamente os membros, que neles devem ser pregados. Ela ouve o estalar dos ossos,vê os músculos torcerem-se e percebe os suspiros de sofrimentos e os gemidos do Seu Filho. Ergue-se, enfim, a Cruz, e com que sofrimento balança-se um instante no ar, por cima dos assistentes, e fixa-se no solo.

Sobre a Cruz o corpo suspenso do Filho de Suas entranhas... E a Mãe das dores, em face do Homem de dores, pôde dizer, a nós e aos pecadores de todos os séculos: "Ó vós que passais por este caminho, considerai e vede se há uma dor semelhante à minha dor!"

E todos os séculos Lhe responderam: "A quem comparar-Vos, ó Virgem, filha de Sião? O excesso dos Vossos males é semelhante à extensão dos mares".

Sim, o profeta procurara em toda a natureza a quem poderia comparar a imensidade desta dor, que o Espírito Santo Lhe mostrava numa visão longínqua, e não encontrou senão o mar, cuja extensão, profundidade e largura puderam figurá-la.

E esta dor, cuja amargura tinha o infinito, o horroriza, pois é o preço da salvação da humanidade; a Santíssima Virgem vem colocar-Se, heróica e sublime, ao lado da Cruz.

"Stabat"! Ela estava em pé! Esta única palavra basta para narrar o prodígio de Sua intrepidez, assim como as palavras: "Faça-se a luz", fiat lux, haviam sido suficientes para dizer, desde a origem, que milhares de focos foram acesos no firmamento.

Jesus está abandonado por todos na terra, mas a sua Mãe está de pé ao Seu lado. Ela reconhecia, através de todas as Suas humilhações e de todos os Seus sofrimentos, o Cristo Redentor, o Homem das dores, vítima de Seu amor, o Homem-Deus.

Ela fica aí, de pé! E esta Virgem, seguramente a mais delicada e a mais tímida de todas as virgens, afronta os fariseus, os carrascos, a multidão, e até o inferno desencadeado contra o Seu Filho. Ela contempla as Suas chagas lívidas, os cravos que O contundem, o sangue que O cobre, todos estes sofrimentos e todas estas dores que O esmagam em um como lagar. E, esmagada Ela mesma, sucumbe a estas chagas, a estes cravos, a este esmagamento, a este esgotamento.

É a paixão e a compaixão ao mesmo tempo.

Seus olhos se encontram, Seus olhares se confundem, Seus corações comunicam entre si os Seus pensamentos, por uma linguagem secreta e cheia de ternura.

Ele Se oferece, e Ela O oferece pelos nossos pecados.

Jesus diz: "Perdoai-lhes". E Maria pede com Ele este perdão.

Jesus diz: "Tenho sede". E, com Ele Maria, tem sede, sede de almas.

Jesus diz: "Tudo está consumado". Ele deu tudo, e Ela também deu tudo, não poupando sequer o Seu próprio Filho, nem a Si mesma.

Ele dá um alto grito e expira. Ela não pode expirar, mas o Seu coração entra nos transes da morte.
(Jos. Lémann)

E quando O despregaram da Cruz e O puseram nos braços de Sua Mãe, Ela pôde, então, contemplar à vontade este corpo desfigurado e lívido, coberto de chagas e de sangue; Ela pôde sondar as chagas das mãos e dos pés, a chaga do lado, sobretudo, que dava entrada ao Seu coração. Um último brado escapava-se do Seu coração de Mãe:

"Meu Filho!"

Ó terna Mãe! dai-nos a graça de compreender este oceano de angústias e de torturas que fizeram de Vós a "Mãe das dores", para que participemos um dia das Vossas dores por nós e Vos consolemos pelo nosso amor e nossa fidelidade!

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria)

PS: Grifos meus.