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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Sobre o Vício da Ira por Santo Alfonso de Ligório

Retirado e traduzido de catholicapologetics.info


Primeiro Ponto A ruína que a ira desenfreada traz para a alma

São Jerônimo diz que a ira é a porta pela qual todos os vícios entram na alma. "Omnium vitiorum janua est iracundia”. A ira precipita os homens em ressentimentos, blasfêmias, atos de injustiça, detrações, escândalos e outras iniquidades, pois a paixão da ira escurece o entendimento e faz o homem agir como uma besta e um louco. "Caligavit ab indignatione oculus meus" – Jó 17:7. Meu olho perdeu a visão, por causa da indignação. Davi disse: "Meu olho está atribulado pela ira." - Salmo 30:10. Por isso, segundo São Boaventura, um homem irritado é incapaz de distinguir entre o que é justo e injusto. "Iratus non potest videre quod justum est, vel injustum". Em uma palavra, São Jerônimo diz que a ira priva o homem da prudência, da razão e do entendimento. "Ab omni consilio deturpat, ut donee irascitur, insanire credatur". Assim, São Tiago diz: "Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus." - Tiago 1:20. Os atos de um homem sob a influência da ira não podem estar de acordo com a justiça divina e, consequentemente, não podem ser irrepreensíveis.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O ÍDOLO DO DINHEIRO - Caso verídico e terrível contado por S. Leonardo de Porto Maurício

Por um indigno escravo de Nosso Senhor

O deus do nosso tempo é o dinheiro. Quão numerosos são os que se prostram diante dele e lhe oferecem adoração em todo tempo e lugar! O resultado é que, correndo atrás deste ídolo, esquecem o verdadeiro Deus, e, por consequência, precipitam-se num abismo de desgraças e perdem toda a felicidade, enquanto que - na afirmação do Profeta Davi - aqueles que buscam a Deus antes de tudo ( dinheiro, parente, amigo, jogo etc.), não caem em nenhum verdadeiro mal e abundam em todos os bens. (cf. Salmo XXXIII, 11). "Os ricos tiveram necessidade e fome, mas os que buscam o Senhor, não terão falta de bem algum". Esta palavra se verifica ainda mais naqueles que, antes de se entregarem a seu trabalho ou a seus negócios, têm o cuidado de assistir à Santa Missa.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Da crueldade do demônio segundo frei Luís de Granada

Por um indigno escravo de Nosso Senhor


Em tempos de império do Anticristo, nós, cristãos sobreviventes, nos acostumamos a assistir à imagem oficial de Satã nos meios de comunicação de massa, o libertador, o Lúcifer maçônico que traz a verdade e o prazer à humanidade, pela desconstrução de tudo o que vem da civilização cristã, soturna e moribunda.

É a apoteose do baixíssimo, simultânea ao eterno retorno das promessas mentirosas do Éden.

O sucesso é enorme. Basta andar na rua para ver uma multidão de adolescentes com camisetas e adereços explicitamente satânicos. Nas telas, séries em que o Mal é representado por jovens românticos e idealistas. Vampiros são a encarnação da nova (i)moral.

Mas só a nós, cristãos, foi contado o final da história, e só a nós cabe passá-la adiante.

Com a palavra novamente o grande frei Luís de Granada:

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O INFERNO, E A IMPORTÂNCIA DA CONFISSÃO

Por um indigno escravo de Nosso Senhor

SANTO ANTÔNIO MARIA CLARET

                                                                
EXEMPLO DE UMA SENHORA QUE POR MUITOS ANOS CALOU NA CONFISSÃO UM PECADO DESONESTO. REFERE SANTO AFONSO E MAIS PARTICULARMENTE O PADRE ANTÔNIO CAROCCIO, QUE PASSARAM PELO PAÍS EM QUE VIVIA ESTA SENHORA DOIS RELIGIOSOS, E ELA, QUE SEMPRE ESPERAVA CONFESSOR FORASTEIRO, ROGOU A UM DELES QUE A OUVISSE EM CONFISSÃO, E CONFESSOU-SE. LOGO QUE PARTIRAM OS PADRES, O COMPANHEIRO DISSE AO CONFESSOR TER VISTO QUE, ENQUANTO A SRA SE CONFESSAVA, SAIAM DE SUA BOCA MUITAS COBRAS E UMA SERPENTE ENORME DEIXAVA VER FORA SUA CABEÇA, MAS VOLTAVA DE NOVO PARA DENTRO, E APÓS ELA TODAS AS QUE ANTES SAÍRAM. SUSPEITANDO O CONFESSOR O QUE AQUILO PODERIA SIGNIFICAR, VOLTOU A CIDADE E A CASA DAQUELA SRA, ONDE LHE DISSERAM QUE ELA, NO MOMENTO DE ENTRAR NA SALA, MORRERA REPENTINAMENTE.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Por que tem sempre água benta nas portas das Igrejas?

Por um indigno escravo de Nosso Senhor

Muitas vezes as pessoas se queixam de que se distraem muito na igreja, sobretudo durante as leituras na Missa. O demônio tem grande interesse em nos distrair justamente quando vamos estar em contato com as realidades sagradas. Por isso é tão útil a Água Benta na entrada das igrejas e capelas. Mesmo usando a Água Benta pode acontecer que nos distraiamos, porém teremos a segurança de que as distrações procedem de nós mesmos e não do demônio.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

PECADOS DE IGNORÂNCIA, DE DEBILIDADE E DE MALÍCIA

Padre Garrigou-Lagrange
Les Trois Ages de la Vie Interieur
Tradução: Rafael Horta

PECADOS DE IGNORÂNCIA

Com relação à vontade, a ignorância pode ser antecedente, conseguinte ou concomitante. A ignorância antecedente é aquela que não é de nenhuma forma voluntária e se chama “moralmente invencível” Por exemplo: crendo atirar contra um leão, em uma espessa selva, um caçador mata um homem, cuja a presença não podia suspeitar. Neste caso não há pecado voluntário, senão unicamente material.

A ignorância conseguinte é aquela que é voluntária, ao menos indiretamente, pela negligência que existiu em inteirar-se do que podia e deveria saber; se chama ignorância vencível, porque teria sido possível livrar-se dela; assim é causa de pecado formal, indiretamente voluntário. Por exemplo: um estudante de medicina, depois de vários anos de muito vagabundar e estudar pouco, por influência ou casualidade recebe seu diploma de doutor; como ignora quase tudo pertinente à arte da medicina, um dia acontece que acelera a morte de um enfermo, em vez de curá-lo. Não há, neste caso, pecado diretamente voluntário, porém indiretamente e que pode ser grave, já que é possível chegar ao homicídio por imprudência ou grave negligencia.

sábado, 5 de outubro de 2013

Quem te ocupa mais? A glória de Deus ou seus interesses?

Fonte: Almas Devotas
Excerto retirado do
Manual da Almas Interiores
Compêndio de Opúsculos Inéditos
Pe. Grou
Livro de 1932 - 428 págs


Do Aniquilamento
O meu ser está diante de Vós como o que não é. (David)
Quando nos falam de renunciarmos a nós mesmos, de aniquilar-nos; quando nos dizem ser esse o fundo da moral cristã, consistir nisso a adoração em espírito e verdade, tal palavra nos parece dura e até injusta: não queremos ouvi-la e repelimos quem no-lo prega da parte de Deus. Convençamo-nos, uma vez por todas, de que esse preceito nada de injusto encerra e na prática é mais suave do que pensamos. Em seguida, humilhemo-nos se nos faltar coragem para pô-lo em prática e, ao invés de condená-lo condenemos a nós mesmos.
 Que nos pede o Senhor, ordenando que nos aniquilemos? Pede fazermos justiça a nós mesmos, colocarmo-nos em nosso lugar e reconhecermo-nos tais quais somos. Quando mesmo tivéssemos nascido e vivido sempre na inocência, quando jamais houvéssemos perdido a graça original, outra coisa não seríamos, por nós mesmos, senão nada; não poderíamos consider-nos de outro modo sem nos desconhecermos e injustos seríamos pretendendo que diversamente Deus ou os homens nos tratassem. Que se pode dever ao que nada é? Que pode exigir o que nada é? Se a sua própria existência é uma graça, também e com razão maior é tudo quanto tem.

sábado, 13 de abril de 2013

§ II. A inveja

 Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.
A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey


            A inveja é, ao mesmo tempo, paixão e vício capital. Como pai­xão, é uma espécie de tristeza profunda que se experimenta na sensibili­dade à vista do bem que se observa nos outros; esta impressão é acom­panhada duma constrição do coração que lhe diminui a atividade e pro­duz um sentimento de angústia.
            Aqui ocupamo-nos, sobretudo da inveja, enquanto vício capital, e exporemos:

            1.° a sua natureza;
            2.° a sua malícia;
            3.° os seus remédios.

            1.° Natureza.

            A) A inveja é uma tendência a entristecer-se do bem de outrem, como se fosse um golpe vibrado à nossa superioridade. Muitas vezes é acompanhada do desejo de ver o próximo privado do bem que nos faz sombra.
            Nasce, pois, do orgulho este vício, que não pode tolerar superiores nem rivais. Quando um está convencido da própria superioridade, en­tristece-se, ao ver que outros são tão bem ou melhor dotados que ele, ou que ao menos alcançam maiores triunfos. Objeto da inveja são sobretu­do as qualidades brilhantes; contudo em homens sérios também o po­dem ser as qualidades sólidas e até a virtude.
            Manifesta-se este defeito pela mágoa que um sente, ao ouvir louvar os outros; e então procura-se atenuar esses elogios, criticando os que são louvados.

            B) Muitas vezes confunde-se a inveja com o ciúme; quando se distinguem, define-se este como um amor excessivo do seu próprio bem, acompanhado do temor de que nos seja arrebatado por outros. Este era, por exemplo, o primeiro do seu curso; notando os progressos dum con­discípulo, começa a ter-lhe ciúme, porque receia que ele lhe leve o pri­meiro lugar. Aquele possui a afeição dum amigo: começando a temer que ela lhe seja disputada por um rival, entra a ter ciúmes. Aquele outro tem uma numerosa clientela, e entra a recear que ela diminua por causa dum concorrente. Daí aquele ciúme que por vezes grassa entre profissi­onais artistas, literatos, e às vezes até sacerdotes. - Numa palavra, tem-se inveja do bem de outrem e ciúme do seu próprio bem.

            C) Há diferença entre a inveja e a emulação: esta é um sentimento louvável que nos leva a imitar, igualar, e, se possível for, a sobrepujar as qualidades dos outros, mas por meios leais.

            2.° Malícia. Pode-se estudar esta malícia em si e nos seus efeitos.

terça-feira, 2 de abril de 2013

A Curiosidade - Santo Agostinho

Nota do blogue: Enviado por um amigo.


À tentação sobredita junta-se outra, mais perigosa sob múltiplos aspectos. Além da concupiscência da carne – que vegeta na deleitação de todos os sentidos e prazeres, e mata a todos os que a servem, isto é, àqueles que se afastam para longe de Vós – pulula na alma, em virtude dos próprios sentidos do corpo, não um apetite de se deleitar na carne, mas um desejo de conhecer tudo, por meio da carne. Este desejo curioso e vão, disfarça-se sob o nome de “conhecimento” e de “ciência”. Como nasce da paixão de conhecer tudo, é chamado nas divinas Escrituras a concupiscência dos olhos(1), por serem estes os sentidos mais aptos para o conhecimento.

É aos olhos que propriamente pertence o ver. Empregamos, contudo, este termo, mesmo em relação aos outros sentidos, quando os usamos para obter qualquer conhecimento. Assim, não dizemos: “ouve como brilha”, “cheira como resplandece”, “saboreia como reluz”, “apalpa como cintila”. Mas já podemos dizer que todas essas coisas se vêem. Por isso não só dizemos: “vê como isto brilha” – pois só os olhos o podem sentir, – mas também: “vê como ressoa, vê como cheira, vê como sabe bem, vê como é duro”. É por isso, como já disse, que se chama concupiscência dos olhos à total experiência que nos vem pelos sentidos. Apesar do ofício da vista pertencer primariamente aos olhos, contudo os restantes sentidos usurpam-no por analogia, quando procuram um conhecimento qualquer.

Daqui se vê claramente quanto a volúpia e a curiosidade agem em nós pelos sentidos: o prazer corre atrás do belo, do harmonioso, do suave, do saboroso, do brando; a curiosidade, porém, gosta às vezes de experimentar o contrário dessas sensações, não para se sujeitar a enfados dolorosos, mas para satisfazer a paixão de tudo examinar e conhecer.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Que o desprezo dos conselhos evangélicos é um grande pecado


São Francisco de Sales
Tratado do amor de Deus
Livro oitavo, Capítulo VIII


São tão fortes e prementes as palavras pelas quais Nosso Senhor nos exorta a tendermos e pretendermos a perfeição, que não poderíamos dissimular a obrigação que temos de nos empenharmos nesse desígnio. Sede santos, diz Ele, porque Eu sou santo (Lv., 11, 44). Quem é santo seja ainda mais santificado, e quem é justo seja ainda mais justificado (Apoc., 22, 11). Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito (Mt., 5, 48). Por isso, o grande São Bernardo, escrevendo ao glorioso São Guarino, abade de Aux[1] cuja vida e milagres tão bom odor exalaram nesta diocese, diz: O homem justo nunca diz: Basta; tem sempre fome e sede de justiça.
De certo, Teótimo, quanto aos bens temporais, nada basta àquele a quem aquilo que basta não basta; pois que é que pode bastar a um coração ao qual a suficiência não é suficiente? Mas quanto aos bens espirituais, não tem o que lhe basta aquele a quem basta ter o que lhe basta e a suficiência não é suficiente, porque a verdadeira suficiência nas coisas divinas consiste em parte no desejo da afluência. No começo do mundo Deus mandou à terra produzir a erva verde dando a sua semente, e toda árvore frutífera dando o seu fruto, cada uma segundo a sua espécie, que teve também sua semente em si mesma (Gn., 1, 11).
E não vemos por experiência que as plantas e frutos não têm o seu justo crescimento e maturidade senão quando dão seus grãos e pevides, que lhes servem de prole para a produção de plantas e de árvores de igual espécie? Jamais virtudes têm a sua justa estatura e suficiência, que não produzem em nós desejos de fazermos progressos, que, quais sementes espirituais, sirvam na produção de novos graus de virtudes. E parece-me que a terra do nosso coração tem ordem de germinar as plantas das virtudes que dão os frutos das santas obras, cada uma segundo o seu gênero, e que tenha as sementes dos desejos e desígnios de sempre multiplicar e avançar em perfeição. E a virtude que não tem o grão ou a pevide desses desejos não está na sua suficiência e maturidade. "Oh! pois, diz São Bernardo ao indolente, não queres adiantar-te na perfeição? - Não. - E também não queres piorar? - Em verdade, não. - E como então não queres ser nem pior nem melhor? Ai! pobre homem, queres ser aquilo que não pode ser. Realmente, nada é estável nem firme neste mundo; mas do homem ainda mais particularmente é dito que nunca fica num mesmo estado (Job., 14, 2). Cumpre, pois, ou que avance, ou que retroceda".
Ora, eu não digo, como não o diz também São Bernardo, que seja pecado não praticar os conselhos. Não, certamente, Teótimo: pois a diferença própria do mandamento ao conselho é que o mandamento nos obriga sob pena de pecado, e o conselho nos convida sem pena de pecado. Não obstante, eu digo que é um grande pecado desprezar a pretensão à perfeição cristã, e ainda mais o desprezar a advertência pela qual Nosso Senhor a ela nos chama; mas é uma impiedade insuportável desprezar os conselhos e meios de chegar a ela que Nosso Senhor nos assinala. É uma heresia dizer que Nosso Senhor não nos aconselhou bem, e uma blasfêmia dizer a Deus: Retira-te de nós, não queremos a ciência dos teus caminhos (Job., 21, 14). Mas é uma irreverência horrível contra aquele que com tanto amor e suavidade nos convida à perfeição, dizermos: Não quero ser santo nem perfeito, nem mais ter parte na Vossa benevolência, nem seguir os conselhos que me dais para fazer progressos nela.
Bem que se pode, sem pecar, não seguir os conselhos, pelo afeto que se tem alhures: como, por exemplo, bem se pode não vender o que se tem e não o dar aos pobres, porque não se tem a coragem de fazer tamanha renúncia; bem se pode também casar, porque se ama uma mulher, ou porque não se tem bastante força na alma para empreender a guerra que é preciso fazer à carne. Mas fazer profissão de não querer seguir os conselhos, nem qualquer deles, isso não se pode fazer sem desprezo daquele que os dá. Não seguir o conselho de virgindade, a fim de se casar, isso não é malfeito: porém casar-se por preferir o casamento à castidade, como fazem os hereges, é um grande desprezo ou do conselheiro ou do conselho. Beber vinho, contra o parecer do médico, quando se é vencido pela sêde ou pela fantasia de bebê-lo, propriamente não é desprezar o médico nem seu parecer, porém dizer: Não quero seguir o conselho do médico; deve isso provir de uma má estima que se tem dele. Ora, quanto aos homens, pode-se muitas vezes desprezar-lhes o conselho, e não desprezar aqueles que o dão, porque não é desprezar um homem o achar que ele tenha errado. Mas quanto a Deus, rejeitar o Seu conselho e desprezá-lO, isto não pode provir senão do juízo que se faz de que Ele não haja aconselhado bem; o que não pode ser pensado senão por espírito de blasfêmia; como se Deus não fosse bastante sábio para saber, ou bastante bom para querer aconselhar bem. E o mesmo se dá com os conselhos da Igreja, a qual, em razão da contínua assistência do Espírito Santo, que a ensina e guia em toda verdade, nunca pode dar maus conselhos.


[1] Aux, Nossa Senhora dos Alpes, mosteiro da diocese de Genebra, fundado em 1133.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sobre el Pecado Venial (VI Parte)

Fonte: En Gloria y Majestad

Nota del Blog: terminamos aquí esta corta serie sobre el pecado venial.



Sicut Cervus adfontes aquarum...



§ VI. — Oración de esperanza

¡Oh Dios mío, esta visión de los pecados veniales me desconcierta! ¡Qué! ¡Por un acto pasajero y poco grave me castigáis con todas esas destituciones, cuyas consecuencias son eternas! ¡Me acusáis de empequeñeceros y de desdeñaros!... Ante esos resultados imprevistos, faltan, es cierto, a mi razón, objeciones positivas, pero mi ser sensible protesta.

Esa palabra irreparable se asemeja demasiado a la losa que cierra un sepulcro. Bajo su peso, en medio de sus tinieblas yacen amontonados miles y miles de bienes perdidos. Cada día ha ido depositando sus flaquezas; las semanas, los meses, los años, han sepultado innumerables méritos.

Pero, ¡qué Dios omnipotente, Dios bondadoso, Dios sabio que habéis dotado al mundo material de manantiales inagotables de renovación! ¿Habríais condenado a mi voluntad consciente de sus faltas y ávida por repararlas a una impotencia definitiva? ¿Qué? Al perdonarme me devolvéis vuestra gracia, vuestro amor, vuestro cielo y ¿no me dejaríais un medio de devolver a vuestra gloria lo que le he robado? ¿No me dejaríais volver a elevar mi suerte, hasta el nivel que debiera haber alcanzado? ¿No me permitiríais que os amara tanto?

A medida que voy sentando los datos de ese problema íntimo, lo entreveo bajo un nuevo aspecto que viene a aclarar su solución. Sí, lo destruido está ya destruido y la misma omnipotencia no podrá hacer que no haya habido empequeñecimiento. Un hecho es una cosa eterna. Mas de un hecho culpable y castigado, cual de un tronco partido por el rayo, ¿no pueden brotar, ramas más vigorosas? Y si son más vigorosas que las antiguas, si el accidente ha rejuvenecido la savia y ha activado su acción, ¿no podrá decirse de esta resurrección que ha creado un ser más hermoso y más fuerte?

Sí, Dios mío, hay en el vivo sentimiento de la ofensa que se os hace, en el deseo resuelto y personal de levantarse, una nueva potencia suscitada por la misma falta. La herida ha puesto en juego sensibilidades más profundas, estimulando una reacción vital, más intensa. Generosidades hasta entonces desconocidas han despertado en esa alma en medio de sus gemidos. ¡Ve obra, se eleva! ¡Qué poderosos y qué tiernos acentos los del hijo pródigo, la Magdalena, San Agustín! Y puede uno preguntarse: ¿los hubiesen hallado tan hermosos sus almas si nunca hubiesen perdido su inocencia?

Pero, ¡Dios mío! ¿No sois Vos acaso el Dios del hijo pródigo, de Magdalena, de Agustín? ¿Podéis ver nuestras miserias y no compadecemos? ¿Podéis comprobar nuestra decadencia y no desear nuestra rehabilitación? Y si el corazón del hombre puede concebir la ambición de no ser inferior a su ideal de inocencia, ¿el corazón de Dios será impotente para proponerle ese ideal arrepentimiento? ¡Ah! ¡Qué hermosa debe ser vuestra sabiduría cuando del mismo mal sabe sacar un mayor bien! ¡Qué eternamente adorable será vuestra bondad, que quita al alma arrepentida, esa pena sin consuelo, de no poder devolver a vuestro amor disminuido, tesoros perdidos para siempre! ¿Cómo suelen medirse la grandeza, la virtud, el mérito? ¿No es según el grado de amor? Y por la tierra toda ¡oh Jesús! hicisteis predicar este juicio de vuestro gran corazón: "Aquél a quien más se halla perdonado, tiene el deber de amar más". Si tengo el deber de amar, tengo también la gracia, los medios. ¡Puedo elevar a tal grado la vehemencia de mi amor arrepentido, que aventaje al que hubiese llegado mi amor permaneciendo fiel!

OBSERVACION. — Estas grandes resurrecciones se ven sobre todo en los grandes pecadores. El pecado venial produce rara vez tales prodigios; razón de más para temerlo anticipadamente- y después para excitarse a una contrición más vigorosa. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Sobre el Pecado Venial (V Parte)

Fonte: En Gloria y Majestad
§ V. — El pecado venial revelado por el purgatorio



¡Tinieblas en medio de las cuales todo es impalpable, lúgubre, objeto de espanto! Angustias semejantes a las del asfixiado que en vano busca el aire, del enfermo que se revuelve y se agita sin encontrar un momento de reposo. Largos años de desesperación de un prisionero completamente aislado en su calabozo. Desgarramiento del corazón por el remordimiento, peor aún que el desgarramiento de nuestra carne. Todos estos efectos puede sentirlos el alma separada del cuerpo, del mismo modo que siente aquí abajo los que recibe por los agentes naturales.

No ha creado Dios el Purgatorio para que sirva de amenaza sin efecto. Tampoco ha instituido las indulgencias para asegurarnos la impunidad.Ignoramos la naturaleza de las penas que se nos impondrán, la duración de los sufrimientos y la aplicación que Dios ha de hacer de  esas indulgencias. La incertidumbre en que voluntariamente nos deja con respecto a todo esto es una terrible advertencia.

El Purgatorio es una revelación del pecado venial. Siendo Dios la justicia misma, no habría de castigar una falta más de lo que se merece. Las penas del Purgatorio hacen estremecer a nuestra sensibilidad y deberían más bien iluminar nuestras conciencias. Abandonados a nuestras solas deducciones, jamás hubiésemos comprendido la importancia de la oposición con Dios y el desorden que supone un pecado venial. El testimonio del Purgatorio convence mucho más que todas las razones.

Y, sin embargo ¡Dios ama a esas almas a las que hace sufrir tanto! ¡A algunas de ellas las ama ciertamente aún mucho más que a otras a quienes ha llevado ya a gozar del Cielo!... Mas... ¡deja cumplirse la ley de expiación!
Es tan justa esta ley, tan noble el soportarla, que las almas del Purgatorio no querrían, a ningún precio evitarla. Comprendiendo a fondo la malicia del pecado venial, lo aborrecen y lo persiguen hasta en su mismo ser a costa de los más terribles dolores.

¡Ah si les fuese dado volver a la tierra para empezar una nueva vida! ¡Si le fuese permitido expiar como aquí abajo! ¡Qué mortificaciones, qué interminables oraciones bastarían a su deseos de penitencia! ¡Con qué cuidado no evitarían hasta la sombra de pecado!

La gran pena de las almas del Purgatorio es indudablemente sentirse alejadas de Dios y el no serle agradables. Repentinamente iluminadas han presentido su infinita bondad ¡Con los brazos abiertos, la mirada desolada, el corazón enamorado, se sienten apasionadamente impulsadas hacia Él; expiando con este amor doloroso las leves injurias hechas al amor desconocido! Verdad que indiferencia es ya causa suficiente para merecer este castigo. Nos enseña S. Alfonso de Ligorio que hay en el Purgatorio como unacárcel de honor para las almas que sin haber cometido ninguna otra falta, no hayan amado bastante.

Sirviéndonos del lenguaje humano, tan imperfecto para expresar esta clase de cosas, podemos decir que Dios sufre al castigar así a esas almas queridas y detenerlas alejadas de sus paternales abrazos; ¡puesto que en ese mismo momento las ama más de lo que pueden querer todos los corazones dé todos los padres y todas las madres reunidos!... Evitar a Dios esa pena, esa obligación esa espera ¡qué noble motivo para huir del pecado venial! Las almas delicadas lo comprenden: el amor del sufrimiento expiatorio es su natural conclusión.

Desagradar a Dios y verse rechazadas por El, por culpa propia, en el momento en que debiera verificarse la reunión, ¡es un motivo que sienten vivamente las almas que aman de veras! 

sábado, 6 de outubro de 2012

Sobre el Pecado venial (IV Parte)

Fonte: En Gloria y Majestad

§ IV. — Consecuencias del pecado venial con relación al prójimo

El sentimiento de la responsabilidad está muy poco desarrollado en nosotros; nuestra ligereza tiene la culpa, no nos gusta profundizar. Pero si del mal que no se percibe no se es culpable, no por eso deja de producir sus malos efectos.

1º — En sentido general, puede decirse que todos nuestros, pecados veniales son nocivos a los demás; todos, aun aquellos que sólo nosotros conocemos. La razón es fácil de comprender. Lo que nos disminuye, lo que nos debilita, lo que nos priva de la gracia, nos convierte en menos aptos para cumplir con nuestros deberes, cualesquiera que sean. Nuestra insuficiencia nos deja inferiores a la tarea impuesta; no se falta impunemente, por ejemplo, a la prudencia, a la bondad o al valor.

2º — Una parte de nuestras faltas se deja ver o se adivina. Aquí se presenta una responsabilidad de nuevo género, la del ejemploSe inclina uno a imitar lo que ve hacer. Si lo hace uno ya, se tranquiliza viendo que no es uno sólo el que comete tal acción. Cada una de esas acciones defectuosas es como una mala lección lanzada en medio de la familia o de la sociedad... ¿Cómo calcular el mal que se enseña o se autoriza de ese modo?
Toda persona aún virtuosa se asustaría, si Dios le revelase los efectos producidos por una falta de compostura en la Iglesia, por una conversación ligera, o por mil otras faltas juzgadas poco graves, pues está escrito: “¡Ay de aquél que es motivo de escándalo!''

3º — Nuestros pecados veniales no determinan únicamente esa responsabilidad de nuestra insuficiencia y de nuestro ejemplo; la mayor parte causan un daño directo: tal palabra demasiado violenta, hiere y desconcierta —un reproche injusto incita a la rebelión—; el menor desprecio aleja a veces para siempre; una falta de vigilancia puede hacer que se produzcan ruinas morales... Sería muy larga la lista de los males que causa una infracción, por leve que sea, a los deberes de estado.
Ya lo decimos en otro lugar: las leyes, morales conservan el orden entre los hombres del mismo modo que las físicas lo conservan en el universo; toda infracción lo altera irremisiblemente.
Tener conciencia no es únicamente evitar el mal que se ve, es también buscar el medio de verlo de antemano. Jamás se está seguro de ahorrarse esas serias responsabilidades a no ser que se prohíba todo pecado.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sobre el Pecado Venial (III Parte)

Fonte: En Gloria y Majestad


§ III. — El pecado venial con relación al fervor


El pecado venial es esencialmente contrario al fervor, porque ataca a todos los elementos de la actividad espiritual.

I. DISMINUYE LA EFUSION DE GRACIAS ACTUALES

Jamás lo repetiremos bastante: la gracia actual es principio necesario a todos nuestros actos sobrenaturales, a todos absolutamente, aún en las almas más perfectas Y Dios concede ordinariamente sus gracias en proporción a la fidelidad y a la oración. Pero se falta a la fidelidad por el pecado venial y la oración se debilita más o menos por la impresión desagradable que deja tras sí.
Los pecados veniales verdaderamente voluntarios son los más temibles; entristecen y apenan al corazón de Dios; debilitan nuestra confianza. ¿Tiene uno acaso el mismo afán por una persona a quien se ha herido?
Las faltas por sorpresa o fragilidad no producen los mismos efectos; a veces aún puede decirse de ellas, según el sentido de la Iglesia, que son faltas dichosas: pues nos arrojan en actitud humilde a los pies de Dios y en oración más fervorosa.
Temed las faltas voluntarias por leves que sean; temed a las que llegan a instalarse sin inspirar verdadero pesar; constituyen una infidelidad permanente, por consiguiente un obstáculo permanente a la efusión de gracias.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sobre el Pecado Venial (II parte)



§ II. — El pecado venial con relación a mí mismo

I. EMPEQUEÑECE MI IDEAL

1— Disminuye en primer lugar el ideal para el cual he sido criado, y que se desarrolló en el pensamiento de Dios en el momento que decretó que sería llamado a la existencia.
Por el efecto de cada pecado venial seré eternamente inferior a mí mismo. ¡Hay elevaciones que no alcanzaré, delicadezas que no sentiré!
¡Cuántos grados en el ser, en la bondad y en la belleza, perdidos para siempre!
Todo pecado venial es una formal oposición a la perfección; y si no se repara, al progreso que a ella conduce.

2— No solamente mi ideal se rebaja, sino que se obscurece; veo menos, siento menos; y esta misma disminución, en parte, no la comprendo. ¡Es muy triste no saber que disminuye uno en sí mismo el principio moral!... ¡Dichosos aquéllos que por lo menos lo sospechan! Que digan entonces: ¡Debo ver menos, debo sentir menos de lo que existe!... ‘‘¡Iré a la fuente de Siloé, en ella me lavaré, y veré!''

3— A medida que mi ideal se rebaja, en el pensamiento de Dios disminuye la estimación que me tiene, ¡la estimación de un Ser tan perfecto! ¡La estimación de un Padre!


II. EL PECADO VENIAL DISMINUYE MI FELICIDAD EN EL CIELO

Si un solo pecado es suficiente para que así suceda; ¿qué será siendo muchos?
Sin ese pecado venial tan ligeramente cometido, hubiera llegado a una esfera más alta a un lugar más transparente, en los cuales Dios se hubiese dejado ver bajo encantos más arrobadores.
Hubiese estado más cerca de su corazón, más abismado en su intimidad, y para siempre… Mis ojos hubiesen adquirido más penetración, mi corazón más amplitud, mi alma entera hubiese estado más francamente abierta para poseerle.
¡Mis relaciones con los ángeles, con los santos, con las almas queridas que me serán devueltas, hubiesen sido más elevadas, más familiares, más dulces!
¡Me hubiese correspondido una parte mayor de la ternura de María, hubiese sido un poco más hijo suyo!... ¡Mi unión con Jesús se hubiese realizado bajo títulos más íntimos y más unitivos; yo hubiese sido más suyo y El más mío!
¡Eternamente hubiese comprendido mejor y amado más a la Santísima Trinidad en sí misma; a la paternidad de Dios extendiéndose hasta mí; a la vida del Verbo, apoderándose de la mía; y a la acción del Espíritu Santo, uniéndome a mí, ser limitado, con el amor sin límites!
¡Oh, dicha que no siento en este momento, porque sois demasiado grande, por lo menos os concibo! ¡Sois la dicha que satisface al mismo Dios! Y yo, os desdeño; puesto que todo pecado venial, por leve que sea, tiende a disminuir vuestras delicias para conmigo.

domingo, 16 de setembro de 2012

Sobre el Pecado Venial (I parte)

Fonte: En Gloria y Majestad

Nota del Blog: siguen a continuación unos bellos pensamientos sobre la malicia del pecado venial tomados del libro "Práctica progresiva de la confesión y de la dirección" (1905) del P. Beaudenom.






§ I. — El pecado venial con relación a Dios.

I. ES UNA OPOSICION A SU VOLUNTAD

Es el primer aspecto bajo el cual se presenta: negarse a obedecer; resistencia en materia leve.
Contemplar en Dios su voluntad… Es elevada, serena, bienhechora; no está sujeta a ningún error…; es infinitamente digna de ser amada, admirada y obedecida.
¡Obedecida!... Ved hasta qué punto lo es por el mundo material. El sol, los astros, las poderosas fuerzas de la naturaleza siguen con exactitud absoluta las leyes que les ha trazado… Ni una sóla infracción tiene lugar a través de la inmensidad del espacio y de los siglos…
¡Y yo, ínfima creatura, perdida en el seno de cosas tan grandes, al llamamiento de esa misma voluntad, me sustraigo o me resisto!...
¿Despreciaré esa voluntad porque mi desobediencia no ha de ser castigada con el infierno?.. ¿O pensaré que esta voluntad es menos perspicaz, menos sabia en las cosas pequeñas?
¿No tiene Dios el derecho de mandarme? ¿No me ha creado? ¿No es mi verdadero dueño?...
Cometer un pecado venial es decirle: ¡no quiero!... Suele suceder que no se da uno bastante cuenta de ello.

II. EL PECADO VENIAL ALTERA EL PLAN DE DIOS

Hemos hablado de la voluntad de Dios en sí misma, veamos ahora cuál es su objeto: no es otro sino su plan. Toda acción de un ser sabio, obedece a un plan preconcebido. El plan formado por una inteligencia infinita, por grande que sea, se extiende necesariamente hasta los más pequeños detalles. Todo en él concurre al objeto final; todo en él es bueno y todo en él es justo. Diosquiere la ejecución de su plan. Sus mandamientos no son órdenes arbitrarias; forman parte del orden general de las cosas; son su expresión, su ley.
Ir contra la menor de sus prescripciones es, pues, turbar ese orden; es siempre disminuir y con frecuencia alterar el plan divino, el faltar a cualquiera de esas reglas… ¿Habías pensado jamás en ello?
Hay más; la alteración que mi pecado introduce en ese ordenmantiene a muchas almas alejadas de Dios, y ese alejamiento puede prolongarse aún después que yo haya desaparecido. En un mecanismo los engranajes dependen unos de otros. En el plan de Dios, todos los elementos que lo componen son solidarios entre sí; el alejamiento de mi voluntad libre puede repercutir fatalmente sobre otros seres; autoridad mal ejercida, insuficiencia frente al deber; influencia de una palabra, de un ejemplo… ¡Terrible desconocimiento lleno de responsabilidades! ¡Pues si ignoramos esas lejanas consecuencias, sabemos, sin embargo, que no en vano se altera un plan concebido por un Dios, y compuesto de tantas partes solidarias!


III. EL PECADO VENIAL NOS SUSTRAE A LA ACCION DE DIOS

En la ejecución de su plan, Dios es el motor universal. Ni uno solo de los actos que a Él concurren puede ejecutarse sin que El lo inspire y lo sostenga; acción invisible y misteriosa, pero acción cierta y necesaria. ¡El mismo Dios no podría concederme el poder de obrar solo, ni una sola vez!...
En toda falta por leve que sea, me niego al movimiento divino; me substraigo a su influencia legítima; ¡mi acto permanece vacío, muerto, despreciable, porque Dios falta en él!
Obrar en mí y por mí es su derecho inalienable. A ese derecho, falto yo… Sin duda esa verdad me era casi desconocida; sin duda cuando he cometido pecados veniales no me he hecho cargo de que existe esa parte misteriosa; pero, ¿no estaba advertido, por lo menos de una manera general, de que todo pecado es un mal y encierra consecuencias insondables?
¡Hacer que la acción de Dios resulte vana, qué triste y qué terrible poder!...

terça-feira, 24 de abril de 2012

Curiosidade

Nota do blogue: Agradeço imensamente a alma generosa que transcreveu este belíssimo texto. Deus lhe pague.

Título XVI – CURIOSIDADE
(Padre Manuel Bernardes)



CXLI

De Demóstenes, orador de Grécia eloqüentíssimo

Orando uma vez em Atenas sobre matérias de importância, e advertindo que o auditório estava pouco atento, introduziu com destreza o conto ou fábula de um caminhante que alquilara um jumento e, para se defender no descampado da força da calma, se assentara à sombra dele, e o almocreve o demandara por maior paga, alegando que lhe alugara a besta, mas não a sombra dela. Estavam os atenienses neste passo mui aplicados, desejando saber a sentença com que se decidira aquele pleito. Porém Demóstenes no mesmo tempo se desceu da cadeira, dizendo: Oh pejo! Oh miséria grande! Folgais de ouvir da sombra do jumento; e não folgais de ouvir do estado e bem público da Grécia!

REFLEXÃO

É paralelo deste caso outro, que conta Cassiano[1] do Monge Machetes, que, fazendo uma prática espiritual das coisas divinas, começaram os ouvintes a bocejar e cabecear, até que ficaram adormecidos. Então o servo de Deus, espertado a voz: Ouvi (lhes disse, interrompendo o fio da prática e pegando de outro muito contrário), ouvi uma coisa maravilhosa: como uma raposa e um bugio se enganaram um ao outro, alternando suas astúcias. Neste ponto logo todos se aplicavam, e sacudiram o sono, e já ninguém tinha tédio nem preguiça. Então Machetes, voltando sobre eles o estímulo do zelo, os feriu com uma correção acre, dizendo: Que é isto, irmãos? Tanto sono para as coisas divinas e de importância para a nossa alma, e tanta alacridade para ouvir fábulas e contos ridículos? Vede que não pode ter este efeito outra causa mais que o demônio e a vossa negligência, consentindo com ele.

Os atenienses eram sumamente afetos à curiosidade de ouvir coisas novas: Ad nihil  aliud vacabant (testifica deles S. Lucas[2], nos Atos dos Apóstolos) nisi aut dicere, aut audire aliquid novi. E Plutarco, que alcançou o tempo de S. Lucas e S. Paulo, imperando Domiciano, diz[3] que eram tão amigos de comédias, por serem oficinas de novidades, que gastavam nelas o que fora bom gastar nas armadas e exércitos; e traz[4] o gracioso caso de um barbeiro que, ouvindo dizer a um seu escravo de uma batalha que os atenienses tinham perdido em Sicília, com geral mortandade sua, saiu logo pela porta fora, a dar a triste nova em público. Com que, amotinado todo o povo, porque apenas havia quem não tivesse no exército filho, ou pai, ou marido, ou irmão, quiseram averiguar a origem e fundamento de tão funesta fama. E, não aparecendo senão o dito barbeiro, que não podia descarregar-se com testemunhas abonadas, investiram a ele, e, depois de cheio de pancadas e opróbrios, o amarraram a um pau, para ser baliza dos escárnios públicos, pois fora alvorotador falso da paz pública. Mas, sobrevindo alguns que escaparam da batalha, verificaram a desgraça, e cada um se recolheu a carpir-se em sua casa, e a ninguém lembrou soltar o miserável barbeiro. Até que já tarde chegou um beleguim, a desatá-lo; e estava ele já tão emendado do seu vício de saber novidades que perguntou ao mesmo beleguim: se sabiam já também de que modo morrera Nícias, general do exército. Pior lhe sucedeu a um cavalheiro florentino que mandou a um criado que nunca viesse para casa sem lhe trazer novas de um inimigo[5]. O criado, achando ocasião, matou ao tal inimigo, e foi mui contente referir estas novas a seu amo. Foi este preso e sentenciado como réu de homicídio, porquanto a sua ordem equivalia a mandato nas circunstâncias do caso. Estes frutos lhe rendeu a sua novidade.

Este vício da curiosidade e afeição a coisas novas passa também aos trajes, aos edifícios, aos comeres, aos estilos, às leis e até às mesmas palavras. Porque não faltam noveleiros que querem emendar ou ilustrar o idioma comum, introduzindo palavras exóticas e termos que lhes parecem mais elegantes, sendo, na verdade, mais ridículos. Dionísio Sículo, sofista, afetava explicar-se por este modo[6]: Às donzelas chamava “Menandros”, isto é que esperam por varão; à coluna “Menecrates”, isto é que sustenta o peso firmemente; e aos esconderijos e buracos dos ratos chamava-lhes mistérios, porque os ocultam e defendem. Alexarco, irmão de Cassandro, rei de Macedônia, chamava ao galo Ortoboas; ao barbeiro Brotoceres; à dracma, que é um dinheiro pequeno de prata, Argirides. Pela mesma toada, Demades não dizia os mancebos, senão “a primavera do povo”; nem dizia muralhas, senão “o vestido da cidade”; nem dizia “trombeteiro”, senão o “galo do exército”.

Os espíritos que não mortificam em si este gênio de curiosidade e afeição a novidades perdem nisso mais do que, porventura, lhes parece. Porque se fazem incapazes de coisas sérias; e, como sempre andam nadando sobre a cortiça da vaidade, nunca descem ao fundo da verdade, antes esta se lhes representa coisa tão cheia de tédio, tristeza e trabalho que sempre diferem o tratar dela pra outro dia. E aos livros espirituais, que tratam os pontos necessários para o nosso desengano, chama livros desesperados, porque não querem que lhes mostre claramente como a esperança com que eles se entretêm acerca das coisas do século futuro é falsa e mal fundada e, por conseguinte, não é esperança teológica, procedida do Espírito Santo, senão presunção temerária, pregada pelo demônio; a qual tanto presta para a salvação como uma nau aberta e rota presta para a viagem longa e feliz. Pelo que, toda a pessoa que quer ajuntar forças de espírito para empreender o alcance das virtudes e persistir no que empreendeu foge muito das zombarias ou nugacidades do século, porque a repetida experiência a ensinou, à sua custa, que enervam e jarretam aquela atividade e eficácia que é necessária para tão superior emprego. E este é um dos sinais que o Doutor Angélico, Santo Tomás aponta para conhecer se um sujeito é virtuoso e trata deste negócio com veras. Faz também grande estimação do tempo: porque sabe que é semente da eternidade que, uma vez malograda, é impossível recobrar-se. E, assim, emprega e aproveita as mínimas partes dele em coisas úteis, proveitosas e honestas, seguindo o aviso do Espírito Santo pelo Eclesiástico: Non defrauderis a die bono; et partícula boni diei, non te praetercat.

Notas:

[1] Lib. v. "Institut.", c. 31.
[2] Act., XVII, 27.
[3] Plutarc., "Tract. de glória Atheniens."
[4] Idem "Tract. de Garrulilat."
[5] Barihot., in L. Siquis mihi bona, § Pater Scio.
[6] Ex Athenaeo, lib. III, c.10.

(Nova Floresta, quarto tomo pelo Padre Manuel Bernardes, Livraria LELLO & IRMÃO, 1949)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

PENITÊNCIA OU... PURGATÓRIO!


I. Acerbidade das penas do Purgatório

Ouvindo Santo Agostinho alguns de seu tempo dizer que, se escapassem do inferno, do Purgatório não tinham tanto medo, encheu-se de zelo e lhes fez ver o grande erro em que estavam, pois as penas do Purgatório superam tudo o que há de mais penoso neste mundo.

E com razão, porque o fogo que atormenta as almas do Purgatório é o mesmo que o fogo que atormenta os condenados no inferno, somente com exceção da eternidade.

E assim é que a Santa Igreja não duvida chamar às penas do Purgatório penas infernais [na Liturgia dos defuntos].

O fogo do Purgatório é aceso por um sopro infernal, e é tão ativo que não se chama simplesmente fogo, mas espírito de fogo (Is 4, 4), e derreteria num instante um monte de bronze, mais facilmente que uma de nossas fornalhas devoraria uma palha seca.

Tem ainda este fogo, além da atividade natural, uma potência superior, que lhe dá Deus, para servir de instrumento ao Seu furor (cf. Is 15, 41).

Porém, diz o Senhor pelo profeta Zacarias, que Ele mesmo, mais que o fogo, purgará e limpará a alma eleita, ativando com Seu hálito as suas chamas (cf. Zac 3, 9).

E qual não será o tormento das almas benditas naquele cárcere por meses e anos! Podemos fazer dele uma [longínqua] idéia, considerando que:

a) A alma, assim como é mais nobre que o corpo, é também mais capaz de sentir vivamente, seja a alegria, seja o sofrimento;

b) a alma unida ao corpo, se sente dor, sente-a temperada pelo mesmo corpo, e como que dividida entre ambos, servindo-lhe o corpo de escudo e anteparo da dor. Mas no Purgatório, estando longe do corpo, recebe diretamente sobre si toda a força da dor;

c) a alma unida ao corpo, se sofre no pé ou na mão ferida, não sofre na cabeça ou noutros membros sãos; mas no Purgatório, sendo indivisível e estando separada do corpo, é toda atingida pelas chamas.

Além do fogo, é a alma, no Purgatório, atormentada por si mesma, pensando:

a) Por quão ligeiras faltas está penando: por uma palavra inútil, por um olhar curioso, por uma intenção menos reta, que tão facilmente pudera evitar;

b) que, podendo durante a vida tão facilmente descontar a pena merecida por suas faltas com praticar algumas ações meritórias, não o fez;

c) que, deixando na terra filhos, amigos e herdeiros, que a deviam aliviar naquelas chamas, não o fazem, e só pensam em desfrutar dos bens que lhes deixou (Sl 30, 13). Com quanta razão se lamentará de não ter descontado os seus pecados, dando esmolas, e empregando em obras de caridade os bens que Deus lhe deu e que aumentou com tantos suores?

Sobre tudo isto, acresce o maior tormento do Purgatório, que é a privação da visão de Deus.

São João Crisóstomo disse (Hom. 24 in c. 7 Mat.) que o inferno do inferno é estar o condenado privado para sempre da visão de Deus. Assim também se pode dizer que o Purgatório do Purgatório é estar uma alma por muito tempo longe da visão de Deus.

As almas são, pois, atormentadas por dois verdadeiros e profundíssimos sentimentos: desejo e amor.

O maior tormento de uma alma do Purgatório é desejar ir para Deus, e não poder.

Esta pena é tanto maior, quanto maior é o conhecimento que lá a alma tem de Deus, pois, separada do corpo, conhece mais claramente a suma bondade de Deus, e se sente movida com maior força a ir para Ele, como a pedra para o seu centro.

Por isso, as suas maiores ânsias, no Purgatório, são suspiros pela visão beatífica, de que já sente a aproximação, mas que ainda não pode desfrutar.

Clama ela, como o cego do Evangelho (Lc 18, 41): "Senhor, que eu veja" essa luz da glória; que meus olhos desfrutem já da presença divina!

Para chegar mais depressa à visão de Deus, esta alma preferiria que se lhe duplicasse o tormento do fogo, contanto que findasse o tormento do desejo de ver a Deus.

Conta-se [por exemplo] de Rutília que, sabendo que seu filho fora condenado ao desterro para terras longínquas, se desterrou também, para não padecer, longe dele, o tormento da saudade.

Mas muito maior que o desejo, é o tormento do amor.

Três são os amores que atormentam as almas do Purgatório:

a) O amor natural, pelo qual a alma, por uma inclinação inata, é atraída para Deus como a Seu Criador, seu Princípio e último Fim, com maior ímpeto que a pedra propende para o centro da terra ou a chama para o ar;

b) o amor sobrenatural, pelo qual, [sob a ação da Graça,] é a alma vivíssimamente atraída para Deus como seu sumo, único e eterno Bem;

c) o amor de ardentíssima caridade, por saber que é esposa do divino Cordeiro, Jesus Cristo, destinada ao Reino Celestial, e, no entanto, vê que seu Esposo Divino lhe fecha a porta, e que seu amor é assim frustado.

A todos estes tormentos se deve juntar a duração das penas, por meses, por anos e, talvez, até o fim do mundo.

Quanto se amedronta e aterra um malfeitor, ao ouvir a sentença de ficar por algum tempo encerrado num cárcere escuro ou de por três anos trabalhar nos porões das galés!

Quanto se lamenta um enfermo a quem se avisa de que terá de sofrer por um quarto de hora uma dolorosíssima operação!

E a quem não de gelar o sangue ao pensar que, por seus pecados, há de estar sepultado nas chamas do Purgatório por anos inteiros, e talvez até o dia do Juízo Final?!

Santo Agostinho diz que, no Purgatório, um dia é como mil anos (In Ps 37).

Assim é que a esperança e o desejo de ver a Deus, e de passar de um excessivo tormento a uma indizível alegria, fará parecer uma hora mais longa que um século.

Conta Santo Antonino que um enfermo havia muito tempo que sofria horríveis dores. Apareceu-lhe o seu Anjo da Guarda e lhe propôs, por ordem de Deus, que escolhesse: ou sofrer aquelas dores por mais um ano, ou passar meia hora no Purgatório. O enfermo respondeu que preferiria estar meia hora no Purgatório, pois assim acabava mais depressa de sofrer. Pouco depois expirou, e o Anjo foi visitá-lo no Purgatório. Ao ver o Anjo, a pobre alma começou a soltar gemidos inconsoláveis, dizendo-lhe que a tinha enganado, pois, tendo-lhe assegurado que estaria ali só meia hora, já eram passados vinte anos que estava lá penando. Vinte anos? - replicou o Anjo - não passaram mais que poucos minutos de tua morte, e teu cadáver ainda está quente sobre o leito!

Tanto é verdade que as penas do Purgatório, em certo modo, - sapiunt naturam aeternitatis -, têm um sabor de eternidade, por parecer à imaginação do padecente que uma hora é como um século.

II. Dificuldade em evitar o Purgatório

Um mal qualquer, por maior que seja, se facilmente se pode evitar, não é grande mal; mas um mal grande, que dificilmente se pode evitar, torna-se extremo.

Tal é o Purgatório; pois, como atesta o cardeal e Doutor da Igreja São Roberto Belarmino (De amis. grat., c. 13), até dos homens mais santos e perfeitos, pouquíssimos são os que vão direto ao Paraíso.

O mesmo Santo, estando próximo à morte, recebeu a visita do Geral da Companhia de Jesus, que, sabendo como era santíssima a vida de Belarmino, lhe disse que todos tinham firme esperança de que, depois da morte, ele voaria logo para o Céu. - "Mas não a tenho eu, disse o Santo; eu não tenho essa esperança".

Santa Teresa d'Ávila conta que, sendo-lhe revelado o estado de muitas almas na outra vida, só de três sabia que tivessem ido para o Céu sem passar pelo Purgatório [e uma destas almas era ninguém menos que um São Pedro de Alcântara].

Nem isto nos deve maravilhar. São Bernardo diz (Decl. sup. Ecce nos) que, assim como não há obra boa, por mais pequena que seja, que Deus não remunere largamente, assim não há mal, por mais ligeiro que seja, que Deus não castigue severamente.

Ora, sendo a alma mais justa e santa sujeita a muitas imperfeições, naturalmente está exposta a ir pagar por elas no Purgatório.

Se por um lado não quer Deus que nada impuro entre no Céu, por outro não escapa a Seus olhos a mais ligeira mancha, que nós, muitas vezes, nem chegamos a descobrir.

Por isso diz a Escritura que até nos Anjos encontra Deus que repreender (Job 4, 18), e que os mesmos céus não são puros na Sua presença (Job 15, 15), e que até nas obras dos justos encontra que emendar (Sl 74, 3).

O santo Jó, conhecendo esta minuciosa Justiça de Deus, temia que as suas ações, ainda as mais santas, não Lhe fossem plenamente agradáveis (Job 9, 28).

Oh! Como são terríveis os juízos de Deus, e como são diversos dos d'Ele os juízos dos homens!

O homem não vê senão o que aparece por fora; Deus, porém, penetra o coração (1 Rs 16, 7).

O padre Baltasar Álvarez, da Companhia de Jesus, confessor de Santa Teresa d'Ávila, era, por testemunho de sua Santa penitente, um dos homens mais santos e piedosos de seu tempo. Um dia, ele pediu ao Senhor que lhe revelasse quais eram as suas obras que mais O agradavam. Deus Nosso Senhor ouviu a sua oração, e fez-lhe ver as suas obras no símbolo de um cacho de uvas, em que umas eram verdes, outras amargas, e só duas ou três estavam maduras, e estas ainda não de todo doces ao paladar. "Tais são, disse-lhe o Senhor, as tuas ações; delas só duas ou três são boas, e mesmo nestas, se examinarem com rigor, não lhes faltará que repreender".

Daqui se vê como é severa a Justiça Divina em julgar as ações dos homens, e como é difícil, ao morrer, estar um alma tão purificada, que não fique nada por que satisfazer no Purgatório.

Não faltam exemplos na vida dos Santos que confirmam esta doutrina.

Na vida de São Severino se conta que, enquanto um clérigo passava um rio, apareceu-lhe um sacerdote e, tomando-lhe a mão, a queimou toda, dizendo: Isto sofro no Purgatório por não rezar as Horas canônicas com atenção.

De São Martinho escreve São Gregório Turinense que, orando no sepulcro de sua irmã e recomendando-se a ela como a santa, de repente ela lhe apareceu, vestida do hábito de penitente, com o rosto triste e pálido, e lhe disse que ainda estava no Purgatório, por ter penteado o cabelo na Sexta-Feira Santa, não se lembrando que era o dia da Paixão do Senhor.

A irmã de São Pedro Damião, como ela mesma revelou a uma santa alma, foi condenada a penar dezoito dias no Purgatório, por ter, de sua cela, ouvido curiosamente os cantos e músicas que entoavam debaixo da janela.

São Severino, Arcebispo de Colônia, foi condenado a um gravíssimo Purgatório, por ter recitado as Horas canônicas sem a devida distinção de tempos, apesar de serem muitos os negócios de seu palácio, que parece o desculpariam.

Entremos agora dentro de nós mesmos, e tiremos a conseqüência, que tirou também Santo Antonino depois de contar a seus religiosos semelhantes exemplos: "Tema, pois, cada um de vós, cometer pecados veniais e não se purificar deles nesta vida".

Se Deus é tão severo em punir no Purgatório as menores faltas, e se é tão difícil, mesmo para as almas mais perfeitas, evitá-lo, como é que me atrevo a acumular pecados veniais em minha vida, sem fazer penitência deles?...

E se aqui me parece insuportável uma pequena fagulha, que será sofrer aquele fogo atrocíssimo?...

Por que não procuro depurar as minhas ações de toda impureza, e fazer penitência pelos pecados cometidos?...

Andemos sempre alumiados pelas chamas do Purgatório, para evitarmos, com a perfeição de nossas obras, cair naqueles horríveis tormentos (Is 40, 11).

III. Como devemos evitar o Purgatório

É verdade de Fé que ninguém entra no Céu sem estar de todo purificado (Apoc 21, 17), e sem primeiro ter satisfeito todas as suas dívidas à divina Justiça (Mt 5, 26).

Deste modo, ou havemos de punir em nós mesmos, nesta vida, os nossos pecados, ou então Deus se encarregará de os castigar depois da nossa morte. Não há como escapar, diz Santo Agostinho (Conc. 1 in Ps 58).

Quem, na vida, não apaga os pecados com as lágrimas da penitência, depois da morte se purificará deles com as chamas do Purgatório. Ora, não é melhor lavar os pecados com água do que com fogo?

Na vida, com um dia de penitência, e até com uma hora, podemos satisfazer por nossos pecados o que no Purgatório nem por um ano expiaríamos.

Ora, não é melhor padecer por um pouco, neste mundo, que padecer no outro por longo tempo, que pode ser até o dia do Juízo?

Ajuntemos que a penitência feita em vida é meritória, e depois da morte nada merece. Ainda que penemos por mil anos no Purgatório, não adquiriremos um novo grau de graça, nem um novo grau de glória no Céu.

E não é mais sensato sofrer pouco e por pouco tempo, e com mérito, do que sofrer muito e por muito tempo, e sem mérito nenhum?

Finalmente, a Divina Justiça fica mais satisfeita com a penitência, ainda que pequena, feita nesta vida, do que com a pena, ainda que maior, tolerada depois da morte; porque a primeira é um sacrifício voluntário e uma pena tomada espontaneamente, ou espontaneamente aceita, ao passo que a segunda é um sacrifício forçado, e uma pena tolerada por necessidade e contra vontade.

Por todas estas razões se vê claramente quanto importa descontar, nesta vida, as penas que devemos a Deus por nossos pecados, pela enorme vantagem de nos livrarmos, desta maneira, dos males do Purgatório.

Frutos:

Consideremos os frutos que devemos tirar desta doutrina, para nos resolvermos a evitar o Purgatório, usando de todos os meios que a isto nos possam ajudar.

O primeiro é fazermos agora, por nós mesmos, penitência dos nossos pecados, e praticar boas obras o mais que pudermos, e não pôr a nossa esperança em sufrágios futuros. E isto devemos fazer sem demora, antes que sejamos assaltados por algum acidente (Gál 6, 10).

O segundo é pôr todo o cuidado em ganhar as santas indulgências, com as quais satisfaremos por nossos pecados com a satisfação e méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O terceiro, finalmente, é usar de piedade com as almas do Purgatório, ajudando-as com os nossos sufrágios, obras e orações, porque Deus disporá que aquela caridade que usamos com os outros seja também usada conosco (Mt 7, 2).

Depois essas almas, quando estiverem no Céu, serão gratíssimas para conosco, obtendo-nos muitas graças de Deus.

Feliz de quem salvou uma alma do Purgatório com seus sufrágios, porque terá diante de Deus quem interceda por ele, quando também estiver penando naquele lugar!

Conta Bernardino de Bustis que morreu um pai, e com seus bens deixou um filho riquíssimo. Este ingrato filho não pensou mais em quem tanto o tinha beneficiado, pois nunca mandou sufragar a alma de seu pai, que ardia no Purgatório. Ora, que aconteceu? Ainda que os seus capitais fossem avultadíssimos, contudo estava sempre em penúria. Contínuas tempestades lhe destruíam as plantações, males imprevistos dizimavam-lhe os rebanhos, incêndios e desastres arruinavam-lhe a casa. Já os pleitos, já o fisco, já os inimigos o obrigavam a gastos desmedidos. Um dia, encontrando-se com um servo de Deus, pediu-lhe que o recomendasse em suas orações. Fê-lo o santo varão, a quem foi revelado que aquele filho ingrato não podia desfrutar dos bens herdados, porque tinha o pai no Purgatório, que o amaldiçoava, e as suas maldições eram aceitas da Divina Justiça pela sua perversa ingratidão.

Façamos bem aos nossos defuntos, que o mesmo farão conosco (Ecli 12, 2).

Imaginemos que Jesus Cristo diz a cada um de nós a respeito dos nossos defuntos, o que disse a respeito de Lázaro: "Desatai-o e deixai-o ir" (Jo 11, 44).

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(Padre Alexandrino Monteiro S. J., Exercícios de Santo Inácio de Loyola, II Edição, Editora Vozes, Petrópolis: 1959, páginas 80-90).

PS.: Grifos meus, agradeço a alma generosa que me enviou o texto, Deus lhe pague!