quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Calvário e a Missa - 4ª Parte: Consagração


Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
(São Mateus 27,46)

Eis a quarta palavra da Consagração da Missa do Calvário. As três primeiras palavras foram dirigidas aos homens. A quarta, porém, foi dirigida a Deus. Estamos agora na última fase do drama da Paixão. Na quarta Palavra, e em todo o Universo, só existem apenas Deus e Jesus. Esta é a hora das trevas.

Subitamente, o silêncio dessa escuridão é quebrado por um grito – tão terrível e tão inesquecível que até aqueles que não compreenderam a língua em que foi expresso hão de recordar-se sempre do tom estranho em que foi proferido: “Eli, Eli, lamma Sabcthany”.

Sim, embora alguns não pudessem compreender essas palavras da língua hebraica, o tom em que foram ditas não mais lhes esqueceu em toda a sua vida.

As trevas que cobriam a terra naquele momento representam apenas o símbolo exterior da noite escura da alma. O sol pode esconder a sua face perante o terrível crime dos deicidas, mas a verdadeira razão da noite que se estendeu sobre a terra foi a sombra da Cruz que se erguia no Calvário.

Toda a criação ficou imersa nas trevas da dor.

Qual foi, todavia, a razão do grito que partiu da escuridão?
 “Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonastes?”

Esse foi o grito de espanto para o pecado, em que o homem abandonou Deus, em que a criatura esquece o Criador, em que a flor despreza o sol que lhe deu força e beleza. O pecado é uma separação, um divórcio da união com Deus, e do qual derivam todos os divórcios. Desde que Jesus veio à terra para remir os homens dos seus pecados, é certo que Ele sabia que havia de sentir esse abandono, esse apartamento, esse divórcio.

Ele sentiu-o, antes de mais, no íntimo da Sua alma, tal como a base da montanha, se fosse consciente, sentiria o abandono do sol quando uma nuvem descesse sobre ela, embora os seus cumes se conservassem radiosos, banhados de luz.

Não havia sombra de pecado na alma de Jesus, embora Ele quisesse sentir os efeitos do pecado, e a terrível sensação de isolamento e solidão – a solidão do afastamento de Deus.

Renunciando à divina consolação que poderia pertencer-Lhe, Ele quis mergulhar na tremenda solidão da alma que se extraviou de Deus pelo pecado, para expiar a solidão do ateu que nega a existência de Deus e deposita a sua fé nas coisas terrenas, a dor do coração despedaçado de todos os pecadores que sentem a amargura da ausência do seu Criador.

Jesus foi até ao ponto de remir todos aqueles que não crêem e que, na tristeza e na miséria, exclamam, blasfemando: “Por que é que a morte levou tal pessoa?”, “Por que é que perdi aos meus bens?”; “Porque é que hei de sofrer”.

O “Porquê” que Jesus dirigiu a Seu Pai é uma expiação que abrange os “porquês” soltados por aqueles que blasfemam.

Para melhor revelar a sensação de tal abandono, Jesus exteriorizou-o. Porque o homem se apartara de Deus, Ele permitiu que o Seu sangue se separasse do Seu Corpo. O pecado entrara no sangue do homem e, como se os pecados do mundo recaíssem sobre Ele, Jesus deixou derramar o Seu precioso sangue, do cálice do Seu Corpo. Quase que podemos ouvi-Lo dizer:

Pai, este é o Meu Corpo, este é o Meu Sangue. Eles estão separados um do outro, tal como a humanidade se separou de Ti. Esta é a Consagração da Minha Cruz”.

O que aconteceu então no Calvário acontece agora na Missa. Com uma diferença: Na Cruz, o Salvador estava só e, na Missa, está conosco. Nosso Senhor, agora, está no céu, à mão direita de Seu Pai, intercedendo por nós. Já não pode, portanto, sofrer na Sua natureza humana.

Como pode, pois, a Missa ser a renovação do drama da Cruz? Como é que Cristo pode renovar o drama da Cruz?

Ele não pode, realmente, voltar a padecer na Sua natureza, porque está no céu, gozando a divina bem-aventurança, mas pode ainda sofrer nas nossas naturezas humanas.

Ele não pode, de fato, reviver o Calvário no Seu Corpo físico, mas pode renovar os Seus sofrimentos no Seu Corpo Místico que é a Igreja.

O sacrifício da Cruz pode ser renovado, contanto que nós Lhe façamos a oferta do nosso corpo e do nosso sangue, em toda a plenitude. Jesus pode também oferecer-Se novamente a Seu Pai Celestial, pela redenção do Seu Corpo Místico – a Igreja.

Cristo anda no mundo juntando as almas que desejam ser outras tantos Cristos. Para que nos nossos sacrifícios, as nossas tristezas, os nossos calvários, as nossas crucificações, não fiquem isoladas, desunidas, a Igreja reúne-os, junta-os, e o agrupamento, a massa de todos esses sacrifícios humanos reúne-se ao grande sacrifício de Cristo na Cruz, durante a Missa.

Quando assistimos ao Santo Sacrifício da Missa, não somos precisamente apenas criaturas terrenas, nem indivíduos solitários, mas sim parcelas vivas de uma grande ordem espiritual, na qual o Infinito penetra e envolve o finito, e o Eterno penetra no ser temporário e passageiro, e o Espiritual reveste a materialidade.

À face de Deus nada existe sobre a terra de mais solene e que mais respeito infunda do que o momento da Consagração, pois a Missa não é uma oração, nem um hino. – é um Ato Divino com o qual entramos em contato num dado momento do tempo.

A rádio pode oferecer-nos uma ilustração imperfeita, um esboço vago do que acabamos de exprimir. A Missa é um Ato único, divino, singular, com o qual entramos em contato todas as vezes que ela se celebra.

Quando a face da medalha ou da moeda são gravadas, ou cunhadas, qualquer desses objetos é a representação visível de uma idéia espiritual que existiu no espírito do artista. Do original podem fazer-se reproduções inúmeras, desde que em cada peça de metal se grave ou reproduza o original.


Na missa dá-se um fato semelhante. O modelo ou padrão é o Sacrifício de Cristo no Calvário, renovado nas almas que entraram em contato com Ele, no momento da Consagração. A respeito, porém, da multiplicidade da Missa, o Sacrifício é apenas um, e sempre o mesmo. A Missa é a comunicação do Sacrifício do Calvário, sob as espécies de pão e de vinho.

Também nós estamos no altar sob essas aparências, pois ambas representam o alimento da vida. Oferecendo, pois, aquilo que nos dá vida, oferecemo-nos, simbolicamente a nós próprios. Além disso, para se transformar em pão, o grão tem de ser moído, e as uvas têm de ser esmagadas, para se transformarem em vinho e, assim, representam os Cristãos, que são chamados a sofrer com Cristo, para que um dia possam também alcançar o Reino dos céus.

O momento da consagração da Missa que nos aproxima de Nosso Senhor equivale às palavras que Jesus pronunciou: “Tu Maria, vós, João, Pedro e André, dai-Me o vosso corpo, dai-Me o vosso sangue, dai-Me todo o vosso ser. Eu não posso sofrer mais. Passei por todos os padecimentos da Cruz, esgotei todos os sofrimentos que o Meu Corpo físico podia suportar, mas não preenchi a medida dos tormentos necessários ao Meu Corpo Místico, do qual vós fazeis parte. A Missa é o momento em que cada um de vós pode escutar literalmente a minha exortação: ‘Toma a tua cruz e segue-Me’”.

Do alto da Cruz, Nosso Senhor já olhava para todos aqueles que haviam de vir, para todos nós, esperando que algum dia nos entregássemos a Ele no momento da consagração. Assistindo à Santa Missa, realizamos, portanto, a esperança que antecipadamente Jesus pôs em nós.

Quando chega o momento da consagração, em obediência às palavras de Deus Nosso Senhor, “Fazei isto em memória de Mim”, o sacerdote toma o pão e diz: “Este é o Meu corpo”; depois, sobre o cálice que contém o vinho, acrescenta: “Este é o Meu sangue do novo e eterno Testamento”. A consagração do pão e do vinho é feita separadamente, como representação da separação do corpo e do sangue; tal como sucedeu na crucificação, o drama do Calvário repete-se sobre o altar.

Cristo não está, porém, sozinho no nosso altar, pois nós estamos com Ele. Daí o duplo sentido da palavra da consagração que, em primeiro lugar, significam: “Este é o Corpo de Cristo; este é o Sangue de Cristo”. O segundo significado é: “Este é o meu corpo, este é o meu sangue”.

E é esta a finalidade da vida! Reunirmo-nos em união com Cristo, aplicar os Seus méritos às nossas almas, imitando-O em todas as coisas, e até na Sua própria morte sobre a Cruz.

A consagração que Jesus fez no Calvário é repetida por cada um de nós quando assistimos à Santa Missa.

Não existe algo de mais trágico no mundo do que a dor sofrida em vão. Quanto sofrimento existe nos hospitais, entre os pobres e os abandonados, e quantos desses sofrimentos são perdidos! E porquê?
Porque muitas almas, abandonadas, crucificadas, não dizem, unidas a Nosso Senhor, no momento da consagração: “Este é o meu corpo. Tomai-O”.

Nenhum padecimento seria desperdiçado, vão, se todos aqueles que sofrem, dissessem nesses momentos:

Meu Deus, entrego-me nas Vossas mãos. Toma o meu corpo, o meu sangue, a minha alma, a minha vontade, a minha energia, a minha força, os meus bens, a minha saúde. Toma tudo o que eu sou e possuo, pois eu me consagro inteiramente a Vós e em união conVosco, para que o Pai Celestial veja nessa dádiva o Vosso bem-amado Filho.

Àquele em quem Ele pôs todas as Suas complacências. Transmuda o pobre pão da minha vida na Vossa vida divina; transforma o vinho da minha vida desperdiçada no Vosso divino espírito; une o meu coração despedaçado ao Vosso coração; transforma a minha cruz num crucifixo.


Não deixes que a minha dor e o meu abandono se percam, junta os seus fragmentos e, tal como a gota de água é incorporada no vinho, durante o ofertório da missa, deixa que a minha vida se incorpore na Vossa.


Deixa que a minha pequena cruz se reúna à Vossa grande Cruz, para que eu possa obter as alegrias da felicidade eterna, em união conVosco!

Consagra as provações da minha existência, pois elas não serão compensadas, senão por meio da minha união conVosco. Transubstancia-me, tal como o pão que é agora o Vosso corpo, e o vinho que é agora o Vosso sangue, e eu serei inteiramente Vosso.

Não me importa que as aparências permaneçam, tal como sucede ao pão e ao vinho, e que aos olhos da terra eu pareça o mesmo que era antes. A minha permanência no mundo, os meus deveres habituais, o meu trabalho, a minha família – tudo isso representa as espécies da minha vida que continuam inalteradas.

A substância da minha vida, porém, a sua essência, - a minha alma, a minha vontade, o meu espírito, o meu coração – transubstancia-os, transforma-os inteiramente no Vosso serviço, para que todo o meu ser possa saber e sentir toda a doçura do amor de Cristo”. Amém.

(O Calvário e a Missa – Arcebispo Fulton J.Sheen: Consagração)

PS: Grifos meus
PS 2: Um texto que devido a sua profundidade, precisa ser lido com muito recolhimento e meditação, para obter toda a sua substância e graças.
Ver também - Outros textos do mesmo livro (continua...)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Jesus sofre! Alma amada, tome a resolução de consolá-Lo ...


(Figura focando o rosto de São Domingos aos pés da Cruz)
Jesus sofre

Tristis est anima mea usque ad mortem (Mc 14,34)
Minha alma está triste até à morte

Há vinte séculos, quando ninguém pensava ainda em mim, quando ninguém podia ainda suspeitar que um dia eu existiria, um Coração amava, interessava-se pela minha felicidade e se entristecia pelos meus pecados.

Oh! como esse último pensamento me punge a alma de dor e remorso! Jesus entristeceu-se e sofreu por causa de meus pecados e dos de cada homem em particular.

Jesus era Deus. Ele via clara e minuciosamente todos os meus pecados e os crimes do mundo inteiro. Contava-lhes o número e pesava-lhes a gravidade e compreendia a malícia infinita de todos eles. Continuamente Ele tinha diante dos olhos essa montanha de crimes; continuamente pesava no Seu coração a ofensa infinita feita a Deus, ofensa tantas vezes repetida e desejada, de algum modo pela vil criatura humana.

As lágrimas que derramou no presépio foram lágrimas de tristeza à vista de tantas ingratidões. Quando moço, a idéia de todos os sofrimentos e da morte, que o esperavam, jamais o abandonou.

Diz a piedade cristã que, estando Jesus já crescidinho e começando a andar, no vaivém contínuo em torno de São José na sua oficina de operário, tomou dois pedaços de madeira e, dispondo-os em forma de cruz, mostrou-os à santa Virgem. Vendo-os, os olhos da Mãe arrasaram-se de lágrimas e o Coração de Jesus encheu-se de tristeza.

A menor lembrança reabria essa ferida na alma de Jesus e de Maria. A vista de um cordeiro, de uma pomba, a vista de pregos, de um martelo, ou de outros instrumentos da paixão, lembravam os cruéis suplícios que esperavam o inocente Jesus.

Quando Maria revestia seu Filho da pequena túnica, diz Santo Afonso, ela entrevia o dia em que lhe arrancarriam as vestes para flagelá-Lo e crucificá-Lo; quando ela O alimentava com seu leite virginal, pensava no fel e vinagre que Lhe dariam para mitigar-Lhe a sede; quando olhava as mãozinhas que se estendiam para abraçá-la, ela as via perfuradas com grossos cravos e fixadas na Cruz; quando Lhe envolvia em faixas o corpinho, transportava-se em espírito junto ao túmulo onde havia de envolvê-Lo um dia no sudário.

Oh! que amargura para o coração dessa Mãe e desse Filho, que tudo sabiam de antemão!
E a dor aumentava à medida que se aproximava o dia fatal.

Durante a vida pública de seu querido Filho, e sobretudo no último ano, Maria tinha quase sempre os olhos rasos de lágrimas e o pensamento em Jesus, nos Seus sofrimentos, e na Sua morte, não mais a abandonava.

Algumas palavras do Evangelho no-lo dizem quando mesmo não o adivinhassem os nossos corações.

Um dia, atravessando a Galiléia, Jesus disse aos seus discípulos: "O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens que o farão morrer, e, ao terceiro dia, ressuscitará. E os discípulos entristeceram-se profundamente"(Mt 17,21-22). Uma outra vez, indo a Jerusalém, Jesus levou consigo seus doze apóstolos e lhe disse:

"Eis que vamos a Jerusalém e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas e eles o condenarão à morte. E eles o abandonarão aos gentios para ser escarnecido, flagelado, e ao terceiro dia ele ressucitará." (Mt 20,18)

E no dia de sua glória durante a transfiguração no monte Tabor, Moisés e Elias entretêm-se com Ele sobre a cruel morte a que teria de sujeitar-se em Jerusalém (Lc 9,31).

Chega, finalmente, esse dia de suprema tristeza, dia, aliás, tão desejado pelo Amante Redentor.

Jesus despediu-se de sua Mãe, entreteve-se tristemente com ela sobre os dolorosos acontecimentos que deviam seguir, consolou-a com a visão de sua próxima ressurreição e do resgate do gênero humano. Depois abraçou, pela última vez, a pobre Mãe em lágrimas e afastou-se lentamente, o coração partido, para presidir a Última Ceia, que seus discípulos lhe haviam preparado.

Aqui novas tristezas.

Vinte séculos são passados, e nossos corações tão frios enchem-se ainda de piedade ao ler estas palavras do Evangelho:

"Em verdade, em verdade eu vos digo, um de vós há de me entregar". E outras palavras de Jesus a Pedro: "Em verdade, em verdade eu te digo: Não cantará o galo sem que me tenha negado três vezes." (Jo 13,21-38). Eis que vem e já é chegada a hora em que sereis dispersos, cada um de seu lado, e me deixareis só.

O que aflige ainda mais o divino Mestre é deixar seus discípulos como ovelhas sem pastor, os quais, na sua ignorância, não compreendem a desgraça prestes a cair sobre eles. Agora, disse Jesus, vou para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: para onde ides? (Jo 16,5)

O bom Jesus, porém, esquecia-se da sua própria dor e, consolando ainda seus discípulos, acrescentou: Agora vós tendes tristeza, mas eu vos tornarei a ver, e vosso coração se há de alegrar, e a vossa alegria ninguém vo-la poderá tirar. (Jo 16,22)

Ao pronunciar estas últimas palavras, Jesus já estava em caminho para o Horto das Oliveiras! Quando lá chegou sentiu-se invadido pela tristeza e pelo tédio e disse: Minha alma está triste até á morte. Ficai aqui e velai comigo. (Mt 26,38) E Jesus foi como que envolvido por mortal angústia, um suor de sangue  cobriu-Lhe todo o corpo e, embebendo-Lhe as vestes, correu até ao chão. (Lc., 22,44).

Oh! quanta tristeza Jesus sofreu pelas nossas ingratidões!

Ele previa então que, de sofrimentos tão intensos, poucos seriam os resultados; que muitos homens passariam indiferentes diante de Sua Cruz, muitos outros recusar-se-iam a conhecê-Lo, mais ainda, haviam de blasfemar e esforçar-se por afastar as almas simples; enfim, um número incalculável de almas jamais ouviriam pronunciar Seu nome.

Oh! como nossos corações se oprimem de tristeza à vista de tanta ingratidão dos homens. Bom Mestre, perdoai as nossas ofensas como perdoastes sobre a Cruz e derramais graças abundantes sobre todos os homens,  afim de que todos sejam forçados a reconhecer-Vos e amar-Vos.

E tu, alma tão amada, toma a resolução de consolar o Coração de Jesus e promete conquistar-Lhe outras almas.

Oh Jesus! como eu desejava estar lá no Horto das Oliveiras! Como agradeço a Verônica ter afrontado as injúrias, os golpes, para tocar com seu véu o Vosso rosto sagrado; como me consola a compaixão das filhas de Jerusalém pela Vossa sorte; como eu teria desejado ainda ajudar Simão a levar Vossa Cruz e aliviar assim Vossos padecimentos, como, sobretudo, agradecer a Vossa pobre Mãe de Vos ter seguido até ao Calvário, de se ter aproximado bem perto de Vosso patíbulo para melhor partilhar dos Vossos sofrimentos, e ter querido com sua heróica fidelidade poupar-Vos a pena que Vos causariam nossas futuras pusilanimidades!

Oh Jesus! eu Vos amo, eu quero consolar-Vos a poder de amor e paciência. Auxiliai-me!

(O Divino Amigo - Pe. Schrijvers)
PS: Grifos meus.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Sensualidade (natureza/estragos)


"Aqueles que mancham a sua carne... astros errantes aos quais uma tempestade de trevas está reservada por toda a eternidade."
(Mgr. Pichenot)

A natureza da sensualidade

O que é a sensualidade?
É a inclinação desregrada da natureza que nos arrasta aos prazeres dos sentidos: constitue uma chaga profunda, um princípio tristemente fecundo de vícios e de pecados.

A sensualidade vem de Deus?
Deus fez o homem reto, diz o Sábio; e essa retidão consistia em que, estando o espírito perfeitamente submetido a Deus, o corpo também estava perfeitamente submetido ao espírito.

Qual a origem da sensualidade?
"Depois do pecado original, as paixões da carne, por uma justa punição de Deus, tornaram-se tirânicas; o homem foi mergulhar no prazer dos sentidos; e, segundo Santo Agostinho, em vez de, por sua imortalidade primitiva e perfeita submissão do corpo ao espírito, se tornar espiritual, mesmo na carne, tornou-se carnal, mesmo no espírito." (Bossuet)

Qual é a conseqüência desta desordem?
Pelo pecado original perdeu-se o equilíbrio, e o corpo tomou um predomínio aterrador sobre a alma. Daí essa inclinação violenta para o prazer sensual, que faz a tortura das almas castas, que produz a vergonha dos caráteres fracos, e que constitui um dos maiores obstáculos a uma educação séria.

Os estragos da sensualidade

* Qual é o "primeiro" estrago produzido pela sensualidade?
É o de transtornar a ordem estabelecida por Deus.

Qual é a ordem desejada por Deus na criação do homem?
Na ordem desejada por Deus, o homem é o rei da criação. Mas não o é pelo seu corpo: certos animais, a este respeito, superam-no. É, pois, por sua alma; e eis porque a alma deve reinar no homem; ela deve governar a sua vida:

O corpo, como escravo, à obediência é forçado.

Como transtorna a sensualidade este plano?
A sensualidade transtorna esta ordem divina, fazendo dominar o corpo sobre a alma e sujeitando a alma aos sentidos.

* Qual é a "segunda desordem" produzida no homem pela sensualidade?
Faz definhar o corpo e a saúde. Não se ofende impunemente a natureza; a natureza ultrajada vinga-se, e as suas vinganças são terríveis.

Como é que a sensualidade faz definhar o corpo e a saúde?
Ela mina, corrompe e destrói este frágil organismo, que ainda não tem o seu desenvolvimento. O rosto juvenil perde a cor e frescura; os olhos encovam-se e perdem o brilho; a testa fica sulcada de rugas precoses; o vigor gasta-se e extingue-se. A Sagrada Escritura chama a este vício "um fogo devorador" que consome o homem até a medula.

"Que fruto colhestes então das coisas de que hoje vos envergonhais? Porque o fim destas coisas é a morte ... Porque o salário do pecado é a morte."
 (Rom., VI, 21-23)

O vício da luxúria "é como a lepra que, nascida da carne, consome a carne. É um verme roedor, e de todos o mais pernicioso: entra em vós adulando; morde-vos sorrindo, e consome-vos, acariciando-vos; mata-vos, inebriando-vos" (São Bernardo)

"Virá um dia, ou antes uma noite, em que esta paixão se transformará num peso inflamado que acenderá nas vossas entranhas um fogo inextinguível e devorar-vos-á até a medula"
(São Pedro Damiano).

Enquanto conserva a pureza , o adolescente cresce como uma planta vigorosa, cheia de seiva, rica de promessas, exuberante de vida. Logo que o vício toma posse deste florescente arbusto, carcome-o, mina-o, marca-o com o estigma duma crepitude prematura.

Os olhos tão límpidos, tão francos, tão retos, quando refletem a virtude, embaciam-se, velam-se, obliquam-se, como que furtando-se a um olhar que os busca, como se estivessem cheios de imagens vergonhosas que procuram ocultar.

O rosto perdeu essa frescura que dá um sangue vigoroso e puro circulando à flor da pele, essa calma das feições confiantes que espalha sobre a fronte tanta serenidade e em toda a fisionomia tanta graça encantadora...

Os membros tornaram-se trêmulos, o andar incerto e mole, os gestos tímidos, como se o equilíbrio do organismo não pudesse retomar com firmeza a sua posição, em conseqüência das enervantes impressões que lhe infligiram...O coração recebeu terríveis choques, que deixam fendas, tornadas casa vez mais largas...

O cérebro é o que recebe primeiro e mais profundamente os golpes desagradáveis de toda a má ação: as sensações violentas destroem-no como raios; perturbam-no, agitam-no, fazem lhe perder o equilíbrio, enfraquecem-no, acarretam levemente a degenerescência...

A vida assim atingida na sua fonte, definha-se fatalmente, a um organismo, tão maltratado pelo vício, caminha mais rapidamente para a morte do que se tivesse sido preservado pela virtude.
(J. Guibert, a pureza, pág. 35 e seg.)

* Qual é a "terceira" desordem produzida no homem pela sensualidade?
É a perturbação do espírito.

Como acontece tal coisa?
Os prazeres sensíveis impedem o uso da razão de três maneiras: perturbam-na, obscurecem-na, paralisam-na. (São Tomás).

1º - Perturbam-na
A imaginação atormentada por fantasmas impuros, não sabe libertar-se, e arrasta o espírito por sendas vergonhosas.

"A criança sensual é melancólica e distraída; pouco trabalha, pouco se aplica. A alma materializa-se; confunde-se com os orgãos, gastando dessa forma toda a sua atividade física." (R.P.Lacordaire)

2º - Obscurecem-na
A sensualidade "é um fogo que devora; mas não inflama, defuma; não ilumina, cega"
(Pedro de Blois)

3º - Paralisam-na
O espírito, nas práticas vergonhosas da sensualidade "perde a sua energia, o seu vigor, a sua delicadeza e a sua graça; enervado por vis prazeres, merfulhado na lama dos sentidos, embota-se, entorpece-se, atola-se na preguiça e no topor."
(Mgr. Dupanloup)

* Qual é a "quarta" desordem produzida no homem pela sensualidade?
É corromper o coração.

Como acontece tal coisa?
- O vício grosseiro mata o coração daqueles que se lhe entregam. A bondade, a doçura, a amabilidade, a simplicidade, a sinceridade, que faziam o encanto da criança, deram lugar a um humor contristado, caprichoso, extravagante.

- As afeições boas e puras esgotam-se na sua fonte. O reconhecimento já não existe. A sensibilidade generosa e elevada desvaneceu-se
- Com efeito, o sensual é, necessariamente, um egoísta.

"A devassidão não passa dum medonho egoísmo que mata tudo o que há em nós de terno e de elevado." (Lacordaire)

Lacordaire (Na XXII conferência de Notre-Dame), confronta o coração do jovem vicioso com o coração do jovem puro. E diz:

"Um é egoísta, outro generoso; um vive de si, outro fora de si: entre estas duas tendências, uma deve prevalecer... Se a tendência depravada prevalece, o coração murcha pouco a pouco e já não sente as alegrias simples, não se dedica por ninguém, acaba por não pulsar senão para dar curso ao sangue e marcar as horas desse tempo vergonhoso, cuja fuga a devassidão precipita.

A alma do voluptuoso transforma-se toda em carne. As fontes do amor, da misericórdia, secam. O coração, que deu toda a sua vida aos sentidos, esteriliza-se e endurece; o egoísmo feroz penetra nele lentamente e assenta-se sobre o trono das afeições generosas. Os próprios sentimentos da natureza adormecem. Há frio, há trevas, há horrores nessa alma, ao passo que, em volta dela, quero dizer, na carne, tudo se ilumina e se inflama aos olhos da cobiça..."

- A sensualidade destrói a sinceridade, porque é vicioso é dissimulado.

Não se encontram, todavia, crianças sensuais que são dotadas de bom coração?
As crianças sensuais têm, algumas vezes, o ar de possuir um bom coração. Mas isso não passa, muitas vezes, duma vã aparência. Em todo o caso, a sua sensibilidade deve ser estudada: é preciso indagar a origem. Se vem do coração, é um recurso que pode salvar tudo... se vem dos sentidos - é este o caso mais vulgar - é falsa e perigosa.

Como nos devemos comportar com as crianças que são afetuosas apenas por sensualidade?
"É preciso usar de bondade com tais crianças, mas raras vezes de ternura, a não ser com muita gravidade. Só se lhes devem permitir, com uma extrena reserva, as manifestações sensíveis da sua débil ternura; é preciso dispensar-lhes compaixão, mas que esta seja firme e elevada."
(Mgr. Dupanloup)

* Qual a "quinta" desordem produzida no homem pela sensualidade?
É despedaçar a vontade ou, pelo menos, falseá-la.

"O infeliz, vítima do vício ímpuro, está imóvel, enlanguescido, indolente, sem ânimo, rebelde ao esforço; não caminha, arrasta-se; não age, deixa-se levar pelas necessidades do momento; já não é o homem de iniciativa, cinge-se unicamnete ao dever a que se não se pode furtar; e ainda nisso é muito negligente e só tem habilidade para encontrar pretextos de evitar um esforço."
(J. Guibert)

Como acontece tal coisa?
Três elementos dão a vontade a sua força:

- Um ideal que ambicione atingir;
- Um poder de atenção que retenha a imagem eficaz sempre presente ao pensamento;
- Reservas de energia que conservem o organismo sempre em estado se seguir fielmente os impulsos do ideal.

Ora, o homem vicioso destruiu ou gravemente alterou esses três elementos:

- O ideal é para ele um sonho infantil de que zomba.
- A atenção é monopolizada totalmente pelos cuidados dos prazeres.
- A energia já não encontra abrigo no seu organismo esgotado e no seu sistema nervoso fundamentalmente desequilibrado.


Que conclusões se impõem ao educador sério, depois do pequeno estudo que acabamos de fazer?
Ei-las:

- É preciso, a todo o custo, preservar as crianças do terrível flagelo da sensualidade e prendê-las à virtude oposta por todas as energias do seu ser físico e moral. Esta salvanguarda é um dos deveres mais graves da autoridade paternal e maternal.

A incúria e a leviandade seriam neste particular imperdoáveis; nem mesmo se poderiam conceber. E, para nos servirmos duma passagem da Sagrada Escritura, diremos que os pais devem velar pela inocência de seus filhos, como pela menina dos seus olhos.

- É preciso tentar o impossível, para arrancar do mal as crianças que se hajam tornado suas vítimas.

(Catecismo da Educação - Abade René Bethléem)

PS: Grifos meus
PS 2: Em breve: Os meios a empregar para salvaguardar as crianças.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A alma amante imola-se com Jesus



A alma amante imola-se com Jesus

Mortui sumus cum Christo (Rom., 6,8)
Mortos somos com Cristo.

... O Cristianismo ... é a religião por excelência do sacrifício. Tudo converge para o altar. Todos os benefícios descem da cruz. A Santa Igreja mesma com seus canais de graça, os sacramentos, nasce do Coração transpassado de Jesus.

Todas as cerimônias começam e terminam pela cruz, todas as consagrações, todas as bênçãos se fazem com o sinal da cruz, todas as grandes solenidades, quer religiosas, quer profanas, são marcadas com o sinal da cruz. E quanto mais se penetra nesse pórtico da Igreja, na sua vida íntima, na alma que a move, tanto mais se percebe o sacrifício.

Milhares de mártires fecundam-se com seu sangue em todas as partes do mundo, e esta imolação, que não cessou em nossos dias, abrange todas as idades e todas as condições.

Perseguições intermítentes, lutas internas, cismas, heresias, apostasias, conservam sempre aberta, no seio da Igreja, a chaga que lhe fizeram os tiranos dos primeiros séculos.... Não há ninguém no mundo que possa escapar à dor. O sofrimento, seja físico, ou moral, espreita todas as criaturas sem distinção. Deus quer, na sua justiça e misericórdiosa bondade, que todos, bons e maus, tenham sua parte na medida e proporção prevista por sua infinita sabedoria.

Sobre a cruz, o bom e o mau ladrão sofriam o mesmo suplício. Um representava a humanidade impenitente, descrente e proferindo blasfêmias; o outro, a humanidade reconquistada por Jesus e arrependida de suas faltas.

Mas Jesus quer continuar, de um modo particular nas almas que lhe pertencem, sua vida e sua paixão. Quanto mais a alma O ama, mais Jesus a ama e por sua vez, a atrai, identifica-Se com ela e manifesta nela Sua vida divina. Quanto mais a alma se abandona a Jesus e aceita o cálice do Mestre, tanto mais ela se deliciará com o desejo de sofrer ainda mais e de ser co-redentora.

Enfim, quanto mais veemente é esse desejo, mais também Jesus salva por elas as almas e lhe dá influência sobre a marcha da humanidade e sobre os acontecimentos da história.

O sacrifício, amorosamente aceito em união com Jesus Imolado, é a essência da vida espiritual de cada alma, como é o ponto central da Igreja, como é o resumo da vida de Jesus.

Se assim é, minha alma, podes recusar amar a cruz e entregar-te a Jesus?

Um dia, Santa Lutgarda pedia a Jesus que a deixasse morrer, para que ela pudesse unir-se-Lhe depressa no Céu. Apareceu-lhe, porém, Jesus coberto de chagas e sangue e disse-lhe: Lutgarda, ajuda-me, pois a salvar os pecadores.

Nós temos a eternidade para gozar de Deus, mas não temos senão alguns anos para sofrer e imolar-nos.

Não te assustes diante dessa perspectiva de uma vida de imolação. Ser vítima com Jesus não é positivamente estar sujeito a grandes tribulações ou suportar angústias extraordinárias. Não! é estar sempre pronto a aceitar, de Sua mão, o doce e o amargo, as coisas agradáveis como as penosas, a saúde como as moléstias, a consolação como as dores interiores.

Ser vítima, é prestar-se por amor a todas as exigências de Jesus: a colher, de antemão, não importa que gênero de sofrimentos, que espécie de tribulação interior ou vexames exteriores, que doença ou gênero de morte, e nem o momento.

Ser vítima, enfim, é imolar-se todos os dias, em mil circunstâncias, acontecimentos, contratempos, diversidades de temperamento ou de caracteres, diferenças de vistas ou de opiniões. É estar sempre contente com tudo, sempre meigo e paciente, sempre sorridente, por amor da Grande Vítima, que, enquanto A maltratavam, enquanto A imolavam, nem sequer abriu os lábios.

Toda alma amante pode e deve ser assim vítima de amor, prolongamento de Jesus e co-redentora.

Ó alma vítima! tua vida na sua simplicidade é sublime. Passaste inteiramente ao serviço de Jesus. Sem sofrer mais do que outros, és contantemente imolada pelo amor. Sem interrupção, celebras com o Sacerdote Eterno o Sacrifício do Calvário. Tua vida é uma Missa contínua e tua morte será o último golpe que imolará a vítima.

Então virá o triunfo. De teu túmulo brotará para milhares de pecadores a vida, a ressurreição, e tu mesma, purificada em teu próprio sacrifício, irás aumentar o número desses bem-aventurados que São João viu no Céu, revestidos de vestes brancas e trazendo palmas nas mãos (Apoc., 7,9)

(Excertos do livro: O Divino Amigo - Pe. Schrijvers)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Poesia de Santa Teresa de Jesus



(Para una profesion)

Todos los que militáis
Debajo desta bandera,
Ya no durmáis, ya no durmáis,
Pues que no hay paz en la tierra.


Si como capitán fuerte
Quiso nuestro Dios morir,
Comencémosle a seguir
Pues que le dimos la muerte,
Oh qué venturosa suerte
Se le siguió desta guerra;
Ya no durmáis, ya no durmáis,
Pues Dios falta de la tierra.


Con grande contentamiento
Se ofrece a morir en cruz,
Por darnos a todos luz
Con su grande sufrimiento.
¡Oh, glorioso vencimiento!
¡Oh, dichosa aquestra guerra!
Ya no durmáis, ya no durmáis,
Pues Dios falta de la tierra.


No haya ningún cobarde,
Aventuremos la vida,
Pues no hay quien mejor la guarde
Que el que la da por perdida.
Pues Jesús es nuestra guía,
Y el premio de aquesta guerra;
Ya no durmáis, ya no durmáis,
Porque no hay paz en la tierra.


Ofrezcámonos de veras
A morir por Cristo todas
Y en las celestiales bodas,
Estaremos placenteras;
Sigamos estas banderas,
Pues Cristo va en delatera,
No hay que temer, no durmáis,
Pues que no hay paz en la tierra.

(Retirada das Obras Completas de Sta.Teresa de Jesus)
PS: Ver também: O diálogo das carmelitas (vídeo)

A nobreza da alma



A nobreza da alma

Esta nobreza não passará, talvez de uma qualidade meramente humana, nada tendo de virtude, porquanto entre um dom natural e uma virtude sobrenatural, não há somente uma diferença de nível, mas distinçao essencial.

Todavia esta nobreza, será para a alma uma preparação (remota ou negativa) á virtude. Ela nos impedirá de ir dar nos parceis do descaramento.

De que modo?

O que é plebeu está exposto a seguir a chateza, seja qual for, por exemplo: a do vício. Nós não fomos criados como comportas estanques... Estudastes as leis da transmissão dos sons e vibrações moleculares. Dá-se o mesmo com o coração humano: o menor ruído tende propagar-se e os movimentos ondulatórios alcançam, pouco a pouco, todo o conjunto.

Destarte a vulgaridade, necessariamente, tende difundir-se. E vice-versa, também a nobreza é difusiva, e todo aquele que a conserva, será levado a cultivá-la, sob todas as formas, inclusive a da virtude.

... Assim o jovem, habituado a olhar para as coisas nobres e elevadas, será menos tentado a baixá-los para as torpezas do vício. Poderá enganar-se, mas serão seus passos dados, em falso, pelas elevações ou por largas estradas, nunca, porém, serão quedas nos pantanos do pecado.

Acostumou-se a esta vida de grandes e ao proceder cavalheiroso.
Tomou a divisa de Santo Inácio: "Insignis", sê insigne!

Numa palavra, compreendeu que a vida, sem a virtude, é falha, mutilada, maneta, que o homem não é, está claro, um puro espírito mas que tem afinal um espírito nobre e não é uma simples coleção de vísceras reunidas numa caixa toráxica, ou num abdomem cheio!

Nada tanto se opõe ao ideal como a impureza.
O ideal é a tendência para o alto.
O vício é a tendência para o baixo, é sempre rasteiro.
O primeiro é o cume.
O segundo, o atoleiro.

"A vida está em subir e não em descer".

O vício, já o definimos tantas vezes, primeiro é uma grande chateza, depois grande laxidão. E nada mais é.
O ideal se extingue com a impudicícia, tal qual um facho atirado á lama. Há duas espécies de chamas que correspondem a duas espécies de jovens: os puros... e os outros!

A chama dos segundos é a chama baixa e fumegante das concupiscências; só se alimenta de matérias pútridas. A chama dos primeiros é brilhante e elevada, tão alta que se ateia até as estrelas.

Somente o puro é entusiasta, e a virgindade secunda, admiravelmente, os impulsos do belo e do bem.

... Procura ter um coração magnânimo e elevado e não um pobre e mesquinho coração, todo encarquilhado pelo egoísmo e pela vulgaridade. Torna-te, no melhor sentido da expressão, uma "alma-princesa". Não queiras avilanar-te com o vulgacho, já que podes viver com a aristocracia dos sentimentos generosos e da virtude.

São Paulo disse nobremente:

"Procurai as coisas do alto; amai as coisas do alto e não as coisas da terra".
(Cor 3,2).

Sê nobre: nobre nos teus gostos, nas tuas leituras, nas tuas fadigas intelectuais, nos teus misteres de arte, na escolha dos teus amigos, e digo mais, até no teu falar, no trajar, nos ornatos do quarto, pois o homem depende muito do ambiente em que vive.

Tu estás na idade em que é forçoso tomar partido e concretizar o teu modo de vida. Alguns concretizam-na em coisas vis. Tu deves orientá-la para o que é belo e nobre, para o Nobre soberano, que é Deus.

Não receies ter um ideal demasiado elevado.
Meu Deus! e tal há de ser necessariamente para que possa elevar-se esta pesada matéria humana!

Não vás também cuidar que o ideal seja uma palavra vã, uma bela fantasia de poeta, que esquece o mundo real para voar pelas regiões etéreas, de modo que, em vez de pés, se sirva de asas.

Atento: o ideal é mais verdadeiro do que a realidade, pois é a realidade desembaraçada de tudo o que a avilta. É o ser sem as deficiências do ser, o ser inteiramente belo, porque é todo completo.

O Pe. Antonino Eymieu explica admiravelmente este aparente paradoxo:

"O ideal é essencialmente verdadeiro. Não apresenta contradição alguma: tomastes todos os seus elementos de realidade, combinastê-los, respeitando todas as relações essenciais, todas as leis, suprimindo tudo quanto poderia alterá-los e dando-lhes o que poderia engrandecê-los. e quando vos encontrares ante um ser, de carne e osso, que se aproxima desse ideal, embora não possa igualá-lo, exclamais: 'Eis um homem! aquele, sim, é verdadeiramente um homem'!

Os outros também , os que realizam uma idéia específica, são homens, mas tendes razão ao dizerdes que, aquele que se aproxima do ideal, é um homem mais verdadeiro. Assim é que há: um ideal do jovem, da donzela, do pai de família, da mãe, do magistrado, do político, do general, etc.; e mais o seres concretos se aproximam desse ideal, mais são verdadeiros magistrados, verdadeiros pais, etc., pela simplícissima razão que, a verdade de um ser está na sua mais perfeita conformidade com o seu modelo.

O ideal não é simplesmente a verdade, mas é a verdade na sua plenitude, a verdade-limite para o qual tende um ser, em seu completo desenvolvimento".

(A Grande Guerra - Pe. Hoornaert)
PS: Grifos meus

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Vida reta e não belas palavras



Vida reta e não belas palavras

Alexandre Magno tinha um soldado covarde que, por acaso, também se chamava Alexandre. O imperador o chamou e lhe disse: "Amigo, ou mudas de conduta ou mudas de nome". O mesmo se poderia dizer de muitos jovens que se dizem cristãos, mas que, por suas vidas, conduta e leviandade, envergonham o nome de "cristão".

Que vale uma fé a que não corresponde uma vida condigna? Terá valor gabar-se alguém do seu cristianismo, se seu modo de pensar, suas palavras, atos, sua vida enfim, desmentem a religião cristã?

Belas palavras, mas vida indigna! De que valem então as belas frases? Neste particular tem a sociedade muito a pesar-lhe na consciência.

... Muitos jovens, infelizmente, não chegam a tanto (vida reta por conhecer a religião). Por isso há tão grande número deles com fraca vontade e fé escassa; esqueceram de tirar, do estudo da religião, desprendimentos, vida de sacrifício, vida religiosa.

Além disso, o nome "cristão" está ligado a sérias obrigações. Obriga-nos a uma vida sobrenatural, a que a alma aspire a coisas mais elevadas. "Sede santos, pois eu sou santo!" (Lev. 11,44) ordena o Senhor. "Sede perfeitos, como vosso Pai no céu é perfeito" (Mat. 5,48), diz o Salvador.

Atenção, meu filho, não comprometas o cristianismo! Não envergonhes a Jesus Cristo; não desonre tua alma! Muita gente é hoje de tal modo absorvida pelos cuidados cotidianos que não tem tempo para mais nada. Também para sua alma falta o tempo. Pobre alma que é como um inseto preso ao visgo; assim ela está presa aos interesses terrenos, ao dinheiro, ao passo que Deus quisera tivesse ela o vôo altaneiro duma águia!

Que escolhes?

A serviço de quem queres colocar tua força juvenil e animosa?
... De um lado está todo o mundo, o material, os homens sem Deus, mirando fins que a Igreja deve condenar, ou que querem gozar tudo o que uma super-civilização lhes oferece. Aí estão os homens do industrialismo insaciável, que operam com as forças brutais da economia, como se os atingidos por elas não fossem homens.

Há porém igualmente, uma multidão de instintos vandálicos, que se inebria com frases demagógicas, pois quer inverter toda a ordem do universo. No outro campo se reunem...os defensores do trabalho espiritual... o símbolo da Cruz.

Lá, contra Deus; aqui com Deus.
A que partido te filias?
Que pergunta!Não é?

"Com Deus! Com a Cruz! Com o catolicismo!"

Hoje, infelizmente, há muitos "batizados" apenas, mas pouco cristãmente católicos, isto é, que não levam vida realmente religiosa.

... Meu ideal é um jovem que, no caminho da vida, olha sempre as estrelas, sem contudo cair no valado; um jovem que sabe que toda cultura exige primeiro a cultura da alma. Meu ideal é o adulto em cuja vida a religião não é apenas um sentimento de domingo um acontecimento espiritual, um quadro sem moldura, um termo de festa, e sim a mais profunda potência que sustenta toda a sua vida, a embebe e a norteia.

Não é verdade, meu filho, quando fores adulto, também serás um homem que ama sua religião, observa seus mandamentos e é um católico consciente?

E se topasses com a incompreensão ao redor de ti?
E se, em teu círculo, não encontrasses um único exemplo de religião que te transmitisse tua convicção religiosa?

Ainda assim!
Sozinho? Não! Deus e eu, isso representa o maior poder. E se minha religião for atacada, defende-la-ei tanto mais animosamente!

Senhor, quero ser a cítara, que haveis de tanger!
Senhor, quero ser o fogo, e Vosso amor  arderá em mim!
Senhor, quero ser o vaso de cristal, que Vossa graça replene!
Senhor, quero ser o espelho, que retrate a Vossa beleza!
Senhor, quero ser o roble, sustentado pelo Vosso vigor!
Senhor, quero ser o oceano, cheio de Vossa imensidade!

Quando um sorriso de alegria expandir meu rosto, meus lábios exultantes falarão de Vós; se a dor inundar de lágrimas os meus olhos, cada gota há de cair em vossas mãos!

Permiti, Senhor, que eu seja sempre e em tudo um Vosso filho puro, obediente e feliz!
Dai, Senhor, que eu aprenda, viva e pratique a verdadeira Religião em minha juventude!

(A Religião e a Juventude - Mons.Tihamér Tóth)
PS: Grifos meus

sábado, 2 de janeiro de 2010

Terceira Ferida – Dores de Nossa Senhora



Terceira Ferida – Perda e o reencontro do Menino Jesus

Os três dias de ausência do Divino Menino foram a terceira ferida de Maria. Um dos gumes da Espada feriu a alma de Jesus, quando Ele se escondia de Sua Mãe e de Seu pai adotivo para Lhes lembrar, como Ele disse, que se devia ocupar das coisas de Seu Pai.

Mas se é certo que o Céu também pode jogar às escondidas, o outro gume da espada era, para Maria, a dor de ter perdido Seu Filho e procura-lo. Era Seu – e por isso que Ela O procurava. Ele ocupava-Se da Redenção, e é por isso que Ele A deixava, e ia ao Templo. Não ia nisso apenas uma perda física, mas também uma provação espiritual.

Ficou o Menino Jesus em Jerusalém sem que Seus Pais O advertissem (São Lucas 2,43)

Nosso Senhor disse: Para que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai? E eles não entenderam o que lhes disse” (São Lucas 2, 49-50).

Mas tarde um outro período de três dias se devia registrar, durante o qual o Corpo de Jesus repousaria num túmulo. Esta primeira perda era um prelúdio da segunda, como que a sombra dos três anos de separação que foram a Sua vida pública – em relação à Virgem.

Alguma coisa era agora oculta a Maria, no sentido de que a não compreendia. Não se tratava de uma simples ignorância negativa, mas de uma privação, um propósito deliberado de Seu Filho em Lhe ocultar a plenitude dos Seus desejos. No Egito, teve Ela “a sombria noite” do corpo; era preciso que tivesse a “sombria noite” da alma, em Jerusalém. A noite espiritual e a desolação da alma andaram sempre juntas nas provações enviadas por Deus aos místicos.

A princípio, é o Seu corpo e o Seu sangue que são ocultos a Maria; agora é a Luz e a Verdade. Se a segunda ferida faz d’Ela a companheira de todos os refugiados errando pelas entradas do Mundo, esta terceira ferida iria levantá-La À companhia dos santos. A sombra da Cruz começava a projetar-se na Sua alma! Não é apenas o Seu Corpo virginal que devia pagar caro o privilégio da Sua Imaculada Conceição; também a Sua alma sofreria para vir a ser a “Sede da Sabedoria”.

A espada de dois gumes atinge as duas almas, no doce bater de um mesmo ritmo. Certo dia, no Gólgota, chamando Cristo a Si os pecados dos homens, sentirá o pessimismo do ateu, o desespero do pecador, a solidão do egoísta, e reunirá todas as dores do isolamento, num grande grito: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Também Maria deve experimentar essa solidão e abandono – não apenas na perda física de Cristo, mas ainda na obnubilação de todas as consolações.

Assim como, na Cruz, Ele privará a Sua natureza humana de toda a alegria que Lhe podia vir da Sua divindade, assim também privará Sua Mãe de todas as alegrias relativas às coisas de Seu Pai. Se o gume da espada, reservado a Cristo, era o abandono, o d’Ela era a noite.

Diz o Evangelho que caiu a noite sobre a Terra, quando Ele, na Cruz, ergueu às alturas o Seu grito supremo; agora, é a noite que invade o espírito de Maria, porque o Seu Próprio Filho quis esse eclipse do Sol.

É quase uma pergunta que Ele Lhe faz, ao dizer-Lhe: “Por que me buscáveis?” (São Lucas, 2,49). Suspenso, mais tarde, na Cruz, entre a Terra e o Céu, devia Jesus sentir-Se abandonado por Deus e repelido pelos homens. Assim, Maria, por uma só palavra da Divina Espada, é abandonada por Aquele que é, ao mesmo tempo, Deus e Homem.

A sombria noite dos santos não é igual à noite dos pecadores. Nos primeiros, não há luz, mas há amor. É muito provável que essa noite mística, que a espada fazia então entrar na alma de Maria, desse lugar, n’Ela, a atos de tal modo heróicos de amor que eles A elevaram a novos tabores, nunca anteriormente entrevistos.

Pode a luz ser, por vezes, tão brilhante que nos cegue. A incompreensão de Maria, ouvindo a palavra de Jesus, era menos devida a uma falta de clareza do que a um excesso de luz.

A razão humana, chegada a certo ponto, nem sempre pode descrever o que se passa no coração. O próprio amor humano, nos seus mais altos momentos de êxtase, não se pode exprimir com palavras. A razão pode compreender palavras, mas não o Verbo.

Ora, diz-nos o Evangelho que aquilo que Maria não compreendia era o que dizia o Verbo. Como é difícil de compreender a palavra, quando ela se divide em palavras! Maria não compreendia porque é que o Verbo A elevava acima do abismo da razão e A arrastava por sobre esse outro abismo incomensurável que é o Espírito de Deus.

A uma tal distância, a Sabedoria Divina, na sua expressão humana, pode dizer o Seu segredo, do mesmo modo que São Paulo não podia contar a sua visão do terceiro Céu. As palavras eram incapazes de exprimir inteiramente, por si, a significação do Verbo.

Para provar que essa noite não era de ignorância, acrescenta o Evangelho:

“E Sua Mãe conservava todas estas coisas no Seu coração” (São Lucas, 2, 51).

A Sua alma guardaria a Palavra, e o Seu coração as palavras. Ele que, por Suas palavras, parecia renegá-La, une-A, agora, a Si Próprio, não apenas por ter depositado o mel da Sua mensagem na colméia do Coração d’Ela, mas também porque volta a Nazaré com Ela, submetendo-se-Lhe.

Cristo não se serve de instrumentos humanos, como Simeão ou Herodes, para brandir a Espada Divina sobre Sua Mãe. Aos doze anos, tem força bastante para a utilizar Ele mesmo. Nessa dor, ambas as Naturezas d’Ele se fixam sobre Ela para fazer d’Ela a co-Redentora: a Sua natureza humana na perda física, a Sua natureza divina na noite sombria da alma.

Na Anunciação, Ela perguntara ao Anjo: Como pode isso ser, se não conheço varão?” Hoje, dirige-Se ao Próprio Homem-Deus, chamando-Lhe “Filho” e pedindo-Lhe que Se explique, que justifique o que fez. Maria tem consciência de ser Mãe de Deus. Onde quer que haja santidade há familiaridade com Deus. E essa familiaridade é maior ainda na dor do que na alegria.

Certos, santos, favorecidos com revelações de Nosso Senhor, declaravam que essa dor de Maria custou a Jesus extraordinários sofrimentos. Ali, como sempre, trespassou Ele, o Seu Próprio coração, antes de trespassar o de Sua Mãe, como o propósito de ser o primeiro a conhecer essa provação. A dor, que mais tarde iria sofrer, de abandonar Sua Mãe, depois das três horas de agonia na Cruz, era então antecipada por esses três dias de separação.

Aqueles que pecam sem fé não podem sentir a angústia dos que pecam com fé. Possuir a Deus, ocultar-Se daqueles que estavam no propósito de jamais abandona-Lo, tal foi a ferida de Jesus, causada pela mesma espada. Ambos sentiram os efeitos do pecado, de maneira diferente, mas em igual noite de alma: ela por O ter perdido; Ele por se ter perdido. Se a dor de Maria foi um inferno, a agonia de Lha infligir era a dor de Jesus.

A Santíssima Virgem tornou-se o Refúgio dos pecadores por ter aprendido o que é perder Deus e tornar a encontrá-Lo. Cristo tornou-se o Redentor dos pecadores por ter conhecido a malícia, a vontade deliberada daqueles que ferem os seres a quem amam! Sentiu o que pode sentir a criatura, ao perder a criatura. Maria perdeu Jesus na noite mística da alma, e não na noite moral de um mau coração. A Sua perda era a ocultação da face d’Ele.

Ela não Lhe fugia. Mas mostra-nos Ela que, quando perdemos a Deus, não devemos limitar-nos a esperar que Ele volte. Devemos ir procura-Lo, e é Ela que, para alegria da nossa alma, sabe onde O podemos encontrar!

(O Primeiro amor do Mundo – Arcebispo Fulton J.Sheen)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Alma ou corpo? (Eduque o seu filho de forma cristã)



Antes de tudo, leitora e mãe, é teu filho uma alma. Hoje acentua-se demais o corpo e se deixa esquecida a alma da criança. Os pedagogos escandalizam-se com descuidos que prejudicam a saúde e o desenvolvimento do corpo. E bem pouco se impressionam com os erros que prejudicam os interesses e os destinos da alma. Paganismo moderno, leitora!

A pedagogia que vai da alma ao corpo, do espiritual para o material, do pensamento para o prazer, é também uma pedagogia que traz vantagens aos interesses do corpo. A mulherzinha do povo que segue a pedagogia da alma é uma educadora, ao passo que o mestre que segue a do corpo jamais será um educador. É apenas um cunhador de moedas falsas. Para respeitar esta ordem mais se necessita de coragem do que de ciência.

Por isso, leitora, convence teu filho do seguinte: Um esforço intelectual, a descoberta de uma verdade, um ato de vontade, o domínio de um apetite, valem todos os facéis prazeres do corpo. Porque? Porque o menor progresso da alma é infinitamente superior aos mais vastos proveitos materiais.

Essa alma, mais nobre do que o corpo, está vivificada por uma vida sobrenatural. Teu filho é também, pelo batismo, filho de Deus. De ti recebeu a vida do corpo. Dele recebeu a vida divina da graça. Há, portanto, em teu filho duas vidas, distintas nas suas qualidades, mas tão unidas que a primeira (recebida de ti) sem a segunda (vinda de Deus) não passa de uma grande nódoa, de uma grande chaga, perdendo-se no abismo de condenação.

... Digna de todo o respeito torna-se a criança que, com a graça do batismo, é herdeira divina. Teu filho não nasceu ainda, leitora, e já deves preparar-lhe esta vida. Durante os nove meses de vida comum, que poderosa irradiação propaga no corpo e na alma da criança a presença eucarística de Jesus Cristo no coração da mãe, que é piedosa na assiduídade à Comunhão!

... A graça há de existir e também crescer na alma do teus. Ela não pode ser unicamente objeto de um culto. Há de reinar sobre as paixões e impor-lhes ordem e harmonia. Como na orquestra cada instrumento concorre para o colorido da sinfonia, assim, sob a regência da graça, os impulsos da natureza hão de se unir e ordenar harmoniosamente. Mônica, a santa progenitora de Agostinho, acreditava que quase nada diria o nome de mãe, se não desse aos filhos, juntamente com a mísera vida do tempo, a vida infinitamente bela e preciosa da eternidade.

Por causa desse parto sofria dores mais vivas e longas do que pelo primeiro, com o qual pôs no mundo uma vida mortal. Aludindo a isto, afirmava Agostinho ser ele "o filho de torrentes de lágrimas".

Não podem acertar na educação de um cristão os pais que não sabem preferir para os filhos a vida sobrenatural à vida natural. Só educa que, sabe respeitar a escala de valores nas várias culturas. Se os hábitos adquiridos não elevam o espírito; se a inteligência e a vontade não reinam sobre os apetites; se as faculdades espirituais não são governadas pela graça - a educação é mutilada. Tão gravemente é tal, que, provavelmente, a vida será um fracasso.

O futuro de uma criança é coisa viva, animada, ameaçada por mil quedas e que, sobretudo, depende da altura da alma. Antes de tomar uma resolução, leitora e mãe, antes de regular os hábitos mais caseiros, perguntarás a ti mesma:

"Tendes minha palavra, meu ato, a respeitar a hierárquia dos valores? A formação que vou dando aos meus, neste ou naquele caso, prefere os bens do espírito aos bens do corpo, os sonbrenaturais aos bens do espírito, a verdade infinita aos reflexos dela, Deus às criaturas?"

Exercitarás teu filho não somente a sentir, mas a bem sentir; não somente a pensar, mas a bem pensar; não somente a pensar acertadamente, mas também a julgar acertadamente, não tomando as criaturas pelo que não são. Toda idolatria é um erro de juízo prático sobre o valor dos seres. Sobretudo ensinarás os teus a analisar tudo sob clarões da fé e da eternidade, sob a aprovação ou reprovação de Deus.

Finalmente, depois de ensiná-los a sentir, pensar, julgar com acerto, trabalharás para que amem acertadamente, dominando as paixões pelo amor a Deus e ao próximo.

Assim sendo, a criança é um meio de santificação para a mãe. Pois é impossível apontar e dirigir para o ideal, sem com o tempo a mãe tornar-se uma apaixonada pelo ideal. O guia dos Alpes sobe cada vez mais, à medida que faz subir os guiados...

(Excertos do livro: As três chamas do lar - Pe. Geraldo Pires de Sousa)
PS: Grifos meus

El Modelo de Nazaret (Pio XII e a família)


El Modelo de Nazaret (Pio XII e a família)
10 de Abril de 1940

Al acogeros junto a Nos, queridos recién casados, ¿cómo podría nuestro pensamiento no dirigirse hacia San José, castísimo esposo de la Virgen María, patrono de la Iglesia universal, cuya solemnidad celebra hoy la sagrada liturgia?

Si todos los cristianos tienen motivo para confiar en la protección de este glorioso patriarca, vosotros tenéis ciertamente un título especial para tal gracia.

Todos los cristianos son hijos de la Iglesia. Esta santa y dulcísima Madre, da a las almas, con el Bautismo, aquella misteriosa participación en la naturaleza divina, que se llama la gracia, y después de haberlos de este modo engendrado a la vida sobrenatural, no les abandona, sino que les procura, mediante los sacramentos, el alimento que mantendrá y desarrollará su vida.

Así se la puede comparar con María, Nuestra Señora, de la cual tomó el Verbo la naturaleza humana, y que luego sostuvo y alimentó la vida de éste con sus cuidados maternos.

Ahora bien, en cada uno de los hijos de la Iglesia debe estar formado Cristo, y todos deben tender a crecer “in virum perfectum, in mensuram ætatis plenitudinis Christi”, hasta ser hombres perfectos, a la medida de la edad plena de Cristo.

Mas ¿quién velará sobre esta Madre y sobre este Jesús? Ya lo habéis comprendido; aquel que hace veinte siglos fue llamado a ser el Esposo de María, el Padre legal de Jesús, el Jefe de la Sagrada Familia.

¡Y qué solicitud puso en cumplir una misión tan sublime!

Bien quisiéramos saber sus más menudas circunstancias; pero este predilecto de la confianza divina, que debía servir como de velo al doble misterio de la Encarnación del Verbo y de la Maternidad virginal de María, parece quedar en su vida terrena como envuelto en una sombra.

Sin embargo, los raros y breves pasajes en los que el Evangelio habla de él, bastan para mostrar qué cabeza de familia fue San José, qué modelo y qué patrono especial es, por lo tanto, para vosotros, jóvenes esposos.

Custodio fidelísimo del precioso depósito confiado a él por Dios, María y su Divino Hijo, él velaba, ante todo, sobre, su vida material. Cuando, para obedecer al edicto de Augusto, partió para hacerse inscribir sobre el registro del censo en la ciudad de David llamada Belén, no quiso dejar sola en Nazaret a su esposa Virgen, a punto de ser madre de Dios.

A falta de más particularidades en los textos evangélicos, las almas piadosas gustan de imaginarse más íntimamente los cuidados que entonces le prodigó a Ella y después al Niño recién nacido. Le ven levantar la pesada puerta del albergue ya lleno; dirigirse después en vano a parientes y amigos; y en fin, rechazado de todos, esforzarse por poner al menos un poco de orden y de limpieza en la cueva. Ya lo tenemos sosteniendo entre sus manos viriles las manecitas, temblorosas de frío, del pequeño Jesús, para calentarlo.

Un poco más tarde, habiendo oído del ángel que su tesoro estaba amenazado, “tomó de noche al Niño y a su Madre”, y por arenosos caminos, apartando del sendero zarzas y peñascos, los condujo a Egipto. Allí trabajó duramente para alimentarlos.

Siguiendo una nueva orden del cielo, probablemente dos años después, los volvió a conducir, a costa de las mismas fatigas, a Galilea, a la ciudad de Nazaret. Aquí enseñaba a Jesús, divino aprendiz, el manejo de la sierra y el cepillo, salía al trabajo fuera del techo familiar y volvía a él por la tarde para ver de nuevo a los dos seres queridos que le esperaban en el umbral con una sonrisa, y con los cuales se sentaba en torno a la pequeña mesa para la frugal comida.

Asegurar a la esposa y a los hijos el pan cotidiano, es el cuidado más urgente del padre de familia. ¡Oh, qué tristeza ver perecer a aquellos a quienes se ama, por que no hay nada en la alacena, nada en el bolsillo!

Pero la Providencia que condujo de la mano al antiguo José cuando, entregado y vendido por sus hermanos, fue primero esclavo para venir a ser luego el superintendente y señor de toda la tierra de Egipto y nutricio de su familia; la Providencia que guió al segundo José en aquel mismo país a donde llegó privado de todo, sin conocer ni los habitantes, ni las costumbres, ni la lengua, y de donde, no obstante todo esto, retornó sano y salvo con María, siempre activa, y Jesús que crecía en sabiduría, en edad y en gracia; la Providencia, ¿no tendrá hoy la misma compasiva bondad, el mismo ilimitado poder?

Ah, tememos muchas veces que los hombres olviden las palabras de Nuestro Señor en el Evangelio: “Buscad en primer lugar el reino de Dios y su justicia, y todo lo demás se os dará por añadidura”, dad a Dios animosa y lealmente lo que Él tiene derecho a esperar de vosotros: todo el esfuerzo personal posible, la obediencia que se le debe como a Señor supremo, la confianza hacia Él como hacia el mejor de los padres. Entonces podréis contar con lo que esperáis de Él, y que Él prometió cuando dijo: “mirad los pájaros del cielo, mirad los lirios del campo; y no tengáis cuidado por el día de mañana”.

Saber pedir a Dios lo que se necesita, es el secreto de la oración y de su poder, y es también una enseñanza que os da San José. El Evangelio, es verdad, no nos dice expresamente cuáles eran las plegarias que se hacían en la casa de Nazaret.

Pero la fidelidad de la Sagrada Familia a la observancia de las prácticas religiosas, nos ha sido explícitamente atestiguada, aunque no había ninguna necesidad de ello, cuando por ejemplo San Lucas nos cuenta que Jesús iba con María y José al templo de Jerusalén por la Pascua, según la costumbre de aquella fiesta.

Es, pues, fácil y dulce representarnos esta Sagrada Familia en Nazaret, a la hora de la acostumbrada oración. En el alba dorada o el violáceo crepúsculo de Palestina, sobre la pequeña terraza de su casita blanca, vueltos hacia Jerusalén, Jesús, María y José, están de rodillas; José, como cabeza de familia, recita la oración; pero es Jesús quien la inspira, y María une su dulce voz a la grave del santo patriarca.

¡Futuros cabezas de familia! Meditad e imitad este ejemplo, que muchos hombres de hoy olvidan. En el recurso confiado a Dios encontraréis no solamente las bendiciones sobrenaturales, sino la mejor seguridad de aquel “pan cotidiano”, tan ansiosamente, tan laboriosamente, y a veces tan vanamente buscado.

Como delegados y representantes del Padre que está en los Cielos y “de quien toda familia en el cielo y en la tierra toma nombre”, pedidle que, como os ha dado algo de su ternura, os dé también algo de su poder, para llevar el grato, pero muchas veces grave peso de los cuidados familiares.

(Retirado do blog: Signum Magnum)