terça-feira, 15 de janeiro de 2013

6. - Desconfiança e desesperação

 Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950 

A desconfiança é a perda parcial da esperança e a desesperação é a perda total da esperança.
Tenho a convicção de que devo ganhar o Céu e evitar o inferno, cuidar da salvação da minha alma, mas a virtude é muito difícil de alcançar porque as minhas paixões são muito fortes e os obstáculos são muitos e insuperáveis e Deus é multo severo. 

I - Origem da desconfiança e da desesperação

A nossa inclinação para a desconfiança, para o, desespero, vem de três causas:

1. º Do pecado original. - Da mesma maneira que depois da prevaricação de Adão, o animal receou aproximar-se do homem, assim também o homem receou aproximar-se de Deus. Adão vendo ao longe o Senhor escondeu-se.
2. ° Dos pecados atuais. - Depois da nossa degradação original vêm as nossas inumeráveis faltas atuais. Ora esta incessante culpabilidade, incessantemente nos perturba, desconcerta e nos faz duvidar das misericórdias do Senhor.
3. ° Do demônio. – Enfim, o demônio vem também inquietar-nos e não admira porque ele é o pai do desespero.
A história das almas é a de uma perpétua agitação causada pelas apreensões sobre Deus, sobre a nossa vida passada, presente e futura.

II- Estragos da desconfiança e da desesperação

A desconfiança e a desesperação privam-nos de dois estimulantes que nos fazem caminhar:

- A graça de Deus e o esforço da vontade. Uma alma desconfiada, abatida, desesperada, é uma alma que não ora ou ora mal, e que por consequência, se priva dos socorros divinos; é uma alma incapaz do mínimo esforço. Qual não seria o nosso ardor em empregar todos os meios para alcançar perdão dos nossos pecados se tivéssemos a esperança do perdão; qual não seria o nosso ardor contra as paixões, se tivéssemos a esperança de as vencer; qual não seria o nosso ardor pela prática da virtude, se tivéssemos a esperança de adquiri-la; qual não seria o nosso ardor para nos aproximarmos de Deus, se tivéssemos a esperança de ser bem acolhidos! Mas privados da confiança somos privados, da vida, somos homens feitos cadáveres.
O desespero referente às coisas da salvação é pecado grave, quando não deixa confiança nenhuma na bondade e na misericórdia de Deus. Este pecado é a causa da ruína de muitas almas. Os desesperados contando só com a justiça divina, julgam-se irremediavelmente perdidos e repetem como Caim: - O meu pecado é demasiado grande para que possa ser perdoado. (Genes. IV, 13).

           III- Meios de evitar a desconfiança e a desesperação

Merecemos esta amarga censura de Jesus Cristo: «O homens de pouca fé, porque duvidais!»
Temamos tudo do pecado e esperemos tudo de Deus. Esta regra é absolutamente prática: 1.º Manda-nos fugir de todo o pecado voluntário; 2. ° Dá tranquilidade ao nosso espírito e ao nosso coração. Ao nosso espírito: Que coisa mais razoável do que falar assim a Deus: Meu Deus, já que só quero esperar em Vós, eu quero também evitar tudo o que Vos desagradar.
- Ao nosso coração: «Esperemos tudo do Senhor, mas não Lhe desagrademos.» Há nestas palavras, uma mistura de respeito, de prudência, de delicadeza e de amor, diz Desurmont, que satisfaz a alma. Então a alma satisfeita e alegre pode exclamar: viva a minha esperança pois que tem por garantia a inocência! viva a minha inocência, porque tem por tesouro a esperança!
Antes do pecado devemos sempre temer a justiça de Deus, depois do pecado devemos confiar na Sua misericórdia. Deus nunca despreza um coração contrito e humilhado.

           VI- Formação da esperança nas almas

Devemos tornar, esta virtude bem sólida nos seus fundamentos e fecunda nos seus resultados. Para a tornar sólida nos seus fundamentos é necessário meditar, a miúdo, sobre os motivos em que se funda: no poder de Deus, na Sua bondade e nas magníficas promessas que nos faz.
- Para tornar a nossa esperança fecunda devemos trabalhar com Deus na obra da nossa santificação. «Pela graça de Deus, diz o Apóstolo São Paulo, é que sou o que sou, mas a sua graça não tem sido vã em mim, antes tenho trabalhado mais copiosamente que todos eles, não eu, contudo, mas a graça de Deus comigo».
Não há dúvida de que na obra da santificação, tudo depende de Deus; mas é preciso trabalhar como se tudo dependesse somente de nós. É que de fato diz Tanquerey, Deus não nos recusa jamais as Suas graças, e, por consequência, na prática, não temos que nos preocupar senão do nosso esforço pessoal.

Reflexões e resoluções. - Agora, com os olhos da minha alma fixos em Jesus Crucificado, faço reflexões sobre a virtude da esperança cristã e tomo as resoluções de esperar sempre em Deus, ainda mesmo que Ele me guie por vias que para mim sejam incompreensíveis e dolorosas, e de evitar a falsa confiança, a presunção, a desconfiança e desesperação. Maria Santíssima, minha boa Mãe, ajudai-me a ser fiel a estas resoluções. Assim seja. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

El deseo de la unión plena con Dios/ Su invitación viene al alma desde dentro de sí misma

Robert de Langeac
La vida oculta en Dios

Podemos pedir la unión profunda con Dios, pero con una condición: la de que sea oculta. Conviene que aspiremos a ella. En la unión con Dios hay varios grados, varias etapas por recorrer. Pero hay que subir siempre. Podemos crecer constantemente en esta intimidad. Los teólogos, aun los más severos, dicen que un alma que ha recibido ya algunos valores místicos puede desear su continuación.

¡Qué puede haber más perfecto que esta unión, puesto que la perfección consiste en que cada cual vuelva a su principio para encontrar en él su acabamiento! ¡Qué puede haber más profundo, puesto que todo sucede en lo más intimo del alma en ese santuario interior en donde habita Dios! ¡Qué puede haber más puro, puesto que esa unión supone la armonía, el alejamiento de todo cuanto difiere de quien es la santidad misma y puesto que se realiza entre dos espíritus! ¡Qué puede haber más precioso, puesto que por ella Dios se da al alma con todos sus tesoros!

¿Dónde hallar, pues, más luz, más calor, más energía, más paz, más alegría?
«Pero mi bien es estar apegado a Dios».

Indudablemente, no conviene imponerse a Dios; es inútil y es perjudicial. Invita «de hecho» a quien le place. Pero espera que le deseemos, que le pidamos, que le llamemos, que le preparemos nuestra alma por un amor delicado y generoso, constante y abandonado, y tiene derecho a ello. Ése es, pues, nuestro deber. «Ven, Señor Jesús». Velad dulcemente y deseadlo siempre en paz.

SU INVITACIÓN VIENE AL ALMA DESDE DENTRO DE SÍ MISMA

¿Pero cómo esperarte realmente? ¿Dónde estás? ¿Cuál es el camino que lleva hasta Ti? Y te oigo responderme: « ¡Pero si estoy dentro de ti! Si quieres encontrarme, ven adonde habito y me daré a ti.» « ¡Que Tú estás en el interior, en lo más íntimo de mi alma! ¡Si yo pudiera acabar de comprender esas pocas
palabras! ¡Si supiera separarme de todo, abandonarme a mí mismo, para adelantarme luego hacia Ti, acercarme a Ti y llegar al menos hasta la puerta de tu santuario, oh dulce Trinidad!»

II. La accion de Dios - El deseo de la perfección

Robert de Langeac
La vida oculta en Dios

El deseo de la perfección debe ser constante, pues sin ello no se suman nuestros esfuerzos. En nuestra vida habrá paréntesis, vacíos y, acaso, algo peor. Cuando un hombre que edifica una casa se detiene en su trabajo por falta de materiales o de valor para continuarla, tal vez piensa que cuando tenga valor o materiales no tendrá que hacer sino reanudar en el mismo punto su interrumpida construcción.

Nada de eso. Pues durante este tiempo habrán intervenido los agentes físicos: la lluvia, el viento, la nieve, el hielo, el calor, el frío habrán ejercido su influencia.

La casa se desmoronará piedra a piedra, acabará por caer y hasta sus mismas ruinas perecerán.

Pues así sucede en la vida espiritual, cuando un alma deja apagarse en su corazón ese deseo de perfección: piensa que ha de poder recuperar sus ímpetus; pero no, nada de eso, aquella alma desciende hacia el abismo.

Y es que acumula los obstáculos entre ella y Dios. Porque en el proceso de la perfección, «quien no avanza retrocede». Bien sé que un alma, a pesar de ésas interrupciones, puede recuperar su fervor y reparar sus períodos de imprudencia, pues Dios es misericordioso. Pero eso es misión de la misericordia; y en la vida espiritual hacen falta la sabiduría y la prudencia. Mirad, si no, las vírgenes prudentes y las vírgenes locas; también estas últimas amaban, pero su amor no fue lo bastante constante.

El alma que de verdad quiere encontrar a Jesús, iluminada por el Espíritu Santo, comprende que le importa mucho no perder el tiempo en vanas búsquedas. Los menores retrasos constituyen para ella una desgracia o un martirio. Nunca es demasiado pronto para hallar a Dios.

5. - Falsa confiança e presunção

Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

O homem cuida que pode salvar-se por suas próprias forças sem os socorros da graça: oração e sacramentos.
Ora assim como um animal não pode andar sem pés, e uma ave não pode voar sem asas, assim também o homem não pode elevar-se para Deus sem auxílio do mesmo Deus, "Sem mim, diz o próprio Deus, nada podeis fazer".
A presunção consiste em contar com a felicidade do Céu sem se incomodar com os meios de a ganhar.
Eu quero entregar-me às minhas paixões, mas espero salvar-me; não quero renunciar ao pecado, mas espero o perdão dele; agora não quero converter-me, mas espero converter-me mais tarde. Na hora da morte espero que Deus, pela Sua infinita misericórdia, me perdoará todas as minhas falias.

Presunção Luterana. - Dominado por esta presunção o homem julga que obtém a remissão dos seus pecados e a felicidade eterna unicamente pelos merecimentos de Jesus Cristo, sem nenhuma cooperação da sua parte, isto é, unicamente pela fé sem obras nem observância dos mandamentos.

Presunção Pelagiana. - Com esta presunção o homem pensa que merece a graça pelas suas próprias forças. Assim como nenhum homem pode dar a si mesmo a existência ou merecê-la. porque antes de existir nada pode fazer, assim também nenhum homem pode dar a si mesmo a graça ou merecê-la. O dom da graça não é devido à nossa natureza, nem susceptível de ser por nós merecido. É, pois, um dom que nos vem da pura bondade de Deus.  

Presunção cega. - E o estado de espírito de muitos pecadores que têm uma venda sobre os olhos e espessas nuvens na consciência. Não vêem, não pensam, não sentem, e é com uma inconsciência inqualificável que seguem os caminhos que conduzem aos abismos. Esta cegueira é dupla: Nalguns não há remorso algum, a alma é privada de toda a luz e de todo o sentimento sobrenatural. Noutros há lampejos de fé e rebates de consciência, mas depressa a paixão sufoca tudo.
Acreditamos na vida futura, acreditamos no inferno, sabemos que cada um de nós pode lá cair, sabemos que o estado de pecado mortal é um estado de condenação, vemos muitos pecadores viver como réprobos, somos talvez deste número, e contudo obstinamo-nos em esperar a vida permanecendo na morte! Quantas vítimas desta incompreensível afoiteza, desta temeridade.

Meio de combater esta presunção cega. - O meio de combater este terrível inimigo é a lembrança das verdades eternas. Hoje, em dia, fala-se pouco das verdades eternas, fala-se de uma religião sem eternidade. Os padres devem empregar todos os meios, para que o cristão não esqueça as coisas da outra vida; e a sua voz, como a dos sinos das nossas igrejas, tem não sei que tom que desperta nas almas os mais graves pensamentos.
Presunção consciente. - Nesta há reflexão e cálculo: Dá-se conta do mal, compreende-se que se expõe a ele, sabe-se que, se Deus exercesse a Sua justiça, seria uma catástrofe irremediável; mas vive-se tranquilo no pecado devido à presunção. Presume-se da misericórdia de Deus: Diz-se que Deus é bom e não castiga logo, ou que; mais tarde, se faz a reconciliação com Ele.
Esta temeridade é mais grave porque há nela formal e direto abuso da misericórdia divina. Esta adorável perfeição é o pretexto do pecado, o pecador usa dela contra Deus. É o mesmo que tratarmos mal um amigo, porque ele é bom para conosco.
Ora, quando as perfeições de Deus são diretamente e especificamente atacadas, Deus castiga porque não permite nem pode permitir que se traje impunemente a Sua majestade o que seria prejudicial a nós e desonroso para Deus.
É próprio da presunção irritada a misericórdia divina, inspirando-lhe o que São João chama a ira do Cordeiro. (Apoc. VI, I6).
Está presunção reveste três formas: A impenitência em todos os seus graus, a demora da conversão e a falsa segurança nas causas ou ocasiões de pecado.

1 - A impenitência em todos os seus graus

A impenitência dos imperfeitos, os quais Deus quer fazer santos e recusam-se a sê-lo; todavia esperam a continuação das graças divinas; a impenitência dos tíbios que obstinadamente têm o hábito do pecado venial, e, todavia têm-se na conta de amigos de Deus; enfim, a impenitência dos pecadores, cuja existência é uma mistura de remorsos e de recaídas sem arrependimento e uma segurança ilusória.

2 - A demora na conversão

Não se renuncia completamente a idéia de se voltar para Deus, de se converter, mas será mais tarde e esperando, confia-se na misericordiosa paciência. Se não fosse esta, não se pecaria durante tanto tempo nem com tanta audácia.
Esta corrupção da esperança é a causa da perda de muitas almas, porquanto os presunçosos, contando só com a misericórdia divina, pecam sempre na esperança de serem perdoados: ora quem peca na esperança de ser perdoado é indigno de perdão.

3 - Falsa segurança nas ocasiões de perigo de pecado

Presumimos das próprias forças, desprezamos os meios e expomo-nos às ocasiões e perigos de pecado.
Vejamos.

I - Presumimos das próprias forças

Está-se no Cenáculo. Fala-se da Paixão. O Mestre adverte os Seus discípulos da prova que os espera, do escândalo que os ameaça, da sua dispersão, da sua defecção moral. "Todos vos escandalizareis comigo esta noite. Está escrito: darei a morte ao pastor e as ovelhas dispersam-se." (Mat. VI, 31). A advertência é feita pessoalmente a São Pedro: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou com instância para vos joeirar como se faz ao trigo." (Luc. XXII, 31). Neste momento há consternação geral e silêncio. Mas, Pedro fala para dar um desmentido ao divino Mestre: "Ainda que todos se escandalizem eu não me escandalizarei." (Mat. XXVI, 33). Pedro eleva-se acima dos outros. É quase como que o fariseu: "Eu não sou como os outros homens. 
Esta presunção, diz Longhaye, não se cura pela palavra, é precisa a lição das coisas, uma prova humilhante e dolorosa.

II- Desprezamos os meios

Era no Jardim das Oliveiras. Pedro, Tiago e João assistem à agonia do mestre. Jesus pede-lhes que façam com Ele e por Ele uma espécie de velada de armas. "A minha alma está numa tristeza mortal; demorei-vos aqui e vigiai comigo." (Mat. XXVI, 38).
Nada consegue. Jesus Cristo queixa-Se sobretudo de São Pedro: "Não pudeste vigiar uma hora comigo! Nem vigilância nem oração! Pobre Pedro! querias seguir-Me na prisão, dar todo o teu sangue por Mim, e, afinal não és capaz de dar-Me uma hora do teu sono!
"Vigiai e orai, ao menos por vós, para não cairdes em tentação, diz o divino Mestre, o espírito é forte, a carne é fraca."
Recomendação inútil. Os apóstolos continuam a dormir. Eis a presunção negativa, indolente, pretende, de fato, conseguir o fim sem empregar os meios, resistir às tentações sem as prever e prevenir.
Jesus nos diz como aos apóstolos: "Vigiai, guardai com grande cuidado os sentidos, sobretudo, olhos, ouvidos e língua. Orai para alcançardes a graça porque só ela pode sustentar a vossa natureza, a fim de não cairdes em tentação.

III- Expomo-nos ao perigo e ocasião de pecado

Quando Jesus caiu nas mãos de Seus inimigos, os Seus discípulos abandonaram-nO, fugiram todos. Pedro levado pela curiosidade de ver o que fariam ao divino Mestre, seguia-O de longe. E em casa do Sumo Sacerdote, mistura-se com os inimigos de Jesus sem precaução alguma.
Assim procedemos nós, talvez, envolvendo-nos em relações mundanas por curiosidade e prazer, entregando-nos a leituras frívolas e perigosas para a fé e bons costumes, esquecidos de quê quem se expõe ao perigo. nele sucumbe; esquecidos de que Nosso Senhor promete a vitória mas com a condição de que saibamos vigiar e orar.

4. - Frutos da esperança

Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

A nobre virtude da esperança transforma-nos de três maneiras.
A estupidez que fixa os nossos desejos nas coisas terrenas, substitui-a pela ambição de obter mais do que o universo inteiro, isto é, Deus.
A preguiça que temos em ganhar o Céu, substitui-a pelo ardor ao trabalho, ao trabalho da salvação. Enfim, a nossa fraqueza que nos faz desesperar de alcançar bons resultados nas nossas empresas, substitui-a pela esperança reconfortante dos auxílios divinos. Pela esperança temos como que uma alma na nossa alma, uma alma que nos estimula e ampara.

1.º A esperança conduz à prática de virtudes heróicas. 

- Na prosperidade, obsta a apegarmos o nosso coração aos bens deste mundo. "Oh! como a terra me aborrece, exclamava santo Inácio, quando olho para o Céu".
- Na adversidade, anima. A esperança da colheita anima o lavrador, o desejo da glória estimula o soldado; mas a esperança cristã dá uma força sobre-humana; é como uma alavanca que levanta os maiores pesos.
"O que espera em Deus, diz São Paulo, será paciente nos trabalhos, pois sabe que as tribulações desta vida não são comparáveis com a futura glória que se manifestará em nós". (Rom. VIII, 18).

2. ° A esperança conduz à vida eterna.

- É pela esperança que nos salvamos, diz São Paulo.
Aquele que tem esperança está seguro acerca da sua salvação como aquele que tem a semente está seguro acerca da árvore que há de nascer, porque a felicidade está contida na esperança, diz Santo Tomás de Aquino, como a árvore na semente. No Céu já não haverá esperança porque aí se possuirão os bens que se desejavam e esperavam. 

3. - Necessidade da esperança


Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950


A esperança é para a salvação de absoluta necessidade.
Com efeito, não podemos alcançar a salvação sem cumprirmos a vontade de Deus. Ora Deus quer expressamente que confiemos na fidelidade de Suas promessas e esperemos firmemente a bem-aventurança eterna.
Há, pois, um preceito formal direto que impõe a todos o dever de esperar e fazer atos de esperança.
São Paulo, escrevendo a Timóteo, diz-lhe: "Ordena aos fiéis que não esperem nas riquezas incertas, mas sim no Deus vivo". (I Tim; VI, 17). Aos Hebreus diz de uma maneira ainda mais positiva: "Cumpre que aquele que se quer aproximar de Deus, creia que Ele existe e que é remunerador." (Heb. XI, 6).
Este dever da esperança, é de tal modo obrigatório, que a condição indispensável de salvação : "É pela esperança que nos salvamos diz o grande Apóstolo”. (Rom. VIII, 24).
Não só temos obrigação de conservar a esperança habitual que recebemos no batismo, senão também de fazer atos formais de esperança: 1.º quando chegamos ao uso de razão; 2.º quando somos gravemente tentados de desesperação; 3.º no artigo de morte; e, enfim, muitas vezes no decurso da vida. 

2. - Qualidades da esperança


Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950


1 - A esperança deve ser firme

À firme convicção de que Deus é infinitamente bom, misericordioso e fiel, e de que Jesus Cristo nos mereceu todos os bens, chama-se confiança de Deus. Esta virtude é a raiz da esperança. Quanto mais vigorosa for esta raiz, mais firme é a nossa esperança.

2 - A esperança deve ser constante

Devemos ter esperança em Deus, em todas as circunstâncias da nossa vida, mas, sobretudo, nas tentações: Deus não deixa tentar acima das nossas forças; - nas aflições: Deus mede a pena ou a expiação pelas forças de cada um; - nas privações: Deus não abandona os Seus. "Remetei para o Senhor todas as vossas inquietações, diz São Paulo, porque Ele tem cuidado de vós." (I Ped. V, 7).

3 - A esperança deve ser prudente

O justo deve esperar. Deus proverá a todas as suas necessidades, contanto que seja fiel a graça e se esforce por adquirir os bens que espera de Deus. "Buscai primeiramente o reino de Deus e a Sua justiça, diz Jesus Cristo, e tudo o mais vos será dado por acréscimo." "Nunca vi o justo abandonado, diz o profeta David, nem a sua raça mendigando pão."
- O pecador pode ter esperança em Deus quando se arrepende sinceramente dos seus pecados. "Deus, diz ainda o profeta David, não despreza um coração contrito e humilhado."
Ninguém deve expor-se à tentação sob pretexto de que Deus o livrará nem pensar que se há de salvar só porque Jesus Cristo morreu pela sua salvação. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

O escândalo do sacerdote

Nota do blogue: Meus agradecimentos para uma bela alma pela transcrição desse capítulo. Deus lhe pague, querida de Deus.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)


I. – Não te basta, ó filho, ofenderes-Me tu, senão também seres causa de que outros Me ofendam?!... Se dei todo o Meu sangue em preço pela redenção das almas, não vês que, quem mas rouba, move contra mim perseguição mais feroz que a daqueles mesmos, que tão barbaramente derramaram o Meu sangue no Calvário?!
E tu, ó sacerdote, que com o escândalo estorvas o bem e promoves o mal, tens coração de ser tão ímpio contra o teu Deus?!...
Fiz-te sacerdote para que zelasses a Minha honra, e conduzisses a Mim as almas; e tu arrancas-mas do seio com tão horrenda aleivosia?!...
Ah! Ninguém causa tanto dano à Minha Igreja, e menoscabo à Minha honra, como o sacerdote que, destinado por Mim para repreender e corrigir os outros, lhes dá exemplos de perversidade [1].
Se querias assim tratar-Me, para que tomaste as Minhas insígnias? Para que vieste à Minha Igreja? Se houveras ficado no estado laical, não Me fizeras tão graves injúrias, como assim Me fazes.

II. – Todos põem em ti os olhos; mas, ainda que cometas alguma falta, ninguém se atreve a repreender-te; e teu exemplo é tanto mais seguido, quando é maior a tua honra em virtude da tua dignidade.
Tu, caindo no pecado, arrastas por assim dizer os outros para que caiam; porque julgam ser-lhes lícito quanto vêem fazer a ti; e pecam desenfreada e afoitamente vendo que tu pecas.
Desculpam-se com o teu exemplo na liberdade do falar, na familiaridade, na crápula; nunca se emendam, porque dizem em sua defesa: os sacerdotes e os religiosos também fazem o mesmo; e, o que mais é, quando os seculares vêem um sacerdote mau, pensam que todos os eclesiásticos são maus, o que redunda em detrimento da mesma Religião, chegando até vacilar na fé, e a ter os sermões, os sacramentos, o evangelho na conta de impostura ou invenção humana[2]. Ó força  cruel do escândalo! Pobres almas, assassinadas por aqueles mesmos que mas deviam guiar, corrigir e salvar!

A humildade e mansidão (Sacerdote)

Nota do blogue: Agradeço ao Mateus, irmão e amigo em Cristo, pela transcrição desse capítulo. Deus lhe pague, querido de Deus.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)

I. – Filho, aprende de Mim, o que? Não a fabricar o mundo, não a fazer milagres, mas a ser humilde e manso de coração[1].
Reflete na Minha vida, e compara-a um pouco contigo mesmo. Sou alguma coisa mais do que tu; todavia quis nascer de uma Virgem pobre, em um presépio, reputado como filho de um artista; vesti como pobre, tratei-Me em tudo como pobre, e como tal fui considerado no mundo; e tu sendo tão miserável e vil desde o nascimento quererás ostentar grandeza, no trato, no vestido, em tudo?
Não poderia Eu, apenas nascido, encher o mundo com a fama de Minhas obras maravilhosas? Mas olha como vivi por trinta anos, em um pobre casebre, em uma humilde oficina. Questionei com os doutores da Lei, e fui crescendo em ciência e graça ao passo que cresciam os anos; mas sempre em ocupações de uma vida pobre e comum, sem querer ser conhecido nem estimado; e tu, ignorante, mas soberbo, recusa o ensino, os conselhos, inculcas ser o que não és, e assim pretendes Ordens sagradas e empregos sem disposição nem méritos; e, fugindo das obras humildes, busca sempre as mais ostentosas.
Que concluis tu deste paralelo? Eu vivi sujeito às leis, obediente a Minha Mãe, e ainda a José; recebi o Batismo de João; e tu, altivo, mostras tão pouco respeito às leis da Igreja, do Bispo, de teus superiores?
Desengana-te, filho, que Eu não te atendo nem comunico minhas graças senão aos humildes. Se não te fizerem pequenino, como um menino, não entrarás no Reino do Céu: este é o fundamento de toda a vida cristã, e muito mais da vida eclesiástica; e pretenderás tu construir um edifício sem alicerce[2]?

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O pecado no Sacerdote (continuação)

Nota do blogue: Meus agradecimentos para uma bela alma pela transcrição desse capítulo. Deus lhe pague, querida de Deus.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula


(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)


I. – Como é possível, filho, chegares ao excesso de assassinar a tua própria alma, cometendo o pecado?
Tu certamente o não consideras; mas reflete um pouco e vê como és desestimado dos seculares, como está desacreditado o teu caráter, de sorte que já são muitos os que desejam ver diminuído o número de Eclesiásticos, e desejariam vê-los empobrecidos e quase de todo aniquilados. Sabe que são os teus pecados que te desacreditam.
Aqueles que em si aborrecem a virtude, ainda assim a querem ver em ti, não podendo sofrer vícios em quem é destinado a destruí-los.
Em alta voz murmuram de teus maus costumes, escarnecem de ti, aborrecem-te; e por tua causa também andam em boca e são desprezados todos os mais Sacerdotes.
Os Eclesiásticos recolhidos, virtuosos e santos, sempre foram respeitados e temidos até dos grandes da terra; a ti porém a mais infeliz plebe te insulta, por aquelas mesmas vaidades com que julgas acreditar-te.
Os leigos fazem doações às igrejas e conventos pelos bens espirituais que recebem ou esperam receber; porém, se descobrem no clero avidez e ânsia pelos interesses temporais, sem os auxiliar no espiritual; ou se, de mais a mais, vêem que o clero lhes serve de ruína espiritual com seu procedimento escandaloso, não admira que faltem às oblações e esmolas, e as queiram até retirar, podendo, quando a princípio lhas deram com liberalidade.[1]
As tuas culpas, filho, corrompem os seculares, e os tornam em instrumentos da Minha justiça para as castigar; e, assim pervertidos por vós, Me obrigam a entornar sobre eles e vós os Meus flagelos; por isso vês consternadas as cidades, desolados os campos, os conventos despovoados, e o meu santuário esquecido e abandonado[2].
Pertence a ti aplacar-Me com verdadeiro zelo e oração; mas como farás de mediador, se me irritas mais que os leigos, procurando a tua ruína e a deles?

II. – O temporal é o menos, filho; é da tua pobre alma que eu me compadeço; e é tal a compaixão que Me merece, que devia encher-te de horror.
Infeliz! Onde estão os tesouros das tuas graças que recebeste em maior abundância que os outros? Onde os merecimentos do bem, que outrora praticavas com tanto agrado Meu e consolação tua?
Continuamente exerces os santos ministérios; mas, por teus pecados, são ministérios áridos e sem fruto para ti e para o teu próximo.
As vestes sagradas, os altares, o púlpito, o confessionário, o Meu mesmo sangue te exprobram as tuas culpas. Aqueles lugares sagrados, aquelas funções religiosas, que deviam santificar-te, se convertem, pelo abuso que delas fazes, em torrentes de maldição contra ti e muitas vezes contra os outros.
Ah! Filho, tu, que em Meu nome abençoas o povo, e tens o poder de lhe distribuir as Minhas graças, quererás, por teus pecados, obrigar-Me a aborrecer-te e a entornar sobre ti maiores maldições?[3] tu, que abres as portas do Céu aos outros, quererás ser dele excluído para sempre? Tu, mais abastecido em riquezas e mais elevado em dignidade que os seculares, quererás precipitar-te com mais profunda queda? Ter-te-ei, pois exaltado e enriquecido em vão? Ter-te-ei dado debalde os vasos cheios do Meu precioso sangue? Ou quererás por isso mesmo amontoar sobre ti a ruína e a condenação?

A impureza (Sacerdote)

Nota do blogue: Agradeço a Daniella Buarque, irmã e amiga em Cristo, pela transcrição desse capítulo. Deus lhe pague, querida de Deus.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula


(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)


I. - Filho, ainda que sejas pio, fervoroso, humilde e tudo o que quiseres, se não és casto, nada és em Minha presença. Quem quer ser Meu amigo deve amar a pureza; muito mais um ministro Meu, que se obrigou solenemente a viver casto.
Se uma só vista curiosa, um mau pensamento consentido torna réus de culpa grave os seculares, quanto mais réu serás tu, em quem os pecados contra a castidade são gravíssimos sacrilégios?
Parece-te, filho, que aquela língua, que todos os dias Me chama e faz baixar do Céu ao altar, deva ser imunda? Que as mãos, que tocam a Minha carne imaculada, devam ser sórdidas? Que quem tem no coração o ídolo da torpeza, deva receber o Filho da Virgem?
Se Me queres ofender, busca outra língua, e não essa que tinges com o Meu Sangue; busca outras mãos, e não essas que tocam a Minha Carne Sacrossanta; busca outro coração, e não esse que deve arder no Meu Amor.
Com que rosto ousarás aproximar-te do Meu Altar, ardendo em chama impura? Como não te horrorizas de consagrar o Meu Puríssimo Corpo, e de representar-Me, a Mim, que Sou espelho de pureza?!

II. - Não te envergonhas, filho, de ser escravo de uma paixão torpe, tu que devias viver uma vida mais que angélica, emulando a Minha Pureza?
Deves ser com o teu exemplo, com o desvelo e doutrina o defensor e o propagador da virtude da castidade; mas como o serás, se não és casto? Com que eficácia pregarás aos outros, no púlpito ou no confessionário, que sejam puros, se o não és tu?
Que farão os seculares, hoje tão inclinados a conversas e atos lascivos, se te vêem obrar e ouvem falar como eles?
Para evitares o mau exemplo é necessário que fujas de toda a familiaridade e frequência não só má, mas até da que simplesmente se possa suspeitar mal.[1] Não digas: Eu sei em minha consciência, e Deus, meu Juiz, me é testemunha de que não peco nisto nem venialmente[2]; não te basta isto; não, porque és devedor aos fiéis da mais santa edificação[3]. E sendo assim, com quanta maior razão deves evitar o trato e familiaridade com as pessoas que sabes são impudicas? Quantos estragos e ruínas trarias às Minhas pobres almas? Não seria isto inspirar-lhes coragem para pecar? Arrastá-las a todo o gênero de maldades, e, com o teu exemplo, subministrar-lhes o veneno da morte e a condenação eterna, tu, que devias conduzi-las ao Céu?!

III. - Foge, filho, foge de por os pés neste caminho escorregadio; porque é fácil a entrada nele; mas oh, quão difícil é depois a saída![4]

Doutrina Cristã - Parte 5

Monsenhor Francisco Pascucci, 1935, Doutrina Cristã
tradução por Padre Armando Guerrazzi, 2.ª Edição, biblioteca Anchieta.

Art. III. - O qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem.

A Encarnação

26. - O Filho de Deus, para Se fazer homem assumiu um corpo e uma alma, como temos nós no seio puríssimo de Maria Virgem, por obra do Espírito Santo: corpo perfeito, mas sujeito às misérias humanas (fome, sede, cansaço, etc.), para se assemelhar em tudo aos irmãos, na frase de São Paulo; e alma dotada de todas as faculdades humanas em grau sublime, isto é, inteligência e vontade livre e impecável.
Duas naturezas há, pois, em Jesus Cristo: a humana e a divina, numa só divina pessoa: a pessoa do Verbo;
duas vontades, uma divina e outra humana, como fora confirmado pelas palavras pronunciadas no horto: "Padre, se é do teu agrado, aparta de mim este cálice: contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua", (Luc., XXVII, 42); onde, enquanto se fala numa vontade minha, isto é, humana de Jesus Cristo, fala-se depois numa tua vontade, isto é, divina do Padre, a qual deve ser também a de Jesus Cristo, Filho de Deus, e uma coisa só com o Padre.
As operações de Jesus, mesmo humanas, como procedem da única pessoa do Verbo, têm todas valor infinito.

Maria Virgem: - prerrogativas. - S. José

27. - O Filho de Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo no seio puríssimo da Virgem Maria, escolhida para a missão de Mãe de Deus, e, consequentemente, enriquecida de especiais privilégios ou prerrogativas, que são:

1.º- Imaculada Conceição, que importa numa redenção preventiva, enquanto Ela, pelos méritos do Seu divino Filho, foi à única entre os filhos de Adão, preservada do pecado original! É dogma de fé, definido por Pio, em 1854.
2.º - A Maternidade divina. Maria é verdadeira Mãe de Deus, porque Mãe de Jesus Cristo, que, assumindo a carne no seio da Virgem, d’Ela nasceu, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, na unidade da pessoa divina; do mesmo modo como nós dizemos mãe da nossa pessoa à que nos deu à luz, embora a alma nos seja criada por Deus. Dogma de fé também este, definido contra Nestório no Concilio de Éfeso em 431.
3.º - A Virgindade perpétua, porque uniu as glórias da virgindade aos júbilos da maternidade divina. Dogma de fé, definido pelo V Concilio geral, em 533.
4.º - Cheia de graça, como Lhe foi anunciado pelo Anjo. 
5.º - Assunção ao céu em alma e corpo. Não é ainda dogma de fé, mas universalmente professado pela Igreja.[1]
Como homem, Jesus não tem pai: São José, esposo castíssimo de Maria, foi-Lhe o pai nutrício, putativo, isto é, criado pelos homens como verdadeiro pai, enquanto era só um guarda, escolhido por Deus para tal ofício, que fielmente executou, salvando a Jesus das mãos de Herodes, criando-o e procurando-lhe o necessário à vida, à educação, etc.

Anunciação. - Nascimento. - Infância

28. - Pelo Arcanjo Gabriel, enviado por Deus a Nazaré, soube Maria, esposa de José, da estirpe de David, que devia ser a Mãe de Deus. Como Ela a isto dera o Seu assentimento, cumpria-se desse modo o mistério da Encarnação.
Indo com José a Belém, para o censo ordenado pelo Imperador Augusto a todo o mundo romano - num presépio, aonde se acolheram por falta de estalagens, Maria deu á luz o Salvador do orbe, envolvendo-O em pobres panos, e reclinou-O a uma rude manjedoura de animais. O nascimento fora primeiro anunciado pelos Anjos aos pastores; depois, com a aparição de uma estreita, aos Magos, que vieram do Oriente, para adorá-lO. Em obediência à lei, oito dias depois do nascimento, o menino Jesus foi circuncidado, e, no quadragésimo dia, apresentado no templo, onde se cumpriu o rito da purificação de Maria Santíssima. Perseguido pelo rei Herodes, que O queria matar, teve de fugir para o Egito com Maria Santíssima e São José, donde voltou depois da morte de Herodes, monarca. Encerrou-se destarte o período da infância de Jesus e principia Sua vida privada até à idade de trinta anos.

Vida privada

29. - Transcorreu Jesus Sua vida privada na pequena cidade de Nazaré, da Galiléia, no silêncio e no recolhimento. Filho de Deus, vindo ao mundo para ensinar aos homens, quis primeiro dar o exemplo de toda virtude.
O santo Evangelho nos refere da vida de Jesus em Nazaré:
1.º- que Jesus era obediente a José e a Maria, Sua Mãe;
2.º- que era de todos reputado o filho do carpinteiro, porque teria ajudado a Seu pai putativo no exercício dos seus misteres, com que sustentava a si e à sua família;
3.º- que Ele crescia em idade, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens, isto é, enquanto efetivamente crescia em idade; manifestava gradualmente no exterior Sua sabedoria e suas obras eram cada vez mais aceitáveis e gratas ao Senhor;
4.º - que indo, aos doze anos de idade, com Seus parentes ao templo de Jerusalém para a festa de Páscoa, ali ficou pelo espaço de três dias, sem que os parentes soubessem onde estava, - e conseguiu maravilhar os doutores pela sabedoria de Suas perguntas e respostas.

Vida pública

30. - Aos trinta anos de idade, mais ou menos, Jesus começou a vida pública, que Lhe durou três anos.
Deixando o tranquilo remanso de Nazaré, veio às margens do Jordão, e ao precursor João Batista pediu o batismo de penitência. Retirou-Se daí para o deserto, onde permaneceu quarenta dias, para Se preparar com o jejum e com a oração ao grande ministério que ia empreender. No fim de quarenta dias, permitiu ao demônio se Lhe aproximasse e quis sofrer, para instrução nossa, uma tríplice tentação. Mal saiu do deserto, iniciou a pregação evangélica.
A doutrina que ensinava era alta e sublime, exposta as mais das vezes de modo mui simples, por meio de semelhanças e parábolas, colhendo argumento de tudo quanto caía sob os olhos dos ouvintes, de maneira que pudessem mais facilmente compreendê-lO. Acompanhava depois e confirmava a Sua doutrina com milagres.



[1] Nota do blogue: Na época em que o livro foi escrito o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao céu de corpo e alma ainda não havia se dado. O Papa Pio XII, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus definiu tal dogma no ano de 1950.