Padre Júlio Maria, C.SS.R.
As virtudes, 1936.
Nós podemos justa ou injustamente, mas
sem malicia, desprezar, num homem, a inteligência, por mais brilhante que seja.
Podemos, justa ou injustamente, mas sem culpa grave, desprezar, num homem, as
conquistas ou façanhas com que ele tenha feito jus à gratidão de sua pátria ou à
admiração da humanidade.
O que, porém, nenhum de nós, sem grande
perversidade, pode fazer, é desprezar, em outro homem, o amor que ele nos
consagre.
Nenhum de nós o pode porque isso importa,
uma exceção monstruosa da nossa natureza que o amor atrai, que o amor fascina,
que o amor impele à única reciprocidade digna do amor: amar; não amar a quem
nos ama, anomalia é tão repulsiva, violenta e monstruosa, que só o Dante, na Divina Comédia, a pôde definir, dando ao
inferno, por origem, o amor desprezado.
Dir-se-ia que, nisto, Deus é igual ao
homem, porque o desprezo que o homem não pode sofrer sem a vindita do ódio, Deus
não o pode tolerar sem a desafronta das chamas eternas.
E se o amor desprezado é esse amor infinito
que, em Jesus Cristo, veio solicitar os homens, mostrando preferências, se as
teve, juntamente pelos pequenos, pelos pobres, pelos infelizes; de todo não o podemos
compreender, esse desprezo que eu só poderia profligar devidamente se tivesse o
cinzel do artista incomparável que gravou no mármore da Divina Comédia a represália do amor desprezado.
Pois bem: esta enormidade nós a vemos
hoje; no Brasil, neste traço bem saliente da sua intelectualidade social e
dirigente -- o desprezo de Jesus Cristo. E se bem quiserdes verificar desprezo
tão monstruoso, contemplai-o neste fenômeno: falsa noção do Cristo.
Examinai a atualidade brasileira e encontrá-la-eis,
a essa falsa noção nas cadeiras do professorado, no Parlamento, nos artigos dos
jornais, na ópera, na comédia, no romance, no livro de versos, tanto como no
ensino dos colégios e academias. Por toda parte vereis um Cristo falso e
imaginário, substituindo ao Cristo verdadeiro, isto é, ao Cristo da História,
do Evangelho e da Igreja.
O Cristo da História, vós o sabeis,
enche toda a História que, sem Ele, é incompreensível. Não obstante, substitui-se
a Sua biografia histórica por uma falsa biografia, negando-se facilmente ao primeiro
os personagens da História, isto é, a Jesus Cristo, o que não se nega a César,
Pompeu ou Napoleão, isto é, aos personagens secundários da mesma História.
O Cristo do Evangelho, também vós
sabeis, não pode ser esse que o pedantismo literário descreve, com pieguices de
estilo, indignas do Mestre incomparável que evangelizou a verdade, elegeu os apóstolos
e promulgou a lei moral.
Não, não pode ser esse, porque esse é um
Cristo fútil, ridículo, um moço e louro nazareno, produto da imbecilidade literária,
Também o Cristo da Igreja não pode ser
esse que, no Brasil, imaginam os intelectuais sem fé e que querem uma religião
sem Cristianismo, um Cristianismo sem Igreja.
O Cristo da Igreja não pode ser o
dispensador de preceitos e ensino de que Ele próprio encarregou a Igreja, por
Ele constituída órgão e interprete da verdade...
Sim, se o Cristo que prepondera no
espírito das classes encarregadas de darem ao povo o modelo das crenças e a
regra dos costumes, é um Cristo falsificado, mister é mostrar aos pequenos, aos
pobres, aos operários, às vitimas de tal falsificação, de onde esta procede.
Ela procede da mais lamentável ignorância
da parte dos incrédulos, os quais não têm, da divindade do Cristo, a idéia que
a própria razão, independente da fé, pode ter.
Passarei a demonstrar esta afirmativa de
que a divindade de Jesus Cristo é uma verdade que pode ser afirmada, não só
pela fé, como também pela razão.
Para isso, servir-me-ei de três
argumentos que exporei e desenvolverei com longas e variadas considerações: o argumento histórico, o argumento experimental e o argumento psicológico.
Quanto ao argumento histórico - Jesus Cristo preexistiu na História como
Deus; existiu na História como Deus; sobrevive na História como Deus.
Preexistiu como Deus, porque, ou havemos
de recusar 40 séculos da História, ou havemos de afirmar que esses 40 séculos
não fizeram senão desejar e esperar o Messias, e o Messias, tal como o descreviam
a salmodia de David, os discursos dos Profetas e os próprios livros dos filósofos
pagãos.
O messianismo, isto é, a expectativa de um
libertador divino que viesse resgatar a Humanidade, é um fato histórico,
afirmado por todos os historiadores, inclusive Volnei e Voltaire.
Jesus Cristo existiu como Deus, porque,
sirvo-me agora de uma bela síntese de Frepel - nasceu; como Deus, viveu como
Deus, falou como Deus, operou como Deus, na ordem física pelo milagre, na ordem
intelectual pela visão dos tempos, na ordem moral pela santidade absoluta. Ainda
mais: Ele exigiu como Deus, ameaçou como Deus, prometeu como Deus, perdoou como
Deus, exaltou soberanamente todos os direitos de Deus e, se é certo sofreu e
morreu, ninguém pode negar que a Sua paixão e a Sua morte foram a paixão e a
morte de um Deus! como de Deus foi a Sua ressurreição.
Jesus Cristo sobrevive como Deus,
porque, há vinte séculos já, é crido como Deus, é obedecido como Deus, é
adorado como Deus. Preexistir como Deus, na História, ter existido como Deus na
História sobreviver como Deus na História, é ser Deus; porque, ou não há conexação
na História; ou a divindade de Jesus Cristo é uma certeza histórica.
Quanto ao argumento experimental, ele é mais convincente ainda. Jesus Cristo
tem uma doutrina cujos efeitos são atestados pela História. Esta doutrina foi
um reviramento completo de todas as idéias e sentimentos do universo. Foi uma
contradição absoluta aos instintos de todos os povos; foi uma transformação
completa, radical, absoluta, do direito, da legislação, da política, da ciência,
que governam o mundo. Para que Sua doutrina vencesse, foi-Lhe mister vencer
todas as forças do mundo, isto é, o paganismo, a política romana, a filosofia
da Grécia e o judaísmo.
Como e com que armas a doutrina venceu
estas forças? Venceu-as sem meios nem recursos humanos, opondo a todas as potências
do mundo doze homens inermes e que proclamavam ao mundo a maior e mais
estupenda de todas as notícias que o mundo já tinha ouvido, isto é: que Deus se
tinha feito homem, e que este homem nascera de uma virgem, depois de ensinar a
verdade que tinha morrido crucificado, mas, conforme o que Ele mesmo havia anunciado,
resuscitado três dias depois de Sua morte. Pois bem; não obstante tão grande escândalo
para o mundo, o mundo foi vencido e reformado radicalmente pela doutrina. Ora,
a ciência experimental afirma que todo efeito é proporcional a uma causa. O
Cristianismo é evidentemente um fenômeno divino que exige uma causa divina para
ser explicado, sob pena de ficar sendo o maior e o mais monstruoso dos absurdos
da História.
O argumento experimental, portanto afirma
a divindade de Jesus Cristo.
Não o afirma menos o argumento psicológico. Jesus Cristo,
perante Seus juízes, perante a multidão, Se afirmou como Deus; portanto, Jesus
Cristo é Deus. Por que Se afirmou? Sim, por que Se afirmou: que homem é esse
que Se afirmou como Deus? É o mesmo homem que preexistiu na História como Deus,
existiu na História como Deus, e sobrevive, na História como Deus, que homem é
esse - que Se afirmou como Deus? E o mesmo homem que Seus próprios adversários,
como Renau, Strauss e tantos outros, descrevem como um homem perfeito, perfeito
na inteligência, perfeito no coração, perfeito no caráter. É o mesmo homem de
quem Renan diz que, quaisquer que sejam os fenômenos inesperados do futuro, por
nenhum outro será igualado; e de cuja religião diz textualmente: "Jesus
promulgou a religião pura, última, definitiva. E se outros planetas têm
habitantes, dotados de razão e liberdade, a religião destes não pode ser
diferente".
Se não é verdadeiro o testemunho de
Jesus Cristo, deixa Ele de ser o homem perfeito e passa a ser um impostor ou um
alucinado. Se Ele é um impostor, como pode a Sua importância resistir vinte séculos?
Se Ele é um alucinado, alucinada é a humanidade cristã inteira, que há vinte séculos
O adora como Deus. Eu avanço mais - que, se Jesus Cristo mentiu e não é Deus, o
maior mentiroso é o próprio Deus, que há vinte séculos deixa a humanidade acreditar
que a mentira é a verdade; que há séculos deixa um alucinado exercitar todos os
direitos de Deus.
O verdadeiro Cristo, o Cristo que deveis
seguir é o que vos mostra a Igreja. Esse é o Cristo verdadeiro, que se destaca
na História, que refulge na ciência e que Se afirma na palavra divina que Ele próprio
fez ouvir ao mundo. Vos principalmente, operários, não deveis esquecer a
dignidade, a nobreza e suprema distinção que Ele vos concedeu. Parece que Deus,
fazendo-Se homem, e para salvar o homem vindo a este mundo, devera sentar-Se
num trono ou assumir a autoridade de um estadista, ou empunhar a espada de um
general. Ele, porém, desconcertou todos os juízos humanos, preferindo a todas
as grandezas do mundo, fazer, como se fez, operário; manejar, como manejou,
durante dezoito anos, na oficina de José, os utensílios de um carpinteiro.
Este é um grande episódio um fato
singular, um exemplo magnífico, uma lição sublime, nunca bastantemente meditada
no plano divino da nossa redenção.
Jesus, na oficina, é a dignificação do operário
e a divinização do trabalho. A dignificação do operário porque antes de Jesus
Cristo, o operário era desprezado e o trabalho manual era considerado, em Roma
e na Grécia, como uma coisa ignóbil. Jesus Cristo, porém, fazendo-Se operário,
deu ao trabalhador títulos de nobreza, cobiçados depois d’Ele, pelas pessoas
mais ilustres e nobres, por associações e institutos religiosos. Jesus, na
oficina, é também a divinização do trabalho, porque é o trabalho como quer a
Providência, na ordem e com os desígnios que ela lhe dá; é o trabalho, não como
um meio de, enriquecer e gozar, mas como fadiga salutar e expiatória imposta ao
homem.
Compreendem agora os operários a necessidade
que eles têm da verdadeira noção de Cristo, que é outra e bem diferente da noção
que lhes dão, na sociedade brasileira, com grande e descomunal ignorância, os
intelectuais sem fé.
Fé - eis a virtude que eu aconselho
hoje, aos operários e sem a qual eles não poderão ter, no Cristo, a devida
confiança.
Devo observar - que, aconselhando uma
virtude a cada uma das classes sociais a que me dirijo, faço-o, apenas, sob o
ponto de vista restrito e especial a conferência. Da mesma sorte que o homem de
ciência, o homem de letras, o homem de Estado e o sectário, a cada um dos quais
foi dado uma virtude cardeal, se não podem julgar, porém, dispensados das
outras virtudes; também o operário, o industrial e o capitalista, a cada um dos
quais vou aconselhar uma virtude teologal, não podem julgar-se dispensados das
outras virtudes.
Afirmo que ao operário, como operário, a
virtude de que mais necessita presentemente é a fé.
Da Fé, definindo-a com o apóstolo S.
Pedro, que ela é a substância das coisas que devemos crer e a expectativa das
coisas que devemos esperar.
A teoria da Fé é análoga à teoria da ciência.
O objeto desta é, ao mesmo tempo visível e invisível nos seus fenômenos. Os mistérios
da religião não são menos compreensíveis do que os mistérios da ciência. Se esta
tem verdades claras, também a Fé as possui.
A Fé tem princípios, objeto, motivo,
garantia; mas tem também condições de credibilidade. O principio é a graça, dom
gratuito de Deus. Objeto é a verdade revelada por Deus, a qual, às vezes, se
compreende, às vezes não. O motivo é a autoridade de Deus. A garantia é a
Igreja. Em todas essas coisas a razão do homem não é livre, certamente. Quanto,
porém, aos motivos de credibilidade, a razão do homem opera livremente, porque
pode, quando lhe apraz analisar e verificar os fatos comprobatórios de que a
verdade foi revelada.
A Fé não é, pois, como muitos supõem,
uma adesão inconsciente; é um ato voluntário e mais belo que o homem possa
praticar, porque é, ao mesmo tempo, um holocausto do homem, glória de Deus e
uma reparação do pecado.
Não se compreende que a tantos repugna a
fé religiosa, quando é certo que o homem em qualquer das relações de sua vida,
não vive senão de fé; quando é certo que a necessidade da Fé é absoluta.
A Apologética o demonstra com muitos e variados
argumentos: mas eu quero neste momento utilizar-me só mente das analogias de
Bougaud.
A criação se compõe de três reinos
superpostos: o mundo da natureza, o mundo das leis da natureza no mundo
sobrenatural. Para, no primeiro, o homem contemplar as belezas da criação, que
tanto fazem o encanto do poeta e do artista, Deus deu-lhe os olhos. Para, no segundo,
apreender as leis da natureza, que tanto fazem o encanto do geômetra, do físico,
do sábio, Deus deu-lhe a razão. Para, no terceiro, elevar-se até à contemplação
das maravilhas sobrenaturais, Deus deu-lhe a Fé. Os olhos, a razão a fé -eis os
três órgãos que se devem harmonizar no homem que deseje verdadeiramente
glorificar a Deus.
Por que acreditar que a contemplação dos
olhos é bela, que é bela a contemplação da razão, e não acreditar o mesmo das
contemplações da Fé?
É á Fé, entretanto, que S. Paulo entoa
um hino triunfal... Em Abel, em Hennoch, em Abrahão, em Sara, em Jacob, em
José, em Moisés, em Gedeão, em Sansão, em David, em Samuel e nos Profetas. Hino
triunfal, cujas estrofes são reinos vencidos, feras subjugadas, batalhas
ganhas, doenças e torturas, cadeias e calabouços, a fome, a angústia, a dor e a
morte - tudo isto impotente para arrancá-la de um coração onde, como diamante
divino, ela está engastada.
Guardem todos os operários a Fé - este é
o conselho que lhes dou, não podendo, porém, concluir sem me lembrar de que
hoje é o dia da Ressurreição.
Por mais que, neste momento, eu o tente,
não posso reprimir a minha imaginação. Ao lado do sepulcro de onde Jesus Cristo
saiu glorioso, e que a Igreja nos apresenta na festividade de hoje, como que eu
vejo um outro sepulcro. Sim, eu vejo uma cova... uma cova que mais e mais se
alarga e que se o coveiro não for detido, de tão grande se tornará capaz de
absorver um povo inteiro. Eu vejo a cova onde se lançam continuamente crenças e
tradições religiosas... Eu vejo o coveiro, um vulto sinistro, como que
fascinado, contempla-la, parecendo que o seu maior desejo é que a cova absorva
os símbolos que restam ainda de uma grande fé nacional.
Mas que cova é essa? Que coveiro é esse?
É a cova que desejam à pátria os
inimigos de Jesus Cristo e o coveiro a incredulidade, que, para consumar a sua
obra, já tenta aliciar os operários.
Não, operários! Não coopereis com eles,
os incrédulos! Cooperai, antes, com os que trabalham pela salvação da pátria, que
devemos todos desejar esperar.
Por que não esperá-la?
Vendo o Cristo ressuscitar, por que não
esperar que ressuscitem ainda o sentimento, o entusiasmo religioso, a piedade
católica dos nossos antepassados?
A cova está aberta e nela já estão
apodrecendo crenças e tradições. Mas que importa? Na natureza a semente
primeiro apodrece para depois se transformar no arbusto. Também as crenças que
já apodrecem se transformarão, talvez, em germens benéficos de onde brotará uma
nova e bela árvore: o Brasil regenerado, forte, cristão.