quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 15

Fonte: Almas devotas

Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)



DIA 15
3º sofrimento — Impotência de se acudirem a si próprias
O estado das almas do Purgatório, diz o Pe. Faber, é a impotência absoluta.
Não podem nem fazer penitência, nem merecer, nem satisfazer, nem ganhar uma indulgência, nem receber os sacramentos. Alguns teólogos asseguram que elas não podem nem orar por si. Estão mergulha­das nessa noite profunda de que fala S. João, durante a qual ninguém pode mais trabalhar.
Foram lançadas, nessas trevas exterio­res, em que só há lágrimas e gemidos.
Parecem-se com esse paralítico estendido à beira da fonte de Siloé, que não pôde fazer o menor movimento para ter um alívio… e ainda o paralítico podia chamar em seu socorro e tinha a esperança de ser ouvido. Mas, vós, pobres almas do Purgatório, vossa triste voz não pode chegar até nós sem uma permissão especial de Deus… e quando chega, por­ventura é sempre ouvida?
Elas veem na terra uma infinidade de graças, das quais uma só as aliviaria, as libertaria talvez, e não podem se aprovei­tar delas para si. É o suplício contínuo do faminto preso à pouca distância de uma mesa lauta, para a qual se dirige sem nunca chegar a alcançá-la. Na terra, quan­tas orações se dizem, quantas comunhões se fazem, quantas missas se celebram, quantas indulgências se ganham! Filhos pródigos, expiando sua fuga da casa pa­terna, dizem elas em pranto: Quantas ri­quezas na casa de nosso pai! e nós aqui transidas de fome!
Isto é talvez uma punição especial de Deus: esqueceram as almas do Purgatório enquanto viviam sobre a terra. — Deus permite que também sejam esquecidas.
Veem suas companheiras de infortúnio aliviadas, de tempos a tempos, recebendo os frutos de uma comunhão, o valor do sangue de Jesus Cristo, e elas… ficam esquecidas…
Vós que viveis na terra e que tão facil­mente vos comoveis ante o sofrimento e a ideia do abandono, ouvi as almas do Purgatório pedindo-vos uma migalha desse Pão dos Anjos que Deus vos dá com tanta abundância e generosidade, uma pequena parte de vossas orações, de vossas boas obras, de vossos sofrimentos!
__________
Trecho extraído do livro - Mês das Almas do Purgatório - Mons José Basílio Pereira - 10a. Edição - 1943 - Editora Mensageiro da Fé Ltda. - Salvador - Bahia.

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 14

Fonte: Almas devotas

Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943


DIA 14
2.º sofrimento — Pena do dano
A pena mais terrível do Purgatório é certamente a pena do dano, isto é, a se­paração forçada de Deus ou uma força irresistível que a cada instante afasta brus­camente de Deus a alma que a todo mo­mento; por instinto de sua natureza, corre a se unir com ele.
Pode-se fazer uma ideia dela pelo su­plício de uma mãe que, chamada pelo filho prestes a ser devorado por uma fera, fosse retida por uma força invencível no momento em que se precipitasse em seu socorro, e isso não uma só vez, porém dez, cem vezes.
Há neste suplício, dizem os santos, uma angústia mais sensível, de certo modo, que a do inferno. Os míseros condenados não amam a Deus, seu desejo insaciável e sem­pre renascente é ver a Deus aniquilado.

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 13

Fonte: Almas devotas

Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)


SOFRIMENTO DAS ALMAS DO PURGATÓRIO
DIA 13
1.º sofrimento — Pena dos sentidos
Ó meus caros mortos, se para meu coração toda a pena fosse a da separação, seria cruel, por certo; mas o pensamento de comunicar convosco pela oração, e ainda mais a ideia de vos tornar a ver no Céu, e de vos tornar a ver mais santos e mais amantes, aliviaria esta dor; mas, ah! este mesmo pensamento que me dá a es­perança de vos tornar a ver, leva-me a contemplar-vos nas chamas do Purgatório, sofrendo e consternados.
Não escutarei a imaginação, que poderia levar-me além da realidade; quero ouvir os santos, e o que me dizem eles acerca do que vós sofreis, é bastante para excitar a minha compaixão, e obrigar-me a so­correr-vos.
«Reuni, diz Santa Catarina de Gênova, todas as penas que os homens têm sofri­do, sofrem e sofrerão, desde o principio do mundo até o fim dos tempos; juntai todos os tormentos que os tiranos e os algozes têm feito sofrer aos mártires; será uma pálida imagem dos tormentos do Purgatório; e, se às pobres encarceradas fosse permitida a escolha, prefeririam aqueles suplícios durante mil anos a fica­rem no Purgatório mais um dia; porque, diz S. Tomás, o fogo que os envolve é o mesmo que atormenta os condenados no inferno, e esse fogo, oh, é terrível!»
Deus, escolhendo o fogo, soube achar um reparador digno de sua justiça!
Não há dor, dizem os que têm estudado a natureza desse elemento, que iguale a que ele causa.
Não objeteis que o corpo não está no Purgatório: a dor, diz S. Tomás, não é o golpe que se recebe, mas a sensação dolorosa desse golpe. Quanto mais delicadeza há nessa sensação, mais viva é a dor, e a alma, ainda sendo ferida, ela so­zinha experimenta ao mesmo tempo a aflição que lhe fariam sofrer todos os membros do corpo atacados separada­mente.
Esse fogo do Purgatório, cuja natureza não conhecemos, dotado por Deus de uma espécie de inteligência para esmerilhar nos recessos da alma e consumir todas as manchas que lhe deixou o pecado, obra ao mesmo tempo sobre a imaginação e a memória, sobre o juízo e a vontade…
Não aprofundemos mais este ponto; po­rém, fixando a atenção, escutemos o grito pungente que, do fundo desse abismo de fogo, vem até nós: Eu sofro, sofro muito no meio destas chamas: uma gota d’água! uma prece, por piedade!


__________
Trecho extraído do livro - Mês das Almas do Purgatório - Mons José Basílio Pereira - 10a. Edição - 1943 - Editora Mensageiro da Fé Ltda. - Salvador - Bahia.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Apóstolo II - Os seus deveres na sociedade moderna - Parte Final

Padre Emmanuel de Gibergues



É preciso que tenha idéias profundamente arraigadas, convicções. Não deveis ser partidários, meus senhores, mas deveis saber tomar o partido da verdade, da justiça, de Deus, e traduzir as vossas convicções, mas duma maneira clara e precisa. Esta é a única condição de persuadirdes o espírito dos outros, sobretudo o espírito do povo. Os desprezadores, os desdenhosos, os negativos, nunca tiveram ação sobre o povo. O povo nada compreende das recriminações estéreis; não isenta senão os que têm idéias claras, um plano positivo e simples, aqueles que lhe mostram claramente o que devem destruir ou edificar. As idéias que caminham, que triunfam, são as idéias nítidas, positivas e simples.
Sobretudo, meus senhores, com o espírito moderno, é preciso não haver o aspecto de querer impôr, mas sim o de propôr e persuadir. Não é pelas exterioridades nem pelo constrangimento, que se fará a restauração das almas, a estabilidade das inteligências, e o equilíbrio das vontades. É a consciência individual que deve ser esclarecida e renovada, para que a consciência nacional o seja. Isso não se fará nem por leis, nem pela autoridade, apesar de contribuírem para isso, mas pela persuasão e pelos ensinamentos, como toda a obra de luz e de verdade. É da dignidade do homem, não ser guiado como o animal, mas sim dirigido pelos sentimentos e pela razão. O povo também não se conduz como uma criança, mas como um adulto. É preciso esclarecer o seu espírito, persuadi-lo, levá-lo a compreender e a submeter-se à verdade.
Enfim, as idéias do apostolo devem ser essencialmente desinteressadas, para prevalecerem. E Jesus Cristo foi-o no supremo grau. Tinha o direito de dizer: “Não procuro a minha glória, mas a glória de meu Pai; a minha doutrina não é minha, é a doutrina d' Aquele que me enviou”. Não encontrou nela interesse pessoal, vantagem humana. Como recompensa da Sua propaganda de idéias, não recebeu senão humilhações, sofrimentos e a morte; deveu o Seu suplício ao Seu desinteresse; mas deveu-lhe também o triunfo das idéias que trazia ao mundo, e todos os Seus apóstolos fizeram como Ele.
É que a verdade não é do homem; a sua força está em que vem de mais alto do que ele; mas é preciso que se faça sentir, e o povo é muito desconfiado a este respeito. “Que interesse tem ele em dizer isto? ou mais explicitamente, o que ganha com isto?” É a pergunta que se faz sempre. Fazem-no-la em nossas missões do campo e subúrbios, por ocasião de nossas visitas aos domicílios: “Quanto lhe pagam por isto?” Tomam-nos por mercenários, assalariados. Não se quer, não se pode crer na propaganda desinteressada das idéias.
Mas, quando se chega a crer, é um espanto, primeiramente, em seguida: uma atração poderosa. “Estes homens não ganham nada pelo que fazem. Só trabalham pela verdade, pela justiça e pelo bem; são homens de Deus: devemos crê-los!”
Assim raciocina o povo.
Tomai cuidado, meus senhores, que as vossas idéias não sejam maculadas pelo interesse pessoal; que o catolicismo não seja, para vós, uma sorte de machina governamental, instrumento político. Tomai cuidado, que, em vez de pensardes na reforma da sociedade segundo as idéias do catolicismo, não ambicioneis sujeitar o catolicismo à idéia que fazeis da sociedade; seria um erro e um perigo grave.
Lembrai-vos de Napoleão e Pio VII.
A religião está acima de tudo; não deve ser escravizada; afastaríeis do catolicismo um grande número de almas generosas, que fariam, unicamente, da religião de Jesus Cristo, a idéia duma sentinela, ocupada em velar pelos humanos, pelos tronos ou pelas caixas-fortes, e do padre, uma espécie de soldado moral de batina, e da Igreja, um servo de partido.
Que as vossas idéias, meus senhores, não sejam as vossas idéias, mas as idéias do Evangelho. Que a vossa doutrina não seja a vossa doutrina, mas a doutrina de Jesus Cristo. Não procureis senão a justiça e o bem. Que o desinteresse brilhe em todas as vossas convicções, é a condição essencial, para que o sucesso seja completo.

Jesus Cristo não fez só obra de inteligência e de luz; mas fez obra de vontade e de atividade. Não veio só em testemunho da verdade, mas como salvador das almas. Venit Filius hominis quaerere et salvum facere quod perierat.[1] E, para ter mais poder sobre nós, começou por fazer antes de dizer: capit facere et docere.[2] Deu-nos o exemplo, antes do preceito: Exemplum dedi vobis.[3]
Os apóstolos fizeram como Ele. Lembrando-se que eram o sol da terra, foram até aos confins da terra. A sua atividade não conheceu limites; dirigiram-se aos Gentios, como aos Judeus, aos Gregos, aos Romanos, aos Bárbaros; trabalharam, lutaram, sofreram, pagaram com a sua pessoa, e teriam podido dizer todos como um deles: Imitatores mei estote, sicut et ego Christi.[4]
O apóstolo moderno não deve ser só uma testemunha da verdade, um homem de luz e convicção, um homem desinteressado, mas um homem de ação e de vontade, um salvador em toda a extensão do termo, e não somente um discursista.
Discursistas temos de sobra.
Discursistas, os turbulentos e inúteis que levam vida alegre, que fazem demonstrações ruidosas, acompanhadas de reuniões alegres, que finalizam por banquetes, onde se proclamam os princípios libertadores; e que, no momento do perigo, não são salvadores, senão de si mesmos!
Discursistas, são aqueles que se contentam em fazer ostentação nos salões e nos clubes, em declamar, julgar e aconselhar!
Discursistas, são todos aqueles que falam em vez de agirem, ou para se dispensarem e se justificarem de o não fazerem!
Discursistas, são os rapazes que falam com muito acerto, mas praticam o contrário, e que fariam corar de vergonha os avós, se eles voltassem do outro a este mundo, pois que não querem compreender que não é o nome que dá honra, mas o uso que se faz dele, e que o nome é um encargo a mais; os rapazes que herdam de seus antepassados, mas que se deserdam, por sua própria vontade, da única herança digna de nome; a do dever, da virtude e da dedicação.
Discursistas, são os hipócritas, os ambiciosos, os vendidos, os fariseus do século vinte, que não crêem nem em uma só palavra do que dizem, que não falam senão com o fim de alcançarem uma popularidade desleal, feita de mentira e astúcia que os encubra e abrigue.
Discursistas temos em demasia!
Mas salvadores, são os homens de convicção e de ação útil, que fazem correr as suas idéias durante a vida, em prol do bem e da salvação de seus irmãos!
Salvadores, são os que sabem pagar com a sua pessoa, e compreender que não são as instituições que fazem bem, mas os homens!
Salvadores, são os rapazes que se apartam das inutilidades de tantos outros, da ociosidade, de todas as seduções da mocidade, das distrações fáceis e dos prazeres elegantes, e, na febre do trabalho, de exame, de posição a conseguir, arranjam ainda tempo, para os padroados, as reuniões apostólicas, as obras pias!
Salvadores, são os pais de família que, desempenhando funções honrosas, embora apertados pelos deveres dos seus cargos e da sua posição, vão levar aos trabalhadores, aos pobres, aos humildes, alguma coisa de seu tempo, de sua inteligência, de sua dedicação; vão falar-lhes do que lhes diz respeito, interessar-se pelos seus trabalhos e por suas vidas!
Salvadores, são os instrutores da mocidade, os Irmãos e Irmãs da caridade, os padres e religiosos que renunciaram às doçuras do lar, às alegrias da família, a tudo, para consagrarem a sua vida ao bem e à felicidade dos outros, a elevar os espíritos, a aliviar os corpos, a fortalecer as almas, a distribuir, por todos os que sofrem, os benefícios de uma dedicação, que é inesgotável, porque vem do Infinito, e volta para ele!
Eis ao que se dá o nome de salvadores! Já os temos; que Deus os multiplique! ...
Como deverá praticar o católico para ser salvador? Deverá exortar os católicos, e os que o não são, ou que só o são de nome.
Aos católicos, pregará a união e a vida. Far-lhes-á sentir a vacuidade das discussões apaixonadas, das polêmicas violentas, o mal que fazem aos que ofendem e afastam, o mal que fazem aqueles que a empregam, o tempo que se perde nisso e que se rouba à ação, ao bem, ao país. Far-se-á o eixo das exortações constantes do Soberano Pontífice, à conciliação, à paz, à concordância e à união.
Deixando de parte as antigas brigas, as palavras agressivas, irritantes, provocadoras, os epítetos que dividem ou causam desconfiança, mostrará que a união não se pode fazer, senão desfazendo-se de tudo o que é pessoal, humano, terrestre, e, por consequência, frágil e perecedouro, e elevando-se a tudo o que é necessário, divino: in necessariis unitas.[5]
Mas a união, o necessário, o divino não são a imobilidade e a morte. Pregarão a vida, a avançada, o progresso, a ação eficaz, sob todas as suas formas, com a prudência da serpente, mas também com a simplicidade, a elevação, a rapidez da pomba.
Aos indiferentes, aos hostis, aos não católicos, falarão em toda oportunidade, e em todo o encontro, em toda a parte aonde os encontrem, no quartel, nas escolas, na sociedade. Quantos erros poderão destruir, quantos preconceitos poderão fazer desaparecer, se forem seriamente instruídos, se tiverem o sincero desejo de esclarecer e não de polemicar! Aqueles que atacam a religião, conhecem-na tão pouco e tão mal, que bastará, muitas vezes, reconduzi-los à integridade do ensinamento católico, para confundi-los, ou, antes, reconciliá-los, se forem de boa fé.
Os católicos não esperarão que venham junto deles. Eles irão ter com os que não os procurarem e com os que não podem vir ter com eles, sem que os vão procurar o povo, os camponeses e os operários.
O camponês não entende de teorias; é desconfiado; não compreende mais do que o conselho imediato e prático. É difícil tocá-lo profundamente, se não se viver, ordinariamente, no campo.
Para ele, nada há como a conversação individual a um canto da lareira, na curva dum caminho ou à borda dum campo. Falai-lhe das suas terras, de seus interesses, das suas despesas; ganhei a sua confiança por meio de entrevistas privadas, ou, pelo menos, por conferências periódicas. Então, podereis entrar em questões mais elevadas.
Nos operários rurais, há uma aptidão especial, para compreenderem as teorias e raciocínios; possuem a lucidez do espírito em subido grau. Exercem continuamente sobre os camponeses, seus vizinhos, uma influência extraordinária. São eles que fazem, na maior parte, as eleições. Por meio deles, é que se pode propagar um apostolado. Por meio deles, conferências bem organizadas seriam úteis, e poderiam renovar todo o espírito rural. Veem, em multidão, às missões e não deixariam de vir a conferências leigas.
O mesmo se daria com os trabalhadores das cidades. Mas é a estes que não se devem impôr idéias. Do seu espírito crítico, censurador e liberal, resultaria um insucesso. É preciso lançar mão dos seus defeitos, criticando o que se quer destruir, procedendo por via de pesquisa, e como que procurando a descoberta do que se quer estabelecer. É por este motivo que as conferências dialogadas têm, entre eles, o maior sucesso. Quantas vezes os ouvimos nos dizerem: “Foi isso que me converteu”.
Mas todas as vossas conferências, todas as vossas conversações nada farão, se os princípios que aplicardes não forem os vossos, meus senhores; se a vossa vida não for a confirmação das vossas palavras e da vossa ação social.
O que é o desinteresse para a idéia, é o exemplo para a ação. É o desinteresse que faz aceitar a idéia; é o exemplo que confirma a ação e lhe dá uma força invencível, assim como o exemplo contrário produz a sua negação e destruição.
Sêde ordenados em vossos costumes, casai-vos, e casai os vossos filhos e as vossas filhas cristãmente; não façais deles caçadores de dotes; não receeis ter filhos; edificai os vossos criados com os vossos discursos, e sãos exemplos. Abandonai o luxo ruidoso, as festas escandalosas; renunciai a ociosidade insolente e provocadora; amai a vida familiar; honrai o pastor da vossa aldeia, sem o absorverdes em vosso proveito, isto é, sem o familiarizardes; frequentai a Igreja e os ofício divinos; sustentai as escolas, as obras pias, as associações, sem as fazerdes vossas, mas, pelo contrário, tornando-vos delas.
Esta conduta modesta, digna, dedicada, desinteressada, em uma palavra, cristã, dará às vossas palavras e ações um poder irresistível.

Bem percebeis, meus senhores, que tudo isto se não pode fazer sem amor. A razão do apostolado do Salvador, a sua força é o Seu amor: “Sicut dilexi vos”. Pôs nele todo o Seu coração. O Seu amor agiu duplamente em favor de Seu apostolado. Agiu sobre ele e sobre nós; sobre ele, para sustentá-lo, sobre nós, para nos conquistar.
O amor será também o móvel do nosso apostolado. Ele, e só ele o poderá produzir. Só ele nos tornará capazes de falarmos e agirmos. Só ele sacudirá o fundo de indiferença, de apatia e de egoísmo que se encontra no fundo de todo coração humano. É o fermento que fará levedar toda a massa; que fará desaparecer as repugnâncias naturais que temos, quando se trata de agir e trabalhar para os outros. Jesus Cristo no-lo ordena: hoc est praeceptum meum ut diligatis invicem. E, sabendo como o amor precisa ser grande para uma tal tarefa, é o Seu que nos propõe para modelo: Sicut dilexi vos.
O amor natural, a simpatia natural, de homem para homem, não são suficientes.
Ai! infelizmente, é antes a antipatias e o ódio, que os homens têm uns aos outros; e os grandes, os ricos, os felizes, não são, naturalmente, levados a gozar, a reter tudo, a desdenhar e a desprezar os pequenos?
Só o amor cristão, que vê a Deus no próximo, terá bastante força para fazer de vós verdadeiros apóstolos. Só ele será a fonte inesgotável da caridade, da dedicação ao povo, do nobre cuidado da sua inteligência, da sua vida, da sua alma e do seu corpo.
Também, só o amor cristão saberá conquistar os espíritos, os corações, as almas. A justiça é necessária: é preciso reclamá-la francamente. Sem adular o povo, sem assoprar-lhe a revolta e o ódio dos ricos, sejamos os primeiros a pedir, para ele, a justiça; o soberano Pontífice deu-nos o exemplo.
Mas a justiça não basta; nunca será suficiente; será sempre impotente, incompleta sem a caridade, sem o amor cristão. A justiça não estabelecerá senão um equilíbrio instável, que a menor injustiça, quer parta dos grandes, quer dos pequenos, romperá.
Só a caridade, compensando, pelo sacrifício voluntário, as injustiças, cometidas, assegurará a estabilidade e a paz social. Só ela unirá os corações, as almas, o país, dando aos poderosos a dedicação e o socorro efetivo; e concedendo aos fracos a resignação, o perdão e a paciência.
Mas que espécie de amor às classes elevadas deverão ter pelas classes laboriosas?
Não um amor aristocrático, um amor condescendente; a palavra traduz bem o meu pensamento; não um amor que desce, que parece descer indo até ao povo.
Estaria longe de ser suficiente. O povo não tolera que o humilhem e desprezem. São inúteis as recriminações a este respeito; é assim, e, em seu lugar, seriam os, provavelmente, como ele. O povo não pede que a gente se humilhe diante dele, mas não suporta a insolência e o desprezo; quer que se lhe fale como de homem para homem e com respeito, que o estimem como igual, que creiam nele, que tenham confiança nele, que o tenham em alguma conta.
Não está nisto o amor cristão? Jesus não disse aos Seus apóstolos: “Não vos chamarei servos, mas chamar-vos-ei meus amigos.” [6] Não devemos nós falar, agir sentir, amar, como ele?: Sicut dilexi vos.
É um amor de amigo e de irmão que se nos pede.
O amor cristão vai mais longe. Jesus lançou-Se aos pés dos Seus apóstolos e disse: “Vim para o meio de vós como quem serve.” [7] “Que aquele que quer ser o maior, se faça o menor.”[8] Acrescentou: “O que fizerdes ao menor de meus irmãos, é a mim que o fareis.[9]
O cristão, dirigindo-se aos pequenos, aos humildes, não crê rebaixar-se, mas antes elevar-se; porque a sua fé representa-lhe o pobre como que sobre um trono de glória, aonde ele saúda, honra, ama e serve a Jesus Cristo em sua pessoa.
E ao mesmo tempo que o cristão vê Deus no pobre, faz ver Deus ao pobre; faz-lh'o, de certo modo, tocar, porque o pobre sabe bem que é em nome de Deus que é socorrido, e que só Deus pode inspirar tanta caridade e desinteresse.
Assim compreendido, o amor cristão, a caridade, como seu verdadeiro nome, que é a união do amor de Deus e do amor do próximo, produzirá prodígios: prodígios de apostolado e de zelo, naquele que o praticarem; prodígios de transformação e conquista, sobre aqueles que forem o seu objeto. “Dai-me um ponto de apoio e uma alavanca, dizia um sábio, e levantarei o mundo”.
No mundo moral o ponto de apoio é Deus, a alavanca é a caridade!
O amor conduzir-nos-á à ultima virtude do apóstolo: a dedicação.
Dedicar-se é mais do que amar, é ir até os confins do amor, como Jesus, cujo Evangelho nos diz: In finem dilexit. [10]
Dedicar-se é mais do que dar a inteligência, a atividade, o coração; é dar-se completamente: o corpo, a alma ser e a vida.
Foi assim que Jesus Cristo se deu, foi assim que se tornou o nosso Redentor.
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por aqueles que ama,[11] e eu dou-a: ninguém m'a tira, dou-a livremente.”[12] Eis o Redentor.
Toma sobre Si os pecados dos outros, faz-Se vítima, e, em lugar deles, é imolado. Foi o que fez Jesus Cristo: foi sobre a Cruz que nos resgatou.
Seguindo o Seu exemplo, os apóstolos tornaram-se de todos; gastaram tudo e gastaram-se a si mesmos. Foram os mártires do seu apostolado e os redentores do mundo.
Até aí, meus senhores, devemos ir.
As meias dedicações, na família e na sociedade, não são suficientes; é preciso dedicar-vos como Jesus Cristo, até ao fim, sem vos deixardes embaraçar pelas oposições, os desprezos, os desdéns, as contradições.
Riram do Salvador, caçoaram d’Ele, trataram-no de louco, de possesso; os Seus próprios discípulos abandonaram-nO, renegaram-nO, atraiçoaram-nO; e, quando Ele morreu sobre a cruz, podia-se julgar que a Sua obra estava destruída para sempre. Foi a hora de Seu desabrochamento e do Seu triunfo.
Dedicai-vos como Jesus Cristo, sicut dilexi vos. Como Ele, oferecei as vossas preces, os vossos sofrimentos, as vossas provações, as vossas fadigas, a vossa própria vida pela salvação de vossos irmãos; dedicai-vos até ao martírio! pois “ser mártir, exclama Ozanam, é coisa possível a todos os cristãos; é dar a sua vida em sacrifício, que o sacrifício seja consumado de vez como o holocausto, ou que se efetue lentamente e arda, noite e dia, sobre o altar; ser mártir, é dar ao céu o que se tem recebido dele, o corpo, o sangue, a alma inteira”. É dedicar-se na família e para fora, para com os seus e os outros, para com a pátria e a humanidade. É dedicar-se na humildade, no sacrifício
na oração, no dever, pelo triunfo de tudo o que é justo e santo, de tudo o que é, nobre e bom. É dedicar-se ao bem dos homens e à glória de Deus, sicut dilexi vos!

Não digais: é impossível. Houve quem fizesse nos séculos passados; há quem faça no nosso século: Ozanam, Montalembert, de Melun... para não citar senão estes. Há quem o faça todos os dias à nossa vista; não se nomeiam os vivos, olha-se para eles, admiramo-los, imitamo-los; vós os conheceis. Dedicai-vos como eles. Jesus Cristo vo-lo ordena, e as necessidades dos tempos em que estamos vos fazem disso uma obrigação urgente.
Quando um exército atravessa um país assolado pelo inimigo, redobrar de disciplina e coragem, de padecimento e audácia, unir-se em volta da bandeira, e dedicar-se até à morte, é o dever sagrado do soldado, como será o triunfo, ou, pelo menos, a honra da pátria!
Tal é o mundo aonde estais, meus senhores. Invadido pelo erro, o cepticismo e todas as doutrinas falsas, arrasado pelos esforços dos maus, é um campo de batalha aonde tudo se vai decidir. Não! não! já não é permitido, já não é possível ficar indiferente. É ao redor da cruz que nos devemos agrupar todos! É, após Jesus Cristo, o nosso chefe, que devemos marchar! É, sob o Seu olhar que devemos combater, os combates da inteligência e da verdade, os combates da vontade e da atividade, os combates do exemplo e do desinteresse, os combates do amor e da dedicação! É, sob o Seu olhar, que devemos vencer ou morrer, porque se trata da justiça e do bem, da virtude e da verdade; trata-se, verdadeiramente, da vida ou da morte, da vida ou da morte das almas, da vida ou morte do mundo! Para o levantamento da pátria, para a salvação das almas e a glória de Deus, sêde, pois, os soldados e os apóstolos do dever e da dedicação; sêde os seus heróis, e, se preciso for, os seus mártires! Hoe est praeceptum meum ut diligatis invicem sicut dilexi vos.
AMÉM!


[1] S. Lucas, XIX, 10. “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que havia perecido.”
[2] Atos dos Apóstolos, I, 1.
[3] São João, XIII, 15.
[4] I.ª Epístola aos Coríntios, XI. “Sede os meus imitadores, como eu sou o imitador de Cristo”.
[5] S. Agostinho. “Nas coisas necessárias, unidade”.
[6] São João, XV, 15.
[7] São Lucas, XXII, 27.
[8] São Lucas, XXII, 26.
[9] São Matheus, XXV, 40.
[10] São João, XIII, 1.
[11] São João, XV, 13.
[12] São João, X, 18.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Fim primordial do matrimônio

A Igreja e seus mandamentos e sacramentos
por Monsenhor Henrique Magalhães

O fim principal do matrimônio é a geração e a educação da prole.
Recordemos a lição que, a este respeito, nos deu o Santo Padre Pio XI, na sua célebre encíclica - "Casti Connubii" de 31 de Dezembro de 1930.[1]
Deus Criador, na Sua infinita bondade, quis servir-Se dos homens, como cooperadores, para propagar a vida. É o que se depreende das mesmas palavras da Bíblia Sagrada, descrevendo a maravilhosa cena da Criação dos nossos primeiros pais: "crescei e multiplicai-vos e enchei a terra".
Note-se, porém, que esta ordem divina foi dada muito antes do primeiro pecado.
Santo Agostinho, comentando - com a habitual elegância dos seus escritos - as palavras do apóstolo São Paulo a Timóteo, diz: "A opinião de São Paulo é que as núpcias devem ser contraídas por motivo da prole. Quero, continua o bispo de Hipona, quero que as moças se casem, para procriarem os filhos e serem boas mães de família".
Quem reflete seriamente sobre a dignidade humana, quem crê na vida futura e espera que Deus recompense abundantemente o bem praticado no mundo; quem não vê no homem apenas um ser que, de qualquer maneira, há de se esforçar por gozar a vida, mas um futuro cidadão da eternidade, um discípulo de Jesus Cristo que deve sofrer, como seu Mestre, para merecer; quem considera a criatura racional como composta de alma e corpo - o corpo, templo da alma, e a alma, templo de Deus; quem foi educado na verdadeira escola espiritualista católica, ou ao menos crê na imortalidade da alma - não pode deixar de ver na procriação uma bênção de Deus, em favor da humanidade; uma honra insigne para as famílias, que são chamadas a desempenhar a missão de colaboradores do mesmo Criador!
A criatura racional pela excelência da sua natureza, está acima de todos os outros seres da terra. Mais ainda: Deus quer a geração dos homens não só para que eles encham o mundo, mas para que conheçam o seu Eterno Senhor, e O amem, e pratiquem o bem, especialmente a verdadeira caridade que é puro amor e finalmente sejam, pelo mesmo Deus, recebidos em Seu Reino eterno.
Não basta, porém, colaborar na continuidade da espécie. É preciso educar a prole. E essa educação há de ter por base a Religião.
Quantas mães andam esquecidas da grave obrigação que lhes é imposta: encaminhar, desde cedo desde tenra infância, seus filhinhos para, Deus! Quadros de beleza incomparável - tão comuns antigamente é hoje escasseando: as mães, juntando as mãozinhas do seu filho, ensinando-lhe as primeiras orações, traçando com o pequenino o sinal da Cruz, que há de mostrar-lhe sempre a sua dignidade de cristão!
Se a prole, no começo, não se pode prover a si mesma do necessário para a vida física, nem para a vida intelectual - nada pode certamente quanto à vida espiritual. Da grande responsabilidade dos pais. Responsabilidade que não se pode admitir desprezada, quando se trata de cristãos e muito mais ainda de católicos.



[1] As citações estão de acordo com a Encíclica.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A perfeita casada (XVI) - Frei Luís de León


Engano é a graça, e zombaria,
a beleza; a mulher que teme a Deus
é digna de louvor.


Põe a beleza da boa mulher, não nas figuras do rosto, e sim nas virtudes secretas da alma, as que são abrangidas pelo que chamamos temer a Deus.
Mas mesmo este temor a Deus que embeleza a alma da mulher, como principal beleza há de se buscar e estimar nela a questão da beleza corporal, da qual diz o sábio que é vã; porque se costuma duvidar se é conveniente que a boa mulher casada seja bela e formosa. É bem verdade que esta dúvida não toca diretamente naquilo que as perfeitas mulheres casadas são obrigadas, como naquilo que devem buscar e escolher os maridos que desejam ser bem casados. Porque ser bela ou feia uma mulher, é qualidade com a qual se nasce, e não coisa adquirida por vontade própria nem se pode impor lei nem mandamento para as boas mulheres.
Mas a beleza consiste em duas coisas, uma que chamamos de boa proporção da figura, e a outra que é limpeza e asseio, porque sem limpeza não há nada belo, mesmo que, nenhuma se não o for pode se transformar, mesmo que deseje; porém no que se refere a asseio e à limpeza, a maior parte está em seu cuidado e vontade; e a qualidade, que mesmo não sendo virtude que enfeita o ânimo, é fruto dela e indício grande da limpeza e harmonia que há na alma e no corpo limpo e asseado; porque assim como a luz encerrada na lanterna a esclarece e transpassa, e se descobre por ela, assim a alma clara e com virtude resplandecente, devido à ligação que tem com seu corpo, e por estar intimamente unida a ele, o esclarece e compõe o quanto é possível na composição da figura. Assim pois, se não é virtude do ânimo o asseio do corpo, é sinal de limpeza e asseio; pelo menos é cuidado necessário na mulher para que conserve e acrescente o amor de seu marido. Porque, que vida terá aquele que tem sempre ao seu lado na mesa, onde se senta para comer, e na cama onde vai descansar, uma mulher desalinhada e nojenta, a qual nem pode ser olhada sem torcer os olhos ou tampar o nariz?
E não será isto somente quando a veja, mas sempre que entrar na casa, mesmo que não a veja. Porque a casa e a limpeza dela terá o cheiro da mulher, cujo cargo é a ordem e a limpeza, e se for asseada ou desasseada, isso se refletirá tanto na casa, como na mesa, como na cama. A primeira parte disso que chamamos de beleza consiste em ser uma mulher asseada e limpa, coisa que está na vontade da mulher que quer sê-lo, e que convém a cada uma delas.
Mas a outra parte, que consiste na escolha da figura, não está na mão da mulher tê-la, e não convém que quem se casa busque mulher muito bela, apesar do belo ser bom, mas nem sempre são boas as que são muito bonitas. Disse sobre isso Salomão:

É coisa boa ver a fêmea formosa,
bela para os outros; porque ao marido é custoso dano e desventura.

Porque o que muitos desejam, deve ser guardado de muitos, e assim corre maior perigo, e todos gostam de coisas bonitas. E é um inconveniente gravíssimo que na vida de casados, que se ordenou para que ambas as partes descanse cada uma delas, e não se preocupe com a vizinha, escolha tal companhia, e esteja obrigado a viver com receio e cuidado que, buscando uma mulher para não ter que se preocupar com a casa, esteja atormentado e com receio, sempre que não estiver nela.
E esta beleza é perigosa, não só porque atrai para si e acende a cobiça nos corações dos que a olham, mas também porque despertam a que a tem, e gosta de ser cobiçada. Porque, se todas gostam de parecer bem e de ser vistas, certo é que as que não o são não irão querer viver escondidas; além do mais a todos nos é natural amar nossas coisas, e pela mesma razão desejar que sejam prezadas e estimadas, sendo sinal de que uma coisa é prezada quando muitos a desejam e amam; e as que se sabem belas, para crer que o são, querem que o confirme a afeição de muitos. E para dizer a verdade, já não são honestas as que gostam de ser olhadas e requisitadas desonestamente.
Assim, quem procura mulher muito formosa, anda com ouro por terra de bandidos, e com ouro que não consegue esconder e mostra aos ladrões; e mesmo não causando maior dano, já faz com que o marido se sinta afrontado; porque na mulher semelhante a ocasião que há para não ser boa por ser cobiçada por muitos, essa mesma provoca em muitos grande suspeita que não o é, e essa suspeita é suficiente para que ande de boca em boca com sua honra menosprezada e perdida. Mas quem sabe o que vale e o que dura a beleza, com que rapidez se acaba e murcha, a quantos perigos está exposta, e os tributos que paga? "Toda a carne é feno, diz o Profeta, e toda a glória dela, que é sua beleza, e seu brilho como flor de feno" (Isaías, 1).
Não é bom que pelo prazer dos olhos ligeiro e de um momento queira um homem cordato fazer amargo o estado que vai durar enquanto dure sua vida; e que para que seu vizinho olhe com alegria sua mulher, morra ele ferido de descontentamento, e que negocie com seus pesares os prazeres alheios. De modo que, mesmo que lhe pese, algum dia e muitos dias conheça sem proveito e condene seu erro e diga, mesmo tarde, o que aqui diz deste seu perfeito modelo o Espírito Santo: "Engano é a boa graça, e zombaria a formosura; a mulher que teme a Deus, essa é digna de ser louvada". Porque há de se entender que essa é a fonte de tudo o que é verdadeira virtude, e a raiz onde nasce o que é bom, e o que só pode fazer e faz com que cada um cumpra totalmente com o que deve, o temor e respeito de Deus, e levar em conta Sua lei; e o que nisso não se baseia, nunca chega ao cume.
E entendemos por temor a Deus, conforme a Sagrada Escritura, não só o temor, mas se empenhar com vontade e com obras no cumprimento dos mandamentos, e o que, em uma palavra chamamos serviço de Deus. E descobre esta raiz Salomão, não porque seu cuidado deva ser o último, mas como dissemos, o princípio de todo bem é ela; de outro modo, porque temer a Deus e guardar com cuidado Sua lei é mais próprio da casada que de todos os homens. A todos nos convém colocar nisto toda nossa vontade; porque sem isso ninguém pode cumprir com as obrigações de cristão, nem com as de seu ofício. Quero dizer que comece e acabe todas suas obras, e tudo aquilo que obriga seu estado, de Deus, em Deus e por Deus; e que faça o que convém, não só com as forças que Deus lhe dá para isso, mas principalmente para agradar a Deus. De modo que o alvo para onde se deve olhar em tudo que se faz deve ser Deus, tanto para pedir favores e ajuda, como para fazer o que deve puramente por Ele; porque o que se faz, e não é por Ele, não e totalmente bom, e o que se faz sem Ele, como coisa nossa, e coisa de pouco valor.
E assim, o temor e serviço de Deus há de ser nela o principal e primeiro, não só porque é mandado, mas também porque é necessário; porque as que assim não o fazem se perdem e além de ser más cristãs, na lei das casadas, nunca são boas, como se vê todo dia. Umas se esforçam por temor ao marido, e assim, não fazem bem mais que o que ele vê. Outras que trabalham porque o amam e querem agradar, esfriando o amor abandonam o trabalho. As movidas pela cobiça não são caseiras e sim escassas de outras virtudes. Outras que se inclinam por honra e que gostam de parecer boas e honradas, cumprem com o que parece e não com o que é, e nenhuma delas consegue o que pretende.          
Mas as que se apegam a Deus, cumprem com todo seu ofício totalmente porque Deus quer que o cumpram, e o cumprem não em aparência, mas de verdade porque Deus não se engana; e fazem seu trabalho com gosto e deleite, porque Deus lhes dá forças; e perseveram nele, porque Deus persevera; e caminham sem erros, porque não estão em sua cabeça; e crescem no caminho e vão para frente; e finalmente conseguem o prêmio; porque quem lhes dá é Deus, a quem elas em Seu ofício servem.
E o prêmio é o que Salomão, concluindo toda esta doutrina, coloca a seguir:

Dá-lhe do fruto de suas mãos,
e louvem nas praças suas obras.

É permitido fazer tatuagem?

Fonte: Maria Rosa
Por Pe. Peter R. Scott
Traduzido por Andrea Patrícia


O uso de tatuagens não é algo novo na história da humanidade. A destruição de um corpo é vista em muitas sociedades primitivas como um sinal de bravura e conquista, um verdadeiro sinal de honra.
A prática moderna de tatuagens é comparável a isso? Tatuagens estão sob a categoria de automutilação. A automutilação é certamente permissível quando realizada para o bem de todo o corpo, de acordo com o princípio da totalidade, que a parte é para o todo. Isso serve de base para a compreensão do sentido comum destas palavras do Senhor:
“Se teu olho direito é uma ocasião de pecado para ti, arranca-o e lança-o de ti, porque é melhor para ti que um dos teus membros se perca do que todo o teu corpo seja lançado no inferno”. (Mt. 5,29)
Consequentemente ninguém contesta a excisão de órgãos ou mutilação da aparência externa, que vem do tratamento de doenças graves e potencialmente fatais, como o câncer. Mas as tatuagens são uma desfiguração do corpo que não é dirigida a qualquer bem, seja do corpo ou da alma. É permitido realizar tal deformidade estética, sem qualquer finalidade objetiva, simplesmente porque se quer?
A moralidade depende da autoridade que um homem tem sobre o seu corpo. De acordo com a maneira moderna de pensar, um homem tem autoridade absoluta sobre seu corpo, para fazer com ele o que quiser. No entanto, tal não é o ensinamento da Igreja. Somos apenas administradores de nossos corpos, pois nós pertencemos a Deus Todo-Poderoso. O nosso domínio sobre o nosso corpo está limitado a usá-lo para o fim para o qual foi criado. Isto foi claramente ensinado pelo Papa Pio XI em sua encíclica sobre o casamento cristão, condenando a automutilação da esterilização:
“A doutrina cristã estabeleceu, e é de todo evidente pela luz da razão humana, que o homem não tem o direito de destruir ou mutilar seus membros ou torná-los de qualquer forma incapazes de alcançar sua finalidade natural”.
À objeção de que tatuagens não fazem mal para o funcionamento do corpo deve ser respondido que toda ação humana tem que ter um propósito, sobre o qual sua moralidade se baseia. Não existe ação indiferente na prática. Uma ação que não é boa é necessariamente má. Se não há propósito para uma tatuagem, então é no mínimo vaidade ou respeito humano, o desejo de chamar a atenção para si ou chocar os outros. Mas todos estes são motivos desordenados. Se tatuagem não é algo virtuoso e razoável, então é errado, ofensivo e pecaminoso. Este pecado pode ser venial se a tatuagem não é um ataque a Deus ou a religião, nem imoral em seu simbolismo, e se é feita por vaidade, por si só uma desordem venial. No entanto, pode ser mortal, se a tatuagem é uma blasfêmia ou irreligiosa, ou aplicada como um ataque direto ao domínio de Deus sobre o corpo.
Às vezes, é objetado que alguns católicos fervorosos têm se tatuado com cruzes e símbolos sagrados. Em tal caso, uma tatuagem pode ter como objetivo professar a fé e demonstrar exteriormente a sacralidade do corpo, consagrado a Deus Todo-Poderoso por meio do batismo. Assim, lemos na vida de Santa Joana Francisca Fremiot de Chantal que ela esculpiu o santíssimo nome de Jesus Cristo em seu peito com um ferro em brasa. No entanto, esta é a inspiração excepcional de uma santa. Em nosso tempo, muitas vezes esses símbolos são aplicados zombeteiramente, e são mais um sinal da profanação do templo de Deus que somos (I Coríntios 3,16-17) do que o contrário. Eles se referem a uma subcultura que é ateia e por vezes pagã. Eles são uma degradação do homem ao nível dos animais, que são marcados para que seus corpos tenham uma finalidade puramente utilitária.
Aqui reside a real moralidade das tatuagens. Elas são aplicadas em um espírito de rebelião e, geralmente, representam um aspecto ou outro dessa rebelião, muitas vezes impuro, bruto, violento, feio, assustador, repulsivo, se não francamente blasfemo e diabólico. É precisamente essa rebelião contra a ordem natural, essa rejeição da submissão do homem ao seu Criador, que é simbolizada pelas tatuagens, pelas quais o homem finge ter poder total sobre seu corpo, desfigurando o corpo que Deus, em sua bondade, deu a ele. É uma rebelião contra o protocolo, contra a decência, uma rebelião contra todas as expectativas sociais, contra o caráter social do homem. É por conta dessa oposição à ordem natural que as tatuagens foram proibidas nos preceitos judiciais da lei antiga:
“Você não devem fazer cortes em sua carne, para os mortos, nem devem fazer em vocês mesmos quaisquer números ou marcas: Eu sou o Senhor”. (Levítico 19,28).
Embora esses preceitos, certamente em si não obriguem em consciência, no entanto, eles não eram, em geral, totalmente arbitrários, e o mandamento de não cortar a própria carne é listado juntamente com aqueles que proíbem a consulta a bruxos e adivinhos, a adivinhação de sonhos e o de fazer da filha de alguém “uma prostituta”.
É também uma rebelião contra a ordem sobrenatural, pois a tatuagem simboliza um homem insistindo em seu direito de fazer o que quiser, sem prestar contas ao seu Redentor, mesmo até a automutilação e a autoprofanação. Ela simboliza a rejeição da sacralidade do corpo humano. É um sinal do desespero final que é tão característico da sociedade moderna: a nossa vida corpórea é um fim em si e não há nada além disso. 
Original aqui.