quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A perfeita casada (XIII) - Frei Luís de León


Rodeou todos os cantos de sua casa
e não comeu o pão em vão.


Quer dizer que se levantando, a mulher há de prover as coisas de sua casa, colocar ordem nelas, não há de fazer o que muitas agora fazem, isto é, logo que põem os pés no chão ou mesmo ainda na cama, comem seu almoço como se houvessem passado a noite trabalhando. Outras se sentam frente ao espelho e ficam se pintando durante três ou quatro horas e quando chega o marido não há nada pronto.
Salomão fala disso, não porque não houvesse falado antes, mas porque repetindo fica mais firme na memória, como coisa importante. E o diz também, porque dizendo à mulher que gire pela casa, quer ensinar o espaço pelo qual ela deve andar; é como dizer que o campo dela é a própria casa e não as ruas, nem as praças, nem as hortas, nem as casas alheias.
"Rodou, diz, pelos cantos de sua casa"; para que se entenda que deve andar pela casa, que deve estar presente em todos os cantos. Não dissemos antes que o motivo pelo qual Deus fez a mulher e a deu ao marido como companhia, foi para que guardasse a casa, e cuidasse do que o marido traz para casa? Se é próprio de sua natureza guardar a casa, não se permite que ande na rua, de casa em casa e ociosa. Diz São Paulo a seu discípulo Tito que ensine às mulheres casadas para que "Sejam prudentes, que sejam honestas, que amem seus maridos e cuidem de suas casas”. Porque Deus fez as mulheres fracas e com membros moles, para que fiquem no seu canto.
A mulher da rua perverte seu natural. E como os peixes, enquanto estão dentro d'água, nadam ligeiros, mas se por acaso saem dela ficam ali sem poder se mexer, assim a boa mulher enquanto está dentro de casa é ágil e ligeira, mas fora dela é manca e torpe.
Deus não as dotou da criatividade necessária para os negócios maiores, nem de força para a guerra e o campo, contentem-se com o que são que é sua sorte, e entendam-se em sua casa e andem por ela, pois Deus as criou para isso.
(...)

Mesmo na igreja, onde a necessidade da religião as leva, quer São Paulo que estejam cobertas, e que quase não sejam vistas pelos homens. O que há de fazer fora de casa se não tem nada a ver com as coisas que fora se tratam?
Sendo assim, as que ficam em suas casas, ocupadas (com o lar), as melhorarão e andando fora, elas as destroem. E as que andando pelos cantos ganharão a boa vontade do marido, andando pelas ruas corrompem os corações alheios e amolecem as almas dos que as vêem, as que, por ser elas moles, foram feitas para a sombra e o segredo das paredes.
E se é próprio da má mulher vagar pelas ruas, como diz Salomão nos Provérbios, temos que há de ser propriedade da boa mulher aparecer poucas vezes em público.
Diz alguém, acerca do poeta Menandro:

À boa mulher lhe é próprio e bom
continuamente estar em sua moradia,
porque vagar fora é próprio das vis.

Nem por isso pensem que não serão conhecidas ou estimadas se ficam em casa, porque ao contrário, não há nada que as faça mais apreciadas que assistir nela o ofício, como a pitagórica de Teano, em seu canto fiando e tecendo.
Porque às que assim o fazem acontece o que digo a seguir:

Levantaram-se seus filhos e a louvaram,
e elogiou-a também seu marido.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A primeira porta: Impureza

Fonte: Fiéis Católicos de Ribeirão Preto



     Não erreis, disse São Paulo, os impuros não herdarão o céu. A impureza é o amor desregrado dos prazeres da carne. Pensar voluntariamente em coisas desonestas; desejar praticar, ver, ouvir coisas escandalosas; dizer palavras, ter conversas imorais, ler livros obscenos, olhar gravuras, espetáculos, pessoas indecentes; permitir-se consigo ou com outras pessoas liberdades criminosas; praticar no sacramento do matrimônio o que a moral cristã proíbe... são pecados contra a pureza.
Dirão alguns: isso é pecado pequenino. Pequenino? Mas é pecado mortal. Diz Santo Antonino que é tal a corrupção que faz lavrar este pecado, que nem os próprios demônios podem sofrê-lo, e acrescenta o mesmo santo que, quando se cometem semelhantes torpezas, até o demônio foge de vê-las.
Considerai agora o horror que causará a Deus aquela pessoa que, como diz São Pedro, semelhante ao suíno, se revolve no lodaçal deste pecado. Dirão ainda os escravos da impureza: Deus é misericordioso, conhece a fraqueza da carne. Pois ficai sabendo que, conforme o relata a Escritura, os mais terríveis castigos que Deus descarregou sobre o mundo foram as punições deste pecado.
Abramos, com efeito, a Escritura. O mundo está ainda no começo e já os homens estão corrompidos, carnais impudicos. Deus se arrepende de ter criado o homem e por isso toma a resolução de o exterminar. Abre as cataratas do céu, a chuva cai durante quarenta dias e quarenta noites, as águas sobem até cobrirem as montanhas mais altas, e a humanidade morre afogada, abismada nas águas do dilúvio. Só escapam oito pessoas, a família de Noé que, sozinho, guardara a castidade.

Bondade

J.Guibert
A Bondade - 1907


Se, na bondade, não houvesse nenhum lugar para a vontade, ela seria inteiramente instintiva. Ele se torna humana e meritória e atrai a nossa estima, pela parte de vontade que ela contém. É exato que a vontade não intervém no mesmo grau em todos os homens dotados de bondade: mas são naturezas calmas e simpáticas, que, por serem boas, seguem a natural inclinação; outros são naturezas mais austeras e mais frias, só inteiramente boas em virtude de um esforço, como essas sementes que só dão o óleo que encerram quando submetidas a uma prensa. Os mais bem dotados, aqueles aos quais coube a “grande felicidade de nascer bons” se devem lembrar de que “toda a virtude recusa a facilidade para companheira”, e que a bondade tem tanto mais sabor quanto maior é a soma de vontade que nela entra. 

A vontade, estabelecida no centro da alma como um governador na cidadela, tem na sua mão todas as atividades do homem; ora, ela as modera, se elas se excitam; ora, as desperta, se elas adormecem; sempre ela as dirige, receosa de que não despendam, em pura perda, as suas energias fora do bom caminho. Quando ela tiver decidido, como deve, pôr a sua autoridade ao serviço da bondade, a vontade deverá reprimir os movimentos que a molestam, provocar os sentimentos e as ações que a desenvolvem, opor-se às contrafações que a desfiguram.

As melhores almas têm lutado para dominar certos movimentos instintivos contrários à bondade. São Francisco de Sales confessa que a doçura lhe custou longos e constantes esforços. Em São Vicente de Paulo a caridade não se formou sem combates, de que ele fez a humilde confissão: “Dirigi-me a Deus, conta ele, e pedi-Lhe instantemente me mudasse esse caráter seco que repelia, num espírito atraente e benigno; e, pela graça de Nosso Senhor, com um pouco de atenção que empreguei em repelir os impulsos da natureza modifiquei um pouco a minha atitude."

Quantos sentimentos incompatíveis com a bondade podem espontaneamente surgir na alma! Antipatias involuntárias, ardentes invejas, violentas cóleras, surdas oposições que tomam uma cor de ódio, etc., rebentos da má natureza, nos quais a vontade não tomou parte, mas que ela deve abafar como monstros desde o seu aparecimento na consciência. Se pertence à inteligência ver a insensatez da vergonha, é o papel da vontade desdenhá-las e repeli-las. E deve fazê-lo prontamente, pois se nisso empregasse um pouco de complacência, o coração seria logo pervertido pelo mal. 

Com igual força, deve combater certas tendências que comprimem os impulsos de bondade e tornam o homem mau para o seu próximo. É, antes de tudo, o egoísmo, em que o “eu” absorve todos os pensamentos, que não vê, nos outros, as suas necessidades nem as suas dores, mas somente o que eles lhe podem trazer de alegrias ou de dissabores, e desde então, favorece-os como úteis ou os repeli como perturbadores da tranquilidade. É, em seguida, o interesse, a ambição, forma muito aguda do egoísmo, que ignora os generosos sacrifícios de dinheiro de que a bondade se alimenta, que oprime o operário para lhe fazer dar um grande trabalho em troca de uma miserável salário, que explora a miséria e a fraqueza, e acusa da inexperiência dos simples. É o orgulho, que quer ultrapassar a tudo, mesmo à custa de cruéis injustiças, que impõe o seu domínio, sem respeitar os direitos, e a dignidade dos pobres; que, para chegar às honras, faz um degrau das vítimas de sua ambição. É a sensualidade, cujas baixas paixões, depois de terem fechado o coração a toda a delicadeza e a toda a compaixão, imolam à sua satisfação à honra, o repouso, o interesse, a felicidade de pessoas inocentes e de famílias merecedoras de respeito. Nas almas entregues a esses vícios a bondade não tem as suas entradas livres; o seu reino pacífico só se pode estabelecer numa terra purgada dessas horríveis cobiças. Será a obra da vontade preparar-lhe uma morada. 

Enquanto ela não tiver acalmado todas as tempestades interiores, a vontade deverá pelo menos compor de tal maneira o exterior que nada aí ofenda a bondade. Enquanto em nós se agitam dois homens contrários, ela fará que as exterioridades só exprimam o bem. Ele reterá, portanto, nos lábios essas palavras amargas, secas, violentas ou impregnadas de uma doçura venenosa, que levariam às almas a perturbação ou a morte. Ela suprimirá esse ar altivo que, no olhar, no andar, no gesto, imprime ao indivíduo uma atitude ofensiva. Ela impedirá esses atos de vingança, esses processos injustos, que, abertamente ou sorrateiramente, prejudicam os interesses alheios. 

Por essa firme repressão da natureza; a vontade terá já notavelmente auxiliado a bondade. Ela deve, porém, fazer mais; resta-lhe provocar positivamente os seus movimentos e os seus atos. Ela não pode permitir que nesse particular a alma adormeça; cumpre que ela a excite impulsione ou arraste. 

Eis um homem dotado de uma natureza generosa; mas é frio, reservado, embaraçado. A bondade está no fundo, e aqueles que a descobrem, dela se utilizam; mas a indiferença está na superfície, e os que não cavam o solo árido, só guardam uma lembrança de esterilidade. Pode esse homem deixar assim na sombra os tesouros de bondade que possui? Não. Tanto para explorar o dom de Deus quanto para que dele os outros beneficiem, ele deve cultivar o terreno de sua alma e trazer à flor as riquezas que ela oculta. Deve, pois, a vontade intervir, substituindo a espontaneidade que não se manifesta. E sendo a compaixão o primeiro sentimento que comove um coração e o abala, deixai o bem estar egoísta de vossa casa, ide visitar os que sofrem, os pobres, os doentes, os abandonados, os humilhados, os vergonhosos, aqueles que choram, aqueles que o infortúnio arruinou, aqueles que o desespero tornou maus... Não se contempla impunemente tantas misérias. Diante desse espetáculo lamentável, os corações pervertidos se conservam insensíveis; mas o vosso, adormecido apenas despertará e dentro em pouco baterá o doce ritmo da bondade. 

Desde que se tornar ativa, a vossa bondade será generosa, mas se lhe falta fôlego e energia seja ela socorrida pela vossa vontade. Se não dais por entusiasmo, daí, ao menos, aconselhado pela razão. O sacrifício espontâneo é um gesto mais belo, mas o dom refletido é um ato tão meritório. Com o sangue frio que calcula, tende, pois, por convicção o desinteresse que não poupa a fortuna, nem saúde, nem o trabalho. Por ser comandada e voluntária, a vossa dedicação nada perderá do seu valor útil. 

Do mesmo modo, se a benevolência não fizer parte do vosso temperamento, tentai incluí-la, pelo esforço, na vossa segunda natureza. Desfazei as asperezas que molestam, quebrai esse invólucro que vos aprisiona o coração, desvendai essa bondade que se oculta. Deixai-a revelar-se na suavidade do vosso olhar, na serenidade de vossos traços, na simplicidade de vossas maneiras, na lhaneza de vossa atitude, na afabilidade de vossas palavras. Tudo em vós deve ser atraente, a amenidade de vosso acolhimento com o encanto de vossa conversação. Mostrai que não vos importuna quem vos visita, que não vos fatigam as longas confidências, que não anseias por que vos deixem sós. Desse modo, não sereis um encargo para ninguém, e sereis um abrigo para muitos. Não ofendereis nunca e proporcionareis sempre um bem-estar moral. Mas até que o exercício perseverante vos tenha dado a desejada perfeição, não será necessário que a bondade vos imponha uma salutar violência? 

Seja a bondade natural, ou constitua uma virtude adquirida, cumpre que a vontade a preserve de se desviar do bom caminho. Mas essa vigilância se deve exercer particularmente sobre as naturezas ardentes e originais de que se podem recear todos os excessos. Vivas, generosas, impetuosas mesmo, ora elas empregam delicadezas que se tornam indiscretas, ora se abandonam a uma sensibilidade que degenera numa espécie de egoísmo. A bondade não é ela mesma, se não observa uma justa medida; nós teremos, mais longe, a ocasião de dizer que tudo o que são dos limites da prudência será a sua contrafação Compete à vontade, ainda, a tarefa de pôr ordem e harmonia na caridade.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

As sete portas do inferno - Introdução


DESPERTADOR DA ALMA
 O inferno e as portas do inferno
O inferno


Há um inferno.

1º. A Sagrada Escritura nos diz que há um inferno. Jesus Cristo disse: não temais os que podem matar o corpo, temei os que matam o corpo e a alma e os precipitam no inferno. — Se vosso olho, vossa mão, vosso pé vos escandalizam, — isso é, são para vós ocasião de cometerdes o pecado, — arrancai-os e lançai-os longe de vós, para não cairdes no inferno. — O rico avarento foi sepultado no inferno e do meio de seus suplícios bradava: Estou atormentado horrorosamente nas chamas devoradoras, dai-me uma gota de água para refrescar a língua. — No dia do juízo Jesus dirá aos condenados: — Ide, malditos, para o fogo eterno. — São claras estas palavras. Ou há um inferno ou o Evangelho é mentira. Há um inferno ou Jesus nos engana.

2º. A razão nos diz que há um inferno. Dois homens que seguem dois caminhos opostos não podem se encontrar no mesmo ponto. Podem encontrar-se e ter a mesma sorte os homens que seguem, uns o caminho do bem, outros o caminho do mal? O justo e o pecador, a vítima e o assassino, a virgem e o sedutor, o mártir e o algoz, a mãe de família honesta e a mulher perdida, podem ir para o mesmo lugar? Suponhamos que São Pedro e Nero tivessem morrido no mesmo dia e que juntos comparecessem perante o tribunal de Deus. Jesus Cristo pergunta a São Pedro: Que fizeste durante a vida? Senhor, era um pobre pescador. Vós me chamastes para ser pescador de almas. Deixei tudo e vos segui. Desde então sabeis qual foi minha vida: rezar, jejuar, pregar, batizar, converter os pecadores, salvar as almas, até que fui preso, lanhado na cadeia e crucificado por amor de vós. — Eis minha vida e minhas obras. — E tu, Nero, que fizeste? — Eu era imperador de Roma, gozei, e para gozar não recuei diante de nenhum crime. Zombei de Deus e da virtude, mandei assassinar minha mãe e meu irmão, queimar vivos milhares de cristãos, queimei a cidade de Roma. Afinal, perseguido pelo povo revoltado por meus crimes, suicidei-me. Eis minha vida e minhas obras. — Notai que são fatos históricos, coisas que realmente se passaram. E agora, quereis que Deus diga: muito bem, Pedro, muito bem, Nero, vão para o céu? Ou então que diga: vão para o inferno? Nossa razão protesta e nos diz que deve haver uma recompensa para São Pedro e um castigo para o monstro que se chamou Nero. Este castigo é o inferno. Há um inferno.

3º. A experiência nos diz que há um inferno. Dizem os libertinos: nunca ninguém voltou do inferno para nos dizer que há um inferno. É precisamente o que o inferno tem de terrível. Dali ninguém volta. Ninguém sai do inferno, diz a Escritura. No entanto, por uma disposição especial da Providência Divina, por exemplo, para nos instruir, isto pode acontecer e de fato tem acontecido. S. Francisco de Girólamo pregava em Nápoles, em frente de uma casa em que morava uma mulher de má vida que perturbava a missão com seus gritos e suas gargalhadas. De repente esta cai morta. O santo, logo que soube o que tinha acontecido, foi à casa dela. “Catarina, disse ele, onde estás?” E duas vezes repetiu as mesmas palavras.   Repetiu-as uma terceira vez com mais autoridade; e os olhos do cadáver se abrem, seus lábios se movem e na presença de toda a multidão, uma voz, que parecia sair do abismo, respondeu: “no inferno, no inferno!” Todos fogem, tomados de assombro, e o próprio santo, impressionado, repetia: “no inferno! Deus terrível, no inferno!” É um fato absolutamente certo, a tal ponto que serviu de milagre para a canonização do santo. Há um inferno.

Que é o Inferno

Todo o inferno está nesta palavra de Jesus Cristo: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno”.
1º. O inferno é a separação, a perda de Deus. “Afasta-te de mim, pecador”. É assim que Deus repele para longe de si a alma pecadora. É a perda de Deus, a perda da suma beleza, da suma bondade, do sumo bem. Enquanto nossa alma estiver presa no cárcere da carne, não poderá nunca compreender a imensidade desta desgraça que, na frase dos santos, constitui o inferno dos infernos.

O Apóstolo I - Parte I

 O APÓSTOLO

Da obrigação de ser apóstolo
Demonstrada pela condenação do inútil
Padre Emmanuel de Gibergues
Servum inutilem ejiciste.
Rejeitai o servo inútil.
S. Mateus, XXV, 30.

Meus senhores,
É um processo que vamos instaurar esta tarde. É um acusado que se julga inocente, e que dorme na mais profunda ilusão: o servo inútil, “Servum inutilem”, que vamos citar, sucessivamente, perante seis tribunais, que o condenarão sem piedade: o tribunal de Deus, do Evangelho, da razão, da sociedade, da natureza e de seus próprios interesses.
Primeiramente, é necessário precisar bem a questão, tornar conhecido o acusado, descrevê-lo em termos nítidos e precisos. Vou tocar numa chaga viva da nossa sociedade moderna: entristecerei alguns, darei prazer a outros. Lembrai-vos, meus senhores, que os missionários e os apóstolos têm todos os direitos, porque falam em nome de Deus, e porque tudo o que dizem lhes passa pelo coração, ou antes pelo coração de Deus, para penetrar no vosso, para o bem e salvação de vossas almas.
O inútil é aquele para quem a moral tem duas partes: uma que ele aceita e outra que rejeita. Declina a malo, et bonum[1]; eis a moral. Declina a malo, evitar o mal, não o consegue sempre; muitas vezes, não o evita absolutamente; mas, enfim, reconhece que faz mal, e que deveria evitá-lo.
Fac bonum, fazer o bem, não se julga obrigado a isso; não vê nisso senão um conselho, e não uma obrigação determinada e um dever.
O inútil é aquele que se dá por justificado perante Deus, se não pratica o mal, embora não pratique o bem. Para ele, não há pecados por pensamentos, por palavras e obras; nem existem pecados por desmazelo ou desleixo.
O inútil é aquele que guarda os dons que recebeu de Deus sem fazê-los frutificar, ou fazendo-os frutificar somente para ele próprio.
Poderia aplicar-se aqui a reflexão de Diderot, escrita por ele, já no fim da sua vida, na margem dum capítulo de Seneca sobre o número dos anos perdidos: “Nunca li este capítulo sem corar; é nele que está a minha história”.
O inútil é aquele que recebeu inteligência e que a não cultiva, ou cultiva-a somente para si próprio, para seu prazer e satisfação. Poderia falar, escrever, fazer obras úteis, prestar serviços, combater o erro, o mal, esclarecer os espíritos, propagar a fé nas almas, mas não o faz!
O inútil é aquele que possui fortuna e a emprega somente em satisfação dos seus prazeres. Poderá fazer algumas esmolas, e, às vezes, importantes, para dar na vista, ou para acalmar a consciência; mas nunca dará o que poderia e deveria dar. Poderia fazer muito bem, sustentar famílias inteiras, auxiliar ou criar obras meritórias, empregar, enfim, a sua fortuna magnificamente. Mas nunca tem bastante para os seus cavalos, os seus cachorros, as suas caçadas, as suas viagens, os seus prazeres, as suas reuniões, o seu modo de viver, as toiletes de sua mulher... - ia a empregar o plural, mas já não seria a vida inútil, para ser a vida culpada.
O inútil é aquele que desperdiça a sua fortuna, em vez de empregá-la em conformidade com os sentimentos cristãos e com os desejos de Deus.
O inútil é aquele que tem tempo e não o emprega senão em prazeres. Sempre muito ocupado! No inverno: no clube, bailes e espetáculos; no verão: nas águas, nas viagens; no outono, na caça.
O inútil é aquele que profana a coisa sagrada, que se chama o tempo na ociosidade e no prazer.
O inútil é aquele que tem influência ou que poderia tê-la, sobre os seus semelhantes, na família, sobre sua mulher, seus filhos, seus criados, ao redor de si, sobre seus amigos, parentes, no seu distrito, sua aldeia, seu cantão, seu departamento, seu país, e que não a tem porque se não quer incomodar. Prefere despeitar-se com o seu tempo e século - é mais cômodo -; queixar-se de que tudo vai mal, e esperar um salvador que caia do céu, a quem pediria com mais empenho, se tal acontecesse, o aumento do aluguel dos seus prédios ou terras, do que a restauração ou engrandecimento do país.
O inútil é aquele que se podia casar e não quer, para viver mais sossegado; que poderia ter filhos, e não os tem, porque não quer; ou só tem um, porque não quer ter o cuidado de muitos.
É aquele que não se interessa pela educação de seus filhos, e não lhes pede senão que o deixem sossegado. É aquele que não procura ao pé de sua mulher, senão satisfações e prazeres; que não lhe pede senão que seja a alegria e o encanto de sua vida, sem ocupar-se de desenvolver, o espírito, a vontade, o coração, a alma de sua esposa, de educá-la, de instigá-la à pratica do bem, à santificação, às boas obras, e que é capaz de impedir, até, o bem que ela deseje fazer, porque isso mesmo incomodá-lo-ia.
O inútil, em sentido ainda mais elevado[2] é aquele que trabalha, cuja vida está preenchida, mas que só visa a um fim: ter mais comodidades, ter mais êxito.
É aquele que pratica boas obras, mas somente por filantropia, ou por necessidade de atividade ou de soberana.
É aquele que deseja alcançar uma situação elevada, mas para seu próprio interesse, e não para servir o país.
É aquele que, inutilizado pela idade, ou pelo sofrimento, se revolta e murmura, em vez de submeter-se à vontade de Deus, e transformar em apostolado a sua inação forçada e as suas provas.
Todas estas vidas ocupadas, completas pelo sofrimento, trabalho, afazeres, que poderiam ser muito úteis, se fossem dirigidas para Deus, tornam-se inúteis perante Deus, porque lhes falta à intenção sobrenatural, e só é útil, no sentido cristão, o que se faz em honra de Deus.
Como vedes, há graus e categorias na inutilidade da vida. Pode-se ser um pouco inútil, muito, ou completamente inútil; duma ou doutra maneira; nisto ou naquilo...
Que cada um de vós, meus senhores, se examine, e medite para ver sobre o que há de recair a condenação que vamos pronunciar.
Se a vossa vida é totalmente inútil, empenhai-vos em transformá-la.
Se houver lacunas, preenchei-as. Se a intenção for má, corrigi-a.
Se a vossa vida for boa e útil, firmai-vos no bem: compreendei melhor as razões de nela permanecerdes; e lembrai-vos desta instrução para a repetirdes a outros, que não estão aqui, e que teriam grande necessidade de ouvi-la.
Assim, para um de vós, meus senhores, a palavra de Deus não ecoará no deserto; mas frutificará em vossas almas.



[1] Salmo, XXXVI, 27. “Evita o mal, e faze o bem.”
[2] São Mateus, VI, 22.

domingo, 21 de outubro de 2012

Prática da simplicidade: conclusões

Nota do blogue: Com esse capítulo finalizo a transcrição desse belíssimo livro. Espero que ele seja útil para muitas almas, assim como foi para a minha, com certeza, um dos melhores livros que tive a graça de ler. Oxalá que Nosso Senhor tenha muitas almas amantes e simples aos pés de Sua Cruz.

Letícia de Paula
A Simplicidade segundo o Evangelho,
Instruções às senhoras e jovens por Monsenhor de Gibergues, 1945

Sede, portanto, simples para fazer de Deus vosso objetivo, para O procurardes como último fim, para considerá-lO como termo de vossas ações.
Sede simples para vos apoiardes em Deus como meio.
Simples para serdes humildes, para reconhecerdes que nada podeis fazer por vós mesmas, e que, abandonadas às próprias forças, vos será impossível realizar qualquer bem, como vos declara Nosso Senhor: "Sem mim, nada podeis fazer."[1]
Sede simples também para serdes confiantes, para vos persuadirdes de que, apoiando-vos em Deus e contando com Sua graça, não sereis enganadas, e que "tudo podereis naquele que vos fortifica.”[2]
Simples, para verificar vosso nada, vossa miséria, vossos pecados, para vos desprezardes profundamente.
Simples, para considerar o coração e o amor de Deus, Sua infinita bondade, e para repousar na Sua graça com a mais inabalável segurança.
Sede simples nas menores como nas maiores coisas, principalmente nas menores, porque as ocasiões de praticá-las se sucedem com freqüência e porque são muito agradáveis a Deus.
“Feriste o meu coração, exclama o esposo no Cântico dos Cânticos, arrebataste o meu coração com um dos teus olhos e com um dos teus cabelos."[3]
Que haverá de mais admirável, essencial e importante do que um olho? Que haverá de mais vil que um fio de cabelo? Preparai-vos para sofrer, para carregar pesadas cruzes, levando o vosso amor até o martírio, oferecendo a Nosso Senhor o que tiverdes de mais caro, até vossos olhos e, se necessário, vossa vida, e assim comovereis Seu coração por essas grandes coisas. Não negligencieis, porém, as menores, e, de acordo com o conselho expresso do Apóstolo, oferecei a Deus o que há de mais corriqueiro em vossa vida, até o alimento e o sono, e assim comovereis o Seu coração também pelas pequeninas coisas.
Quando Santa Catarina de Siena se entregava às mais sublimes meditações e caía em êxtase, quando ensinava aos grandes da terra, arrebatava o coração do celeste esposo pelo olho da sabedoria e da contemplação. Mas O agrava menos do que quando, por obediência ao pai, aplicava-se aos mais humildes serviços caseiros e tranquilamente continuava suas meditações no meio desses mesquinhos trabalhos. Considerando o pai como Nosso Senhor, a mãe como a Santíssima Virgem e os irmãos como os apóstolos, dedicava-se com alegria a tudo que lhe mandavam fazer.
E vós, embora vos devoteis às grandes coisas, às mais importantes e às mais excelentes obras, praticai também por Deus as pequenas e humildes virtudes que nascem como flores aos pés da cruz: suportar um pequeno sofrimento, uma enfermidade passageira, uma contrariedade, decepções, mágoas, humilhações e todas as insignificantes ocupações que existem no lar ou fora dele. Como tais ocasiões se repetem a cada instante, que fonte de riquezas espirituais poderíeis acumular, se as soubésseis aproveitar!
Não compreendeis, então, que o que mais vos falta é a simplicidade? Oh! que vos faltaria se fosseis verdadeiramente simples, simples em tudo, e qualquer encontro com Deus, com os outros e até convosco?
Tendes bom coração e o sabeis, disso dais prova e com isso concordais. Às vezes, chegais a dizer que o sentis demasiado, tanto ele vos faz sofrer!  
Tendes energia e força de vontade, e cada dia as desenvolveis e as despendeis sem conta. E, às vezes, é incalculável o quanto as utilizais em proveito de vossas paixões.
Tendes delicadeza, tato, sutileza, que causam vossos mais belos triunfos!              
Tendes nobres e generosas aspirações e impulsos admiráveis! Sois formadas na abnegação e no devotamento!              
De posse de tão admiráveis qualidades e tão poderosas virtudes, como podeis levar tantas vezes uma vida frívola, nula e inútil, e até detestável, culpada e escandalosa?
Que vos falta? Repito-o, falta-vos a simplicidade.
Não sabeis orientar vossas qualidades, vossas forças não as sabeis utilizar; deixais que se percam e esqueçam, porque não sois simples.
A simplicidade tudo exalta, tudo dirige, e faz com que tudo concorra para a glória de Deus.
Olhai a pomba! É maravilhosamente constituída para elevar-se nos ares, pairar e atingir em tempo as mais altas e longínquas regiões. De quê necessita para isso? De uma única coisa: abrir as asas e servir-se delas.
Digo-vos ainda: a pomba sois vós! A asa toda poderosa é a simplicidade. Que esperais, então, para utilizá-la?
Abri, abri as asas! E, em pouco tempo, com voo poderoso e rápido, transporeis incomensuráveis distâncias e chegareis a Deus.



[1] S. João. XV, 5.
[2] Ep. Filip., IV, v3
[3] Cânticos IV, 9.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O PAI - A sua importância e os seus deveres - Final

Padre Emmanuel de Gibergues


A última educação do moço, não é a menos importante. Trata-se de premuni-lo contra os perigos que vai encontrar na vida; contra os assaltos, até aí desconhecidos, das suas próprias paixões, contra o arrebatamento de tudo o que é novo e sedutor.
Mas ainda não é o momento de dizer: Tudo está concluído; não resta senão rezar. Sem dúvida; é preciso que redobrem as orações, mas é também preciso agir, não ficar em inação.
A autoridade deverá ser exercida com mais brandura, com mais ponderação e deve revestir-se de mais doçura, tato e circunspeção; mas deverá conservar-se vigilante e firme, não se conformar com o mal, dizendo: todo o mundo faz assim é preciso passar a mocidade; mas dizer, pelo contrário: “Não! o meu filho, não será como toda essa gente: é preciso que a sua mocidade, o seu sangue e a sua virtude se conservem intactos, para Deus, para a pátria e para a família que, por sua vez, há de constituir”.
Falai-lhe dos seus futuros deveres, de sua família, de seus filhos e de sua esposa! Em tudo isto há uma fonte de sentimentos nobilíssimos, muito poderosos, que, maravilhosamente, hão de vir em socorro da religião, que há de sustentá-lo nas terríveis lutas que vai sofrer e assegurar-lhe e vitória. Fazei pairar, com antecipação, sobre a sua vida, a imagem da terna e inocente donzela e a dessas nobres criatura que se lhe assemelharão, e das quais ele será pai.
Dar-lhe-eis deste modo, força maravilhosa, e assim o protegereis e o preservareis...
Se cair, não penseis que está tudo perdido; não desespereis, para que não fique com vontade de desesperar-se também. Sede bons, perdoai-lhe, levantai-o; nunca o façais perder a confiança em vós, em vosso coração.
Mas sede firmes e sem fraquezas. Há horas em que só o pai pode salvar o filho; só ele é que terá bastante autoridade e força para isso. Só a voz da natureza e do sangue será bastante poderosa para ser atendida.
Enfim, ajudai vossos filhos na questão grave do futuro, que não podem decidir a sós. Tratando-se de vocação religiosa, sondai-lh'a com prudência; mas não lhe ponhais obstáculos. Se a vocação não for de Deus, cairá por si perante estas prudentes medidas. Se for de Deus, que mal e que erro seria a vossa oposição a Deus! Que consequências para o futuro de vossos filhos!
Tratando-se de casamento, ponde de parte a ambição, a avareza, o egoísmo, e colocai-vos francamente sob o ponto de vista do verdadeiro bem de vossos filhos, e sob o ponto de vista cristão. Assegurai-vos da moralidade e sentimentos religiosos, da saúde, do caráter, do gênero de educação e da família. Tomai bem as informações, nunca serão demasiadas; sede desconfiados e não crédulos.
Em seguida, deixai a palavra ao interessado; não precipiteis nada; dai tempo para se verem e tornarem a ver: para se conhecerem, para saberem se são do agrado um do outro; nunca forceis um coração; as consequências poderiam ser desastrosas.
Tratando-se, finalmente, duma carreira a seguir, esclarecei e auxiliai-o com os vossos conselhos, mas guiai-vos sempre por vistas elevadas e por motivos nobres e cristãos; depois deixai o rapaz seguir livremente a sua inclinação e as suas aptidões; não lhe imponhais nunca a vossa vontade pessoal.

É na Escritura Sagrada, meus senhores, que deveríeis ler a importância do pai, e de seus deveres, as bênçãos permitidas aos que os cumprem, as infelicidades e os castigos dos que os desprezam. Deixo isto ao vosso cuidado. Vereis que não há palavras mais surpreendentes em qualquer outro assunto, do mesmo modo que não há palavra mais temível do que a que o Salvador dirige aqueles que fazem mal às crianças: “Aquele que houver escandalizado um destes pequenos, seria melhor que lhe atassem uma pedra ao pescoço e fosse lançado ao fundo do mar”.
Como será terrível no dia do juízo a responsabilidade dos pais! Ah! que bênçãos para aqueles que houverem compreendido os seus deveres, e os tiverem preenchido digna e corajosamente, para aqueles que tiverem sido os salvadores de seus filhos, e, por eles, de inúmeras gerações!
Mas que maldições cairão sobre aqueles que tiverem desprezado os mais santos e mais sagrados de todos os deveres; sobre aqueles que tiverem sido o escândalo e a perdição de seus filhos, e, por eles, de muitos outros!
Se, em nossos dias, há um espetáculo que entristeça profundamente os que se importam com a virtude e o bem, com o futuro da religião e do país, é o espetáculo da decadência da autoridade paterna. Têm-se atacado a autoridade e os direitos de Deus, a paternidade divina; têm-se exaltado os direitos do homem, o direito dos filhos, nos escritos, nos discursos, nas leis, de todos os modos. Um sopro forte de independência passou sobre as novas gerações. A autoridade paterna tem sido profundamente abalada nos costumes e nas leis, minada pela base, descoroada, desarmada! Os mais ilustres pensadores disseram-no, e soltaram o brado de alarma.
Os filhos já não querem obedecer: querem mandar antes do tempo; elevam-se acima dos pais, e acham-se superiores em tudo. Acabou-se a autoridade, acabou-se o respeito, acabou-se a submissão, acabou-se a família. É o individualismo excessivo; é a sociedade que se pulveriza.
Quem nos tornará a dar homens? Quem tornará a fazer cristãos, para que a sociedade se erga? São as famílias cristãs, os lares cristãos, os únicos capazes de fazerem reflorescer ainda a autoridade, o respeito, a obediência.
São os guardas do lar, os chefes de família; são os pais!
Disseram bem: “Os filhos são a colheita dos pais.” Se já não temos homens, ou pelo menos se não temos bastantes; se a colheita é demasiadamente rara, se os celeiros da França estão vazios, é porque nos faltam pais, pais cristãos.
E eis porque, na tormenta que nos agita, todos os que, pensando no futuro não se querem desanimar, todos os que guardam no coração uma confiança invencível e esperanças imortais, se voltam para os pais, e lhes rogam que se conheçam a si mesmos, para compreenderem a grandeza de seus deveres e a sua influência soberana, e para lhes dizerem: “É de vós, ó chefes de família, ó representantes de Deus, ó dispensadores da vida, ó guardas da infância, é de vós, ó pais cristãos que dependem neste mundo, os bens e os males, a virtude e o vício, a grandeza e a decadência, a vida e a morte da família e da sociedade, dos indivíduos e do Estado, da Igreja e da França!" 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Notas espirituais de Padre Júlio Maria de Lombaerde

Nota do blogue: Segue algumas notas espirituais do Padre Júlio Maria de Lombaerde retiradas do livro Règlement, livro que recebi de presente do casal Delazari junto com duas lembranças (quem sabe futuras relíquias?!) deste grande Padre. Agradeço imensamente ao casal, Deus lhes pague!

Letícia de Paula


Ø Não recusarei nada a Deus, mas em todos os acontecimentos, sejam agradáveis, sejam desagradáveis, considerarei tudo como vindo das mãos de Deus e me esforçarei para relacionar tudo com a Sua glória. Interrogar-me frequentemente: "Para quem ajo agora"? - Depois, rever minha intenção a fim de que Deus seja seu único móvel.

Ø  União com Deus e, para isso, grande modéstia dos olhos e discrição nas minhas palavras a fim de fazer todas as minhas ações para a maior glória de Deus e exterminar o meu amor próprio. Praticar, nas sextas-feiras e sábados, o voto do mais perfeito, sem fazer disto o voto, por simples promessa a Nosso Senhor e a Maria. - Escolher, nesse caso, entre diferentes coisas boas, o que menos me apetece.

Ø  Esforçar-me por observar escrupulosamente até o menor ponto da regra. Tomá-la-ei por assunto de leitura habitual de meditação e de exame particular.

Ø  Aplicai-vos à humildade, pois tendes certas disposições naturais para o bem do Instituto, desde que saibais conservar-vos na humildade, sem o que seríeis uma pedra de tropeço. Não pegueis nada para vós, não deis logo vossa opinião em coisas de que não sois diretamente encarregado. Eu vos farei avançar mais. Eis um motivo a mais para serdes bem mais humilde, sem o que poderíeis aborrecer aqueles que são mais velhos do que vós. Sede muito discreto e atencioso para com tudo o que vos é confiado, que vosso coração seja como um túmulo, onde se possa depositar tudo, sem receio de que isso venha a aparecer um dia. Sede, no meio de vossos discípulos, como o homem de Deus, fazendo o bem e não procurando a não ser a glória de Deus, sem seguir sentimento próprio de aversão ou de preferência. Evitai dar asa à crítica ou à inveja; que ninguém se escandalize convosco!

Ø  Delicadeza e doçura no relacionamento com os meus confrades. Considerá-los todos como acima de mim.

Ø  União com Deus. Revisão frequente de minha vida a fim de dirigir todas as minhas ações para a maior glória de Deus e a fim de aceitar, com generosidade, tudo o que me acontecer. Começara cada meia hora - uma revisão e reparação - marcar o resultado.

Ø  A perfeição exige esforços, lutas, combates. Nosso Senhor me deu o exemplo, - Ele se tornou verme da terra. Se houvesse um outro meio de conquistar o céu, Ele nos teria mostrado. Mas não há. É pelas lutas, humilhações, desprezo que Ele passou e fez passar Sua Mãe, Seus Apóstolos e Seus santos. Nenhuma exceção. Deve ser portanto a verdadeira e única via. A vontade de entrar nesta via não é suficiente. É preciso a ação, a ação sustentada. Meu Deus, eu quero entrar. Desde hoje, tomo a Vossa Cruz, e quero levá-la na humilhação, no sofrimento. Eu quero tomar-me um santo. Sustentai-me, dai-me a Vossa graça para jamais desfalecer. Que nenhuma dificuldade me faça desistir. A vista de J. M. J. (Jesus, Maria e José) deve me encorajar eu devo me sentir feliz por seguir as Suas pegadas, humilhado como eles, pobre e obediente como eles.

Ø  Para ser inteiramente de Deus, é necessário que o coração esteja livre do menor apego. A menor afeição desregrada a uma pessoa ou a uma coisa é suficiente para paralisar todos os esforços e impede a completa união com Deus. Por conseguinte: desapego absoluto de tudo - oração contínua e atos constantes. "Contraria contrariis curantur". (contrários curam-se pelos contrários - máxima da medicina clássica). Não tenhais perfeição especulativa, mas prática. Não são aqueles que dizem: "Domine, Domine" (Mt. 7, 21) que entrarão no céu. São os violentos. A oração prepara a ação e leva a ela. É o meio, não o fim.

Ø  Estando para emitir os meus votos perpétuos, é preciso que eu me doe a Deus sem reserva. Livre de preocupações é preciso agora, depois de ter exortado os outros, que eu ponha em prática as minhas instruções. 

São Lucas, Evangelista

Fonte: Escravas de Maria
18/10 Quinta-feira
Festa de Segunda Classe
Paramentos Vermelhos


São Lucas, o Evangelista (do grego antigo Λουκᾶς, Loukás). São Lucas é representado pelo boi, o qual era o animal sacrificado no Templo de Jerusalém; tem em vista demonstrar o caráter sacerdotal de Cristo. Daí ter como símbolo o boi, animal sacrificado no Templo. O touro simboliza também a força, a virilidade do homem, a fecundidade e como o evangelista narra com mais descrição o nascimento do salvador quer mostrar esse lado humano de Jesus, forte, impulsivo, e até fecundo mesmo. A figura do boi, também caracteriza, com seu alto mugido a mensagem de Cristo para salvação, o que transparece da narração de Lucas.    
                                                                  
São Lucas é chamado por Paulo de "O Médico Amado"(Colossenses 4:14), pode ter sido um dos cristãos do primeiro século que conviveu pessoalmente com os doze apóstolos. Evangelista cristão de formação grega nascido em Antióquia, na Síria, é, segundo, a tradição, autor do Terceiro dos Evangelhos Sinóticos e dos Atos dos Apóstolos, seus textos são os de maior expressão literária do Novo Testamento. Por seu estilo literário, acredita-se que pertencia a uma família culta e abastada e, de acordo com a tradição, exercia a profissão de médico e tinha talento para a pintura. Converteu-se ao cristianismo e tornou-se discípulo e amigo de Paulo de Tarso, porém segundo seu próprio relato, não chegou a conhecer pessoalmente Jesus Cristo, pois ainda era muito criança quando o Messias foi crucificado. Paulo o chamava de colaborador e de médico amado e segundo o testemunho dos Atos dos Apóstolos e das Cartas de São Paulo, que constituem os únicos dados biográficos autênticos, acompanhou o apóstolo em sua segunda viagem missionária de Trôade a Filipos, onde permaneceu por seis anos seguintes. Depois novamente acompanhou Paulo, desta vez  numa viagem de Filipos a Jerusalém (57-58). Também esteve presente na prisão do apóstolo em Cesaréia e o acompanhou até Roma. Com a execução do apóstolo e seu mestre (67), deixou Roma e, de acordo com a tradição cristã, enquanto escrevia seu Evangelho, teria pregado em Acaia, na Beócia e também na Bitínia, onde teria morrido (70). Porém existem várias versões sobre o local e como morreu. Uma versão registra que foi martirizado em Patras e, segundo outras, em Roma, ou ainda em Tebas.


São Lucas sem dúvida conversava muito com a Mãe de Nosso Senhor Jesus e com São João. Sempre andava com uma pintura de Nossa Senhora com ele, e ela foi o instrumento de varias conversões. Na verdade ele foi um grande artista e grande escritor, e suas narrativas inspiraram grandes escritores e grandes mestres da arte, mas as pinturas existentes da Virgem, a qual é dito que ele teria pintado, são trabalhos de datas bem mais recentes. Não obstante alguns julgam que a pintura de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro teria sido pintada por ele. O documento traduzido por São Jerônimo, trouxe a informação que o evangelista teria vivido até os oitenta e quatro anos de idade. A tradição diz que sua morte pelo martírio em Patras, na Grécia, foi apenas um legado dessa antiga tradição cheio do Espírito Santo, na Bitínia.
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Epístola
II Coríntios 8, 16-24
    
16.Bendito seja Deus, por ter posto no coração de Tito a mesma solicitude por vós.17. Não só recebeu bem o meu pedido, mas, no ardor do seu zelo, espontaneamente partiu para vos visitar.18.Juntamente com ele enviamos o irmão, cujo renome na pregação do Evangelho se espalha em todas as igrejas.19.    Não só isto, mas foi destinado também pelos sufrágios das igrejas para nosso companheiro de viagem, nesta obra de caridade, que por nós é administrada para a glória do Senhor, em testemunho da nossa boa vontade.20.Queremos evitar assim que alguém nos censure por motivo desta importante coleta que empreendemos, 21.porque procuramos fazer o bem, não só diante do Senhor, senão também diante dos homens.22.Com eles enviamos ainda outro nosso irmão, cujo zelo pudemos comprovar várias vezes e em diversas ocasiões. Desta vez se mostrará ainda mais zeloso, em razão da grande confiança que tem em vós.23.Quanto a Tito, é o meu companheiro e o meu colaborador junto de vós; quanto aos nossos irmãos, são legados das igrejas, que são a glória de Cristo. 24. Portanto, em presença das igrejas, demonstrai-lhes vossa caridade e o verdadeiro motivo da ufania que sentimos por vós.
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Evangelho
São Lucas 10, 1-9
                                                                                                                              
1.Depois disso, designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir. 2.Disse-lhes: Grande é a messe, mas poucos são os operários. Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe.3.Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos.4. Não leveis bolsa nem mochila, nem calçado e a ninguém saudeis pelo caminho.5.Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa!6.Se ali houver algum homem pacífico, repousará sobre ele a vossa paz; mas, se não houver, ela tornará para vós.7.Permanecei na mesma casa, comei e bebei do que eles tiverem, pois o operário é digno do seu salário. Não andeis de casa em casa.8.Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que se vos servir.9.Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo.