quarta-feira, 26 de setembro de 2012

OS CATÓLICOS E OS PADRES

Nota do blogue: Pediram-me que ajudasse numa carta de incentivo aos padres resistentes, para que se mantivessem firmes e não se deixassem vencer pelo cansaço do combate travado. Tendo isso em vista, transcrevo um discurso que pode ser aproveitado em parte no momento atual.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula


P.S: Notas e grifos meus.


Padre Júlio Maria, C.SS.R.
As Virtudes, 1936.

Eu vos mostrei que as virtudes cardeais - temperança, força, prudência e justiça - que já existiam no paganismo, foram transfiguradas pela doutrina católica. Aplicando-as especialmente aos membros de certas classes sociais, demonstrei que o nosso homem de ciência, o nosso homem de letras, o nosso homem de Estado e o sectário, nem ao nível podem ficar dos pagãos, se as recusam.
Com as virtudes teologias, abrindo a doutrina católica, eu vo-lo demonstrei, novos e vastos horizontes ao espírito e ao coração do homem. Seguindo o mesmo método de aplicação sociológica, fiz sobressair a necessidade, no momento presente, da fé, principalmente para o operário; da esperança, principalmente para o industrial, e da caridade, principalmente para o capitalista. Passo a tratar das virtudes morais, das quais digo que não era possível, mas também não era necessário tratar senão nesta conferência.
O homem, no itinerário da vida cristã, encontra obstáculos que lhe impedem a segurança e a rapidez da viagem. Esses obstáculos não só provém do exterior, isto é, da ação das outras criaturas, mas principalmente das próprias paixões do homem viajor, que, para subjugar estas e vencer aqueles, precisa das virtudes morais, isto é, da humildade, da penitência, da abundância, da doçura, da mortificação, da castidade, da fraternidade e outras congêneres. Mas as virtudes morais são mais do que simples auxiliares da vida cristã; elas são a prova da divindade da doutrina católica pelos seus efeitos, e tão inerentes são à doutrina católica, que, onde quer que esta existe, é aceita e sinceramente praticada; tais virtudes não podem deixar de se manifestar. Vou provar isto com a psicologia e com a história.
Um homem repudiar a sua razão, o orgulho da sua inteligência, para aceitar verdades transcendentais; prostrar-se aos pés de outro, arrependido e acusando-se de seus pecados; perdoar as maiores injúrias, amar os seus maiores inimigos - não é só imolar o espírito no holocausto da fé, mas também substituir nas imolações do coração todos os seus amores humano pelo amor divino; estes são sob o ponto de vista psicológico, fatos individuais que ninguém contesta, porque todos os têm mais ou menos verificado, senão na própria pessoa, na pessoa de seus semelhantes. Igualmente, nós vemos, abrindo a história, que, antes do cristianismo os povos não só tocaram as últimas aberrações da inteligência, mas desceram às últimas torpezas do coração. A história anterior ao cristianismo é um colossal resumo de loucuras e sensualidades. A honestidade pagã não impediu a corrupção universal. As simples virtudes cardeais não bastaram para salvar os povos, que, entretanto, foram regenerados e salvos pelas virtudes morais: a humildade, a castidade, a fraternidade, etc.
Mas não só os efeitos psicológicos mostrando a transformação radical do homem, como os efeitos sociais mostrando a transformação dos povos, pela prática das virtudes morais, são manifestamente, pela sua desproporção com a miséria do homem e a miséria dos povos, efeitos elétricos, sem uma causa elétrica, nem fenômenos magnéticos, nem uma causa magnética, não pode haver também efeitos divinos, sem causa divina. Se, portanto, as virtudes morais são fenômenos divinos - divina é a doutrina que os produz, e à qual, tão inerentes e peculiares são esses efeitos, que, em primeiro lugar, só a doutrina católica é capaz de produzi-los: em segundo lugar, onde quer que ela seja sinceramente aceita e praticada, necessariamente os produz. Não é difícil verificá-lo. Basta analisar das virtudes morais estas - humildade, castidade, fraternidade - tão singulares na sua origem e nos seus efeitos, que os teólogos as denominam "virtudes reservadas", isto é, que só o catolicismo as possui e pratica.
Entregue aos impulsos de sua natureza corrompida pelo pecado original, o homem, sem a influência do catolicismo, nem é humilde, nem é casto, nem ama fraternalmente os seus semelhantes.
Inútil e ridículo, negar esta verdade. Inútil, porque a afirmação desta verdade todo homem a tem em si próprio. Ridículo, porque, a todo instante, essa verdade se mostra de modo evidente. Sem o contrapeso da religião, o orgulho domina o homem, que nem reconhece sua inferioridade em relação a outros homens, nem aceita lugar menos importante na hierarquia social. Esse orgulho implica sempre o ódio da superioridade, o ódio da igualdade e o desprezo da inferioridade. Substituir este orgulho por um juramento contrário - o ódio pelo amor da superioridade - é uma glória da doutrina católica, que só ela, produzindo esta fraternidade entre homens tão diferentes na sociedade pelo caráter, a inteligência, a fortuna, a posição, é também a única que produz o fenômeno da castidade na imolação do corpo, em holocaustos, de que muitos, é certo, têm desertado, mas de que um grande número de homens têm dado o exemplo em todas as épocas cristãs: o celibato, o sacerdócio, a virgindade.
É uma verdade, pois, não só perante a psicologia; como também perante a história, que não só as virtudes morais são fenômenos inerentes à doutrina católica, como também que, onde quer que a doutrina católica é sinceramente praticada, ela regenera as almas e salva os povos.
Agora, pergunto: se, como tantos o afirmam, somos um povo católico, por que razão entre nós nem a doutrina católica converte os incrédulos, que são em todas as classes um grandíssimo número nem a doutrina católica impede à nação nenhuma das sucessivas apostasias em que ela tem sacrificado as maiores verdades do catolicismo: o culto público a Deus o casamento, o ensino?!  
Dirão: "Os incrédulos é que têm feito isso". Mas então os incrédulos são em tão extraordinário número, que têm conseguido tudo isso? Eu já fiz, nesta pregação, a apologia do mau caráter, apologia tão mal compreendida, apesar de ter eu bem firmado que coisa pior do que o mau caráter, é o que aliás La Bruyére, um moralista, já afirmou: não ter caráter.
Pois bem; não duvido também hoje fazer a apologia dos incrédulos. Os incrédulos são homens como nós. Eles são dotados da mesma natureza. Eles também têm coração. Deles, não duvido, um certo número será sempre refratário à disciplina das verdades reveladas, tal o privilegio da liberdade humana, de que eles usam, rejeitando o catolicismo. Mas o maior número, é certo, vendo o fulgor da verdade católica não pode deixar de ser deslumbrado, e vendo o exemplo da virtude católica, não pode deixar de ser vencido. Para que negar aos incrédulos retidão, sinceridade, independência e bondade? Eles têm, sem duvida, a "honestidade", base sobre que deve repousar o edifício das virtudes sobrenaturais. Eles, sem dúvida; são homens "honestos". Mas então por que eles não se convertem?
Há em cada povo épocas singulares, em que dizer, a verdade inteira é para um homem o mais imperioso e ao mesmo tempo o mais doloroso dos seus deveres. Quis Deus que coubesse ao orador uma dessas época, e que tão doloroso dever seja o seu neste país. A pergunta que formulo, respondo eu próprio:
Dada a resposta, preciso justificá-la; e o faço com muitas e varias considerações.
Que é a penitência? Que é o católico? Que é a santidade? Que é o padre?
A penitência é o caráter imperecível do catolicismo. “Fazei penitência” – tal foi, na vida pública, a primeira palavra de Jesus Cristo.
Como "sacramento”, a penitência só existiu depois de Jesus Cristo. Como "virtude", ela é de todos os tempos; é o sentimento universal do gênero humano, desde a queda em Adão. Esse sentimento, não só Jesus Cristo o elevou à dignidade de sacramento, um característico infalível de verdadeira vida cristã. Lamento não poder tratar da confissão sacramental, por já tê-lo feito, em longas conferências no meu curso católico desta capital. Limito-me, por isso, a rápidas considerações, afirmando que a penitência sem a confissão é incompleta; mas a confissão sem a penitência é falsa. Por quê? Porque a penitência é a virtude moral que nos induz a detestar o pecado como ofensa a Deus, com o firme propósito de evitá-lo, e de satisfazer a justiça, a penitência não é só isso. É uma constante preocupação de nossa miséria; é um sentimento, que por toda a parte nos acompanha, do nosso nada; é a dor senão sempre viva, mas sempre real de sermos pecadores; é a sinceridade com que nos julgamos os indignos entre os pecadores. Assim considerada, a penitência implica sempre a humildade; e absolutamente não se pode compreender um católico que não seja penitente.
Ora não é fácil enumerar os diferentes matizes do nosso catolicismo. Nós temos, entre outras espécies, que longo seria enumerar, estas: "católico fantasista", o "católico do credo", o "católico dos mandamentos", o "católico de missa", o "católico de irmandades", o "católico autoritário"...
Ainda há outras espécies, que não posso enumerar, por falta de tempo.
Þ   O católico fantasista é aquele que vive de imaginação e quimeras, adotando os atos, da religião às suas faculdades imaginativas, aceitando os dogmas, não como a igreja os ensina, mas como ele os vê através do prisma variável da sua fantasia.
Þ   O católico sentimental (bem comum no sexo feminino) é aquele que tem acessos de piedade, coincidindo sempre com seus estados mórbidos, confessando-se e comungando, não principalmente para evitar pecados e corrigir defeitos, mas para satisfazer as exigências do temperamento.
Þ   O católico diletante é o que apenas se deleita na parte estética do catolicismo; que se concentra na devoção, nas magnificências e nos ornatos do templo, nas grandes festividades; que acha também na religião um perfume para embalsamar a sua família, mas não uma disciplina para lhe santificar a alma.
Þ   O católico do credo... esse é sempre herege dos mandamentos. Aceita os dogmas, admira-os... mas não se julga obrigado a cumprir, em todas as suas partes, o decálogo.
Þ   O católico dos mandamentos... é justamente o contrário. Aceita o decálogo, reconhece que é a grande lei a única capaz de salvar a sociedade moderna, mas, não acredita senão em certos dogmas, recusa os que lhe desagradam. Acha delicioso o céu; mas não suporta o inferno... O purgatório, talvez...
Þ   O católico de missas - em regra geral, esse é de infalível presença, aos domingos, no sacrifício do altar; mas de infalível ausência nas devidas ocasiões, no sacrifício dos lábios, isto é na confissão.
Þ   O católico de defuntos - esse é o que não acredita, pelo menos não crê firmemente nem no inferno, nem no purgatório; e, não obstante, podem as almas dos defuntos ter certeza de que eles, ou irão ajudá-los a sufragar, em sétimo e trigésimo dia, essas almas; ou, que, e isto não falha, porão suas assinaturas nos livros colocados à porta das igrejas, para serem os nomes publicados no dia seguinte, nos jornais, e, poderem eles próprios, os católicos de defuntos figurar nas missas sem terem ouvido as missas!
Þ   O católico de irmandades é o que inverte, modifica e transtorna a disciplina da igreja, querendo que os bispos consintam nas paróquias tantos vigários quantos são os irmãos de opa.
Þ   O católico autoritário é o que sabe mais do que os padres, os bispos, os teólogos, os concílios e o papa! Ele é católico, mas sem obediência... despreza só uma virtude, mas uma cuja violação é capaz de acabar com tudo neste mundo.(1)

Eis matizes do nosso catolicismo... Mas tudo isto é catolicismo falso, completamente divorciado do espírito de penitência que deve caracterizar o católico.
Um católico é um homem penitente; e a penitência não comporta nenhuma das falsificações apontadas.
Dirão que há católicos isentos de falsificação? Não nego; mas, a julgar, pelos resultados que vemos no Brasil, não podem ser muitos. Também há padres que escapam à outra falsificação de que vou tratar; mas, a julgar pelos mesmos resultados, bem raros devem ser, porque se a lei da penitência, entre os católicos, está tão degenerada, a lei da santidade, entre os padres, está em grande decadência.
Que é a santidade? Porventura a igreja exige de um padre que ele faça milagres e se torne facilmente canonizável? Não, sem dúvida. A igreja, porém, diz expressamente que o estado sacerdotal é um estado de santidade, e diz que a santidade é - a conformidade, não só com a lei de justiça que Deus gravou nos corações, mas com a lei mais alta que Jesus Cristo revelou ao mundo. Essa lei não obriga a todos no mesmo grau, mas é para todos a mesma, exigindo, porém, do padre, que é, quanto à dignidade e autoridade, a reprodução de Jesus Cristo, que o revestiu do seu sacerdócio, ser também na conduta o completo e perfeito imitador do Redentor.
São excepcionais os direitos do padre. Ele é o eleito de Deus, por Deus colocado acima de toda a criação. Ele é o mediador dos homens e, por isso mesmo, devendo receber destes as homenagens devidas a um ministério, que é a maior de todas as realezas. Excepcionais os direitos, mas também, excepcionais os deveres. Estes variam, segundo as considere o padre na sua vida interior ou na sua vida exterior.
Trato apenas da vida exterior e digo que esta, em relação às almas e à sociedade, se resume em três palavras: amar, dirigir, edificar.
Para o padre, amar as almas é imolar por elas todo seu coração; dirigir as almas - é imolar por elas todo o seu tempo e edificar as almas - é imolar por elas todos os vícios, todos os apetites, todas as paixões, dando às almas isso que faz a suprema força a suprema fecundidade, a suprema glória do padre: o exemplo.
No exemplo, mais que em tudo; sim, no exemplo das virtudes está a alavanca com que o padre move o mundo e eleva às almas à aceitação voluntaria da religião. Onde não há o exemplo o padre não ama; não dirige, não edifica.
Onde o padre não ama, não dirige, não edifica - a doutrina católica não é verdadeiramente a alma do sacerdócio, porque, como demonstrado ficou, as virtudes morais são inerentes à doutrina, e tão inerentes a ela, que onde quer que prepondere a doutrina, incessantemente se produzem essas virtudes.
Não julgo licito, sob o ponto de vista da santidade, negar a decadência do sacerdócio no Brasil; e como querer que sem a santidade dos padres os incrédulos se convertam e a Nação se salve ?!
A corrupção do sacerdócio judeu foi o maior obstáculo oposto à obra de Jesus Cristo, quando este apareceu.
Diz um historiador ilustre, o padre Didon:
"O sacerdócio estava aviltado. Tremia perante a autoridade pagã. Dos padres, uns eram verdadeiramente cépticos, sem fé na alma, na imortalidade, na ressurreição, na Providência Divina. Outros não conheciam das Escrituras senão a letra, sem penetrarem jamais no sentido que elas encerram. Outros, observadores fanáticos do rito, viviam absorvidos só pela prática exterior do culto. Faltava ao sacerdócio a pureza, o amor ardente de Deus, a misericórdia para com o próximo, a penitência, a justiça, a retidão. Se virtude havia, esta era como que máscara encobrindo a cobiça e o orgulho".
Tão acima está do sacerdócio antigo o sacerdócio da nova lei, tão superior e mais santo deve ser este. Eu não aplico os conceitos de Didon, em todo o rigor, ao sacerdócio no Brasil, mas, pelos resultados negativos da doutrina católica, tenho por justificada a afirmativa que fiz: - os incrédulos não se converteram e a Nação não recua de sua apostasia, porque nós somos, - católicos sem penitência e padres sem santidade.
- É tempo, entretanto, de tomar um expediente, e a Deus pedi me inspirasse em favor dos católicos e padres uma, idéia, um pensamento, um alvitre, que julgo ser o deste conselho que vou dar.
Resolvamos os católicos e os padres, resolvamos sem hesitação nem maior perda de tempo, dar, custe o que custar, aos incrédulos e à nação o exemplo de penitência e o exemplo de santidade; ou fugir para longe das cidades e das vilas. Tem o Brasil muitas matas, muitos rochedos e muitas cavernas. Vamos todos esconder nos esconderijos o nosso opróbrio, a nossa ignomínia. Talvez que os incrédulos, não vendo os testemunhos que damos em contrário à nossa religião, deixem de duvidar e se convertam. Talvez, também nos recônditos do Brasil, na vastidão das florestas, entre as feras, muito mais aproveitemos nós próprios, e reconheçamos a nossa culpa.
A agilidade do veado nos ensinará quanto é grande, na obra de Deus, a nossa indolência, não correndo nunca na estrada dos mandamentos, nem voando nunca às conquistas que o trabalho oferece.
O olhar da onça nos ensinará quanto é cruel o sentimento que uns aos outros votamos às vezes misturando de ódio a fraternidade deve existir entre católicos(2), para que ninguém os veja, digladiando, como os filhos de Jocasta, no mesmo seio maternal.
A sinuosidade da serpente nos ensinará as astucias com que na nossa devoção tentamos enganar o projeto de Deus, preferindo os caprichos de nossa vontade às lições maternais da igreja.
O rugido estridente do leão nos ensinará quanto somos covardes, engolindo a palavra, não soltando o verbo, na defesa e reivindicação dos direitos da Igreja...
- Quem é este, ó Deus, quem é este que acaba de fazer o que eu fiz hoje neste púlpito?! Quem é este que acaba de exprobrar aos católicos não serem penitentes, e de exprobrar aos padres não serem santos? É de todos os padres o mais miserável, porque o mais imperfeito na virtude e o mais distanciado da santidade... Como e por que o revestiste de missão tão alta?! Sem dúvida, por que não achaste em todo o Brasil um que pudesse melhor provar o que disseste pela boca de São Paulo: "Deus escolhe os homens mais fracos e mais vis, para com eles confundir os fortes e os poderosos". Isto, porém, nem me despoja da pena da minha miséria, nem me isenta da pena devida à minha maldade, tão grande quanto é grande o sacerdócio que só por minha culpa não me tem santificado.
Senhor! Vós bem o sabeis. Um só padre indigno basta para corromper uma nação inteira e atrair sobre ela os castigos da Vossa justiça. Senhor! Vós bem sabeis o que eu sou. Compadecei-Vos de mim, oh! Deus, pela Vossa infinita misericórdia.

Notas:

1- "Três coisas concorrem principalmente para formar e aperfeiçoar os Santos: os seus costumes simples, as virtudes que praticam, as graças que recebem. O homem de fé sente-se abrasado em amor para com a obediência, quando a encara debaixo destes três aspectos." (Meditações sacerdotais por R.P.Graignon. S.J, Tomo II, 1934).
2- "Amar-vos-eis uns aos outros, disse Cristo, como Eu vos amei a vós - "não como amam aqueles que corrompem a inocência ou a fé" comenta o imortal Agostinho (ln Joannis Evang. trato 65 c 13 - Migne PL t. 35 col. 1808-1809); "não como os homens se amam uns aos outros, simplesmente porque são membros da mesma raça humana, mas como amam quantos sabem e professam que todos os homens são filhos de Deus, filhos do Altíssimo no qual se deve formar e aperfeiçoar à semelhança de irmão do único Filho gerado". (Sobre a caridade Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos.)

domingo, 23 de setembro de 2012

Pensamento do dia 23/09/2012


¡Qué equivocados andamos a veces los que buscamos la verdadera paz de Dios! 
Qué humanamente pensamos lo que es paz!
¡Cuándo egoísmo encierran a veces nuestros deseos de paz..., 
pero es que lo que buscamos muchas veces no es la paz de Dios..., 
sino la del mundo!
(Saber esperar - Fray Mª. Rafael)

sábado, 22 de setembro de 2012

O PAI - A sua importância e os seus deveres - Parte 1

Padre Emmanuel de Gibergues

Qui scandalizaverit unum de pusillis istis... 
expedit ei ut suspendatur mola asinaria in collo ejus, 
et demergatur in profundum maris.

Aquele que maltratasse um destes rapazinhos... 
ser-lhe-ia melhor que lhe atassem uma pedra ao pescoço 
e o precipitassem no fundo do mar.
S. Matheus, XVIII. 6.


Eminência 1,
Meus senhores,

Aprouve a Deus, em Sua sabedoria, que o ser humano viesse ao mundo e se multiplicasse por intercessão recíproca do homem e da mulher, destas duas criaturas indissoluvelmente unidas por sua livre vontade. Daí, estas duas palavras importantes do Genesis: crescite et multiplicamini2. Digamos só algumas palavras da sua importância para insistirmos sobre os seus deveres.
Quem falará da importância da paternidade? Na ordem da natureza, não há outra mais elevada; fica-se deslumbrado quando se pensa nisto. O poder de criar, de tirar do nada, de fazer do nada alguma coisa; este privilégio sublime, que só pertence a Deus; este poder, que está acima de todos os poderes; este atributo, que é o caráter próprio do soberano Senhor de todas as coisas; este poder de dar a vida, e que acreditávamos incomunicável, foi da vontade de Deus concedê-lo ao homem.
É Ele, sem dúvida, que conserva a Sua propriedade radical, e o homem não age independentemente, mas sim por um poder comunicado; mas comunicado com tal liberalidade, que seriamos tentado a dizer: com que imprudência! Parece que Deus se desapossou, que se privou a Si próprio desse poder da vida, para o deixar, para sempre, à vontade do homem. Poderia Ele elevar o homem a maior altura, dar-lhe um dom natural
mais sublime, mais admirável, que ultrapasse a divindade? ego dixi: dii estis3; (eu vos digo: sois deuses).
Desde a origem do mundo, o nome de pai é o mais belo, o mais santo, depois do nome de Deus.
Divino, por sua origem e natureza, pois que o nome de pai representa a própria autoridade do poder criador e da vida dada; é ainda o alicerce do primeiro império estabelecido entre os homens - o império doméstico; e ficou sempre como o tipo do que há de mais venerável.
Quanto ao homem, queriam mostrar a importância que davam a uma dignidade, a uma instituição, a um serviço prestado; recorriam a esta palavra, para tomarem alguma coisa de sua aureola e majestade. Para exprimirem o que têm de mais caro, depois da família, e que não é senão uma extensão dela, dizem: a pátria. Para honrarem certos homens dentre todos os outros, deram-lhes o nome de pais da pátria, pais do povo, pais conscritos, patriarcas.
A própria religião, para glorificar ou caracterizar o que tinha de mais grandioso e de mais sublime, não achou palavra mais bela, e disse: pais da fé, pais do deserto, pais dos concílios, pais da Igreja, pais das almas, pais espirituais. Deu-se este nome ao próprio chefe da Igreja: Papa, que significa pai.
Que digo eu? Quando o Filho de Deus quis ensinar-nos a rezar, não achou nome mais augusto, para colocar nos lábios, do que o de «Padre-Nosso», para mostrar ao mesmo tempo que Deus não tem prerrogativa mais sublime, e que toda a paternidade dimana d'Ele: Unus Deus et Pater omnium4.

Não! nada, sobre a terra, é mais nobre do que a paternidade humana, pois que nela encontram-se, ao mesmo tempo, a comunicação da paternidade divina, a origem, o modelo de toda a autoridade, de todo bem, de toda a grandeza, e como que uma expansão misteriosa do próprio sacerdócio.
Sim! o pai é padre em toda a extensão do termo, e só ele o era no principio: regale sacerdotium5. É por isso que a religião sempre reconheceu ao pai o direito e o poder de abençoar.
Os pagãos não abençoavam. Enéas transporta, das ruínas de Tróia, o seu velho pai, às costas; e seu pai, quando morre, não o abençoa. As palavras de Heitor a seu filho, nos braços de Andrômaca, são heróicas, mas não o abençoa.
Priamo, o mais sublime dos pais da antiguidade, não abençoara Heitor antes do combate.
Mas entre o povo de Deus, Abraão, Isaac, Jacob, e os patriarcas de todos os tempos abençoaram seus filhos. Entre todos os povos cristãos, nos tempos de fé, os pais abençoavam seus filhos em ocasiões graves e solenes, pelo menos à hora da morte; como Deus o havia feito ao primeiro homem, e Jesus Cristo aos Seus apóstolos, quando subiu ao céu.
Ainda hoje se vê pais abençoarem os filhos, por exemplo, na ocasião da sua primeira comunhão, e esta bênção, emanando do coração de um pai sobre seus filhos, volta, de novo, ao coração paterno, e torna-se, para ele mesmo, uma bênção de Deus. É verdadeiramente um sacerdócio, em que o pai sente uma dessas emoções poderosas, que comovem até ao mais íntimo da alma.
A emoção ainda é mais forte, para os que se sentem menos dignos de uma função tão pura. Já se viu pais recusarem obstinadamente a bênção a seus filhos e exclamarem: Não, não! não posso! Em seguida, cederem, e tendo dado a bênção, derramarem lágrimas, que depois não podiam estancar.
Ah! Meus senhores, qualquer que seja o estado de um homem, por mais baixo que tenha descido, há alguma coisa que o eleva, e se torna, para ele mesmo, a fonte inesgotável dos mais nobres sentimentos - a consciência de ser pai.
Tem-se visto pais recuperarem, em presença dos filhos e num instante, toda a dignidade e respeito de si mesmos, que o mal lhes havia feito perder, e tornarem-se bons, castos, justos, crentes e cristãos!
E se acontece - pois, na humanidade, que é livre, dá-se o contraste espantoso de haver santos e de haver miseráveis, - se acontece, repito, que um homem calque aos pés o seu dever de pai e volva contra seu próprio filho esse poder de amor, de proteção física e moral, levanta-se um grito de indignação e de espanto! Este pai desnaturado, que assim procede, é incluído, por unanimidade, na classe dos monstros... A grandeza de sua queda, ainda mostra melhor a altura de que caiu, e qual é a nobreza o sacerdócio real do pai que não pode recusar o seu diadema sem cair completamente e causar horror! ...
Há perdão para tudo; e a alegria do padre é apagar tais iniquidades; mas é preciso o poder infinito do sangue redentor, para lavar tais manchas e levantar de tais quedas! ...

Notas:

1-      S. E. o Cardeal Arcebispo de Paris presidia à Reunião.
2-      Genesis VIII, 17 “Crescei e multiplicai-vos.”
3-      Salmo, XXXI, 6.
4-      Epístola aos Efésios, IV. 6. “Um só Deus e Pai de todos.”
5-     Epístola de S. Pedro, II, 6. “Sacerdote real.”

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A perfeita casada (XI) - Frei Luís de León

Não temerá a neve para sua família, porque 
toda sua gente está vestida com vestes duplas.


Não é esta a menor parte da virtude desta perfeita casada que pintamos, nem a que traz menos louvor à que é senhora de sua casa; o bom tratamento de sua família e criados, é como uma amostra onde claramente se conhece a boa ordem com que se governa todo o resto. E havia lhe mostrado Salomão, no que vem antes disto, a ser esmoleira com os estranhos, concordou em lhe avisar agora e lhe deu a entender que este cuidado e piedade devem começar com os seus; como diz São Paulo, "aquele que se descuida da provisão dos que têm em sua casa, infiel é, e pior que infiel". E mesmo falando aqui Salomão do vestir, não fala somente dele, e sim, pelo que diz neste particular, ensina o que deve ser em tudo que pertence ao bom estado da família. Porque, assim como se serve do trabalho dela o senhor, assim há de prover suas necessidades, e há de acompanhar o um com o outro, e ter grande medida em ambas as coisas, para que nem lhes falte o que necessitam, nem no que farão os sobrecarregue, como o avisa e declara o sábio no capítulo trinta e três do Eclesiástico. Um é injustiça e o outro escassez, e tudo crueldade e maldade.
E o pecado dos senhores com seus criados geralmente nasce da soberba e do desconhecimento de si mesmos. Se considerassem que tanto eles como seus criados são feitos do mesmo material, que a fortuna que é cega e não a natureza provida, é que os diferencia, que nasceram dos mesmos princípios, que terão o mesmo fim, e que vão em direção aos mesmos bens; e se considerassem que os que servem agora poderiam ser servidos depois, se não eles, seus filhos ou netos, como sempre acontece; que no fim todos, tanto os amos como os criados, servimos a um mesmo Senhor, que nos medirá como nós medimos; assim, se considerassem isto, deixariam os brios de lado, e seriam mansos, e tratariam os criados como a parentes e os mandariam como se não estivessem mandando.
E aqui convém que as mulheres prestem mais atenção, porque há algumas tão vãs, que quase desconhecem sua carne, e pensam que a sua é carne de anjos e a de suas criadas de cachorro, e desejam ser adoradas por elas, acham que tudo é pouco e nada para o que lhes devem ou pensam que devem. Além do muito que ofendem a Deus, tornam sua vida mais miserável do que já é, porque se tornam aborrecíveis aos seus, o que é maior miséria; porque nenhuma inimizade é boa e a dos criados, que vivem entre os amos, e sabem os segredos da casa, e são seus olhos, e mesmo que lhes pese, testemunhas de sua vida, é perigosa e pestilenta. Daqui geralmente saem as fofocas e as falsas testemunhas, e na maioria das vezes as verdadeiras.
E como é perigosa desventura fazer dos criados fiéis, cruéis inimigos com indevidos tratamentos. Assim, tratá-los bem não é só segurança, mas também honra e bom nome. Pois devem entender os senhores que sua gente é como parte de seu corpo, e que é como parte da casa, onde eles são a cabeça, e a família os membros e que os tratando bem, tratam bem e honradamente sua própria pessoa. E como se orgulham de que em suas feições e disposição não haja nem membro torto nem figura desagradável; como lhes acrescentam a todos os membros, tudo o que for beleza, e procuram vesti-los com cores, assim deve se apreciar que em toda sua gente reluza sua muita liberalidade e bondade, de modo que os de sua casa nem estejam nela com faltas, nem saiam dela queixosos.
Conheci eu neste reino uma senhora, que já morreu, ou por melhor dizer, que vive no céu, que, do cavalo troiano que dizem, não saíram tantos homens valorosos como de sua casa criadas suas donzelas e outras mulheres remediadas e honradas; aconteceu de mandar embora de sua casa, devido a um desentendimento, uma criada sua não tão remediada como as demais, a ouvi dizer muitas vezes que não tinha consolo quando pensava que, das pessoas que Deus lhe havia dado, havia saído uma de sua casa com desgraça e pouco remediada. E eu sei que nesta bondade gastava grandes somas, e que, fazendo estas despesas e outras semelhantes, não só conservou e sustentou os seus filhos, que vinham de muitos avós de antiga nobreza, mas também os acrescentou e ilustrou com novos e ricos vínculos; e assim era abençoada por todos.
Devem, pois, amar esta bênção as mulheres de honra, e se desejam elas ser estimadas e amadas, este é o caminho certo. Não quero dizer que tudo há de ser doçura e regalo; que bem vemos que a boa ordem pede algumas vezes severidade; mas, porque é comum que os amos pequem nisto, que é ser descuidados no que se refere ao bom tratamento dos que os servem, por isso falamos disso e não falamos de como os hão de ocupar.

Novena de São Miguel


Novena de São Miguel Arcanjo e dos Nove Coros d’Anjos

Conforme o testemunho piedoso do arquidiácono d’Évreux, o Sr. Boudon, o mais fervoroso apóstolo dos Santos Anjos no séc. XVIII, essa prática devocional obtém “graças extraordinárias”. Por causa dela, ele presenciara “maravilhas... e a ruina dos poderes demoníacos nos misteres mais importantes”. Além disso afiança que esse é um meio eficacíssimo para lograr o socorro do Céu durante as calamidades públicas e as dificuldades pessoais.

A Novena de São Miguel e dos Nove Coros d’Anjos pode se fazer a qualquer tempo, em comum ou sozinho. Não há fórmulas prescritas. Propomos tão-somente as orações abaixo. Pode-se, se for do agrado, adotá-las outras.

Nas condições ordinárias, pode-se lucrar uma indulgência plenária no curso da novena (em dia a se escolher) ou depois de oito dias consecutivos.
Pio IX, 26 de novembro de 1876.

A cada dia:
Recitar o Confiteor, formular o pedido, depois recitar três Pai-Nossos, três Ave-Marias, três Glórias ao Pai.
Encerrar com a seguinte oração (conforme o dia)...

PRIMEIRO DIA
(em honra aos Serafins)
São Miguel Arcanjo, príncipe gloriosíssimo da milícia celeste, defendei-nos no combate contra os principados e potestades, contra as dominações desse mundo de trevas, contra os espíritos malígnos que se espalham pelo ar. Vinde em auxílio dos homens que Deus fez à imagem de Sua própria natureza, e que foram resgatados com grande usura da tirania do demônio. Ámen.
Exorcismo de Léon XIII.

SEGUNDO DIA
(em honra aos Querubins)
São Miguel, príncipe da milicia angélica, peço-vos que me atendais favoravelmente. Eu vos suplico para, naquele grande dia, tomar minha alma sob vossa santíssima guarda e conduzi-la para um lugar de refrigério, de paz e de repouso, onde as almas dos santos esperam em júbilo inefável o julgamento futuro e a glória da ressurreição gloriosa. Quer eu fale ou me cale, quer eu vigie, marche ou descance, guardai-me na consecução de todas as minhas obras, em todos os atos da minha vida. Preservai-me das tentações do demônio e das penas do inferno. Ámen.
Segundo um manuscrito do séc. XV.

TERCEIRO DIA
(em honra aos Tronos)
São Miguel Arcanjo, defensor excelente do povo cristão, para cumprir dignamente a missão que vos foi confiada de proteger a Igreja, esmagai a heresia, exterminai os cismas e confundi a incredulidade. Que a Igreja de Jesus Cristo acolha os neófitos e se cerque de reinos da terra, a fim de que ela possa povoar o Céu de almas eleitas, para a maior glória do Divino Redentor, a quem vós mesmo deveis os triunfos, os méritos e a eterna felicidade. Ámen.
Oração de Leão XIII.

QUARTO DIA
(em honra das Dominações)
Ó vós, que sois o príncipe e o porta-estandarte dos anjos fiéis, auxiliai-me sempre em vossa bondade e salvai-me. Das legiões dos anjos das trevas preservai-me, a fim de que, sob vossa direção, partilhe da luz dos anjos bons. Diante do trono do Supremo Juiz defendei-me, sustentai minha causa e afastai a cólera do Vingador Justo. Que por vosso intermédio sejam prósperos os meus trabalhos e meus repousos, os meus dias e minhas noites; e que meu pensamento esteja sempre disposto para as obras de Deus. Ámen.
Hino do séc. XII.

QUINTO DIA
(em honra às Potestades)
São Miguel Arcanjo, a quem a Santa Igreja venera como guardião e protetor, a vós o Senhor confiou a missão de introduzir na celeste felicidade as almas resgatadas. Implorai ao Deus da Paz para calcar satanás a nossos pés, a fim de que não possa mais reter os homens em cadeias e lesar a Santa Madre Igreja. Apresentai ao Altíssimo nossas orações, para que instantemente o Senhor faça-nos a misericórdia. A vós também imploramos, vós que aprisionastes o dragão, o diabo-satã da antiga serpente, e que o lançastes acorrentado no abismo, para que não mais seduzisse as nações. Ámen.
Exorcismo de Leão XIII.

SEXTO DIA
(em honra às Virtudes)
São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, a fim de que não pereçamos no dia do terrível julgamento. Principe gloriosíssimo, lembrai-vos de nós, em todo o tempo e em toda a parte. Quando combatestes o dragão, do céu se ouvia uma voz que dizia: “Eis a salvação, o poder e a realeza do Deus Todo-Poderoso!” O mar se revoltou e a terra tremeu, quando descestes do Reino Celeste; vinde pois em socorro do povo de Deus. Ámen.
Traduzido de um responso em Coutances.

SÉTIMO DIA
(em honra aos Principados)
Ó São Miguel, príncipe santíssimo da milícia sagrada, a quem Deus mandou preparar e conduzir as falanges angélicas, digníssimo de todo culto, de todo louvor e de toda gratidão: esclarecei meus sentidos inferiores, fortificai meu pobre coração agitado nas tempestades da vida, elevai às alturas da sabedoria celeste minh’alma inclinada às coisas da terra; firmai meus passos vacilantes e não consenti que eu abandone o caminho que me leva aos Céus; curai as feridas de minh’alma; fazei desaparecer os resquícios de todo sofrimento que em mim engendra as misérias e a infelicidade. Ámen.
Oração de São Sofrônio.

OITAVO DIA
(em honra aos Arcanjos)
São Miguel Arcanjo, que tendes por missão reunir as orações, dirigir os combates e pesar as almas, presto homenagem à vossa beleza – em tudo semelhante a beleza de Deus e que, segundo o Verbo Eterno, como vós não há outro espírito igual. Presto homenagem ainda a vosso poder sem limites em favor daqueles que são vossos devotos, e à vossa vontade toda em harmonia com o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria, para o bem dos homens [1]. Defendei-me contra os inimigos da alma e do corpo. Tornai-me sensível à consolação de vossa assistência invisível e aos efeitos de vossa terna vigilância. Ámen.
[1] Ven. Filomena de Santa Colomba.

NONO DIA
(em honra aos Anjos)
Glorioso São Miguel Arcanjo, zelador excelente da glória de Deus e protetor da Igreja Universal, vós a quem o Todo-Poderoso confiou a missão de receber as almas quando da saída do corpo para apresentá-las ao Justíssimo Juiz, dignai-vos socorrer-me no meu derradeiro combate. Acompanhai meu bom Anjo da Guarda, vinde em meu auxílio e afastai para longe de mim todos os espíritos infernais. Não permitis que por eles eu seja atemorizado. Fortificai-me na Fé, na Esperança e na Caridade, a fim de que minh’alma, conduzida por vós ao julgamento, seja tão logo introduzida no lugar do repouso, para alí reinar eternamente com seu Redentor, em comunhão com as almas bem-aventuradas. Ámen.
Segundo uma antiga fórmula de oração.

Nihil Obstat :
Constantiis, die 18 a feb. 1949
L. LERIDEZ
c. d.
Imprimatur
+ JEAN
Évêque de Coutances et Avranches

Fonte: Traduções gratuitas

Breve descrição da caridade

São Francisco de Sales
Tratado do amor de Deus - Livro II, Capítulo XXII


Aí eis, pois, finalmente, meu caro Teótimo, como, por um progresso cheio de suavidade inefável, Deus conduz a alma que Ele faz sair do Egito do pecado, de amor em amor, como que de alojamento em alojamento, até que a tenha feito entrar na terra de promissão quero dizer, na santíssima caridade, a qual, para dizê-lo numa palavra, é uma amizade e não um amor interesseiro. Porquanto, pela caridade, nós amamos a Deus por amor d’Ele mesmo, em consideração da Sua bondade sumamente amável: mas essa amizade é uma amizade verdadeira, pois é recíproca, havendo Deus amado eternamente quem quer que O amou, O ama ou O amará temporalmente. É declarada e reconhecida mutuamente, visto que Deus não pode ignorar o amor que nós Lhe temos, já que Ele mesmo no-lo dá: nem nós, tão pouco, podemos ignorar o amor que Ele tem a nós já que Ele tanto o publicou, e que tudo o que temos de bom nós recebemos como verdadeiros efeitos da Sua benevolência; e, enfim, estamos em perpétua comunicação com Ele, que não cessa de falar aos nossos corações por inspirações, atrativos e movimentos sagrados. Ele não cessa de nos fazer bem e de nos dar toda sorte de testemunhos do Seu santíssimo afeto, havendo-nos abertamente revelado todos os Seus segredos como a Seus amigos confidentes. E, para cúmulo do Seu santo comércio conosco, tornou-Se nossa própria comida no santíssimo sacramento da Eucaristia. E, quanto a nós, nós tratamos com Ele a todas as horas quando nos apraz, pela santíssima oração, tendo toda a nossa vida, nosso movimento e nosso ser, não somente com Ele, mas n’Ele e por Ele.
Ora, essa amizade não é uma simples amizade, porém amizade de dileção, pela qual nós fazemos eleição de Deus para amá-lO com amor particular. Ele é escolhido, diz a esposa sagrada, entre mil. Ela diz entre mil (Cânt 5, 10); mas quer dizer entre todos. É por isso que essa dileção não é dileção de simples excelência, mas uma dileção incomparável; pois a caridade ama a Deus por uma estima e preferência da sua bondade tão alta e elevada acima de qualquer outra estima, que os outros amores ou não são verdadeiros amores em comparação deste, ou, se são verdadeiros amores, este é infinitamente mais do que amor. E portanto, Teótimo, não é um amor que as forças da natureza, nem humana, nem angélica, possam produzir, mas é o Espírito Santo quem o dá e o infunde em nossos corações (Rom 8, 5): e, assim como nossas almas, que dão a vida aos nossos corpos, não têm sua origem nos nossos corpos, mas são postas nos nossos corpos pela providência natural de Deus, assim também a caridade que dá a vida aos nossos corações não é atraída dos nossos corações, mas é nele vertida, como um celeste licor, pela providência sobrenatural da sua divina majestade.
Por isto a chamamos, pois, amizade sobrenatural e ademais ainda, por concernir ela a Deus e a Ele tender, não segundo a ciência natural que nós temos da Sua bondade, mas segundo o conhecimento sobrenatural da fé. É por isso que, com a fé e a esperança, ela faz sua residência na ponta e cimo do espírito, e como uma rainha de majestade está sentada na vontade como no seu trono, de onde derrama sobre toda a alma as suas suavidades e doçuras, tornando-a por esse meio toda bela, agradável e amável à divina bondade: de sorte que, se a alma é um reino de que o Espírito Santo seja o rei, a caridade é a rainha sentada à sua destra em veste de ouro recamada de belas variedades (Sl., 44, 10).
Se a alma é uma rainha, esposa do grande rei celeste, a caridade é a sua coroa que lhe embeleza regiamente a cabeça. Mas, se a alma, com seu corpo é um pequeno mundo, a caridade é o sol que orna tudo, tudo aquece e tudo vivifica.
A caridade, pois, é um amor de amizade, uma amizade de dileção, uma dileção de preferência, mas de preferência incomparável, soberana e sobrenatural, a qual é como um sol em toda a alma para embelezá-la com seus raios, em todas as faculdades espirituais para aperfeiçoá-las, em todas as potências para moderá-las, mas na vontade, como na sua sede, para nela residir e fazer-lhe querer e amar ao seu Deus sobre todas as coisas. Oh! que bem-aventurado é o espírito em que essa santa dileção é infundida, já que todos os bens lhe chegam igualmente com ela (Sab 7, 11)!