terça-feira, 10 de julho de 2012

Pensamento da noite de 10/07/2012


"Palavras sem obra são tiros sem bala; 
atroam, mas não ferem"
(Padre Antônio Vieira)

domingo, 8 de julho de 2012

ORAÇÃO ABRASADA

Nota do blogue: Agradeço a alma generosa que me enviou essa belíssima prece. Deus lhe pague.

Prece de S. Luís Maria Grignion de Montfort 
pedindo a Deus missionários para a sua Companhia de Maria



Lembrai-Vos, Senhor, da Vossa Congregação que desde o princípio Vos pertenceu, e em quem pensastes desde toda a eternidade; que seguráveis na Vossa mão onipotente, quando, com uma palavra, tiráveis do nada o universo; e que escondíeis ainda em Vosso coração, quando Vosso Filho, morrendo na cruz, a consagrou por Sua morte, e a entregou, qual precioso depósito, à solicitude de Sua Mãe Santíssima: Memento esto Congregationis tuae, quam possedisti ab initio. [[1]]
 Atendei aos desígnios de Vossa misericórdia, suscitai homens da Vossa destra, tais quais mostrastes a alguns de Vossos maiores servos, a quem destes luzes proféticas, a um São Francisco de Paula, a um São Vicente Ferrer, a uma Santa Catarina de Siena, e a tantas outras grandes almas no século passado, e até neste, em que vivemos.
Memento: Onipotente Deus, lembrai-vos desta Companhia, ostentando sobre ela a onipotência de Vosso braço, que não diminuiu, para dar-Lhe à luz e produzi-la, e para conduzi-la à perfeição. Innova signa, inmuta mirabilia, sentiamus adiutorium brachii tui. [[2]]
Ó grande Deus, que podeis fazer das pedras brutas outros tantos filhos de Abraão, dizei uma só palavra como Deus, e virão logo bons obreiros para a Vossa seara, bons missionários para a Vossa Igreja.
Memento: Deus de bondade, lembrai-Vos de Vossas antigas misericórdias, e, por essas mesmas misericórdias, lembrai-Vos da Vossa Congregação; lembrai-Vos das promessas reiteradas que nos tendes feito, por Vossos profetas e pelo Vosso próprio Filho, de sempre atender favoravelmente a todos os nossos pedidos justos. Lembrai-Vos das preces que, desde tantos séculos, Vossos servos e servas para este fim Vos tem dirigido; venham à Vossa presença seus votos, seus soluços, suas lágrimas e seu sangue derramado, e poderosamente solicitem Vossa misericórdia. Mas lembrai-Vos, sobretudo, de Vosso amado Filho: respice in faciem Christi tui.[[3]] Contemplem Vossos olhos Sua agonia, Sua confusão, o Seu amoroso queixume no Jardim das Oliveiras, quando disse: Quae utilitas in sanguine meo? [[4]] Sua cruel morte e Seu sangue derramado altamente Vos clamam misericórdia, a fim de que, por meio desta Congregação, seja seu império estabelecido sobre os escombros do de Seus inimigos.
Memento: lembrai-Vos, Senhor, desta Comunidade nos efeitos de Vossa justiça. Tempus faciendi, Domine, dissipaverunt legem tuam [[5]]: é tempo de cumprir o que prometestes. Vossa divina fé é transgredida; Vosso Evangelho desprezado; abandonada, Vossa religião; torrentes de iniqüidade inundam toda a terra, e arrastam até os Vossos servos; a terra toda está desolada: Desolatione desolata est omnis terra; a impiedade está sobre um trono, Vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo. E assim deixareis tudo ao abandono, justo Senhor, Deus das vinganças? Tornar-se-á tudo afinal como Sodoma e Gomorra? Calar-Vos-eis sempre? Não cumpre que seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu, e que a nós venha o Vosso reino? Não mostrastes antecipadamente a alguns de Vossos amigos uma futura renovação de Vossa Igreja? Não se devem os judeus converter à verdade? Não é esta a expectativa da Igreja? Não Vos clamam todos os santos do céu: “Justiça! Vindica? [[6]]?” Não Vos dizem todos os justos da terra: Amen, veni Domine? Não gemem todas as criaturas, até as mais insensíveis, sob o peso dos inumeráveis pecados de Babilônia, pedindo a Vossa vinda para restabelecer todas as coisas? Omnis creatura ingemiscit. [[7]]
Senhor Jesus, memento Congregationis tuae. Lembrai-Vos de dar à Vossa Mãe uma nova Companhia, a fim de por Ela renovar todas as coisas, e a fim de terminar por Maria Santíssima os anos de graça, assim como por Ela os começastes.
Da Matri tuae liberos, alioquin moriar [[8]]: dai filhos e servos à Vossa Mãe: quando não, fazei que eu morra. Da Matri tuae. É por Vossa Mãe que Vos imploro. Lembrai-Vos de Suas entranhas e de Seu seio, e não rejeiteis minhas súplicas; lembrai-Vos de quem sois Filho, e atendei-me; lembrai-Vos do que Ela é para Vós e do que sois para Ela, e satisfazei a meus votos. Que Vos peço eu? Nada em meu favor, tudo para Vossa glória. Que Vos peço eu? O que podeis, e até ouso dizer, o que deveis conceder-me, como verdadeiro Deus que sois, a quem todo poder foi dado no céu e na terra, e como o melhor dos filhos, que amais infinitamente Vossa Mãe.
Que Vos peço eu? Liberos: Sacerdotes, livres de Vossa liberdade, desprendidos de tudo, sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem irmãs, sem parentes segundo a carne, sem amigos segundo o mundo, sem bens, sem embaraços, sem cuidados, e até sem vontade própria.
Liberos: Escravos de Vosso amor e de Vossa vontade; homens segundo Vosso coração, que, sem vontade própria que os macule e os faça parar, executem todas as Vossas vontades e derrubem todos os Vossos inimigos, quais novos Davids, com o cajado da cruz e a funda do santíssimo Rosário, nas mãos: in baculo Cruce et in virga Virgine. [[9]]
Liberos: almas elevadas da terra e cheias de celeste orvalho, que, sem obstáculos, voem de todos os lados, movidos pelo sopro do Espírito Santo. Em parte, foi delas que tiveram conhecimento Vossos profetas, quando perguntaram: qui sunt isti qui ut nubes volant? [[10]] – Ubi erat impetus spiritus, illuc gradiebantur. [[11]]
Liberos: Almas sempre à Vossa mão, sempre prontas a obedecer-Vos, à voz de Seus superiores, como Samuel: Praesto sum [[12]], sempre prontas a correr e a sofrer tudo por Vós e conVosco, como os apóstolos: Eamus et nos, ut muriamur cum eo. [[13]]
Liberos: Verdadeiros filhos de Maria, Vossa Mãe Santíssima, engendrados e concebidos por Sua caridade, trazidos em Seu seio, presos a Seu peito, nutridos de Seu leite, educados por Sua solicitude, sustentados por Seus braços, e enriquecidos de Suas graças.
Liberos: Verdadeiros servos da Santíssima Virgem, que, como outros tantos São Domingos, vão por toda parte, com o facho lúcido e ardente do santo Evangelho na boca, e na mão o santo Rosário, a ladrar, como cães fiéis, contra os lobos que só buscam estraçalhar o rebanho de Jesus Cristo; que vão, ardendo como fogos, e iluminando como sóis as trevas deste mundo; e que, por meio de uma verdadeira devoção a Maria Santíssima, isto é, uma devoção interior, sem hipocrisia; exterior, sem crítica; prudente, sem ignorância; terna, sem indiferença; constante, sem versatilidade, e santa, sem presunção, esmaguem, por todos os lugares em que estiverem, a cabeça da antiga serpente, a fim de que a maldição que sobre ela lançastes seja inteiramente cumprida: Inimicitias ponam inter te et mulierem, et semen tuum et semen illius; ipsa conteret caput tuum. [[14]]
É verdade, grande Deus, que o demônio há de armar, como predissestes, grandes ciladas ao calcanhar dessa mulher misteriosa, isto é, à pequena Companhia de Seus filhos que hão de surgir perto do fim do mundo; é verdade que há de haver grandes inimizades entre essa bendita posteridade de Maria Santíssima e a raça maldita de satanás; mas é essa uma inimizade toda divina, a única de que sejais autor: Inimicitias ponam. Porém esses combates e essas perseguições dos filhos da raça de Belial contra a raça de vossa Mãe Santíssima só servirão para melhor fazer resplandecer o poder de Vossa graça, a coragem da virtude dos Vossos servos, e a autoridade de Vossa Mãe, pois que Lhe destes, desde o começo do mundo, a missão de esmagar esse soberbo, pela humildade de Seu coração: Ipsa conteret caput tuum.
Alioquin moriar. Não é melhor para mim morrer do que Vos ver, meu Deus, todos os dias, tão cruel e impunemente ofendido, e a mim mesmo ver todos os dias em risco de ser arrastado pelas correntes de iniqüidade que aumentam a cada instante, sem que nada se lhes oponha? Ah! mil mortes me seriam mais toleráveis. Enviai-me o socorro do céu, ou senão chamai a minha alma. Sim, se eu não tivesse a esperança de que, mais cedo ou mais tarde, haveis de ouvir este pobre pecador, nos interesses de Vossa glória, como já ouvistes a tantos outros: Iste pauper clamavit et Dominus exaudivit eum [[15]], pedir-Vos-ia do mesmo modo que o profeta: Tolle animam meam. [[16]]
A confiança que tenho em Vossa misericórdia faz- me, porém, dizer com outro profeta: non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini [[17]]; até que com o velho Simeão possa dizer: Nunc dimittis servum tuum, Domine, in pace, quia viderunt oculi mei etc. [[18]]
Memento: Divino Espírito Santo, lembrai-Vos de produzir e formar filhos de Deus, com Maria, Vossa divina e fiel Esposa. Formastes Jesus Cristo, cabeça dos predestinados, com Ela e n’Ela, e com Ela e n’Ela deveis formar todos os Seus membros; nenhuma pessoa divina engendrais na Divindade; mas só Vós, unicamente Vós, formais todas as pessoas divinas, fora da Divindade, e todos os santos que tem existido e hão de existir até ao fim do mundo, são outros tantos produtos de Vosso amor unido a Maria Santíssima. O reino especial de Deus Pai durou até ao dilúvio, e foi terminado por um dilúvio de água; o reino de Jesus Cristo foi terminado por um dilúvio de sangue; mas Vosso reino, Espírito do Pai e do Filho, está continuando presentemente e há de ser terminado por um dilúvio de fogo, de amor e de justiça.
Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda a terra de um modo tão suave e tão veemente que todas as nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e converter-se? Non est qui se abscondat a calore eius. [[19]]
Accendatur: seja ateado esse divino fogo que Jesus Cristo veio trazer à terra, antes que ateeis o fogo de Vossa cólera, que há de reduzir tudo a cinzas. Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terrae. Enviai à terra esse Espírito todo de fogo, para nela criar sacerdotes todos de fogo, por cujo ministério seja a face da terra renovada, e reformada por Vossa Igreja.
Memento Congregationis tuae: É uma congregação, uma assembléia, uma seleção, uma escolha de predestinados de deveis fazer no mundo e do mundo: Ego elegi vos de mundo. [[20]] É um rebanho de pacíficos cordeiros que deveis ajuntar entre tantos lobos; uma companhia de castas pombas e de águias reais entre tantos corvos; um enxame de laboriosas abelhas entre tantos zangãos; uma manada de céleres veados entre tantos cágados; um batalhão de leões destemidos entre tantas lebres tímidas. Ah! Senhor: Congrega nos de nationibus [[21]]; congregai-nos, uni-nos, para que de tudo se renda toda a glória a Vosso nome santo e poderoso.
Predissestes esta ilustre Companhia a Vosso profeta, que dela fala em termos muito obscuros e misteriosos, mas divinos: “Pluviam voluntariam segregabis, Deus, hereditati tuae, et infirmata est, tu vero perfecisti eam. Animalia tua habitabunt in ea. Parasti in dulcedine tua pauperi, Deus. Dominus dabit verbum evangelizantibus virtute multa. Rex virtutum, dilecti dilecti, et speciei domus dividere spolia. Si dormiatis inter medios cleros, pennae columbae deargentatae, et posteriora dorsi eius in pallore auri. Dum discernit caelestis reges super eam, nive dealbuntur in Selmon. Mons Dei, mons pinguis; mons coagulatus, mons pinguis; ut quid suspicamini montes coagulatos? Mons in quo beneplacitum est Deo habitare in eo, etenim Dominus habitabit in finem” (Sl 67, 10-17). [[22]]
Qual é, Senhor, essa chuva voluntária que separastes e escolhestes para Vossa enfraquecida herança, senão esses santos missionários, filhos de Maria, Vossa Esposa, aos quais deveis congregar e separar do comum, para o bem de Vossa Igreja, tão enfraquecida e maculada pelos crimes de seus filhos?
Quem são esses animais e esses pobres que hão de habitar em Vossa herança, e ser aí nutridos com a divina doçura que lhes haveis preparado, senão esses pobres missionários abandonados à Providência e transbordantes de Vossas delícias divinas; esses misteriosos animais de Ezequiel, que hão de ter a humanidade do homem, por sua desinteressada e benfazeja caridade para com o próximo; a coragem do leão, por sua santa cólera e por seu ardente e prudente zelo contra os demônios e filhos de Babilônia; a força do boi, por seus trabalhos apostólicos e pela mortificação contra a carne; e finalmente a agilidade da águia, por sua contemplação em Deus?
Tais são os missionários que quereis enviar à Vossa Igreja. Terão olhos de homem para o próximo, olhos de leão contra Vossos inimigos, olhos de boi contra si próprios e olhos de águia para Vós. Esses imitadores dos apóstolos pregarão, virtute multa, virtute magna, com grande força e virtude, e tão grande, tão esplêndida, que hão de comover todos os espíritos e todos os corações nos lugares em que pregarem. A eles é que haveis de dar Vossa palavra: Dabis verbum; e até mesmo Vossa boca e Vossa sabedoria: Dabo vobis os et sapientiam, cui non poterunt resistere omnes adversarii vestri, à qual nenhum dos Vossos inimigos poderá resistir. [[23]]
Entre esses prediletos Vossos, ó amabilíssimo Jesus, é que tomareis Vossas complacências na qualidade de Rei das virtudes, pois que em todas as suas missões não hão de ter por objeto senão dar-Vos toda a glória das vitórias que alcançarem sobre Vossos inimigos: Rex virtutum dilecti dilecti, et speciei domus dividere spolia. [[24]]
Por seu abandono à Providência, e pela devoção a Maria Santíssima, terão as asas prateadas da pomba: inter medios cleros, pennae columbae deargentatae:[[25]] isto é, a pureza da doutrina e dos costumes; e douradas as costas: et posteriora dorsi eius in pallore auri,[[26]] isto é, uma perfeita caridade para com o próximo, para suportar-lhe os defeitos, e um grande amor a Jesus Cristo, para levar a sua cruz.
Só Vós, ó Jesus, como Rei dos céus e Rei dos reis, haveis de separar do mundo esses missionários, como outros tantos reis, para torná-los mais brancos que a neve sobre a montanha de Selmon, montanha de Deus, montanha abundante e fértil, montanha forte e coagulada, montanha em que Deus se compraz maravilhosamente, e na qual habita e há de habitar até o fim.
Quem é, Senhor Deus de verdade, essa montanha misteriosa de que nos dizeis tantas maravilhas, senão Maria, Vossa diletíssima Esposa, cuja base pusestes sobre o cimo das mais altas montanhas? Fundamenta eius in montibus sanctis. [[27]] Mons in vértice montium. [[28]]
Felizes e mil vezes felizes os sacerdotes que tão bem elegestes e predestinastes para conVosco habitar nesta abundante e divina montanha, para aí se tornarem reis da eternidade, pelo desprezo da terra e pela elevação em Deus; para aí se tornarem mais brancos que a neve pela união a Maria, Vossa Esposa toda formosa, toda pura e toda imaculada; para aí se enriquecerem do orvalho do céu e da fecundidade da terra, de todas as bênçãos temporais e eternas de que está toda cheia Maria Santíssima.
É do alto dessa montanha que hão de lançar, quais novos Moisés, por suas ardentes súplicas, dardos contra seus inimigos, para prostrá-los ou para convertê-los; é sobre essa montanha que hão de aprender da própria boca de Jesus Cristo, que aí está sempre, a inteligência das Suas oito bem-aventuranças; é sobre essa montanha de Deus que com Ele hão de ser transfigurados, como no Tabor, que hão de morrer com Ele, como no Calvário, e que hão de subir com Ele ao céu, como na montanha das Oliveiras.
Memento Congregationis tuae. Só a Vós compete formar, por Vossa graça, essa assembléia; se o homem nela meter mãos à obra antes de Vós, nada se fará; se quiser misturar algo que é dele com o que é Vosso, estragará tudo, destruirá tudo. Tuae Congregationis: é trabalho Vosso, grande Deus. Opus tuum fac: fazei uma obra toda divina; ajuntai, chamai, convocai de todas as partes de Vossos domínios os Vossos eleitos, para deles fazer um exército contra Vossos inimigos.
Vede, Senhor Deus dos exércitos, os capitães que formam companhias completas, os potentados que ajuntam numerosos exércitos, os navegadores que reúnem frotas inteiras, os mercadores que se congregam em grande número nos mercados e nas feiras! Quantos bandidos, ímpios, ébrios e libertinos se unem em massa contra Vós todos os dias, e isto com tanta facilidade e prontidão! Basta soltar um assobio, rufar um tambor, mostrar a ponta embotada de uma espada, prometer um ramo seco de louros, oferecer um pedaço de terra amarela ou branca; basta, em poucas palavras, uma fumaça de honra, um interesse de nada, um mesquinho prazer animal que se tem em vista, para, num instante reunir os bandidos, ajuntar os soldados, congregar os batalhões, convocar os mercadores, encher as casas e os mercados, e cobrir a terra e o mar com uma multidão inumerável de réprobos, que, embora divididos todos entre si, ou pelo afastamento dos lugares, ou pela diversidade dos gênios, ou por seus próprios interesses, se unem, entretanto, e se ligam até à morte, para fazer-vos guerra sob o estandarte e sob o comando do demônio.
E Vós, grande Deus! embora haja tanta glória e tanto lucro, tanta doçura e vantagem em servir-Vos, quase ninguém tomará Vosso partido? Quase nenhum soldado se alistará em Vossas fileiras? Quase nenhum São Miguel clamará no meio de seus irmãos, cheio de zelo pela Vossa glória: Quis ut Deus? [[29]]
Ah! permiti que brade por toda parte: fogo, fogo, fogo! socorro, socorro, socorro! Fogo na casa de Deus! fogo nas almas, fogo até no santuário! Socorro, que assassinam nosso irmão! socorro, que degolam nossos filhos! socorro que apunhalam nosso bom Pai! Si quis est Domini, iungatur mihi: [[30]] venham todos os bons sacerdotes que estão espalhados pelo mundo cristão, os que estão atualmente na peleja, e os que se retiraram do combate para se embrenharem pelos desertos e ermos, venham todos esses bons sacerdotes e se unam a nós. Vis unita fit fortior [[31]], para que formemos, sob o estandarte da Cruz, um exército em boa ordem de batalha e bem disciplinado, para de concerto atacar os inimigos de Deus que já tocaram a rebate: “Sonuerunt, frenduerunt, fremuerunt, multiplicati sunt”. [[32]] “Dirumpamus vincula eorum et proiiciamus a nobis iugum ipsorum. Qui habitat in caelis irridebit eos”. [[33]] “Exsurgat Deus et dissipentur inimici eius!” [[34]] “Exsurge, Domine, quare obdormis? Exsurge”. [[35]]
Erguei-Vos, Senhor: por que pareceis dormir? Erguei-Vos em todo o Vosso poder, em toda a Vossa misericórdia e justiça, para formar-Vos uma companhia seleta de guardas que velem a Vossa casa, defendam Vossa glória e salvem tantas almas que custam todo o Vosso sangue, para que só haja um aprisco e um pastor, e que todos Vos rendam glória em Vosso santo templo: Et in templo eius omnes dicent gloriam. [[36]]
Amém.
-----------------------------
“Prece de S. Luís Maria Grignion de Montfort pedindo a Deus missionários para a sua Companhia de Maria”, São Luís Maria Grignion de Montfort. Editora Vozes Limitada. Petrópolis, RJ. 1971, pp. 301-313.
As notas de rodapé foram introduzidas conforme a Bíblia Sagrada, traduzida da Vulgata e anotada pelo Pe. Matos Soares. Edições Paulinas, 23ª. edição, 1967.


[1] Lembra-te da tua família, que fundaste desde a antigüidade ... (Sl 73, 2)
[2] Renova os teus prodígios, e faze novas maravilhas (Eclo 36, 6). E com o seu santo braço os defenderá (Cfr. Sab 5, 17).
[3] Põe os olhos no rosto do ungido. (Sl 83, 10)
[4] Que vantagem virá do meu sangue ...? (Sl 29, 10)
[5] É tempo, Senhor, de procederes (com rigor); violaram a tua lei. (Sl 118, 126)
[6] Cfr. Ap 6, 10. Até quando, Senhor, santo e verdadeiro, dilatas tu o fazer justiça, e vingar o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?
[7] Todas as criaturas gemem. (Rom 8, 22)
[8] Cfr. Gn 30, 1. Dá-me filhos, senão morrerei.
[9] Cfr. 1 Re 17, 40: E tomou o seu cajado ...;  e Sl 22, 4: A tua vara e o teu báculo, são estes que me consolam.
[10] Quem são estes, que voam como nuvens? (Is 60, 8)
[11] Iam para onde o Espírito os impelia. (Ez 1, 12)
[12] Eis-me aqui. (1 Re 3, 16)
[13] Vamos nós também para morrermos com Ele. (Jo 11, 16)
[14] Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça. (Gn 3, 15)
[15] Eis que o aflito clamou, e o Senhor o ouviu. (Sl 33, 7)
[16] Tirai-me a vida. (Cfr. 3 Re 19, 4)
[17] Não morrerei, mas viverei e narrarei as obras do Senhor. (Sl 117, 17)
[18] Agora, Senhor, deixas partir o teu servo em paz, segundo a tua palavra; porque os meus olhos viram a tua salvação .... (Lc 2, 29-30)
[19] Não há quem se esconda de seu calor. (Cfr. Sl 18, 7)
[20] Eu vos escolhi do meio do mundo. (Jo 15, 19)
[21] Recolhe-nos dentre as nações. (Sl 105, 47)
[22] [10] Ó Deus, tu enviaste uma chuva abundante sobre a tua herança; e, estando ela extenuada, a reanimaste. [11] Nela habitou a tua grei; na tua bondade, ó Deus, preparaste-a para o pobre. [12] O Senhor pronuncia uma palavra (de grande eficácia), é grande a multidão dos mensageiros de novas alegres: [13] Os reis dos exércitos fogem, e as (mulheres) que estão em casa repartem os despojos. [14] Quando descansáveis nos apriscos, as asas da pomba brilhavam como prata, e como um amarelo de ouro as suas penas. [15] Enquanto o Onipotente dispersava os reis da terra, caíam as neves sobre o Salmon. [16] Os montes de Basan são elevados, os montes de Basan são escarpados: [17] Ó montes escarpados, por que olhais com inveja o monte, no qual aprouve a Deus morar, e no qual o Senhor habitará perpetuamente? (Sl 67, 10-17)
[23] Porque eu vos darei uma boca e uma sabedoria, à qual não poderão resistir, nem contradizer, todos os vossos inimigos. (Cfr. Lc 21, 15)
[24] Os reis dos exércitos fogem, e as (mulheres) que estão em casa repartem os despojos.
[25] Quando descansáveis nos apriscos, as asas da pomba brilhavam como prata...
[26] E como um amarelo de ouro brilhavam as suas penas.
[27] Os seus fundamentos estão sobre os montes santos. (Sl 86, 1)
[28] O monte da casa do Senhor terá os seus fundamentos no cume dos montes. (Is 2, 2)
[29] A frase “Quem como Deus?” é uma tradução literal do nome Miguel.
[30] Quem é pelo Senhor, junte-se a mim! (Cfr. Ex 32, 26)
[31] Uma força unida torna-se mais forte.
[32] Bramiram, rangeram os dentes, agitaram-se, multiplicaram-se. (Cfr. Sl 2, 1; 24, 19; 45, 4; 34, 6; 37, 20)
[33] Quebremos as suas cadeias, e sacudamos de nós os seus laços! Aquele que habita nos céus ri-se, o Senhor zomba deles. (Sl 2, 3-4)
[34] Levante-se Deus, e sejam dispersados os seus inimigos. (Sl 67, 1)
[35] Erguei-vos, Senhor, por que dormis? Erguei-vos. (Sl 43, 24)
[36] E no seu templo todos dizem: Glória! (Sl 28, 9)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ladainha do Preciosíssimo Sangue

P.S: Recebido por e-mail. Agradeço a generosidade de quem me enviou.



Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Deus Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, redentor do mundo tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Sangue de Cristo, Unigênito do Pai Eterno, salvai-nos.
Sangue de Cristo, Verbo de Deus encarnado, salvai-nos.
Sangue de Cristo, Novo e Eterno Testamento, salvai-nos.
Sangue de Cristo, a correr na agonia sobre a terra, salvai-nos.
Sangue de Cristo, a verter na flagelação, salvai-nos.
Sangue de Cristo, a manar na coroação de espinhos, salvai-nos.
Sangue de Cristo, derramado na cruz, salvai-nos.
Sangue de Cristo, preço de nossa salvação, salvai-nos.
Sangue de Cristo, sem o qual não há remissão, salvai-nos.
Sangue de Cristo, bebida lavacro das almas na Eucaristia, salvai-nos.
Sangue de Cristo, rio de misericórdia, salvai-nos.
Sangue de Cristo, vencedor dos demônios, salvai-nos.
Sangue de Cristo, fortaleza dos mártires, salvai-nos.
Sangue de Cristo, virtude dos confessores, salvai-nos.
Sangue de Cristo, gérmen das virgens, salvai-nos.
Sangue de Cristo, ânimo dos periclitantes, salvai-nos.
Sangue de Cristo, alívio dos que trabalham, salvai-nos.
Sangue de Cristo, lenitivo para as lágrimas, salvai-nos.
Sangue de Cristo, esperança dos penitentes, salvai-nos.
Sangue de Cristo, consolação dos agonizantes, salvai-nos.
Sangue de Cristo, paz e doçura dos corações, salvai-nos.
Sangue de Cristo, penhor da vida eterna, salvai-nos.
Sangue de Cristo, que libertais as almas do Purgatório, salvai-nos.
Sangue de Cristo, digníssimo de toda glória e honra, salvai-nos.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.

V. Remistes-nos, Senhor, no Vosso Sangue.
R. E para o nosso Deus nos conquistaste.

Oremos:
Onipotente e sempiterno Deus, que constituístes a Vosso Filho Unigênito, Redentor do mundo, e quisestes ser aplacado pelo Seu Sangue, concedei, nós Vos pedimos que de tal modo veneremos o preço da nossa salvação e, por Sua virtude, sejamos defendidos na terra contra os males da vida presente, que nos seja dado usufruir perpetuamente as alegrias celestiais. Pelo mesmo Cristo Nosso Senhor. Amém. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

VOCAÇÃO DOS CARTUXOS

Eu a atrairei docemente a mim, 
e a conduzirei à solidão, e lhe falarei ao coração.
(Os., II, 14)


Por um cartuxo anônimo - Intimidade com Deus

            Não é possível, sem a ajuda de uma graça especial, procurar definir o espírito de uma das grandes Ordens da Igreja, cujos interesses são na verdade interesses de Deus, pelo que nenhum homem está à altura de falar sobre eles, - e a coisa torna-se ainda mais difícil quando essa Ordem é contemplativa, fiel há nove séculos à sua clausura rigorosa: a sua vida secreta, para se revelar, precisa de uma simpatia e de uma resposta interior. Mas, para falar da vocação cartuxa, seria preciso, acima de tudo, tê-la seguido até à perfeição: e é com vergonha de ter feito tão pouco que escrevemos estas linhas.
            Por mais que se pretenda exprimir a intenção que anima a vida dos cartuxos e das suas religiosas, devemos fazê-lo nos termos mais simples. As nossas almas são esposas de Jesus Cristo se respondermos à sua chamada: o nosso ideal é fazê-lo e viver unicamente em união com Ele. Esforçamo-nos por atingir este fim pela vida sacramental e litúrgica, pela oração, pela obediência, pela mortificação e pelo esquecimento de nós próprios, na solidão e segundo os costumes da Ordem cartuxa. Sabemos e sentimos, na medida em que Deus o quer, que Ele está desejoso de completar sem demora esta união dos espíritos e dos corações, desde que afastemos os obstáculos. Estes obstáculos reduzem-se a um: o apego a nós próprios, de que só o amor divino nos pode libertar.
            Esta definição é certamente elementar: muitos hão-de estranhar encontrar nela tão pouca doutrina e tão poucas características específicas. Contudo, esta simplicidade é necessária: é a primeira característica da espiritualidade cartuxa, e lamentamos ter de explicar estas palavras, pois não acrescentaremos nada à sua substância e receamos até enfraquecê-las com o comentário.
            Os monges e religiosas cartuxas, ocupados em servir a Deus nos seus eremitérios, nunca formaram uma escola nem se agruparam à volta do nome de um mestre: não têm nenhum autor célebre cuja obra fixe as linhas do seu desenvolvimento espiritual e lhe dê a forma que há-de ser depois imitada. Mas não é só pela sobriedade das formulações teóricas que parece ter ficado reservado um lugar para um impulso silencioso do espírito; a virgindade é uma característica essencial da espiritualidade cartuxa: tudo, nesta Ordem, protege a vida espontânea da alma e a reserva para Deus.

            É este o sentido da solidão, - a que nós observamos - e que tanto impressiona os estranhos. Abandonamo-nos a Deus e é unicamente d’Ele que nos esforçamos por viver. Esta solidão, no seu aspecto social, é de resto suavizada pela regra: mantemos entre nós relações de família, estamos unidos uns aos outros por uma profunda amizade, como irmãos e irmãs da mesma ordem. No entanto, estas relações e esta amizade só têm sentido na medida em que nos podem ajudar na fidelidade à solidão, medindo-a pelas nossas forças, e pondo-a à prova para que ela não perca o seu caráter sobrenatural. Estar só é, em certo sentido, morrer para o homem: é por isso que muitas vezes, depois de a ter tentado, alguns a consideram uma empresa desumana. Contudo, a alma foi feita para Deus, e qualquer outro objeto fecha o coração e o espírito dentro de limites que o asfixiam. Privá-la de solidão, como o mundo parece atualmente apostado em fazer, é fazer-lhe uma violência que, com mais propriedade, se pode chamar desumana. A solidão com Deus é um ideal para que todas as almas devem tender: o claustro apenas o atinge num movimento mais decidido e mais direto. Na verdade, não há outra companhia além de Deus: o coração que a não descobriu passará ainda por muitas provas e só no caso de se. conservar leal é que atingirá essa evidência, não com tristeza resignada, mas com profundo júbilo.
            A vida cartuxa define-se também pela sua atividade interior: esta Ordem é, dentro da Igreja, a que mais totalmente se dedica à contemplação. Esta palavra parece ter uma singular virtude, que fascina uns e inquieta outros. Criticou-se já o seu emprego, de resto antiqüíssimo: não é verdade que há homens incapazes de «ver» de «contemplar» interiormente seja o que for, por mais zelosos e religiosos que possam ser? Devemos responder, em nossa opinião, que esta palavra foi escolhida providencialmente para designar a atitude de uma alma-esposa, ainda que ela esteja longe de estar inundada de luz. Os espíritos que amam a verdade divina contemplam-na, e esse ato deve ser o único que a alma bem-aventurada fará no céu. Mas essa aprendizagem cá na terra faz-se no meio do sofrimento e das trevas da fé: é por isso mesmo que ela é sacrifício, purificação eficaz e testemunho insigne de caridade. Pode-se contemplar nas tribulações e na aridez, no trabalho e nos cuidados com o próximo, e até mesmo nas tentações e nas distrações involuntárias, - a única coisa que importa é que a alma se mantenha voltada para o Senhor invisível e opere de acordo com esse olhar. A experiência do amor deve fazer-lhe compreender o valor que ela dá à contemplação do seu objeto, tanto nas trevas como na luz, e o puro pressentimento da visão que anima a sua fidelidade: na verdade, é-se contemplativo na medida em que se ama.
            Que este esforço pode ser coroado já nesta vida por uma perfeita união com o Esposo; acreditamo-la firmemente, - pois, na verdade, nada se interpõe entre Deus e a alma. Mas essa união é, por sua natureza, secreta: ela implica o respeito do silêncio em que o Espírito a prepara e mantém.
            O segredo é, de resto, uma das características de toda a vida cartuxa: monges e freiras encontram nele o fresco refúgio - vita umbratiles -, em que germinam as flores eternas. Como passamos na igreja uma parte das horas noturnas, esforçamo-nos por santificar por meio da oração o coração de noite; assim a nossa existência, longe dos olhares do mundo, imita a vida oculta do Senhor, - a que Ele viveu no seio de Maria e durante os trinta anos que prepararam a salvação do mundo. Abandonando uma sociedade em que cada um, como é natural, procura aparecer, os cartuxos e as religiosas cartuxas esforçam-se por desaparecer, esperando que a verdade aceite esta prova. Um dos patronos da nossa Ordem, cujo nome vem incluído na nossa fórmula de profissão, é João, o Precursor, o profeta solitário que procura apagar-se para que brilhe aos olhos de todos a luz do Verbo.

            O papel da mulher, e sobretudo o da virgem, como já foi observado mais de uma vez, compreende de século para século uma viva afirmação de pudor: sente-se a si própria como um véu que protege essas reservas sagradas que se devem conservar puras, para que nunca sequem na terra as fontes da vida e da beleza, isto é, verdadeiro num sentido muito especial, para as virgens enclausuradas e consagradas que se cobrem com um véu à imitação de Maria, para guardar e alimentar dentro de sua vida divina. É por isso que as nossas monjas não parecem ter-se ligado à nossa Ordem por mero acaso, mas sim por uma disposição providencial, para que o espírito desta mesma Ordem fosse claramente manifestado nas suas características essenciais, e para que a nossa resposta à mesma vocação fosse para nós um mútuo encorajamento, uma confirmação recíproca da graça comum pela qual nos sentimos gratos para sempre.
            Não se poderá esconder, num esboço do ideal cartuxo, a presença constante da cruz: abandonar o mundo é doloroso para o coração; a solidão, por mais preciosa que seja por si, é um sacrifício quotidiano para a nossa natureza pecadora; a obediência, a pobreza, por mais sabiamente proporcionadas que estejam com as forças humanas, não podem ser aceitas e vividas sem uma agonia da vontade própria. Se o entusiasmo do amor não acende na alma uma faúlha de heroísmo, não se aceitarão por muito tempo estes deveres de padre cartuxo ou de irmão converso, nem os de esposa ou de mãe espiritual. Eles pressupõem que foi ouvido o chamamento de Cristo: «Se alguém me ama, tome a sua cruz e siga-me». Não há verdadeira vida interior sem uma paciência infinita, e se a vida do convento não é uma vida interior, é um cativeiro singularmente infeliz. A graça não há-de faltar a quem quiser ouvir esse chamamento, mas, se não houver uma fidelidade quotidiana, toda a graça será estéril e perdida.
            As dádivas mais puras do Espírito, os dons da fé, da intuição e da união, que são alegria, têm contudo necessidade da solidão, do silêncio e da cruz: a sua realidade desvanece-se numa vida demasiado cômoda, assim como numa expressão demasiado fácil. A reclusão austera e os sofrimentos que comporta são bem-vindos para o contemplativo: quando elas lhe faltam, a alma tem a consciência de que perde um amparo precioso e que seria prejudicial para ela estar privada dela durante muito tempo.
            Não insistiremos mais sobre este aspecto da nossa vida: a vida cartuxa é uma escola de paciência. Exercida em união com Cristo, na submissão à regra e na fidelidade à solidão, a paciência purifica a alma, vai gastando lentamente o amor-próprio e obriga-nos a entregarmo-nos a Deus. O nosso Ministro Geral, D. Inocêncio Le Masson († 1703), diz que a cartuxa é ainda uma escola de caridade (no estilo do seu século, «uma academia de caridade»): este ponto é, de fato, o centro da nossa comunidade religiosa, o seu princípio e o seu fim. Os sacrifícios de que acabamos de falar, o abandono e a renúncia, têm como única razão de ser a caridade que manifestam, como vem declarado nos nossos Estatutos.
            A única coisa que se faz nos nossos conventos é amar a Cristo com todas as nossas forças: sabemos que a abundância deste amor divino nos será dada se formos fiéis, e se derramará sobre todas as almas que dele necessitarem. Não há um único cartuxo que não se considere, neste sentido, missionário; não há nenhuma virgem cartuxa que não tenha o sentimento da sua maternidade espiritual e não possa dizer com Cristo: «O Espírito do Senhor repousou sobre mim; pelo que me ungiu para evangelizar os pobres, me enviou a sarar os contritos do coração, a anunciar aos cativos a redenção, e aos cegos a vista, a pôr em liberdade os oprimidos, a pregar o ano favorável do Senhor, e o dia da retribuição» (Luc., IV, 18-19).
            O ofício divino e o canto coral são a expressão do amor que a própria Igreja, Esposa de Cristo, põe na nossa boca, encarregando-nos oficialmente das suas declarações, dos seus juramentos e dos seus louvores. A caridade que deve ser a vida do claustro manifesta-se por outro lado, entre os membros do mesmo mosteiro tanto por um esforço contínuo de delicadeza e compreensão, como pela comunhão dos corações saciados na mesma fonte. Este ideal nem sempre é atingido na sua perfeição: no entanto, é realizado de modo mais constante do que o mundo julga, e a fraternidade monástica sóbria de expressão, alimentada de silêncio, é um amparo precioso para a alma na sua peregrinação interior.
            Parece-nos muitas vezes que as pessoas do século entre as quais se fala de amor e de amizade, poderiam tirar proveito da experiência das nossas comunidades: na verdade nenhuma afeição pode perdurar se não for garantida por uma vontade quotidiana e pela prática da renúncia, que lhe permite encarar de boa vontade todas as dificuldades; nenhum amor poderá viver se não estiver pronto a sacrificar até as suas próprias alegrias. Quem não reconhece estas verdades, não sabe amar como se ama na cartuxa, - e não acreditamos que saiba amar em qualquer outro lado.
            D. Inocência Le Masson, que faz da cartuxa «uma academia de caridade», vê também nela, o que parecerá talvez ainda mais estranho - «uma academia de liberdade». Basta, no entanto ter a experiência de um noviciado cartuxo para saber que a primeira impressão é a que está reduzida no salmo CXXIII: Laquens contritres est et nos liberati sumus - «O laço foi quebrado, e nós ficamos livres». O espaço interior é na verdade infinitamente mais vasto do que aquele que nos rodeia: o que mantém o homem cativo é o amor ansioso pelos bens transitórios, a ambição estreita, a preocupação paralisante com o que os homens podem dizer ou pensar de nós, - numa palavra, o amor-próprio em todos os seus aspectos. A resolução sincera de acabarmos com as suas exigências, de passarmos a tratar-nos com sábio desprezo, com justa ironia, é comparável ao levantar de um peso sob o qual mal podia bater o coração. Os votos não fazem mais do que romper as amarras. O caminho da liberdade não é o dos êxitos exteriores: pelo contrário,
desce até ao mais secreto da alma, até ao fundo divino em que o Espírito atento à verdade nos liberta (João, VIII, 32). Esta liberdade desenvolve-se, é como uma descoberta sempre nova à medida que cresce a intimidade com Deus, que ela reconhece a sua presença imediata e lhe permite viver nela.
            Deus é mais amável do que se pensa, e mais fácil de conhecer do que se julga. Amá-lO e conhecê-lO são duas graças intimamente ligadas: não se faz nenhum progresso no amor que não torne mais firme a certeza em que se baseia o equilíbrio e o vôo do espírito. Amar e contemplar na solidão cartuxa leva a alma a esquecer-se cada vez mais de si própria, até que a transparência do espelho interior permita que Deus se reproduza e repouse nela completamente. Então terá sido cumprido o grande mandamento: «Dai a Deus o que é de Deus», isto é tudo. As perguntas e as respostas baseiam-se num único cântico de louvor, a união é consumada em silêncio para lá das nossas medidas; a esposa pertence ao esposo: a liberdade foi conquistada.
            Possa a Espírito ser melhor ouvido! Que os corações generosos sigam Jesus sem medo do deserto! E que os que ousaram fazer este esboço do ideal cartuxo, ajudados pelas orações dos seus leitores, possam vivê-lo mais fielmente, para a sua própria salvação e de todas as almas. Venite et bibite, amici: inebriamini, carissimi! – «Vinde, amigos, e bebei na fonte, embriagai-vos, meu amigo! » (Cânt. V, 1).

Pensamento do dia 03/07/2012


"Cuando vemos que somos pocos, y que hay un mundo entero por quien Cristo murió, y que ese mundo duerme..., y muy pocos velamos..., de veras se sufre algumas vezes. Dios lo permite y así lo dispone."
(Fray Maria Rafael)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Pensamento do dia 02/07/2012


"Se a nossa fé é um ato vivo, se estamos arraigados no amor, deixamos de respirar o ar asfixiante deste mundo para respirarmos o Espírito de Deus e permanecermos para sempre na Sua unidade. Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal; eles não são do mundo, como eu também não sou do mundo" (João, XVII, 15-16)"

Por um cartuxo anônimo - Intimidade com Deus

domingo, 1 de julho de 2012

Jesus chora de saudade

Por uma missionária anônima do Instituto das Missionárias de Jesus Crucificado
O Bom Combate na Alma Generosa
1ª. Edição


            Senhor! É obra de misericórdia consolar os que choram, dar de comer a quem tem fome, visitar os encarcerados.
            Ah! Senhor, sois Vós aquele que brada no fundo dos tabernáculos: Meus filhos, estou chorando de saudades. Há tanto tempo, que alguns de meus filhos, se afastaram de mim... outros não conhecem seu pai!... Que saudades! Como isso me dilacera a alma!...
            Eu te disse, é obra de misericórdia consolar os que choram; consola, então, meu coração amargurado, enxuga minhas lágrimas! Ah! é essa porção querida de cândidos lírios, que mitiga minha cruenta dor!
            Ah! filhinha, se não fosse essa porção querida, a justiça de meu Pai teria desabado sobre a humanidade ingrata!
            Neste sacramento de amor, onde permaneço dia e noite sinto necessidade de um pouco de alimento, e o meu alimento é fazer o bem, alimentar meus filhos com a minha própria carne! Eu te disse, é, obra de misericórdia dar de comer a quem tem fome, e vós, porção querida, lírios do meu jardim, podeis suprir esses corações ingratos, que não me dão a esmola de seu amor!... Filhinha, Eu sou teu mendigo! Tenho tanta fome, tanta sede, tenho frio, estou nu! Deixei meu tesouro para vir morar em vossas casas!  Apesar de tanta indigência, sinto-me satisfeito por morar com os filhos dos homens, porque o meu desejo é fazê-los a todos felizes. Dizei a todos cândidos lírios de meu jardim, que estou com fome, que é obra de misericórdia matar a fome de um pobre mendigo, que se acha às suas portas! ...
            Sim, Eu estou à porta de cada um de meus filhos, onde ao mesmo tempo me acho prisioneiro! É obra de misericórdia visitar os encarcerados? Vosso Deus, o vosso amigo, o vosso Pai se acha na prisão à espera da vossa visita! ... Ó ingratidão de um filho que vê seu pai na prisão e não o vai visitar! ...
            Eu, prisioneiro, porque cometi o crime de vos amar com loucura! Este crime, filhinha, me mereceu a sentença de ficar prisioneiro até o fim dos séculos; sentença irrevogável, não há apelação até o fim dos séculos! ...
            Vosso amigo na prisão, isto não vos entristece o coração?! Vosso pai prisioneiro não dilacera a vossa alma?!... Direis vós: O culpado fui eu, cometi um crime, agora só me resta cumprir à risca minha sentença! Filhinhas, vede um Deus sentenciado!... Sim, sentenciado!... Condenado a uma longa e dura prisão!... Sim ela se torna dura quando os filhos queridos não me vêm visitar!    Quando vejo porem os cândidos lírios, minhas esposas, se aproximarem de mim, desaparece a dura prisão e se torna o sacrário um paraíso! Quando estas cândidas donzelas vem a mim com as vestes mais alvas que a neve, no meio dessa brancura acho minhas delicias! Ah! então, filhinha, mato minha sede, sacio minha fome, enxugo minhas lágrimas. Dai-me uma nova veste, cicatrizai minhas chagas abertas pela ingratidão dos filhos, que não me vem visitar!

            Jesus do Calvário, prisioneiro por amor dos homens.
            19-2-1930

terça-feira, 26 de junho de 2012

Linda oração de Santo Tomás de Aquino


"Que eu chegue a Vós, Senhor, por um caminho seguro e reto; caminho que não se desvie nem na prosperidade nem na adversidade, de tal forma que eu Vos dê graças nas horas prósperas e nas adversas conserve a paciência, não me deixando exaltar pelas primeiras nem abater pelas outras. 
Que nada me alegre ou entristeça, exceto o que me conduza a Vós ou que de Vós me separe. 
Que eu não deseje agradar nem receie desagradar senão a Vós. 
Tudo o que passa torne-se desprezível a meus olhos por Vossa causa, Senhor, e tudo o que Vós diz respeito me seja caro, mas  Vós, meu Deus, mais do que o resto. 
Qualquer alegria sem Vós me seja fastidiosa, e nada eu deseje fora de Vós. 
Qualquer trabalho, Senhor, feito por Vós me seja agradável e insuportável aquele de que estiveres ausente. 
Concede-me a graça de erguer continuamente o coração a Vós e que, quando eu caia, me arrependa. 
Torna-me, Senhor meu Deus, obediente, pobre e casto; paciente, sem reclamação; humilde, sem fingimento; alegre, sem dissipação; triste, sem abatimento; reservado, sem rigidez; ativo, sem leviandade; animado pelo temor, sem desânimo; sincero, sem duplicidade; fazendo o bem sem presunção; corrigindo o próximo sem altivez; edificando-o com palavras e exemplos, sem falsidade. 
Dá-me, Senhor Deus, um coração vigilante, que nenhum pensamento curioso arraste para longe de Vós; um coração nobre que nenhuma afeição indigna debilite; um coração reto que nenhuma intenção equívoca desvie; um coração firme, que nenhuma adversidade abale; um coração livre, que nenhuma paixão subjugue. 
Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que Vos conheça, uma vontade que Vos busque, uma sabedoria que Vos encontre, uma vida que Vos agrade, uma perseverança que Vos espere com confiança e uma confiança que Vos possua.
Amém."

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A PERFEITA CASADA III

Tradução: Liliane Raquel Chwat com complementação de Letícia de Paula conforme a edição de 1945 La perfecta casada - Fray Luis de Leon.




Que confiança há de gerar no peito de seu marido, e de como pertence ao ofício da mulher casada a guarda da fazenda, que consiste em não ser gastadora.

Confia nela o coração de seu marido;
não lhe farão falta os despojos.
(Prov., XXXI, 11)

            Depois de haver proposto o sujeito de sua razão e de havermos nos aficionado a ele, louvando-o, começa a especificar as boas partes dele e aquilo de que se compõe e aperfeiçoa, para que, colocando as mulheres os pés nestas pegadas, e seguindo estes passos, cheguem ao que é a perfeita mulher casada. E porque a perfeição do homem, em qualquer estado, consiste principalmente em obrar bem; por isso o Espírito Santo não coloca aqui por partes esta perfeição da qual fala mas somente as obras louváveis às quais está obrigada a mulher casada que pretende ser boa. E a primeira é que deve gerar no coração de seu marido uma grande confiança; mas deve-se saber qual é esta confiança da qual se fala; porque pensarão alguns que é a confiança que deve ter o marido de sua mulher que é honesta e mesmo que seja verdade que com sua bondade a mulher há de alcançar de seu marido esta boa opinião, porém, no meu parecer o Espírito Santo não trata aqui disto, e a razão de não tratar é justíssima.
            Primeiro, porque sua intenção é compor aqui uma mulher casada perfeita e ser uma mulher honesta não conta nem deve contar entre as partes das quais esta perfeição se compõe, e sim, antes, é como o sujeito sobre o qual todo este edifício se apóia; para dizê-la em uma palavra, é como o ser e a substância da mulher casada; porque se não possui isso, não é mulher e sim traiçoeira rameira e o pior lodo, o lixo mais hediondo de todos e a mais desprezada. E como no homem, ser dotado de entendimento e razão não é louvor nenhum, porque tê-la é parte de sua própria natureza, mas se lhe faltasse colocaria nele uma enorme lacuna, assim a mulher não é tão louvável por ser honesta, como é torpe e abominável se não o for. De modo que o Espírito Santo neste lugar não diz à mulher que seja honesta, mas pressupõe que já o seja, e, à que é assim, ensina o que falta e o que deve acrescentar para ser completa e perfeita. Porque, como dissemos acima tudo isso a que nos referimos é como fazer um retrato ou pintura, onde o pintor não faz a tela, e sim na tela que lhe oferecem e dão, coloca ele os perfis e induz depois as cores, elevando nos devidos lugares as luzes, e baixando as sombras onde convém, dando a devida perfeição à sua figura. E do mesmo modo, Deus, na honestidade da mulher, que é como uma tela, a qual pressupõe como feita e direita, acrescenta ricas cores de virtude, todas aquelas que são necessárias para acabar tão belíssima pintura. Isto é o primeiro.
            O segundo, se não fala aqui Deus do que toca esta fé, é porque deseja que esta coisa de honestidade e limpeza a tenham as mulheres tão cravada em seu peito, que nem sequer pensem que possa ser o contrário. E como dizem de Sólon, que foi quem deu leis aos atenienses, que, assinalando para cada malefício suas penas, não impôs castigo para quem matasse o próprio pai, nem fez menção deste delito, porque disse que não convinha que achassem nem possível  os homens, nem como antecedente, um mal semelhante; assim pela mesma razão não trata Deus que a mulher casada seja honesta e fiel porque não deseja que passe pela sua imaginação que é possível ser má. Na verdade é desonestidade para a mulher casta pensar que pode não sê-la, ou que ao sê-la faz algo que deva ser elogiada. Que, como é da natureza das aves voar, assim as mulheres casadas devem ter por dote natural, que não se pode romper, bondade e honestidade, e devem estar persuadidas que o contrário é aborrecível, desventurado e fato monstruoso, ou melhor, não devem imaginar que pode acontecer o contrário como não pode ser o fogo frio e a neve quente. Entendendo que quebrar a mulher a fé de seu marido é perderem as estrelas sua luz, caírem os céus, quebrar suas leis a natureza e retomar tudo àquela confusão antiga e primeira.
            Também não há de ser isso, como algumas pensam que, ao guardar o corpo íntegro para o marido, no que se refere a conversas, outros gestos e coisinhas miúdas, pensem que estão livres; porque não é honesta aquela que não o é, mas parece. E quando está longe do mal, tanto da imagem ou semelhança, deve permanecer afastada; porque, como bem disse um poeta latino, ela somente é casta quando nem a fama mentindo ousa colocar uma má nota. E, assim como, ao que faz o caminho de Santiago, mesmo que lá não chegue, o chamamos de romeiro; assim sem dúvida é iniciada rameira a que se permite tratar destas coisas que são o caminho.
            Se não for isso, de qual confiança Deus fala neste lugar? No que diz a seguir se entende, porque acrescenta: "Não lhe farão falta os despojos". Chama de despojos o que nós chamamos de jóias e adereços da casa, como alguns entendem, ou, como acho mais certo, chama de despojos aos lucros adquiridos por meio de mercadorias. Há de se entender que os homens obtêm ganhos e se sustentam e vivem, ou de lavrar o campo, ou do trato e contratação com outros homens.
            A primeira forma de ganho é lucro inocente e santo lucro, porque é puramente natural, porque com ele o homem come de seu trabalho, sem que prejudique nem injurie, nem despreze ninguém, como também porque, do mesmo modo que para as mães é natural sustentar com leite as crianças que gera, e mesmo a elas, guiadas por sua inclinação, também lhes é natural acudir logo aos peitos; assim nossa natureza nos leva e inclina a retirar da terra, que é mãe e geradora nossa, o que convém para nosso sustento.
            O outro lucro e modo de adquirir, que tira frutos e se enriquece das fazendas alheias, ou com a vontade de seus donos, como fazem os mercadores e os mestres e artífices de outros ofícios, que vendem suas obras, ou por força e sem vontade como acontece na guerra, é lucro pouco natural e que na maioria das vezes intervém alguma parte de injustiça e de força, e ordinariamente dão com desgosto e sem vontade aquilo que dão as pessoas com quem se ganha. Por esse motivo, tudo o que deste modo se ganha é aqui chamado de despojos, por conveniente razão. Porque, aquilo que enche a casa do mercador, deixa vazio e despojado ao outro que o contrata. E mesmo que não seja mediante a guerra, porém como na guerra, nem sempre é muito justo. Pois diz agora o Espírito Santo que a primeira parte e a primeira obra onde a mulher casada se aperfeiçoa é fazendo com que seu marido esteja confiante e seguro que, tendo-a, não tem a necessidade de se fazer ao mar, nem de ir à guerra, nem de dar seu dinheiro, para ter sua casa abastada e rica; nem de se enredar em tratos vis e injustos, mas lavrando ele suas propriedades, colhendo seus frutos e tendo a ela como guardiã e beneficiária do que é colhido, tem bastante riqueza.
            E que pertença ao ofício da mulher casada, e que sejam parte de sua perfeição estas tarefas, além do que o Espírito Santo ensina, também o demonstra a razão. Porque é certo que a natureza ordenou que os homens casassem, não só a fim de perpetuar nos filhos a linhagem e nome deles, mas também para que eles mesmos em si e em suas pessoas se conservassem, o qual não lhes era possível, nem ao homem só, nem à mulher sem o homem; porque para viver não é suficiente ganhar fazendo, se o que se ganha não se guarda; se o que se adquire se perde, é como se não se adquirisse.
            O homem que tem forças para trabalhar a terra e o campo, para sair pelo mundo e contratar com os homens, negociando seus bens, não pode cuidar de sua casa nem tem condições; em compensação, a mulher que, por ser de natureza fraca e fria, é inclinada ao sossego e à escassez, sendo boa para guardar pelo mesmo motivo que não é boa para o esforço e o trabalho de adquirir. E assim, a natureza, em tudo precavida, os juntou, para que prestando cada um deles ao outro sua condição, se conservassem juntos os que não pudessem ficar afastados. E, de inclinações tão diferentes, com arte maravilhosa, e como se faz na música com diversas cordas, fez uma proveitosa e doce harmonia, para que quando o marido estivesse no campo a mulher cuidasse da casa e conservasse um o que o outro colhesse.
            Por esse motivo diz bem um poeta que os fundamentos da casa são a mulher e o boi; o boi para arar, e a mulher para guardar. A sua própria natureza faz com que seja da mulher este ofício, e a obriga a esta virtude e parte de sua perfeição, como a parte principal e de importância. Isso se conhece pelos bons e muitos efeitos que produz; dos quais, um é o que coloca aqui Salomão, quando diz que confia nela o coração de seu marido, e não lhe farão falta os despojos. Quer dizer, que com ela se contenta com a terra que herdou de seus pais, com a plantação e os frutos dela, e que nem se endivida, nem se envolve com o perigo e desassossego de outras paragens e, para onde quer que olhe, é muito grande seu bem. Se falamos de consciência, viver alguém de seu patrimônio é vida inocente e sem pecado e os demais tratos maravilhosamente carecem dele. Se no sossego, um descansa em sua casa, o outro passa a maior parte da vida em tabernas e nos caminhos. A riqueza do primeiro não ofende ninguém, a do outro é murmurada e desprezada por todos.
            Um come da terra, que jamais se cansa nem deixa de comunicar-nos seus bens; o outro é detestado pelos mesmos que o enriquecem. Se olharmos para a honra, certamente não há coisa mais vil nem mais indigna no homem que enganar e mentir, e dificilmente o trato destes carece de enganos. O que dizer da instituição dos filhos, da ordem da família e da boa disposição do corpo e do ânimo, senão que vai tudo pelo mesmo caminho? E sabido que quem anda ausente de sua casa encontra nela muitos desconcertos, que nascem e crescem e criam forças com a ausência do dono; forçoso é que quem trata desenganar, seja enganado, e quem contrata e se comunica com pessoas imaginosas e de costumes diversos, adquire muitos maus costumes. Mas, pelo contrário, a vida no campo, cuidar de suas terras é como uma escola de inocência e verdade; porque cada um aprende daqueles com quem negocia e conversa. Como a terra, naquilo que se lhe pede é fiel, como não muda sendo estável e clara, e aberta para brotar e tirar luz de suas riquezas, parece que gera e imprime no peito de quem a lavra uma bondade particular e uma condição simples e um trato verdadeiro e fiel, pleno de integridade, de bons e antigos costumes dificilmente encontrados em outro tipo de homens. Além de criá-los saudáveis, valentes, alegres e dispostos para qualquer linhagem do bem. E a raiz de todos estes proveitos, onde nascem e se sustentam, é o cuidado e empenho da mulher da qual falamos.
            Mas este cuidado consiste em duas coisas: em que não seja custoso e que seja ativo.
            Especificamos cada uma. Não deve desperdiçar nem ser gastadora a perfeita mulher casada, porque não tem motivo para sê-la; já que todas as despesas que fazemos são para prover ou as necessidades ou o deleite; para remediar as faltas naturais com as quais nascemos: de fome, nudez ou para abastecer os particulares desejos e sabores que fazemos por vício. Nas mulheres, por um lado a natureza colocou uma grande taxa e por outro as obrigou a que elas mesmas se a pusessem. Em verdade; se olharmos naturalmente para as faltas e necessidades das mulheres, veremos que são muito menores que as dos homens; porque é pouco o que precisam por ter menos calor natural, sendo muito feio que comam muito e sejam gulosas. E nem mais nem menos quanto toca ao vestir, a natureza as fez por uma parte ociosas para que estragassem pouco [as vestimentas], e por outra parte asseadas, para que o pouco realçasse muito.E as que pensam que a postura e os vestidos as tornarão belas, vivem muito enganadas porque quem é, é e quem não é, de nenhuma maneira será nem parecerá e quanto mais se enfeita mais feia fica. De modo que a boa mulher casada, de quem estamos tratando, seja ela feia ou belíssima, não há de querer parecer outra coisa do que é. Assim, quanto ao necessário, a natureza livrou a mulher de muitos custos e, com relação aos deleites e desejos, estão amarradas a estreitas obrigações, para que não sejam dispendiosas. E uma delas é o recolhimento, modéstia e índole que devem à sua natureza; apesar da desordem e o deixar correr solto o desejo vão e não necessário, ser vituperável em todo tipo de pessoa, nas mulheres, que nasceram para sujeição e humildade, é muito mais vicioso e vituperável. Sendo assim, não sei como acontece que, quanto são mais obrigadas a ter esse freio, tanto quando o quebram, se desenfreiam mais que os homens e passam muito mais da medida e não tem fim seu apetite.
            E assim, seja esta a segunda causa que as obriga a ser muito contidas nas despesas de seus desejos, porque, se começam a se desatinar, se desatinam sem limite e são como um poço sem fundo; nada é suficiente e são como uma chama encoberta que se alastra sem sentir pela casa e pela propriedade, até consumir tudo. Porque não é despesa de um dia, mas de cada dia; nem gasto que se faz uma vez na vida, mas que dura por toda ela; nem são, como se costuma dizer uns poucos, e sim muitos e muitos. Porque se for gulosa, a vida é o almoço e a merenda, a horta e a comadre, o dia bom; e se pensam em galas, a coisa passa de paixão e chega a incrível desatino e loucura, porque hoje é um vestido, amanhã outro e cada festa um diferente; e o que hoje fazem, amanhã desfazem, e tudo o que vêem, desejam.
            E vai mais além o furor, porque se tomam mestras e inventoras de novas invenções e trajes, fazem questão de mostrar o que nunca foi visto. Como todos os mestres gostam de ter discípulos que os imitem, elas são tão perdidas que, vendo em outras suas invenções, as detestam e estudam e perdem o sono para fazer outras. E cresce mais seu frenesi, já não lhe agradando o belo, mas o caro; os panos devem ser não sei de onde, e os melhores brocados, o âmbar que banhe as luvas, até os sapatos devem reluzir em ouro também, assim como o toucado e as mantilhas que devem estar muito bordadas; e tudo novo e recente, feito ontem para ser usado hoje e desprezado amanhã. E como cavalos desbocados, quando tomam o freio, quanto mais correm, mais querem correr; como a pedra que cai do alto que quanto mais desce mais se apressa, assim a sede delas cresce; um grande desatino e excesso que fazem é princípio de outro maior, e, quanto mais gastam, mais querem gastar.
            Há ainda nisso outro dano muito grande, que os homens, se forem gastadores, a maioria das vezes o são em coisas, que mesmo não necessárias, são porém duradouras ou honrosas, ou têm alguma parte de utilidade e proveito, como os que edificam suntuosamente e os que sustentam grande família ou como os que gostam de ter muitos cavalos; mas a despesa da mulher e toda fútil; a despesa é muito grande e aquilo no qual gasta, nem se nem aparece. Em babados e luvas, calçolas, pedras, vidros e outras coisinhas da loja, que nem podem ser olhadas sem nojo ou movidas sem fedor. E muitas vezes não gasta tanto um letrado com seus livros, como uma ama para clarear seus cabelos. Deus nos livre de tão grande perdição. E não quero colocar nelas toda a culpa, já que não sou tão injusto; parte grande disto nasce da pouca paciência de seus maridos. Não vamos falar deles por compaixão; porque, se são culpados, pagam muito caro por isso. Que não seja a perfeita mulher casada custosa, nem se empenhe gastar mais que a vizinha, mas que tenha a sua casa mais abastada que ela e mais reparada, e faça com seu asseio e cuidado que o vestido antigo fique como se fosse novo; com a limpeza, qualquer coisa que vestir fique bem. Porque gastar é contrário ao ofício da mulher, e demais para sua necessidade; para os desejos, vicioso e muito torpe e problema infinito que assola as casas e empobrece os moradores; prendendo-os em mil arapucas os abate e os degrada de diferentes maneiras. Com esse mesmo propósito é e pertence o seguinte:

Pague-lhe com bem e não com mal,
todos os dias de sua vida.
(Prov., XXI, 31-12)
 P.S: Continuará...