terça-feira, 19 de junho de 2012

A PERFEITA CASADA II

Tradução: Liliane Raquel Chwat com complementação de Letícia de Paula conforme a edição de 1945 La perfecta casada - Fray Luis de Leon



Algumas advertências do autor para começar a tratar da matéria

            Mulher de valor, quem a encontrará?
            Raro e extremado é seu preço
(Prov., XXXI, 10)

            Antes de começar, nos convém pressupor que, neste capítulo, o Espírito Santo em verdade pinta uma boa mulher casada, declarando as obrigações que tem; também diz e significa, como encobre, debaixo desta pintura, coisas maiores e do mais alto sentido, que pertencem a toda a Igreja. Porque se há de entender que a Sagrada Escritura, que é a voz de Deus, é como uma imagem da condição e natureza de Deus; e assim como a divindade é juntamente uma única perfeição e muitas perfeições diversas, uma em simplicidade e muitas em valor e eminência, assim a Santa Escritura com as mesmas palavras diz muitas e diferentes coisas, e, como ensinam os santos, na simplicidade de uma mesma sentença se encerra uma grande gestação de sentidos.
            E como em Deus tudo o que há é bom, assim em Sua Escritura todos os sentidos que colocou nela o Espírito Santo são verdadeiros. De modo que seguir um sentido não é desprezar o outro, e menos ainda aquele que nestas Sagradas Letras, entre muitos e verdadeiros entendimentos que contém, descobre um entre eles e o declara e nem por isso deve se pensar que despreza os outros entendimentos. Pois digo que neste capítulo, Deus, pela boca de Salomão, com as mesmas palavras faz duas coisas: a primeira, instrui e ordena os costumes; a outra, profetiza mistérios secretos. Os costumes que ordena são da mulher casada; os mistérios que profetiza são inteligência, e as condições que haveria de colocar em Sua Igreja, de quem fala como se fosse a figura de uma mulher de Sua casa. Neste último, dá luz no que se há de crer; no primeiro, ensina como se há de obrar. E porque somente este é o nosso propósito, falaremos somente dele aqui e procuraremos, dentro do possível, extrair e colocar diante dos olhos tudo o que há nesta imagem de virtude que pinta Deus aqui. Diz, pois:

            Mulher de valor, quem a encontrará?
            Raro e extremado é seu preço.

O que é necessário para que uma mulher seja perfeita, e o quanto deve procurá-lo ser a que é casada.

            Propõe logo no início aquilo que há de dizer, que é a doutrina de uma mulher de valor, ou seja, de uma perfeita mulher casada e louva o que propõe, ou para dizer melhor, propõe louvando para despertar e acender nelas este desejo honesto e virtuoso. E para ter maior força o encarecimento, coloca-o por meio da pergunta, dizendo: “Mulher de valor, quem a encontrará?” Perguntando e afirmando isso, diz que é difícil encontrá-la e são poucas essas mulheres. Assim, o primeiro louvor para a boa mulher é dizer que ela é coisa rara, ou seja, dizer que é preciosa e excelente, digna de ser muito estimada, porque tudo aquilo que é raro é precioso. Que seja esta sua intenção, parece não haver dúvida, porquanto logo acrescenta: “Inatingível e extremado é seu preço”. Ou como diz o original no mesmo sentido: “Muito além, muito distante do preço das pedras preciosas é seu preço”.
            Desse modo, portanto, um homem que encontra uma mulher de valor pode desde já se sentir rico e venturoso, entendendo que encontrou uma pérola oriental ou um diamante finíssimo ou uma esmeralda ou alguma outra pedra preciosa de inestimável valor.
            É este o primeiro elogio à boa mulher, dizer que é difícil de encontrar. O que é um elogio para as boas, mas é aviso para conhecer geralmente a fraqueza de todas. Não seria grande coisa ser boa se houvesse muitas, ou se em geral não fossem muitos seus males sinistros, os quais são tantos, em verdade, tão extraordinários e diferentes entre si, que, mesmo sendo uma linhagem ou espécie, parecem de diversas espécies. Como zombando neste assunto, foi Focílides ou foi Simônides quem costumava dizer (Apud Stobaeum, serm. 73.) que somente nelas vemos a criatividade e as manhas de todo tipo, como se fossem de sua linhagem: há algumas toscas e livres como cavalos, e outras espertas como raposas, outras agressivas, outras volúveis, outras pesadas, como se fossem feitas de terra e por isso aquela que entre tantos diferentes males acaba sendo boa, merece ser muito elogiada.
            Mas vejamos porque o Espírito Santo chama a boa mulher de mulher de valor, e depois veremos com quanta propriedade a compara e antepõe às pedras preciosas. O que aqui chamamos de mulher de valor, que poderíamos chamar de mulher varonil, como Sócrates, referindo-se a Jenofón (De administratione domestica, lib. V.), chama as mulheres casadas de perfeitas; por esse motivo ao dizer varonil ou valor, na origem é uma palavra de grande significado e força, de modo tal que somente com muitas palavras se alcança tudo o que significa. Quer dizer virtude de ânimo e fortaleza de coração, indústria e riquezas, poder e vantagem, e finalmente, um ser perfeito, pleno daquelas coisas a quem esta palavra se aplica; tudo isto guarda em si quem é uma boa mulher, e não o é se não o guarda.
            Para que entendamos que isso é verdade, chamou-a o Espírito Santo com este nome, que encerra em si tão variado tesouro. Porque, mesmo sendo a mulher naturalmente delgada e frágil mais que qualquer outro animal, como se fosse uma coisa quebradiça e melindrosa, e como na vida de casada está sujeita a muitos perigos e se oferecem a cada dia trabalhos e dificuldades muito grandes, exposta a contínuos dissabores e zangas, e, como diz São Paulo (I. Cor., VII, 34), vida onde o ânimo e o coração estão divididos como alheios entre si, acudindo ora os filhos, ora o marido, ora a família; para que tanta fraqueza saia vitoriosa da contenda tão difícil e longa, é necessário que para ser uma boa mulher casada esteja cercada de um nobre esquadrão de virtudes, como são as virtudes que já dissemos e aquelas que em si abraça a propriedade deste nome. Porque o que é bastante para que um homem se saia bem com o negócio que empreende, não é suficiente para que uma mulher responda como deve a seu ofício; quanto mais o sujeito é fraco, maior é a necessidade de ajuda e favor para chegar com uma carga pesada. E como, quando em um material duro que não se rende ao ferro nem à arte, vemos uma figura perfeitamente esculpida, dizemos e reconhecemos que era perfeito e extremado em seu ofício o artífice que a esculpiu, que com a vantagem de seu artifício venceu a dureza indomável do sujeito duro; assim do mesmo modo, mostrar-se uma mulher como deve entre tantas ocasiões e dificuldades de vida, sendo tão fraca, é claro sinal de um caudal de raríssima e quase heróica virtude.
            É argumento evidente que quanto mais à natureza é fraca, mais se adianta e avantaja no valor do ânimo. E esta mesma é a causa também por onde, como vemos pela experiência e como nos ensina a história em não poucos exemplos, quando uma mulher se decide a realizar alguma coisa de louvor, vence nisso muitos homens que tentam a mesma coisa. Porque coisa de tão pouco ser como é isso que chamamos de mulher, nunca empreende nem alcança coisa de valor nem de ser, se não for porque a inclina a isso, e a desperta e alenta, alguma força de incrível virtude que, ou o céu colocou em sua alma ou algum dom singular de Deus. Já que vence seu natural e se avoluma como rio, de mãe, devemos entender necessariamente que possui em si grandes bens. De modo que, com grande verdade e significado de louvor, o Espírito Santo não chamou a mulher boa de boa, nem disse ou perguntou: Quem achará uma boa mulher?, mas chamou-a de mulher de valor; usou para isso uma palavra tão rica e significativa como é a original que dissemos, para nos dizer que a mulher boa é mais que boa e isso que chamamos bom é um modo de dizer que não chega àquilo de excelente que deve ter e tem em si a boa mulher. E, para que um homem seja bom, é suficiente um bem médio, mas na mulher deve ser coisa de muitos e altos quilates, porque não é obra de qualquer oficial, nem lance ordinário, nem bem que se encontra em qualquer lugar, e sim artifício primo e bem incomparável, ou, para dizer melhor, um acúmulo de riquíssimos bens.
            Este é o primeiro louvor que lhe dá o Espírito Santo, e deste deriva o segundo, que é compará-la com as pedras preciosas. Neste, em uma palavra, acaba de dizer cabalmente que se encerra tudo o que estamos falando. Porque, assim como a pedra preciosa é de alto e extraordinário valor, assim o bem de uma boa mulher tem altos quilates de virtude; e como a pedra preciosa em si mesma é pouca coisa, e, pela grandeza da virtude secreta, cobra um preço, assim o que na fraqueza da mulher estima como bem, é grande e raro bem; e como nas pedras preciosas a que não é muito fina não é boa, assim nas mulheres não há meio termo, nem é boa a que não é muito boa. Do mesmo modo que é rico um homem que possui uma preciosa esmeralda ou um diamante, mesmo que não tenha outra coisa; possuir estas pedras não é possuir uma pedra, e sim possuir nela um tesouro abreviado; assim uma boa mulher não é uma mulher e sim um acumulo de riquezas, e quem a possui é rico só com ela e somente ela pode fazê-lo venturoso e afortunado; do mesmo modo que a pedra é levada nos dedos e colocada diante dos olhos, e assenta-se sobre a cabeça para beleza e honra dela, o dono tem ali juntamente apoio na alegria e socorro na necessidade, nem mais nem menos o marido deve gostar mais da mulher que de seus próprios olhos, e há de levá-la sobre sua cabeça, e o melhor lugar no coração do homem deve ser para ela, ou, para dizer melhor, todo seu coração e sua alma; e há de entender que ao tê-la, tem um tesouro geral para todas as diferenças de tempos que é a varinha de virtudes, como dizem, que em qualquer tempo e conjuntura responderá com seu gosto e preencherá seu desejo; que na alegria tem nela doce companhia com quem acrescentará seu prazer, comunicando-o; e na tristeza, amoroso consolo; nas dúvidas, conselho fiel; nos trabalhos, repouso; nas faltas, socorro; e medicina nas doenças, aumento de seus bens, vigia de sua casa, mestra de seus filhos, provedora de seus excessos; e finalmente, nas boas e más situações na prosperidade e adversidade, na idade florida e na velhice cansada, e, durante toda a vida, doce amor, paz e descanso.
            Até aqui chegam os elogios de Deus a esta mulher; vejamos agora o que segue depois disso:

            Confia nela o coração de seu marido;
            não lhe farão falta os despojos.
            Prov., XXXI,11
 P.S: Continuará...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pensamento da noite de 18/06/2012

Gemma Galgani - Belíssima e santa

"Da visão ao amor há apenas um passo, e o amor dirigido para o ideal divino, para a beleza moral, é o começo da regeneração e da santidade. O ideal da beleza absoluta só existe em Deus, pois só nEle se encontram, em todo o Seu esplendor, o "Verdadeiro" e "Bom", que, sem ser a essência do "Belo", são, entretanto, duas partes constitutivas, de tal modo que sem "Verdade" e sem "Bondade" a beleza não pode existir."
(Padre Julio Maria de Lombaerde)

O MELHOR CAMINHO



Por um cartuxo anônimo
Intimidade com Deus


            A fidelidade a certas práticas religiosas não basta para tornar o homem interior. Aquele que merece verdadeiramente este nome não pára de rezar quando a sua boca emudece, nem de louvar a Deus quando tem de falar de coisas indiferentes. O perigo duma regularidade demasiado exterior é pôr limites à vida do espírito e tornar puramente mecânica a expressão da piedade. Quase que não é necessário insistir nisto, visto que o Evangelho nos adverte várias vezes do perigo: «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim» (Mat., XV, 8).

            O que importa na vida espiritual não é o número das orações nem a acumulação das práticas, mas a continuidade de uma fé viva, o abandono generoso de si próprio e a união íntima com Nosso Senhor. O valor das virtudes mede-se pela sua fonte: os nossos atos valem pelas nossas intenções, e desde que estas se elevem constantemente para Deus pela fé, pela esperança e pela caridade, não há nada na nossa existência que não possa ser uma ação de graças, que não dê glória eterna ao Pai. «Nem todo o que diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus; mas o que faz a vontade do meu Pai, que está
nos céus, esse entrará no reino dos céus» (Mat., VII, 21).

            Enquanto não tivermos ouvido o chamamento a uma vida interior, não teremos compreendido bem as palavras de Cristo. E enquanto o nosso coração se contentar com palavras de rotina, quase automáticas, estaremos com certeza muito longe de cumprir o preceito: Amai com todo o vosso entendimento e de todo o vosso coração! É necessário que a nossa vida seja tocada por Ele, e até que a nossa pessoa deixe de nos pertencer para se entregar toda ao amor: a intimação de Deus não pode ter outro sentido. À medida que nos aproximamos de Deus, opera-se uma transformação no nosso ser, que se espiritualiza e se adapta àquilo que ama. Seria um grande perigo para a nossa alma se ela se limitasse a fórmula e gestos convencionais e não explorasse essa parte mais profunda onde Deus a espera. «Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Porque é destes adoradores que o Pai procura. Deus é espírito; e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram (João, IV, 23-24).

            Mais de um caminho se apresenta ao homem que quer caminhar na luz seguindo os conselhos do Mestre. Uns entregam-se a uma vida de penitência, outros procuram o retiro e a solidão, outros ainda sentem-se chamados para a pobreza evangélica: cada um destes meios é adotado e valorizado de maneira especial por certas famílias religiosas. Mas que seria da pobreza, da solidão e até da penitência, se não fossem animadas de uma intenção pura e verdadeiramente divina? Na verdade, podemos abandonar o mundo e os seus prazeres, aprender a renunciarmos a nós próprios e a dominarmo-nos com uma intenção egoísta; não é necessário ser-se cristão para ter qualquer destes ideais: a Grécia e a Índia tiveram heróis do ascetismo filosófico que não se aproximaram sequer da santidade. Nenhuma virtude deve ser despregada, porque o que ocupa o lugar que ficou livre por essa falta de vigilância é sempre uma forma de amor-próprio: o que importa precisamente é não descurar um dever, enquanto estamos cumprindo outro.

            E como o perigo desta parcialidade está espreitando constantemente a nossa vontade imperfeita, precisamos de apoiar a nossa ação, a nossa própria visão dos valores, no ponto mais alto - o mais seguro. É Deus que no-lo indica, felizmente, e nos convida a ele pela boca do Apóstolo: «Aspirai, pois, aos dons melhores. E eu vou mostrar-vos um caminho ainda mais excelente. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E ainda que eu distribuísse todos os meus bens no sustento dos pobres, e entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, nada me aproveita» (I Cor., XII, 31- XIII, 1-3).

            Por mais medíocre que a nossa vida tenha sido até agora e por mais desanimadora que nos pareça a sua recordação, não temos nenhum motivo para pôr de parte este recurso: pelo contrário, é nosso dever pedir à fonte suprema que nos dê as forças que nos faltam, que nos faça voltar o amor eterno. As faltas cometidas nunca devem servir de pretexto para uma timidez da alma, como se o amor de que ela precisa estivesse reservado para almas escolhidas. Na verdade, não é assim que fala o divino Mestre: quando uma pecadora pública ousa banhar-Lhe os pés com as suas lágrimas e enxugá-los depois com os cabelos, toma a sua defesa contra as críticas do Fariseu, homem justo, contudo, e de conduta irrepreensível: «Não me deste o ósculo da paz, e esta, desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés. Não ungiste a minha cabeça com bálsamo; e esta ungiu com bálsamo os meus pés. Pelo que te digo: são-lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou» (Luc., VII, 45-46).

            A caridade deve fecundar toda a nossa vida, é ela que devemos procurar em todas as coisas e deve ser a razão constante das nossas ações. É preciso deixarmo-nos guiar pelo amor para que ele cresça na nossa alma. Ninguém falou de caridade com mais entusiasmo do que o convertido de Damasco, e ninguém se deixou levar mais por ela do que ele próprio, que tão ardentemente desejava a morte libertadora para estar com Cristo. «Porque o amor de Cristo nos constrange, diz ele, pois sabemos que Cristo morreu por todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles» (lI Cor., V, 14-15).

            Deus obrigar-nos-ia quase, pelo poder do Seu amor, a entregarmo-nos a Ele: no entanto, rigorosamente, Ele não exerce pressão sobre a alma, pois criou-nos livres e o amor vive de liberdade.

            A caridade é o laço vivo entre o Pai e o Filho: ela deve ser também o laço que liga as vontades e as inteligências para uni-las a Deus. É um dom inestimável que recebemos no batismo: mal chegamos a este mundo, Deus confere-nos o direito de cidadania no Céu. O Seu Espírito, como uma porta interior, derrama em nós a caridade divina: «O amor de Deus está derramado em nós, diz São Paulo, pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (Rom., V, 5).

            Nós, a quem Deus escolheu para combatermos em Seu nome, não podemos, de maneira nenhuma, contentar-nos em cultivar esta ou aquela virtude: não há nenhuma, seja dito mais uma vez, que não seja necessária. Elas crescem e frutificam à medida que cresce o amor; da mesma maneira perdem o brilho e o valor à medida que a caridade enfraquece. E é isso que o Apóstolo nos faz ver: «Acima de tudo isto, tende caridade, que é o vínculo da perfeição» (Col., III, 14). «Que todas as vossas obras sejam feitas em caridade» (Cor., XVI, 14). O amor não descansa senão quando alcança uma vitória total: como não há-de isto ser verdade, antes de tudo, para o amor infinito que deu tudo e não pode satifazer-se com fragmentos ou restos da nossa capacidade de amar?

            O amor sabe aproveitar todas as ocasiões para tocar o coração do amado: nas horas de alegria, dá graças; nas horas de dor prova a sua fidelidade. A aceitação filial de tudo o que nos cabe, a calma certeza de que nada acontece sem uma intenção da caridade divina para conosco - por mais doloroso que o acontecimento nos pareça -, este consentimento e esta confiança são uma oração constante, graças à qual tudo se vive por amor de Deus. Deste modo, a nossa conduta está de harmonia com o eterno desígnio, «vivemos de acordo com o fundo das coisas».

            Uma intenção recolhida e renovada durante o dia tantas vezes quantas as nossas ocupações materiais no-lo permitam, mantém o nosso coração elevado para Deus: é uma oferta que o mais pobre dos pecadores está à altura de fazer, quando considera a sua miséria. Aos pés da cruz, diante do tabernáculo, nos momentos sagrados que se seguem à santa comunhão, unimo-nos a Jesus nosso amigo, e qualquer que seja a razão que nos afasta dEle, podemos voltar sem demora para Cristo num novo impulso de amor. Percorrendo assim com Ele o caminho da nossa vida, somos levados a compreender melhor a Sua palavra que se resume neste preceito e nesta promessa de amor - como reconheciam, depois de terem caminhado na Sua divina companhia, os discípulos de Emaús: «Não é verdade que sentíamos abrasar-se-nos o coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Luc., XXIV, 32). 

sábado, 16 de junho de 2012

A Perfeita Casada por Frei Luís de Leon - Introdução

Tradução feita por Liliana Raquel Chwat
adaptada e complementada por Letícia de Paula
que teve como base edição espanhola de 1945 - La perfecta casada, 
colección "CHRISTUS" N.º 31, Editorial Difusion. S.A



A dona Maria Varela Osório

Introdução

Em que se fala sobre as leis e condições do estado do matrimônio e da estrita obrigação que tem as casadas de conhecê-las e cumpri-las.

            Este novo estado em que Deus a colocou, sujeitando-a as leis do santo matrimônio, apesar de se apresentar como caminho real, mais aberto e menos trabalhoso que outros, não carece contudo de dificuldades e maus passos e é o caminho onde também se tropeça, corre-se perigo, erra-se e que tem necessidade de guia como os demais; porque servir ao marido, governar a família, a criação dos filhos, a conta que junto com isso se deve ao temor de Deus, e a guarda e limpeza da consciência, tudo o que pertence ao estado e ao ofício da mulher que se casa, são obras que requerem cada uma por si mesma muito cuidado e que, todas juntas, sem particular favor do céu, não podem ser cumpridas. Nisso se enganam muitas mulheres que pensam que casar-se não é mais que deixar a casa do pai, passando para a do marido e sair da servidão para a liberdade e a felicidade; e pensam que, tendo um filho de tanto em tanto e jogando-o nos braços de uma ama, são saudáveis e plenas mulheres.
            Já que o seu bom senso e a inclinação a toda virtude, com a qual Deus a dotou, me garante para que não tema que será como algumas dessas que menciono, entretanto, o profundo amor que lhe tenho e o desejo de seu bem que arde em mim, me impelem a lhe fornecer algum aviso, para que busque e acenda alguma luz que, sem engano nem erro, ilumine e endireite seus passos por todos os maus passos desse caminho, por todas as voltas e rodeios que ele há.
            E como costumam os que fizeram uma longa navegação ou os que peregrinaram por lugares estranhos, que a seus amigos, os que querem empreender a mesma navegação e caminho, antes de começá-lo, antes de partir de suas casas, com diligência e cuidado, dizem-lhes detalhadamente os lugares por onde devem passar, das coisas que devem se precaver, informam-nos de tudo aquilo que acreditam que seja necessário, assim eu, nesta jornada que vossa mercê (você) começou, lhe ensinarei, não o que me ensinou a própria experiência passada, porque é alheia a minha profissão, e sim o que aprendi nas Sagradas Letras, que é o ensinamento do Espírito Santo. Nelas como em uma loja comum e como em um mercado público e geral, para o uso e proveito de todos os homens, põe a piedade e sabedoria divina copiosamente tudo aquilo que é necessário e convém a cada estado; e marcadamente neste das casadas se revê e desce tanto ao particular que chega até, entrando por suas casas, a colocar a agulha em suas mãos, preparar a roca e mover o fuso entre os dedos. Por que na verdade, mesmo que o estado do matrimônio em grau e perfeição seja menor que o dos castos ou virgens, porém, pela necessidade que há dele no mundo para que se conservem os homens, para que saiam deles os que nascem para ser filhos de Deus e para honrar a terra e alegrar o céu com glória, foi sempre muito honrado e privilegiado pelo Espírito Santo nas Letras Sagradas; porque delas sabemos que este estado é o primeiro e mais antigo de todos os estados, e sabemos que é o lar, não inventada depois que nossa natureza se corrompeu pelo pecado e foi condenada à morte, e sim ordenada logo no início, quando os homens eram íntegros e bem-aventuradamente perfeitos no paraíso.
            Elas mesmas nos ensinam que Deus por Si mesmo promoveu o primeiro casamento que existiu, e que lhes juntou as mãos aos primeiros casados, os abençoou e foi justamente, por assim dizer, o casamenteiro e o sacerdote. Ali vemos que a primeira verdade que nelas se escreve é que Deus disse para nos ensinar e a primeira doutrina que saiu de Sua boca foi a aprovação, dizendo:

            "Não é bom que o homem esteja só" (Gênesis, 2).

            E não só nos livros do Antigo Testamento, onde ser estéril era maldição, mas também nos do Novo, nos quais se aconselha e apregoa geralmente como ao som de trombetas, a continência e a virgindade; ao matrimônio são feitos novos favores. Cristo, nosso Senhor, sendo Ele a flor da virgindade e máximo amante da virgindade e limpeza, é convidado para algumas bodas, se encontra presente nelas, come nelas e as santifica, não somente com a majestade de Sua presença, mas também com um de Seus primeiros e marcantes milagres (Joan., II, 11). Ele mesmo, tendo-se enfraquecido a lei conjugal e se afrouxado de certo modo o estreito nó do matrimônio, havendo os homens deixado entrar muitas coisas alheias à limpeza, firmeza e unidade que se lhe deve; assim pois, acontecendo que um homem tomara uma mulher quase que só para receber uma moça de serviço, paga pelo tempo que quisesse, o próprio Cristo, entre as principais partes de Sua doutrina e entre as coisas para cuja solução havia sido enviado por Seu Pai, reparou também este vínculo santo, restituindo-lhe assim o primeiro grau (Math., XIX, 3-9).
            E, sobretudo, fez do casamento que tratam os homens entre si, significado e sacramento santíssimo do laço de amor com que Ele se une às almas e quis que a lei matrimonial do homem com a mulher fosse como retrato e imagem viva da unidade dulcíssima e tão estreita que há entre Ele e Sua Igreja (Efés. V, 24); e assim enobreceu o matrimônio com riquíssimos dons de Sua graça e de outros bens do céu. Do mesmo modo que o estado dos casados é estado nobre e santo, muito apreciado por Deus; eles são avisados muito em particular e detalhadamente o que lhes convém, nas Sagradas Letras pelo Espírito Santo; o qual, por Sua infinita bondade, não deixa de colocar os olhos em nossas baixezas, nem tem por vil ou pequena nenhuma das coisas que nos fazem bem.
            Pois, entre os muitos lugares dos divinos Livros que tratam disso, o lugar mais próprio e onde está recapitulado tudo ou a maior parte que se refere a isto em particular, é o último capítulo dos Provérbios, onde Deus, pela boca de Salomão, rei e Seu profeta, e como a pessoa de uma mulher, mãe do mesmo Salomão, cujas palavras ele põe e refere com grande beleza de razões pintando uma virtuosa mulher casada, com todas as suas cores e partes; para que, as que pretendem sê-lo, e devem pretendê-lo todas as que se casam, se espelhem nela, como em um espelho claríssimo, e saibam, olhando-se ali, tudo que lhes convém para fazer o que devem.
            Assim, conforme costumam fazer os que entendem de pintura e mostram algumas imagens de excelente qualidade aos que não entendem tanto de arte, mostrando o que está longe e o que está pintado como próximo, realçam as luzes e as sombras, a força da perspectiva, e com a destreza das palavras fazem com que o que na tela parecia estar morto, viva e quase se mova frente aos olhos dos que a contemplam; nem mais nem menos, meu ofício, nisto que escrevo, será apresentar a vossa mercê esta imagem que já disse, lavrada por Deus, colocá-la diante de sua vista, lhe assinalar com as palavras, como com o dedo, suas belíssimas figuras com todas suas perfeições; fazer com que veja claramente o que com grande artifício o saber e a mão de Deus colocou nela encoberto.
            Porém, antes disso, que é declarar as leis e condições que tem sobre si a casada, será bom que vossa mercê entenda a estreita obrigação que tem em empregar no cumprimento delas, aplicando-se em todas elas com ardente desejo. Porque como em qualquer outro negócio ou ofício que se pretende, para se sair bem, são necessárias duas coisas: uma, saber o que é e as condições que tem e aquilo em que principalmente consiste; e a outra, ter verdadeira afeição; assim, nisso que vamos tratando, primeiro falemos do entendimento e descubramos o que este ofício é com todas suas qualidades e partes; convém que inclinemos a vontade para saber amá-las e, depois de sabidas, se deseje aplicá-las. Em qual não penso gastar muitas palavras nisso, nem com vossa mercê, já que é naturalmente inclinada ao bem, porque ao que teme a Deus, para que deseje e procure satisfazer seu estado, basta-lhe saber que Deus o manda, e que o próprio e particular que pede a cada um é que responda as obrigações de seu ofício, cumprindo com a sorte que lhe coube e que se nisto falta, mesmo que em outros pontos avance e cumpra, O ofende, porque como na guerra o soldado que abandona seu posto não cumpre com seu capitão, mesmo que em outras coisas lhe sirva, como na comédia vaiam os espectadores o mau ator, mesmo que na vida real seja bom, assim os homens que se descuidam de seus ofícios, mesmo que tenham outras virtudes, não agradam a Deus.
            Teria vossa mercê um cozinheiro e pagaria o seu salário, se ele não soubesse usar uma panela, mas tocasse bem discante? (espécie de instrumento de corda pequeno). Assim também Deus não quer em Sua casa aquele que não exerce o ofício em que Ele o coloca. Cristo diz no Evangelho que “cada um pegue a sua cruz” (Luc., XIV, 27); não diz que pegue a alheia, mas manda que cada um carregue a sua própria. Não quer que a religiosa se esqueça do que é ser religiosa e carregue os cuidados da mulher casada; nem que a mulher casada se esqueça do ofício de sua casa e se torne freira.
            O homem casado agrada a Deus sendo um bom homem casado e sendo um bom religioso o frei, o comerciante fazendo devidamente seu trabalho, e mesmo o soldado serve a Deus mostrando em tempos devidos, seu esforço e contentando-se com seu soldo, como diz São João (Luc., III, 14). E a cruz que cada um há de levar e por onde há de chegar para se juntar a Cristo, propriamente é a obrigação e a carga que cada um tem em razão do estado em que vive; e quem cumpre com ele, cumpre com Deus e com sua tentativa, fica honrado e ilustre, e pelo trabalho da cruz, alcança o descanso que merece. Mas pelo contrário, quem não cumpre com isso, mesmo que trabalhe muito cumprindo os ofícios que toma por sua vontade, perde o trabalho e as graças.
            Mas a cegueira dos homens é tão miserável e tão grande, que, não havendo dúvida desta verdade, como se fosse ao contrário, e como se nos fosse vedado satisfazer nossos ofícios e ser aqueles que professamos ser; assim temos inimizade com eles e fugimos deles, e colocamos todos os esforços de nossa indústria e cuidado ao fazer o alheio. Porque verá vossa mercê algumas pessoas religiosas de profissão que, como se fossem casadas, governam a casa de seus parentes ou de outras pessoas que por sua vontade tomaram a seu cargo e que se recebe ou se despede o criado, há de ser por suas mãos; e pelo contrário, entre as casadas há outras que, como se suas casas fossem das vizinhas, não cuidam delas e dedicam a vida ao oratório e ao devocionário, e a esquentar o chão da igreja de manhã e de tarde, e se perde, entretanto a moça e cobra mal as reivindicações à filha, e a fazenda se afunda, tornando-se um demônio o marido.
            E se o seguir o que não custasse menos trabalho do que cumprir com aquilo que devem ser, teriam alguma desculpa, ou se, havendo se esforçado muito naquilo que escolheram por vontade própria, o fizessem perfeitamente, seria um consolo de alguma maneira; porém é ao contrário, que nem o religioso, mesmo que trabalhe muito governará como se deve a vida do homem casado, nem jamais o casado chegará àquilo que é ser religioso; porque assim como a vida do monastério e as leis e observâncias e todo o tratamento e assento da vida monástica favorecem a vida do religioso, para cujo fim tudo isso se ordena, assim ao que, sendo frade, se esquece do frade e se ocupa do que é ser casado, isso se toma um estorvo e embaraço muito grave. E como suas tentativas e pensamentos e seu alvo, não são o monastério, assim tropeça e ofende em tudo o que é monastério, na portaria, no claustro, no coro e silêncio, na aspereza e humildade da vida; pelo que lhe convém ou desistir de sua louca persistência ou romper por meio de uma porção de duras dificuldades e subir, como dizem, a água por uma torre. Da mesma maneira, o estilo de viver da mulher casada, como a convida e alenta a se ocupar de sua casa, assim por mil partes a retrai do que é ser freira ou religiosa; e assim uns e outros, por não querer fazer o que propriamente lhes toca e por querer fazer aquilo que não lhes convém, faltam ao que devem e não alcançam o que pretendem, e trabalham incomparavelmente mais do que o fariam trabalhando perfeitamente cada um em seu ofício, ficando seu trabalho sem fruto e sem luz. E como na natureza os monstros que nascem com partes e membros de animais diferentes não se conservam nem vivem, assim esta monstruosidade de diferentes estados em um composto, um na profissão, e outro nas obras, os que a seguem não têm sucesso em suas tentativas; e como a natureza tem aversão aos monstros, assim Deus foge deles e os abomina. E por isso dizia a Lei antiga, que nem no campo se pusessem sementes diferentes, nem na tela fosse a trama de um e estame do outro (Lev., XIX, 19), ou menos se oferecesse em sacrifício o animal que habitasse a água e a terra (Deut., XIV, 19).
            Pois assente vossa mercê em seu coração, com íntegra firmeza, que ser amiga de Deus é ser uma boa (mulher) casada e que o bem de sua alma está em ser perfeita em seu estado e que o trabalhar nele e o desvelar é oferecer a Deus um sacrifício aceitíssimo de si mesma. E não digo eu, nem me passa pelo pensamento, que o casado, ou alguém, devem carecer de oração, e sim falo da diferença que deve haver entre a boa religiosa e a mulher casada; porque naquela o orar é todo seu ofício; nesta há de ser meio para que melhor cumpra seu ofício. Aquela não quis marido, negou o mundo e despediu-se de todos, para conversar sempre e desembaraçadamente com Cristo; esta há de tratar com Cristo para alcançar dEle graça e favor para que acerte criar o filho,  governar bem a casa e servir como se deve ao marido. Aquela há de viver para orar continuamente; esta há de orar para viver como deve. Aquela agrada a Deus entregando-se a Ele; esta Lhe há de servir trabalhando no governo de sua casa por Ele.
            Mas considere vossa mercê como reluz aqui a grandeza da divina bondade, que se tem por servido de nós com aquilo mesmo que é para nosso proveito. Porque em verdade, quando não houvesse outra coisa que inclinasse a mulher casada a cumprir com seu dever, a paz e o sossego e o grande bem que desta vida tiram e o interesse de ser boa, somente isso já bastava; porque é sabido que, quando a mulher assiste a seu ofício, o marido a ama, e a família está em harmonia, os filhos aprendem a virtude, a paz reina e a fazenda cresce. E como a lua cheia, nas noites serenas, se regozija rodeada e como que acompanhada de claríssimas luzes, as quais todas parece que avivam suas luzes nela e admiram-na e reverenciam-na; assim a boa mulher casada em sua casa reina e resplandece, e converte para si os olhos e os corações de todos.
            O descanso e a segurança acompanham-na aonde quer que vá seus passos, e para qualquer coisa que olhe encontra a alegria e a satisfação porque, se colocar os olhos no marido, descansa em seu amor; se os voltar para os filhos, regozija-se com suas virtudes; encontra nos criados bom e fiel serviço, e na fazenda proveito e crescimento, tudo lhe é alegre e prazeroso, como ao contrário, a que é má caseira (dona de casa) tudo se converte em amarguras, como se pode ver com infinitos exemplos. Porém não quero me deter em coisa, por nossos pecados, tão clara, nem quero tirar vossa mercê de seu próprio lugar.
            Volva os olhos por seus vizinhos e conhecidos e revire em sua memória o que ouviu em outras casas. De quantas mulheres sabe que, por não levar em conta seu estado e levá-lo pelos seus desejos próprios, estão com os maridos em perpétua luta e desgraça? Quantas já se viram lastimadas e enfeadas com os desconcertos de seus filhos e filhas, a quem não quiseram levar em conta? Quantas padecem em extrema pobreza porque não atenderam a guarda de suas fazendas ou, melhor dizendo, porque foram a perdição e a ruína delas. Assim, pois, não há coisa mais rica nem mais feliz que a boa mulher, nem pior nem mais desastrada que a mulher casada que não o é. Uma e outra coisa nos ensina a Sagrada Escritura, da boa, diz assim: "O marido da mulher boa é ditoso e viverá o dobro de dias, e a mulher de valor põe em seu marido descanso e cessará os anos de sua vida com paz. A mulher boa representa boa sorte, e como prêmio dos que temem a Deus, dar-lhe-á Deus ao homem pelas suas boas obras” (Ecli., 26). O bem da mulher diligente deleitará seu marido e encherá de gordura seus ossos. Grande dom de Deus é o seu bom trato bem sobre bem e beleza sobre beleza é uma mulher que é santa e honesta. Como o sol que nasce parece nas alturas do céu, assim o rosto da boa mulher adorna e embeleza sua casa.
            E da má diz o contrário: "A ciumenta é dor no coração e pranto contínuo” (Ibid., 8), “e tratar com a má é tratar com escorpiões” (Ibid., 10). “A mulher que promove a discórdia é como uma casa com goteiras” (Provérbios XIX, 13) “e o que perturba a vida é se casar com uma mulher repugnante” (Ibid., XXX, 23). “A tristeza do coração é a maior ferida, e a maldade da mulher representa todas as maldades. Toda chaga, e não chaga do coração; todo mal e não mal de mulher” (Eccli., XXV, 17,18,19). “Não há cabeça pior que a cabeça da víbora, nem ira que iguale à da mulher enraivada. Viver com leões e com dragões é mais fácil que conviver com uma mulher malvada” (Ibid., 22,23). “Todo mal é pequeno em comparação com a mulher má; que aos pecadores caiba tal sorte. Tal como a subida arenosa para os pés anciãos, assim é para o modesto a mulher tagarela” (Ibid., 26,27). Tristeza de coração e chaga mortal é a mulher má. A mulher que não dá felicidade ao marido é como o corte das pernas e decaimento das mãos. A mulher deu início ao pecado, e por sua causa morremos todos (Ibid., 31, 32,33), e da mesma forma muitas outras razões.
            E acontece nisto uma coisa maravilhosa, que, sendo de sua colheita as mulheres pessoas de grande dignidade e desejosas de ser apreciadas e honradas, como o são todos os de ânimo fraco, e gostando de vencer em si umas as outras, mesmo em coisas pequenas e ninharias, não prezam, antes se descuidam e se esquecem, do que é sua própria virtude e louvor. Uma mulher gosta de parecer mais formosa que a outra, e se sua vizinha tem uma saia melhor ou se por ventura tem um melhor penteado, coloca-se sem paciência; e em ser dona de casa a põe em vantagem, não se aflige nem se dói, antes faz questão da honra sobre qualquer miudeza e só a isto estima.
            Tanto é assim que ser vencida naquilo não a magoa, e não vencer nisto a destrói, uma vez que aquilo não é culpa, e isto destrói todo o seu bem e de sua casa; sendo assim, o louvor que por aquilo se alcança é ligeiro e vão louvor, e louvor que antes de nascer já perece, e tal, que se falamos com verdade, nem merece ser chamado de louvor; pelo contrário, o elogio que tem verdadeiras raízes e que floresce pela boca dos bons juízos, que não se acaba com a idade, nem se gasta com o tempo, antes cresce com os anos e a velhice o renova, e o tempo o reforça, a eternidade se espelha nele, tornando-o sempre mais viva e mais fresca por mil viradas de séculos. Porque a boa mulher é reverenciada pela sua família, amada por seus filhos e adorada pelo marido; os vizinhos a bendizem, e os presentes e os vindouros a elogiam e exaltam.
            Na verdade, se há debaixo da lua uma coisa que mereça ser estimada e prezada, é a boa mulher e, em comparação com ela o próprio sol não brilha e são escuras as estrelas; eu não conheço jóia de valor nem de louvor que assim levante e embeleze com claridade e esplendor aos homens, como é aquele tesouro de imortais bens de honestidade, de doçura, de fé, de verdade, de amor, de piedade e entrega, de regozijo e de paz, que encerra e contém em si uma boa mulher quando lhe é dada como companheira para sua boa sorte.
            Se Eurípides (Em Hécuba), escritor sábio, parece que em geral fala mal de todas, diz que se alguém do passado falou mal delas (boas mulheres), e dos presentes o diz, ou se o disserem os que vierem depois, tudo o que disseram, dizem e dirão, ele só quer dizer e diz; assim pois, se isso diz, não o diz em sua pessoa, e quem o diz tem a justa desculpa de haver sido Medeia* o motivo para que o dissesse, mas, já que chegamos aqui, é razoável que calem minhas palavras, e comecem a soar as do Espírito Santo, o qual, na doutrina das boas mulheres que traz no livro dos Provérbios (Provérbios XXXI) e eu ofereço agora aqui à vossa mercê, começa com os mesmos louvores que acabei de dizer e diz em poucas razões o que nenhuma língua poderia dizer em muitas; e diz desta maneira:

Mulher de valor quem a encontrará? Raro e extremado é seu preço
(Prov., 31-10)

[N.T. Na mitologia grega, Medeia (em grego Μήδεια) era filha do rei Eetes, da Cólquida (atualmente, a Geórgia), sobrinha de Circe -- aparecendo, ainda, como filha de Circe e Hermes ou como irmã de Circe e filha de Hécata -- e que foi, por algum tempo, esposa de Jasão. É uma das personagens mais terrivelmente fascinantes desta mitologia, ao envolver sentimentos contraditórios e profundamente cruéis, que inspiraram muitos artistas ao longo da história]

P.S: Continuará...

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Festa do Sagrado Coração de Jesus

Fonte: Escravas de Maria


15/06 Sexta-feira Festa do Sagrado Coração de Jesus
Festa de Primeira Classe 
Paramento Branco


Na sexta-feira depois da oitava da festa do Corpo de Deus, a Igreja celebra a festa do Sagrado Coração de Jesus. De acordo com os desejos de Nosso Senhor, manifestados a Santa Margarida Maria Alacoque, deve ser dia de reparação, pela ingratidão, frieza, desprezo e sacrilégios que muitas vezes sofreu na Eucaristia, por parte de maus cristãos, e às vezes até por parte de pessoas que se presumem piedosas. Em todas as igrejas se fazem neste dia, solenes atos coletivos de reparação. Para estimular os cristãos e retribuir com amor tantas e tão grandes provas de amor do Divino Coração de Jesus, dedicou à sua veneração, não só a primeira sexta-feira de cada mês, mas também um mês inteiro, o mês de junho.

No dia 16 de junho de 1675, durante uma exposição do Santíssimo Sacramento, Nosso Senhor apareceu a Santa Margarida Maria Alcoque e, descobrindo Seu Coração, disse-lhe: “Eis o coração que tanto tem amado aos homens e em recompensa não recebe, da maior parte deles, senão ingratidões pelas irreverências e sacrilégios, friezas e desprezos que tem por Mim neste Sacramento de Amor”.

Quem é devoto do Sagrado Coração de Jesus? 

“Tem devoção ao Sagrado Coração de Jesus, quem considera o amor que Jesus Cristo patenteou na Sua vida, na morte e no Santíssimo Sacramento, quem considera os afetos, os sofrimentos da alma de Jesus Cristo. É devoto do Sagrado Coração de Jesus, quem ama a Jesus Cristo, imita Suas virtudes; quem Lhe faz reparação honorífica dos ultrajes que recebe e tudo isto, para corresponder ao amor que Ele nos vota”.

“O Sagrado Coração de Jesus, na “GRANDE PROMESSA”, concedeu a inestimável graça da perseverança final aos que comungarem na primeira sexta-feira de nove meses seguidos. Pelo que se introduziu o exercício de devoções em honra do Sagrado Coração, na primeira sexta-feira de cada mês. Além da graça prometida, ganha-se uma indulgência plenária (Comunhão, reparação, oração e meditação por algum tempo sobre a infinita bondade do Sagrado Coração). (Pe. Réus: “Orai”) Jesus, portanto, quer que Lhe demos amor e reparação das ofensas contra a Eucaristia, honrando e venerando o Seu divino Coração. E como para nos obrigar a isto, fez as seguintes magníficas promessas, em que fala a misericórdia do seu Sagrado Coração:

AS PROMESSAS

  •  Dar-lhes-ei todas as graças necessárias ao seu estado. 
  •  Porei paz em suas famílias. 
  •  Consolá-los-ei em todas as suas aflições. 
  •  Serei o seu refúgio na vida e principalmente na morte. 
  •  Derramarei abundantes bênçãos sobre todas as suas empresas. 
  •  Os pecadores acharão no meu Coração o manancial e o oceano infinito de misericórdia. 
  •  As almas tíbias tornar-se-ão fervorosas. 
  •  As almas fervorosas altear-se-ão, rapidamente, às eminências da perfeição. 
  •  Abençoarei as casas, onde se expuser e venerar a imagem do meu Sagrado Coração. 
  •  Darei aos sacerdotes o dom de abrandarem os corações mais endurecidos. 
  •  As pessoas que propagarem esta devoção, terão os seus nomes escritos no meu Coração, para nunca dele serem apagados. 
  •  A GRANDE PROMESSA: Prometo-te, pela excessiva misericórdia e pelo amor todo-poderoso do meu Coração, conceder a todos que comungarem nas primeiras sextas-feiras de nove meses consecutivos, a graça da penitência final, que não morrerão em minha inimizade, nem sem receberem os seus sacramentos, e que o meu Divino Coração lhes será seguro asilo nesta última hora. 

Segue abaixo, a ficha de controle para as pessoas que se dispuserem a fazer as Comunhões Reparadoras ao Sagrado Coração de Jesus:

MINHAS COMUNHÕES REPARADORAS:

EU, ___________________________________________________, eu fiz a Comunhão Reparadora nas primeiras sextas-feiras dos seguintes meses:

1. No mês de ____________________ de 20___
2. No mês de ____________________ de 20___
3. No mês de ____________________ de 20___
4. No mês de ____________________ de 20___
5. No mês de ____________________ de 20___
6. No mês de ____________________ de 20___
7. No mês de ____________________ de 20___
8. No mês de ____________________ de 20___
9. No mês de ____________________ de 20___

E PROMETO ao Sagrado Coração de Jesus em levar uma vida digna de católico (a) praticante e fervoroso (a).

MINHA CONSAGRAÇÃO

Divino Salvador que, perseguido pelos inimigos e ferido no Coração pela tibieza de tantos amigos, Vos queixastes a Santa Margarida: “Tenho procurado consoladores e não os tenho encontrado...”.

Aqui estou, Senhor, para Vos consolar: Quero adorar Vossa Majestade escondida, quero reparar as ofensas minhas e dos outros, quero amar o vosso amor desprezado e abandonado. Consagro-me inteiramente ao Vosso Divino Coração. Sede Vós somente o meu Rei. Ajudai-me, Senhor a difundir nas almas o reino do Vosso Coração. Acendei a chama do Vosso Amor no coração dos Vossos sacerdotes, para que se tornem apóstolos infatigáveis e portadores das bênçãos do Vosso Divino Coração.

Fazei que compreendam, finalmente, a honra e a obrigação que têm de Vos amar, para que, unidos entre si com os laços da Vossa caridade, glorifiquem todos o Vosso Divino Coração, que é para nós, fonte de vida e salvação.

“Divino Coração de Jesus reine em meu coração”!

Imaculado Coração de Maria defenda e dilate nele o Reino de vosso Filho. Amém!"

ENTRONIZAI O CORAÇÃO DE JESUS EM VOSSO CORAÇÃO!

Divino Amigo, perseguido pelos inimigos e ferido no Coração pela tibieza de tantos amigos, Vos queixastes a Santa Margarida: “Não acho, quem me ofereça um lugar de repouso... quero que teu Coração me sirva de asilo...”, eu quero aliviar Vossa queixa e dar ao Vosso Coração o asilo, que tantas almas Lhe negam, quando dizem, ao menos com as suas obras: “Não queremos que Ele reine sobre nós”. De minha parte, pelo contrário, só Vós haveis de ser o meu Rei. Vivei em mim que já não quero outra vida senão a Vossa, outros interesses senão o da Vossa glória esvazia inteiramente meu coração e de par em par vo-lO abro. Entrai Senhor! Dai-me o Vosso Coração. Ele será o meu Rei muito amado. A Ele consagro e abandono meus interesses espirituais e temporais, meus sentidos e potências, minha vontade e todo o meu ser. Divino Coração de Jesus reine no meu coração! Imaculado Coração de Maria defenda e dilate nele o Reino de vosso Filho. Amém.

Jaculatórias: Coração Eucarístico de Jesus, Modelo do coração sacerdotal,

Tende piedade de nós! (300 dias)

Enviai Senhor, à Vossa Igreja, Santos sacerdotes e fervorosos religiosos! (300 dias) 

Ato de Consagração aos Sagrados Coração de Jesus 
e de Maria da Família.

"Sacratíssimos Corações de Jesus e de Maria, a Vós me consagro, assim como toda minha família. Consagramos a Vós nosso próprio ser, toda nossa vida, tudo o que somos, tudo o que temos, e tudo o que amamos. A vós damos nossos corações e nossas almas. A Vós dedicamos nosso lar e nosso país. Conscientes de que, através desta consagração nós, agora, Vos prometemos viver cristãmente praticando as virtudes de nossa religião, sem nos envergonharmos de testemunhar a fé.

Ó Sacratíssimos Corações de Jesus e de Maria, aceitai esta humilde oferta de entrega de cada um de nós, através deste ato de consagração. 

Sagrado Coração de Jesus...


quinta-feira, 14 de junho de 2012

O AMOR CONJUGAL

Pelo Papa Pio XII



            Os "valores da pessoa" e a necessidade de respeitá-los é um tema que desde dois decênios ocupa sempre mais os escritores. Em muitas de suas elucubrações também o ato especificamente sexual tem seu lugar assinalado para fazê-lo servir à pessoa dos cônjuges.
            O sentido próprio e mais profundo do exercício do direito conjugal deveria consistir nisto: que a união dos corpos fosse expressão e atuação da união pessoal e afetiva.
            Artigos, capítulos, livros inteiros, conferências, especialmente sobre a "técnica do amor", difundem estas idéias e as ilustram com advertência aos jovens esposos como guia no matrimônio, para que eles não descurem, por estultice ou pudor mal entendido ou por infundado escrúpulo, aquilo que Deus, criador também das inclinações naturais, lhes oferece. Se deste completo dom recíproco dos cônjuges surge uma vida nova, ela é um resultado que fica fora ou ao máximo à periferia dos "valores da pessoa", resultado que não se nega, mas não se quer que esteja no centro das relações conjugais.
            Ora, se esta apreciação relativa não fizesse senão acentuar o valor da pessoa dos esposos, mais do que o valor da prole, poder-se-ia a rigor deixar de parte tal problema; mas aqui se trata pelo contrário de uma grave inversão da ordem dos valores e dos fins colocados pelo próprio Criador.
Encontramo-nos diante da propagação de um complexo de idéias e de afetos, diretamente opostos à clareza, à profundidade e à seriedade do pensamento cristão.
            Ora a verdade é que o matrimônio, como instituição natural, em virtude da vontade do Criador, não tem como fim primário e íntimo o aperfeiçoamento pessoal dos esposos, mas a procriação e a educação da nova vida.
Os outros fins, embora também esses visados pela natureza, não se encontram no mesmo grau do primeiro, e de modo algum lhe são superiores, mas, pelo contrário, são essencialmente subordinados ao mesmo. Isto vale para cada matrimônio, ainda que infecundo; como de cada olho podemos dizer que foi destinado e formado para ver, ainda que em casos anormais, por especiais condições internas e externas, não é mais apto para a percepção visual.
            Precisamente para acabar com todas as incertezas e desvios, que ameaçavam difundir erros acerca da escala dos fins matrimoniais e das suas recíprocas relações, redigimos Nós mesmo, alguns anos já são passados (10 de março de 1944) uma declaração sobre a ordem daqueles fins, indicando aquilo que compõe a própria estrutura interna da disposição natural que é patrimônio da tradição cristã, aquilo que os Sumos Pontífices repetidamente ensinaram, aquilo que depois, nas devidas fórmulas foi fixado pelo Código de Direito Canônico. Aliás pouco depois, para corrigir as opiniões contrastantes, a Santa Sé com um Decreto público pronunciou não se poder admitir a sentença de alguns autores recentes, os quais negam que o fim primário do matrimônio seja a procriação e a educação da prole ou ensinam que os fins secundários não são essencialmente subordinados ao fim primário, mas equivalentes e dele independentes.
            Queremos talvez com isto negar ou diminuir quanto há de bom e de justo nos valores pessoais resultantes do matrimônio e de sua atuação?
Não certamente, pois que à procriação da nova vida o Criador destinou, no matrimônio, seres humanos feitos de carne e de sangue, dotado de espírito e de coração e eles são chamados, enquanto homens e não como animais irracionais, a serem os autores de sua descendência. Para tal requer o Senhor a união dos esposos. Realmente. De Deus a Sagrada Escritura diz que criou o homem a sua imagem, e o criou homem e mulher, e quis - como muitas vezes encontramos nos Livros Sagrados - que "o homem abandonasse o pai e a mãe, e se unisse a sua mulher, e formasse uma só carne".
            Tudo isto é portanto algo verdadeiro e querido por Deus; mas não deve ser separado da função primária do matrimônio, isto é, do serviço pela nova vida. Não somente a obra comum da vida externa, mas também todo o enriquecimento pessoal, o próprio enriquecimento intelectual e espiritual, até tudo o que há de mais espiritual e profundo no amor conjugal como tal foi colocado por vontade da natureza e do Criador, ao serviço da descendência. Por sua natureza, a vida conjugal perfeita significa também a dedicação total dos progenitores em benefício dos filhos, e o amor conjugal em sua força e em sua ternura é ele próprio um postulado da mais sincera solicitude pela prole e a garantia da sua atuação.
            Reduzir a coabitação dos cônjuges e o ato conjugal a uma pura função orgânica para a transmissão dos germes, seria como converter o lar, santuário da família em um simples laboratório biológico. Por isto em nossa alocução do dia 29 de setembro de 1949, ao Congresso Internacional dos Médicos Católicos formalmente excluímos do matrimônio a fecundação artificial. O ato conjugal, na sua estrutura natural, é uma ação pessoal, uma cooperação simultânea e imediata dos cônjuges, a qual, pela própria natureza dos agentes e pelo caráter do ato, é expressão do dom recíproco que, segundo a palavra da Escritura, efetua a união "numa só carne".
            Isto é muito mais do que a união de dois germes, a qual se pode efetuar também artificialmente, isto é, sem a ação natural dos cônjuges. O ato conjugal, ordenado e querido pela natureza, é uma cooperação pessoal, atual, a que os esposos, ao contrair o matrimônio, trocam reciprocamente os direitos.
            Quando, portanto, esta prestação em sua forma natural é desde o início permanentemente impossível, o objeto do contrato matrimonial encontrasse afetado por um vício essencial. É aquilo que então dissemos: "Não se esqueça: só a procriação de uma nova vida segundo a vontade e o desígnio do Criador traz consigo, em um grau estupendo de perfeição, a atuação dos fins visados. Ela é ao mesmo tempo conforme à natureza corporal e espiritual e a dignidade dos esposos, ao desenvolvimento normal e feliz da criança".
            Estes valores pessoais, seja na esfera do corpo ou dos sentidos, seja na espiritual, são realmente genuínos, mas na escala dos valores foram colocados pelo Criador não no primeiro, mas no segundo grau.
            Eis outra consideração em risco de cair no esquecimento: todos esses valores secundários da esfera e atividade generativa não entram no âmbito do dever específico dos cônjuges, que é o de serem autores e educadores da nova vida - nobre e alto encargo! De fato não pertencem tais valores à essência do ser humano completo e a não atuação da natural tendência generativa de modo algum resultará em diminuição da pessoa humana. A renúncia a tal atuação não é - especialmente se feita por nobres motivos - uma mutilação dos valores pessoais e espirituais. De tais livres renúncias por amor do Reino de Deus o Senhor disse: "Non canes capiunt verbum istud, sed quibus datum est - Nem todos compreendem esta doutrina, mas somente aqueles aos quais isto é dado."
            Exaltar além da medida, como hoje se faz não raramente, a função generativa, também na forma justa e moral da vida conjugal, é portanto não somente um erro e uma aberração, mas leva também consigo o perigo de um desvio intelectual e afetivo, apto a impedir e sufocar bons e elevados sentimentos, especialmente na juventude ainda desprovida de experiência e ignara dos desenganos da vida. Que homem, pois, normal, são de corpo e de alma, quereria pertencer ao número dos deficientes no caráter e no espírito?
            Esta nossa exposição seria entretanto incompleta, se não ajuntássemos ainda uma breve palavra em torno da defesa da dignidade humana no uso da inclinação generativa.
            Aquele mesmo Criador, que na sua bondade e sabedoria quis para a conservação e propagação do gênero humano servir-se da obra do homem e da mulher, unindo-os no matrimônio, dispôs também que nesta função os cônjuges provem um prazer e uma felicidade no corpo e no espírito. Os cônjuges portanto procurando este prazer ou dele gozando, não fazem nada de mal. Eles aceitam apenas aquilo que o Criador lhes destinou.
            Aqui, mais do que em qualquer outra situação, os cônjuges devem saber manter-se nos limites de uma justa moderação. Como no uso dos alimentos e das bebidas, assim também no sexual, não devem abandonar-se sem freios ao impulso dos sentidos. A reta normal é portanto esta: o uso da natural disposição generativa é moralmente lícito somente no matrimônio, no serviço e segundo a ordem dos fins mesmos do matrimônio. Disto advém que também somente no matrimônio, e observando esta regra, o desejo e o usufruir deste prazer e desta satisfação são lícitos. Pois o gozo depende da lei da ação, da qual ele deriva e não vice-versa, a ação depende da lei do prazer. E esta lei, tão racional, respeita não só a substância, mas também as circunstâncias da ação, de modo que, embora permanecendo salva a substância do ato, pode-se pecar no modo de cumpri-lo.
            A transgressão desta norma é tão antiga quanto o pecado original. Mas em nosso tempo corre-se o perigo de perder de vista o próprio princípio fundamental. No presente, de fato, costuma-se sustentar, com palavras e com escritos (até de parte de alguns católicos), a necessária autonomia, o fim próprio e o valor também próprio da sensualidade e de sua atuação, independentemente do escopo da procriação de uma nova vida. Querer-se-ia submeter a um novo exame, a uma nova norma, a ordem estabelecida por Deus. Não se queria admitir outro freio no modo de satisfazer o instinto
senão observar a essência do ato instintivo. Com isto, à obrigação moral do domínio das paixões substituir-se-ia a licença de servir cegamente e sem freios os caprichos e os impulsos da natureza; o que não poderá, cedo ou tarde, senão redundar em dano da moral, da consciência e da dignidade humanas.
            Se a natureza tivesse mirado exclusivamente, ou ao menos em primeiro lugar, a um recíproco dom e posse dos cônjuges na alegria e na dileção, e se tivesse disposto este ato somente para tornar feliz no mais alto grau possível a experiência pessoal deles, e não para estimulá-los a servir a vida, então o Criador teria adotado outro plano na formação e constituição do ato natural. Ora este, em suma, é totalmente subordinado e ordenado àquela única e grande lei da "generatio et educatio prolis", isto é, ao cumprimento do fim primário do matrimônio como origem e fonte da vida.
            Infelizmente ondas incessantes de hedonismo invadem o mundo e ameaçam de submergir na maré crescente dos pensamentos, dos desejos e dos atos toda a vida matrimonial, não sem perigos e graves prejuízos das obrigações primárias dos cônjuges.
            Este hedonismo anticristão muitas vezes não se enrubesce de erigi-lo em doutrina, inculcando o frenesi de tornar sempre mais intenso o gozo na preparação e na atuação da união conjugal; como se nas relações matrimoniais toda a lei moral se reduzisse no regular cumprimento do amor e, como se todo o resto, de qualquer modo realizado, permanecesse justificado pela efusão do recíproco afeto, santificado pelo sacramento do matrimônio, merecedor de louvor e de mercê diante de Deus e da consciência. Da dignidade do homem e da dignidade do cristão, que colocam um freio aos excessos da sensualidade, não se preocupam.
            Não! A gravidade e a santidade da lei moral cristã não admitem uma desenfreada satisfação do instinto sexual e essa tendência exclusiva ao prazer, ao gozo; ela não permite ao homem racional deixar-se dominar tal ponto, nem quanto à substância, nem quanto às circunstâncias do ato.
            Querer-se-ia por alguns aduzir que a felicidade no matrimônio está na razão direta do recíproco gozo das relações conjugais. Não; a felicidade no matrimônio está pelo contrário, em razão direta do recíproco respeito entre os cônjuges, até em suas íntimas relações; não que eles quase julguem imoral e refutem aquilo que a natureza oferece e o Criador deu, mas porque este respeito, e a mútua estima que ele gera, é um dos mais válidos elementos de um amor puro e portanto mais terno.
            Este nosso ensinamento nada tem que ver com o maniqueísmo ou com jansenismo, como alguns querem fazer crer para justificar a si mesmos. Ele é somente uma defesa da honra do matrimônio cristão e da dignidade pessoal dos cônjuges (1).

(1) Discurso aos esposos, 29 de outubro, 1951.

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

O FARDO LEVE

Por um cartuxo anônimo
Intimidade com Deus


            A precisão do olhar interior e a clara consciência do que nos é pedido são coisas da maior importância para a alma que se esforça por atingir a perfeição, pois a vontade de nos elevarmos para Deus não tardará a ser destruída pela falta de ânimo, se as perspectivas do progresso espiritual forem falseadas, e elas são-no muitas vezes por causa da importância que se dá às dificuldades, aos obstáculos criados pela natureza, aos conflitos inevitáveis no caminho da ascensão espiritual. É à luz da fé que devemos considerar e pesar os elementos do nosso destino: a realidade, como nos mostrou Jesus Cristo, só nos dá a escolher entre a luz e as trevas, entre Deus, que é o Ser, e o Seu adversário, para quem só pode ficar o nada. Não nos deixam abandonados numa alternativa incerta: não há escolha mais segura nem mais simples do que a do amor. «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o entendimento» (Luc., X , 27).

            Deus oferece-nos a luz e só a luz. «E a nova que ouvimos dele, e que vos anunciamos, é esta: Que Deus é luz e não há nele nenhumas trevas. Se dissermos que temos sociedade com ele, e andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade» (I João, I, 5-6). Esta luz que nos ilumina é o Seu próprio espírito e o Seu amor: é ela que trazemos em nós no tempo e na eternidade. Ela é o fogo que o Filho veio acender na terra, garantindo-nos que o seu único desejo é que Ele «queime e ateie os corações». Se nos entregarmos a esta chama, deixaremos de ser estranhos para Deus, e já não seremos contados no número dos Seus servos, mas sim no dos Seus amigos e confidentes. «Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando. Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo aquilo que ouvi de meu Pai» (João, xv, 14-15).

            Se ouvirmos as palavras de Jesus, não poderemos pecar. Pois o que vive na luz não pode perder-se: Deus serve-lhe de guia. Não porque consideremos a perfeição como nossa, como um bem adquirido. Pelo contrário, temos defeitos e somos extremamente fracos, sabemo-lo melhor do que nunca, pois estamos libertos da mentira que nos trazia iludidos: «Se dissermos que não temos pecado, nós mesmos nos enganamos, e não há verdade em nós. Porém, se confessarmos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar os nossos pecados, e nos purificar de toda a iniqüidade» (I João, I, 8-9).

            O cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo lavou-nos no Seu sangue, santificou-nos e divinizou-nos. «Temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo justo, que é a propiciação pelos nossos pecados» (I João, II, 1-2).

            Se vivermos na verdade, fugimos do pecado e a caridade pura faz-nos sentir a sua urgência. Ter a pretensão de adquirir a intimidade de Deus à custa do próximo não seria mais que uma grosseira ilusão: as palavras de Deus ecoam constantemente no nosso coração atento: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo: nenhum outro mandamento é mais importante do que este» (Mat., XII, 31).

            Amamos o Pai e não podemos deixar de amar nEle o nosso próximo. Quem não ama o próximo, não ama na verdade a Deus, e não tem a vida em si mesmo: e já uma presa da morte. «Se alguém disser: Eu amo a Deus, e odiar o seu irmão, é um mentiroso» (I João,
23, IV, 20). Mas se amamos a Deus e amamos os homens nEle, conhecemos a paz divina: já não há lugar no nosso espírito para a inquietação e a dúvida. Para quem tem fé, estes termos são equivalentes e designam o próprio Deus: a vida é luz e o amor é verdade. Ora a verdade torna-nos livres, e o sol da justiça dissipa as trevas em que a nossa alma enfraquecia, no cativeiro. «Ele libertou-nos do poder das trevas para nos levar para o reino do seu Filho bem-amado» (Col., I, 31).

            A nossa vida torna-se cada dia mais segura na claridade divina. Já não temos medo dos conflitos e dos sofrimentos interiores: protegido por esta paz, o nosso amor expande-se livremente. «Graças a Deus, que nos deu a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, trabalhando sempre cada vez mais na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor» (1 Cor., XV, 57-58).

            É a fé que nos revela este mistério inesgotável, o mistério do amor: somos chamados a viver com Deus numa intimidade mais profunda do que todo o pensamento, pois pertencemos-Lhe por uma escolha eterna. Foi nestes termos que o Filho orou por nós: «Pai, glorifica-me junto de ti mesmo, com aquela glória que tive em ti, antes que houvesse mundo. Manifestei o teu nome aos homens, que me deste do mundo; eles eram teus e tu mos deste, e guardaram a tua palavra» (João, XVII, 56).

segunda-feira, 11 de junho de 2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Otimismo


Por um cartuxo anônimo
Intimidade com Deus


            Era preciso que fôssemos absolutamente ingratos e injustos para que estas dádivas divinas não espalhassem no nosso coração e no nosso rosto a luz da alegria.

            Esta delicadeza eterna e esta condescendência infinita de Deus, que apenas nos impõem o fardo leve da lei do amor, devem traduzir-se numa pura alegria: como se fôssemos os herdeiros duma fortuna celeste, passamos alegres no meio dos filhos dos homens que não conhecem a sua verdadeira felicidade! Há um otimismo sagrado que fica bem à alma iluminada pela fé. O ideal é para ela uma possibilidade imediata, apesar dos esforços heróicos que ele exige: e ela caminha para as alturas luminosas onde Deus a conduz e a espera.

            Foi para nos elevar que o Salvador Se pôs humildemente no último lugar. «Porque é conhecida de vós a liberalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por vós, a fim de que vós fósseis ricos pela sua pobreza» (II Cor., VIII, 9). Conscientes do favor sem preço que nos é feito, podemos dizer com o Apóstolo: «A vida com que eu vivo agora na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim» (Gál., II, 20).

            Não podemos conceber nada mais belo nem tão útil para o coração do que esta segurança divina: Deus garante que a Sua verdade e a Sua justiça hão-de vencer.

            Fosse qual fosse a dificuldade que devêssemos enfrentar no futuro, o espírito de Deus já não nos deixará perder a coragem: combateremos com paciência e a nossa perseverança alcançará a glória de Deus: «Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às Igrejas: eu darei ao vencedor o maná escondido, e um nome novo que ninguém conhece, senão quem o recebe» (Apoc. XI, 17).

            A medida que se vai interiorizando, a alma fica a conhecer com mais clareza a ação que Deus exerce nela. «Porque as coisas invisíveis dele, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis; e assim o seu poder eterno e a sua divindade» (Rom., I, 20). A fé torna-se transparente e faz mais do que deixar adivinhar sob o véu das causas secundárias a ação do amor eterno. O sol da essência espalha através de todas as coisas a sua luz e o seu calor: a ação benfazeja dos seus raios faz-se imediatamente sentir. Por mais afastados que ainda estejamos da visão celeste, gozamos já da presença divina e sentimos que a nossa vida está nas mãos de Deus. «Pois Ele não está longe de cada um de nós» (At., XVIII, 27).

            Apesar dos múltiplos laços que nos prendem à terra, e apesar do peso da queda cujos efeitos se fazem continuamente sentir, devemos ser otimistas por causa da graça de Cristo que nos comunicou a abundância dos Seus méritos e quis ser nosso amigo e nosso irmão, a vida da nossa vida. O Primogênito da criação é a luz dos homens: foi Ele que o Pai nos enviou, para nos mudar com a plenitude da Sua graça, como Ele próprio declara: «Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância» (João, X, 10). «Eu sou a Vida» (João, 6).

            A fé torna presente esta verdade inebriante, faz de nós uns idealistas e uns otimistas num sentido novo e profundo, que a banalidade dos termos não pode exprimir. É condição necessária e suficiente para isso que a fé seja vivida em toda a sua lógica sobrenatural, como princípio duma realidade quotidiana e divina: «Se Deus é por nós, quem será contra nós? O que não poupou nem o seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou à morte, como não nos dará também com Ele todas as coisas?» (Rom. VIII, 31-32).

            Há muitas almas que sonham com esta vida e a desejam, mas não chegam a ter coragem para se darem totalmente e abrirem assim as fontes interiores. Pois precisamente por causa dos Seus direitos de criador, Deus não pode deixar de pedir uma dádiva sem reservas: não podemos oferecer-Lhe só metade do nosso coração. Mas se a alma não tem a coragem necessária, é porque ela conta com as suas próprias forças, que serão sempre insuficientes no domínio sobrenatural.

            Só a graça pode fazê-la desabrochar e fecundá-la pelo toque do Espírito Santo. Cada um de nós sofre na prisão do seu egoísmo e da sua fraqueza e por isso as horas sombrias não podem deixar de ser uma realidade para todos; mas quando o coração sufoca sob o peso evidente da sua impotência, quando o horizonte fechado da natureza parece forçar-nos ao desespero, é que a nossa miséria se deve transformar no nosso remédio e no penhor precioso da misericórdia divina. Alegremo-nos com o nosso nada, que obriga o Pai a não nos deixar entregues a nós próprios. A consciência destes dois absolutos, do nada do homem e do tudo de Deus, dá à alma uma nova orientação, um novo impulso que é o único que a pode salvar. A partir do momento em que compreendemos o sentido destas palavras de Cristo, em toda a sua plenitude, temos o caminho aberto na nossa frente: «Sois servos inúteis» (Lucas, XVII, 10). «Basta-vos a minha graça» (II Cor., XII, 9).

            Se Deus me recusasse o Seu apoio por um momento só que fosse, sei que a minha queda seria imediata: é por isso que toda a minha sabedoria consiste em contar só com Ele. Esta desproporção infinita entre a criatura e o Criador é a ordem que me tranqüiliza: é entre estes dois pólos extremos que salta o relâmpago da certeza pura. «Sei viver nas privações, sei também viver na abundância (em tudo e por tudo fui habituado): tudo posso naquele que me conforta» (Filip., IV, 12-14).

            É nas horas de trevas, quando a miséria da alma é completa, que uma força superior vem em nosso auxílio e completa a renúncia libertadora: o próprio Espírito se encarrega de a purificar e de a preparar para os divinos esponsais. Os heróis do espírito precederam-nos já neste caminho: «Ser apagado do criado - ser transformado em Cristo -, ser absorvido na Divindade». Assim se exprime o bem-aventurado Euso, e São Nicolau de Flüe ensina-nos a orar desta maneira: «Meu Senhor e meu Deus, tirai-me tudo o que me impede de vos alcançar. - Meu Senhor e meu Deus dai-me tudo o que me aproximar de vós. - Meu Senhor e meu Deus, dai-me totalmente a vós!»

            Só Deus pode acalmar a nossa sede, porque Ele próprio a pôs dentro de nós desde a origem, como um instinto sobrenatural de que só Ele é o objeto. Nem os deleites nem os sucessos deste mundo a podem satisfazer: o coração do homem não se prende muito tempo com as criaturas; parece gostar só de coisas novas: é que ele é feito para a eternidade: «Vós criastes-nos para vós, meu Deus, e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousa em vós» (Santo Agostinho).

            A necessidade do divino arde no fundo mais secreto da nossa alma, onde só Deus pode penetrar, onde Ele próprio mora, pronto a satisfazer o desejo que desperta. Que a paz de Deus, que está acima de todo o entendimento, guarde os vossos corações e os vossos espíritos em Jesus Cristo» (Filip., IV, 7). Na verdade, não é a paz que se separa de nós, nós é que nos separamos dela e lhe somos infiéis. Mas o homem só alcança a felicidade na medida em que renuncia sinceramente a procurá-la por si próprio e se apaga diante da glória divina. Enquanto desejamos a nossa satisfação, ela foge-nos; mas se sacrificamos o nosso amor próprio, estamos em harmonia com a vontade do Pai, e a nossa alma unida a Deus encontra a alegria que não pode existir fora dEle.

            Meu Senhor e meu tudo! Prestar-Lhe fielmente homenagem cá na terra custe o que custar é já glorificá-lO na eternidade, e a nossa felicidade pura e durável esta toda inteira nessa glorificação. «Nem o olho viu nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam» (1 Cor., II, 9).

            O verdadeiro otimismo é o que não duvida da bondade nem do valor da vida, porque a união Com o ser divino lhe inspira respeito e amor por tudo o que foi criado. Levantemos os nossos corações! Esta confiança é perfeitamente lúcida - «realista», «racional» no sentido profundo destes termos- ela põe de parte, com muito mais segurança do que toda a prudência natural, os sonhos e as quimeras: a presença em que se funda é mais real do que nós.

            O melhor caminho é o que vai do eu miserável ao esplendor infinito: não sou mais do que um pouco de partida e a fé manda-me renunciar a mim mesmo para chegar até Deus. O próprio Verbo ilumina o nosso caminho, fortifica-nos e encoraja-nos em todos os nossos passos. Lucerna pedibus meis verbum tuum. «Lâmpada para os meus pés é a tua palavra» (Salmo CXVIII, 105). Tomemos por mestres nesta busca sublime os grandes místicos, São João e São Paulo, que falaram inspirados pelo Espírito Santo. Encontraremos neles um conhecimento de Deus e dos Seus caminhos que mais nenhum texto nos oferece com tal pureza e profundidade. «O que era impossível à lei, porque se achava sem força por causa da carne, enviando Deus seu Filho em carne semelhante à do pecado, por causa do pecado condenou o pecado na carne, para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o espírito» (Rom., VIII, 3-4).

            Este Verbo que vive em nós e que o Seu Espírito nos revela, é a resposta a todas as perguntas; a união de amor é a fornalha de paz onde acabam todos os conflitos, onde se resolvem os enigmas propostos à inteligência do homem. «Porque era Deus que reconciliava consigo o mundo em Cristo, não lhe imputando os seus pecados, e encarregou-nos a nós da palavra de reconciliação. Aquele que não tinha conhecido pecado, fez-Se pecado para nos fazer justiça» (II Cor., V, 19-21).

            Se entrarmos de todo o coração na ordem salutar que o Filho criou por meio do Seu sacrifício redentor, cooperamos com Ele em todos os nossos atos e todos os instantes são para nós de uma fecundidade eterna.

            Que pena não sentimos então, quando ouvimos o século formular a sua filosofia com negações desesperadas e dar ao homem apenas este conselho, em que se resume toda a sua filosofia: desafiar o acaso que o conduz à morte! Foi esta morte vazia de sentido que o Verbo incarnado venceu, e o Seu triunfo, a vitória do amor, está-nos assegurado. «Porque é necessário que Ele reine; o seu último inimigo a ser destruído será a morte; e quando tudo lhe estiver sujeito, então ainda o mesmo Filho estará sujeito àquele que sujeitou a ele todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos» (I Cor., XV, 25-28). 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

CULTO EUCARÍSTICO


            Pedro Julião Eymard

O fim da Sociedade é ainda render a Jesus no Santíssimo Sacramento o culto de honra maior, mais santo e mais litúrgico possível.

Culto maior, pelo serviço solene de Exposição onde Jesus é honrado como o Rei imortal dos séculos, a quem toda honra e glória são devidas.

Ante esse sol de amor tudo se eclipsa. Ante o Rei, o ministro não recebe distinções. Ante o Mestre insigne, o servo desaparece.

Tudo quanto há de precioso, de belo, de nobre, deve honrar o Trono divino de Jesus, Senhor único de tudo. E, viesse a Sociedade a possuir todos os diamantes, todo o ouro, todas as coroas do mundo, só deveria ver nisto tudo o privilégio de poder tudo consagrar à glória do Mestre, já que tudo Lhe pertence.

            Culto mais santo

O corpo também deve adorar o Deus da Eucaristia e Lhe render suas homenagens exteriores.

Homenagens de respeito, tendo-se modesta e convenientemente em Sua divina Presença, evitando tudo aquilo que não se permitiria em presença dum personagem ilustre, dum soberano.

Homenagens de piedade, cumprindo com grande espírito de fé e de amor as cerimônias externas, genuflexões, prostrações, reverências prescritas, porque constituem os atos exteriores de adoração do coração e a profissão pública de Fé.

Homenagens públicas de virtudes. Honrando por toda a parte o Mestre, quer em público, quer em particular, quer nas ruas, quer nos templos; adorando-O, prostrado, quando Ele passa levado em Viático, ou quando reina no Trono. E por toda a parte o Rei e Deus do nosso coração, da nossa vida.

            Culto mais litúrgico

A Igreja, sempre inspirada pelo Espírito Santo, regrou o culto devido ao Seu divino Esposo, Jesus Cristo, no Santíssimo Sacramento, e que por si, constitui o culto de verdade e de santidade agradável a Deus.

A Igreja, ciosa da honra e da glória do seu Rei, regulou os mínimos pormenores do Seu culto, porque tudo é grande, tudo é divino em se tratando do Seu serviço.

O dever maior, quer da Sociedade, quer da totalidade dos seus membros, é, portanto, estudar as rubricas, os cerimoniais da Igreja e, seguindo-os com exata fidelidade, fazer com que os fiéis, por sua vez, os observem e amem. Honrando desta forma a divina Eucaristia, honro-O a em união com a Santa Igreja, em união com os Seus santos. Rendo-Lhe, então, com a Igreja, uma só e mesma homenagem, presto-Lhe um só e mesmo culto enquanto os Seus méritos suprem minha indignidade, e a Ssua perfeição, minha fraqueza. Meu culto então torna-se verdadeiramente católico.

Servirá ainda para expiar as irreverências e culpas sem número que cometi nos santos lugares. Servirá para reparar as profanações, os sacrilégios incessantemente cometidos contra este Sacramento por tantos ímpios e maus cristãos.

Será um protesto contra a incredulidade, uma profissão pública de nossa Fé e vocação pela maior glória de Jesus. Hóstia de amor e de louvor.

(A Divina Eucaristia, volume III)