segunda-feira, 4 de junho de 2012

Santa Comunhão

"O sacramento da Eucaristia é o sacramento do amor, nós temos a vida verdadeira,
uma vida abençoada e verdadeira felicidade".
Padre Pio

Santo Afonso Maria de Ligório
Práticas do amor a Jesus Cristo

"Quantas pessoas deixam de procurar a comunhão para não se sentirem obrigadas a viver com maior recolhimento e maior desapego das coisas desta terra. Esse é o motivo verdadeiro porque muitos não comungam com maior freqüência. Sabem que a comunhão diária não pode estar junto com o desejo de aparecer, com a vaidade no vestir, com o apego aos prazeres da gula, as comodidades, as conversas maldosas. Sabem que deveria haver mais oração, praticar mais mortificações internas e externas, maior recolhimento. É por isso que se envergonham de aproximar mais vezes da comunhão. Sem dúvida, tais pessoas fazem bem em deixar a comunhão freqüente enquanto se acham neste estado lastimoso de tibieza. Mas deve sair dessa situação de tibieza quem se sente chamado a uma vida mais perfeita e não quer pôr em perigo a própria salvação eterna.

É também muito bom para se manter com fervor espiritual, fazer frequentemente a 'comunhão espiritual', louvado pelo Concílio de Trento, que exorta os fiéis a praticá-la. Ela consiste num fervoroso desejo de receber a Jesus Cristo na Eucaristia. Por isso os santos a faziam várias vezes ao dia. O modo de fazê-la é este: "Meu Jesus, creio que estais no Sacramento da Eucaristia. Amo-vos e desejo vos receber; vinde à minha alma. Uno-me a Vós e Vos peço que não permitais que nunca me separe de Vós". Ou então, simplesmente: "Meu Jesus, vinde a mim, eu quero Vos receber para que vivamos intimamente unidos e não Vos separeis de mim". Este tipo de comunhão espiritual pode ser feito várias vezes ao dia, quando se reza, ou se faz uma visita ao Santíssimo Sacramento ou também na missa quando não se pode comungar. A Bem-aventurada Águeda da Cruz costumava dizer: "Se não me tivessem ensinado este modo de comungar muitas vezes ao dia, não sei como poderia viver".

Conferências Sobre as Virtudes, as Práticas, os Êxtases e o Espírito de Santa Gemma Galgani


(clique no título acima para baixá-lo)

Conferências
Sobre as Virtudes, as Práticas, os Êxtases e
o Espírito da Serva de Deus
Gemma Galgani
pelo Padre Xavier Chuet
Livro de 1918 - 190 páginas




ÍNDICE

Nota do autor

Primeira Conferência
Introdução

Segunda Conferência
Virtudes precoces de Gemma Galgani na sua infância

Terceira Conferência
Devoção de Gemma Galgani à Maria Santíssima

Quarta Conferência
A pérola das virtudes — A pureza de Gemma Galgani

Quinta Conferência
O cristal — A simplicidade de Gemma Galgani

Sexta Conferência
Devoção de Gemma Galgani ao Santíssimo Sacramento

Sétima Conferência
Uma ametista — O espírito de oração e a união com Deus de Gemma Galgani

Oitava Conferência
Uma safira. — A humildade profunda de Gemma Galgani

Nona Conferência
Visões e êxtases de Gemma — Sinais e efeitos maravilhosos do amor de Deus

Décima Conferência
A impressão milagrosa das cinco chagas de N. S. na carne virginal de Gemma Galgani

Décima Primeira Conferência
Uma linda ágata — O zelo pela salvação das almas

Décima Segunda Conferência
Uma esmeralda — O desapego — A obediência de Gemma Galgani

Décima Terceira Conferência
Um diamante — A fortaleza e a heroica paciência de Gemma Galgani

Décima Quarta Conferência
A devoção de Gemma Galgani ao Anjo da Guarda

Décima Quinta Conferência
Um topázio — A constância nas tentações

Décima Sexta Conferência
O crisólito — Um pingo de fogo — A devoção de Gemma Galgani pelas almas do Purgatório

Décima Sétima Conferência
A santa morte de Gemma Galgani

Décima Oitava Conferência
O espírito de Gemma Galgani. — Considerações finais

Suplemento

Oración a Santa Gema Galgani

domingo, 3 de junho de 2012

Sermão de Hugo de São Vítor aos sacerdotes

SERMÃO XXXIII

Aos Sacerdotes
reunidos em Sínodo


"Ide, anjos velozes,
a uma gente desolada e dilacerada,
a um povo terrível,
após o qual não há outro,
uma gente que espera e é pisada,
cujos rios destroçaram sua terra".
Is. 18, 2

Eis, irmãos caríssimos, o divino ofício que nos foi confiado. Eis o cuidado, a solicitude e o trabalho dos sacerdotes. Eis a piedosa, mas perigosa responsabilidade que lhes foi imposta:

"Ide, anjos velozes".

A palavra profética, ou melhor, a palavra divina, nos admoesta nesta passagem que não desprezemos o ministério que nos foi divinamente confiado, nem que abandonemos esta santa responsabilidade, para que não ocorra que os homens, formados à imagem e semelhança de Deus, redimidos pelo precioso sangue de Cristo, por nossa negligência deslizem para a condenação eterna por suas culpas temporais. E que não venha a ocorrer que não somente neles se encontre o pecado por causa de seus próprios delitos, mas que também em nós, além dos nossos próprios, se acrescentem os pecados alheios. Haveremos, efetivamente, de dar conta não somente de nós, mas também das almas que nos tiverem sido confiadas, a não ser que lhes tivermos anunciado insistentemente a palavra da salvação.

Ouçamos, pois, mais atentamente o que nos é divinamente ensinado:

"Ide, anjos velozes,
a uma gente desolada".

Os sacerdotes são anjos, como se depreende de uma passagem da Escritura em que se afirma que

"Os lábios do sacerdote
são os guardas da sabedoria,
e pela sua boca se há de buscar a lei,
porque ele é o anjo do Senhor dos exércitos".
Mal. 2, 7

Se somos, portanto, sacerdotes do Senhor, também somos, pelo mesmo ofício, Seus anjos, isto é, Seus mensageiros, e devemos anunciar ao povo as coisas que são de Deus.

"Ide, anjos velozes,
a uma gente desolada".

Demonstra-se de dois modos que a natureza humana provém de Deus e que nEle possui suas raízes, conforme já o dissemos em outro lugar. Primeiramente, por ter sido criada à imagem de Deus, na medida em que pode conhecer a verdade; depois, por ter sido criada à Sua semelhança, na medida em que pode amar o bem. Segundo estes dois modos pode ser reconhecida como unida a Deus não apenas a criatura humana, como também a angélica, na medida em que pelo conhecimento contempla a Sua sabedoria e pelo amor frui de Sua felicidade. Por estes dois modos evita o mal, pois pelo conhecimento da verdade que possui desde a origem na divina imagem que lhe foi enxertada repele o erro e pelo amor da virtude que possui na semelhança divina odeia a iniquidade. Pela sugestão diabólica, porém, entrando a ignorância na natureza humana, e desarraigou-se no homem a raiz do conhecimento divino; sobrevindo também a concupiscência, arrancou-se a planta do amor.

Qualquer gente ímpia, portanto, afastada pela culpa dos bens divinos e celestes, plantada primeiramente no bem pelos dois bens precedentes, sobrevindo-lhe os dois males seguintes é corretamente apresentada e chamada de desolada do bem:

"Ide, anjos velozes,
a uma gente desolada".

E, deve-se notar, a palavra divina não diz apenas desolada, como também acrescenta "dilacerada", desolada por ter sido afastada do bem, dilacerada por ter mergulhado no mal. A natureza humana, efetivamente, depois que é afastada do bem, é imediatamente e de múltiplas maneiras dilacerada pelo mal, conduzida por diversos vícios e pecados à condenação. Alguns pelo orgulho, outros pela inveja, outros pela ira, outros pela acédia, outros pela avareza, outros pela gula, outros pela luxúria, outros pela usura, outros pela rapina, outros pelo furto, outros pelo falso testemunho, outros pelo perjúrio, outros pelo homicídio, outros contemplando a mulher para desejá-la, outros chamando `louco' a seu irmão, e por tantos outros vícios ou pecados, interiores e exteriores, os quais pela brevidade do presente não queremos nem podemos enumerar.

"Ide", portanto,
"anjos velozes,
a uma gente desolada e dilacerada",

para que, pelo vosso ensino, torneis a unir o que foi dilacerado pelo mal, e replanteis o que foi desenraizado do bem. "Ide, anjos", ide "velozes", ide

"a uma gente desolada e dilacerada,
a um povo terrível,
após o qual não há outro".

Todas as vezes, irmãos caríssimos, que o homem pela justiça conserva a nobreza, a elegância e a beleza de sua condição, verificamo-lo possuir uma aparência formosa. Quando, porém, pela culpa mancha em si mesmo o decoro da beleza, encontramo-lo imediatamente deforme e horrível, dessemelhante de Deus, tornado semelhante ao demônio.

E então? Nos dias de domingo e nas solenidades festivas o povo confiado aos vossos cuidados aflui à igreja, ajusta sua forma corporal, reveste-se com roupas mais ornamentadas e tingidas de diversas cores. Vós, talvez, contemplando homens e mulheres trajados de modo tão fulgurante, vos gloriareis de terdes tais súditos e de serdes seus prelados. Não é boa, porém, esta vossa glória se é nisto que vos gloriais e se o povo a vós confiado for encontrado desolado e afastado do bem, dilacerado pelo mal e terrível pelos diversos vícios e pecados. Prestai diligentemente atenção em suas vidas, considerai seus costumes, julgai a sua beleza segundo as coisas que pertencem ao homem interior e não segundo as que pertencem ao exterior, enrubescei e compadecei-vos deste povo que é vosso súdito, se tal o virdes como aqui ouvis, isto é,

"uma gente desolada e dilacerada,
um povo terrível,
após o qual não há outro",

porque talvez vossa seja a culpa, vossa a negligência, vossa a preguiça, por ele ser tal porque não lhe anunciastes os seus pecados e as suas impiedades.

"Ide", portanto,
"anjos velozes,
a uma gente desolada e dilacerada,
a um povo terrível,
após o qual não há outro".

"Ide, anjos", porque é o vosso ofício. "Ide, velozes", para que a vossa demora não cause perigo.

"Ide a uma gente desolada e dilacerada,
a um povo terrível,
após o qual não há outro",

para que pelo vosso ensino se alcance o remédio:

"Não queirais sentar-vos
no conselho da vaidade,
nem associar-vos
com os que planejam a iniquidade.
Odiai a sociedade dos malfeitores,
e não queirais sentar-vos com os ímpios".
Salmo 25, 4-5

Alguém de vós poderá pensar silenciosa ou mesmo responder abertamente, dizendo:

"Tu nos proíbes,
pelo exemplo que nos colocas do Salmista,
de nos dirigirmos a estes,
mas é a estes que o Senhor nos encaminha,
quando nos diz:
Ide, anjos velozes,
a uma gente desolada e dilacerada,
a um povo terrível,
após o qual não há outro".

Entendei, porém, que onde o Senhor diz: "Ide, anjos velozes, a uma gente desolada e dilacerada, a um povo terrível, após o qual não há outro", Ele vos impõe aqui um ofício, e vos dá o preceito de ensinar aos ímpios; ali, porém, onde dissemos: "Não queirais sentar-vos no conselho da vaidade, nem associar-vos com os que planejam a iniquidade; odiai a sociedade dos malfeitores, e não queirais sentar-vos com os ímpios", aqui, digo, vos é continuamente negada a permissão para pecar com os ímpios.

"Ide", portanto, "anjos", para ensinar; não queirais ir para pecar. "Ide a um povo terrível", para que pela palavra da salvação o torneis de formosa aparência; não queirais ir, para que pela deformidade de seu pecado vos torneis a vós mesmos semelhantes a eles. Cristo comeu com os pecadores para associá-los consigo mesmo no bem, mas não comeu com eles para que se associasse com eles no mal. "Assim como Cristo o fêz, assim fazei-o vós também; assim como Ele não fez, assim não o queirais vós fazer".

"Ide, anjos velozes".

Quão velozes? Tão velozes que "pelo caminho não saudeis a ninguém" (Luc. 10, 4), e, "se alguém vos saudar",

"não lhe respondais".
2 Reis 4, 29

Não que a salvação não deva ser anunciada a todos; por estas palavras o Espírito Santo quer dar a entender quão velozes e pressurosos importa que sejam os sacerdotes no anúncio da salvação, como se dissesse:

"Prega a palavra,
insiste a tempo e fora de tempo,
repreende, suplica, admoesta
com toda a paciência e doutrina",
2 Tim. 4, 2

e

"não queirais adiar a palavra
dia após dia,
de domingo a domingo,
de solenidade a solenidade,
mas que,
ao menos nos domingos
e nas solenidades festivas
não vos seja suficiente celebrar somente as missas
para o povo reunido na igreja segundo o costume.
Não seja suficiente para o homem apostólico
e para cada uma das ordens
fazer um discurso genérico
ou anunciar a festa da semana seguinte.
Antes, castigai o povo sobre o mal,
ensinai-o e formai-o no bem,
declarai-lhes a pena
que há de vir sobre os pecadores
e a glória reservada aos justos".

"Ide, anjos; ide velozes". Se adiais de domingo a domingo pregar ao povo a palavra da salvação, quem saberá dizer se então estareis vivos, sãos ou presentes? E ainda que ocorra que estejais vivos, sãos ou presentes, quem saberá se alguém que antes estava presente estará então ausente e não mais ouvindo o bom conselho para a sua alma, surpreendido por uma morte inesperada e súbita, seja arrebatado para a pena eterna sem se ter lavado da sua culpa? Porventura de vossas mãos Deus não pedirá com justiça contas do sangue deste homem?

"Ide", pois,
"anjos velozes,
a uma gente desolada e dilacerada,
a um povo terrível,
após o qual não há outro".

O que significa: `Depois do qual não há outro'? Porventura depois deste povo não haverá mais de nascer ou de viver quem faça o bem ou quem faça o mal? Certamente que não. O que significa, então, o `após o qual não haverá outro'? Significa que não haverá, diante do supremo juiz, ninguém pior, mais torpe pela culpa, mais terrível do que este. Três são os povos: o cristão, o judeu, e o pagão. Aqueles que no povo cristão são cristãos segundo o nome, mas que pela injustiça servem ao demônio, são mais terríveis que os judeus ou os pagãos, já que são piores pela iniquidade. De fato, quanto mais facilmente, ajudados pela graça, se quiserem, podem permanecer na justiça, tanto mais gravemente ofendem não querendo abster-se da culpa. Aquele a quem mais foi confiado, mais lhe será exigido. Quanto mais alto for o degrau, tanto maior será a queda, e mais pecou o demônio no céu, do que o homem no paraíso. Conforme no-lo ensina a Escritura,

"Aquele servo,
que conheceu a vontade de seu Senhor,
e não se preparou,
e não precedeu conforme a sua vontade,
levará muitos açoites.
O servo, porém,
que não a conheceu,
e fez coisas dignas de castigo,
levará poucos açoites".
Luc. 12, 47-8

Assim como no-lo é manifestado por esta sentença, assim também o Senhor repreendeu as cidades em que havia feito vários prodígios, pelo fato de não haverem feito penitência, dizendo:

"Ai de ti, Corozaim!
Ai de ti, Betsaida!
Porque, se em Tiro e em Sidônia
tivessem sido feitos os milagres
que se realizaram em vós,
há muito tempo eles teriam feito penitência
em cilício e em cinza.
Por isso eu vos digo
que haverá menor rigor
para Tiro e Sidônia no dia do Juízo
do que para vós.
E tu, Cafarnaum,
elevar-te-ás porventura até o céu?
Não, hás de ser abatida até o inferno.
Se em Sodoma tivessem sido feitos
os milagres que se fizeram em ti,
ainda hoje existiria.
Por isso vos digo que no dia do Juízo
haverá menos rigor para a terra de Sodoma
que para ti".
Mat. 11, 21-24

Deste mesmo modo pode-se repreender também este povo de falsos cristãos, depravado por diversas impiedades, feito terrível, distante da divina semelhança da qual se afastou segundo a sua iniquidade:

"Ai de ti, povo iníquo,
povo mentiroso, povo apóstata,
que pela tua má vida conculcas o Filho de Deus,
que manchaste o sangue do Testamento
em que foste santificado
e fazes injúria ao Espírito da graça!
Melhor seria para estes
não conhecer o caminho da justiça
do que, depois de o terem conhecido,
tornarem para trás daquele mandamento
que lhes foi dado.
De fato realizou-se neles
aquele provérbio verdadeiro:
'Voltou o cão para o seu vômito
e a porca lavada tornou a revolver-se
no lamaçal'' (2 Pe. 2, 21-22)".

Como não vemos, portanto, que este povo não poderá ser pior do que si mesmo e que nenhum outro povo mau haverá de vir depois dele? Neste o peso dos males manifestado pela palavra profética já parece ter-se espalhado, pelo que se diz:

"Ai de vós,
os que ao mal chamais bem,
e ao bem mal,
que tomais as trevas por luz,
e a luz por trevas,
que tendes o amargo por doce,
e o doce por amargo!
Ai de vós,
os que sois sábios a vossos olhos e,
segundo vós mesmos, prudentes!
Ai de vós os que sois poderosos para beber vinho,
e fortes para fazer misturas inebriantes!
Vós os que justificais o ímpio pelas dádivas,
e ao justo tirais o seu direito!".
Is. 5, 20-23

De todas estas coisas, irmão caríssimos, há muito mais que poderia ser dito, as quais temos que omití-las por causa da brevidade.

"Ide, anjos velozes,
a um povo terrível,
após o qual não há outro,
a uma gente que espera e é pisada".

O que ela espera? A vossa palavra, o vosso exemplo, o vosso amparo e, pela vossa solicitude e pelo vosso serviço, o auxílio e o dom divino. Espera a vossa palavra, para que possa aprender; o vosso exemplo, para que dele receba a forma; o vosso amparo, para que seja defendido; por vossa solicitude e serviço, o auxílio e o dom divino para que possa ser libertado do mal e justificado no bem.

"E é pisada".

Quem a pisou? Todos os demônios, que continuamente dizem à sua alma: "Curva-te, para que passemos por ti". De fato, os maus, os que desprezam as coisas celestes, e se curvam para as terrenas, oferecem aos demônios o caminho para serem por eles pisados e atravessados.

Segue-se:

"Cujos rios destroçaram sua terra".

Quem são estes rios que destroçam a terra dos que vivem mal? Onde os vícios fluem com impetuosidade, carregam consigo os maus aos tormentos. O que é a destruição da terra, senão a dissipação de qualquer virtude? Os rios, portanto, destroçam a terra dos maus quando os vícios lhes removem as virtudes. A soberba, de fato, remove a humildade, a ira remove a paz, a inveja a caridade, a acédia a exultação espiritual, a avareza a liberalidade, a luxúria a continência.

"Ide, anjos velozes,
a uma gente desolada e dilacerada,
a um povo terrível,
após o qual não há outro,
uma gente que espera e é pisada,
cujos rios destroçaram sua terra".

"Naquele tempo", acrescenta logo em seguida Isaías,

"será levada uma oferta
ao Senhor dos exércitos
por um povo desolado e dilacerado,
por um povo terrível,
após o qual não houve outro,
por uma gente que espera e é pisada,
cujos rios destroçaram a sua terra".
Is. 18, 7

De que tempo nos fala o profeta? Daquele tempo em que tiverdes ido a este povo ao qual sois enviados e, pelo vosso ensino, o tiverdes curado dos males que já mencionamos. Que oferta então será levada ao Senhor? Uma oferta de gratidão, um holocausto entranhado e medular, um voto interior, que será levado ao lugar do nome do Senhor, ao monte Sião, isto é, à Santa Igreja.

Ide, pois, anjos velozes, e ensinai ao povo terrível, cumpri o vosso ministério. Se assim o fizerdes, alcançareis para vós um bom lugar. Que a vós e a nós conceda esta graça aquele que nos promete também a glória, Jesus Cristo, Nosso Senhor, o qual vive e reina, por todos os séculos dos séculos.

Amén.

Consagração a Nossa Senhora Aparecida


Ó Virgem Santíssima, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, eis-nos prostrados suplicantes, aos pés do Vosso trono, na certeza de obter de Vossa misericórdia as graças e a ajuda oportuna nas calamidades presentes, não em virtude de nossos méritos, que são poucos, mas unicamente pela imensa bondade do Vosso Coração maternal.

Os abomináveis pecados do mundo, as perseguições dirigidas contra a Igreja de Jesus Cristo, mais ainda, a apostasia das nações e de tantas almas cristãs, em suma, os esquecimentos por parte da maioria dos homens de que sois a Mãe da Divina Graça, tudo isso é agonia para Vosso Coração Doloroso e Imaculado, tão unido, em Sua compaixão, aos sofrimentos do Sagrado Coração de Vosso Filho.

Nesses tempos calamitosos em que tantas almas se perdem viemos ao Vosso Santuário suplicar a Vossa proteção sobre nossas famílias, dilaceradas pela discórdia e pelo flagelo do divórcio.

Pedimos pelos nossos filhos, atraídos covardemente por um mundo apóstata da fé, que lhes acena com falsos prazeres, as drogas e uma impressionante revolta contra a autoridade de Deus e de seus pais.

Pedimos também pela nossa Pátria, esquecida de Vós e do Coração de Vosso Filho, ela que nasceu sob o manto da Santa Cruz e que tantas glórias já trouxe para a Santa Igreja Católica, em tempos de maior devoção e vida católica.

Não permitais que os próximos anos se transformem em perseguições sorrateiras e silenciosas contra os direitos de Deus e de Sua Igreja.

Dai-nos as graças que nos são tão necessárias para resistir a tantas mentiras e enganações, e fazei que sejamos fiéis às promessas do nosso Santo Batismo. Queremos viver sob o Vosso manto e sob Vossa maternal proteção e para tanto, consagramos nossas almas como filhos amorosos e confiantes, prometendo o esforço de nunca abandonar a oração do Terço e a devoção ao Vosso Imaculado Coração, última tábua de salvação.

Assim seja.

sábado, 2 de junho de 2012

"... triunfem as Vossas chagas nas nossas bandeiras"

Nota do blogue: Segue trechos de um discurso feito pelo Padre Antônio Vieira numa época em que os holandeses haviam conquistado uma parte considerável do Brasil impregnados da heresia do protestantismo. Esses acontecimentos segundo o autor da biografia - João Francisco de Lisboa - excitavam em todos ânimos, sentimentos de terror, então, ordenaram-se preces públicas na Bahia, sendo o Pe. Antônio Vieira o último a pregar.

Saudações,
Letícia de Paula

P.S: É preciso saber compreender esse sermão.


Padre Antônio Vieira

"Não hei-de pregar hoje ao povo, não hei-de falar com os homens, mais alto hão-de subir as minhas palavras; a Vosso peito divino se há-de dirigir o sermão... Olhai, Senhor, que já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos que Vós lhes dais ou permitis: já dizem que, porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus o ajuda, e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece, e somos vencidos... Oh! Não o permitais, Deus meu, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis, não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que destruísseis; por Vós o digo, e pela honra do Vosso santíssimo nome, que tão impudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o pérfido calvinista, dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados, faz argumentos da religião e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua a verdadeira; veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade [...]

"Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as Vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a fé romana, que professamos, é fé, e só ela a verdadeira e a vossa [...]

"Considerai, Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai a quem tirais as terras do Brasil, e a quem dais. Tirais estas terras àqueles portugueses a quem escolhestes entre todas as nações do mundo para conquistadores da Vossa fé, e a quem destes armas, como insígnia e divina singular, vossas próprias chagas. E será bem, supremo Senhor e Governador do universo, que às armas e chagas de Cristo, sucedam aos rebeldes a seu rei e a Deus? [...]

"Imaginemos pois (o que até fingido e imaginado faz horror) imaginemos que vêm a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses; que é que há-de suceder em tal caso? Entrarão por toda a cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo, nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos.

"Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua honestidade: chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs: chorarão os sacerdotes, vendo que as coroas sagradas os não defendem; chorarão inocentes, porque nem a esses perdoará a desumanidade herética. Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras, arrebatarão essa custódia em que agora estais adorado dos anjos, tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes; derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo: e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas, nem às imagens tremendas de Cristo crucificado, nem às da Virgem Maria [...]

"No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e mesmo sendo àqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a Lhe tocar, nem a lhe perder o respeito. Assim, foi e assim havia de ser.

"Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de Vossa mãe, como consentis agora que se Lhe façam tantos desacatos?

Nem me digais, Senhor, que lá era pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a arca do testamento, e só por que Oza a quis tocar, Lhe tirastes a vida [...].

"Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um profeta, se Lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar Vossos santos, lhes ficam ainda braços para os delitos?

"Enfim, Senhor, despojados assim os templos, e derrubados os altares, acabar-se-á o culto divino: nascerá erva nas igrejas como nos campos, nem haverá quem nelas entre... Chorarão as pedras das ruas ... Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam: morrerão os católicos sem confissão nem sacramento: pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de São Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão neles os infames nomes de Calvino e de Lutero: beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, e chegaremos a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: Menino, de que seita sois? Um responderá, seu sou calvinista; outro, eu sou luterano. Pois isto se há-de sofrer, meu Deus? Quando quisestes entregar Vossas ovelhas a Pedro, examinaste-lo três vezes, se Vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais desta maneira, não a pastores senão a lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o Vosso rebanho? aos hereges as almas?

Já sei, Senhor, que Vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos [...]"

(Vida do Padre Antônio Vieira por J. F. Lisboa - Clássicos Jackson - páginas.11 à 18)

Santa Catarina de Sena - trecho da carta 342

Imitai Jesus Cristo

(Imagem de Santa Catarina de Sena já muito doente)

Ó caridade (de Deus Pai), inestimável e suavíssima, como é grande a união que realizaste com o homem! Mostraste o teu inefável amor mediante muitas graças e benefícios concedidos aos homens, sobretudo ao ministério da encarnação, quando vimos a suprema grandeza unir-se à grande pequenez da nossa natureza. Muito deveria envergonhar-se o orgulho humano ao ver Deus tão humilde no ventre da gloriosa Virgem Maria, que foi o campo onde a semente da palavra divina se enxertou na carne, à semelhança da semente atirada na terra que germina ao calor da luz solar e produz a flor e o fruto, enquanto a casca fica no chão. Foi o que aconteceu. Ao calor da caridade divina, Deus assumiu a natureza humana ao seio de Maria.

Ó bem-aventurada e amável Maria, Vós produziste a flor Jesus.

Quando foi que essa flor produziu o fruto? Ao ser enxertado na árvore da santa cruz. Foi então que recebemos a perfeita vida cristã (da graça).

E por isso que dissemos que a casca fica no chão? Por que a vontade do Filho de Deus, enquanto homem, assumiu o desejo santo da glória do Pai e da nossa salvação. E foi um desejo tão forte, que apaixonado correu em direção aos sofrimentos e à terrível e infame morte na cruz. Convencidos de que a mesma coisa aconteceu com Maria, que também desejava a glória do Pai e a nossa salvação, dizem os doutores (da Igreja) que Ela com grandíssima caridade estava disposta a tornar-Se uma escada, para que o Filho fosse posto no alto da cruz, se não houvesse outra maneira. Tudo isso, porque a vontade do Filho permanecia nEla.

P.S: Grifos meus.

Constituições Apostólicas (380), recolha canônica e litúrgica - Recuperação da Didascália dos Apóstolos, texto do começo do séc. III

“Nem um cabelo da vossa cabeça se perderá”


Se formos chamados ao martírio, teremos de confessar com constância o precioso Nome, e se formos punidos por isso, alegremo-nos porque corremos para a imortalidade. Se formos perseguidos, não nos entristeçamos nem nos apeguemos ao mundo presente, nem aos “louvores dos homens” (Rom 2, 29), nem à glória dos príncipes, como fazem alguns. Esses admiravam as ações do Senhor, mas não acreditavam nEle, por temor dos grandes sacerdotes e de outros dirigentes, porque “amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (Jo 12, 43). Fazendo “solene profissão” da fé (I Tim 6, 12), nós garantimos a nossa salvação, firmamos na fé os novos batizados e consolidamos a fé dos catecúmenos. […]

Que aquele que for julgado digno do martírio se alegre, pois, por imitar o Mestre, uma vez que foi prescrito: “o discípulo bem formado será como o mestre” (Lc 6, 40). Ora, o nosso Mestre, Jesus, o Senhor, foi açoitado por nossa causa, suportou com paciência calúnias e ultrajes, foi coberto de escarros, esbofeteado, espancado; tendo sido flagelado, foi pregado na cruz, deram-Lhe a beber vinagre e fel e, depois de ter cumprido todas as Escrituras, disse a Deus, Seu Pai: “Na Vossas mãos entrego o Meu espírito” (Lc 23, 46). Quem quiser ser Seu discípulo aspire, pois, a lutar como Ele, imite a Sua paciência, ciente de que […], será recompensado por Deus de tudo quanto sofrer, se acreditar no único Deus verdadeiro. […]

Porque Deus omnipotente há-de ressuscitar-nos por Nosso Senhor Jesus Cristo, de acordo com a Sua infalível promessa, com todos aqueles que morreram desde o princípio. […] Mesmo que morramos no mar alto, mesmo que estejamos dispersos pelo mundo, mesmo que sejamos dilacerados por animais ferozes ou rapaces, Ele há-de ressuscitar-nos pelo Seu poder, porque todo o universo está suspenso da mão de Deus: “Nem um cabelo da vossa cabeça se perderá.” É por isso que Ele nos exorta dizendo: “Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.”

São Máximo de Turim, bispo Sermão 38; PL 57, 341s; CCL 23, 149s

O sinal da salvação


Na Sua Paixão, o Senhor assumiu todos os males do gênero humano a fim de que, a partir de então, nada mais fizesse mal ao homem. A cruz é, pois, um grande mistério e, se tentarmos compreendê-lo, por via deste sinal o mundo será salvo. Com efeito, quando se fazem ao mar, os marinheiros começam por erguer a árvore do mastro, esticando a vela para que as águas se lhes abram; desse modo, formam a cruz do Senhor e, seguros por este sinal do Senhor, chegam ao porto da salvação e escapam aos perigos da morte. Com efeito, a vela suspensa do mastro é a imagem deste sinal divino, da mesma maneira que Cristo foi elevado na cruz. Eis por que razão, devido à confiança que nasce deste mistério, estes homens não se assustam com as borrascas do vento, chegando ao porto desejado. Assim, tal como a Igreja não pode permanecer de pé sem a cruz, também um navio enfraquece sem o mastro. O diabo atormenta-o e o vento atinge o navio mas, quando se ergue o sinal da cruz, é afastada a injustiça do diabo, e a borrasca termina imediatamente. […]

O agricultor também não empreende o seu trabalho sem o sinal da cruz: ao reunir os elementos da charrua, imita a imagem de uma cruz. […] Também o céu está disposto como uma imagem deste sinal, com as suas quatro direções, o Oriente, o Ocidente, o Meio-dia e o Norte. A forma do próprio homem, quando eleva as mãos, representa uma cruz; sobretudo quando rezamos de mãos erguidas, proclamamos a Paixão do Senhor através do nosso corpo. […] Foi assim que Moisés, o Santo, saiu vencedor da guerra contra os amalecitas, não por via das armas, mas das mãos erguidas para Deus (Ex 17, 11). […]

Assim, por este sinal do Senhor, abre-se o mar, cultiva-se a terra, é governado o céu e os homens são salvos. É também, afirmo eu, por este sinal do Senhor que se abrem as profundezas onde habitam os mortos. Porque o homem Jesus, o Senhor, que transportou a verdadeira cruz, foi sepultado na terra, e a terra que Ele tinha trabalhado em profundidade, que tinha, por assim dizer, destruído em todos os pontos, fez germinar todos os mortos que retinha em si.

S. Bernardo (1091-1153), monge cisterciense e Doutor da Igreja - Sermões diversos, nº 22

«Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, 
então compreendereis que Eu, Eu sou»


"A Cristo Jesus deves toda a tua vida, pois que Ele deu a Sua vida pela tua e suportou amargos tormentos para que tu não suportasses tormentos eternos. Que poderá haver para ti de duro e medonho, se te lembrares que Aquele que era de condição divina na luz da Sua eternidade, antes do nascer da aurora, no esplendor dos santos, Ele mesmo resplendor e imagem da substância de Deus, veio à tua prisão, enterrar-se até ao pescoço, como se diz, no fundo do teu lodo? (Fil 2,6; Sl 109,3; Heb 1,3; Sl 68,3)

O que é que não te parecerá doce, quando tiveres reunido no teu coração todas as tristezas do teu Senhor e te lembrares, primeiro, das condicionantes da Sua infância, depois, das fadigas da Sua pregação, das tentações dos Seus jejuns, das Suas vigílias de oração, das Suas lágrimas de compaixão, das maquinações que armaram contra Ele... e, depois, das injúrias, dos escarros, das bofetadas, das chicotadas, do escárnio, da troça, dos pregos, de tudo o que suportou para nossa salvação?

Que compaixão imerecida, que amor gratuito assim provado, que estima inesperada, que doçura surpreendente, que bondade invencível! O Rei da glória (Sl 23) crucificado por um escravo tão desprezível! Quem é que alguma vez ouviu tal, que alguma vez viu algo semelhante? «É que dificilmente alguém morria por um justo» (Rom, 5,7). Mas Ele, foi por inimigos e por injustos que morreu, escolhendo deixar o céu para nos conduzir ao céu, Ele, o doce amigo, o sábio conselheiro, o apoio firme. Que daria eu ao Senhor por tudo aquilo que me deu? (Sl 115,3)"

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O ESPÍRITO NOVO



Por um Cartuxo anônimo - Intimidade com Deus

            Quando nos incorporamos no Filho, uma perfeita intimidade com Ele é o legítimo objeto da nossa esperança, a finalidade dos nossos desejos e dos nossos esforços. Ele cresce em nós e dilata o nosso ser, de maneira a tornar-nos cada dia com mais capacidade para o divino.

            O homem renovado pela graça tira todas as suas faculdades das riquezas abundantíssimas do Verbo, enquanto se despoja de si próprio para se revestir da santidade de Cristo. A incorporação inunda-nos de dons sempre novos: a força do Espírito Santo, o poder divinizante da graça, a glória de que esta vida de união está já secretamente cheia. «Vós, pois, como escolhidos de Deus, santos e amados, revesti-vos de entranhas de misericórdia, de benignidade, de humildade, de modéstia e de paciência» (Col., III, 12). «Embora se destrua em nós o homem exterior, todavia o interior vai-se renovando de dia para dia» (II Cor., IV, 16).

            A fusão da alma com Cristo opera-se no próprio fundo do ser e no princípio do tempo: os símbolos tirados da união de substâncias criadas não pedem traduzir esta unidade incomparável e sempre nova forjada pelo amor. «Para que sejam todos um, como tu, Pai, o és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós» (João, XVII, 21).

            Deus não põe de parte o que começou; pelo contrário, não cessa nunca de o aperfeiçoar na alma: Ele quer que Cristo cresça em nós até à plena harmonia da idade adulta. O Seu Espírito aproxima-se constantemente do Pai para nos unir mais intimamente a Ele. «Porque todos aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus. Porque vós não recebesses o espírito de escravidão para estardes novamente com temor, mas recebesses o espírito de adoção de filhos, mercê do qual chamamos, dizendo: Abba (Pai)» (Rom., VIII, 14-15).

            À medida que o conhecimento de Deus cresce dentro de nós, torna-se mais viva a nossa fé no Pai. Quanto mais clara é para nós a evidência de que Deus é caridade, mais pronta fica a nossa alma para se perder nos abismos desse amor. Participamos do amor do Pai pelo Filho, e é com Cristo que repousamos no seio do Pai. «Livrou-nos do poder das trevas e transferiu-nos para o reino do Filho do seu amor» (Col. I, 13). Deste modo, a vida partilhada com Cristo introduz-nos na pátria da Sua eterna glória.

            «Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu conheci-te; e estes conheceram que tu me enviaste. Eu fiz-lhes e far-lhes-ei conhecer o teu nome, a fim de que o amor, com que me amaste, esteja neles, e eu neles» (João, XVII, 25-26).

            Todos os homens podem viver desta inebriante verdade se se deixarem libertar por ela, se, deixando de fazer das criaturas objeto do seu desejo, as atravessarem a correr como frágeis degraus, como meios inteiramente ordenados para a finalidade divina. «Nós conhecemos e cremos na caridade que Deus tem por nós: Deus é caridade» (I João, IV, 16). 

            Deus procura arrancar-nos cada vez mais a nós próprios, a fim de que já não vivamos para nós, mas d'Ele e para Ele. A minha vontade, o meu coração, o meu espírito foram substituídos pela vontade, pelo coração, pelo espírito de Cristo; eu e Ele somos um em espírito, e eu estou identificado com Ele pelo amor: é esta a experiência e a alegria dos santos. «Já não vivo, é Jesus que vive em mim!» (Gál., II, 20).

            Nada encoraja e fortifica o coração como esta verdade: «Todas as coisas são vossas, o mundo, a vida, a morte, presente e futuro; tudo é vosso; mas vós sois de Cristo e Cristo de Deus» (I Cor., III, 22-23).

            É esta, com efeito, a herança de Cristo, a obra que Ele realizou livremente morrendo por nós. «Eis-vos purificados, santificados e justificados em nome de Jesus Cristo, pelo Espírito de Deus» (I Cor., VI, 11).

            Tudo devemos à graça e somos apenas o que ela permite que sejamos, mas podemos torná-la ineficaz com as nossas infidelidades. Velar pelo seu crescimento dentro de nós é o objeto digno do nosso esforço. «O vosso trabalho não é vão no Senhor» (I Cor., XV, 58). «Vigiai, permanecei firmes na fé, sede viris e fortes» (I Cor., XVI, 13).

            As fraquezas terrestres hão-de pesar sempre sobre nós enquanto vivermos neste mundo. Os heróis e os gigantes da santidade suspiraram sempre sob a lei do pecado, que, como nós, nunca deixaram de sentir. «Infeliz de mim! Quem me livrará deste corpo de morte?» (Rom., VII, 24). O remédio para a nossa fraqueza é o realismo da fé: um olhar franco sobre a nossa própria miséria e sobre as riquezas de Deus. Cristo operou em nós uma obra sublime - a infusão de uma outra vida.

            A fé ilumina-nos com uma luz infinitamente mais brilhante que o dia, a caridade abre-nos um horizonte que a natureza não pode sequer suspeitar. O cristão é um homem novo e o ar que ele respira interiormente não é deste mundo; a sua existência foi recomeçada segundo um plano divino. Embora ele continue a arrastar o peso do corpo e das suas inclinações inferiores, revestiu-se já de outra Pessoa. «Despojai-vos do homem velho com todas as suas obras, e revesti-vos do novo, daquele que renovando-se continuamente à imagem daquele que o criou, atinge o conhecimento perfeito. Nesta renovação não distingue entre o escravo e o homem livre, é Cristo que «é tudo em todos» (Col., III, 9-11). «O homem que está em Cristo é uma nova criatura; passaram as coisas velhas; eis que tudo se fez novo. E tudo isso vem de Deus» (II Cor., V, 17).

            O coração é novo, são novos o espírito e a vontade; sim, o homem é novo a partir do momento em que se abriu inteiramente para a graça. E aquilo que Deus lhe dá, a vida divina, não pode ser-lhe arrancado por nada que tenha sido criado, se ele o não consentir. «Quem nos separa, pois, do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A fome? A nudez? O perigo? A perseguição? A espada? Mas de todas estas coisas saímos vencedores por aquele que nos amou. Porque eu estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Jesus Cristo nosso Senhor» (Rom., VIII, 35-39). 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Santa Joana d'Arc

Fonte: Escravas de Maria

Santa Joana d’Arc 
600 anos de seu nascimento 1412-1431 

30/05 Quarta-feira das Quatro- Têmporas de Pentecostes dentro da oitava de Pentecostes
Festa de Primeira Classe 
Paramento Branco


Filha de Jaques d'Arc e Isabel, camponeses muito pobres, Joana nasceu em Domrémy, na região francesa de Lorena, em 6 de janeiro de 1412. Cresceu no meio rural, piedosa, devota e analfabeta, assinava seu nome utilizando uma simples, mas significativa, cruz. Significativa porque já aos treze anos começou a viver experiências místicas.

Ouvia as "vozes" do arcanjo Miguel, das santas Catarina de Alexandria e Margarida de Antioquia, avisando que ela teria uma importante missão pela frente e deveria preparar-se para ela. Os pais, no início, não deram importância , depois acharam que estava louca e por fim acreditaram, mas temeram por Joana.

A França vivia a Guerra dos Cem Anos com a Inglaterra, governada por Henrique VI. Os franceses estavam enfraquecidos com o rei deposto e os ingleses tentando firmar seus exércitos para tomar de vez o trono. As mensagens que Joana recebia exigiam que ela expulsasse os invasores, reconquistasse a cidade de Orleans e reconduzisse ao trono o rei Carlos VII, para ser coroado na catedral de Reims, novamente como legítimo rei da França. A ordem para ela não parecia impossível, bastava cumpri-la, pois tinha certeza de que Deus estava a seu lado. O problema maior era conseguir falar pessoalmente com o rei deposto.

Conseguiu aos dezoito anos de idade. Carlos VII só concordou em seguir seus conselhos quando percebeu que ela realmente tinha por trás de si o sinal de Deus. Isso porque Joana falou com o rei sobre assuntos que na verdade eram segredos militares e de Estado, que ninguém conhecia, a não ser ele. Deu-lhe, então, a chefia de seus exércitos. Joana vestiu armadura de aço, empunhou como única arma uma bandeira com a cruz e os nomes de Jesus e Maria nela bordados, chamando os comandantes à luta pela pátria e por Deus.

E o que aconteceu na batalha que teve aquela figura feminina, jovem e mística, que nada entendia de táticas ou estratégias militares, à frente dos soldados, foi inenarrável. Os franceses sitiados reagiram e venceram os invasores ingleses, livrando o país da submissão.

Carlos VII foi, então, coroado na catedral de Reims, como era tradição na realeza francesa.

A luta pela reconquista demorara cerca de um ano e ela desejava voltar para sua vida simples no campo. Mas o rei exigiu que ela continuasse comandando os exércitos na reconquista de Paris. Ela obedeceu, mas foi ferida e também traída, sendo vendida para os ingleses, que decidiram julgá-la por heresia. Num processo religioso grotesco, completamente ilegal, foi condenada à fogueira como "feiticeira, blasfema e herética". Tinha dezenove anos e morreu murmurando os nomes de Jesus e Maria, em 30 de maio de 1431, diante da comoção popular na praça do Mercado Vermelho, em Rouen.

Não fossem os fatos devidamente conhecidos e comprovados, seria difícil crer na existência dessa jovem mártir, que sacrificou sua vida pela libertação de sua pátria e de seu povo. Vinte anos depois, o processo foi revisto pelo papa Calisto III, que constatou a injustiça e a reabilitou. Joana d'Arc foi canonizada em 1920 pelo papa Bento XV, sendo proclamada padroeira da França. O dia de hoje é comemorado na França como data nacional, em memória de santa Joana d'Arc, mártir da pátria e da fé.
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Epístola
Atos dos Apóstolos 5, 12-16 


12.Enquanto isso, realizavam-se entre o povo pelas mãos dos apóstolos muitos milagres e prodígios. Reuniam-se eles todos unânimes no pórtico de Salomão.13.Dos outros ninguém ousava juntar-se a eles, mas o povo lhes tributava grandes louvores.14.Cada vez mais aumentava a multidão dos homens e mulheres que acreditavam no Senhor.15.De maneira que traziam os doentes para as ruas e punham-nos em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles.16.Também das cidades vizinhas de Jerusalém afluía muita gente, trazendo os enfermos e os atormentados por espíritos imundos, e todos eles eram curados.
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Evangelho
São João 6,44-52 


44.Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu hei de ressuscitá-lo no último dia.45.Está escrito nos profetas: Todos serão ensinados por Deus (Is 54,13). Assim, todo aquele que ouviu o Pai e foi por ele instruído vem a mim.46.Não que alguém tenha visto o Pai, pois só aquele que vem de Deus, esse é que viu o Pai. 47.Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna.48.Eu sou o pão da vida.49.Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram.50.Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer.51.Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.52.A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?

NOBREZA ESPIRITUAL


Por um Cartuxo anônimo - Intimidade com Deus

            É no mundo do homem, em que tudo lisonjeia os sentidos e a vaidade, que devemos criar uma solidão sagrada, praticar a renúncia e deixarmo-nos despojar de acordo com as exigências da graça. Mas nenhuma perda resulta para nós de tudo isso: de cada vez que renunciamos a uma satisfação aparente, é-nos assegurado um aumento de verdadeiros bens. Os prazeres que o mundo procura são uma decepção constante, gelam o coração e deixam-no vazio diante da morte, enfraquecem o seu instinto de nobreza e privam-no da sua paz, e levam-no muitas vezes ao desespero. Pois este mundo continua surdo à palavra de Cristo e recusa-se a acreditar na verdade que lhe diz respeito, defende-se com a ira contra a alegria de Cristo, contra Deus e contra os seus, cuja sentença receia. «Agora vou para ti; e digo estas coisas estando ainda no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude do meu gozo. Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também eu não sou do mundo» (João, XVIII, 13-14).

            Não é o nosso valor pessoal que nos torna dignos do olhar de Deus: Ele só procura em nós a imagem do Seu Filho, o fruto da Sua paixão e a riqueza que mereceu para nós morrendo por nós. Esta lembrança do amor infinito é, infelizmente, ignorada pela maior parte dos homens, e parece estar perdida para eles. Outros, embora não a desconheçam completamente, só tiram dela um medíocre proveito, porque não penetram em espírito até à sua realidade profunda e só traduzem na sua vida uma parte mínima dela. Teremos nós a coragem de pagar com tão grande ingratidão a generosidade divina?

            Sermos chamados à dignidade de filhos de Deus e termos a possibilidade ilimitada de tirar dos tesouros da Sua graça uma semelhança cada vez maior com o Filho, é um destino que não pode ser comparado com nenhum daqueles que as potências criadas nos prometem. Deus quer comprazer-Se em nós e o Seu desígnio eterno é tornar-nos semelhantes a Jesus. «Porque os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos» (Rom., VIII, 29).

            Não há ninguém que não seja convidado para esta glória: para nela participar, basta seguir fielmente as inspirações da graça, viver interiormente e procurar o essencial, isto é o amor em todas as ocasiões que se nos depararem durante o dia. Não temos nenhuma razão válida para retardarmos o nosso consentimento, para continuarmos a preferir as vozes da natureza e os ruídos do mundo à oração de Cristo. Quem não procura a união com Deus e não mantém com Ele uma relação viva, porque prefere uma pobreza sórdida aos dons mais ricos que o Espírito incita constantemente a aceitar. Deus não afasta nenhum homem da Sua amizade; pelo contrário, insiste com todos de tal maneira, que o Seu convite quase que força as vontades rebeldes, e toda a tragédia das nossas vidas consiste neste desprezo que opomos à generosidade divina. O ambiente frio da ausência de Deus dá-nos um antegosto da condenação eterna: em vez de um céu interior, é um inferno que trazemos dentro de nós, quando o elo se rompeu por culpa nossa. Pois infelizmente temos o poder de asfixiar a semente que foi posta na nossa alma para crescer e dar fruto. Todo o nosso tempo, todas as nossas forças, as nossas faculdades e as nossas capacidades devem ser consagrados a este crescimento da vida eterna. Os objetos e os atos mais insignificantes devem continuar a alimentá-la para que nada se perca da obra de Deus.

            Com efeito, não há nada que não possa e não deva ser santificado pela dádiva, que não possa servir para a glória do amor numa criatura humana unida ao Verbo divino. Não recusemos nada do que nos é pedido para esta vida misteriosa dentro de nós, e vê-la-emos desenvolver-se até a plenitude que ultrapassa todas as palavras. «Até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito, segundo a medida da idade completa de Cristo; para que não mais sejamos meninos flutuantes, e levados, ao sabor de todo o vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro, mas, praticando a verdade na caridade, cresçamos em todas as coisas naquele que é a cabeça, o Cristo» (Efés., IV, 13-15).

            Acontece com a vida interior o mesmo que acontece com a vida vegetal e os cuidados que esta requer: é preciso eliminar todas as excrescências adventícias ou anormais que fariam desviar o seu impulso e ameaçariam o seu fruto. Daí o conselho para visarmos a única coisa necessária, para não nos perdermos no que é meramente acidental. Para levar até à sua plenitude a obra que Deus começou em nós, precisamos de ter uma consciência delicada, que compreenda logo as sugestões de Deus, e uma coragem viril para as seguir sem compromissos. Que seja Deus a única razão profunda e o motivo de todas as nossas ações! Nenhuma autoridade no mundo tem            o direito de nos desviar. Lutaremos sempre para manter a nossa intenção pura e agradável a Deus. «Se o teu olho for simples, todo o teu corpo terá luz» (Mat., VI, 22).

            O Salvador diz que são bem-aventurados os pobres em espírito, que não estão presos às coisas deste mundo, e não querem possuir mais nada senão Ele. Não têm o coração fechado no horizonte duma riqueza terrestre: têm-no aberto para o céu. Não estão à espera dos privilégios dos primeiros lugares, nem das vantagens da fortuna: não procuram parecer grandes aos olhos do mundo, sabem que não são nada diante de Deus, que distribui pelos humildes as suas riquezas e lhes revela os seus segredos. Foi para nos advertir que Cristo proferiu estas ameaças: «Ai de vós, ricos! porque tendes a vossa consolação neste mundo! Ai de vós, os que estais saciados! Ai de vós quando os homens vos louvarem!» (Luc., VI, 24-26).

A renúncia àquilo a que os homens chamam riqueza é uma das primeiras garantias da liberdade interior. Bem-aventurados os que se despojam e se deixam despojar em espírito de fé! A sua pobreza de um dia transformar-se-á em riqueza duradoura e alcançarão a paz. Eles não a trocariam por todos os tesouros do mundo: são as arras da eternidade. «Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus!» (Mat.,V, 12).

Conservarmo-nos voltados para Deus em todas as nossas ocupações não significa, de nenhum modo, abandonar o próximo, ignorar as realidades que nos cercam. O dever mais elevado não exclui a fidelidade às ocupações secundárias; pelo contrário, inspira-a e exige-a. Aqueles cujo espírito se volta para a verdade primária são os que se entregam às tarefas mais insignificantes: encontram nelas o clarão da glória divina, tão puro como nas ocupações que - sem razão - costumam ser consideradas como nobres ou importantes. Ouvem constantemente as palavras de Cristo: «Tudo o que fizeste a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mat., XXV, 40). «E todo o que der a beber um único copo de água fria a um destes pequeninos só a título de ser meu discípulo, na verdade vos digo que não perderá a sua recompensa» (Mat., X, 42).

            O crescimento e o desabrochar da semente divina nas almas fiéis é um espetáculo que os anjos contemplam. Ultrapassa o horizonte dum destino pessoal: ressoa na harmonia dos mundos, a quem esta sagração de uma criatura confere uma nova beleza. Se a história registrasse os acontecimentos segundo a sua importância real, uma alma que se torna filha de Deus ocuparia um lugar muito mais importante do que as coroações e as conquistas. Assim como o pecado perturbou todo o universo, assim também o regresso do homem à intimidade divina restitui à criação a ordem e o brilho perdidos. Um inimigo de Deus que se torna Seu amigo é uma aurora mais luminosa do que a de um novo sol no firmamento. «Os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai» (Mat., XIII, 43).

            Logo que o homem, vivendo da fé, renuncia generosamente a si próprio, fica inundado de luz e transformado pelo amor. Mas primeiro é necessário que à nossa volta o mundo se tenha reduzido ao silêncio, ou pelo menos que a sua voz seja dominada pelo sim e pelo amor da alma que responde à graça divina. É este diálogo interior que dá sentido ao universo e habitua o homem à condição eterna. «Vós já não sois hóspedes, nem adventícios, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efés., II, 19).

            A criatura entra assim na mais íntima relação com o Criador, que Se inclina para ela com terna solicitude para satisfazer os seus desejos. «Conforme a determinação eterna que ele realizou em Jesus Cristo Nosso Senhor, no qual temos segurança e acesso a Deus com confiança, por meio da fé nele» (Efés., III, 11-12).

            O amor não escolhe palavras, exprime-se sem se importar com fórmulas ou convenções: «A boca fala da abundância do coração» (Mat., XII, 34). De resto, quando dois corações que se amam se encontram um com o outro, o silêncio é muitas vezes mais expressivo do que as palavras: traduz melhor a comunicação imediata duma plenitude. Que alegria entregarmo-nos totalmente a Jesus e pertencermos-Lhe sem condições! E que enriquecimento para nós se, recolhendo-nos, soubermos dar lugar ao Espírito de Cristo, num consentimento de todo o nosso ser, numa comunhão muda de alma com alma! É isto que o Mestre espera de nós: quer-nos unidos a Ele com toda a simplicidade, para que o nosso coração no meio das preocupações e dos deveres de estado, não se afaste um só instante da Sua presença. «É preciso orar sempre e não cessar de o fazer» (Luc., XVIII, 1).

            É uma coisa que ultrapassa as nossas capacidades naturais, mas se, ajudados pela Sua graça, cumprirmos fielmente as condições enunciadas no Evangelho de Cristo, podemos estar certos de que Ele Se antecipará aos nossos desejos. Pois Ele tem sede de Se dar e de espalhar o Seu amor sobre os homens, que se mostram tão ingratos para com a caridade infinita e parecem desprezar as Suas tentativas de aproximação. Até mesmo entre aqueles que parecem querer dedicar-se ao Seu serviço de coração sincero, encontramos muitas vezes uma imperfeita consciência das exigências e dos dons do amor: o próprio zelo que os leva à ação parece tornar impossível o calmo abandono em que estabeleceria com Deus uma relação interior, pessoal e viva. Contudo, esta união não poria o mínimo obstáculo à sua atividade, e nada os desculpa de não fazerem caso da fonte mais rica que o Criador fez brotar: Ele quer agir pelas nossas mãos, quer que sejamos instrumentos ao Seu serviço, instrumentos dotados de liberdade e de vida sobrenaturais, na medida em que se prestam à vontade divina. É assim que o homem se realiza e se ultrapassa. «Todos aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus» (Rom., VIII, 14).

            Deixarmo-nos armar cavaleiros de Cristo é entrarmos na família divina: já não estarmos sós, estamos acompanhados pelo céu que trazemos dentro de nós. «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a Ele, e faremos nele morada» (João, XIV, 23).

            Tal é a abundante recompensa que nos traz a fé vivida no amor os horizontes humanos foram ultrapassados; doravante é com Deus que contamos para nos guiar: Ele ilumina os nossos passos e mostra-nos o caminho. A única coisa que precisamos fazer é segui-lO: a noite acabou, a luz da alvorada anuncia-nos o dia eterno. A terra ainda está na sombra, é verdade, mas ela diminui cada vez mais e desaparece ante a pureza da manhã. A própria sombra é testemunha da aproximação da luz que a projeta. A verdadeira luz revelou-se aos nossos olhos e apareceu-nos. «Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós» (João, XIV, 20).