quarta-feira, 30 de maio de 2012

NOBREZA ESPIRITUAL


Por um Cartuxo anônimo - Intimidade com Deus

            É no mundo do homem, em que tudo lisonjeia os sentidos e a vaidade, que devemos criar uma solidão sagrada, praticar a renúncia e deixarmo-nos despojar de acordo com as exigências da graça. Mas nenhuma perda resulta para nós de tudo isso: de cada vez que renunciamos a uma satisfação aparente, é-nos assegurado um aumento de verdadeiros bens. Os prazeres que o mundo procura são uma decepção constante, gelam o coração e deixam-no vazio diante da morte, enfraquecem o seu instinto de nobreza e privam-no da sua paz, e levam-no muitas vezes ao desespero. Pois este mundo continua surdo à palavra de Cristo e recusa-se a acreditar na verdade que lhe diz respeito, defende-se com a ira contra a alegria de Cristo, contra Deus e contra os seus, cuja sentença receia. «Agora vou para ti; e digo estas coisas estando ainda no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude do meu gozo. Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também eu não sou do mundo» (João, XVIII, 13-14).

            Não é o nosso valor pessoal que nos torna dignos do olhar de Deus: Ele só procura em nós a imagem do Seu Filho, o fruto da Sua paixão e a riqueza que mereceu para nós morrendo por nós. Esta lembrança do amor infinito é, infelizmente, ignorada pela maior parte dos homens, e parece estar perdida para eles. Outros, embora não a desconheçam completamente, só tiram dela um medíocre proveito, porque não penetram em espírito até à sua realidade profunda e só traduzem na sua vida uma parte mínima dela. Teremos nós a coragem de pagar com tão grande ingratidão a generosidade divina?

            Sermos chamados à dignidade de filhos de Deus e termos a possibilidade ilimitada de tirar dos tesouros da Sua graça uma semelhança cada vez maior com o Filho, é um destino que não pode ser comparado com nenhum daqueles que as potências criadas nos prometem. Deus quer comprazer-Se em nós e o Seu desígnio eterno é tornar-nos semelhantes a Jesus. «Porque os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos» (Rom., VIII, 29).

            Não há ninguém que não seja convidado para esta glória: para nela participar, basta seguir fielmente as inspirações da graça, viver interiormente e procurar o essencial, isto é o amor em todas as ocasiões que se nos depararem durante o dia. Não temos nenhuma razão válida para retardarmos o nosso consentimento, para continuarmos a preferir as vozes da natureza e os ruídos do mundo à oração de Cristo. Quem não procura a união com Deus e não mantém com Ele uma relação viva, porque prefere uma pobreza sórdida aos dons mais ricos que o Espírito incita constantemente a aceitar. Deus não afasta nenhum homem da Sua amizade; pelo contrário, insiste com todos de tal maneira, que o Seu convite quase que força as vontades rebeldes, e toda a tragédia das nossas vidas consiste neste desprezo que opomos à generosidade divina. O ambiente frio da ausência de Deus dá-nos um antegosto da condenação eterna: em vez de um céu interior, é um inferno que trazemos dentro de nós, quando o elo se rompeu por culpa nossa. Pois infelizmente temos o poder de asfixiar a semente que foi posta na nossa alma para crescer e dar fruto. Todo o nosso tempo, todas as nossas forças, as nossas faculdades e as nossas capacidades devem ser consagrados a este crescimento da vida eterna. Os objetos e os atos mais insignificantes devem continuar a alimentá-la para que nada se perca da obra de Deus.

            Com efeito, não há nada que não possa e não deva ser santificado pela dádiva, que não possa servir para a glória do amor numa criatura humana unida ao Verbo divino. Não recusemos nada do que nos é pedido para esta vida misteriosa dentro de nós, e vê-la-emos desenvolver-se até a plenitude que ultrapassa todas as palavras. «Até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito, segundo a medida da idade completa de Cristo; para que não mais sejamos meninos flutuantes, e levados, ao sabor de todo o vento de doutrina, pela malignidade dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro, mas, praticando a verdade na caridade, cresçamos em todas as coisas naquele que é a cabeça, o Cristo» (Efés., IV, 13-15).

            Acontece com a vida interior o mesmo que acontece com a vida vegetal e os cuidados que esta requer: é preciso eliminar todas as excrescências adventícias ou anormais que fariam desviar o seu impulso e ameaçariam o seu fruto. Daí o conselho para visarmos a única coisa necessária, para não nos perdermos no que é meramente acidental. Para levar até à sua plenitude a obra que Deus começou em nós, precisamos de ter uma consciência delicada, que compreenda logo as sugestões de Deus, e uma coragem viril para as seguir sem compromissos. Que seja Deus a única razão profunda e o motivo de todas as nossas ações! Nenhuma autoridade no mundo tem            o direito de nos desviar. Lutaremos sempre para manter a nossa intenção pura e agradável a Deus. «Se o teu olho for simples, todo o teu corpo terá luz» (Mat., VI, 22).

            O Salvador diz que são bem-aventurados os pobres em espírito, que não estão presos às coisas deste mundo, e não querem possuir mais nada senão Ele. Não têm o coração fechado no horizonte duma riqueza terrestre: têm-no aberto para o céu. Não estão à espera dos privilégios dos primeiros lugares, nem das vantagens da fortuna: não procuram parecer grandes aos olhos do mundo, sabem que não são nada diante de Deus, que distribui pelos humildes as suas riquezas e lhes revela os seus segredos. Foi para nos advertir que Cristo proferiu estas ameaças: «Ai de vós, ricos! porque tendes a vossa consolação neste mundo! Ai de vós, os que estais saciados! Ai de vós quando os homens vos louvarem!» (Luc., VI, 24-26).

A renúncia àquilo a que os homens chamam riqueza é uma das primeiras garantias da liberdade interior. Bem-aventurados os que se despojam e se deixam despojar em espírito de fé! A sua pobreza de um dia transformar-se-á em riqueza duradoura e alcançarão a paz. Eles não a trocariam por todos os tesouros do mundo: são as arras da eternidade. «Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus!» (Mat.,V, 12).

Conservarmo-nos voltados para Deus em todas as nossas ocupações não significa, de nenhum modo, abandonar o próximo, ignorar as realidades que nos cercam. O dever mais elevado não exclui a fidelidade às ocupações secundárias; pelo contrário, inspira-a e exige-a. Aqueles cujo espírito se volta para a verdade primária são os que se entregam às tarefas mais insignificantes: encontram nelas o clarão da glória divina, tão puro como nas ocupações que - sem razão - costumam ser consideradas como nobres ou importantes. Ouvem constantemente as palavras de Cristo: «Tudo o que fizeste a um dos meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes» (Mat., XXV, 40). «E todo o que der a beber um único copo de água fria a um destes pequeninos só a título de ser meu discípulo, na verdade vos digo que não perderá a sua recompensa» (Mat., X, 42).

            O crescimento e o desabrochar da semente divina nas almas fiéis é um espetáculo que os anjos contemplam. Ultrapassa o horizonte dum destino pessoal: ressoa na harmonia dos mundos, a quem esta sagração de uma criatura confere uma nova beleza. Se a história registrasse os acontecimentos segundo a sua importância real, uma alma que se torna filha de Deus ocuparia um lugar muito mais importante do que as coroações e as conquistas. Assim como o pecado perturbou todo o universo, assim também o regresso do homem à intimidade divina restitui à criação a ordem e o brilho perdidos. Um inimigo de Deus que se torna Seu amigo é uma aurora mais luminosa do que a de um novo sol no firmamento. «Os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai» (Mat., XIII, 43).

            Logo que o homem, vivendo da fé, renuncia generosamente a si próprio, fica inundado de luz e transformado pelo amor. Mas primeiro é necessário que à nossa volta o mundo se tenha reduzido ao silêncio, ou pelo menos que a sua voz seja dominada pelo sim e pelo amor da alma que responde à graça divina. É este diálogo interior que dá sentido ao universo e habitua o homem à condição eterna. «Vós já não sois hóspedes, nem adventícios, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efés., II, 19).

            A criatura entra assim na mais íntima relação com o Criador, que Se inclina para ela com terna solicitude para satisfazer os seus desejos. «Conforme a determinação eterna que ele realizou em Jesus Cristo Nosso Senhor, no qual temos segurança e acesso a Deus com confiança, por meio da fé nele» (Efés., III, 11-12).

            O amor não escolhe palavras, exprime-se sem se importar com fórmulas ou convenções: «A boca fala da abundância do coração» (Mat., XII, 34). De resto, quando dois corações que se amam se encontram um com o outro, o silêncio é muitas vezes mais expressivo do que as palavras: traduz melhor a comunicação imediata duma plenitude. Que alegria entregarmo-nos totalmente a Jesus e pertencermos-Lhe sem condições! E que enriquecimento para nós se, recolhendo-nos, soubermos dar lugar ao Espírito de Cristo, num consentimento de todo o nosso ser, numa comunhão muda de alma com alma! É isto que o Mestre espera de nós: quer-nos unidos a Ele com toda a simplicidade, para que o nosso coração no meio das preocupações e dos deveres de estado, não se afaste um só instante da Sua presença. «É preciso orar sempre e não cessar de o fazer» (Luc., XVIII, 1).

            É uma coisa que ultrapassa as nossas capacidades naturais, mas se, ajudados pela Sua graça, cumprirmos fielmente as condições enunciadas no Evangelho de Cristo, podemos estar certos de que Ele Se antecipará aos nossos desejos. Pois Ele tem sede de Se dar e de espalhar o Seu amor sobre os homens, que se mostram tão ingratos para com a caridade infinita e parecem desprezar as Suas tentativas de aproximação. Até mesmo entre aqueles que parecem querer dedicar-se ao Seu serviço de coração sincero, encontramos muitas vezes uma imperfeita consciência das exigências e dos dons do amor: o próprio zelo que os leva à ação parece tornar impossível o calmo abandono em que estabeleceria com Deus uma relação interior, pessoal e viva. Contudo, esta união não poria o mínimo obstáculo à sua atividade, e nada os desculpa de não fazerem caso da fonte mais rica que o Criador fez brotar: Ele quer agir pelas nossas mãos, quer que sejamos instrumentos ao Seu serviço, instrumentos dotados de liberdade e de vida sobrenaturais, na medida em que se prestam à vontade divina. É assim que o homem se realiza e se ultrapassa. «Todos aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus» (Rom., VIII, 14).

            Deixarmo-nos armar cavaleiros de Cristo é entrarmos na família divina: já não estarmos sós, estamos acompanhados pelo céu que trazemos dentro de nós. «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a Ele, e faremos nele morada» (João, XIV, 23).

            Tal é a abundante recompensa que nos traz a fé vivida no amor os horizontes humanos foram ultrapassados; doravante é com Deus que contamos para nos guiar: Ele ilumina os nossos passos e mostra-nos o caminho. A única coisa que precisamos fazer é segui-lO: a noite acabou, a luz da alvorada anuncia-nos o dia eterno. A terra ainda está na sombra, é verdade, mas ela diminui cada vez mais e desaparece ante a pureza da manhã. A própria sombra é testemunha da aproximação da luz que a projeta. A verdadeira luz revelou-se aos nossos olhos e apareceu-nos. «Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós» (João, XIV, 20). 

sábado, 26 de maio de 2012

SOBRE A FECUNDAÇÃO ARTIFICIAL


PAPA PIO XII

Desde muitos séculos - e especialmente em nossa época - manifesta-se contínuo progresso da medicina. Progresso, em verdade, bastante complexo; cujo objeto atinge os ramos mais variados da teoria e da prática. Progresso no estudo do corpo e do organismo, em todas as ciências físicas, químicas, naturais, no conhecimento dos remédios, de suas propriedades e dos modos de utilizá-los; progressos na aplicação à terapêutica, não somente da Fisiologia, mas também da Psicologia, das ações e reações recíprocas do físico e do moral.

Solícito por nada descurar das vantagens de tal progresso, o médico está sempre em busca de todos os meios capazes de curar ou, pelo menos, aliviar os males e os sofrimentos humanos. Cirurgião, procura tornar menos dolorosas as operações necessárias, ginecologista, procura atenuar as dores do parto, sem entretanto colocar em perigo a saúde da mãe ou da criança, sem correr o risco de ofender os ternos sentimentos maternos pelo recém-nascido.

Se o espírito de elementar humanidade, inato amor pelos próprios semelhantes, estimula e guia todo médico consciencioso nas pesquisas, que não fará o médico cristão, levado pela divina caridade a prodigalizar sem reservas os cuidados e a dar-se a si mesmo, pelo bem daqueles que, com justa razão e à luz da fé, considera como irmãos? Indubitavelmente ele goza dos imensos progressos conseguidos, resultados obtidos por seus predecessores e continuidade de magnífica tradição, e legitimamente orgulhoso em poder dar sua contribuição. Todavia jamais se considera satisfeito: vê sempre diante de si novas etapas a serem percorridas, novas conquistas a serem efetuadas. Eis por que nisto se aplica com paixão, como médico inteiramente dedicado em procurar o alívio para a humanidade e para cada indivíduo; como cientista ao qual as descobertas que se sucedem fazem-no saborear extasiado "a alegria de conhecer"; como crente e cristão que, nas maravilhas que descobre, nos novos horizontes que se lhe abrem a perder de vista, sabe ver a grandeza e a potência do Criador, a bondade inexaurível do Pai que, depois de ter dado ao organismo vivente tantos meios para se desenvolver, defender-se e curar-se espontaneamente na maior parte dos casos, faz que encontrem na natureza inerte ou vivente, mineral, vegetal, animal, os remédios aos males do corpo.

O médico não corresponderia plenamente ao ideal de sua vocação se, aproveitando-se dos mais recentes progressos da ciência e da arte médica, no exercício da profissão se baseasse somente na própria inteligência e habilidade, se não trouxesse também - estamos para dizer, sobretudo - o seu coração de homem, sua solicitude de cristão. Ele não age, "in anima vili"; sem dúvida opera diretamente sobre corpos, mas sobre corpos vivificados por uma alma imortal, espiritual, e em virtude do vínculo misterioso mas indissolúvel entre o físico e o moral, não opera com eficácia um corpo se contemporaneamente, não age sobre o espírito.

Seja que se ocupe do corpo ou do composto humano em sua unidade, o médico cristão deverá sempre defender-se do fascínio da técnica, da tentação de usar a própria ciência e perícia em escopo diverso dos cuidados dos pacientes que lhe são confiados. Graças a Deus não deverá jamais se defender de outra tentação, - criminal, esta - de usar os dons por Deus escondidos no seio da natureza para interesses ignóbeis, a paixões inconfessáveis e atentados desumanos. Infelizmente não é necessário ir muito longe, voltar muito para trás, para encontrar concretos testemunhos destes deploráveis abusos. Uma coisa é, por exemplo, a desintegração do átomo e a produção da energia atômica; outra o seu uso destruidor, que foge a qualquer controle. Diferente é o magnífico progresso técnico da moderna aviação, e do emprego em massa das esquadrilhas de bombardeiros, sem que haja a possibilidade de limitar a ação dos mesmos a objetivos militares e estratégicos. Uma coisa é a pesquisa respeitosa que revela a beleza de Deus no espelho de suas obras, sua potência nas forças da natureza; outra a deificação desta natureza e das forças materiais na negação de seu Autor.

Que faz o médico digno de sua vocação? Assenhoreia-se destas mesmas forças, destas propriedades da natureza, para com elas conseguir a cura, a saúde, o vigor e muitas vezes, coisa ainda mais preciosa, para preservar da doença, do contágio ou da epidemia. Em suas mãos a força tremenda da radioatividade está prisioneira, endereçada à cura de males rebeldes e a toda outra cura; as propriedades dos mais virulentos venenos servem para preparar remédios eficazes; melhor ainda, os germes das infecções mais perigosas são usados variadamente na soroterapia, na vacinação.

A moral natural e cristã, enfim, conserva em toda parte os próprios direitos imperscrutáveis, e deles, não de considerações de sensibilidade, de filantropia materialística, naturalística, derivam os princípios essenciais da deontologia médica: dignidade do corpo humano, preeminência da alma sobre o corpo, irmandade entre todos os homens, soberano domínio de Deus sobre a vida e sobre o destino. Um importante problema que requer, não menos urgentemente que os outros, a luz da doutrina moral católica é o da fecundação artificial. Não podemos deixar passar esta ocasião sem indicar brevemente, em grandes linhas, o juízo moral que se impõe em tal matéria:

1) A prática desta fecundação artificial, quando se trata do homem, não pode ser considerada quer exclusivamente, quer principalmente só sob o ponto de vista biológico e médico, rejeitando o que dizem a moral e o direito.

2) A fecundação artificial, fora do matrimônio, deve ser considerada como essencial e totalmente imoral. A lei natural e a lei divina positiva estabelecem de fato que a procriação de uma nova vida não pode ser fruto senão do matrimônio. Só o matrimônio salvaguarda a dignidade dos esposos (principalmente da mulher no caso presente), e os seus bens pessoais. Ele somente provê ao bem e à educação das crianças.

Disto se deduz que, sobre a condenação de uma fecundação artificial fora da união conjugal, não é admitida divergência alguma de opinião entre católicos. As crianças concebidas em tais condições seriam "ipso-facto" ilegítimas.

3) A fecundação artificial produzida no matrimônio pelo elemento ativo de um terceiro é igualmente imoral, e, por isto, deve ser condenada sem apelação.

Somente os esposos têm direito recíproco sobre seus corpos, para gerar uma nova vida; direito exclusivo, não cedível, inalienável. E assim deve ser, também em consideração para com a criança. A tudo que dá a vida a um ser, seja embora pequeno, a natureza impõe, pela própria força de tal vínculo, o dever de conservá-lo e educá-lo. Mas entre o esposo legítimo e a criança, fruto do elemento ativo de um terceiro (ainda que o esposo houvesse consentido) não existe vínculo algum de origem, vínculo algum moral e jurídico de procriação conjugal.

4) Quanto à liceidade da fecundação artificial no matrimônio, basta-nos, no momento, recordar estes princípios de direito natural: o simples fato de que o resultado a que se mira é atingido com este meio não justifica o uso do meio em si mesmo; nem o desejo dos esposos, em si plenamente legítimo, de ter uma criança, basta para provar a legitimidade de recorrer à fecundação artificial que satisfaria tal desejo.

Seria portanto errôneo pensar que a possibilidade de recorrer a este meio pudesse tornar válido o matrimônio entre pessoas incapazes de contraí-lo por causa do "impedimentum impotentiae".

De outra parte é supérfluo observar que o elemento ativo não pode ser jamais procurado licitamente mediante atos contra a natureza.

Ainda que não se possa excluir "a priori", métodos novos pela só razão de sua novidade, todavia, porquanto concerne à fecundação artificial, não somente é preciso estar extremamente reservado, mas é ainda absolutamente necessário excluí-la. Dizendo isto, não se proscreve necessariamente o uso de alguns meios artificiais destinados somente a facilitar o ato natural, ou para conseguir o fim do ato natural, regularmente realizado.

Não se esqueça jamais que somente a procriação de uma nova vida segundo a vontade e o desígnio do Criador traz consigo, em um grau admirável de perfeição, a consecução dos fins propostos. Ela está ao mesmo tempo em conformidade com a natureza corporal e espiritual e com a dignidade dos esposos, ao desenvolvimento são e normal da criança (1).

(I) Discurso aos médicos, 29 de setembro, 1949. 

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos. 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pensamento da noite de 25/05/2012


"A nossa atitude interior deve ser uma constante docilidade para que Deus realize nela os Seus mínimos desígnios: dar-Lhe um lugar na nossa alma é prestar-Lhe a homenagem que Ele Se digna desejar. As almas em que a Sua ação não encontra obstáculos espalham a Sua luz até nas trevas do pecado; é esta a missão do cristão: fazer brilhar a luz de Deus na escuridão dum mundo pecador."
(Por um cartuxo anônimo)

CRISTO, REY DE LOS JÓVENES


Monsenhor Tihamér Tóth

Cristo es también Rey de la juventud.

Pero, ¿cómo debemos afianzar y consolidar en el alma de nuestra juventud el reinado de Cristo?

No cabe duda que las clases de religión en la escuela pueden ser un excelente medio para educar en este sentido a los jóvenes..., pero no lo olvidemos, la principal responsabilidad la tienen los padres.

A los padres preocupados por el desarrollo espiritual de sus hijos, no se les puede dar mejor consejo que éste: ¡Educad con Cristo! No sólo con promesas y amenazas; no sólo con premios y castigos, sino principalmente con Cristo, con el amor de Cristo. Al niño que a la edad de tres o cuatro años aprendió a amar fervorosamente a Cristo; al niño que a la edad de siete años recibió el Cuerpo sacratísimo del Señor y después sigue comulgando con frecuencia, a este niño no habrá que regañarle muchas veces, pegarle ni prometerle regalitos; bastará con que su madre le diga:

Hijo mío, Jesús quiere esto de ti, Jesús no quiere que hagas esto otro...

¡Feliz el niño a quien su madre le hable, como le hablaba Blanca a su hijo San Luis, rey de Francia: «Hijo mío, prefiero verte muerto antes que cometas un pecado mortal»! Estas palabras le produjeron tal impresión, que las recordaría toda su vida con mucho provecho para su alma.

Feliz el joven a quien su padre le dice lo que dijo a su hijo el anciano Tobías: 

«Escucha, hijo mío, las palabras de mi boca y asiéntalas en tu corazón como un cimiento... Honrarás a tu madre todos los días de su vida... Ten a Dios en tu mente todos los días de tu existencia; y guárdate de consentir jamás pecado, ni de quebrantar los mandamientos del Señor Dios nuestro. Haz limosna de aquello que tengas...; sé caritativo según tus posibilidades. Si tuvieres mucho, da con abundancia; si poco, procura dar de buena gana aun de este poco que tengas... Guárdate de toda fornicación... No permitas jamás que la soberbia domine en tu corazón o en tus palabras... Alaba al Señor en todo tiempo; y pídele que dirija tus pasos, y que estén fundadas en El todas tus deliberaciones » (Tobías 4).

Sí, Nuestro Señor Jesucristo es el mejor educador, porque es el que mejor conoce el corazón humano, porque nos predica con su ejemplo y nos da las fuerzas para hacer el bien.

¡Dar fuerzas para el bien! De esto depende el resultado de la educación. Porque se pueden escribir libros excelentes sobre la moral y los valores, mostrando lo hermosos que son y qué necesarios; pero para vivirlos... se necesita algo más que un bello tratado, se necesita la fuerza sobrenatural de la gracia. Hace ya unos veinte años que me dedico a la juventud. ¡Cuántas veces he podido ver los tropiezos de los jóvenes educados sin religión!

¡Cuántos de sus esfuerzos fueron infructuosos!... ¡Pero cuando al fin se encontraron con Cristo, se agarraron a El, esto fue lo que los salvó! Sí, he de decirlo sin ambages: el que educa sin valerse de la oración, el que educa sin servirse de la confesión, el que educa sin valerse de la comunión, el que educa sin Cristo, no será al final más que un inútil chapucero.

¡Padres, no os interpongáis entre Cristo y el alma joven! No os asustéis si vuestro hijo o vuestra hija van se confiesan y comulgan con frecuencia; no digáis que son demasiado buenos, que son unos exagerados...

Si tanto vale Cristo para las almas jóvenes, si El es el brillo de sus ojos, su fuerza, su hermosura, su resistencia en los momentos de tentación, entonces hemos de pedir encarecidamente a todos, padres y educadores, profesores y jueces, intelectuales y políticos, a todos los que tengan voz y voto para influir en la opinión pública, que no permitan que se elimine a Cristo de la escuelas, que no permitan que se saque a Cristo de los hogares.

¿Quién se lo puede sacar?, ¿quién es capaz de robárselo? Se lo roban los padres que no rezan, los padres que delante de los jóvenes hablan sin medir el peso de sus palabras, blasfemando o sosteniendo conversaciones licenciosas; los padres que confían la educación de sus hijos a cualquiera, sin preocuparse de si es realmente católica... 

«Los hijos hoy día no obedecen a sus padres», oímos con frecuencia. Pero los padres, ¿obedecen a Dios? ¿Qué es la autoridad paterna? Un reflejo de la autoridad de Dios. ¿Cómo va a cumplir el hijo el cuarto mandamiento si los padres no cumplen los diez? Los jóvenes no son tontos, ellos se fijan más en el ejemplo que en las palabras. ¡Observan a sus padres constantemente! Se dan perfectamente cuenta de que sus padres no van a la iglesia o que no se confiesan desde hace años. La indiferencia religiosa de los padres se contagia a los hijos con enorme facilidad. ¡Padres! No permitáis que por vuestra causa vuestros hijos se alejen de Cristo.

Se lo roban los amigos, las lecturas, las películas, los anuncios… Es terrible ver cómo las imágenes obscenas y pornográficas lo invaden todo y da al traste con la limpieza de las almas de los jóvenes…

La ley defiende los árboles en la calle, la ley defiende los bancos públicos, los postes de la electricidad, las aceras, los restos arqueológicos; pero no hay leyes que defiendan la pureza del alma joven. Se pueden exhibir en los cines las mayores inmoralidades; y las autoridades se inhiben de prohibirlo. Y, sin embargo, si tenemos prisión para el traidor que entrega al enemigo una fortaleza, hemos de tenerlo también para los que corrompen con astucia el alma de los jóvenes.

¡Qué pena da ver cómo muchos excelentes esfuerzos educativos de años se van al traste por una lectura obscena o por una película inmoral!

Mientras permitamos, sin decir palabra, que nuestra juventud se degrade moralmente, serán vanas todas las reformas educativas que quieran hacerse. Mientras permitamos que los mercaderes desalmados de la inmoralidad trafiquen con la pureza de los jóvenes, poco lograremos hacer.

Recuerda que Dios colocó un ángel a la puerta del Paraíso y puso en su mano una espada de fuego. No dejes entrar aquí a nadie —le dijo.

El alma del hijo es este Paraíso. Dios colocó al padre a la puerta del mismo: Toma una espada ardiente en tu mano —le dijo —, y no dejes entrar lo que no debe entrar. 

¡Padres! Educad a vuestros hijos en la virtud. Desarrollad en ellos todo deseo de lo bello y de lo noble. Educadlos para que sean valientes, amantes de la verdad, cumplidores de sus promesas; en una palabra..., para que sean hombres.

Necesitamos una juventud que no busque su satisfacción en los bajos instintos, sino en las nobles y grandes empresas, en los altos ideales.

Una juventud de voluntad firme y con ánimo de trabajar.

Una juventud dispuesta a defender su integridad moral, que deseche toda inmundicia.

Una juventud que rebose de esperanza, de mirada limpia y alegre, rebosante de vida... ¡una juventud que tenga por Rey a Cristo!

(Cristo Rey por Monsenhor Tihamér Tóth)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Um padre católico pode e deve falar sobre este assunto (Matrimônio)


Monsenhor Tihamér Tóth

Se até o presente fui, talvez, feliz em mostrar claramente a importância desta questão, sê-lo-ei, ainda, quanto ao dissipar uma dúvida que certamente surgiu no espírito de vários ouvintes:

            A) Um padre católico pode tratar desta questão?
            B) Um padre católico deve ele precisamente falar sobre este assunto?

            A) Quando os meus ouvintes souberem que eu consagrarei todos os sermões do semestre universitário para esta única questão, o estudo do ideal cristão do casamento, perguntarão, certamente, a si mesmos: Será que um padre católico, não vivendo ele mesmo do matrimônio, pode falar destas coisas? Será que ele pode ser nosso guia, a nós que somos casados ou nos preparamos para o ser? Não será uma tarefa impossível o falar do matrimônio, para quem o não conhece pessoalmente?

À primeira vista, isto parece, com efeito, uma empresa impossível. No entanto, não o é.

            a) Recordemo-nos, primeiramente, que se os padres católicos não se casam, eles, contudo, saíram de um matrimônio, e deixaram o lar doméstico para subir ao altar; eles também tiveram pais, recordando-se deles com uma gratidão e um amor eterno; eles também têm irmãos e irmãs que se casam, - eles conhecem, pois, a família e a vida familiar.

Não há porventura ilustres críticos de arte, quando eles mesmos não produziram sequer uma obra-prima? Não conheceis médicos que curam admiravelmente doenças, nunca sofridas por eles? Os psiquiatras não curam doenças mentais, que nunca o atingiram? E os juízes não são eqüitativos nos julgamentos sobre crimes, que eles mesmos nunca cometeram?

            b) Agora volto à objeção, e afirmo que aquele que não vive, ele próprio, no matrimônio, pode discutir muito mais imparcialmente a questão, que o homem casado. Mais imparcialmente, porque vê mais claramente os defeitos das suas partes, e pode examinar mais tranqüilamente suas obrigações, do que aquele que está pessoalmente interessado na questão; mais imparcialmente ainda, porque a experiência pessoal torna muitas vezes difícil um olhar mais aprofundado, e uma apreciação mais objetiva.

            c) Ao contrário, se ao sacerdote falta o terreno da experiência pessoal, encontra ele ensinamentos muito mais abundantes na experiência milenar da Igreja, e na diversidade inesgotável da vida dos fiéis.

A Igreja, em seu ministério pastoral de vinte séculos, adquiriu um juízo tão seguro, pontos de vista tão largos, que ninguém na terra os teve, mesmo aproximadamente, pela sua experiência. De outro lado o pastor de almas, querido pelo seu rebanho, que para ele se volta em suas alegrias e suas penas, conhece ele próprias todas as tristezas, todos os choques, e todos os problemas do casamento, em sua variedade infinita, melhor que qualquer pessoa casada.

Não esqueçamos precisamente a fonte mais rica, em que o padre sorve seus esclarecimentos sobre esta questão: a confiança de seus fiéis. É justamente por ter o padre católico, por amor de Cristo, pelo bem das almas de seus fiéis, renunciado ao casamento, que lhe é assegurada a absoluta confiança de seus fiéis.

Jovens e velhos, casados e solteiros contam-lhe suas penas, suas lutas e suas vitórias, seus cuidados e suas tristezas com tal confiança que a alma do padre conhece melhor, muito melhor, todos os escolhos e recifes, em uma palavra, todos os problemas, como se tivesse ele mesmo uma família. Ele não conheceria, certamente, senão a sua própria família, enquanto agora ele conhece centenas e milhares.

Após isto, creio que não mais se discutirá a possibilidade para um padre católico de encarar esta questão.

            B) Mas tem ele o direito, e mesmo o dever de falar deste problema?

            a) É indubitável que o estudo da questão não é realmente fácil, estando mesmo ligado a detalhes, que não se podem abordar, senão com muita prudência e psicologia. Justamente por isto ela deve ser tratada por sacerdote católico, de quem podemos esperar este tato e esta delicadeza, mais do que por alguém que abordasse brutalmente o mais santo problema da vida.

Por que justamente um sacerdote deva tratar deste assunto? Porque é a Igreja a única que deve falar desta coisa essencialmente santa, e que, de perto, toca a religião.

            b) Ora, o casamento é uma coisa essencialmente santa. Diz um francês espirituoso que "o adjetivo é o inverso do substantivo". Certamente ele queria dizer que há epítetos que, colocados diante de tal ou tal substantivo, fazem desaparecer e enfraquecer a essência da coisa. Ao contrário há, porém, epítetos que, na sua brevidade, esclarecem o pensamento como brilho de um raio no céu. Em 31-12-1930, o Papa Pio XI publicou uma longa Encíclica sobre o casamento, e colocou no frontispício um epíteto que resume com muita felicidade a essência de toda a questão: "Casti connubii"; assim começa a encíclica pontifica! Que epíteto exato: "O casto matrimônio". Com efeito, ou bem o casamento é casto, moral e santo, ou bem não há casamento. Mas se é santo e sacramento, então, compete à Igreja e seus padres tratarem do assunto.

E se Lacordaire disse, um dia, que a união entre o homem e a mulher, isto é, o matrimônio - era uma questão de civilização humana, hoje se pode acrescentar, é uma questão de felicidade na terra e na eternidade. É preciso, pois, tratar realmente desta questão, e dela se ocupar bastante. Pertence primeiramente à Igreja Católica discuti-la com toda a franqueza.

** *

Meus irmãos, diz-se que há pérolas preciosas que perdem, quando nas mãos dos homens, todo o seu brilho, e não o recuperam senão quando são mergulhadas novamente no fundo do mar, nestas profundezas donde nasceram.

A pérola mais preciosa da humanidade, a de maior valor, é a família, porque é de sua força e de sua energia que dependem a força e a energia da sociedade. A vida familiar pode, também, perder o seu brilho e sua força nas mãos do homem, pode mesmo ficar completamente arruinada, e ela não recuperará sua força, enquanto não a recolocarmos em sua fonte primitiva o que se originou: sobre o pedestal de uma concepção séria e religiosa do mundo. Quantas coisas abalaram a família atual: a crise econômica, o trabalho das mulheres e das crianças, a crise da habitação, as privações; o golpe, contudo, mais terrível lhe foi vibrado por este fato doloroso: o de se ter ela afastado de Cristo, pois, uma vez d'Ele afastada, perdeu sua base mais sólida.

Sejamos claros. A família sofre uma crise, mas aí chegou, porque se afastou da fonte da vida, do terreno religioso. A família, realmente, necessita de uma reforma, isto porém não é possível se não lhe dermos mais moral. Há necessidade, para a reabilitação da família, de instituições sociais, de medidas legislativas, e do concurso do Estado, mas tudo isto seria inútil, se esquecêssemos o essencial: elevar novamente a vida de família à altura da moralidade.

Não fujamos à evidência do perigo. Se o ideal cristão do matrimônio e da família não recuperar a supremacia, se a opinião frívola e destrutiva, arraigada nesta questão durante as últimas dezenas de anos, continuar espalhando-se, não só ela prejudicará enormemente a religião, mas tornar-se-á um perigo para a tranqüilidade social e para o desenvolvimento cultural da humanidade.

Eis por que recordarei insistentemente nos sermões que se seguem. O fato de que as leis positivas divinas, no matrimônio, como em todas as outras questões, harmonizam-se perfeitamente com os desejos e as obrigações da natureza humana, e quando o homem as observa, não só obterá a salvação eterna, mas assegurará as bases de uma vida terrestre harmoniosa. Se porém quiser burlá-las abrirá ele mesmo as portas do inferno, e do sofrimento na terra.

Nada mais nos resta, senão levantar uma humilde prece ao Pai celeste, Criador da raça humana, Santo Fundador do matrimônio e da família, que nos assista com Suas graças de luz e de força, durante o curso dos meses, em que evocaremos seu plano sublime. Amém. 

(Casamento e Família por Monsenhor Tihamér Tóth, editora Vozes, 1959)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA


Monsenhor Tihamér Tóth

Meus irmãos, escolhi como objeto de minha série de instruções para o curso do novo semestre que se inicia, um tema de urgência e atualidade toda particular, mas ao mesmo tempo bastante delicado e difícil.

Um tema, cuja solução assegura para o homem vida pacífica sobre a terra, e muitas vezes também a felicidade eterna. Um tema, cuja solução harmoniosa é de efeito incomensurável sobre toda a vida cultural, social e nacional. Um tema, cuja solução exata ou inexata é fonte de bênçãos ou de maldições para toda a humanidade.

Um problema de imensa importância: o casamento e a família cristã.

Quem não vê a importância decisiva desta questão? Quem não vê que a humanidade se coloca hoje ante estas graves questões do casamento e da família, como diante de uma esfinge enigmática? O homem moderno que conseguiu descerrar cada vez mais o véu que ocultava a natureza, com suas esplêndidas descobertas, pensou ser o matrimônio resolúvel pelas leis da natureza, qual um problema da matemática.

Teve, porém, grande desilusão. Após amargas experiências, foi obrigado a reconhecer que o casamento não é um problema numérico, que se possa resolver única e totalmente pelo raciocínio. Não; o casamento, a família constitui uma "equação" a várias incógnitas, que a matemática não resolverá porque ele é, segundo a expressão de S. Paulo, "um grande mistério" (Ef 5, 32), que só o homem arraigado em Deus pode dominar e resolver.

Não existe verificação que atualmente mais se ouça do que esta: "a família em nossas dias passa por séria crise".

Seria impossível e mesmo injusto não lembrar que há causas muitas e complexas a influir na crise atual da família. Seria injustiça negar que uma dessas causas é a crise econômica com todas as suas conseqüências: desemprego, falta de habitação, privações e por conseqüência atritos é pontos de vista diversos entre os esposos, além do crescente nervosismo, impaciência, egoísmo, etc. Tudo isto é verdade, e bem verdade.

Entretanto, meus irmãos, se de uma parte a reconhecemos com toda franqueza, de outra parte outra verificação adverte-nos que a atual crise da família não pode ser suficientemente explicada par causas exclusivamente econômicas.

Verificamos, com efeito, que a família está abalada não só entre pessoas necessitadas, mas que, ao contrário, a crise é maior e mais contristadora entre famílias cuja situação material é boa, e onde não se fala em privações. E a prova de que a mediocridade e a pobreza não são os verdadeiros inimigos da família são os exemplos dos esposos para as quais a vida familiar e o amor recíproco se tornam mais fortes pela pobreza, e eles mesmos mais unidos porque a luta pela vida suscitou neles valores morais, cuja existência, antes, eles ignoravam em si mesmos.

Se para a família ressoa o apelo de socorro dos navios em perigo de naufrágio: S.O.S. "Save our souls": Salvai nossas almas, é preciso recordar que não poderemos salvar a família em perigo, senão pela salvação da alma e dos valores morais. A família precisa realmente de uma "reforma", mas essa reforma só se realizará respeitando-se novamente o ideal cristão do casamento. Eis o objeta das nossas instruções neste novo semestre universitário, que agora começamos. Creio, não poderia encontrar um tema tão importante, decisivo e vital como este.

* * *

Antes, porém, de minuciosamente tratar dessa questão, devo prepará-la respondendo a um ponto preliminar: demonstraremos cuidadosamente ser, na realidade, essa questão, de uma importância tão vital, que mereça se lhe consagrem as instruções de todo um semestre.

I) É necessário falar tanto da família? A resposta, procurarei dá-la na primeira parte do sermão de hoje. Responderei depois uma questão, que talvez alguns ouvintes passam formular:

II) Será que um padre católico pode tratar deste assunto?

I) NECESSIDADE URGENTE

Quereria, hoje, responder, preliminarmente, este ponto: É preciso tratar minuciosamente do casamento e da família? Por quê?

            A) Há, com efeito, homens a levantar esta questão.

São cada vez mais raras, infelizmente.

            a) Admirados farão esta pergunta os que cresceram em antigas famílias ideais, famílias religiosas, conscienciosas, fonte de paz e de felicidade onde a questão do casamento e suas relações não constituiriam um problema. Os pais e avós não falaram muito disto às novas gerações vindouras, mas nessas venerandas famílias, as tradições permaneciam tão vivas, que a nova geração, constituindo uma família, por si mesma, instintiva e naturalmente, resolvia o problema.

Isso não era, todavia, a menor bênção da família antiga e venerável.

               b) Hoje, porém, como estamos longe disto! Milhares e milhões de jovens crescem, ao redor de nós, desconhecendo as bênçãos da vida familiar e o calor do lar doméstico.

Lar! Palavra magnífica! Ninho abençoado!

Dizei-me: existe ainda hoje um lar? Um lar, com seu doce e benéfico calor?

Lembro-me aqui, não só dos mais desgraçados dentre os desgraçados, dos filhos infelizes, cujos pais estão separados. Lembro-me da multidão imensa de filhos, cujos pais vivem em comum, mas em constantes rixas e discórdias perpétuas. Lembro-me destas crianças que nunca provaram a doçura de um lar, porque nem seu pai e nem sua mãe amam a vida de família. Ambos sentem mais alegria em fugir de seu lar. A criança fica entregue a si mesma... ou a uma doméstica, a uma empregada, ou então vai aonde quer.

Lembro-me também desta multidão de jovens obridos a ganhar o pão, arrancados às paredes protetoras do lar antes que se lhes chegue o tempo dos cuidados pela existência.
Lembro-me, ainda, dos inumeráveis ataques, que o homem moderno lê, ouve, a cada instante nos jornais, revistas, e na sociedade, ataques contra a família, cuja formação ideal nunca ele viu, nem apreciou, e nem tentou evocar. Disto tudo eu me lembro, eu penso, e agora estou convicto da necessidade urgente de falar, e falar minuciosamente, desta questão, perante o homem de hoje.

            B) Demais, torna-se necessário ainda ocuparmo-nos deste problema, porque outros querem tenaz e incansavelmente resolvê-lo, embora de um modo tão brutal, tão afrontoso e audaz, confundindo os espíritos muito mais que antes.

            a) Os antigos se baseavam em todas as coisas, pelo que observavam no lar; hoje, pelo contrário, os homens se desorientam pelo que vêem em casa. Outrora, a mãe era, para a filha adolescente, a amiga mais íntima, a quem esta recorria em todas suas dificuldades. E hoje? Ela se dirige a uma agência de casamento ou à seção de correspondência de um semanário ilustrado, e mesmo eventualmente a médico psicanalista.

      b) Quantos escritores, quantos poetas e políticos, quantos filósofos e artistas, quantos autores dramáticos e cineastas se voltam, hoje, para o grande problema, a crise da família. É incalculável o número de obras provocadas por esta questão, e cujos produtos inundam, diariamente, as livrarias.

Devemo-nos, porém, felicitar ante esta abundância?

Quanto mais nos ocupamos desta questão, mais nos perdemos num oceano de nuvens. À Igreja Católica pertence levantar a voz, ela a quem Nosso Senhor Jesus Cristo confiou a pregação da verdade.

            C) Mas, dir-se-á talvez, que fará a Igreja nesta questão do matrimônio? Não é ele um contrato entre pessoas particulares? Não é um negócio puramente profano e social?

Não, mil vezes não! Tendo em vista sua origem, seu fim, e os deveres que dele decorrem, afirmamos bem alto, o casamento não é um simples contrato civil, e, sim, uma instituição moral e religiosa.

            a) O casamento vem de Deus. Autor de todas as leis da natureza, Ele criou o homem de tal maneira, que sua reprodução ulterior não lhe é assegurada senão pela coexistência constante de dois seres, portanto pelo casamento. O casamento, porém, no momento da criação da raça humana, recebeu um caráter divino todo particular, pelo ato simbólico de Deus, tirando a primeira mulher do lado do primeiro homem, e dando-lhe por esposa, dizendo: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra (Gên 1, 28).

        b) O fim do casamento dá-lhe também um caráter religioso. Os esposos, com efeito, são os colaboradores do Deus Criador.

O fim principal do casamento é dar à terra novos seres "criados à imagem de Deus", seres cuja tarefa, aqui na terra, e na vida eterna, será servir a Deus. Cada vez, porém, que os esposos cumprem a sua tarefa de dar a vida física, Deus age com eles, criando, ao mesmo tempo, uma viva alma, e depondo-a no novo rebento humano, que acaba de florescer, graças aos esposos.

Grande honra é, pois, para os esposos, o serem, propriamente falando, instrumentos nas mãos de Deus Criador, e o de estarem realmente unidos com Deus.

Disse-o igualmente Nosso Senhor Jesus Cristo: "Que o homem não separe aquilo que Deus uniu" (Mt 19, 6). Basta olharmos para a história da civilização, e em todos os povos e em todos os tempos, encontramos o casamento, como um ato religioso, feito entre cerimônias religiosas as mais diversas, provando isto haver realmente relações estreitas entre o matrimônio e a religião, e necessitarem os esposos do auxílio especial de Deus, quando querem cumprir os seus deveres conjugais.

         c) Os deveres anexos à família tornam-na também uma instituição moral e religiosa. Cristãmente falando, a Providência quis constituir na família uma pequena cidadela particular, uma praça forte, um jardim bem fechado, tornando-se ela um lugar de paz onde a nova criatura viria ao mundo, nasceria, se fortificaria fisicamente, chegaria a utilizar suas faculdades intelectuais, formar-se-ia e se desenvolveria completamente. A família é o lugar sagrado, onde uma geração coloca nas mãos de outra o facho da vida, aceso pelo próprio Deus no momento da criação, e que não se extinguirá senão ao som da trombeta do juízo final.

O Criador uniu, pois, o primeiro casal humano pelos laços da família. Esta é, portanto, a associação mais antiga, a mais fundamental da humanidade, mais importante que qualquer outra associação ou instituição posterior. Mas se o centro de gravidade de toda humanidade repousa sobre a família, compreende-se, então, a solicitude, cheia de responsabilidade, com que o cristianismo sempre velou pela integridade da família.

           d) Notamos, contudo, esta grande solicitude se considerarmos quanto a Igreja estima a família, não tanto pela sua missão terrestre, mais ainda, porém, pela sua tarefa supraterrestre.

Tudo começa aqui em baixo, mas tudo acaba lá em cima. Toda a vida humana floresce na terra, mas dá seus frutos no outro mundo. A família não é, pois, somente a fonte da vida terrestre, mas é também da vida eterna; ela é, pois, o ponto de partida daqueles que, um dia, ocuparão os lugares de vencedores no reino celeste.

Vistes, agora, por que a Igreja vigia com tal solicitude o matrimônio e por que não tolera que as paixões humanas, e a ânsia dos prazeres, profanem uma instituição à qual estão anexos os tão graves interesses do reino do céu?

É porque a família não é somente importante para a sociedade, para a Nação, para o Estado, como também para a Igreja de Cristo. Não é o Papa que é a Igreja, ele é o chefe da Igreja. Os sacerdotes e os bispos não são a Igreja, - são os servidores da Igreja. Mas a Igreja são estes milhões de fiéis fornecidos pelas famílias. O Corpo místico de Cristo, que nós chamamos Igreja, estaria mutilado, e seria desprezível se se compusesse só de sacerdotes e bispos, se se constituísse só de pastores sem rebanhos.

Com a força ou fraqueza da família cristã, com seu valor ou desvalor, com suas virtudes ou seus defeitos, crescem ou degeneram, também, a força, a beleza e o florescimento da Igreja, Corpo místico de Cristo.

Se nas famílias cristãs a fé e a pureza diminuem, a Igreja também se torna doente e anêmica; se, pelo contrário, a fé e a virtude são fortes em nós, a Igreja também floresce em beleza. A Igreja não pode, pois, ficar indiferente à vida familiar dos fiéis. A sorte do Corpo místico de Cristo está ligada à sorte da vida familiar dos cristãos, e à maneira com que eles ouvem a palavra de Deus, observam os mandamentos, e se esforçam para caminhar, durante sua vida terrestre, sob a luz do Evangelho. É preciso, pois, falar, desta cátedra, acerca da família, é preciso falar muito porque imensos interesses morais e religiosos dela dependem.

É preciso falar disto, porque estamos convencidos de que a luta empenhada contra a família é a arma mais poderosa da irreligião. Mas estamos, também, convencidos de que a grande luta sustentada em defesa do ideal cristão não se decidirá finalmente, nas ruas, nem na vida pública, nem no parlamento, mas sim no lar doméstico. Quaisquer que sejam as desgraças externas, as provas e as perseguições que atinjam o reino de Cristo, ele vencerá todos, enquanto houver famílias acolhedoras de Cristo, abrigando-o no Santuário do lar cristão.

É, pois, preciso falar, e longamente, do casamento e da família. 

(Casamento e Família por Monsenhor Tihamér Tóth, editora Vozes, 1959)

P.S: Continuará com o post: Será que um padre católico pode tratar deste assunto?

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Problemas Morais da Psicofarmacologia

PELO PAPA PIO XII (l)


Depois de havermos exprimido brevemente os êxitos registrados recentemente pela neuro-psicofarmacologia (2) abordamos o exame dos princípios morais que se aplicam especialmente às situações com que deparais. Enquanto vós considerais o homem como objeto de ciência, e tentais agir sobre ele por todos os meios de que dispondes, a fim de lhe modificardes o comportamento e de lhe curardes as doenças físicas ou mentais, Nós o encaramos aqui como uma pessoa, como um indivíduo responsável pelos seus atos, empenhado num destino que ele deve cumprir, ficando fiel à sua consciência e a Deus. Teremos, pois, de examinar as normas que determinam a responsabilidade do especialista da neuro-psicofarmacologia e de todo aquele que lhe utiliza as invenções.

O médico consciencioso experimenta por instinto a necessidade de se apoiar numa deontologia médica e de se não contentar com regras empíricas. Na Nossa alocução de 10 de abril de 1958 ao XIII Congresso da Associação Internacional de Psicologia Aplicada, assinalávamos que na América haviam publicado um Código de deontologia médica, Ethical Standards for Psychologísts, o qual se baseia nas respostas de 7.500 membros da "American Psychological Association" (A. A. S., a. 50, 1958, págs, 271-272). Esse Código manifesta a convicção dos médicos de que existe para os psicólogos, para os pesquisadores e para os práticos de um conjunto de normas que dão não somente orientações, mas também indicações imperativas. Estamos persuadidos de que vós compartilhais este ponto de vista, e de que admitis a existência de normas que correspondem a uma ordem moral objetiva; aliás, a observância dessa ordem moral absolutamente não constitui um freio ou um obstáculo ao exercício da vossa profissão.

A NOBREZA DA PESSOA HUMANA

Depois do que dissemos na primeira parte, poderia parecer supérfluo vos falarmos ainda da dignidade da natureza humana. É que aqui Nós encaramos não o interesse sincero, dedicado, generoso que vós tendes pelos doentes, senão algo de mais profundo ainda. Trata-se da atitude do vosso "eu" profundo para com a pessoa dos outros homens. Que é que fundamenta a dignidade do homem, no seu valor existencial? Que posição adotar para com ela? Deve-se respeitá-la? não a levar em conta? desprezá-la? Quem quer que, no exercício da sua profissão, entra em contato com a personalidade de outrem virá necessariamente a adotar uma destas três atitudes.

Ora, a ordem moral exige que se tenha para com outrem estima, consideração, respeito. A pessoa humana é, com efeito, a mais nobre de todas as criaturas visíveis; feita "à imagem e semelhança do Criador", ela vai para ele, para o conhecer e amar. Além disto, pela Redenção, ela é inserida em Cristo como membro do seu Corpo Místico. Todos estes títulos fundamentam a dignidade do homem, quaisquer que sejam a sua idade e a sua condição, a sua profissão ou a sua cultura. Mesmo se é tão doente no seu psiquismo que pareça escravizado ao instinto, ou mesmo caído abaixo da vida animal, ele persiste entretanto uma pessoa criada por Deus e destinada a entrar, um dia, na posse imediata de Deus, pessoa infinitamente superior, por conseguinte, ao próprio homem.

DIREITOS INVIOLÁVEIS QUE O HOMEM RECEBE DO SEU CRIADOR

Este fato comandará a atitude que assumireis a respeito dele. E primeiramente, considerareis que o homem recebeu imediatamente do seu Criador direitos que as próprias autoridades públicas têm a obrigação de respeitar.

Múltiplas vezes já tivemos o ensejo de relembrá-lo, e em particular na Nossa Alocução de 14 de setembro de 1952 ao primeiro Congresso Internacional de Histopatologia do Sistema Nervoso (Discursos e Radiomensagens, t. XIV, 14-9-52, págs. 320-329). Então expusemos e discutimos os três motivos em que as pessoas se apóiam para justificar os métodos de pesquisa e de tratamento da medicina moderna: o interesse da ciência, o do indivíduo e o da comunidade. Lembramos então que, se em geral merecem aprovação os esforços atuais da pesquisa científica nesse domínio, cumpre ainda examinar, em cada caso particular, se os atos que se praticam não violam normas morais superiores. O interesse da ciência, o do indivíduo e o da comunidade não são, com efeito, valores absolutos, nem garantem necessariamente o respeito de todos os direitos. Retomamos esses mesmos pontos perante os membros do Congresso de Psicologia Aplicada, a 10 de abril de 1958: aí também, tratava-se de saber se certos métodos de investigação e de tratamento eram compatíveis com os direitos da pessoa que é objeto deles. E respondemos que era preciso ver se o processo em questão respeitava os direitos do interessado, e se este podia conceder-lhe o seu consentimento. Em caso de resposta afirmativa, há que se perguntar se o consentimento foi dado real e conformemente ao direito natural, se não houve erro, ignorância ou roubo, se a pessoa tinha competência para dá-lo, e, finalmente, se ele não viola os direitos de um terceiro. Claramente frisamos então que esse consentimento nem sempre garante a liceidade moral de uma intervenção, apesar da regra de direito: "Volenti non fit iniuria" (cf. A. A. S., a. 50, 1958, págs. 276-277). Não podemos senão repetir-vos a mesma coisa, sublinhando ainda que a eficácia médica de um processo não significa necessariamente que ele seja permitido pela moral.

O DIREITO DO HOMEM A DISPOR DE SI MESMO

Para solucionar as questões de fato, nas quais o teólogo não tem competência direta, visto dependerem dos casos particulares e de circunstâncias que a vós pertence apreciar, podeis-vos lembrar que o homem tem o direito de se servir do seu corpo e das suas faculdades superiores, mas não de dispor deles como dono e senhor, visto que os recebeu de Deus, seu Criador, do qual continua a depender. Pode suceder que, exercendo o seu direito de usufrutuário, ele mutile ou destrua uma parte de si mesmo, por ser isso necessário para o bem de todo o organismo. Nisso ele não invade os direitos divinos, visto que não age senão para salvaguardar um bem superior, para conservar a vida, por exemplo. O bem do todo justifica o sacrifício da parte.

Mas, à subordinação dos órgãos particulares para com o organismo e para com a finalidade própria deste, junta-se ainda a do organismo à finalidade espiritual da própria pessoa. Experiências médicas físicas ou psíquicas podem, de um lado, acarretar certos danos para órgãos ou funções, mas, de outro lado, pode ser que elas sejam perfeitamente lícitas, por serem conformes ao bem da pessoa e não transgredirem os limites estabelecidos pelo Criador ao direito do homem de dispor de si mesmo. Estes princípios aplicam-se evidentemente às experiências de psicofarmacologia. Assim, nos documentos que nos fora transmitidos, pudemos ler o relatório de uma experiência de delírio artificial a que foram submetidas 30 pessoas sãs e 24 doentes mentais. Será que essas 54 pessoas deram o seu assentimento a essa experiência, e isso de maneira suficiente e válida para o direito natural? Aqui, como nos outros casos, a questão de fato deve ser submetida a um exame sério.

O USO DOS MEDICAMENTOS PSICOTRÓPICOS E A DOUTRINA CRISTÃ DO SOFRIMENTO

A observância da ordem moral é que confere valor e dignidade à ação humana, conserva à pessoa a sua retidão profunda e mantém-na no lugar que lhe compete no conjunto da criação, isto e, a respeito dos seres materiais, das outras pessoas e de Deus. Cada qual tem, pois, o dever de reconhecer e de respeitar essa ordem moral em si mesmo e para com outrem, a fim de salvaguardar essa retidão, em si e em outrem. Tal é a obrigação que Nós agora consideramos no domínio da utilização dos medicamentos psicotrópicos, atualmente tão difundidos.

Na Nossa Alocução de 24 de fevereiro de 1957 à Sociedade Italiana de Anestesiologia (Discursos e Radiomensagens, vol. XVIII, pág. 793), já afastamos uma objeção que se poderia avançar baseando-se na doutrina católica do sofrimento. Alguns invocam, com efeito, o exemplo de Cristo recusando o vinho misturado com mirra que lhe ofereceram, por pretenderem que o uso de narcóticos ou de calmantes não é conforme ao ideal da perfeição e do heroísmo cristão. Respondemos então que, em princípio, nada se opunha ao emprego de remédios destinados a acalmar ou a suprimir a dor, porém que renunciar ao uso deles podia ser e era freqüentemente um sinal de heroísmo cristão. Acrescentávamos, entretanto, que errôneo seria pretender que a dor é uma condição indispensável desse heroísmo. No que concerne aos narcóticos, podem-se aplicar os mesmos princípios à sua ação sedativa da dor; quanto ao efeito de supressão da consciência, é preciso examinar-lhe os motivos e as conseqüências intencionais ou não. Se nenhuma obrigação religiosa ou moral a isso se opõe, e se existem razões sérias para os utilizar, pode-se mesmo dá-los aos moribundos se eles nisso consentirem. A eutanásia, isto é, a vontade de provocar a morte, evidentemente é condenada pela moral. Mas, se o moribundo consentir, é permitido utilizar com moderação narcóticos que lhe amenizem os sofrimentos, mas que também acarretarão uma morte mais rápida; neste caso com efeito a morte não é querida diretamente, mas é inevitável, e motivos proporcionados autorizam medidas que lhe apressem a vinda.

A CONSCIÊNCIA MORAL DO MÉDICO DEVE FAZER-LHE DISCERNIR OS ABUSOS

Não há temer que o respeito das leis da consciência ou, se se quiser, da fé e da moral, possa estorvar ou impossibilitar o exercício da vossa profissão. Na Alocução já citada, de 10 de abril de 1958, enumeramos algumas normas que facilitam a solução das questões de fato em certos casos que interessam aos psicólogos e que são semelhantes aos que vos concernem (assim, por exemplo, o emprego do "lie-detector", das drogas psicotrópicas para os fins da narco-análise, da hipnose, etc.); repartíamos então em três grupos as ações intrinsecamente imorais, quer porque os seus elementos constitutivos se opunham diretamente à ordem moral, quer porque a pessoa que age não tenha o direito de o fazer, quer porque elas provoquem perigos injustificados. Os psicólogos sérios, cuja consciência moral é bem formada, devem poder discernir assaz facilmente se as medidas que eles se propõem adotar entram numa dessas categorias.

Sabeis também que a utilização, sem discernimento, dos medicamentos psicotrópicos ou somatotrópicos pode conduzir a situações lamentáveis e moralmente inadmissíveis. Em várias regiões, quantidades desses medicamentos estão à disposição do público sem nenhum controle médico, e, aliás, este conforme a experiência o prova, não basta para impedir os excessos. Além disto, certos Estados manifestam uma tolerância dificilmente compreensível a respeito de certas experiências de laboratório ou de certos processos de clínica. Não queremos aqui apelar sobre isso para a autoridade pública, mas sim para os próprios médicos, e sobretudo para os que gozam de uma autoridade particular na sua profissão. De feito, estamos persuadidos de que existe uma ética médica natural, fundada no juízo reto e no sentimento de responsabilidade dos próprios médicos, e desejamos que a influência dela se imponha cada vez mais.

* * *

No estado atual da investigação científica, progressos rápidos só podem ser obtidos graças a uma larga colaboração no plano internacional: colaboração, aliás, de que o presente Congresso nos dá uma prova evidente. É desejável que ela se estenda não somente a todos os especialistas da psicofarmacologia, como também aos psicólogos, psiquiatras e psicoterapeutas; numa palavra, a todos os que, a qualquer título, se ocupam das doenças mentais.

Se adotardes para com os valores morais que evocamos uma atitude positiva fundada na reflexão e na convicção pessoais, exercereis a vossa profissão com a seriedade, a firmeza, a segurança tranqüila que a gravidade das vossas responsabilidades reclama. Sereis então, para os vossos doentes como para os vossos colegas, o guia, o conselheiro, o arrimo que soube merecer a confiança e a estima deles.

(I) Alocução ao Collegium intemationale neuro-psycho pharmacologicum - 9 de setembro de 1958.
(2) Trata-se da primeira parte da alocução do Santo Padre, que aqui não transcrevemos. N.T.

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Pensamento da noite de 15/05/2012


"Ó Mãe! Nós podemos chorar de alegria junto ao Vosso trono, mas lágrimas vertidas assim não são como aquelas que podemos derramar ao Vos ver sobre o Calvário: não nos aliviam tanto. Quando vemos Vossa doce e triste face, onde se estampa toda a dor maternal, as lágrimas que Vos correm, Vossa calma em meio a males tão grandes, a sombra escura que sobre Vós se abate, chega a parecer então que Vos encontramos após um longo tempo de perdida, e que sois uma Maria diferente daquela maravilha que os céus admiram; e então mais Vós nos pareceis uma Mãe sobre o cimo pouco elevado do Calvário, do que quando Vos vemos sobre as alturas inacessíveis do Céu." (Padre Faber)

Sobre a tristeza por São Francisco de Sales

Que a tristeza é quase inútil, antes contrária, 
ao serviço do santo amor


Não se pode meter um enxerto de carvalho numa pereira, tanto essas duas árvores são de humor contrário uma à outra; tão pouco se poderia enxertar a ira, nem a cólera, nem o desespero, na caridade, ao menos seria muito difícil. Quanto à ira, vimo-la no discurso do zelo; quanto ao desespero, a não ser que o reduzamos à justa desconfiança de nós mesmos, ou então ao sentimento que devemos ter da vaidade, fraqueza e inconstância dos favores, assistência e promessas do mundo, não vejo que serviço pode o divino amor tirar dele.

E, quanto à tristeza, como pode ela ser útil à santa caridade, já que entre os frutos do Espírito Santo a alegria é colocada junto à caridade? Não obstante, o grande Apóstolo assim diz: A tristeza que é segundo Deus opera a penitência estável em salvação, mas a tristeza do mundo opera a morte (Gal 3, 22; 2 Cor 7, 10).

Há, pois, uma tristeza segundo Deus, a qual é exercida ou pelos pecadores na penitência, ou pelos bons na compaixão pelas misérias temporais do próximo, ou pelos perfeitos na deploração, queixa e condolência das calamidades espirituais das almas; pois David, São Pedro, a Madalena choraram pelos seus pecados, Agar chorou vendo seu filho quase morto de sede, Jeremias sobre a ruína de Jerusalém, Nosso Senhor sobre os Judeus e Seu grande Apóstolo gemendo diz estas palavras: Muitos andam, os quais, eu muitas vezes vos disse e de novo vos digo que são inimigos da cruz de Jesus Cristo (Filip 3, 18).

Há, pois, uma tristeza deste mundo que provém igualmente de três causas:

Porquanto, 1º, provém às vezes do inimigo infernal, que, por mil sugestões tristes, melancólicas e molestas obscurece o entendimento, debilita a vontade e conturba toda a alma. E, assim como um nevoeiro espesso enche de catarro a cabeça e o peito, e por esse meio torna a respiração difícil, e põe em perplexidade o viajor, assim também o maligno, enchendo o espírito humano de pensamentos tristes, tira-lhe a facilidade de aspirar a Deus, e dá-lhe um aborrecimento e desânimo extremo, a fim que desesperá-lo e de perdê-lo. Dizem que há um peixe a que chamam diabo do mar1 o qual, revolvendo e empurrando para cá e para lá o lodo, turva a água à volta de si, para se manter nela como na emboscada, e dela, logo que avista os pobres peixinhos, atira-se sobre eles, assalta-os e os devora, donde talvez tenha vindo a expressão pescar em água turva, de que se usa comumente. Ora, dá-se com o diabo do inferno o que se dá com o diabo do mar; pois ele arma suas emboscadas na tristeza, quando, tendo tornado a alma perturbada por uma multidão de pensamentos aborrecidos, lançados aqui e acolá no entendimento, precipita-se depois sobre os afetos, afligindo-os com desconfianças, ciúmes, aversões, invejas, apreensões supérfluas dos pecados passados, e fornecendo uma quantidade de sutilezas vãs, acres e melancólicas, a fim de que rejeitemos toda sorte de razões e consolações.

2º A tristeza procede também, outras vezes, da condição natural, quando o temperamento melancólico domina em nós, e este não é verdadeiramente vicioso em si mesmo, mas no entanto nosso inimigo serve-se dele grandemente para urdir e tramar mil tentações em nossas almas; porquanto, assim como as aranhas quase nunca fazem suas teias senão quando o tempo está encoberto e o céu nublado, assim também esse espírito maligno nunca tem tanta facilidade para armar as ciladas das suas sugestões nos espíritos doces, benignos e alegres, como nos espíritos sombrios, tristes e melancólicos; pois os agita facilmente com mágoas, suspeitas, ódios, murmurações, censuras, invejas, preguiça e entorpecimento espiritual.

3º Finalmente, há uma tristeza que a variedade dos acidentes humanos nos acarreta. Que alegria posso eu ter, dizia Tobias, não podendo ver a luz do céu? (Tob 5, 12). Assim Jacob ficou triste com a notícia da morte de seu José, e David com a do seu Absalão. Ora, essa tristeza é comum aos bons e aos maus, porém nos bons é moderada pela aquiescência e resignação à vontade de Deus; como se viu em Tobias, que, de todas as adversidades de que foi tocado, deu graças à divina majestade, e em Job, que por elas bendisse o nome do Senhor; e em Daniel, que converteu suas dores em cânticos. Pelo contrário, quanto aos mundanos, essa tristeza lhes é ordinária, e converte-se em pesares, desespero e atordoamentos de espíritos; pois eles são semelhantes às macacas e marmotas, que estão sempre sorumbáticas, tristes e zangadas por falta da lua, mas, ao contrário, à renovação desta, saltam, dançam e fazem as suas momices. O mundano é ronhento, intratável, acre e melancólico na falta das prosperidades terrenas, e na afluência destas é quase sempre fanfarrão, divertido e insolente.

De certo, a tristeza da verdadeira penitência não deve tanto ser chamada tristeza como desprazer, ou sentimento e detestação do mal, tristeza que nunca é nem aborrecida nem mal humorada, tristeza que não entorpece o espírito, mas que o torna ativo, pronto e diligente; tristeza que não abate o coração, mas o eleva pela oração e pela esperança, e o leva a fazer os rasgos do fervor de devoção; tristeza que no forte das suas amarguras produz sempre a doçura de uma consolação incomparável, consoante o preceito do grande Santo Agostinho:

Entristeça-se o penitente sempre, mas sempre se alegre com a sua tristeza. Diz Cassiano que a tristeza que opera a sólida penitência e o agradável arrependimento, da qual a gente nunca se arrepende, é obediente, afável, humilde, bondosa, suave, paciente, como sendo saída e descendente da caridade. De tal sorte que, estendendo-se a toda dor de corpo e contrição de espírito, de certo modo é alegre, animada e revigorada pela esperança do seu proveito, e retém toda a suavidade da afabilidade e longanimidade, tendo em si mesma os frutos do Espírito Santo que o santo Apóstolo narra. Ora, os frutos do Espírito Santo são: caridade, alegria, paz, longanimidade, bondade, benignidade, fé, mansidão, continência (Gal 4, 22). Tal é a verdadeira, e tal a boa tristeza, que por certo não é propriamente triste nem melancólica, mas somente atenta e afeiçoada a detestar, rejeitar e impedir o mal do pecado quanto ao passado e quanto ao futuro. Nós vemos também múltiplas vezes penitências muito apressadas, perturbadas, impacientes, chorosas, amargas, suspirantes, inquietas, grandemente ásperas e melancólicas, as quais enfim se mostram infrutíferas e sem conseqüência de qualquer verdadeira emenda, porque não procedem dos verdadeiros motivos da virtude de penitência, e sim do amor-próprio e natural.

A tristeza do mundo opera a morte (2 Cor 7, 10), diz Apóstolo. Teótimo, cumpre pois evitá-la e rejeitá-la segundo o nosso poder. Se ela é natural, devemos repeli-la, contravindo aos seus movimentos, afastando-a por exercícios próprios para isto, e usando dos remédios e modos de viver que os próprios médicos julgarem oportunos. Se provém de tentação, devemos descobrir vosso coração ao pai espiritual, o qual nos prescrevera os meios de vencê-la, conforme o que sobre isso dissemos na quarta parte da Introdução à vida devota. Se é acidental, recorramos ao que está assinalado no livro oitavo, a fim de vermos o quanto as tribulações são amáveis aos filhos de Deus, e como a grandeza das nossas esperanças na vida eterna deve tornar quase inconsideráveis todos os acontecimentos passageiros da vida temporal.

De resto, por entre todas as melancolias que nos podem advir, devemos empregar a autoridade da vontade superior para fazermos tudo o que pudermos em favor do amor divino. Certamente há ações que dependem tanto da disposição e compleição corporal, que não está em nosso poder fazê-las a nosso gosto. Pois um melancólico não poderia manter nem os olhos, nem a palavra, nem o semblante na mesma graça e suavidade que teria se estivesse descarregado desse mau humor; bem pode, porém, embora sem graça, dizer palavras graciosas, bondosas e corteses, e, apesar da sua inclinação, fazer por força de razão as coisas convenientes em palavras e em obras de caridade, doçura e condescendência. Uma pessoa é desculpável de nem sempre ser alegre, pois não é dono da alegria para tê-la quando quiser; mas não é desculpável de não ser sempre bondosa, manejável e condescendente, pois isto está sempre no poder da nossa vontade, e para isso não é preciso senão resolver-se a superar o humor e inclinação contrária.

1) O nome de diabo do mal aplica-se a vários peixes do Oceano e do Mediterrâneo: à arraia, à escorpena e sobretudo ao diabo marinho.

(Tratado do amor de Deus por São Francisco de Sales, Livro décimo primeiro, capítulo XXI) 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Recolhimento e as grandes atividades humanas - Final

A oração


A terceira belíssima atividade do homem é a oração.

Dizer que, sem recolhimento, não pode haver verdadeira oração, é o mesmo que dizer que, sem câmara escura, não se podem revelar chapas fotográficas.

Se Alexis Carrel chama a oração "a forma de energia mais poderosa que o homem é capaz de gerar", não é para admirar que esta energia só se possa produzir dos grandes reservatórios do recolhimento, escuros, silenciosos, assim como a força e a luz, frutos desses outros reservatórios gigantescos, que quanto mais profundos e silenciosos, tanto mais energias podem desenvolver.

Já na Escritura é tão clara esta verdade, que oração e recolhimento sempre se acompanham, e, não raras vezes, se confundem, como se fora uma coisa só.

Não é sem razão. Pois, em geral, é a dissipação que impede a oração.

Almas, mesmo que puras e humildes, mas distraídas (o que raramente acontece, pois a pureza e humildade são ótimos materiais para o recolhimento) como poderão rezar?

E até mesmo o pecador, no recolhimento, dobra o joelho e fala com seu Deus.

Quantas vezes o vimos, na modelar Penitenciária de S. Paulo, onde a prisão celular absoluta, num regime perfeito de trabalho e de silêncio, isto é, regime de concentração, ao menos exterior, é o mais importante fator de regeneração, pois faz o sentenciado entrar em si mesmo e começar sua vida de oração.

Por que é que o mar nos convida tanto a rezar? assim como a floresta e o campo? E podemos também perguntar, por que é que a cabine de um avião é tão propícia para uma boa meditação? Erraria quem dissesse que é o medo que leva a alma a orar. De modo nenhum. O medo pode produzir, quando muito, uma oração vocal precipitada, não, porém, a oração calma, interior. Esta é fruto do recolhimento, da solidão, ao menos interior.

Com gratidão nos lembramos de nossas freqüentes travessias pelas caatingas requeimadas do nordeste baiano, montado em modesta cavalgadura, longe de toda a comitiva - solidão perfeita, silêncio impressionante - só quebrado às vezes pelo chocalho das cabras peregrinas - não sei se em um claustro se poderá rezar com tanta facilidade assim.

A vida de Carlos de Foucauld, o extraodinário ermitão dos nossos dias no Saara, figura singular de visconde, de oficial, de explorador e escritor, de Marrocos, irmão trapista, servidor desconhecido de convento, e, finalmente, sacerdote de Deus, no deserto sem limites, é um tratado completo, vivo, do que se pode dizer sobre a oração e o recolhimento.

A heróica carmelita de Dijon, Irmã Isabel da Trindade, nas suas notas, cartas e meditações, parece que esgota o assunto - recolhimento - que tem como a mais bela floração, a sua profunda e admirável oração: "Ó meu Deus, Trindade que eu adoro" - obra prima de nossa época, no que concerne à nossa conversação com Deus. Teólogos de renome comentaram largamente esta oração sublime, deixando ainda muito que se escrever. Foi uma alma que compreendeu a fundo o recolhimento teresiano, exterior e interior; essas cavernas silenciosas de abnegação e de gozo.

Sta. Teresinha, ainda muito pequena, já compreendia a necessidade de recolhimento para a oração. Muita vez, escondia-se atrás de, um móvel ou de uma porta, e quando lhe perguntavam o que estava ali a fazer sozinha, respondia uma grande lição, cheia de candura: "Estava a pensar". E todos sabiam que era em Deus e nas coisas de Deus que ela estava pensando.

A oração, todos o sabem, ao menos teoricamente, é uma conversação com Deus - a quem nos dirigimos, a quem ouvimos. Ora, para falarmos, para ouvirmos, necessário é que se faça um tal ou qual silêncio, uma tal ou qual solidão - e esse silêncio e solidão, ainda que mínimos, se chama recolhimento, naturalmente mínimo também. Por isso; diz a Escritura que o Espírito Santo fala em nós com gemidos inenarráveis, para nos mostrar a atenção e delicadeza com que o devemos escutar.

Carrel diz que "a oração é o esforço do homem para chegar até Deus, para pôr-se em comunhão com um Ser invisível, criador de todas as coisas, suprema sabedoria, verdade, beleza e força, pai e redentor da humanidade". Ora, para tudo isso, quem não vê que um trabalho sério é necessário, que consiste, em primeiro lugar, em criar o ambiente quer interior, quer exterior, - que se chama recolhimento ou concentração - para que haja perseverança neste "esforço" e ele alcance o seu resultado.

É verdade que aqui dizemos o que dissemos sobre o estudo, isto é, que este ambiente interior pode ser tão forte e profundo que mesmo no meio de muito movimento e barulho, ele se conserve imperturbável e fecundo. Quantas vezes, vemos edificado, um sacerdote rezando atentamente, o seu breviário, em um bonde ou trem. Não sei que missionário dizia, com graça, que nunca rezava melhor o seu breviário do que em uma movimentada estação de estrada de ferro. E nós o cremos, sem dificuldade. Porque onde o esforço deve ser maior, também maior será a comunicação de Deus Nosso Senhor.

Lembramo-nos, com veneração, de uma cena edificante na grande Catedral de Buenos Aires, por ocasião do Congresso Eucarístico, de 34. Centenas de bispos, sacerdotes, autoridades, esperavam a entrada solene do Sr. Cardeal Pacelli. De repente, um zum-zum passa pelo grande templo. Era o Legado Pontifício que chegava. Todos se levantaram, viraram-se para trás, alguns até subiram nos bancos. Diante de mim, um venerando velhinho rezava imperturbável, de joelhos, o seu terço, alheio a toda curiosidade. Ali estava a imagem perfeita do recolhimento na oração. Depois o soubemos: era o presidente das Conferências Vicentinas de todo o mundo.

De São João Berchmans se conta que rezava com tal recolhimento, principalmente depois da santa comunhão, que os seus confrades jovens e velhos o contemplavam de propósito, para se sentirem mais fervorosos, mais abrasados em devoção.

É tal a união entre a oração e o recolhimento, que este, quando intenso e aquecido pelo amor, se transforma em oração elevada, a que os autores espirituais chamam de "oração de recolhimento", isto é, um estado de quietação da alma na presença de Deus, sem grande esforço, mas com grande fruto para seu aperfeiçoamento e possível apostolado. A oração do recolhimento é a oração da presença por excelência: a alma olha, humildemente, para seu Senhor e o Senhor olha, misericordiosamente, para a alma.

E se há verdadeira pureza, humildade e perseverança, o recolhimento pode levar a alma a estes estados místicos, superiores que Santa Teresa, João da Cruz, Ruysbroek e tantos outros, descrevem com tanta profundeza.

A doutrina do "nada" tão corajosamente exposta pelo doutor carmelitano, não é outra coisa senão a doutrina do recolhimento mais completo e mais heróico; tanto exterior como interior. A alma não procura nada, nada, nada senão a Deus. Nada vê senão a Deus. Nada goza senão a Deus. E só em Deus, vê todas as criaturas.

E se não devemos desejar graças extraordinárias, por que não havemos de nos alegrar com graças que nos unem mais e mais a Deus Nosso Senhor e nEle nos transformam? "Aspirai aos melhores dons", escreve S. Paulo aos Coríntios.

Não digamos que é difícil rezar. Não digamos que é difícil falar com o Rei.

Talvez o que seja, deveras, difícil é entrar em Seu palácio, na sala de audiências.

Ora, o palácio verdadeiro do Rei do céu é a alma humana, por mais modesta, que seja.

Mas esta alma só se acha pelo recolhimento interior, garantido, quanto possível, pelo recolhimento exterior. 

(Recolhimento por D. Fr. Henrique Golland Trindad O.F.M. Bispo de Bonfim, 1945)

P.S: Ver primeira e segunda parte AQUI e AQUI.