segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Caridade Fraterna - Última parte (Padre Álvaro Negromonte)

PECADOS CONTRA A CARIDADE


Assim como todo pecado é contrário ao amor de Deus, podemos também dizer que todo pecado contra o próximo viola a caridade fraterna. Mas há pecados que se orientam contra o amor do próximo, ferindo-o diretamente.

Os pecados de omissão, além, de muito freqüentes, podem ser tão graves que levam até ao inferno, segundo as palavras de Jesus (Mt. 25, 42-43) e a condenação do rico avarento. Há outros pecados que estudaremos agora, com a preocupação de evitá-los, a fim de nos mantermos no amor do próximo, que é dos sinais de que vivemos na graça divina.

            I. Ódio

1. Amar é querer o bem para o próximo. Odiar é querer o mal.

2. É diferente o sentimento que experimentamos contra os defeitos do próximo. “Amai os homens, e combatei os seus erros”. Mas esta detestação dos defeitos não atinge as pessoas.

3. Não é ódio a antipatia natural que nos causam algumas pessoas, ou mesmo o transtorno sensível que nos inspiram pessoas cuja presença nos lembra desgostos ou males que por sua causa padecemos. São movimentos instintivos, que não constituem pecado, embora os devamos refrear por serem um perigo para a caridade.

4. O ódio, em si, é pecado mortal, pois inverte totalmente a ordem estabelecida por Deus. “Quem odeia a seu irmão é homicida, e sabeis que nenhum homicida possui em si a vida eterna.” (Jo. 3, 15).

5. Constitui também uma verdadeira fonte de pecado: falseia a verdade, ora aumentando os defeitos reais, ora inventando-os; viola a justiça, negando ao próximo o que lhe é devido; favorece a calúnia, estimula à maledicência; levanta iras; fomenta rixas; estabelece discórdias entre famílias inteiras, passando, às vezes, de geração em geração; leva até ao homicídio.

II. Inveja

1. A inveja é a tristeza que se sente por causa dos bens do próximo. Toma-se a felicidade alheia como uma diminuição da própria. Daí o desejo de diminuí-la ou destruí-la, fazendo o mal ao próximo.

2. Quando o bem do próximo nos estimula, e nós queremos atingi-lo também, mas sem prejuízo a ninguém, não é inveja que sentimos. É uma legítima emulação, que leva à imitação das virtudes, muito natural, recomendada por São Paulo (Hb. 10, 24), aconselhada pela Igreja ao nos apresentar os exemplos dos santos, intimada pelo próprio Cristo, que se apresentou como nosso modelo (Mt. 11, 29).

3. Em si, é a inveja um pecado mortal, porque transtorna inteiramente a ordem da caridade, que é nos alegrarmos dos bens alheios.

4. Lamentavelmente são também as conseqüências da inveja.

Para diminuir o próximo, desacredita-o com maledicências e calúnias, praticando injustiças, fomentando discórdias, criando inimizades, dividindo famílias, perturbando a paz, impedindo o bem pela desunião dos bons (entre católicos). Foi a inveja que cometeu o primeiro crime do mundo (Caim: Gn. 4, 8), vendeu o irmão como escravo (José: Gn. 37, 28), inspirou a Saul a morte de Davi (1 Reg. 19, 8-10), consumou a morte do próprio Filho de Deus: “Porque sabia que o tinham entregado por inveja” (Mt. 27, 18).

            III. Vingança

1. Condenada por Cristo: “Não pagueis o mal com o mal” (Mt. 5, 31), a vingança é um pecado que revela maus sentimentos e baixeza moral.

2. O verdadeiro cristão sabe perdoar as injúrias que recebe. “Perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos”. A parábola dos dois devedores (Mt. 18, 21-35) mostra como serão tratados os que não querem perdoar.

            IV. Escândalo

1. Escândalo (no grego significa tropeço) é uma palavra, ação ou omissão que dá ao próximo ocasião de pecado.

2. Se a pessoa faz isto com a intenção de levar o próximo ao pecado, sua falta é muito grave, mais grave do que o homicídio, porque mata a alma.

“Ai daquele homem por quem vier o escândalo. Melhor seria que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho e o atirassem ao fundo do mar” (Mt. 18, 7).

3. Quem dá um escândalo fica responsável por todos os pecados que se cometem por sua causa. Ainda hoje proliferam escândalos dados há séculos. (Dar exemplos históricos).

4. Um bom cristão evitará mesmo algumas ações, que são boas mas possam escandalizar o próximo. É que a caridade obriga a evitar a ruína espiritual do próximo.

Para viver a doutrina

1. Tratemos com caridade as pessoas antipáticas, e estaremos praticando a caridade, melhor do que se as simpatizássemos.

2. Evitemos as pessoas cuja amizade não nos convém, cuja convivência nos é prejudicial. Isto não é inimizade, é prudência.

3. Pessoas elevadas gostam de ver a prosperidade alheia, e de ajudar o próximo em suas dificuldades. Dá mostra de nobreza quem se alegra com as boas notas dos colegas, a fortuna dos amigos, a prosperidade dos outros.

4. Em geral, é nossa ambição, vaidade, excessivo amor-próprio, desejo de louvor, etc., a verdadeira causa da inveja. Sofreássemos as paixões, moderando-nos, e sentiríamos o direito que têm os outros de ser felizes. E seríamos nós muito mais felizes. Porque o invejoso é realmente infeliz: sofre de sua própria desgraça e da felicidade dos outros...

5. Acostumemo-nos a perdoar o que sofremos. O perdão é o melhor sinal de que amamos a Deus no próximo. Ordena Jesus que nos reconciliemos sem demora. (Mt. 5, 25). O perdão eleva os homens como elevou a José diante dos próprios irmãos que o venderam.

6. Levando uma boa vida cristã, evitarei facilmente qualquer escândalo ao próximo. E nisto eu serei bastante cuidadoso, porque o mau exemplo de um católico recai também sobre a Igreja, que os ímpios freqüentemente acusam por causa dos erros individuais. Brilhem nossas boas obras diante dos homens para que Deus seja por todos glorificado (Mt. 5, 16).

7. Entre os jovens são, infelizmente, muito comuns conversas, cantigas e anedotas más, fonte, quase sempre, de graves ruínas. Não somente devemos evitá-las, mas impedir que outros as tenham. Às vezes, uma atitude séria basta. Outras vezes, é preciso dizer expressamente nosso desagrado, ou mesmo retirar-nos – sem nenhum receio de desagradar.

8. Pior que Herodes, o matador dos inocentes, é quem escandaliza as crianças, porque lhes tira a vida sobrenatural. No entanto, por minhas palavras, meu procedimento, eu posso em casa, no colégio ou na sociedade, escandalizar meus irmãos menores ou outras crianças. (De que maneira?). Muito cuidado, pois.

9. Para quem ama a Deus e quer a salvação do próximo, não escandalizar é pouco. Mesmo o apostolado do bom exemplo não basta. Desenvolverei um apostolado mais ativo, no meio em que vivo, a fim de afastar meus companheiros do pecado e conseguir que permaneçam no estado de graça. (Como há de ser este apostolado?).

(O Caminho da Vida, pelo Pe. Alvaro Negromonte. 15ª edição. Pgs. 212-217).

PS.: Agradeço a alma generosa (amiga) pelo envio do texto, Deus lhe pague.
PS.2: Ver as demais partes aqui:

Os Sete Santos fundadores dos Servitas da B.V.M, Confessores

Nota do blogue: Texto retirado do blogue Escravas de Maria.
“Eis os Servos de Maria!”


Nos princípios do século 13 viviam em Florença sete fidalgos, igualmente distintos pela riqueza, pela posição social e pela piedade, mas principalmente pela devoção extraordinária que tinham a Nossa Senhora. Seus nomes eram: Bonfílio Monáldio, Bonajuncta, Manetto Antellense, Amidéo, Ugúccio, Sosteneo e Aleixo. 

O povo italiano, devido a uma política mal orientada, achava-se dividido em muitos partidos que se odiavam e se perseguiam. Destes sete nobres cidadãos, Deus se serviu para, no meio de uma sociedade dilacerada pelo fanatismo e pelo ódio, estabelecer exemplos vivos de caridade e verdadeira fraternidade. Quando, no dia 15 de agosto de 1233 todos se achavam reunidos em fervorosas orações, a cada um Maria Santíssima apareceu exortando-os a abraçarem um gênero de vida mais perfeito. Fizeram comunicação disto ao Bispo. Trocaram sua vestimenta de nobres com um hábito pobre, usando ainda um cilício por cima e foram residir numa casa de campo, formando assim uma santa comunidade. Escolheram para este seu passo o dia da natividade de Maria Santíssima. Pouco tempo passara, o povo florentino viu-se diante o espetáculo de ver estes mesmos homens andar de porta em porta pedir esmolas. A atitude dos homens, de fidalgos que ontem foram, se transformar em mendigos, causou sensação. Censurados por uns, ridicularizados por outros, pela maioria porém admirados e reverenciados, tiveram uma prova da beneplacência Divina, quando inesperadamente, com estupefação de todos que presenciaram a cena, vozes de crianças os aclamaram, dizendo: “Eis os Servos de Maria!” Entre estas crianças se achava São Felipe Benício. O nome que as crianças, por inspiração divina lhes deram, lhes ficou para sempre. 

Como a sua residência se tornasse alvo de verdadeiras romarias e assim não pudessem levar a vida de solidão, de penitência, oração e meditação que a Deus tinham prometido, retiraram-se para o monte Senário, quatro léguas distante de Florença. No ermo daquela região se entregaram aos exercícios da mais rigorosa penitência e por assunto quase único e predileto das suas meditações tomaram a Paixão de Nosso Senhor e as Dores de sua Mãe Santíssima. 

À Santa Sé pediram, se dignasse dar-lhes uma Regra escrita. Em fervorosas orações se dirigiram a Jesus e Maria recomendando à sua Providência e ao amor esta importante causa. Foram atendidos de uma maneira maravilhosamente encantadora. Na madrugada de 28 de fevereiro de 1239 – que era a terceiro Domingo da quaresma, apresentou-se-lhes a sua vinha, havia pouco plantada, em toda pujança, toda verde, as parreiras carregadas de cachos de uvas maduras, quando os campos e as montanhas da redondeza se achavam cobertas de gelo e neve. Sua admiração diante deste milagre cresceu ainda, quando o Bispo, a quem relataram o fenômeno lhes disse que ele, na mesma noite em sonho tinha visto uma parreira viçosa com sete galhos, cada um trazendo sete cachos; e a Maria ouvira dizer que esta parreira iria crescer ainda. A interpretação que o Prelado deu a este seu extraordinário sonho, foi, ser da vontade de Deus e de Nossa Senhora, a Ordem se estender, e os “Servos de Maria” não continuar na atitude de negar admissão, a quem se lhes quisesse associar. Os santos homens prometeram se conformar com este alvitre e aceitar candidatos. 

Na noite de Sexta-feira Santa viram-se diante de um outro milagre. Maria Santíssima apareceu aos seus Servos, vestida de pesado luto. Em sua companhia viram anjos, dos quais alguns com instrumentos martirizantes da Sagrada Paixão e Morte de Jesus, outro com o livro aberto da Regra de Santo Agostinho, e ainda outro com o título escrito em ouro: “Servos de Maria”. Seguiam mais anjos trazendo um hábito preto e uma palma. O hábito com a palma, Maria deu-os aos Religiosos, dizendo estas palavras: “Escolhi-vos meus Servos, para que, usando do meu nome, vades trabalhar na Vinha de meu Filho. Eis aqui o hábito, que vos dou. Sua cor negra vos lembrará as dores que hoje sofri ao pé da Cruz, assistindo a agonia de meu Filho, Jesus. A Regra de Santo Agostinho recebei-a por norma da vossa vida; a palma far-vos-á lembrar a glória eterna, prêmio da perseverança fiel no meu serviço”. Maria também apareceu ao Bispo e ordem lhe deu, para proceder a solene vestição do hábito preto aos seus Servos. Esta se realizou logo no dia da páscoa. O Papa Inocêncio IV em 1251 deu a aprovação eclesiástica à Ordem dos Servitas. Esta rapidamente se desenvolveu. Setenta anos depois de sua fundação contava já 10.000 Religiosos em diversos estados da Europa. No Brasil se estabeleceu em 1920.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Pensamento da noite de 12/02/2012


"Ponhamo-nos de olhos fechados entre as mãos da Virgem Santíssima para que Ela cuide de nós e nos ofereça a Deus. Estamos porventura num estado de alegria e doçura espiritual? Fechemos os olhos e finjamos ignorá-lo na nossa conduta. Estamos num estado de tristeza e de lassidão? Fechemo-los também e saibamos abandonar-nos. Que nos seja indiferente saber se somos apreciados ou não; isso não preocupa a alma lucidamente abandonada. Nenhum juízo devemos fazer sobre as perfeições dos nossos irmãos: outra coisa que será bom abandonarmos a Maria. Àquele que se abandona deste modo, posso garantir que a Virgem não tardará em tomá-lo nos Seus braços e em o elevar até ao Pai... Toda a arte de passar deste mundo para Deus se resume em fechar os olhos e entregar o leme a Maria."
(Por um cartuxo anônimo)

A presença de Deus - I Parte de II


O último meio para alcançar a simplicidade, e o melhor, é o exercício da presença de Deus. É tal a sua importância que é necessário insistir nisto. 

Do mesmo modo que a simplicidade é o fundamento da perfeição, a presença de Deus é o fundamento da simplicidade. 

Realmente, consistindo a simplicidade em agir para Deus, é claro que, antes de tudo, é preciso pensar em Deus, e nEle pensareis mais e melhor se considerardes sempre a Sua presença. 

Precisemos ainda mais a influência da presença de Deus na simplicidade. 

A presença de Deus vos fará simples por duas razões: 

. Porque tornará impossível qualquer intenção má
. Porque vos conduzirá eficazmente às melhores intenções

Em primeiro lugar, o sentimento da presença de Deus fará desaparecer qualquer intenção má, destruirá a “malícia do olhar” e vos preservará do pecado. 

“É porque o pecador se esquece de que Deus o vê, diz o Salmista, que O ofende sem cessar.” [Salmo XXXV, 1-2] E, depois de haver enumerado longamente os crimes de Jerusalém, o profeta Ezequiel censura enfim o esquecimento de Deus como a causa de todas as desordens e de todos os erros. 

Quantas vezes o verificamos no confessionário! Quantas vezes, após longas e penosas confissões, perguntamos aos pecadores arrependidos: “Em vossos desvarios não pensastes em Deus? E eles nos respondem: “Não, padre, eu o havia esquecido”, ou então: “Afastava este pensamento porque me era intolerável”; e ainda outras vezes: “Foi este o pensamento que me fez voltar”. 

O pecador foge da presença de Deus para escapar ao remorso da consciência. Ao cometer seu pecado, Adão escondeu-se, não mais podendo suportar a vista de Deus. Quando Deus o chamou, não respondeu; foi necessário que Deus o chamasse por duas vezes e o obrigasse a comparecer diante dEle. 

Assim procedem vossos filhos. Escondem-se para praticar o mal; e, depois de o haver praticado, fogem de vossos olhos. Somente a vossa presença os detém e os perturba: sentem medo. 

Se uma criança pode ser retida pelo pensamento dos pais, pela sua vista ou pelo temor dos seus castigos, quanto mais não o seremos nós pela influência toda poderosa que sobre nós exerce o pensamento e o temor de Deus? 

“Todos os pecados, afirma santa Teresa, provêm da idéia de que não julgamos Deus presente, mas de que o imaginamos muito longe.” 

Na verdade, se disséssemos: Deus está presente, Deus me vê, Deus me julga, Deus pode cortar o fio de meus dias e precipitar-me nos abismos eternos, o medo superaria toda atração, todo prazer, toda satisfação, e o pecado se nos tornaria impossível; ao menos, nele não permaneceríamos se a fraqueza ou a surpresa nos fizesse cair. 

Se disséssemos: “Deus está aqui e eu O insulto; Deus morreu por mim e eu de novo O crucifico; Deus me cumula de benefícios e O ofendo com meu desprezo”; nossos corações ficariam cheios de amor, do amor todo-poderoso, infinito, e teríamos a força de tudo vencer, de tudo superar. 

O pensamento de Deus tem realizado milagres de repentinas transformações nas almas: grandes pecadores devem-lhe a conversão. Pretendendo uma delas tentar santo Efrém, o santo respondeu-lhe: “Vamos à praça pública! – Quê? disse a miserável, pecarei em presença de toda a cidade? – Então! exclamou indignado santo Efrém, pecarás na presença de Deus?” Foi essa flexa de fogo que penetrou esse coração empedernido e arrancou torrentes de lágrimas e de arrependimento. 

“Se pensássemos sempre que Deus está presente e que tudo vê, diz são Tomás de Aquino, nunca ou quase nunca pecaríamos.” A mesma idéia é expressa por são Jerônimo, quando afirma: “O pensamento de Deus fecha a porta a todos os pecados.” 

Santo Ambrósio nos relata que, por ocasião de um solene sacrifício oferecido aos deuses por Alexandre Magno, ao lado do soberano, um jovem pajem levava uma tocha. Aconteceu que, durante a cerimônia, a chama alcançou a mão da criança que, não se podendo livrar sem deixar cair a tocha, suportou a horrível dor sem nada dizer, no receio de indispor o soberano. “O respeito à majestade real, exclama santo Ambrósio, pôde triunfar da natureza até numa frágil criança.” Como não poderia o respeito à divina majestade levar a alma cristã a vencer todas as tentações, a suportar todos os males de preferência a ofender a Deus que está presente! 

“Senhor, exclamava Jó, colocai-me perto de vós, e seja qual for o inimigo que se levante contra mim” [Jó, XVII, 3] sob vosso olhar, em vossa presença, nada temo.” 

“Se tivéssemos o cuidado de nos manter na presença de Deus, diz são João Crisóstomo, nunca pensaríamos, diríamos ou faríamos nada de mal, pois, constantemente, repetiríamos: “Deus tudo vê, considera todas as minhas ações.” 

O exercício da presença de Deus é, por conseguinte, um excelente preventivo contra o mal, porque torna impossível qualquer intenção culpável. 

Sob o olhar de Deus, o coração se purifica, todo o sentimento mau se torna insuportável. Tudo o que é contrário à simplicidade é destruído, e poder-se-ia dizer, “consumido pelo fogo divino.” 

Entretanto, o sentimento da presença de Deus faz mais do que nos purificar o coração e nos reanimar as intenções, o que é apenas o lado negativo da simplicidade; enche-nos, ainda, de ardor pelo bem e em pouco tempo leva a simplicidade à mais alta perfeição. 

Quantas vezes em um salão, no decorrer de longa e interminável reunião, acontece a uma mulher sentir-se mal ou ficar indisposta, sob o esplendor das luzes, no ar quente e viciado, no constrangimento das roupas! Ninguém o percebe. Ela continua a conversar, a sorrir, a ser graciosa; sobretudo, se for leviana e frívola, de modo algum quererá mostrar-se menos agradável. Envida todos os esforços para que nada transpareça. 

Em casa, em seus aposentos, não suportaria a menor contrariedade, o menor cansaço sem se queixar, enquanto aos olhos do mundo encontrará coragem. Habitualmente lânguida, sensual e fraca, torna-se forte, corajosa, admirável de energia perante o mundo. 

Não será a presença de Deus na alma cristã mil vezes mais poderosa, mais decisiva, mais eficaz, para conduzi-la ao bem, para sustentá-la em todos os sacrifícios, em todos os esforços, e para torná-la perfeitamente simples? 

Eletrizados sob o olhar de chefes como Alexandre, Carlos Magno, Napoleão, soldados e oficiais correram ao encontro do perigo e alegremente derramaram o sangue pela pátria. 

Terá menos força sobre os corações o olhar de Deus, o olhar do Supremo Senhor do céu e da terra? 

Quando, na primavera, o sol se levanta sobre a natureza, renova-a, ressuscitando-a. Estava morta a natureza; mas, sob a ardente influência dos raios benéficos, a seiva recomeça a subir, a vida circula; aparecem as folhas, as flores, os frutos. 

Não é Deus o sol do mundo, o sol das almas? Sob o olhar divino, na divina presença, as mais frias almas se aquecerão; as mais desanimadas se vivificarão; a seiva cristã circulará novamente; a boa vontade se expandirá; todas as virtudes florescerão. 

A presença de Deus é toda-poderosa para nos conduzir ao bem. 

É toda-poderosa para nos fazer crescer no amor e nos levar à perfeição. É o que ensinava Deus a Abraão, quando dizia: “Anda em minha presença e sê perfeito.” [Gen XVII, 1] 

A perfeição é o amor. Mas como se formaria o amor de Deus sem o pensamento de Deus? E, ao contrário, com este pensamento, como não cresceria sem cessar? 

Já, entre os homens, a amizade aumenta, quando habitualmente se vêem, se falam ou conversam. No entanto, salvo raras e nobres exceções, à medida que melhor se conhecem, são defeitos e não qualidades que se descobrem mutuamente. 

Deus, porém, quanto mais O conhecerdes, mais pensardes nEle, mais reavivardes em vosso coração a lembrança de Suas graças, de Seu amor, de Sua grandeza e de Seus benefícios, mais sereis atraídas para Ele por doce e irresistível força. 

Pelo hábito de vos colocardes sob Seu olhar, de viver em Sua presença, entre vós e Ele, entre vossa alma e Deus, formar-se-á uma união íntima e profunda que dia a dia irá crescendo. 

A oração da manhã e da noite, a meditação, a leitura, os exercícios de piedade não são suficientes para aumentar o amor. “A água ferve no fogo, diz são João Crisóstomo; mas, se a retirardes, logo se esfria.” Para não deixar que o amor se esmoreça, é necessário pensar na presença de Deus, renovar com freqüência, no coração, os atos de fervor e conservar, constantemente, a alma orientada para o céu, como o girassol, esta flor que sempre dirige a corola para o lado do sol. 

“Quando amamos, diz santa Teresa, sem cessar pensamos no objeto amado e, assim, o amamos cada vez mais.” 

O pensamento de Deus vos fará crescer e progredir rapidamente no amor e na perfeição, porque, em pouco tempo, vos conduzirá à simplicidade. 

(A Simplicidade segundo o Evangelho por Monsenhor de Gibergues, 1945)

PS.: Agradeço a um amigo o envio do texto. Deus lhe pague!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Pensamento da noite de 11/02/2012


"Uma alma transformada em Cristo é obediente: a sua submissão ao Pai é espontânea como as pulsações do coração. Segue os impulsos divinos sem desvio e sem cálculo, com um movimento tão direto e tão pronto que o mundo se espanta; porque os caminhos do mundo são tortuosos e os passos da prudência humana são incertos. Mas aquele que vive na humildade perfeita, é perfeitamente dúctil sob a inspiração misteriosa do Espírito. 'Aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.'"
(Por um cartuxo anônimo)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Pensamento do dia 10/02/2012


"Quem me dará as asas da pomba para que eu possa voar e descansar?"
(Salmo, LIV, 7)

Caridade Fraterna (Padre Álvaro Negromonte)


Social por natureza, o homem sente necessidade de amar a seu semelhante. Sem isto, a vida em sociedade seria intolerável. Sem isto, a vida em sociedade seria intolerável.
A unidade da espécie humana nos obriga a este amor: somos todos irmãos.
Outra fraternidade ainda mais estreita é a dos filhos de Deus e membros do Corpo de que Cristo é a cabeça e o primogênito entre muitos irmãos (Rom. 8, 29).

              Amor do próximo

            1. A lei mosaica mandava: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Lv. 19, 18). Mas os judeus não compreendiam os inimigos, escravos e estrangeiros como próximos.
            2. Jesus Cristo equiparou o amor do próximo ao amor de Deus (Mt. 22, 39) e lhe deu verdadeira interpretação na parábola do samaritano (Lc. 10, 25-37), estendendo a caridade a todos os homens, mesmo ao inimigos (Mt. 5, 43-45).
            3. A caridade fraterna é sinal de amor a Deus.

“Se alguém disser que ama a Deus, e odiar o seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como amará a Deus a quem não vê?” (1 Jo. 4, 20).

4. É o sinal do cristianismo. Jesus indicou o amor do próximo como o sinal para se conhecerem os seus discípulos: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo. 13, 35).
5. Por isto Deus exige de quem o ama que ame também o próximo (1 Jo. 4, 21). Não aceita as oferendas dos que primeiro não se reconciliarem com o seu irmão (Mt. 5, 23-24).

Por amor de Deus

1. Devemos amar ao próximo primeiramente por amor de Deus. A caridade é uma virtude sobrenatural. No próximo vemos:
a) a imagem de Deus (Gn. 1, 26);
b) um filho de Deus (Mt. 23, 9), participante da bondade divina;
c) um membro de Jesus Cristo. O próprio Jesus Cristo reputa feito a si o que foi feito ao mínimo de seus irmãos (Mt. 25, 40);
d) um nosso irmão. Fomos todos criados por Deus e remidos pelo sangue de Cristo, que nos ensinou a verdadeira fraternidade, na qual chamamos a Deus de Pai: “Padre nosso, que estais no céu”.
2. Não é caridade o que se baseia na simples compaixão natural ou em meras considerações humanas.

Amar os inimigos

1. Somos obrigados a amar até os próprios inimigos. É doutrina expressa de Jesus:

“Tendes ouvido o que foi dito: Amarás a teu próximo e odiarás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem a quem vos odeia, orai pelos que vos perseguem e caluniam” (Mt. 5, 43-44).

2. Isto fazemos:

a) não guardando ódio. “Todo o que tem ódio a seu irmão é homicida” (1 Jo. 3, 15).
b) perdoando de coração: “Se não perdoardes aos homens, também vosso Pai celeste não vos perdoará vossos pecados” (Mt. 6, 15).
c) não querendo vingar-se.
d) fazendo por eles o bem que queremos que nos façam.

3. O amor aos inimigos não é impossível. De fato:

a) Jesus fez dele um preceito: “Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos” (Mt. 5, 44). E ele não nos iria dar um preceito impossível.
b) Deu-nos o exemplo, perdoando a seus algozes (Lc. 23. 34), o que tem sido seguido pelos santos: Sto. Estêvão (At. 7, 59), São João Gualberto (dia 12 de julho), Santa Joana de Chantal (21 de agosto).

ORDEM NA CARIDADE

1. Há na caridade uma ordem de pessoas. Se devemos amar o próximo como a nós mesmos, somos o padrão de nosso amor ao próximo. A caridade bem ordenada começa por si mesma.

A ordem de pessoas é a seguinte: cônjuge, filhos, pais, irmãos, parentes, amigos, benfeitores, correligionários (Gl. 6, 10), conhecidos, concidadãos, estrangeiros.

2. Há uma ordem de necessidade: espiritual e corporal. Mesmo em nós, amar de preferência o que vale mais.

A salvação vale mais do que a vida – e somos obrigados a dar a vida pela salvação eterna.
A alma vale mais do que o corpo: “Se o teu olho te escandaliza, arranca-o e lança-o fora” (Mt. 5, 29).
A virtude vale mais do que o saber – e devemos afastar-nos dos conhecimentos nocivos à virtude.
A honra vale mais do que a saúde – e importa guardar aquela, mesmo com detrimento desta.
O dever vale mais do que o prazer – e devemos abandonar os divertimentos que impedem o cumprimento dos deveres.
Assim, daremos aos valores espirituais tanto maior cuidado quanto o espírito é superior ao corpo.

3. No amor ao próximo respeitaremos do mesmo modo a hierarquia de valores.

a) A salvação de uma alma prevalece sobre qualquer necessidade temporal nossa ou alheia. (Em que casos se pode dar isto?).
b) Para salvar uma vida, somos obrigados a sacrifícios mais ou menos importantes. Mas não somos obrigados a expor a própria vida para salvar a de outrem.
c) Devemos preferir as obras de caridade espirituais, que são entre nós, infelizmente, as mais desprezadas. (A que obras de caridade espiritual v. se pode dedicar?).

Às vezes, porém, somos obrigados a começar pelo corpo para chegarmos aos cuidados espirituais que, na intenção, são os primeiros. “É inútil pregar conformidade e resignação a homens famintos” (Troniolo). As Conferências Vicentinas, cuja finalidade é espiritual, começam sempre pelo socorro material.

4. É contra a caridade para conosco expor-nos a perigo grave de pecar, em benefício espiritual do próximo. (Que pensar de certos jovens que vão para os bailes dançar para fazer Ação Católica?).
5. A caridade espiritual é de todas a primeira. A caridade consiste no amor de Deus, isto é, no estado de graça. Então a caridade conosco é nos mantermos no estado de graça, empregando para isto os meios. Com o próximo, a caridade é levá-lo à graça divina, usando igualmente dos meios aptos.
6. Na própria necessidade há uma ordem. Podemos achar-nos em necessidade extrema, grave ou comum.

           Qualidades da caridade

1. Sobrenatural, para ser caridade. Vemos no próximo um filho de Deus, em membro de Jesus Cristo.
2. Operosa. Virtude de obras e não apenas de afetos. Se é verdade que as obras sem amor não são caridade, também os afetos só não bastam.

“Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem do alimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos; porém não lhes derdes as coisas necessárias ao corpo, de que lhes aproveitará?” (Tgo. 2, 15-16).

3. Universal, não só enquanto atinge a todos os homens, mas também enquanto envolve todos os atos e anima todas as virtudes cristãs, que sem ela nada valem.

“Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa ou como um cimbalo que tine” (1 Cor. 13, 1). (Ver o elogio da caridade feito por S. Paulo em 1 Cor. cap. 13.).

Para viver a doutrina

1. A verdadeira caridade quer o maior bem do próximo. No entanto, dizer mal do próximo, zombar, divulgar seus defeitos e faltas, não socorrê-lo nas necessidades espirituais, não ajudá-lo a sair do pecado ou das ocasiões perigosas – são faltas de todo dia. O meu amor ao próximo deve tomar novo incremento.

2. Toda gente se queixa da grande miséria espiritual do mundo moderno. Há no meio em que vivo indícios desta miséria? (Examinar e determinar). E eu tenho o dever de minorá-la. Converter a uns para a prática da Religião, chamar outros para a freqüência dos Sacramentos, cuidar de que todos vivam na graça divina – eis a missão da Ação Católica. Como poderei eu fazer isto? (Responder de modo prático, que encaminhe à ação).

3. A verdadeira caridade fraterna é fazer o próximo viver na graça santificante. Ora, há milhões de almas que nem conhecem o verdadeiro Deus. Que faço pelas Missões? Os missionários fazem um trabalho sobrenatural, mas precisam também de meios humanos para tratarem da conversão dos pagãos. Que posso eu fazer para ajudar aos missionários? (Responder de modo prático, que leve à ação).

4. Ao nosso lado há hereges – protestantes e espíritas. Afastados da verdadeira fé, errando o caminho da salvação. Sou obrigado a amá-los, interessando-me pela sua conversão e salvação. Tenho feito isto? Que posso fazer neste sentido? (Responder). Há um apostolado de preservação contra essas heresias: advertir os incautos contra as sessões, remédios e enganos do espiritismo; contra a propaganda (livros, revistas, pregações) protestante.

5. É a caridade uma das virtudes mais fáceis de praticar, desde que a tenhamos no coração. Não faltam ocasiões.

Em vez de palavras ásperas, palavras bondosas; em vez de zombarias que desagradam, um trato amável; em vez de rixas, união com todos; em vez de rivalidades, que provocam discórdias, humildade, que desfaz competições; em vez de maledicências e juízos temerários, dizer e pensar bem de todos. Há uma infinidade de pequenos serviços, há muitas ocasiões de proporcionar alegria, há inúmeros meios de mostrar gentileza que uma pessoa caridosa pode e sabe aproveitar.

6. É o amor aos inimigos um dos mais difíceis preceitos da caridade cristã. Longe de ser fraqueza, como pensa o mundo, é prova de grande valor moral. Sinal de força é o homem vencer-se, dominar os seus baixos instintos. A melhor prova de que isto é mais heroísmo do que fraqueza, é que muitos são capazes de odiar e vingar-se, poucos de perdoar e amar. Mas somos cristãos para seguir e imitar a Jesus Cristo.

7. Se somos obrigados a amar a todos, devemos no entanto respeitar a ordem na caridade. Nesta ordem há um ponto que devemos salientar: é a solidariedade dos católicos.

Preferir o médico, o advogado, o comerciante, o operário, etc., que comungam da mesma fé conosco é recomendação do próprio São Paulo: “Façamos o bem a todos, mas principalmente aos irmãos na fé” (Gl. 6, 10). (Que mal pode fazer numa família um médico sem religião?).

A preferência aos colégios e professores católicos é uma imposição da Igreja, por causa dos perigos que os anticatólicos trazem à fé.

8. Nunca nos devemos expor a perigo de pecar, mesmo para cuidar da salvação do próximo. Se a companhia de certo amigo me faz mal (mesmo que eu lhe faça algum bem), devo deixá-la. Se freqüentando certo divertimento corro perigo espiritual, devo abandoná-lo ainda que a minha presença evite alguns males. Se uma leitura me prejudica moralmente, ainda que me ilustre o espírito, sou obrigado a abandoná-la.

(O Caminho da Vida, pelo Pe. Álvaro Negromonte. 15ª edição. Pgs. 194-202). 

PS.: Agradeço a alma generosa que me enviou o texto. Deus lhe pague!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Pensamento do dia 09/02/2012


"Nem mesmo o mar poderá extinguir a caridade... 
Os seus ardores são incêndios de fogo e de chamas" 
(Cânt. VIII,16)

Belíssimo texto de São Francisco de Sales sobre a Providência Divina

Exortação à amorosa submissão que devemos 
aos decretos da Providência Divina


Amemos, pois, Teótimo, e adoremos em espírito de humildade essa profundeza dos juízos de Deus, a qual, como diz Santo Agostinho (Ep. 105), o santo Apóstolo não descobre, mas admira, quando exclama: "Ó profundeza dos juízos de Deus!" "Quem poderia contar a areia do mar, as gotas da chuva, e medir a largura do abismo? diz aquele excelente espírito que foi São Gregório de Nazianzo. E quem poderá sondar a profundeza da sabedoria divina, pela qual ela criou todas as coisas, e as modera como quer e entende? Porque, na verdade, basta que, a exemplo do Apóstolo, sem nos determos na dificuldade e obscuridade dela, a admiremos (Orat. de paup. Am. Ecli., I, 2.). Ó profundeza das riquezas e da sabedoria e da ciência de Deus! Oh! como seus juízos são imperscrutáveis, e seus caminhos inacessíveis! quem conheceu o sentimento do Senhor, e quem foi seu conselheiro? (Rom 11, 33-34). Teótimo, as razões da vontade divina não podem ser penetradas pela nossa mente, até que vejamos a face dAquele que atinge de ponta a ponta fortemente, e dispõe todas as coisas suavemente, fazendo tudo o que faz com número, peso e medida (Sab 8, 1; 11, 21), e ao qual o Salmista diz: Senhor, tudo fizestes com sabedoria (Sl 103, 24).

Quantas vezes nos sucede ignorarmos como e por que as próprias obras dos homens se fazem, "e disso, diz o mesmo santo bispo de Nazianzo, o artífice não é ignorante, ainda que nós ignoremos o seu artifício! Assim, por certo, também as coisas deste mundo não são temerária e imprudentemente feitas, ainda que lhes não saibamos as razões". Se entrarmos na loja de um relojoeiro, acharemos às vezes um relógio que não será maior do que uma laranja, no qual haverá todavia cem ou duzentas peças, das quais umas servirão ao relógio, e as outras ao bater das horas e do despertador; veremos nele rodinhas, das quais umas vão para a direita e as outras para a esquerda; umas rodam por cima e outras por baixo; e o balancim, que, a golpes medidos, vai balançando seu movimento para um lado e para outro; e nós admiramos como a arte soube juntar umas às outras tal quantidade de tão pequenas peças, com uma correspondência tão justa, não sabendo nem para que é que cada peça serve, nem para que efeito é assim feita, se o dono no-lo não disser; e somente em geral sabemos que todas servem para o relógio ou para o toque. Dizem que os bons Indús se divertirão dias inteiros junto a um relógio, para ouvirem bater as horas no tempo marcado; e, não podendo adivinhar como isso sucede, não dizem entretanto que é sem arte e sem razão, mas ficam enlevados de amor e de honra para com aqueles que governam os relógios, admirando-os como gente mais do que humana. Teótimo, assim vemos nós este universo, e sobretudo a natureza humana, como um relógio, composto de tamanha variedade de ações e de movimentos, que não nos poderíamos furtar à admiração. E bem sabemos em geral que essas peças, diversificadas em tantas sortes, servem todas, ou para fazerem aparecer, como num relógio, a santíssima justiça de Deus, ou para manifestarem a triunfante misericórdia da sua bondade, como por um toque de louvor. Mas conhecer em particular o uso de cada peça, ou como ela é ordenada ao fim geral, ou por que assim é feita não o podemos entender, a não ser que o soberano Obreiro no-lo ensine. Ora, se Ele não nos manifesta Sua arte, é a fim de que O admiremos com mais reverência até que, estando no céu, Ele nos extasie na suavidade da Sua sabedoria, quando na abundância do Seu amor nos descobrir as razões, meios e motivos de tudo o que se houver passado neste mundo em proveito da nossa salvação eterna.

Diz novamente o grande Nazianzeno:
"Nós nos assemelhamos aos que são afligidos pela vertigem ou tonteira. Afigura-se-lhes que tudo gira em confusão à volta deles, se bem que sejam o seu cérebro e a sua imaginação que giram, e não as coisas. Pois encontrando assim alguns acontecimentos cujas causas nos são desconhecidas, parece-nos que as coisas do mundo são administradas sem razão, porque não a sabemos. Creiamos, pois, que, como Deus é o autor e pai de todas as coisas também toma cuidado delas pela Sua providência, que envolve e abrange toda a máquina das criaturas; e sobretudo creiamos que Ele preside aos nossos negócios, ainda que a nossa vida seja agitada por tantas contrariedades, acidentes, cuja razão nos é desconhecida, talvez a fim de que, não podendo chegar a esse conhecimento, admiremos a razão soberana de Deus, que excede todas as coisas; porque, quanto a nós facilmente é desprezada a coisa que facilmente é conhecida: mas aquilo que excede a ponta do nosso espírito, quanto mais difícil é de ser entendido, tanto mais também nos excita a uma grande admiração. Certo, seriam bem baixas as razões da Providência celeste se nossas pequenas mentes pudessem atingi-las; seriam menos amáveis na sua suavidade, e menos admiráveis na sua majestade, se fossem menos afastadas da nossa capacidade". 
Exclamemos, pois, Teótimo, em todas as ocorrências, mas exclamemos com coração todo amoroso para com a Providência sapientíssima, poderosíssima e dulcíssima de nosso Pai eterno: Ó profundeza das riquezas, da sabedoria e da ciência de Deus! (Rom 11, 33). Ó Senhor Jesus, como são excessivas as riquezas da bondade divina! O Seu amor para conosco é um abismo incompreensível: foi por isso que Ele nos preparou uma rica suficiência, ou antes uma rica afluência de meios próprios para nos salvar; e, para no-los aplicar suavemente, Ele usa de uma sabedoria soberana, tendo pela Sua infinita ciência previsto e conhecido tudo o que era requerido para esse efeito. Oh! que podemos temer? antes, que não devemos esperar, sendo como somos filhos de um Pai tão rico em bondade para nos amar e nos querer salvar, tão sábio para preparar os meios convenientes a isso, e tão prudente para os aplicar, tão bom para os querer, tão clarividente para os ordenar, tão prudente para os executar?

Nunca permitamos aos nossos espíritos esvoaçarem por curiosidade em torno dos juízos divinos; porque, quais pequenas borboletas, nós queimaremos aí nossas asas, e perecemos nesse fogo sagrado. Esses juízos são incompreensíveis (Rom 11, 33), ou, como diz São Gregório Nazianzeno, são imperscrutáveis; quer dizer, não lhes podemos reconhecer e penetrar os motivos. Os caminhos e meios pelos quais Ele os executa e conduz ao fim não podem ser discernidos e reconhecidos; e, por melhor sentimento que tenhamos, nós falhamos a cada passo e lhe perdemos o rastro. Porque quem pode penetrar o sentido, a inteligência e a intenção de Deus? (Rom 11, 34). Quem foi seu conselheiro para saber os seus projetos e motivos? ou quem jamais o preveniu (Rom 11, 35) por algum serviço? Pelo contrário, não é Ele quem nos previne com bênçãos de Sua graça, para nos coroar na felicidade da Sua glória? Ah! Teótimo, todas as coisas são dele (Rom 11, 36), que lhes é o criador; todas as coisas são por Ele, que lhes é o governador; todas as coisas são nEle, que lhes é o protetor. A Ele seja dada honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém. (Ib.). Vamos em paz, Teótimo, pelo caminho do santíssimo amor; porque quem na morte tiver o divino amor, após a morte gozará eternamente do amor.

(Tratado do amor de Deus, São Francisco de Sales, Livro quarto, capítulo VIII)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pensamento do dia 08/02/2012


"Eu não sei o que o amanhã me reserva, 
o que sei é que a Providência se levantará mais cedo do que o sol"
(orador dominicano)

O ATEÍSMO pelo Papa Pio XII

O ATEÍSMO


A época atual, acrescentando novos erros aos desvios doutrinais do passado, levou-os a extremos dos quais se não podiam originar senão desorientamento e ruína. E antes de tudo, é certo que a raiz profunda e última dos males que deploramos na sociedade moderna é a negação e repulsa de uma norma de moralidade universal, quer na vida social e das relações internacionais, isto é, o desconhecimento, tão difundido nos nossos tempos, e o esquecimento da própria lei natural, que tem o seu fundamento em Deus, criador onipotente e Pai de todos, legislador supremo e absoluto, onisciente e justo vingador das ações humanas. Quando se renega Deus, abala-se toda a base de moralidade; sufoca-se ou, pelo menos, debilita-se de muito a voz da natureza, que ensina, até aos iletrados e às tribos alheias ainda à civilização, o que é bem e o que é mal, o que é lícito e o que é ilícito, e faz sentir a responsabilidade das próprias ações perante um Juiz supremo.

Pois bem, a negação da base fundamental da moralidade teve, na Europa, a sua raiz originária no afastamento daquela doutrina de Cristo, de que é depositária e mestra a Cátedra de São Pedro; doutrina que, em tempos idos, dera certa coesão espiritual à Europa, a qual educada, enobrecida e civilizada pela cruz, chegara a tal grau de progresso civil que a fizera mestra de outros povos e de outros continentes. Afastando-se, ao invés, do Magistério infalível da Igreja, não poucos chegaram até a subverter o dogma central do cristianismo, a divindade do Salvador, acelerando assim o progresso de dissolução espiritual.

Muitos talvez, ao se afastarem da doutrina de Cristo, não tiveram plena consciência de serem enganados pela falsa miragem de frases brilhantes que proclamavam tal afastamento como um libertar-se da escravidão a que julgavam estar antes sujeitos; nem previam as amargas conseqüências da triste permuta entre a verdade, que liberta, e o erro que escraviza; nem pensavam que, renunciando à infinitamente sábia e paternal lei de Deus e à unificadora e nobre doutrina de amor de Cristo, se entregavam ao arbítrio de uma pobre e mutável sabedoria humana. Falavam de progresso, quando retrocediam; de elevação, quando se degradavam; de ascensão à madureza, quando caíam na escravidão; não percebiam a vaidade de todo esforço humano em substituir a lei de Cristo por alguma outra coisa que a igualasse; tornaram-se fátuos nos seus arrazoados.

Enfraquecida a fé em Deus e em Jesus Cristo, ofuscada nos ânimos a luz dos princípios morais, fica a descoberto o único e insubstituível alicerce daquela estabilidade e tranqüilidade, daquela ordem externa e interna, privada e pública, única que pode gerar e salvaguardar a prosperidade dos Estados (1).

 (I) Encíclica "Summi Pontificatus", 20 de outubro, 1939.




No vórtice do progresso material, nas vitórias do engenho humano sobre os segredos da natureza e sobre as força dos elementos da terra dos mares e do céu, na ansiosa emulação de superar as metas atingidas pelos competidores, nas arengas das elucubrações ousadas, nas conquistas e no orgulho da ciência, da indústria, dos laboratórios e das oficinas, na avidez do lucro e do prazer, na tendência para uma força eminente, mais temida do que sopitada, mais invejada do que igualada, no tumulto de toda a vida moderna, onde encontra paz a alma humana, que é naturalmente cristã? Talvez saciando-se de si mesma? Porventura vangloriando-se senhora do universo, envolta na névoa da ilusão que confunde a matéria com o espírito, o humano com o divino, o momentâneo com o eterno? Não; nos sonhos inebriantes não se tranqüiliza a tempestade da alma e da consciência agitadas pelo ímpeto da mente que sobrepuja a matéria, e transpõe tudo, consciente de um destino imortal, irrecusável, em busca do infinito e em demanda de desejos imensos. Achegai-vos a estas almas interrogai-as. Responder-vos-ão com linguagem de criança, não de homens. Não tiveram uma mãe que a eles, crianças ainda, mostrasse um Pai no céu, cresceram entre paredes sem crucifixo, em casas mudas de religião, em campos distantes de um altar ou de um campanário; leram páginas com bem outros nomes, que aqueles de Deus e de Cristo; ouviram vituperar contra os sacerdotes e os religiosos; passaram do campo à cidade, do lar a oficina, ao bar, as aulas do saber, a toda arte e trabalho, sem freqüentar a Igreja, sem conhecer o pároco, sem um bom pensamento no coração.

São almas infelizes que não tiveram nos perigos dos primeiros anos quem as instruíssem, guiasse, corrigisse, as reafirmasse na fé e na piedade; ou se tiveram, a indiferença, o descaso, o mau exemplo dos companheiros, a efervescência da juventude, as distrações e as ocupações diárias obscureceram a lâmpada da fé e da prática religiosa, transviando o pensamento e debilitando a boa raiz, em árido tronco, que germinará novamente na hora da desventura ou ao calor de uma palavra amiga e piedosa ou no gélido ocaso da vida (2).

(2) Discurso aos dirigentes de Ação Católica, 3 de maio, 1951.




São bem conhecidos e patentes os perigos e estímulos espirituais e morais que ameaçam, mais que nunca, nas almas, os princípios cristãos de fé e de vida. Uma desordenada multidão de opiniões novas e contrastantes, impressões e estímulos de tendências más excitam as massas populares, penetram também entre porções, dóceis em tempos mais tranqüilos a deixar-se iluminar e reger pelas límpidas e sábias normas, e impõem à consciência cristã uma contínua e indefesa vigilância para permanecer fiel à sua retidão e vocação. Atraídas no vórtice e apaixonante turbilhão dos acontecimentos, muitas vezes as mentes correm o perigo de ter obnubilada e debilitada a faculdade da prontidão em julgá-lo segundo os indestrutíveis e puros ditames da lei divina. E no entanto o cristão, forte em sua fé, intrépido no próprio dever, deve encontrar-se preparado para participar nos acontecimentos, nos deveres e sacrifícios do dia, não menos solícito e pronto deve estar em recusar-lhes os erros; de modo que, quanto mais percebe adensarem-se as trevas da incredulidade e do mal tanto mais corajoso e logo - ainda em meio às provas - convém que se demonstre fazendo resplandecer a fúlgida luz de Cristo, guia aos errantes diretriz e orientadora para uma volta ao patrimônio espiritual por tantos esquecido ou abandonado. Forte aos eventos alheios, caminhará e avançará sem desviar-se na noite das trevas terrenas, terá porém o olhar voltado para as estrelas esplendentes no firmamento da eternidade consolante término e prêmio de sua esperança. Se duros e pesados serão os sacrifícios requeridos à humanidade, mais vigorosa e mais operosa nutrirá e alimentará no próprio ânimo a expansiva força do preceito divino do amor e a avidez, a ânsia de fazer deles o guia da própria intenção na ação. Não se dobrará, nem cairá pusilanimemente, diante da rudeza dos campos de combate; ainda quando as provas parecerem fechar toda via de escape, nas próprias provas sentirá crescerem-lhe as forças na proporção das necessidades e da grandeza de sua missão. E se o espírito soberbo de um materialismo ateu fizer esta pergunta: "Ubi est spes tua?" então, sem temor, nem do presente, nem do futuro, responderá com os justos do tempo antigo: "Nolite ita loqui; quoniam filii sanctorum sumus et vitam illam expectamus, quam Deus daturus est his, qui fidem suam nunquam mutant ab eo".

A fé e a fidelidade imutáveis para com Deus são o fundamento da esperança dos heróis cristãos, aquela esperança que não confunde. A todos aqueles que viram suas felicidades aqui embaixo esfacelarem-se e destruírem-se pela borrasca da guerra, aqueles que gemem presas de indizíveis sofrimentos exteriores e interiores, aos irmãos viventes e sofredores dos primeiros crentes em Cristo, Nós mostramos as fileiras dos heróis e das heroínas antigas e modernas; e gritamos com o Apóstolo das Gentes: "Fratres ... non contristemini, sicut et ceteri, qui spem non habent". Não é talvez consolação fortíssima a esperança a nós proposta, que temos como âncora segura e estável da alma, que penetra até além do velame do céu, onde entrou como precursor por nós Jesus? (3).

(3) Alocução ao Sacro Colégio, 2 de junho, 1940.

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Filantropia x Caridade

SOBRE A CARIDADE
pelo 
Papa Pio XII

São Vicente de Paulo
Caridade. Caridade é a palavra às vezes usada livremente para significar uma espécie qualquer de atividade benévola ou filantrópica. Mas caridade tem um significado sacro e consagrado. A caridade é diversa de qualquer outro amor humano porque é uma réplica do amor de Cristo para com o homem. "Dou-vos um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros" "que vos ameis um ao outro como Eu vos amei". Isto é caridade. São Paulo escreve aos Romanos (15, 7) "Ajudai-vos uns aos outros como Cristo vos ajudou para a glória de Deus". Isto é caridade.

Amar-vos-eis uns aos outros, disse Cristo, como Eu vos amei a vós - "não como amam aqueles que corrompem a inocência ou a fé" comenta o imortal Agostinho (ln Joannis Evang. trato 65 c 13 - Migne PL t. 35 col. 1808-1809); "não como os homens se amam uns aos outros, simplesmente porque são membros da mesma raça humana, mas como amam quantos sabem e professam que todos os homens são filhos de Deus, filhos do Altíssimo no qual se deve formar e aperfeiçoar à semelhança de irmão do único Filho gerado".

"Amar-vos-eis uns aos outros como Eu vos amei." E que coisa amou Cristo no homem, senão Deus? Não no sentido em que Ele encontrou Deus em cada homem, mas no sentido que Ele esperou, através do amor, restaurar Deus em cada homem. Diz-se que um doutor ama o doente; mas então que é que ele ama no doente? Certamente não a doença. Não, ele ama a saúde, que espera dar novamente ao paciente. A caridade significa que vos ameis reciprocamente de modo tal a levar Deus sempre mais na vida de cada um, de modo que ligados pelo Espírito do Amor divino possam colaborar na formação de um corpo não indigno da Cabeça divina.

A semelhança do viajante de que fala o Evangelho, a raça humana caiu entre ladrões que roubam os seus tesouros de fé e de amor e deixam-na perecer na necessidade.

Leigos do mundo avizinhai-vos deste grande inválido: E enquanto levais para ele o pão para nutrir o corpo e vos esforçais pessoalmente para providenciar às suas variadas necessidades, juntamente com o bom samaritano inclinai-vos e tentai gentilmente lenir suas feridas e verter sobre elas o óleo da mensagem consoladora de Cristo. Sussurrai no ouvido, de há muito talvez surdo ao conselho sacerdotal, palavras de encorajamento, de esperança e de paz e o exemplo do vosso amor cristão apressará o dia em que uma vítima amargurada pela dor ou pelo insucesso ou pela injustiça retornará àqueles que Deus constituiu guardiões e médicos das almas.

Oh, nós sabemos o imenso bem que as Conferências e as demais Caridades Cristãs estão fazendo em muitas paróquias e Nós as abençoamos de todo coração. A caridade, porém, não deve jamais olhar para trás, mas sempre para frente.

O número das obras realizadas é sempre pequeno enquanto que as misérias presentes e futuras que ocorre consolar, são sem fim.

Nós desejaríamos ver todos os jovens unidos na mente e no coração em alguma obra de caridade cristã. Não se trata de dar dinheiro: trata-se de dar a si mesmos. Tal apostolado reavivar-lhes-ia a fé, daria direção e estabilidade a uma correta atitude diante das coisas frívolas da vida, acordaria a potência do exemplo e contribuiria potentemente para remediar os males da desigualdade social e de raça.

Ó coração misericordioso de Jesus, verte o teu amor e conforto na vida dos pobres, dos sofredores, de quantos estão afligidos no corpo e na alma, de quantos são membros caros do Teu Corpo (1).

(1) Rádio-mensagem ao Continente Americano, 12 de outubro, 1947. 

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos.

PS.: Grifos meus.