segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Pensamento do dia 16/01/2012


"Em alguns momentos, só na oração aos pés da Cruz e ao lado de Maria tenho sossego."
(Hermano Rafael)

Preparação para o Matrimônio (Primeira Parte)


 "Tobias replicou: Ouvi dizer que ela já teve sete maridos, e que todos morreram. Diz-se mesmo que foi um demônio que os matou, por isso eu temo que o mesmo venha a me acontecer, a mim que sou filho único, e desse modo faça descer lamentavelmente a velhice de meus pais à habitação dos mortos.O anjo respondeu-lhe: Ouve-me, e eu te mostrarei sobre quem o demônio tem poder: são os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento, e se entregam à sua paixão como o cavalo e o burro, que não têm entendimento: sobre estes o demônio tem poder."
(Tobias 6,14-17)

Um provérbio afirma:
"Filhos pequenos - pequenos cuidados, filhos grandes - grandes cuidados".

Pena que não haja uma continuação: os cuidados são, com efeito, maiores, quando, já maiores, se tornam eles moços ou moças, e querem voar para fora do ninho doméstico, e construir um novo lar. É, na realidade, o instante em que o coração dos bons pais são dominados por uma grande ansiedade: será para a felicidade o casamento que seu filho ou sua filha quer contrair perante o altar?

Não há pais que deixem de pensar, com o coração opresso e angustiado, no futuro casamento de seus filhos. Há, porém, muitos, infelizmente, que se atêm a este sentimento confuso e angustiante, abandonando tudo ao acaso, em lugar de, por meio de uma educação sábia e previdente, assegurarem a felicidade futura desse casamento.

Os filhos devem ser preparados para o casamento, e quantos pais negligenciam esta educação. Ensinam-lhes a polidez e as boas maneiras, ensinam-lhes a se apresentarem com desembaraço e elegância, ensinam-lhes os esportes, a dança, a música, as línguas, mas só não cuidam de lhes ensinar uma coisa, e de grande importância: a realizarem um casamento feliz. Para a felicidade no matrimônio, há necessidade de uma preparação:

I) remota e II) próxima, e se nesta instrução indicamos, em linhas gerais, estas obrigações, é para que os pais se esforcem, graças a elas, por assegurar a paz e a felicidade no casamento de seus filhos.

I) Preparação Remota para o Matrimônio

Entre os meios de preparação remota para o matrimônio, insistimos principalmente sobre três pontos, absolutamente necessários para a educação dos filhos, em relação à felicidade de seu futuro casamento. São: o domínio de si mesmo, a simplicidade e a pureza.

            A) Preparam os seus filhos para um matrimônio feliz os pais que os educam, seriamente, a se dominarem. Creio não haver necessidade de grandes argumentos para prová-lo. Que é a vida conjugal? Uma comunidade de vida; ora, a vida comum não é possível, sem domínio sobre si, indulgência, e capacidade para perdoar.

A vida comum exige certamente muita indulgência, e domínio sobre si mesmo. E muitos dramas conjugais se originam justamente deste fato: os esposos, na sua infância, não aprenderam a se dominar, a respeitar a vontade alheia. Muito maior é este perigo para o filho único, que não tendo nem irmãos, nem irmãs, adquire o hábito de, em tudo e sempre, só se interessar por si mesmo.

Aquele, porém, que no casamento só se procura, buscando seus próprios interesses, suas próprias vantagens, e sua própria felicidade, não pode levar uma vida conjugal harmoniosa; pois sempre será tentado a ver, na sua união, apenas um objeto de prazer, um instrumento para garantir-lhe a própria satisfação. Ora, a base de uma vida conjugal harmoniosa é saber reconhecer o outro esposo como uma personalidade dotada de uma vontade própria, e tendo igualmente direitos, isto é, casar-se não para ser feliz, mas para tornar feliz, encontrando assim a felicidade própria.

            B) Não é menos importante, porém, sobretudo em nossos dias, educar também os filhos na simplicidade, na modéstia e na renúncia a toda pretensão.

a) Na realidade, reconhecemos com tristeza que, muitas vezes, o obstáculo ao casamento é a falta de colocação, de meios materiais para a subsistência, e a insuficiência de rendimentos! Esta é a verdade. É preciso, porém, acrescentar: não é só a exigüidade de rendimentos, que para muitos, hoje, impossibilita a fundação de uma família. Há um outro fator, as numerosas exigências de alguns. E agora, os meus ouvintes não me queiram mal se lhes digo francamente que, principalmente, certas mulheres é que são, hoje, muito exigentes.

De fato, hoje, o jovem, na idade de se casar, não tem, muitas vezes, rendimentos necessários para sustentar uma esposa, que apenas cuida de visitas, dancings, que precisa de manicure, cabeleireiro, que está à par das coisas de teatros, dos acontecimentos mundanos, nada conhecendo do governo da casa, nem da cozinha, e do cuidado dos filhos. Sim, quando os ordenados são modestos, modestas devem ser também as exigências.

Quando, ao contrário, um moço encontra uma jovem modesta, trabalhadora, discreta, que ao lado da instrução e da inteligência possui também o amor ao trabalho, e o espírito de economia, pode desposá-la corajosamente, ainda que seus rendimentos sejam módicos.

b) “Permiti-nos, porém, uma objeção, dirão talvez algumas moças. Se procedemos para com os moços de um modo tão atrasado, tão antigo, com maneiras de outro século, então, nunca nos casaremos. Observai que eles querem é se divertir, e certamente não o farão com moças simples e modestas, e sim com as que se pintam, que sabem namorar, procurando só o prazer!” Eis como se desculpam muitas excelentes jovens.

Se refletissem, porém, um pouco, veriam como não têm razão. De fato, os jovens gostam de se distrair, sim, com moças frívolas e "coquetes", mas não as querem por esposas. E como eles têm razão! Porque desposar uma jovem que não vê o sentido e o interesse da vida, senão em contínuas distrações é evidentemente caminhar para uma catástrofe.

E as moças que não são nem frívolas, nem irrefletidas, nem pintadas, nem ricas, mas sim amáveis e modestas, serão consoladas pela comparação espirituosa daquele escritor italiano que encontra analogia entre os diferentes relógios e os diversos gêneros de moças.

As jovens mundanas e coquetes assemelham-se aos relógios de torres: todos olham, mas ninguém as toca.
As jovens bonitas, mas frívolas, assemelham-se aos carrilhões: distraem, a princípio, mas por fim aborrecem.
As jovens ricas são semelhantes aos relógios de ouro: apenas são vistas; informa-se de seu valor.
As jovens, que muito falam, são como despertadores: fatigam os ouvidos. E as modestas? Estas são como os relógios que regulam bem: pode-se contar com elas.

Concluamos que os filhos educados na modéstia e na simplicidade tornam-se, mesmo em modestas condições de vida, esposos felizes.

            C) Ao lado do domínio de si e da simplicidade, e antes mesmo destes dotes, uma tarefa indispensável aguarda ainda o educador: Educar os filhos na moralidade e na pureza.

Qualquer que seja a idéia filosófica de um homem, quer ele pertença ao cristianismo ou outra religião, quer seja crente ou incrédulo, ele não poderá negar que a castidade e a continência total, na juventude, constituem a melhor preparação para o matrimônio e seu dote mais precioso.

A vida pura e casta é de grande valor cultural: é a escola incomparável da vontade, dá o espírito de disciplina indispensável à vida conjugal; aos céticos, que abanam incrédulos a cabeça, prova que a sensualidade não absorve, de modo algum, a existência de um homem, ainda mesmo rico. Tudo isto, nós já o sabíamos.

(...)

E como, neste ponto, os pais têm uma grave missão a cumprir com relação aos filhos, permiti-me mostrar agora minuciosamente este seu duplo dever.

a) Eis o primeiro: Pais, instruí vossos filhos! Na idade do crescimento, os rapazes e as adolescentes, sentem em si fenômenos até então desconhecidos; quem os guiará nesta idade crítica? Quem os ajudará a se compreenderem, e a compreenderem estas misteriosas transformações físicas e morais, pelas quais deverão passar, conforme a vontade do Criador? Esta é a missão dos pais.

Quem, senão a mãe de família, dirá a seu filho ou a sua filha, ao crescerem, o que significa esta nova e natural evolução fisiológica, que traz consigo uma condição nova, e que é preciso conhecer tranqüilamente e com uma santa emoção?

Quem, senão a mãe, dirá ao seu filho moço o que deve pensar das moças, e à sua filha moça o que deve pensar dos moços? Ela é quem deve cuidar desta planta, que brota na alma de seus filhos, e donde sairá o respeito ideal para com o outro sexo, as idéias cavalheirescas, o tato, as atitudes respeitosas de uma pessoa delicada.

E quem, senão o pai, dirá aos filhos já crescidos que não há duas espécies de moral, uma antes do casamento e outra durante o casamento? Que o noivo e a noiva estão sujeitos às mesmas leis morais, e que por sua vez o marido está obrigado às mesmas leis que sua esposa? Ah! se cada um compreendesse, se compenetrasse e observasse estas coisas, como os casamentos seriam mais felizes, mais harmoniosos e mais belos, e como os esposos e os filhos gozariam mais saúde! Sabeis quantas doenças terríveis desapareceriam da superfície da terra? Quantos dramas de mulheres em pranto, de mães decepcionadas, de esposas enganadas também se dissipariam? ...

Mas se alguns pais querem se subtrair a este dever, sob o pretexto de que é uma tarefa difícil e penosa, apresento-lhes, apenas, esta comparação: a alma infantil é como a erva que quer agarrar-se ao carvalho robusto a fim de subir pelo seu tronco. Se não encontra, porém o carvalho sobe por uma coluna cheia de teias de aranhas ou um tronco apodrecido. Sobe, mas depois compartilha da mesma sorte.

Pais, que me ouvis, repito-vos, instruí vossos filhos!

b) Ajudai vossos filhos, eis a segunda obrigação dos pais.

Aqui a ciência não basta. Tudo depende da força de vontade. Ajudai-os, pois, e obrigai-os a utilizarem-se de todos os meios naturais e sobrenaturais, que os auxiliarão a observar a continência e a pureza em sua juventude.

Os meios naturais são também necessários, como por exemplo, a nobreza da vida sentimental, a resistência física, a força de vontade. Fazendo mesmo tudo isto, não poderemos atingir a nossa meta sem o concurso dos meios sobrenaturais, sem a recepção dos sacramentos e uma vida profundamente cristã. Escutemos estas palavras de S. Agostinho: "Ó meu Deus, que Vosso amor me inflame! Vós me ordenais a castidade: dai-me fazer o que pedis, e pedi-me o que quereis" (Confissões, 10, 29).

Ante os sofismas do mundo atual, sedutor e mentiroso, ensinai a vossos filhos a fé e a confiança. A fé e a confiança capazes de conservar uma castidade perfeita até o matrimônio, pois Deus, que a exige, conhece também a natureza humana, seus instintos e seus desejos, assim como conhece a força da vontade do homem e da graça sobrenatural. Só obtém a verdadeira liberdade aquele que sabe vencer as exigências cegas de seus instintos. Grande é a força adquirida pelo jovem na luta para conservar sua pureza quando lhe mostramos sua missão: goza e prova as alegrias da vitória, que alcançarás se souberes te libertar da escravidão dos desejos pecaminosos, para subires à liberdade da pureza.

Eis com que prudência e amor devem os pais preparar seus filhos, desde jovens, para a felicidade do matrimônio.

(Excertos de Casamento e Família por Dom Tihamér Tóth, 1959)

PS.: Continua com a segunda parte: Preparação próxima para o matrimônio
PS.2: Grifos meus.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Pensamento da noite de 15/01/2012


"Ainda que tenhamos que combater contra as grandes tentações com ânimo inquebrantável e a vitória nos seja de suma utilidade, é todavia ainda mais útil combater as pequenas, cuja vitória por causa de seu número pode trazer tanta vantagem como a daqueles que venceram felizmente grandes tentações. Os lobos e os ursos são certamente mais para temer que as moscas; as moscas, porém, são mais importunas e experimentam mais a nossa paciência."
(São Francisco de Sales)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Pensamento da noite de 14/01/2012


"O homem é um ser complicado e afigura-se-me que se esforça por complicar-se ainda mais, mesmo nas suas relações com Deus. Deus, pelo contrário, é a simplicidade absoluta. Quanto mais complicados formos tanto mais estaremos afastados de Deus; todavia, na medida em que nos tornamos simples, poderemos aproximar-nos d'Ele."
(Por um cartuxo anônimo)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

FRUTOS DA SIMPLICIDADE


Virtude tão relevante, de tanto valor, que é como se fosse a substância da Escritura e do Evangelho, o próprio espírito da nova religião ensinada pelo Cristo, não podia deixar de tornar-se fecunda. E, na ver­dade, são admiráveis os frutos da simplicidade.

Demonstra-os o Evangelho e assim os resume: "Se vosso olho é simples, todo vosso corpo será luminoso; mas, se vosso olho for mau, todo vosso corpo ficará escuro."

Estas palavras nos trazem dois ensinamentos pre­ciosos e muito práticos.

Em primeiro lugar, é impossível agradar a Deus sem a simplicidade, ao menos em certo grau; pois, se os homens vêem as aparências, "o Senhor olha o cora­ção” (I Reis, XVI,7) isto é, a intenção que nos faz agir.

Se sois escravas da opinião alheia, dos preconcei­tos, do respeito humano, se vos deixais influenciar por uma palavra, um olhar, um sorriso, se agis para o mundo não podereis agradar a Deus, já não sois cristãs. “Se eu quisesse agradar aos homens, dizia São Paulo, não seria servo de Cristo." (Ep. Gal., I, 10)

Mesmo aquilo que intrinsecamente é lícito, sem a simplicidade não poderia agradar a Deus.

De acordo com a recomendação do divino Mestre: "Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos ho­mens, com o fim de atrair os olhares e merecer lou­vores", pois assim "já tereis recebido a vossa recom­pensa." (São Mateus, VI, 1)

Da mesma sorte, se agis por egoísmo, por amor próprio, por vã complacência ou satisfação pessoal, se, em resumo, vos atribuis o bem que fazeis ou as virtudes que praticais, já tereis perdido o merecimento aos olhos de Deus, "tudo colocastes num saco roto." (Aggeu, I,6)

Mesmo que vos entregásseis a múltiplas preces, a longas meditações, que fizésseis freqüentes comunhões, "mesmo que, como diz o Apóstolo (Ep. aos Cor., XIII, 2-3), tivésseis o dom da profecia e da ciência, e ainda que distribuísseis todos os bens aos pobres, entregásseis o corpo para ser queima­do", e mesmo que conseguísseis a admiração de todos pelas obras de caridade que praticais, se fazeis tudo isso para vós, se vossa intenção visa unicamente a vós, "se não tiverdes a Caridade" que só purifica a intenção, "tudo isto em nada vos aproveita", tudo está perdido para Deus e para vossa salvação. Vosso olho não é simples, vosso corpo não pode ser luminoso.

E mais, se nenhuma ação pode agradar a Deus sem que seja inspirada pela simplicidade, a ação mes­mo intrinsecamente boa torna-se má quando a inten­ção é má: "Se vosso olho é mau, todo vosso corpo fi­cará escuro."

Na realidade, o Evangelho nos recomenda que "deixemos brilhar a nossa luz diante dos homens para que vejam nossas boas obras"; acrescentando, porém: "para que glorifiquem o Pai que está nos céus." (São Mateus, V,16)
Devemos edificar o próximo por palavras, obras e ações; mas que isto não nos sirva de pretexto para a vaidade: "nossa intenção, diz são Gregório, deve estar oculta." (Homilia II o Evangelho de S. Mateus, leit. VII, cap.13) Tudo devemos atribuir a Deus e à Sua glória e não a nós.

Se é a nossa glória que procuramos e não a de Deus, aos olhos dEle o próprio bem se transforma em mal. É o que exprime São Vicente de Paulo com estas palavras: "Seria melhor que fossemos lançados de pés e mãos atados sobre brasa, do que fazer uma boa ação movidos pela vaidade."

Pela simplicidade, ao contrário, tudo se ilumina, tudo se transforma, tudo se torna belo e bom, tudo agrada a Deus.

Se vos inspira o sentimento do dever, se tendes em vista o bem das almas e, a glória de Deus, se pro­curais sinceramente a vontade do Pai que está nos céus, então tudo o que fazeis adquire valor sobrena­tural.

No dizer do Apóstolo: "se é santa a raiz, também os ramos o são." (Ep. Rom., XI, 16.) Os deveres de estado, os exercícios de piedade, as boas ações, as relações de família, as tristezas, as alegrias, as provações, os sofrimentos, a solidão, a inação forçada, em última análise, tudo, sem exceção, se torna santo e agradável a Deus pela pureza de intenção: "Se vosso olho é simples, todo vosso corpo será luminoso."

Quando o olho é simples, isto é, sem defeito e sem mácula, quando é sadio, a luz o penetra e ilumina bem todo o corpo e todos os movimentos.

Da mesma maneira, quando a alma é simples, isto é, sã, a luz divina a penetra. Podeis ver a Deus, compreendê-lO, tudo fazer nEle e para Ele: todas as vos­sas palavras, ações e pensamentos tornam-se bons e santos.

Ó admiráveis frutos da simplicidade! Ó sublime efeito da pureza de intenção!

As coisas deixam de ter valor próprio; valem ape­nas pela intenção que as inspira. Aos olhos de Deus, as duas pequenas moedas lançadas no cofre do templo pela pobre viúva do Evangelho pesam mais do que as grandes somas lançadas pelos ricos (São Marcos, XII, 41); e um copo d'água dado em nome de Jesus Cristo é o preço da eternidade. "Que importa, pois, diz santo Agostinho, que seja pe­quena a vossa bolsa? Muito podeis dar com o coração e a vontade, tudo fazendo só para contentar a Deus."

Até as ações mais vulgares e materiais podem tornar-se espirituais e santas. Como diz São Paulo: "Se comeis ou bebeis, fazei tudo para a glória de Deus." (I Ep. Cor., X, 32)

Afinal, aos olhos de Deus a intenção é dotada de tal valor intrínseca, que somente o desejo, quando sincero e verdadeiro, é julgado como o próprio ato.

Tenho a firme intenção de fazer um ato de carida­de; entretanto sou impedido por circunstâncias alheias à minha vontade. Minha intenção, aos olhos de Deus, tem o mesmo valor que a obra, pois a teria realizado caso de mim dependesse.
Dai se conclui a extrema importância das santas aspirações na vida espiritual e as incalculáveis rique­zas que podemos adquirir ao formulá-las.

Conta Santa Maria Madalena de Pazzi que viu São Luís de Gonzaga no céu, extraordinariamente, glorificado. E, como se admirasse de que um santo, que vi­vera tão pouco tempo, houvesse adquirido tantos mé­ritos, Deus lhe fez compreender que Luís conquistara essa glória excepcional pela intensidade e o ardor de suas aspirações, isto é, pela admirável simplicidade e pureza de suas intenções.

É pela simplicidade que "o justo, em pouco tem­po, enche a carreira de uma longa vida" (Sabedoria, IV, 13), pois vive unicamente para Deus e só se preocupa em agradar-Lhe.

A simplicidade transforma nossa vida em constante homenagem a Deus, sobrenaturalizando e santificando nossos atos, palavras e pensamentos, nossos desejos mais secretos e os menores movimentos do coração.

A simplicidade produz ainda outros frutos admiráveis.

Concede à alma dois bens excelentes, que, no dizer de Santa Teresa, são indispensáveis àqueles que se iniciam na vida espiritual: a alegria e a liberdade de espírito.

A mais generosa das almas, quando não é simples, atormenta-se, agita-se e facilmente se desalenta.

A própria generosidade muita vez é causa de escrúpulo e, sob pretexto de delicadeza, ilude-lhe a consciência. “Estarei enganada? Ter-me-á Deus perdoado? Será este o meu dever? Estarei no bom caminho?” Continuamente, formula mil perguntas que a perturbam e a desorientam.

A auto-análise prejudica-lhe a visão clara das coisas. Não tarda a cair em profunda tristeza e fatal desânimo.

Esses perigos não existem para a alma simples, porque olha a Deus mais do que a criatura e se coloca acima de tudo o que confunde, fatiga e exaspera aquela que não é simples.

Como exemplo da primeira, o Evangelho nos apre­senta Marta, agitada, apressada e sobrecarregada de ocupações. A alma simples é representada por Maria, serenamente sentada aos pés do Mestre, bebendo-Lhe as palavras e só pensando em agradar-Lhe. A alma simples encontrou "a melhor parte, a única coisa ne­cessária:" pertence exclusivamente a Deus.

Está sempre calma e tranqüila, não se preocupa consigo, não dissimula nem é hipócrita, não conhece subterfúgios, duplicidade ou respeito humano. Fala como pensa, tem o coração sempre aberto; segue dire­tamente seu caminho sem agitação ou inquietude; tem o espírito livre, o coração cheio de paz e alegria. A derrota, o desprezo, a maledicência, as provações, até as próprias quedas, pecados e imperfeições, nada no mundo pode perturbá-la. Encontrou: "a paz que Jesus dá... a alegria que ninguém pode tirar."

Num drama moderno, narra-se a história de uma princesa que não era feliz, embora morasse num cas­telo maravilhoso e vivesse coberta de diademas, jóias, pedras preciosas e adornos suntuosos: sua alma tinha aspirações mais elevadas; material e moralmente sen­tia-se esmagada pelo luxo que a cercava. Um dia, ao sair com tão brilhante aparato, encon­trou um bando de pobres andrajosos: homens, mulhe­res e crianças, pálidos e famintos. Comovida e apiedada, teve súbita inspiração e, num generoso impulso, dis­tribuiu entre os infelizes os tesouros e objetos precio­sos que a adornavam, exclamando: "Ah, como agora me sinto leve e feliz!"

A simplicidade desembaraça a alma do peso, às vezes esmagador, das coisas mundanas: liberta-a das vãs preocupações, tão difíceis de suportar. Torna a alma leve, independente e alegre. Outro efeito da simplicidade é fazer-nos sinceros, e mais ainda cortar pela raiz o mais temível dos males para o progresso da alma: a ilusão.

Referindo-se às ilusões (Conférences Spirituelles, Illusions) Padre Faber, esse pro­fundo psicólogo, depois de nos haver mostrado a extensão da ruína que causam no domínio da vida espi­ritual, declara que a simplicidade é o único remédio para esse mal terrível e universal.

As almas que mais se analisam não são as que melhor se conhecem nem, principalmente, as que mais depressa se corrigem. O repetido exame de uma ferida, para observar-lhe a cura, caba por piorá-la pela irritação.

Ao contrário, a alma que olha Deus, prontamente, atinge ao conhecimento de si mesma e, melhor ainda, consegue renunciar-se inteiramente.

Deus é verdade: contemplando-O sem cessar, a alma torna-se semelhante a Ele. A alma simples se conhece ao primeiro olhar; e quando, em horas de fadiga e esquecimento, acontece-lhe roçar a terra, assim que o percebe, ergue-se num bater de asas e sobe depressa às mais altas regiões, donde descera num momento de negligência.

A alma simples se conhece porque conhece a Deus, que é pura luz e que lhe esclarece a consciência. À medida que procura e ama a Deus, aprende a des­prezar-se e a fugir de si mesma.

Quando sincera, a alma simples é também gene­rosa para vencer-se. A maioria de vossos defeitos provém da falta de simplicidade. Se vos deixais levar pela inveja e pelo ciúme, se estais inquietas, atormentadas por desejos violentos, por afeições humanas demasiado absorven­tes, colocai-vos do lado oposto à simplicidade, pois somente olhais a criatura, enquanto a simplicidade contempla a Deus.

A simplicidade torna a alma generosa; unifica-lhe as ações, fortifica-lhe a coragem, aquece-lhe e aviva-lhe o ardor. Impele-a aos mais nobres empreendimentos e jamais permite que se canse. Da mesma forma que a pomba ao cortar o espaço nos dá a impressão de não mais se esforçar, parece que nada custa à alma simples, e que Deus a conduz e Ele próprio realiza tudo o que ela faz de grande: fecit mihi magna qui potens est... Porque me fez grandes coisas, o que é Todo-Poderoso (São Lucas, I, 49).

A simplicidade edifica o próximo, porque é a ori­gem do bom caráter, da serenidade, da benevolência, da afabilidade, de todas as virtudes atraentes e agradáveis que encantam e repousam, inspiram confiança e fazem verdadeiro bem.

A alma que não é simples tem sempre algo de egoísta e de pessoal, que transparece involuntariamente e transpira na aparência, nas atitudes, nos gestos, nas palavras e nas ações.

A alma simples nos desorienta, tão grande é a sua humildade e abnegação. Faz-nos sentir e encontrar a Deus. Junto dela, estamos em segurança. Não a podemos ver e dela nos aproximar, sem que nos tornemos melhores. A alma simples não tem conhecimento do bem que faz ou se admira de o haver praticado. E este bem é tanto maior quanto menos o percebe, crescendo, ainda, à medida que ela se identifica com Deus. Todas as suas obras são abençoadas, porque feitas no espírito de Deus e pelo Seu amor.

Enfim, é inexprimível a alegria que a alma simples dá a Deus e a glória que Lhe procura. Porque faz constantemente a vontade de Deus em todos os momentos do dia e da noite, santifica Seu nome e aumenta Seu Reino.

Até seu repouso e seu sono tornam-se um hino em louvor ao Altíssimo, pois se “dorme, seu coração vigia” (Cântico V,2), sempre, com perseverante pureza de suas intenções.

Casta pomba, ela arrebata sem cessar o coração do divino Esposo; e, depois de haver esvoaçado o dia inteiro, repousa e estabelece a sua morada na santa chaga que Ele recebeu por nosso amor.

(A Simplicidade segundo o Evangelho, Instruções às senhoras e jovens por Monsenhor de Gibergues, 1945)

PS.: Grifos meus.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Acerca da esperança temerária da salvação


I. Como podes tu, Minha filha, esperar salvar-te enquanto não cessares de seguir o caminho que te conduz a perdição? Entre esse grande número de jovens cristãs que agora estão no inferno nenhuma queria ir para lá; pelo contrário, esperavam o paraíso. Mas uma foi surpreendida repentinamente pela morte em estado de pecado; outra por causa das suas grandes iniqüidades, muitas vezes renovadas, privada justamente dessas graças particulares tão necessárias para uma verdadeira conversão; aquela cativada pelo prazer criminoso que o pecado apresenta, não tendo sabido nem querido retirar-se da senda da perdição para onde corria dizendo: Ainda mais esta vez, ainda esta vez, depois cessarei: - aquela outra, deixando-se cegar pelo demônio a ponto de se persuadir que no momento da morte poderia reparar tudo por uma boa confissão. Ei-las todas precipitadas nos abismos onde são, para Deus, e para Mim, objeto de uma eterna inimizade.

São inumeráveis, ó Minha querida filha, as ciladas armadas pelo inimigo, e desgraçado de quem se não aplica a evitá-las. São terríveis os julgamentos de Deus, e desgraçado de quem abusa da Sua bondade para ofender com mais audácia. Se para a salvação, ó Minha filha fosse suficiente o desejo dela ninguém iria para o inferno, porque ninguém é tão louco que queira condenar-se.

Mas o desejo não basta, se se não vive de modo a merecer o céu. Portanto quem te tornará digna dele, ó Minha filha? Será a dissipação, as vaidades, as imodéstias, as conversações livres? serão a tua alegria folgazã, a tua língua desenfreada, a tua desobediência, a tua indocilidade, a tua indevoção? Ah! eis aí o caminho que conduz à perdição! tu segue-o, corres nele e queres gabar-te de te salvares! Caminhando para o inferno aspiras chegar ao céu. Que loucura e que cegueira.
           
II. As ilusões de que o demônio se serve para te cegar e que lhe tem bom êxito junto de muitas outras, é a esperança de se converterem à hora da morte e fazerem nesse momento uma boa confissão que faça obter a salvação. Ah! esperança desarrazoada, ou antes, temerária presunção que tem precipitado tantas no inferno. Se tu não te confessas bem agora, como poderá aplicar-te a isso? O inimigo infernal, redobrando com fúria os seus ataques, porá tudo em campo para te excitar a abandonares-te ao desprezo, umas vezes exagerando a enormidade das tuas culpas, outras fazendo-te ver a Deus inexorável para com elas. Mas quando mesmo tivesses bom êxito em te confessar, farias verdadeiramente um boa confissão? Carecias para teres essa ventura uma graça das mais notáveis. Mas porque razão te concederia Deus essa graça? Para recompensar-te os pecados cometidos durante toda a sua vida? Por teres sempre abusado da graça quando tu podias e devias aproveitá-la?

Ah! Minha filha, não experimentes a Deus. Escuta a Sua voz que te chama. Aproveita bem o tempo presente não reserves a tua salvação para essa hora de agonia em que o tempo te faltará. Cada um recolhe no momento da morte o que semeou durante a vida. Aquele que durante a sua vida não tiver semeado senão a iniqüidade, não poderá recolher na morte senão frutos amargos de condenação. Vós Me procurareis, dizia Meu divino Filho aos pecadores obstinados no vicio, vós Me procurareis nesse momento terrível, mas não Me encontrareis e morrereis com o vosso pecado. Não retardes, pois de dia para dia, ó Minha filha, entregar-te a Deus, senão queres por fim ser surpreendida pela Sua cólera e se não queres condenar-te.

III. Considera Minha filha, uma outra causa fatal pela qual muitas têm sido condenadas, não obstante a vontade de salvarem, que poderia chegar-te também. Elas têm cogulado a medida dos seus pecados no momento mesmo em que menos nisso pensavam. Deus fez tudo com peso, número e medida. Contou todos os dias, todas as horas da tua vida, todos os teus passos, todas as tuas respirações, todos os cabelos da tua cabeça, e nenhum deles pode cair sem a Sua permissão.

Cada palavra frívola pronunciada pelos homens será examinada no dia do Julgamento disse o Meu divino Filho aos fariseus. Se, portanto as palavras frívolas que tens pronunciado em tão grande número durante o dia forem julgadas severamente, quantas serão imodestas, más, injustas! Aquele que toma conta dos cabelos da nossa cabeça, tomará mais conta dos pecados que perdoa e das graças que quer fazer. Ora essas desgraçadas têm cometido tantos pecados, que chegaram enfim a esse ponto fatal onde as esperava a justiça divina. Cortando-lhes então o fio da vida, precipitou-as no inferno.

Podes tu dizer agora, ó Minha filha, que não tens cometido ainda bastantes pecados? Não temes fatigar a misericórdia divina? Desgraçada de ti se repletas a medida dos teus pecados. A justiça ocupará, então o lugar da misericórdia, e a paciência cansada trocar-se-á em furor. Ó Minha filha! quantos foram vítimas da justiça divina por não terem querido aproveitar a misericórdia que os esperava se se tivessem arrependido! Quantos não têm tido tempo de lançar os seus olhares para o céu que tinham sempre desprezado!

Ah! pensa que o primeiro pecado que cometeres poderá ser aquele que cogulará a medida e te enviará para o inferno.

Afeto. Tenho, pois sido eu mesma augusta Rainha do céu, uma dessas almas enganadas. Não é senão verdade! os atrativos dum prazer criminoso têm-me feito cometer o mal; surda às censuras da razão e aos gritos da consciência. Deus iluminou-me com a Sua luz e desprezei-a; a Sua voz chamava-me ao arrependimento, eu fechei obstinadamente os ouvidos a fim de continuar os meus desvarios com a confiança que poderia um dia repará-las por meio da confissão Não refletia no tesouro de cólera que se amontoava sobre mim para o dia das vinganças divinas, não refletia que quanto mais me abandonasse às minhas paixões, mais elas imperavam sobre mim, mais o demônio me cingia com os seus laços, mais me tornava indigna duma graça de que carecia para uma verdadeira conversão, mais aumentava as dificuldades dum sincero arrependimento.

Ai! quanto está crescida a medida das minhas iniqüidades! Quanto devo temer que ela esteja no momento de ficar repleta! Ó Deus justíssimo e misericordiosíssimo de que modo apareceria perante o Vosso tribunal terrível, se Vós me tivésseis notificado isso antes das reflexões que hoje faço? Bastavam as minhas palavras frívolas criminando-me, para ser imensa a multidão dos meus pecados.

Ó Mãe Santíssima, se não visse em meu Jesus crucificado um Pai compassivo de quem os braços estão sempre abertos para acolher-me sobre o Seu coração; se não achasse em Vós um socorro poderosíssimo, teria alguma razão de desesperar da minha salvação. Quero sem demora dum instante aplicar-me o remédio que se me oferece. Ligada a Cruz de Jesus Cristo, ligada a Vós, espero obter misericórdia para as culpas passadas, e força e graça para não mais as cometer para o futuro.

(Maria falando ao coração das donzelas pelo Abade A. Bayle, 1917)
PS.: Grifos meus.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Pensamento da noite de 11/01/2012


"Como há de ser então a nossa oração? Inteiramente simples. Tão simples quanto possível. Pôr-nos-emos de joelhos e faremos com todo o nosso coração os atos de fé, esperança e de caridade. Não há método de meditação mais seguro, mais elevado e mais salutar." 
(Por um cartuxo anônimo)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pensamento do dia 10/01/2012


"Hubo un tiempo en que busqué al hombre..., busqué su consuelo, busqué a Dios en la criatura..., vana ilusión..., cuánto me ha hecho sufrir. Ya no espero nada de los hombres... ¿Qué me pueden dar?"
(Hermamo Rafael, livro Saber Esperar)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Pensamento da noite de 09/01/2012


"A fé é um guia severo e infalível; ignora as concessões e os cálculos, não mede os obstáculos: por detrás do véu das aparências, adivinha já a verdade eterna, a vitória de Jesus: 'Eis a vitória que vence o mundo: a nossa fé' (I João 5, 4). A despeito de todos os fatores humanos que tentam atrasar ou diminuir o seu vigor, ela mantém-se firme na esperança, como o Apóstolo dizia do Patriarca Abraão: 'Não hesitou, apoiou-se na sua fé, esperou contra toda a esperança' (Rom., IV, 18-20)." 
(Por um cartuxo anônimo)

domingo, 8 de janeiro de 2012

Pensamento da noite de 08/01/2012


"Devemos dizer ainda mais: para uma alma que se certifica do seu nada e do tudo de Deus, nem as fraquezas nem as derrotas devem ser obstáculo; transformam-se em meios, são a ocasião propícia para a fé se acrescentar pelo ato heróico, e para a confiança triunfar em face da derrota evidente de tudo o que não leva a Deus: 'Eu me glorificarei nas minhas fraquezas - diz o Apóstolo - para que habite em mim a força de Cristo' (II Cor., XII, 9)."
(Por um cartuxo anônimo)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pensamento da noite de 07/01/2012


"A dificuldade da oração está em saber recolher-se. Uma vez conseguido, o resto é fácil. A oração não é complicada. Nós é que complicamos e temos de lutar para nos simplificarmos, para atingirmos a simplicidade essencial (...) É bom que procuremos tapar as fendas por onde o recolhimento se esvai, mas é bem melhor acender uma fogueira no meio do nosso coração para que nenhum frio possa tolher a vitalidade interior da nossa alma. 'O amor, diz São João da Cruz, nunca está ocioso, mas em contínuo movimento. Tal como a chama, anda a lançar sempre as suas labaredas aqui e além'".
(Por um cartuxo anônimo)

O Espírito Santo e a Simplicidade


De tudo o que foi dito, resulta ser a simplicidade essencialmente um dom do Espírito Santo; ou melhor, o dom por excelência, pois é o Espírito de Deus em substituição ao espírito do homem. Trata-se de morrer para si e de viver para Deus. A simplicidade é o Espírito de Deus no Cristo, e, pelo Cristo, em nós, para que "nós vivamos... não mais nós, mas o Cristo em nós...” (Epist. aos Gálatas, II, 20)

O Evangelho afirma-o de modo claro, quando mostra a pomba simultaneamente como símbolo do Espírito Santo e da simplicidade; e é sob essa forma que, no Jordão, o Espírito Santo desce sobre Jesus.

A devoção ao Espírito Santo, tão negligenciada pelos fiéis e incompreendida por um grande número, é, pois, o meio por excelência de alcançar a simplicidade.

O Espírito Santo está em cada um de nós. Pelo batismo, desceu em nós, como em Jesus no Jordão; e na confirmação o recebemos em plenitude. O Espírito Santo não veio transitoriamente: veio residir e permanecer em nós, como o atesta o caráter especial que nos imprimiu cada um destes dois sacramentos.

Mais ainda, permanecendo em nós, o Espírito Santo quer agir em nós; toda a graça, todo o sopro, todas as inspirações do Espírito Santo tendem a formar-nos a Sua imagem, a tornar-nos simples como Ele. Demonstra-o a Escritura, quando diz: "Todos os que são movidos pelo espírito de Deus, esses são filhos de Deus." (Epístola aos Romanos, VIII, 14.)

O Filho é a imagem e a semelhança do Pai. Agindo pelo espírito de Deus, tornar-nos-emos semelhantes a Deus assim como o Filho ao Pai; seremos um, com Eles e como Eles.

Mas, sem a nossa cooperação, o Espírito Santo não pode agir em nós. Precisamos adaptar-nos a Ele, seguir Suas inspirações e, Seus movimentos. Quando pecamos, vamos contra Ele, entristecemo-lO; podemos mesmo fazê-lO extinguir-Se em nós. Podemos também paralisá-lO, impedi-lO de agir, neutralizar Sua força.

Para alcançar a simplicidade e fazê-la crescer cada dia, é preciso deixar-nos conduzir pelo Espírito Santo, cooperar em Sua obra, trabalhar com Ele, e, com a mesma finalidade, enfim, entregar-nos a Ele sem reservas e sem arrependimentos.  

Então, o Espírito Santo, cada dia, crescerá em nossa alma, enquanto diminuiremos na mesma proporção. Cada vez mais nos revestiremos dEle e nos despiremos do espírito do mundo, que é Seu inimigo mortal.

Todo o progresso da simplicidade depende, em última análise, do trabalho vitorioso do Espírito Santo em nossos corações. Esta é Sua obra predileta, poder-se-ia até dizer, Sua única obra, tanto é básica e essencial e tanto as outras com ela se relacionam e dela dependem. A simplicidade é, verdadeiramente, a vida do Espírito Santo em nós. Quando uma alma não age senão pelo Espírito de Deus, é perfeitamente simples: Filha de Deus, é toda semelhante ao Pai e, de modo absoluto, una e simples como Ele.

Que o Espírito Santo se torne, pois, Senhor em nós: o Senhor de nossos pensamentos, sentimentos, julgamentos, afeições, vontade, atos, de toda a nossa vida; o Senhor amado com supremacia, ouvido com obediência, sempre seguido com fidelidade!

Ó Deus, ó nosso Pai, enviai-nos o Vosso Espírito! Ó Jesus, em nome da promessa que nos fizestes, fazei-O descer em nossas almas!

Que em nós trabalhe! Que em nós tudo renove! Que nos crie um coração novo, uma alma nova, um ente novo, que não seja nascido da carne nem do sangue, mas da vontade de Deus; um ente em que nada mais exista de mau, mas em que tudo seja reto e bom, em que tudo seja simples, porque tudo será de Deus e para Deus!

Ó Espírito Santo, glorificai o Pai e o Filho, glorificai-Vos, refazendo as criaturas à Vossa imagem e dando-lhes a plenitude da simplicidade!

"Quando vos houver deixado, vos enviarei o Espírito Santo...” (São João, XlV, 7).

(A Simplicidade segundo o Evangelho pelo Monsenhor de Gibergues, 1945)

PS.: Grifos meus.