terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ato de Desagravo ao Sagrado Coração de Jesus

Ato de Desagravo ao Sagrado Coração de Jesus 
(Especialmente para a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus
e para a primeira Sexta de cada mês) 


Dulcíssimo Jesus, cuja infinita caridade para com os homens é deles tão ingratamente correspondida, com esquecimentos, friezas e desprezos, eis-nos aqui prostrados diante do Vosso Altar, para Vos desagravarmos com especiais homenagens, da insensibilidade tão insensata e das nefandas injúrias com que é de toda a parte alvejado o Vosso amorosíssimo Coração. 

Reconhecendo, porém, com a mais profunda dor, que também nós, mais de uma vez, cometemos as mesmas indignidades, para nós, em primeiro lugar, imploramos a Vossa Misericórdia, prontos a expiar não só as próprias culpas senão também as daqueles que, errando longe do caminho da salvação, ou se obstinam na sua infidelidade não Vos querendo como Pastor e Guia, ou, conculcando as promessas do Batismo, sacudiram o suavíssimo jugo da Vossa Santa Lei. 

De todos estes tão deploráveis crimes, Senhor, queremos nós hoje desagravar-Vos, mas particularmente da licença dos costumes e imodéstias do vestido, de tantos laços de corrupção armados à inocência, da violação dos dias santificados, das execrandas blasfêmias contra Vós e Vossos Santos, dos insultos ao Vosso Vigário e a todo o Vosso Clero, do desprezo e das horrendas e sacrílegas profanações do Sacramento do Divino Amor e, enfim, dos atentados e rebeldias oficiais das nações contra os direitos e o Magistério da Vossa Igreja. 

Oh! Se pudéssemos lavar com o próprio sangue tantas iniqüidades! 

Entretanto, para reparar a Honra Divina ultrajada, Vos oferecemos, juntamente com os merecimentos da Virgem Mãe, de todos os Santos e almas piedosas, aquela infinita satisfação que Vós oferecestes ao Eterno Pai sobre a Cruz, e que não cessais de renovar todos os dias sobre os nossos Altares. 

Ajudai-nos, Senhor, com o auxílio da Vossa Graça, para que possamos, como é nosso firme propósito, com a viveza da Fé, com a pureza dos costumes, com a fiel observância da Lei e caridade evangélicas, reparar todos os pecados cometidos por nós e por nossos próximos, impedir por todos os meios novas injúrias de Vossa Divina Majestade e atrair ao Vosso serviço o maior número de almas possível. 

Recebei, ó benigníssimo Jesus, pelas mãos de Maria Santíssima Reparadora, a espontânea homenagem deste nosso desagravo e concedei-nos a grande graça de perseverarmos constantes até a morte no fiel cumprimento dos nossos deveres e no Vosso santo serviço, para que possamos chegar todos à Pátria bem-aventurada, onde Vós com o Pai e o Espírito Santo viveis e reinais, Deus, por todos os séculos dos séculos. Assim seja. 

- Indulgência parcial -

(Retirado do livro "Adoremus: Manual de Orações e Exercícios Piedosos", de Dom Eduardo Herberhold, OFM, 1926, 15ª edição)

Consagração do Gênero Humano ao Sacratíssimo Coração de Jesus

Consagração do Gênero Humano 
ao Sacratíssimo Coração de Jesus 
(Especialmente para a Solenidade de Cristo Rei) 


Dulcíssimo Jesus, Redentor do gênero humano, lançai um olhar favorável sobre nós, que humildemente estamos prostrados ao pé de Vosso Altar. 

Nós somos e queremos ser Vossos; mas, para que possamos ser unidos a Vós por laços mais íntimos, neste dia cada um de nós se consagra espontaneamente ao Vosso Sacratíssimo Coração. 

Muitos homens jamais Vos conheceram; muitos Vos desprezaram transgredindo os Vossos preceitos. 

Tende compaixão de uns e de outros, ó amabilíssimo Jesus, e atraí-os todos ao Vosso Sagrado Coração. 

Sede o Rei não só dos fiéis que nunca se afastaram de Vós, mas também dos filhos pródigos que Vos abandonaram. Fazei que estes voltem depressa à casa paterna, para não morrerem de miséria e de fome. 

Sede o Rei daqueles que estão dominados pelo erro ou separados da Igreja pelo cisma. Conduzi-os ao porto da Verdade e à unidade da Fé, para que em breve haja um só rebanho e um só pastor. 

Sede o Rei de todos os que estão mergulhados nas antigas superstições dos gentios ou enredados na doutrina capciosa do Islamismo, e não recuseis arrancá-los às trevas para os conduzir à luz e ao reino de Deus. 

Volvei, enfim, Vossos olhos misericordiosos para os filhos de Israel, que por tanto tempo foram o Vosso povo escolhido: fazei descer sobre estes esse Vosso Sangue que outrora foi invocado sobre eles, a fim de que seja-lhes fonte salutar de redenção e de vida. 

Dai, Senhor, à Vossa Igreja salvação, bonança e liberdade. Concedei a todas as nações paz e ordem, e fazei que de uma extremidade da terra à outra ressoe uma só palavra: Louvor ao Coração Divino, que nos deu a Salvação; a Ele sejam dadas honra e glória por todos os séculos. Amém. 

(Indulgência parcial)

(Retirado do livro "Adoremus: Manual de Orações e Exercícios Piedosos", de Dom Eduardo Herberhold, OFM, 1926, 15ª edição)

sábado, 27 de agosto de 2011

As más línguas (Conselho para as esposas)

As más línguas
Conselho para as esposas


Uma das causas de muitas desavenças, mais ou menos graves, na família, são as más línguas, ou antes, o mau uso da língua. Dizem que é esse o fraco do belo sexo. 

Sem nos pronunciarmos a respeito dessa afirmativa, limitamo-nos, em assunto tão delicado e melindroso, a dar ás senhoras casadas alguns avisos que julgamos de utilidade prática. Visamos, claro está, apenas aquelas que não sabem refrear esse tão pequenino órgão que Deus nos concedeu, para que louvássemos o Seu santo nome, cantássemos as Suas glórias e comunicássemos com os nossos semelhantes. 

No batismo, a língua recebe o sal da sabedoria e, na sagrada comunhão, tem a insigne honra de servir de altar ao Deus de toda a santidade, antes de baixar ao nosso peito. Merece, portanto, grande cuidado da nossa parte. 

Muito importa que as senhoras aprendam desde cedo, a arte de se servirem bem da língua. E por quê? Porque muitas vezes a mulher deita a perder tudo, por falar antes do tempo, por falar com precipitação, por falar alto, enfim por falar muito e mal. 

Suponhamos um marido que não seja lá o que devia ser; que beba um ou dois copos demais; que volte para casa tarde; que seja um pouco ou muito impertinente; que tenha enfim todos os defeitos, sem nenhuma qualidade boa; dizei-me, que ganhará a mulher com resmungar, gesticular, gritar e descompor? 

Que lucrará, pondo-se a injuriar aquele pobre homem, já de si tão infeliz, com tantos defeitos, para que venham ainda amesquinhá-lo com um libelo, em que certas mulheres levam vantagem a qualquer promotor da justiça pública? 

Ora, vamos, minhas senhoras; raciocinemos um pouco:

1º - Não faleis antes do tempo

Malha-se o ferro em quanto está quente, diz o adágio popular; mas isso vale do ferro que se deixa malhar sem um protesto e é singularmente maleável, quando quente. O mesmo, porém, não se dá com o marido.

Quando a cólera lhe pôs o cérebro em ebulição e a bebida lhe subiu à cabeça; quando foi mal sucedido em algum negócio ou se vê assoberbado pelos muitos afazeres, aceitai o meu conselho: não digais nada, não resmungueis e, sobretudo, não griteis. Ao contrário, consolai-o, dizendo-lhe uma palavra de conforto mostrai-lhe enfim, que sua mulherzinha partilha com ele todas aquelas apreensões. Se, a vossa língua ameaçar revoltar-se, tomai um copo de água e ide bebendo gole a gole, até afogar a revolta. 

- Mas, então, não poderei fazer-lhe observação alguma? 
- Sim, mas esperai que passe a tormenta e que o vosso marido volte à calma; esperai até amanhã e então, em termos muito comedidos, afável e persuasiva, mas breve - os homens não gostam de sermões; muito compridos, máxime feitos por mulheres - suplicai-lhe, pelo amor que deve aos filhos, que sacrifique aquele vício, origem de tantas desavenças e misérias. Sob a forma de pergunta, dai-lhe algum bom conselho que vos ocorra, mesmo sobre a direção dos seus negócios. 

Experimentai, minhas senhoras, e vereis os admiráveis efeitos desta receita. O pobre homem não se corrigirá de uma só vez, tornará a cair ainda, mas, sede generosa e perdoai-lhe de alma grande, porque "o espírito está pronto, mas a carne é fraca". Quando menos, ele vos há de ouvir e as vossas palavras lhe irão direito ao coração. 

2º - Não faleis apressadamente

É outra condição indispensável, para que uma observação tenha probabilidades de bom êxito. Quando se fala pausadamente, também há tempo de refletir; do contrário, dizem-se muitas palavras e muitas asneiras também. 

Ora, para que uma mulher tenha fundadas esperanças de alcançar o resultado que espera de suas observações, conselhos ou súplicas, é necessário que as palavras sejam muito ponderadas. 

Refleti, portanto, antes de falar, pesai bem o que pretendeis dizer ao marido e, se perceberdes que o vosso discurso irá ser mal recebido, então vencei-vos corajosamente e refreai a língua. Mas, se há esperanças de bom êxito, procedei com cautela, devagar, sem perder a calma, ainda mesmo diante de qualquer imprevisto desagradável. 

3° - Não faleis muito alto

Quando se fala apressadamente, porque se está excitado e, então, fala-se também muito alto, ou por outra, grita-se. Ora, vamos, minhas senhoras; quereis fazer uma observação ao marido e uma observação de todo ponto razoável - assim o supomos, porque, muitas vezes, uma observação nos parece razoável e não é senão muito extemporânea - pois bem, não basta que só ele ouça o que lhe quereis dizer? Os filhos nada, devem perceber; mas, se vos pondes aos gritos, em presença deles contra o marido, claro está que lhe diminuis a autoridade. 

Os próprios criados, se vos ouvirem, poderão, no momento oportuno, por qualquer incidente, faltar-vos ao respeito e dizer-vos: "Mas, minha senhora quem poderá entender-vos? Se até ao marido pretendeis dar lições aos gritos, que consideração podereis ter para com os criados?".

Uma mulher que grita com o marido ou mesmo com os filhos, perde toda a autoridade perante os súditos e não será de estranhar que, súditos e filhos, aborrecidos daquelas cenas tantas vezes repetidas, abandonem a casa á procura de outra, onde não tenham de assistir todos os dias a incidentes tão desagradáveis. E não deixam de ter motivo. 

Cuidai, sobretudo, minhas senhoras, que a vizinhança não vos ouça perorar. Expondes-vos a que, nas ruas e praças, se proclame a vossa voz, como muito própria desses vendedores de peixe fresco que percorrem diariamente as cidades. Não sei se lhes ambicionais o emprego e a reputação; o que é certo, porém, é que a mulher, que não quiser ver apregoada por toda parte a sua falta de caridade, deverá ter o cuidado de fazer suas observações muito reservadamente, de modo que nunca passem da soleira da porta para fora. 

4° - Falai com modos

Nunca useis expressões grosseiras, ofensivas, humilhantes; tais expressões deprimem uma pessoa e o marido levará impresso na alma, por muito tempo, um ressentimento funesto e doloroso, que o irá separando cada vez mais de sua companheira. Ao contrário, as palavras e observações retemperadas na caridade, despertar-lhe-ão o afeto.

A ira, minhas senhoras, a ninguém serve de enfeite e, muito menos, às mulheres; em um homem fica mal, em uma mulher é execrável, o Espírito Santo e os Santos Padres assim estigmatizam a cólera, que, por sua natureza, não concorre nunca para aproximar corações: "É preferível fugir para o deserto, a morar com uma mulher arengueira. Não há ira pior do que a da mulher; é capaz de tudo”. 

A pessoa irada não distingue o bem do mal; prudência, bom senso, tudo desaparece e o homem fica como que atacado de demência. 

Aliás, minhas senhoras, tal procedimento é contrário ao respeito e consideração a que o chefe de família tem incontestável direito. O marido é sempre marido, e o pai é sempre pai, ainda quando venha a faltar aos deveres de sua alta missão, e nunca mulher ou filhos têm o direito de lhe faltar com o devido respeito. 

O meio mais inepto de reconduzir um transviado ao bom caminho, é atirar-lhe palavras injuriosas e expressões humilhantes. Quando o marido vier tarde para casa ou tiver empinado um pouco ou muito, rezai, em lugar de discutir. 

Uma senhora, li eu algures, depois de violenta discussão com o marido, foi procurar o venerando chefe do Centro Alemão, Windhorst, para requerer o divórcio. 

-Não posso mais com a vida do meu marido, começou ela; todas as noites me entra em casa bêbado e então, está visto, desaba uma verdadeira tormenta.  
- E que faz a senhora nessas ocasiões, perguntou o magistrado. 
- Que faço? Ali mesmo lhe dou o troco. O senhor compreende, a gente perde a calma, em presença de semelhante bruto. 
- Minha senhora, tornou Windhorst, quer-me parecer que no vosso mobiliário falta uma peça: ide depressa comprar um genuflexório. Todas às vezes que o marido vos entrar em casa bêbado, gesticulando, aos gritos, correi ao genuflexório e ide discutir com o bom Deus, em lugar de fazê-lo com ele. 

A receita deu excelente resultado e não foi preciso recorrer ao divórcio. 

Não é isso, porém, o que geralmente fazem certas mulheres, e o pobre marido tem de sujeitar-se a receber uma saraivada de grosserias, quiçá, sem o haver merecido. O pobre mártir da mulher, perde logo as estribeiras e, em lugar de ir muito sossegadamente respirar um pouco de ar fresco, saí porta a fora, e põe o quarteirão todo em alvoroço vomitando imprecações com aquela excelente voz de barítono que a natureza lhe deu. Não faltará quem diga que, afinal, a mulher não lhe meteu a faca nos peitos, para que se ponha a praguejar daquele jeito, aos ouvidos de toda a redondeza; outros, porém, acharão que procede muito bem, como sendo aquele o melhor e único meio de amordaçar a língua malcriada da cara metade. 

Ouvimos uma vez alguém sugerir aos maridos que têm a desgraça de possuir uma mulher assim, um meio mais brando, mais humano e mais eficaz também. Aí vai, tal qual o ouvimos:

"Quando, ao entrardes em casa, se vos apresentar a esposa com cara de poucos amigos, capaz de irritar as paredes, a encher-vos os ouvidos com umas tantas grosserias esganiçadas, fazendo-vos subir o sangue às ultimas culminâncias do cérebro, tomai o chapéu, o sobretudo e a bengala, e ide passear ou tomar um trago, porém, não mais do que um. Voltai dali a uma hora e, se ela recomeçar, recomeçai vós também e eu vos asseguro, que acabará pondo cobro à língua". 

O marido nunca deve perder de vista que a sua companheira é mais fraca do que ele e que seria desairoso abusar da força muscular para subjugá-la. 

O marido é o chefe, em sua casa; está no seu papel. E onde, ao contrário, a mulher é quem pretende governar, andará tudo à matroca. Saiba, portanto, o marido portar-se com firmeza, mas, com bondade, paciência e critério; também não esqueça que uma boa palavra basta, ás vezes, para extinguir um incêndio.

Por isso, diz S. Agostinho: "Se Deus houvera feito a mulher para governar o marido, Ele a houvera tirado da cabeça de Adão; se a destinara a ser escrava do homem, tirá-la-ia dos pés; mas, querendo que lhe fosse companheira, formou-lha do lado". 

5º - Não faleis muito. 

A mulher que pretende obrigar o marido a ouvir-lhe um sermão muito comprido, ou há de humilhá-lo ou há de fazê-lo rir. Ouvirá, por desfastio, aquele ridículo sermão, admirando a eloqüência de sua cara metade, que sabe falar tanto, para não dizer nada. E, quando ela tiver concluído a longa predica que há dias vinha estudando, o marido, até ali, respeitosamente de pé a ouvir a oradora, assentando-se prorromperá em uma estrondosa gargalhada! 

Sucesso inesperado, para tão augusto orador: nenhum resultado prático e, além disso, terá talvez provocado uma tempestade! 

Se tivesse sido breve, afável, comedida nas palavras, ele aceitaria a humilhação, reconhecendo-a justa; teria tido para a sua companheira, uma palavra meiga, prometeria corrigir-se. Mas, se as admoestações não são feitas em termos ou se se repetem à moda de realejo, se, para apontar-lhe o erro ou o mau procedimento, emprega comparações, exemplos, hipérboles e outras figuras retóricas, capazes de pôr à prova a paciência de um santo, o marido acabará por dizer, formalizando-se: "Bem, querida, agora basta". E então, faze-lhe-á sentir resoluto, que aquela loquacidade não e feita para aproximar corações, nem operar conversões.

Portanto, em beneficio dos esposos, dos criados e dos filhos, muito recomendamos às senhoras, que não falem muito depressa, nem muito alto, nem muito tempo e que falem com modos. 

E os homens, como hão de falar? 

Os homens devem observar as mesmas recomendações. Aliás, eles, por bem ou por mal, assim o fazem; ou porque tiveram a felicidade de desposar uma mulher que, neste ponto, lhes dá o bom exemplo ou porque lhes coube por sorte uma, de língua tão expedita e ligeira, que lhes não deixa tempo de proferir uma palavra e dar um aparte.

Não ponho dúvida, entretanto, em reconhecer que, se se colocassem nos dois pratos de uma balança as virtudes das senhoras e dos homens, elas é que sairiam vencendo.

A par da loquacidade, quase natural em muitas senhoras, há virtudes, cujo monopólio lhes pertence indiscutivelmente, sem o suspeitarem talvez. Os homens, em muitos pontos e não de somemos importância, ficam-lhes muito longe.

Por isso, a mulher devotada e prudente, contribui muito para melhorar o sexo forte, corrigindo-lhe o gênio pouco afável e pouco dedicado à esposa. É pelo bom uso da língua, que a mulher conseguirá corrigir o marido.

(As desavenças no lar, por J. Nysten, 1927)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

IV. Caracteres distintivos das dores da Santa Virgem

Nota do blogue: Segue a quarta parte do livro Ao pé da Cruz ou As Dores de Maria escrito pelo piedoso Padre Frederick William Faber, acompanhe o ESPECIAL AQUI.

IV.
Caracteres distintivos das dores da Santa Virgem


Como se pode compreender, os caracteres distintivos das dores da Santa Virgem têm uma ligação direta com as fontes donde se originam estas; esses caracteres devem agora ser o objeto de nossa atenção. Embora eles devam, mais tarde, aparecer duma maneira mais viva e clara, ao estudarmos as dores uma por uma, é necessário já agora lançarmos uma vista geral sobre eles, a fim de formarmos uma justa idéia do martírio de Maria, em sua completa unidade. Após observarmos esse martírio em seu todo, estaremos melhor preparados para compreender os detalhes maravilhosos que um exame mais próximo nos fará descobrir. O primeiro dos caracteres particulares das dores de Maria foi que elas duraram toda a Sua vida, ou quase isso. É preciso recordar que a Santa Virgem ignorava, até o momento da Encarnação, que Ela seria a Mãe de Deus. Até esse momento, portanto, pode-se dizer que Ela previa, por uma luz do alto, mas como que confusamente, que Sua vida deveria ser de grandes sofrimentos e duma paciência heróica; todavia, Suas dores particulares não podiam então se representar a Ela duma maneira distinta. Mas, quando o Verbo eterno se fez carne em Seu seio, uma grande mudança se deu nEla. Ela estava, então, unida a Deus duma maneira tão inexprimível, e tinha uma inteligência tão profunda e tão acertada do mistério da Encarnação, uma tal luz brilhava para Ela sobre as profundezas das profecias hebraicas, que é-nos impossível duvidar de que a Paixão de Jesus não se apresentasse aos Seus olhos, acompanhada de trinta e três anos de pobreza, penas e humilhações, e de que Ela não visse já, ao menos em seus traços principais, Sua própria Compaixão. Isso é o mínimo que podemos pensar a esse respeito, mas o que pensamos se estende, em realidade, muito mais longe. Não podemos seguir aqui os escritores que fazem começar as dores de Maria no momento da profecia de Simeão. [Nous ne pouvons suivre ici les écrivains qui font commencer les douleurs de Marie au moment de la prophétie de Siméon.] Seguramente, é provável que nesse momento Deus tenha querido mostrar-Lhe duma maneira mais distinta o quadro inteiro de Suas aflições futuras, e que tenha feito mesmo com que essa visão brilhasse ante Seus olhos com as mais vivas cores. Que as palavras de Simeão tenham sido o instrumento divino para atingir a alma de Maria, isso é algo mais que provável. Mas parece pouco respeitoso para com Ela pensar que, durante os nove meses de Sua união mais íntima com o Verbo encarnado, Maria não compreendesse Sua missão de sofrimentos e sangue, nem as leis da expiação e da redenção, ou que Ela não estivesse certa de beber do mesmo cálice que Seu Filho. Em todo caso, ao menos a partir da profecia de Simeão, senão já desde o momento da Encarnação, os sofrimentos de Maria não terminariam mais até o fim de Sua vida. Como as de Jesus, Suas dores também estariam sem cessar presentes aos Seus olhos. Ela não conhecia aqueles momentos de calma que experimentamos quando os males que nos afligem nos dão alguma trégua. Uma sombra inevitável e uniforme se estendia sobre o Seu caminho. [Une ombre inévitable et uniforme s’étendait sur son chemin.] Mesmo as maiores sombras destinadas aos homens são variadas em sua escuridão. Mesmo a dor que mais nos custa pode, às vezes, fazer sentir ainda mais fortemente o seu aguilhão. E, por outro lado, as nuvens cedem de tempos em tempos à força do sol, nem que seja por um curto intervalo. Mesmo o mal que persegue um homem por toda a sua vida parece, em certas ocasiões, se cansar e tomar então outra direção, como se renunciasse a seu intento, ou quisesse conceder à sua presa ao menos um tempo para respirar. Mas a sujeição de Maria à dor estava cravada sobre Ela como com ferro. Ela não descansava jamais, não se acalmava jamais, nem tinha a menor trégua. [Elle ne se relâchait jamais, ne se calmait jamais, ne lui accordait aucune trève.] A dor fazia parte de Sua vida, e só o fim desta pode interromper essa união. A Paixão não foi o fim dos sofrimentos de Maria, nem uma tragédia isolada em sessenta e três anos marcados pelas vicissitudes ordinárias da vida humana. Foi uma parte de um todo conseqüente com seus antecedentes, um espessamento das trevas, sem dúvida, mas só uma parte das trevas de toda uma vida que, para dizer o mínimo, não conheceu a luz. [Ce fut une partie d’un tout conséquent avec ses antécédents, un épaississement des ténèbres, il est vrai, mais une partie des ténèbres de toute une vie qui, à cet égard du moins, n’avait pas connu de lumière.] Devemos ter isso em mente sempre, se queremos formar uma idéia justa das dores de Maria. As dores não foram acontecimentos isolados, mas sim a continuação duma vida submetida a uma espécie de fado, duma vida que o Céu havia cercado duma lei de sofrimentos, lançando sobre alguns de seus abismos uma luz mais viva que sobre os outros.

As dores da Santa Virgem não somente duraram toda a Sua vida, como também aumentaram continuamente; mais a vista dos sofrimentos se Lhe tornava familiar, mais Ela experimentava as dores, e mais terríveis também estas Lhe pareciam. Esse crescimento das dores não era incompatível com a imensidão de Sua ciência, nem diminuía-Lhe a clareza. Suas dores davam traços novos, afetos novos, profundezas novas e facilidades novas às Suas contínuas meditações, exatamente como nossas dores fazem conosco num grau muito inferior. E também quanto mais ocupamos nosso espírito dos mistérios da Encarnação, mais adquirimos luzes sobre o que lhes concerne. Mais nos elevamos, mais o horizonte se estende. Mais nossos olhos se acostumam à doce obscuridade, mais nos apercebemos que é impossível sondar a profundidade do abismo. [Plus nos yeux s’accoutument à la douce obscurité, plus nous apercevons qu’il est impossible de sonder la profondeur de l’abîme.] Que haveria de ser tudo isso para Maria, da qual o olhar penetrante e fixo era tão diferente de nossas meditações precipitadas e distraídas? Da qual a meditação durava sem interrupção durante anos? Da qual o Coração estava tão vivamente interessado no objeto de Seus pensamentos? Por outro lado, mais o cumprimento dos mistérios [da Paixão] se aproximava, mais eles pareciam terríveis à Maria; mais a sombra que eles projetavam tornava-se espessa, mais eles Lhe inspiravam pavor. Quando os primeiros ventos da tempestade [daquela grande Sexta-Feira] começarem a soprar sobre o Seu Coração, Ela sairá em busca de Seu Jesus. E Ele Lhe parecerá mais belo do que nunca, mas já não haverá nada a esperar. Um mar imenso e sem porto estará em torno dEla. E Ela não terá outro refúgio senão esse mesmo oceano: tal é a Vontade de Deus. Enquanto esse dia não chega, Jesus tornar-se-á mais belo a cada dia. Os doze primeiros anos transcorrerão produzindo frutos de amor e de beleza celestial, dos quais o número desafia todo cálculo humano. Depois vêm dezoito anos, durante os quais cada palavra, cada olhar, cada ato de submissão dEle estarão cheios de mistérios divinos. A vida de Maria era então passada inteiramente com Jesus, em Jesus, que era a Sua luz, o Seu amor, o Seu tudo. Em seguida vêm os três anos do ministério público do Salvador, do qual as palavras, as obras, os milagres, poderiam encher o mundo de mais beleza sobrenatural até do que ele poderia suportar, de sorte que os homens se precipitarão em furor para apagar essa luz que lhes feria os olhos com seu brilho muito forte. À medida que crescia a beleza de Jesus, crescia igualmente o amor de Maria e, com o amor, Sua agonia; eram três coisas que cresciam contínua, majestosa e rapidamente. A beleza infinita dos três anos do ministério de Jesus era de molde a fazer parecer à Maria que os sofrimentos da Paixão não seriam possíveis. Pela beleza singular da pregação do Salvador, por Suas lágrimas humanas, por Suas vigílias sobre as montanhas, por Suas penosas viagens, por Sua fome e Sua sede, por Sua doce paciência, pela persuasão de Seus milagres e a sabedoria maravilhosa e sedutora de Suas parábolas, não parecia que o mundo podia ser resgatado sem os cruéis sofrimentos do Calvário? O fato é que Jesus se tornara para Maria como que um hábito que não poderia ser arrancado dEla sem que Ela deixasse de viver. Dessa forma, uma causa de dor se somava à outra, um pensamento excitava outro, uma afeição produzia outra ainda mais viva, e assim Suas dores iam crescendo com mais rapidez do que as plantas no verão, e tanto mais quanto mais o tempo da Paixão se aproximava.

Outro caráter particular das dores de Maria foi que elas atingiam antes a Sua alma, que o Seu corpo. Não que este fosse impassível, mas suas dores, comparadas às da alma, eram nada. Umas estavam de todo fora de proporção com as outras. O sofrimento físico é, sem dúvida, penoso de se suportar, tão penoso que, após certo ponto, torna-se intolerável. Ele estende suas mãos sobre nossa vida que, ao seu contato, parece querer se retirar. Ninguém pode olhar o sofrimento físico como algo insignificante. Mas como ele é ligeiro, se comparado ao sofrimento do espírito! Mesmo para nós, a agonia da alma é bem mais terrível que as torturas do corpo. Entretanto, comparados à Santa Virgem, somos tão grosseiros, tão materiais, que somos quase criaturas duma espécie diferente. [Et cependant, comparés à la sainte Vierge, nous sommes si grossiers, si matériels, que nous sommes presque des créatures d’une espèce differénte.] Mais a alma é pura e delicada, mais sua agonia é cruel. Que seria então para uma alma como a de Maria, que era um vaso imaculado de graça? Absolutamente, nós não temos como calcular a extensão em que Ela foi provada. Sua capacidade para a dor ultrapassa nossa inteligência. Tudo o que sabemos é que Ela foi muito mais além do limite de tudo o que um homem jamais sofreu; os dois Corações de Jesus e Maria elevaram-se num mundo de sofrimento só dEles, onde nenhum outro coração de carne os pôde seguir. Os sofrimentos de Maria foram um martírio ao inverso, pois Suas angústias estiveram principalmente em Sua alma, e daí atingiam também Seu corpo, afligindo-o; ao passo que, nos Mártires, a alma derramava um bálsamo refrescante sobre as feridas da carne, e o Céu brilhava então para eles mais do que nunca, mais do que as chamas da fogueira ou os olhos das feras. Nesse ponto Maria se distingue, em certo sentido, até de Jesus. Com efeito, a alma de Jesus foi crucificada no Getsêmani, e o Seu corpo sobre o Calvário. Nenhuma ferida foi feita, porém, no corpo de Maria; nenhuma gota de sangue foi tirada de Suas veias. O corpo e o sangue de Jesus tinham vindo de Maria, e assim bastavam para sofrerem por Ele e por Ela. O caráter perfeitamente interior das dores de Maria, apesar das circunstâncias exteriores, e do qual a justa apreciação exige um discernimento espiritual, deve estar sempre presente ao nosso espírito, como um dos aspectos mais marcantes de Suas dores.

Se ousamos pensar por um momento nisto que a teologia denomina circuncessão* das Três Pessoas divinas, em virtude da qual cada uma dElas existe nas outras, seriamos levados muito longe das prerrogativas de Maria, haja visto a distância infinita entre o Criador e a criatura. Mas, pelo menos, essa iminente unidade das Pessoas divinas nos daria uma idéia da união existente entre Jesus e Maria. O Coração de um parecia estar no Coração do outro. A beleza de Jesus tirava Maria fora de si mesma. Os interesses de Seu Filho eram os Seus próprios. As disposições de Jesus eram as mesmas de Maria. Ela pensava com Ele, sentia com Ele, e, tanto quanto era possível, se identificava com Ele. Ela não vivia senão por Ele. A vida de Maria era para Jesus um instrumento do qual Ele podia dispor segundo Sua Vontade. Nessa união, Maria era algumas vezes Mãe [isto é, só às vezes usava de Sua autoridade materna]. Ela doava Seu Coração todo inteiro a Seu Filho, se rejubilando de tudo por tudo o que já fizera, por tudo o que fazia e por tudo o que poderia fazer e sofrer, tudo simplesmente porque tratava-se dum sacrifício por Ele. Algumas vezes, era como se Maria fosse a criança, e Ele o pai, tanto Ela se deixava guiar por Ele, tanto Ela O obedecia perfeitamente, tanto Ela estava longe de ter um pensamento sequer diferente dEle. Ele estava ali para pensar e dispor; Ela para segui-lO, servi-lO, se conformar a Ele, e adorá-lO com todo o amor.

Lemos coisas maravilhosas sobre os Santos e sua união com Deus; mas esta jamais foi sequer comparável à união de Jesus e Maria. Trata-se aqui duma união única em grau e em natureza, não se assemelhando a nenhuma outra união, a não ser àquela, infinitamente superior, das Três Pessoas divinas, como dissemos. Ora, Maria vivia mais essa união do que a Sua própria vida, ou, melhor dizendo, essa vida fora dEla mesma, essa vida em Jesus, era para Ela mais interior, mais realmente Sua vida própria do que a outra; e foi esse também um caráter particular de Suas dores, que estas tinham origem menos nEla mesma do que nAquele a quem Ela amava mais do que a si mesma. Há entre as dores humanas uma que se assemelha fracamente àquelas de Maria: aquela sombra que transpassa o coração das pobres viúvas quando vêem seu primeiro filho, atingida apenas a idade adulta, ser atacado e vencido pela morte. Mas nenhuma mãe há sentido tanto como Maria, pois que nenhuma delas há enfrentado uma união tão estreita com o objeto de seu amor, assim como também nenhuma delas há tido um objeto semelhante para amar, simultaneamente divino e humano, como Ela o teve, podendo amá-lO com um amor que não tinha necessidade de se distinguir da adoração mesma.
(* Nota do tradutor francês: Os teólogos dão o nome de circuncessão [circumincession] à existência íntima das Três Pessoas divinas uma na outra, apesar de Sua distinção individual.)  

Outro caráter particular das dores de Maria, é que elas foram de uma grande variedade, ao mesmo tempo que, sendo interiores, concentravam-se todas num só ponto, a saber, em Seu Coração. Quando os instrumentos de tortura passavam de um membro do mártir a outro, pode-se dizer que ele quase experimentava um alívio nessa mudança. Sabe-se como é atroz a violência duma dor quando ela se concentra toda sobre um só nervo, principalmente se isso dura por horas, dias ou mesmo semanas. É uma agonia diferente da produzida pelos sofrimentos que variam, mesmo daqueles cujos ataques agudos são tão difíceis de suportar. Mas, se dum membro ou dum nervo nós transportarmos ao coração a pressão uniforme da dor, o resultado deve ser intolerável. A variedade das dores de Maria era quase infinita. As duas naturezas de Jesus, a divina e a humana, davam lugar a uma variedade inumerável de sofrimentos para Ela. As penas corporais da Paixão, os sofrimentos mentais, a profunda humilhação, os gritos, os empurrões e os pensamentos visíveis mesmo da multidão que cercava Jesus, eram outros tantos gêneros diferentes de sofrimentos para Maria. Além do que a unidade completa de Suas afeições aumentava-Lhe imensamente as dores. Ela não amava senão um Ser, sobre o qual se concentravam todas as causas de Seu martírio. Não havia em Seu Coração nada que pudesse mitigar-Lhe a dor ou distraí-lA. Como os gritos do filhinho são doces àquelas que acabam de se tornar viúvas! Que eloqüente distração essa, mais deliciosa do que a voz de um anjo! Oh! Esse grito parece então uma grande graça vinda do céu, e quão poderosa para aliviar em parte o peso do fardo! Mas Maria não tinha uma distração para Seus males. Embora inumeráveis, eles se reuniam como em um só ponto sobrenatural, único e múltiplo a uma só vez, cravando-se com toda a sua força no centro mesmo daquela vida, o magnífico santuário de Seu Coração amantíssimo.

Mas ainda não é tudo. Não somente Maria não tinha outros objetos, outros deveres, outro amor, que pudessem distraí-lA de Seu mal, como também, na realidade, tudo o que naturalmente devia servir-Lhe de alívio às penas, não servia mais que para as aumentar e amargar. O que deveria ser luz, era para Ela pior do que as trevas do Egito. O que devia dar-Lhe vida, tornara-se capaz de levá-lA à morte. A própria bondade de Nosso Senhor aguçava duma maneira particular cada um dos espinhos que penetravam o Coração de Sua Mãe. A santidade de Jesus tornava a Sua morte ainda mais terrível. O amor do Salvador por Maria, amor que, por natureza, devia ser para Ela a mais doce consolação, era justamente o que tornava tudo mais cruel ainda. Se Maria pudesse amar menos a Jesus, ou se Jesus pudesse amar menos a Maria, não teriam sofrido tão além de toda a comparação humana. O que conferia à cada tortura uma dor extrema era precisamente o amor que Maria experimentava. Mas a divindade de Jesus, o esplendor secreto de sua natureza gloriosa e impassível não poderia sustentar a fronte fatigada de Maria? Ó mais caro de todos os dogmas da fé! Quantos corações sofredores, espíritos abatidos, almas provadas por tempestades, em meio ao naufrágio geral que as atinge, repousarão sobre ti, como por sobre um leito macio e agradável!

Para quantos milhares de almas essa doutrina não será como a visita de um anjo que ordenasse à tempestade se acalmar, livrando-as nada menos que da morte! Seria essa doutrina como nada para Aquela a quem ela mais tocava dentre as criaturas de Deus? Nada? Oh! Longe disso; essa doutrina será para Ela um novo abismo de dor humana, desconhecido até então, e no qual Ela descerá a profundezas incomensuráveis, sem encontrar o fundo. Essa doutrina A envolverá no sofrimento e A deixará jacente e desamparada sobre um vasto oceano de dores. No martírio de Maria, cada coisa parecia seguir a lei dos contrários. [Dans le martyre de Marie, chaque chose semblait suivre la loi des contraires.] As que deviam por si mesmas trazer alívio a Seu fardo, tornavam-se como mãos homicidas a retê-lA com uma força cruel sob as águas tenebrosas. Ao invés de ser sufocada, Ela sofre então com mais violência. Qual, dentre as dores humanas, se aproximará das de Maria?

Onde Maria encontraria consolo humano para Seu sofrimento? Não se acharia um ser no mundo capaz de compreendê-lA. Antes Ela consolará que será consolada. É preciso que Ela sofra em segredo. Mesmo São José, que A conheceu tão bem, todavia não A conheceu perfeitamente. [Saint Joseph la connaissait bien, mais il ne la connut jamais parfaitement.] Seu Coração era um mistério, mesmo para São João, embora ele fosse o iniciado nos segredos do Sagrado Coração de Jesus. Esse Apóstolo mesmo teve necessidade da ajuda de Maria para se manter ao pé da Cruz de Seu Mestre. E também não é provável que Jesus e Maria tenham falado muitas vezes a respeito das dores que os aguardavam, ou que buscassem qualquer alívio para elas em Seu mútuo amor. Na verdade, parece-nos mais provável que nunca tenham falado sobre isso. A simpatia de Maria por Jesus era realmente um culto. Um amor verdadeiro, um amor maternal pleno de ternura, uma verdadeira adoração, diferente de toda mera simpatia natural. Quando Ela voltar do Santo Sepulcro, no anoitecer da Sexta-Feira, Ela entrará num mundo onde não encontrará nenhuma alma para compreendê-lA. Nem mesmo a santa e terna Madalena. Serão trevas sem um raio de luz, uma solidão cheia de terrores, uma vida já sem nenhum atrativo, sem um só lugar de repouso para o Seu Coração magoado. Ela se encerrará em Suas dores, agüentando-as em silêncio, enquanto Sua alma é torturada. E não haverá pessoa alguma que possa fazer mais do que imaginar a vida dolorosa que batia como um pulso desordenado nesse Coração maternal.

Tais foram os caracteres distintivos das dores de Maria, e para que serviriam aqui as palavras, senão para lançar uma sombra ainda mais escura sobre esse quadro já suficientemente sombrio? Que pensaremos, portanto, do último caráter das dores de Maria, que impressionava tanto São Bernardo, isto é, a paciência tranqüila com que Ela as suportou? Quem será capaz de esquecer, após haver meditado sobre nossa santa Mãe, a tranqüilidade celeste de Suas palavras na Anunciação: “Eis aqui a Escrava do Senhor”? A mesma calma contínua de quando Seu Coração foi rasgado ao pé da Cruz. Exceto num estado de grande santidade, e mesmo aí pode haver alguma exceção, a paciência nas penas implica uma idéia de frieza e de insensibilidade. Não amaríamos muito uma pessoa cuja tranqüila serenidade não pudesse ser perturbada por aflição alguma. O amor de Deus tem por efeito nos Santos quebrar-lhes o charme da dor. O amor constitui-se uma distração e uma compensação a uma só vez, tornando assim mais fácil a paciência. Mas para Maria era precisamente em Seu amor por Deus que consistia a excessiva amargura de Sua agonia. Se, portanto, nos representássemos o hediondo turbilhão de misérias, o fardo enorme de dor e o acúmulo de penas sobrenaturais que Maria devia suportar, e como tudo isso pesava com uma força irresistível sobre Seu Coração solitário, é com espanto que veremos tudo se voltando contra a Sua tranqüilidade, como as ondas vêm se chocar contra uma enorme rocha, que as faz retroceder sem se abalar. Assim também em Maria. Mas Ela não era insensível como uma pedra fria. Pelo contrário, a tempestade A penetrava, se insinuando em cada recanto de Sua rica natureza, enchendo até o transbordamento toda a capacidade que Ela tinha para o sofrimento, e embebendo de amargor todas as Suas faculdades e afeições. Entretanto, nada podia abalar a tranqüilidade de Maria. Sua paz interior assemelhava-se à calma das profundezas do oceano, mesmo quando a tempestade revolve-lhe a superfície. Mas essa tranqüilidade não era para Maria um refúgio contra a dor. Apenas tornava-A capaz de sofrer ainda mais. A calma permitia à dor penetrar melhor em cada parte de Seu ser. Daí não encontrar-se em Maria nenhum escândalo, nem suspiros sonoros, nem soluços entrecortados, nem palavras inúteis para exprimir Seu pranto. Uma imagem concebida por um devoto inteligente da Mãe de Jesus não poderia ser como essas que quadros inexatos e pouco teológicos nos apresentam aos olhos, não poderia ter essas atitudes forçadas de dor, nem essas contorções que deformam a beleza da cena, nem essas mãos que se torcem duma maneira efeminada, nem esses cabelos espatifados. Também não A poderia representar estendida por terra, como uma pessoa desfalecida, nem necessitando de um braço para ser apoiada, mesmo o de João ou o da Madalena; não se pode imaginar nEla suspensão alguma de Sua gloriosa razão, cujo uso jamais foi interrompido desde o primeiro momento da Imaculada Conceição. Entreguemos às chamas, com nosso amor indignado, essas ignorantes e irresponsáveis representações, e lancemos longe de nós as odiosas imagens que o mérito e a beleza dessas pinturas possam ter deixado em nosso espírito. [Livrons aux flammes, dans notre amour indigné, ces ignorantes et irrespectueuses représentations, et chassons loin de nous les odieuses images que le mérite et la beauté de ces peintures peuvent avoir laissés dans nos esprits.] Maria estava de pé [grifo do original] junto à Cruz; eis aí o quadro, tão grande em sua simplicidade, que encontramos na Escritura; eis aí a exata verdade, e o pintor é o próprio Esposo de Maria, o Espírito Santo. É esta imagem de uma mulher calma e de pé que um de Seus filhos mais ternos, São Bernardo, contemplava com uma amorosa admiração. É isso o que há de atraente nas aparições mostradas nas revelações de Maria de Ágreda, bem como no retrato traçado pelas visões da irmã Emerich. As descrições da religiosa espanhola parecem mesmo mais verídicas que as da alma artística da extática alemã. [C’est là ce qu’il y a d’attrayant dans les apparitions que nous font connaître les révélations de Marie d’Agréda et dans le portrait que nous ont trace les visions de la soeur Emmerich. Les instincts de la religieuse espanole étaient même plus vrais que ceux de l’âme artistique de l’extatique allemande.] Jamais devemos perder de vista essa tranqüilidade de Maria em meio às Suas dores. Não havia nEla nada de extravagante, nada de desordenado, nada de dramático, nada de apaixonado, nada de demonstrativo, nada de excessivo; Ela conservava-se na dignidade mais calma, mais real, mais tranqüila, não como uma doce paisagem ao cair da noite, ou como o cimo de uma montanha iluminada pela lua, nem como imagem alguma apreciada pelos poetas da natureza; Ela permanecia tranqüila, sim, segundo a ordem e o grau de Sua perfeição, tal como a natureza divina de Nosso Senhor enquanto os tormentos da Paixão calcavam aos pés a Sua natureza humana e a faziam morrer. A tranqüilidade de Maria foi como um reflexo dessa tranqüilidade de Jesus. Foi uma das numerosas participações pessoais que Jesus concedeu à Maria na hora das trevas.

***

(Próximo subtítulo a ser traduzido: “Como a Santa Virgem podia se alegrar em meios às Suas dores”)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

PENSAMENTO DA NOITE 25/08/2011

PENSAMENTO DA NOITE
(25/08/2011)


Dá ouvidos, Senhor, responde-me,
pois sou um pobre desamparado.
Guarda a minha vida, pois sou fiel a Vós,
salva o Vosso servo que em Vós confia.
Vós sois meu Deus, tem piedade, Dono meu,
pois estou o dia todo a te chamar.

Alegra o sentir de Vosso servo
pois meu sentir se eleva a Vós.
Porque Vós, Dono meu, és bom e perdoas,
és misericordioso com os que Vos invocam.

Escuta minha súplica, Senhor,
dá atenção ao meu pedido por Vossa graça,
no perigo eu Vos chamo,
porque me respondes.
Não há como Vós entre os deuses, Dono meu,
nem existem obras como as Vossas.
Todos os povos que fizestes
virão prostrar-se em Vossa presença
e honrarão Vosso nome, Dono meu.
Porque sois grande e autor de maravilhas,
Só Vós és Deus.

Ensina-me, Senhor, o Vosso caminho,
para que eu O siga com fidelidade;
unifica meu coração
no respeito ao Vosso nome.

Eu Vos darei graças de todo o coração,
Deus meu, Dono meu; 
honrarei sempre Vosso nome,
por Vossa célebre misericórdia comigo,
porque livraste minha vida do Abismo profundo.

Ó Deus, gente soberba se levanta contra mim,
um bando violento atenta contra minha vida,
sem contar conVosco.

Mas, Vós, Dono meu,
Deus compassivo e piedoso,
paciente, misericordioso e fiel,
olha para mim e tem piedade,
dá forças a Vosso servo,
salva o filho de tua escrava.

Dá-me um sinal propício:
que O vejam meus adversários e fiquem confusos,
porque Vós, Senhor, me auxilias e consolas.

(Salmo 86)

RECOLHIMENTOS IMPOSTOS

RECOLHIMENTOS IMPOSTOS


O recolhimento está mais espalhado do que se imagina. Está mais unido à vida humana do que se pensa.

Senão olhemos para três espécies de recolhimento, aos quais, não diremos todos, mas grande parte, a maior parte dos homens, quer queiram quer não, se devem submeter. São os recolhimentos a que nós chamaremos de forçados ou impostos.

E se estes recolhimentos não encontrarem as almas preparadas - ai! que martírio cruel! que sofrimento profundo!

Mas, se, pelo contrário, houver harmonia entre eles e o interior dos indivíduos, então podem-se transformar em estados de verdadeira paz e quietação, quando não de verdadeira e íntima felicidade - o que está, sem dúvida, dentro dos planos sapientíssimos de Deus.

Consideremos, portanto, o recolhimento da pobreza, o recolhimento da doença, o recolhimento da velhice.

Na pobreza

Bem-aventurado quem compreende a lição, talvez dolorosa, deste tríplice recolhimento e para ele se prepara e por ele se santifica, quando soar a hora da Providência.

Uma das grandes chagas do mundo, talvez em todos os tempos, mas parece que, de modo especial, em os nossos dias, é a pobreza ambiciosa, a pobreza dissipada, a pobreza a sonhar - não com uma melhoria razoável na existência - mas com a ostentação e o luxo.

E quando estas tendências não ficam só em desejos, mas se transformam em realizações impossíveis ou ridículas, vemos, então, desgraças e desordens não poucas.

Temos insistido que o recolhimento é salutar ou necessário para todos, ricos e pobres, grandes e pequenos, nas cidades e nos campos, mas estamos considerando, agora, o recolhimento que as circunstâncias nos impõem e que seremos sábios, se soubermos receber de boamente e dele nos aproveitar.

Não falamos da miséria, que esta é um estado anormal, que, a não ser muito de passagem, nos parece que nunca está nos planos sapientíssimos de Deus.

Mas a pobreza, a vida modesta, em geral, é uma situação, de per si, recolhida. A ostentação não lhe fica bem. Ela, então, se fecha em sua casa, em seu quintal, em sua oficina ou escritório, e, fugindo de toda exibição, leva uma vida modesta, que, muita vez, é sinônimo de paz, de muita paz.

Se é explicável e desculpável, às vezes, a inveja neste mundo, um destes casos nos parece ser a inveja que desperta a casa pobre, asseada, onde, não havendo aspirações descabidas, existe um contentamento sadio, uma união edificante, uma força contagiosa.

E quando esta pobreza vive na pureza dos campos, é ouro sobre azul. Não podemos conceber estado natural mais feliz. Feliz a pobreza que não somente conhece o seu lugar, mas que o ama e o zela com carinho, quer no lar, quer no trabalho.

Pode, então, o luxo enfatuar-se a seu lado e a ostentação do rico pavonear-se numa ostentação ruidosa, a alma do pobre conserva a paz do seu escondimento e goza os encantos do seu recolhimento forçado talvez ou imposto, mas aceito com espírito de fé e com a razão esclarecida.

O recolhimento da pobreza limpa, da pobreza que trabalha, da pobreza alegre, é uma das situações mais encantadoras da vida. Infelizmente, tão pouco compreendida.

Existem, entretanto, almas assim.
São os gozadores da paz e os distribuidores da paz.

Passam pelo mundo assim como os santos. E sem deixarem de ter o seu ideal, pelo contrário, pelo fato mesmo de terem o seu ideal bem firmado, é que, por nada do mundo, abandonariam a clausura de sua pobreza feliz. Lembremo-nos da pobreza beatifica da casa de Nazaré. Lembremo-nos do lar humilde, sofredor, mas feliz, de uma bem-aventurada Ana Maria Taigi. Não conhecemos a pobreza edificante e, ainda por cima, dadivosa do operário irlandês Matt Talbot? A pobreza destes, como de tantos outros, era a cela misteriosa de sua felicidade, em intima união com seu Deus, que sempre se manifestou entre os pobres, de um modo humilde e nos lugares mais simples.

São José, amante da pobreza e modelo do recolhimento, rogai por nós.

Na doença

O homem se agita.
Anda por toda parte, em uma eterna dissipação.

Quer saber tudo, tudo ver, ouvir tudo. Preocupa-se com bagatelas e ninharias. Fala a todo propósito. Só se aquieta quando dorme. Mas, até ao último momento do dia ou já nos primeiros instantes da manhã, está em atividade a sua língua, sem um instante de repouso, ou de concentração. Enquanto espera o sono, já deitado, ou sem a coragem para se levantar, quanta fantasia, que é um modo de falar também!

De repente, é uma febre, um desastre, uma doença qualquer (há tantas) e eis o homem dissipado preso a um quarto, a uma cama, ao sofrimento, em um recolhimento, exterior ao menos, forçado.

Infeliz, muito infeliz, o pobre acidentado ou doente (não, pelo sofrimento físico) se este recolhimento representar uma novidade cruel em sua vida, se for um estado, do qual, o pobre homem sempre fugiu, consciente ou inconscientemente.

"Padre - dizia-me uma senhora enferma, proibida de ler e de receber visitas. - que horror esta solidão! Ao menos, povoe-me a cabeça de bons pensamentos!" Entretanto, era uma senhora distintíssima, de vida exemplar.

Mas, é que, nestas circunstâncias, todas as reservas são poucas.

Só mesmo uma vida de preparação, pela oração e reflexão, pelo recolhimento voluntário, pode tornar suportável o isolamento doloroso da doença.

Doente, em um sanatório, uma jovem religiosa holandesa, de vida contemplativa, sozinha ali, sem parentes ou conhecidos, era vista, enquanto podia, caminhar ou arrastar-se de seu quarto à capelinha, sem olhar e sem falar com ninguém no trajeto. Diante do sacrário tornava-se ela a imagem do recolhimento e da devoção. Poucos dias antes de sua morte, passando nos pelo seu corredor, em visita aos doentes, tivemos a tentação de penetrar naquele ambiente singular. Batemos à porta, com receio. Uma voz sumida deu-nos licença de entrar. Quase nos arrependemos: era tudo tão branco, ali dentro, e tão silencioso. Solidão completa. A freira sozinha, deitada, talvez já. sem movimentos, olhava para um grande crucifixo, aos pés de sua cama. De mansinho, lhe perguntamos: "Irmã, deseja alguma coisa?"

- "Nada, Padre. Só a bênção de Deus". Demos-lhe a bênção e sai mos com receio de ter violado um santuário. Sempre nos ficou a lembrança daquele recolhimento doloroso, heróico. Mas que nos pareceu um recolhimento cheio de paz. Aprendamos a necessidade de praticar o recolhimento voluntário na saúde, para que, quando a doença nos amarrar em um ambiente fechado, não seja brusca demais a mudança.

Deveríamos entrar, então, em uma atmosfera com a qual já estivéssemos familiarizados de há muito.

Foi no recolhimento forçado de longa convalescença que Inácio de Loiola, o cavaleiro mundano de Pamplona, sentiu o desejo da leitura, e, pela leitura, naquela atmosfera silenciosa do castelo, entrou em si mesmo e converteu-se.

Mas foi um caso raro, pois não ama nem procura o livro na doença quem não aprendeu a procurá-lo na saúde. O livro é um ótimo companheiro desses recolhimentos forçados enche o vazio, povoa a solidão, e constrói dentro do doente essas celas misteriosas, onde é possível uma elevação verdadeira.

Mas pobre do doente que, para passar o tempo, se vê obrigado a contar as taboas do forro ou a seguir o tic-tac do relógio ou a desfiar a franja da coberta.

Pior ainda a sorte daquele que se distrai pensando em tolices, construindo castelos no ar, sonhando coisas impossíveis. Pobre doente!

Como o recolhimento o castiga com severidade! Não vale a pena prepararmo-nos para essa situação tão comum na vida de cada cristão? Pensemos.

Entrando em um hospital, o problema é tão claro a quem quer ver, que a resolução deve ser imediata.

Santa Clara, doente, sofrendo muito, não queria perder seu tempo precioso, e, enquanto o seu corpo penitente, preso em sua cela franciscana, se entregava à santa e forçada ociosidade, trabalhavam suas mãos, com diligência, costurando e bordando toalhas e corporais para o culto do seu Jesus Sacramentado.

Que de beleza se encontra em um recolhimento, assim, tão rico de atividade!

Afinal, é preciso convencermo-nos: temos que tomar uma atitude, em face do possível, melhor, do provável, ou do quase certo recolhimento doloroso que, mais cedo ou mais tarde, por menos ou mais tempo, nos envolverá.

Queremos, então, vivê-lo, estupidamente, como um gato velho debaixo do fogão, sem proveito, sem um pensamento superior, quem sabe, até, com pavores e revoltas íntimas? Ou queremos aproveitá-lo para nosso aperfeiçoamento e elevação? Depende de nós.

Pode ser um tempo de paz interior muito grande, apesar dos sofrimentos, até de certo gozo em Deus e, sem dúvida, de merecimentos para nós e para o mundo. Depende de nós. Exemplos lindos e fortes não nos faltam. Saibamos preparar a nossa obra prima.

Lidvina de Schiedam foi mestra neste recolhimento imposto, durante mais de 30 anos, por uma doença que estragou a beleza de seu semblante, mas que aformoseou a sua alma, que, cheia de luz, de força e de sabedoria, transformou a humildade de seu quarto, em uma sala de audiência, onde toda classe de pessoas vinha pedir as suas luzes e conselhos, o seu consolo, o seu amor e alegrias de Deus. O recolhimento doloroso, dolorosíssimo e, às vezes até, heróico, da enfermidade, tem, como melhores companheiros, a limpeza, as flores, os livros, as santas conversações, os bons pensamentos, as jaculatórias, o querido rosário. E, sobretudo, Jesus na santíssima eucaristia, que, justamente, nessas ocasiões, mostra toda a força de sua presença, de sua graça, toda a misericórdia e doçura de seu coração.

Mas, com Jesus, vem Maria, vem S. José, vêm os Santos Anjos... Compreende-se, então, o que é a comunhão dos santos. Se nós soubéssemos viver a nossa fé!. ...

Na velhice

Há uma terceira espécie de recolhimento forçado, que, infelizmente, vai-se tornando cada vez mais raro, é o recolhimento da idade, ou a velhice. Pronunciamos com respeito esta palavra, que a própria Sagrada Escritura glorifica e promete aos homens, como uma recompensa. A velhice é sempre um dom de Deus, pois que é um dom de Deus a vida. Ora, quanto mais larga for esta, maior é o presente do céu, é verdade que, muitas vezes, mal aproveitado.

Não importam os achaques, os trabalhos, os aborrecimentos, àquele que se preparou para a velhice; pela vitória de suas paixões, e más inclinações, goza a suavidade e a paz dos últimos anos.

E tanto mais insistimos sobre isso, quanto mais sabemos como se despreza a velhice e como se relega ao abandono de um quarto ou de horas e horas de solidão, um ente que deveria ser cercado de todo carinho.
Infeliz de quem, então, só souber queixar- se e lamentar-se: é o estribilho monótono da velhice desaproveitada e irritada.

Mas aquele que, iluminado pela fé, sabe o que significa esta idade - que de merecimentos e de santas alegrias não recolhe?

As pernas já se negam a grandes passeios e longas caminhadas, para que o pequeno quintal ou jardim, a varanda florida e a casa sejam o seu pequeno mundo de paz e de meditação.

A vista torna-se sempre mais fraca, para que o olhar da alma, mais forte, alcance distâncias eternas. Os ouvidos vão perdendo a sua argúcia, para que melhor ouça a alma as vozes de Deus e da consciência. A língua perde, pouco a pouco, a sua agilidade, para que o silêncio envolva aquela vida que se transforma. A alimentação se torna cada vez mais parca e mais leve, para que o corpo, por assim dizer, se vá espiritualizando, e mais se deseje outra comida: a vontade de Deus, a graça, a santa comunhão.

E desse recolhimento sublime, ele sai, de vez em quando, para nos falar da fugacidade de tudo o que nos rodeia e nos aponta para a eternidade.

São esses quadros lindos que, de vez em quando, se encontram: velhices resignadas e pacificas, velhices alegres e ocupadas. Velhices, nas quais a alma boa se vai, pouco a pouco, desprendendo dos laços da carne, para que, em chegando a hora, desfira, livremente, o vôo para as alturas.

Visitamos, certa vez, 3 ou 4 sacerdotes jesuítas de 70 a 80 anos, na Vila Gonzaga de S. Leopoldo: cada um em seu quarto, bem arranjado e limpo, entregue ao seu estudo, leitura ou oração. Com que prazer nos receberam!

E nós, com que receio de perturbarmos o seu recolhimento.

Velhice abençoada! Como ela sabe aproveitar-se do seu recolhimento forçado, mas bem compreendido!

E essas matronas e chefes de família, que souberam envelhecer com fé e dignidade, que lição! Vede-as em sua cadeira de braços ou recostadas em sua cama, ou repousando sob uma árvore do quintal, com seu tricô ou seu jornal ou sua leitura espiritual ou seu terço, ou rodeados pelos netinhos ou filhos: são as despedidas tranqüilas desta terra; são os preparativos e acenos para a eternidade.

E' verdade que muita velhice não se aproveita, não só por culpa da própria pessoa, cuja vida desorganizada ou desregrada não foi uma preparação para esta idade importante, mas, muitas vezes, também, porque o ambiente, as coisas, as pessoas que a rodeiam, são mais de molde a irritar e aborrecer ou a dispersar, do que consolar, animar e recolher.

Pobres velhos, nas famílias ricas e pobres, que vivem, tanta vez, relegados ao esquecimento ou expostos ao ridículo ou tratados como pesos mortos, que já podiam desaparecer.

Mas também para isso, nos devemos preparar, contando mais com nossos esforços e energias, do que com o auxílio dos outros.

Construamos, desde já, o ambiente interior em que queremos passar a velhice, se Deus Nosso Senhor no-la der; ambiente interior forte e pacificador, capaz de transformar ou substituir os ambientes exteriores menos favoráveis.

Conheci um sacerdote jesuíta de 92 anos que ainda visitava os pobres doentes e os consolava, e que ainda, por escrito, preparava, cuidadosamente, a homília do domingo. Ó velhices lindas, velhices moças, que podem exclamar, todos os dias, com a liturgia, ainda que lhes tremam as mãos: "Subirei ao altar de meu Senhor, do Senhor que alegra a minha juventude".

Ai! os pecados contra a velhice! contra a velhice dos outros e contra a nossa própria possível velhice! não os cometamos.

Cerquemos de amor, de veneração, a idade, que quase toca, com a mão fidalga (pois a velhice não parece privilégio da verdadeira nobreza?!) os portais da eternidade.

Preparemos o nosso futuro feliz. E vós, queridos velhinhos, não vivais humilhados, de cabeça baixa. Erguei a vossa fronte. Não sois pesos mortos; sois reservatórios de vida, de energias, de valores morais. Que em vós, fontes de Nosso Senhor, se bebam as águas da prudência, da fé, da experiência, mas também de santas alegrias, de quem soube por que viveu e como viveu. Que o vosso recolhimento feliz, voluntário, espalhe notas de seriedade, de reflexão, no meio de leviandade e dissipação de um mundo louco, que mente a idade, que pinta os cabelos e os bigodes, que caminha com desenvoltura forçada, que não quer ter filhos e muito menos netos - mas que padece da velhice mais precoce, porque lhe falta a juventude perene de uma alma pura, humilde, boa...

Povoai-vos, recolhimentos da velhice! Cantai, com melodia cristã, os formosos versos das "Velhas Arvores" de Bilac.

(Recolhimento por D.Frei Henrique Golland Trindade O.F.M. Bispo de Bonfim, Editora Vozes, 1945)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

PENSAMENTO DA NOITE

PENSAMENTO DA NOITE


"Assim como os olhos da escrava estão fixos 
nas mãos de sua senhora,
assim os nossos olhos estão presos no Senhor Deus".
(Salmo CXXII,3)