sexta-feira, 22 de julho de 2011

ESPECIAL: Modéstia no falar

Nota do blogue: Segue alguns textos antigos do blogue que abordam o tema da modéstia no falar, creio que nunca é demais lembrarmos deste assunto, pois a pureza é defendida também com a mortificação deste órgão tão pequeno e que faz estragos tão grandes, como diz São Tiago: "Observai como uma faísca incendeia uma floresta inteira. A língua, também, é um fogo. Como um mundo de injustiça, a língua, instalada entre nossos membros, contamina o corpo inteiro e, alimentada pelo fogo do inferno, inflama o curso da existência." (Tiago 3, 6-7).

P.S: Em alguns posts eu coloquei trechos dos textos citados, porém o interessante seria ler, se possível todos os textos (inteiros), pois a verdade sempre se repete. 

MODÉSTIA NO FALAR


Conversas obscenas (Fr. Frutuoso Hockenmaier, O.F.M)
Da prática da caridade nas palavras (Sto. Afonso Maria de Ligório)
Do silêncio (Sto. Afonso Maria de Ligório)
A língua - órgão da palavra (Cônego Augusto Saudreau)
As excelências da mortificação (Sto. Afonso Maria de Ligório), segue um trecho que bem se aplica ao tema proposto:
2. Mortificação do ouvido
"Evita ouvir conversas inconvenientes ou difamações, e mesmo conversas mundanas sem necessidade, pois estas enchem nossa cabeça com uma multidão de pensamentos e imaginações que nos distraem e perturbam mais tarde nas nossas orações e exercícios de piedade. Se assistires a conversas inúteis, procura quanto possível dar-lhes outra direção, propondo, por exemplo, uma importante questão. Se isso não der resultado, procura retirar-te ou, ao menos, cala-te e baixa os olhos para mostrar que não achas gosto em tais conversas." Grifos meus
O valor do silêncio (Padre Manuel Bernardes), segue um trecho que bem se aplica ao tema proposto:
"Primeiramente, a matéria das nossas palavras há de ser plana, onde não ache tropeços a consciência, e limpa, onde não haja sombras e manchas contra a pureza do coração. Ó grande engano o nosso! Nós não queremos falar coisas boas, e queremos falar bem?" Grifos meus
"Se lhe apresentassem na sua mesa o pão ou qualquer outro manjar, em um prato ou vaso que houvesse servido em coisas que não são para nomear, quanto se indignaria contra o seu criado, por esta grosseria e desatenção. E quem duvida que muito mais repreensível é que a língua de um fiel, que serve de patena ao verdadeiro corpo de Cristo quando comunga, sirva de instrumento a palavras torpes e indecentes? (II – 530)

Quem usa de semelhante linguagem, por mais que se desculpe, dizendo que lhe não entra da boca para dentro, e que é só para rir e passar o tempo, dá claro indício de que o seu interior está corrupto. Porque oráculo é de Cristo Senhor nosso que a boca fala conforme o de que abunda o coração: Ex abundantia enim cordis os loquitur; e outra vez disse: Que do coração saem os maus pensamentos; e claro é que o que vem a língua primeiro esteve no pensamento; e ainda Sêneca assentou que o modo com que cada um fala é o translado ou cópia do seu espírito: Imago mentis sermo est; qualis vir, talis oratio... Logo, quem é acostumado a falar descomposturas, com que verdade afirma que lhe não entram no coração? E se até os sonhos de um adormecido e os delírios de um frenético são ordinariamente das coisas a que a natureza estava acostumada, quanto mais se conhecerá o nosso interior pelas palavras que proferimos, estando em nosso siso e liberdade? (II 530/531)

Escreve Estrabão que há na Índia um gênero de serpentes com asas como de pergaminho, que, voando de noite, sacodem uns pingos de suor tão pestífero que onde caem causam corrupção. Tais me parecem os que entre conversação soltam palavras e chistes descompostos; que são estes senão pingos de suor asquerosíssimo, que onde caem geram maus pensamentos e corrompem os costumes dos ouvintes? E se estes são gentes de tenra idade, a corrupção é mais pronta e mais certa, porque meninos são tábuas rasas onde o bem e o mal se pintam facilmente; pelo que mais respeito se deve ter a um menino, para não falar ruins palavras em sua presença, do que a homens de cãs veneráveis, porque estes sabem conhecer e reprovar o mal e aqueles não; neste caso ficará quem falou mal temeroso de achar repreensão, naquele outro ficará contente de achar imitadores. (Tratado da Virtude da castidade – Padre Manuel Bernardes - II – 532.) Grifos meus
A caridade proíbe a maledicência (Padre J.Baeteman), segue boa frase contida no texto:
"Pensai nisso, escrevia o P. Lacordaire: toda palavra tem seu livro, e tudo o que na terra não se escreve pela mão dos homens, é escrito no céu pela mão dos anjos. Cada dia, a cada instante, o inexorável buril da justiça divina recolhe o hálito dos vossos lábios, e grava-o, para vossa glória ou para vossa vergonha, nas tábuas da imortalidade." Grifos meus.
A modéstia nas conversas e nos recreios (Padre F. Maucourant)No prefácio deste livro encontra-se a seguinte observação: "Este livro foi composto, especialmente, para as almas religiosas. Parece-nos todavia, que ele pode ser lido e meditado, com proveito, por toda a alma desejosa de viver em toda a delicadeza, seja qual for a vocação que a Providência lhe tenha feito sentir".) Segue algumas frases e trechos bem edificantes tiradas do texto:
"A modéstia põe, em toda a pessoa das virgens, uma graça moderada, e, na sua vida, hábitos pacíficos; ela regula as suas palavras e até o tom da sua voz" (Santo Ambrósio).

"A modéstia é uma virtude que dá as leis de uma boa conversação" (Hugues card.)

"As vossas palavras sejam como maçãs de ouro em vasos de prata" (Prov., XXV, 11)

A segunda qualidade das conversações das virgens é a piedade. Santo Inácio, mártir, no meio dos seus suplícios, repetia sem cessar o nome de Jesus, e, quando morreu, encontraram este nome bendito gravado no seu coração. Assim, cada um fala voluntariamente daquilo que mais ama: "tal é o coração, tais são as palavras" (São João Crisóstomo). Um modelo acabado de verdadeiro religioso, "Santo Inácio de Loiola, parecia só saber falar de Deus, de tal modo que o tinham cognominado de 'o padre que não tem na boca senão a Deus'" (Santo Afonso Maria de Ligório). Grifos meus.
O Padre e o bom exemplo (Padre. A.A. Moraes Junior), segue um trecho que bem se aplica ao tema proposto:
"Sejamos circunspectos antes de falar, e não profiramos uma só palavra sem primeiro a ter pesado, conforme este belo dito de Santo Agostinho: "omnia verba prius veniant ad limam quam ad linguam;" o que não acontece com os que, falando sempre precipitadamente, começam de atirar suas ascumas, em vez de chorar o mal irreparável que elas causam. É a necessidade que sente o padre santo, em si mesmo, de dar bom exemplo a todo o mundo por suas conversas, que o leva a regular de tal modo sua língua, que não deixa nunca escapar voluntariamente um só palavra que ofenda o decoro ou uma qualquer virtude, impondo-se pelo cortejo de virtudes, que o acompanha sempre por toda a parte, onde se encontra!" Grifos meus.
As conversações (Pe. Hoornaert), segue abaixo o texto inteiro [baixar esse livro AQUI]:

As conversações


"Oh, língua bendita..."
Em 1263, quando seu corpo foi exumado,
sua língua estava intacta e continua intacta até hoje,
numa redoma de vidro,
 na Basílica de Santo Antônio, em Pádua,
onde estão seus restos mortais.

As conversações! o escolho clássico das reuniões da juventude!

Sê inabalável.
Não te importes.
Não escutes.

1º - Não te importes

Um livro, que ninguém taxará de hipócrita, "Safo", diz: a imoralidade "propaga-se, queimando o corpo e a alma, à maneira dos archotes, de que fala o poeta latino, que corriam de mão em mão pelo estádio".

Pensa que com ela correm risco muitas almas: a tua e a daquele ou as daqueles com quem falas. Com tais conversas pecas e és causa de outros pecarem. A culpa pessoal já é coisa deplorável! Mas a culpa com outro!... Quem sabe? Será para ele, quiçá, o primeiro anel duma cadeia que, afinal, o vem prender ao inferno.

Há de ser peso insuportável à consciência, no leito de morte, lembrar-se ter sido causa de tentação ou talvez de perdição de uma alma. "Ai daqueles que der escândalo", dizia o divino Mestre. Um homem fica inconsolável, por haver durante uma caçada ferido de morte um seu amigo. Aquele, que pelas suas palavras, concorre para a perdição de um companheiro, não mata inadvertida mas conscientemente.

Não é já um homicídio por imprudência mas por perversidade.

"Que as palavras desonestas sejam banidas da vossa boca". (Col. 3-8)

"Que nem mesmo se ouça dizer que há entre vós, fornicação, impureza de qualquer sorte, nem concupiscência... Nada de palavras nem de galanteios nem de gracejos grosseiros: todas coisas que são indecorosas... Porque, tende-o bem presente: nenhum impudico, nenhum desonesto... terá parte no reino de Cristo e de Deus. Que  ninguém vos iluda com enganosas palavras, pois é por tais vícios que a cólera de Deus vem sobre os filhos da incredulidade. Não tenhais relações de espécie alguma com eles". (Ef. 5-3)

2º - Não lhes prestes ouvidos

Mas aqui aparecem as tais objeções:

- "Para este gênero de conversações, a consciência já está formada".
Formada ou deformada?

- "Não podemos contudo trazer sempre algodão nos ouvidos".
Evidentemente, não: ouvistes por ventura que os pregadores ordenassem trazer algodão nos ouvidos? Mas podes pelo menos não provocar essas conversações picantes, nem entretê-las com perguntas curiosas,etc...

- "Com certeza, hão de taxar-me de carola".
E Deus há de chamar-te corajoso. Mas vale este tão soberano juízo.

- "Chamar-me-ão capuchinho, o que incomoda; ou pior ainda: jesuíta".
E tu lhes responderás: Tenho muita honra nisso! Prefiro lograr tão boa companhia, no Céu.

- "Que pensarão de mim"?
Hão de te admirar.

Apelo para ti mesmo. Na intimidade, os moços conhecem-se muito bem mutuamente. Pois bem: quais são os colegas verdadeiramente estimados, aqueles a quem tu, em ocasião crítica, sendo preciso, irás pedir um conselho sério?! Aqueles a quem todos verdadeiramente respeitam? Quais são eles? Serão acaso os covardes, que escondem a sua bandeira, no bolso (e neste caso já não é uma bandeira mas um lenço de assoar), ou aqueles que se dizem e são católicos?

Os que o são à valer e "descaradamente" como diria L.Veuillot, mas que por outra parte não têm esse pudor assustadiço, que imaginam, serem tudo gracejos traiçoeiros; que confundem conversas grosseiras com as conversas más, sem saber adotar um gênero de conversação alegre e sã.

Os jovens detestam um trato arisco e pesado que dá ocasião a tornar-se a virtude objeto de zombaria. Procura, pois, pelo contrário (este ponto é muito importante) tornar a religião simpática, mediante o apostolado da alegria. Um jovem educado não só pode ser alegre, mas para sê-lo terá cem razões mais que os outros. A única nostalgia permitida a um cristão é a do Céu.

Não conheço textos na Sagrada Escritura que nos recomendem a melancolia; são muitos, porém, os que nos recomendam a amabilidade e a alegria.

"Regozijai-vos no Senhor, sem cessar: regozijai-vos em alegria". (II Cor. 13-11).

"Andai sempre alegres". (I Tes. 5-16)

"Vosso coração se alegrará e ninguém arrebatará a vossa alegria... Que a vossa alegria seja perfeita". (Jo. 16-22)

"Bem-aventurados os puros" (Ps. 118)

Por um motivo parecido é que as donzelas cristãs devem trajar com bom gosto. A modéstia não as condena ao espetáculo esquisito de modas antiquadas ou rústicas. Não seja pois a religião, para o jovem, sinônimo de enfado, nem para a jovem, sinônimo de fealdade. Ele deve rir, ela deve trajar-se bem.

-"Mas hão de perseguir-me".
Sim se ficardes sozinho, sem formar com outros amigos um grupo decente contra o grupo sujo. Sim, se tomardes atitude de santo gótico, de que acima falamos. Não, se conservares a devida naturalidade, se fores divertido (porque não?) e bom companheiro.

Ouve: dezenas de acadêmicos me afirmaram: "Basta ter coragem nos dez primeiros dias. Observam-nos. Se os dez primeiros dias nos fazemos respeitar, não mais nos inquietam e, por vezes, nos confessam: Muito bem. Isso é que é ter caráter! Se, pelo contrário, cederdes, acabou-se! Começais por uma fraqueza, por uma complacência que, aliás, só vos granjeou desprezo! E então já vos será muito difícil a reabilitação e fazer recuar amachina".

Não tenhais medo!... "Os maus dizia Mons. Darboy, bispo e mártir, só são valentes porque os bons são covardes". Sim, covardes!

Quanto mais se estudam os jovens, mais claramente se nota que os moços dos colégios cristãos se deixam arrastar pelos maus, sobretudo por causa do respeito humano. O respeito humano é que os leva a gabarem-se, às vezes, de certas "aventuras felizes", quando realmente elas não passam de umas criancices bem arquitetadas e que a sua famosa "garçoniére" não passa de um bairro onde se refugiam, para cautelosamente se furtarem a olhares perscrutadores.

Felizmente o viver destes jovens vale muito mais daquilo que dizem de si mesmo. São fanfarrões do vício unicamente por se envergonharem de parecer virtuosos, mas não compreendem - pobres infelizes - que, até quanto a granjearem a estima, que tanto ambicionam, tudo teriam a ganhar, se se mostrassem lógicos, quanto às suas convicções.

Santamente orgulhosos se deveriam antes mostrar por serem batizados, confirmados e participarem do augusto Sacramento do Altar, na Sagrada Comunhão! Um rei possui um único diadema. Um cristão tem tantos quantos forem os Sacramentos recebidos...

Para levar os homens ao que é nobre, generoso e heróico, requerem-se idéias nobres, coração magnânimo, linguagem ardente, e unção penetrante. Para ser alguém corifeu de estroinice ou de corrupção não se precisam esses brilhantes predicados. Basta o cinismo, a grosseria uma boca exercitada a vomitar injúrias, sarcasmos, e isto com muita naturalidade, sem cólera, sem esforços, eis tudo.

Com tão rico cabedal já podem contar com a popularidade e também com as covardias secretas e as baixas e lúbricas cumplicidades do vulgo...

Pavoroso escolho das conversações juvenis são, realmente, essas fanfarronadas de impureza! Por toda parte continua produzindo os mesmos deletérios frutos: o rebaixamento das almas, a morte do ideal, o aniquilamento do pudor. Contra este mal, insurgem e lutam os piedosos educadores pela vigilância, pelas salutares diversões de exercícios musculares e sobretudo pela religião, cujo freio possante e nobre, sofreia os corações ardentes e fecha os lábios às palavras dissolutas. É mesmo assim, não chegam nem podem impedir todos os males. Oferecem, todavia, a todos, até mesmo aos caracteres pusilânimes e fracos, a possibilidade de se libertarem do mal, se tiverem alguma boa vontade... (Livro A Grande Guerra) Grifos meus.

As nossas conversas (São Francisco de Sales), segue trechos do texto:

"A boca do justo, diz a Escritura, meditará sabedoria e a sua língua falará prudência."

"Fala, pois, muitas vezes de Deus e experimentarás o que se diz de S. Francisco -- que, quando pronunciava o nome do Senhor, sentia a alma inundada de consolações tão abundantes que até sua língua e seus lábios se enchiam de doçura."




CAPÍTULO XXVII
Honestidade das palavras e respeito que se deve ao próximo

Se alguém não peca por palavras, é um homem perfeito, diz S. Tiago.

Tem todo o cuidado em não deixar sair de seus lábios alguma palavra desonesta, porque, embora não proceda duma má intenção, os que a escutam a podem interpretar de outra forma. Uma palavra desonesta que penetra num coração frágil estende-se como uma gota de azeite e às vezes toma posse de tal modo dele que o enche de mil pensamentos e tentações sensuais.

É ela um veneno do coração, que entra pelo ouvido; e a língua que serve de instrumento a esse fim é culpada de todo o mal que o coração pode vir a sofrer, porque, ainda que neste se achem disposições tão boas que frustrem os efeitos do veneno, a língua desonesta, quanto dela dependia, procurou levar esta alma à perdição. Nem se diga que não seu prestou atenção, porque Nosso Senhor disse que a boca fala da abundância do coração. E, mesmo que não se pensasse nada de mal, o espírito maligno o pensa e por meio dessas palavras suscita o sentimento mau nos corações das pessoas que as ouvem.

Diz-se que quem comeu a raiz denominada angélica fica um hálito doce e agradável e os que possuem no coração o amor à castidade, que torna os homens em anjos na terra, só têm palavras castas e respeitosas. Quanto às coisas indecentes e desonestas, o apóstolo nem quer que se nomeiem nas conversas, afirmando que nada corrompe tanto os bons costumes como as más conversas.

Se se fala dissimuladamente e em torneios sutis e artificiosos de coisas desonestas, o veneno encerrado nessas palavras é ainda mais sutil, danoso e penetrante, assemelhando-se aos dardos, que são tanto mais para temer quanto mais finos são e mais agudas têm as pontas. Quem quer granjear deste modo o nome e a estima de homem espirituoso ignora completamente o fim da conversa; a conversa deve parecer-se com o trabalho comum de um enxame de abelhas para fazer um mel precioso, e o modo de agir dessas pessoas pode-se comparar a um montão de vespas em torno duma podridão.

Assim, se um louco te disser palavras indecentes, testemunha-lhe logo a tua indignação, voltando-te para falar com uma outra pessoa ou de algum outro modo que te sugerir a prudência.

Muito má qualidade é ter um espírito motejador. Deus odeia extremamente este vício e puniu-o, como se lê no Antigo Testamento, com muita severidade. Nada é mais contrário à caridade e máxime à devoção que o desprezo do próximo; mas a irrisão e mofa trazem forçosamente consigo este desprezo; e´, pois, um pecado muito grave e dizem os moralistas que, entre todos os modos de ofender o próximo por palavras, este é o pior, porque tem sempre unido o presprezo, ao passo que nos outros a estima ainda pode subsistir.

Mas, quanto a esses jogos de palavras espirituosas com que pessoas honestas costumam divertir-se, com uma certa animação, sem pecar contra a caridade ou a modéstia, são até uma virtude, que os gregos chamam eutrapelia ou arte de sustentar uma conversa agradável; servem-se para recrear o espírito das ocasiões insignificantes que as imperfeições humanas gerais fornecem ao divertimento.

Somente deve-se tomar o cuidado que essa alegria inocente não se vá tornando em mofa, porque esta provoca a rir-se do próximo por desprezo, ao passo que esses gracejos delicados só fazem rir por prazer e pelo espírito de certas palavras, ditas por liberdade, confiança e familiaridade, com toda a franqueza, e recebidas de boa mente, tendo-se completa certeza que ninugém as levará a mal.

Quando os religiosos da corte de S. Luís queriam entabular uma conversa séria e elevada depois do jantar, dizia-lhes o santo rei: Agora não é tempo de arrazoar muito, mas de divertir-se com uma conversação animada; diga, pois, cada um, livre e honestamente, o que lhe vem ao pensamento. Queria com isso dar um prazer à nobreza de que se rodeava, condescendendo nestas provas familiares da bondade de sua real majestade.

Enfim, Filotéia, passemos o pouco tempo que nos é dado para uma conversa recreativa e agradável, de modo que a devoção aí praticada nos assegure uma eternidade feliz.

(Filotéia - Parte III - São Francisco de Sales) Grifos meus.

Bom uso da língua (Pe. Matias de Bremscheid), segue trechos do texto:


"Ouvi, filhos, as regras que vos dou sobre a moderação da língua:
 aquele que as guardar não perecerá pelos lábios,
 nem cairá em ações criminosas"
(Ecli., 23,7)

- Livro do Eclesiástico (cap. 28): "As chicotadas produzem vergões, mas os golpes da língua quebram os ossos... Faze uma porta e fechadura diante da tua boca: Funde o teu ouro e a tua prata e faze com isso uma balança para pesares as tuas palavras e um freio bem ajustado para a tua boca".

- O bom uso da língua pode transformá-la em instrumento de graças.

No ano de 1263 retirou-se o corpo de Santo Antônio de Pádua do sepulcro, a fim de o transportar para a nova igreja, edificada em sua honra. Ao se abrir o sarcófago, os membros caíram aos pedaços, a carne já se havia transformado em pó e cinza. Mas, o queixo, os cabelos e os dentes estavam ainda conservados, e sobretudo a língua de todo incorrupta e com a sua cor naturalO Santo Cardeal Boaventura, que de Roma fora a Pádua por ocasião dessa festividade, tomou em suas mãos com grande respeito esse língua, beijou-a e disse entusiasmado: "Ó língua, que em todo o tempo louvaste ao Senhor e ensinaste os demais a louvá-Lo, agora se torna a todos manifesto, quanto és apreciada de Deus".

- Deves calar-te e não falar de coisas impuras e ignóbeis. Sabes o que diz o Apóstolo: "Nem sequer se nomeie entre vós ... qualquer impureza ... como convém a santos" (Ef., 5,3).

- Como este Apóstolo não seria tomado de santa indignação, se em nossos dias surgisse de improviso numa reunião de moços e ali ouvisse as conversas tais que fazem subir o rubor à faces! Até mesmo na presença de crianças inocentes, se proferem, às vezes, palavras obscenas! Não deveriam tais libertino sentir pavor daquela terrível "Ai!" que o Divino Salvador pronunciou contra os que escandalizam os pequenos?

"Ouvi, filhos, as regras que vos dou sobre a moderação da língua: aquele que as guardar não perecerá pelos lábios, nem cairá em ações criminosas" (Ecli., 23,7) Grifos meus.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A Sagrada Família modelo de paz e concórdia

A SAGRADA FAMÍLIA
MODELO DE PAZ E CONCÓRDIA


Consideremos o amor de José, para com sua santíssima Esposa. Era Ela a mais formosa entre todas as mulheres, a mais humilde, a mais obediente, a mais pura das almas, e a que Deus mais amou, acima de todos os homens e de todos os Anjos. Merecia, pois que São José, que tanto amava a virtude, Lhe dedicasse um amor extremo, superior a toda apreciação. A todos estes atrativos juntemos ainda o do afeto, com que se via amado de Maria, que certissimamente queria a sua Esposa mais do que a todas as outras criaturas. Por outro lado considerava-A como a Amada do Senhor e a escolhida dentre todas, para ser a Mãe do Seu Unigênito Filho. Fácil será de conceber qual seria, por todos estes motivos, o afeto do coração justo, generoso e agradecido de São José para com sua castíssima Esposa. Consideremos, além disso, o amor de José e de Maria ao seu Jesus. Havendo-os Deus escolhido para servirem de pais ao Seu Unigênito, lhes havia adornado os corações com o amor paternal o mais acrisolado, qual convinha tivessem a semelhante Filho, tão amável e que era o próprio Deus.

Não foi, pois, simplesmente natural o amor de José e de Maria, como os dos outros pais; mas foi sobrenatural, por isso que viam numa só pessoa reunidos o seu próprio Filho e o de Deus: Sabiam ser este Menino, que sempre os acompanhava, o próprio Verbo divino Encarnado por amor dos homens e particularmente por amor seu: que este adorável Infante por Si mesmo os havia a eles escolhido; dentre todos os homens, para serem seus pais, e protetores de Sua vida terrena.

Avaliemos, pois, se é possível, como todas estas considerações haviam de abrasar em incêndios de amor os corações de José e de Maria, ao verem o seu divino Mestre, servindo como operário, abrindo ou fechando a oficina, serrando madeira, manejando a plaina ou o machado, juntando os cavacos e fragmentos, varrendo a casa, e obedecendo-lhes, numa palavra, em tudo quanto Lhe mandavam, e dependendo de sua autoridade em tudo quanto fazia. 

De que terníssimos afetos se não inundariam os corações de José e de Maria, quando tinham ao colo este amabilíssimo Menino, quando Lhe prodigalizavam as suas carícias, ou dEle as recebiam! quando ouviam sair de Seus lábios essas palavras de vida eterna, que eram outras tantas setas ardentes de amor divino, que lhes atravessavam e incendiavam as almas: e sobretudo quando contemplavam os sublimes exemplos de virtude, que lhes dava o seu divino companheiro! 

Entre as pessoas que se amam sucede muitas vezes, que o amor se vai entibiando, a medida que se freqüentam, porque, quanto mais se tratam e comunicam melhor manifestam umas às outras os próprios defeitos. Não era, porém, assim com José e Maria; quanto mal tratavam com Jesus melhor lhe conheciam a santidade e às perfeições: e daqui se pode avaliar o grau de amor de Jesus, a que deviam ter chegado, gozando por tantos anos de Sua companhia e familiaridade.  

O adorável Menino correspondia, por Seu turno, com um amor divino àqueles que tanto O amavam. 

Oh! que admirável paz, que incendrada e mutua caridade reinava entre os membros da Sagrada Família de Nazaré. 

Oração jaculatória. - Doce coração de Jesus, sede a minha salvação. 
(300 dias de indulgência de cada vez.) 

(A Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910, versão do Espanhol por Manuel Moreira Aranha Furtado de Mendonça, Cônego honorário da Sé de Lamego, 3ª Edição, com Breve de Sua Santidade Leão XIII)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Conversas

Conversas


Ainda que tudo o que é desonesto é indecente, nem tudo o que é indecente se pode chamar desonesto. Não se confunda, pois a indecência com a desonestidade. Conversas e expressões referentes a coisas baixas e inconvenientes são falsamente julgadas desonestas. O mesmo se deve pensar de certas conversas sobre namoros, modas e diversões profanas, em que não se diz qualquer coisa menos conveniente. 

Nas mesmas expressões impuras devemos distinguir aquelas que são aberta e diretamente más e que ordinariamente arrastam à impureza, e aquelas que só remota e encobertamente se referem a coisas impuras e apenas levemente induzem ao pecado. Estas expressões, principalmente quando ditas por gracejo ou leviandade e sem complacência e impureza, não são tão pecaminosas como as outras; todavia o seu perigo cresce a medida que os interlocutores são falhos de virtude e inclinados à luxúria. O pecado será tanto mais grave, quanto maior for o perigo.

Não se esqueça que os pensamentos maus a ninguém escandalizam, ao passo que as conversas livres más, por leviandade, brincadeira, ou «para divertir a companhia» como se costuma dizer, dão quase sempre ocasião a maus pensamentos e desejos de pecados talvez gravíssimos, tanto internos como externos. Que tristes efeitos resultam das conversas levianas e impuras! 

Uma criada de servir tinha o costume de entremear sempre nas suas conversas palavras levianas e frases inconvenientes, apesar das admoestações constantes duma companheira que não cessava de dizer: 

- À hora da morte chorarás amargamente esse mau costume, mas talvez sem proveito

Uma tarde foram as duas visitar a criada dum vizinho gravemente enferma a qual, depois de ter suplicado que orassem por ela para que lhe concedesse uma boa morte, acrescentou: 

- Uma coisa, sobretudo me aflige: ter misturado nas minhas conversas, palavras e frases obscenas. O meu confessor bem me dizia: quantos maus pensamentos e talvez más ações cometidas pelo próximo, que te serão imputadas à hora da morte! Agora vejo eu quanta razão ele tinha! Peço-vos que esqueçais as minhas más palavras, não siga meus exemplos, e dizei o mesmo às minhas companheiras. Todas as vezes que entrardes no cemitério e deitardes água benta sobre a minha campa, pensai que me ouvis dizer lá debaixo da terra: Guardai-vos de conversas desonestas, que pesam terrivelmente sobre o coração no leito da morte.

Todas as pessoas presentes ficaram profundamente impressionadas, e mais que todas a leviana criada, que na volta disse à companheira:

- Parecia-me que estava sobre brasas; prometo a Deus que nunca mais hei de sujar meus lábios com palavras desonestas. 

Como é verdadeira a palavra do Salvador: «Ai daquele homem por quem vem o escândalo!»

Havendo justo motivo para falar de coisas impuras ou perigosas, empregue-se o maior recato e sobriedade, evite-se toda a má intenção e haja todo o cuidado em não escandalizar as pessoas com quem se fala

Quanto a assistir a conversas desonestas ou indecentes, nota o seguinte: Não gostando das coisas que se dizem, mas somente do modo como se dizem, não é pecado grave ouvi-las. Mas se mostras agrado, rindo-te, e dás assim calor a quem fala para continuar, e aos outros ocasião de escândalo, então há perigo de pecares mortalmente. 

Não haverá pecado se, quando a conversa descamba para coisas torpes, te retiras ou, não o podendo fazer, procuras levá-la para outro assunto.  

Há, porém, ocasiões em que nenhum destes meios e exeqüíveis. Então necessário se torna não consentires; e para não haver escândalo, deves mostrar-te desgostoso e desaprovar externamente tais conversas baixando os olhos, ponde-te sério, ou de qualquer outra maneira.

Os pais e superiores estão obrigados a cortar energicamente todas as conversas impuras ou indecentes entre as pessoas que lhes estão subordinadas. 

(O Cristão no Tribunal da Penitência pelo Fr. Frutuoso Hockenmaier, O.F.M, tradução do P. Inôcencio do Nascimento, 3ª edição, 1949.)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Das qualidades do soldado de Deus


Das qualidades do soldado de Deus 


Labora sicut bonus miles Christi
Labuta como um bom soldado de Cristo 
(2 Tm 2, 2). 

É somente pela luta que o homem glorifica a Deus; se deve ganhar, com o suor do rosto, os alimentos que lhe sustentarão o corpo, deverá pela coragem conquistar as graças que lhe hão de fortalecer e embelezar a alma. Mas qual deve ser sua maneira de combater, que qualidades deve revelar nessa guerra incessante, que durará toda sua vida? O soldado de Deus deve ser obediente, paciente, humilde, sempre senhor de si mesmo

Obediência

A primeira qualidade de um soldado é o espírito de disciplina; é-lhe exigido, antes de tudo, que obedeça, que avance quando lhe for dada ordem, ou permaneça em seu posto, com risco da própria vida, quando os chefes assim o ordenarem. Um exército em que cada soldado seguisse suas próprias idéias e procedesse a seu bel-prazer, estaria condenado a uma derrota certa. Com maioria de razão, o soldado de Deus, que só pode vencer se for sustentado por Deus, deve combater conforme Deus quer; deve ir, não aonde lhe agrada, mas aonde Deus o quer; deve agir, não segundo seu gosto ou capricho, mas segundo os desígnios de Deus; deve empregar os meios que a Providência lhe prepara, ou que o Espírito divino lhe inspirar, e não atender às suas idéias individuais; deve renunciar a seus próprios projetos e submeter-se à opinião e às ordens daqueles que têm por encargo esclarecê-los e conduzi-los. 

São Francisco de Assis, submisso às inspirações que recebera, funda sua ordem sobre as bases da pobreza e da humildade. Este grande santo era de uma simplicidade encantadora e tudo quanto respirasse altivez, convenção, grandeza, lhe era estranho. Entre seus primeiros discípulos; um dos mais notáveis pela inteligência, pela energia e mesmo pelo fervor, foi Frei Elias; mas seu espírito não era o do santo fundador; às idéias de Francisco, entretanto, tão conformes à doutrina do Evangelho, queria substituir suas próprias idéias. Julgava, sem dúvida, a simplicidade ingênua de seu Pai indigna de urna ordem destinada ao apostolado, apta somente a inspirar desprezo aos fiéis: parecia-lhe necessário maior dignidade, maior nobreza. Não era o Espírito do Senhor que o inspirava e o impelia nesse caminho, e sim o espírito do mundo. O fim deste homem celebre provou bem que as maiores qualidades de espírito e de coração, se não forem aliadas a uma perfeita submissão à graça, de nada servem, e antes fazem sobressair a fraqueza humana. 

Quantos esforços perdidos, quantas lutas improfícuas naqueles que agem segundo a sua própria prudência e vontade, em vez de procurar conhecer e seguir a vontade divina. O povo de Israel - como no-lo demonstra toda a sua história - era vencido infalivelmente quando marchava para o combate antes de receber as ordens do Senhor; era-lhe, ao contrário, garantida a vitória quando consultava cuidadosamente os oráculos divinos e a eles se conformava. Deus nunca abandona quem combate por Ele e só quer cumprir a Sua santa vontade. Este alcançará sempre, graças a Deus, vitória sobre todos os seus inimigos. 

Paciência

A guerra é uma rude escola de paciência onde as fadigas, são penosas e mais enervantes que os próprios perigos! E bom soldado aquele que dá provas de tolerância, a quem nada desanima e nada assusta; nem as marchas e contra-marchas, nem as vigílias, nem as privações, nem as intempéries, aquele que não se queixa se for mal alimentado, mal alojado, mal vestido; que suporta, alegre, todos os sofrimentos, feliz de poder, mesmo a tal preço, contribuir para a defesa e o triunfo de sua pátria. 

A luta que devem sustentar os soldados de Cristo é fértil em trabalhos duros e o cristão que quer alcançar a vitória deve armar-se de uma paciência a toda prova. 

Os sofrimentos lhe vêm, quer de Deus, que experimenta Seus fiéis, afastando-Se deles e parecendo abandoná-los a si mesmos; quer dos homens, que são os instrumentos de que Deus se utiliza para purificar e santificar os Seus servos; e quem murmura, pois, contra o próximo, inconscientemente murmura contra Deus; quer enfim dos demônios que, ansiando pela sua perda, não o deixam em repouso.

O sofrimento é indispensável ao desenvolvimento da virtude, como a água à planta; a virtude que não é experimentada se estiola, como a planta num solo árido, chegando mesmo a secar e morrer. O sofrimento é um dom de Deus, pois oferece ocasiões de mérito, ajudando a reprimir os ímpetos da natureza, a diminuir-lhe o ardor, a moderar-lhe as tendências, a mantê-la sob o domínio da razão e da fé. Oh! que grande ciência adquire quem sabe sofrer! 

O sofrimento fortifica a virtude. Doce é o espetáculo de uma alma que se abre à vida de piedade; semelhante à planta pequenina, cujo caule brota da terra, tem uma aparência delicada que encanta; mas, se a plantinha agrada porque é tenra, também é frágil e sensível, um nada a machuca, uma rajada de vento pode abatê-la, um raio de sol, murchá-la; quando houver experimentado a aridez, as tempestades, as intempéries de toda espécie, será mais forte e estará exposta a menos perigos. Assim o soldado de Cristo que sofreu a aridez, as tentações, as tribulações de toda sorte, adquire grande energia, se, contudo, souber suportar essas tristezas com paciência e amor. A tal preço somente será invencível e os inimigos nada poderão contra ele.

Humildade 

Quando os chefes de exército se preparam para conduzir seus soldados ao combate, apresentam-lhes a vitória como certa, e, para aumentar-lhes a confiança, cumulam-nos de elogios, exaltam-nos como se fossem os primeiros guerreiros do mundo. Todos os soldados de Deus são destinados a vencer e devem lutar com a esperança, com a certeza do triunfo, como os dos exércitos humanos, mas, longe de, porem a confiança em si mesmos é pela arma da humildade que devem combater e que poderão alcançar a vitória. 

Quando Gedeão, para repelir os madianitas reuniu um exército, o Senhor achou-o numeroso demais e reduziu-o, por duas vezes, até formar um número irrisório. 

Trezentos guerreiros, apenas, bastaram para esmagar a multidão imensa de inimigos. "Não quero, dissera o Senhor, que Israel se glorie contra mim e diga: "Fui libertado pelas minhas próprias forças". É por meios mui simples e humildes que o Senhor opera constantes prodígios em favor de seu povo. É também menos por atos de ostentação que por obras ignoradas ou de pouco valor ao juízo do mundo, mas inspiradas numa grande pureza de intenção, em um amor ardente, cheio de delicadezas, que Deus eleva Seus eleitos à perfeição. Os feitos brilhantes favorecem o orgulho e não convêm senão às almas já adiantadas na humildade.

Abraão não começou pelo sacrifício de Isaac; quando Deus o submeteu a esta prova, ele já atingira uma consumada virtude, adquirida pela fidelidade aos deveres e pela piedade constante, que o levava a erguer um altar em todo lugar por onde passasse, bem como por outras obras insignificantes, porém preciosas diante de Deus. Este grande patriarca era humilde de coração, como prova sua conduta em relação ao seu sobrinho Lot, cedendo-lhe de tão bom grado a melhor parte; era bom e afetuoso, como toda a sua história o demonstra. Foi pela prática dessas virtudes que se elevou, pouco a pouco, ao heroísmo. Essa mesma simplicidade, essa humildade, essa fidelidade às virtudes da vida comum, encontram-se também nos outros santos patriarcas, em Isaac, Jacó, José; foi seguindo igual caminho que se tornaram verdadeiros servos de Deus e Seus amigos prediletos.  

Não é de supor que essas humildes virtudes só exijam pequenos esforços: exigem, pelo contrário, esforços generosos e constantes, mas que em geral passam despercebidos; são desconhecidos dos homens, porém apreciados por Deus, e quem, continuamente, pratica essas pequenas virtudes, é, na realidade, um valente lutador e um insigne vencedor. 

É, de fato, muito merecedor quem, na luta sem tréguas, que deve ser a de todos os homens neste mundo, não, visa atos de realce, postos de honra, reputação brilhante, mas cumpre fielmente com seu dever, alheio à opinião dos homens, e se dedica, sem aparato, com o único intuito de realizar sua tarefa. Esta disposição de alma, entretanto; não basta para constituir um humilde soldado de Cristo. 

É mister, para ter direito a esse título, não somente não procurar a glória exterior, como também não se vangloriar a si mesmo; é mister reconhecer sua miséria e aceitar, de bom grado, ser imperfeito, cheio de defeitos, digno de compaixão. 

É-nos um grande sofrimento verificar nossos defeitos; foi até este o castigo imediato do primeiro pecado, a causa dessa vergonha, muito bem fundada, que levou Adão e Eva a se esconderem depois da falta cometida. Tal sofrimento é justo, e temos o dever de submeter-nos a ele. Devemos lastimar as nossas faltas, sem, porém, nos deixarmos abater, sem nos irritarmos contra nós mesmos. A humildade que produz abatimento e desânimo é falsa e ilusória e não provém de Deus, mas do demônio. Reconhece-se a árvore pelos frutos. Quando uma disposição de alma nos leva a suspender, por um instante sequer, a obra de nossa santificação, quando nos interrompe o impulso para o bem e nos paralisa as forças, então essa disposição é sugerida pelo nosso inimigo. 

O maldito perturba as almas ou as desanima a fim de perdê-las; sob a capa da humildade, excita o amor próprio, amor próprio despeitado da alma que contava consigo mesma, que se aflige com sua fraqueza e se envergonha ao reconhecer-se vil e desprezível. Há um recôndito despeito de orgulho em toda alma desanimada. 

O Senhor inspira uma humildade muito diversa e a põe, não somente no espírito, esclarecendo a alma sobre suas misérias, como também no coração, levando-a a consentir, de bom grado, em se humilhar, em se confessar pequenina e má. Então, nada se opõe à segunda graça, que, acompanha sempre a verdadeira humildade, graça de confiança e de paz. Nada posso por mim mesmo, diz o humilde soldado de Jesus, ao experimentar mais uma vez a sua fragilidade, nada sou, tametsi nihil sum, mas tudo posso naquele que me fortifica: omnia possum in eo qui me confortat. Levanta-se, então, cheio de coragem, e corre a vingar a derrota por novas vitórias. 

Paz da alma e posse de si mesmo

Um bom soldado é sempre senhor de si; saberá em caso de necessidade, demonstrar uma coragem impetuosa, mas também, sendo preciso, saberá moderar o entusiasmo, nunca cederá a um ímpeto excessivo, nem a um covarde abatimento; dominar-se sempre é a condição da verdadeira coragem que o torna invencível. Soldados de Deus, devemos também ser sempre senhores de nós mesmos e conservar essa paz que nosso Senhor ressuscitado não se cansava de desejar, aos apóstolos. Na paz encontraremos Deus, na paz receberemos a força de Deus. Se a paz estiver ausente de nosso coração ao lutarmos, lembremo-nos que nosso ardor de combate provém antes de nossas paixões que da graça. Neste caso, é a natureza que opera, são interesses humanos que nos dirigem. Com efeito, é próprio da natureza o afligir-se e perturbar-se. 

Deus nunca Se perturba; Deus vive na paz, Deus é paz, Ele, o ser imutável e imóvel que comunica todo movimento; e Sua ação é forte, mas suave. A alma que deixa Deus agir nela, que não opõe sua atividade humana ao impulso da graça, sentirá forçosamente em si os sinais da ação divina, permanecendo, portanto, forte e calma, venha o que vier. Se, ao contrário, ceder ao ímpeto da natureza, outros serão os caracteres dessa ação, mas nesse caso que valem suas obras, que resultado produzem seus esforços? 

Quem vive na paz, recebe as puras luzes de Deus; quem se entrega à agitação e à angústia, ou quer, a todo custo, satisfazer suas inclinações e ver realizar-se sua própria vontade, obsta o esclarecimento divino; seu espírito obscurecido, velado, qual névoa, pelas inquietações que aceita, ou não procura afastar, pelos desejos naturais que lhe prendem a atenção, pelo receio de ver falhar-lhe os planos, não recebe mais os raios do Sol divino. Tal alma não pensa senão em seus temores, vive mergulhada em suas preocupações, como lhe podem chegar as santas inspirações? Está, pois, muito exposta a enganar-se; pode, por exemplo, conhecer mal seus deveres, exagerar-lhes as dificuldades, não perceber bem as razões que lhe sustentariam a coragem; daí muitas derrotas. Somente quem vive na paz será um valoroso soldado; a luz divina lhe mostrará, por certo, os perigos que corre, os sacrifícios que deve fazer, mas ao mesmo tempo lhe fará compreender que tudo se torna fácil com o auxílio de Deus. Então, a alma porá mãos à obra sem hesitar. 

Os israelitas antes de entrar na terra prometida escolheram doze homens e ali os enviaram como exploradores. Alguns, sob a influência de suas paixões, não viram a terra tal qual era, e, cedendo ao medo e à covardia, julgaram que seria loucura e temeridade tentar conquistá-la. 

Dois somente, entre eles, mais calmos, mais senhores de si, porque, sem dúvida, possuíam mais que os outros a paz, da alma, apreciaram ponderadamente a situação e não perderam a coragem. A posse, o gozo de Deus, a união com Deus, mesmo neste mundo, eis a terra prometida da alma cristã. Mas, ai de nós! pouquíssimas são as almas que a consideram com as devidas disposições e a apreciam ao seu justo valor; a maior parte, como os enviados de Moisés: consideram a sua conquista como impossível; os obstáculos a vencer os intimidam, a visão de sua fraqueza os desanima. Somente aqueles que não cedem ao temor, que permanecem firmes e calmos, aqueles que possuem a paz da alma, põem a sua confiança em Deus e tentam generosamente a conquista.

Não pensemos, como acontece com demasiada freqüência, que a paz da alma seja um dom reservado de que é cioso, e que só concede a alguns privilegiados. É opinião corrente que a paz da alma não pode coexistir com a luta "Não posso gozar da paz nas circunstâncias em que a Providência me colocou; entre múltiplos lides e os cuidados que me cercam; não posso gozar dela com o meu gênio, inclinado ora à agitação, ora ao abatimento; tomo muito a peito proceder bem e ver que os outros procedam bem, como então conservar a paz quando cometo tantas faltas e vejo os outros caírem em tantos erros?" 

Desculpas fúteis, com as quais nos iludimos a nós mesmos e deixamos de prosseguir na conquista de tão estimável bem. Não caem neste erro aqueles que compreendem toda a importância dessa paz; pensam, com razão, que Deus, infinitamente bom, não quer recusar às almas de boa vontade um dom tão necessário. Aqueles que não lhe sabem o valor e não empregam todos os esforços por adquiri-lo, mostram que estão pouco esclarecidos a respeito e que desconhecem o caminho que leva a Deus. 

Quando uma alma provar a paz, com que carinhoso desvelo a deve conservar! Como se deve esmerar por não a perturbar! 

Quer triunfe, quer sucumba, deve sempre conservar a paz, até que suas quedas e suas vitórias, seus pecados e suas virtudes desapareçam na paz. Ao considerar seus inimigos, procurando descobrir-lhes os ataques e os meios de ação e, ao mesmo tempo, reconhecer os seus próprios pontos fracos, deve fazer esse exame dentro da paz como numa fortaleza inexpugnável. Deveria aspirar e respirar essa paz, e dela impregnar todos os seus atos. 

(O caminho que leva a Deus pelo Cônego Augusto Sandreau, 1944, editora Vozes)

PS: Grifos meus

quarta-feira, 13 de julho de 2011

ABENÇOADA FÉ!

ABENÇOADA FÉ!


Sabes o que te proporciona a fé, o que te dá a religião? - Vértebras de aço, convicções, inquebrantável fidelidade aos princípios. 

Pirro, rei do Epiro, enviou Cíneas, seu confidente, ao senador Fabrício, a fim de suborná-lo. 

Cíneas voltou: "Majestade, antes conseguiremos desviar o sol de seu curso secular, do que a Fabrício da senda da honestidade!" 

Vês? Eis o panegírico do homem fiel! Não podemos ter confiança num homem que baseia o conceito de honra e caráter em idéias filosóficas versáteis ou na efêmera frivolidade do mundo. Mas aquele cuja frieza e fidelidade emanam das leis de Deus eterno, este inspira confiança, como a rocha de granito. 

Nas situações críticas da vida é unicamente a religião que nos dá energia para afrontar as dificuldades.

Napoleão, o dominador da Europa, retirava-se de Moscou, em chamas. Terrível tempestade de neve fustigava os soldados mortalmente exaustos: apenas conseguiam arrastar-se, caindo aos milhares, vítimas das garras gélidas da neve. Fazem ligeiro alto. Trevas, com impenetrável nevoeiro, envolvem os poucos sobreviventes. Napoleão caminha pela neve, mortalha de tantos bravos. Eis que um raio de luz brilha na escuridão! À ordem do imperador, seu ajudante de ordens corre a verificar do que se trata... Volta: "Majestade! O major Drouot vela na tenda: ele reza e trabalha". - Na primeira ocasião, o imperador o eleva a general e lhe agradece por ter demonstrado tanta virilidade de alma naquela horrenda noite em que ele mesmo ameaçava desfalecer. 

"Sire", replica o general, "não receio nem a morte nem a fome, só temo a Deus: nisso está toda a minha força". 

"Nisso está toda a minha força!" Sim: A convicção religiosa produz caráter varonil, coragem forte, ânimo constante. Xenofonte já proclamava: "Mais fortes e sábios são os povos e estados que primam pela religiosidade". Mas, os que não servem a Deus obedecem a muitos. 

Sabes o que a fé te proporciona ainda? Tranqüilidade interna, verdadeira paz, real alegria de alma. Talvez penses, de vez em quando, que teus companheiros estróinas, gozadores da vida, são os realmente felizes! Talvez até mesmo tenhas nutrido certos pensamentos, como os de um meu discípulo, que se lastimava dizendo: "Pergunto-me às vezes, se vale de fato a pena lutar e pelejar. Dia a dia combato minhas más inclinações, esforço-me por permanecer bom e correto - e tantos jovens ao redor de mim, levando uma vida desenfreada, sem preocupações, são felizes, ditosos...!"

Meu caro, quando te vierem também esses pensamentos perturbadores, cuidado! não te iludam as aparências! Não suponhas, que uma alma possa ser realmente feliz, uma vez quebradas suas relações com Deus. Encontrarás homens que, embora desfrutem riquezas, saúde e posição invejável, são sumamente: infelizes. Falta-lhes alguma coisa, o essencial. Que? A fé! 

Se o mundo quer te enredar, 
Ao céu te deves alçar! 

Corno tu, que tens vida sinceramente religiosa, também aquele que não se importa de Deus e religião possui uma alma; - entretanto, quanta diferença! O carvão é carbono, o diamante também o é, todavia são dois antagonismos. A alma sem religião é carvão negro, insensível à luz; ao passo que a alma integrada na religião, é como diamante cristalino que absorve sofregamente os raios solares e jubilosamente os reflete em múltiplas fulgurações.

O grande compositor Chopin perdera sua piedade na licenciosa sociedade francesa. Aqui está sua confissão, por assim dizer seu testamento: Doente, às portas da eternidade, foi visitado por um amigo de infância, agora sacerdote. A instância deste, Chopin retomou à sua fé. Banhado em lágrimas de arrependimento e consolo, recitou o "Credo", e, beijando o crucifixo disse: 

"Retorno à fonte da felicidade!
Que mais te concede tua fé? 

Consolo na provação e infelicidade. Dizer "homem" é dizer "sofrer". Serás, também visitado pela dor, pela doença, desenganos talvez e penas morais. Falece alguém a quem muito amavas - Tua mãe querida sofre meses a fio e não lhes podes valer - Elaboraste um plano magnífico... , no último momento tudo desaba... Vêm então os amigos e te aconselham: "Vai divertir-te, gozar; vai ao cinema, ao clube". Tudo em vão. Consolar, só pode Aquele que enviou tão pungente sofrimento. Onde encontrarás conforto? Somente onde encontrou Napoleão, depois de precipitado do apogeu da glória à solidão do exílio: na religião. E então comprovarás por experiência própria a verdade da comparação de Goethe: "A religião é capital acumulado, cujos juros nos sustentam no tempo da desgraça. Pois, só a fé ensina que a adversidade, aceita como vontade de Deus, é penhor de bênção divina". 

Antes de partir para a guerra, os cavaleiros da Idade Média afiavam as espadas numa coluna de igreja. Que significava? Isto: "Confio em mim, mas também confio em Deus". Como a confiança em Deus anima as fracas forças humanas! Quem espera em Deus conquistou poderoso aliado, não luta a sós. 

(A Religião e a Juventude por Monsenhor Tihamér Tóth, editora SCJ, Taubaté, 1951)

PS: Grifos meus.