quarta-feira, 20 de julho de 2011

Conversas

Conversas


Ainda que tudo o que é desonesto é indecente, nem tudo o que é indecente se pode chamar desonesto. Não se confunda, pois a indecência com a desonestidade. Conversas e expressões referentes a coisas baixas e inconvenientes são falsamente julgadas desonestas. O mesmo se deve pensar de certas conversas sobre namoros, modas e diversões profanas, em que não se diz qualquer coisa menos conveniente. 

Nas mesmas expressões impuras devemos distinguir aquelas que são aberta e diretamente más e que ordinariamente arrastam à impureza, e aquelas que só remota e encobertamente se referem a coisas impuras e apenas levemente induzem ao pecado. Estas expressões, principalmente quando ditas por gracejo ou leviandade e sem complacência e impureza, não são tão pecaminosas como as outras; todavia o seu perigo cresce a medida que os interlocutores são falhos de virtude e inclinados à luxúria. O pecado será tanto mais grave, quanto maior for o perigo.

Não se esqueça que os pensamentos maus a ninguém escandalizam, ao passo que as conversas livres más, por leviandade, brincadeira, ou «para divertir a companhia» como se costuma dizer, dão quase sempre ocasião a maus pensamentos e desejos de pecados talvez gravíssimos, tanto internos como externos. Que tristes efeitos resultam das conversas levianas e impuras! 

Uma criada de servir tinha o costume de entremear sempre nas suas conversas palavras levianas e frases inconvenientes, apesar das admoestações constantes duma companheira que não cessava de dizer: 

- À hora da morte chorarás amargamente esse mau costume, mas talvez sem proveito

Uma tarde foram as duas visitar a criada dum vizinho gravemente enferma a qual, depois de ter suplicado que orassem por ela para que lhe concedesse uma boa morte, acrescentou: 

- Uma coisa, sobretudo me aflige: ter misturado nas minhas conversas, palavras e frases obscenas. O meu confessor bem me dizia: quantos maus pensamentos e talvez más ações cometidas pelo próximo, que te serão imputadas à hora da morte! Agora vejo eu quanta razão ele tinha! Peço-vos que esqueçais as minhas más palavras, não siga meus exemplos, e dizei o mesmo às minhas companheiras. Todas as vezes que entrardes no cemitério e deitardes água benta sobre a minha campa, pensai que me ouvis dizer lá debaixo da terra: Guardai-vos de conversas desonestas, que pesam terrivelmente sobre o coração no leito da morte.

Todas as pessoas presentes ficaram profundamente impressionadas, e mais que todas a leviana criada, que na volta disse à companheira:

- Parecia-me que estava sobre brasas; prometo a Deus que nunca mais hei de sujar meus lábios com palavras desonestas. 

Como é verdadeira a palavra do Salvador: «Ai daquele homem por quem vem o escândalo!»

Havendo justo motivo para falar de coisas impuras ou perigosas, empregue-se o maior recato e sobriedade, evite-se toda a má intenção e haja todo o cuidado em não escandalizar as pessoas com quem se fala

Quanto a assistir a conversas desonestas ou indecentes, nota o seguinte: Não gostando das coisas que se dizem, mas somente do modo como se dizem, não é pecado grave ouvi-las. Mas se mostras agrado, rindo-te, e dás assim calor a quem fala para continuar, e aos outros ocasião de escândalo, então há perigo de pecares mortalmente. 

Não haverá pecado se, quando a conversa descamba para coisas torpes, te retiras ou, não o podendo fazer, procuras levá-la para outro assunto.  

Há, porém, ocasiões em que nenhum destes meios e exeqüíveis. Então necessário se torna não consentires; e para não haver escândalo, deves mostrar-te desgostoso e desaprovar externamente tais conversas baixando os olhos, ponde-te sério, ou de qualquer outra maneira.

Os pais e superiores estão obrigados a cortar energicamente todas as conversas impuras ou indecentes entre as pessoas que lhes estão subordinadas. 

(O Cristão no Tribunal da Penitência pelo Fr. Frutuoso Hockenmaier, O.F.M, tradução do P. Inôcencio do Nascimento, 3ª edição, 1949.)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Das qualidades do soldado de Deus


Das qualidades do soldado de Deus 


Labora sicut bonus miles Christi
Labuta como um bom soldado de Cristo 
(2 Tm 2, 2). 

É somente pela luta que o homem glorifica a Deus; se deve ganhar, com o suor do rosto, os alimentos que lhe sustentarão o corpo, deverá pela coragem conquistar as graças que lhe hão de fortalecer e embelezar a alma. Mas qual deve ser sua maneira de combater, que qualidades deve revelar nessa guerra incessante, que durará toda sua vida? O soldado de Deus deve ser obediente, paciente, humilde, sempre senhor de si mesmo

Obediência

A primeira qualidade de um soldado é o espírito de disciplina; é-lhe exigido, antes de tudo, que obedeça, que avance quando lhe for dada ordem, ou permaneça em seu posto, com risco da própria vida, quando os chefes assim o ordenarem. Um exército em que cada soldado seguisse suas próprias idéias e procedesse a seu bel-prazer, estaria condenado a uma derrota certa. Com maioria de razão, o soldado de Deus, que só pode vencer se for sustentado por Deus, deve combater conforme Deus quer; deve ir, não aonde lhe agrada, mas aonde Deus o quer; deve agir, não segundo seu gosto ou capricho, mas segundo os desígnios de Deus; deve empregar os meios que a Providência lhe prepara, ou que o Espírito divino lhe inspirar, e não atender às suas idéias individuais; deve renunciar a seus próprios projetos e submeter-se à opinião e às ordens daqueles que têm por encargo esclarecê-los e conduzi-los. 

São Francisco de Assis, submisso às inspirações que recebera, funda sua ordem sobre as bases da pobreza e da humildade. Este grande santo era de uma simplicidade encantadora e tudo quanto respirasse altivez, convenção, grandeza, lhe era estranho. Entre seus primeiros discípulos; um dos mais notáveis pela inteligência, pela energia e mesmo pelo fervor, foi Frei Elias; mas seu espírito não era o do santo fundador; às idéias de Francisco, entretanto, tão conformes à doutrina do Evangelho, queria substituir suas próprias idéias. Julgava, sem dúvida, a simplicidade ingênua de seu Pai indigna de urna ordem destinada ao apostolado, apta somente a inspirar desprezo aos fiéis: parecia-lhe necessário maior dignidade, maior nobreza. Não era o Espírito do Senhor que o inspirava e o impelia nesse caminho, e sim o espírito do mundo. O fim deste homem celebre provou bem que as maiores qualidades de espírito e de coração, se não forem aliadas a uma perfeita submissão à graça, de nada servem, e antes fazem sobressair a fraqueza humana. 

Quantos esforços perdidos, quantas lutas improfícuas naqueles que agem segundo a sua própria prudência e vontade, em vez de procurar conhecer e seguir a vontade divina. O povo de Israel - como no-lo demonstra toda a sua história - era vencido infalivelmente quando marchava para o combate antes de receber as ordens do Senhor; era-lhe, ao contrário, garantida a vitória quando consultava cuidadosamente os oráculos divinos e a eles se conformava. Deus nunca abandona quem combate por Ele e só quer cumprir a Sua santa vontade. Este alcançará sempre, graças a Deus, vitória sobre todos os seus inimigos. 

Paciência

A guerra é uma rude escola de paciência onde as fadigas, são penosas e mais enervantes que os próprios perigos! E bom soldado aquele que dá provas de tolerância, a quem nada desanima e nada assusta; nem as marchas e contra-marchas, nem as vigílias, nem as privações, nem as intempéries, aquele que não se queixa se for mal alimentado, mal alojado, mal vestido; que suporta, alegre, todos os sofrimentos, feliz de poder, mesmo a tal preço, contribuir para a defesa e o triunfo de sua pátria. 

A luta que devem sustentar os soldados de Cristo é fértil em trabalhos duros e o cristão que quer alcançar a vitória deve armar-se de uma paciência a toda prova. 

Os sofrimentos lhe vêm, quer de Deus, que experimenta Seus fiéis, afastando-Se deles e parecendo abandoná-los a si mesmos; quer dos homens, que são os instrumentos de que Deus se utiliza para purificar e santificar os Seus servos; e quem murmura, pois, contra o próximo, inconscientemente murmura contra Deus; quer enfim dos demônios que, ansiando pela sua perda, não o deixam em repouso.

O sofrimento é indispensável ao desenvolvimento da virtude, como a água à planta; a virtude que não é experimentada se estiola, como a planta num solo árido, chegando mesmo a secar e morrer. O sofrimento é um dom de Deus, pois oferece ocasiões de mérito, ajudando a reprimir os ímpetos da natureza, a diminuir-lhe o ardor, a moderar-lhe as tendências, a mantê-la sob o domínio da razão e da fé. Oh! que grande ciência adquire quem sabe sofrer! 

O sofrimento fortifica a virtude. Doce é o espetáculo de uma alma que se abre à vida de piedade; semelhante à planta pequenina, cujo caule brota da terra, tem uma aparência delicada que encanta; mas, se a plantinha agrada porque é tenra, também é frágil e sensível, um nada a machuca, uma rajada de vento pode abatê-la, um raio de sol, murchá-la; quando houver experimentado a aridez, as tempestades, as intempéries de toda espécie, será mais forte e estará exposta a menos perigos. Assim o soldado de Cristo que sofreu a aridez, as tentações, as tribulações de toda sorte, adquire grande energia, se, contudo, souber suportar essas tristezas com paciência e amor. A tal preço somente será invencível e os inimigos nada poderão contra ele.

Humildade 

Quando os chefes de exército se preparam para conduzir seus soldados ao combate, apresentam-lhes a vitória como certa, e, para aumentar-lhes a confiança, cumulam-nos de elogios, exaltam-nos como se fossem os primeiros guerreiros do mundo. Todos os soldados de Deus são destinados a vencer e devem lutar com a esperança, com a certeza do triunfo, como os dos exércitos humanos, mas, longe de, porem a confiança em si mesmos é pela arma da humildade que devem combater e que poderão alcançar a vitória. 

Quando Gedeão, para repelir os madianitas reuniu um exército, o Senhor achou-o numeroso demais e reduziu-o, por duas vezes, até formar um número irrisório. 

Trezentos guerreiros, apenas, bastaram para esmagar a multidão imensa de inimigos. "Não quero, dissera o Senhor, que Israel se glorie contra mim e diga: "Fui libertado pelas minhas próprias forças". É por meios mui simples e humildes que o Senhor opera constantes prodígios em favor de seu povo. É também menos por atos de ostentação que por obras ignoradas ou de pouco valor ao juízo do mundo, mas inspiradas numa grande pureza de intenção, em um amor ardente, cheio de delicadezas, que Deus eleva Seus eleitos à perfeição. Os feitos brilhantes favorecem o orgulho e não convêm senão às almas já adiantadas na humildade.

Abraão não começou pelo sacrifício de Isaac; quando Deus o submeteu a esta prova, ele já atingira uma consumada virtude, adquirida pela fidelidade aos deveres e pela piedade constante, que o levava a erguer um altar em todo lugar por onde passasse, bem como por outras obras insignificantes, porém preciosas diante de Deus. Este grande patriarca era humilde de coração, como prova sua conduta em relação ao seu sobrinho Lot, cedendo-lhe de tão bom grado a melhor parte; era bom e afetuoso, como toda a sua história o demonstra. Foi pela prática dessas virtudes que se elevou, pouco a pouco, ao heroísmo. Essa mesma simplicidade, essa humildade, essa fidelidade às virtudes da vida comum, encontram-se também nos outros santos patriarcas, em Isaac, Jacó, José; foi seguindo igual caminho que se tornaram verdadeiros servos de Deus e Seus amigos prediletos.  

Não é de supor que essas humildes virtudes só exijam pequenos esforços: exigem, pelo contrário, esforços generosos e constantes, mas que em geral passam despercebidos; são desconhecidos dos homens, porém apreciados por Deus, e quem, continuamente, pratica essas pequenas virtudes, é, na realidade, um valente lutador e um insigne vencedor. 

É, de fato, muito merecedor quem, na luta sem tréguas, que deve ser a de todos os homens neste mundo, não, visa atos de realce, postos de honra, reputação brilhante, mas cumpre fielmente com seu dever, alheio à opinião dos homens, e se dedica, sem aparato, com o único intuito de realizar sua tarefa. Esta disposição de alma, entretanto; não basta para constituir um humilde soldado de Cristo. 

É mister, para ter direito a esse título, não somente não procurar a glória exterior, como também não se vangloriar a si mesmo; é mister reconhecer sua miséria e aceitar, de bom grado, ser imperfeito, cheio de defeitos, digno de compaixão. 

É-nos um grande sofrimento verificar nossos defeitos; foi até este o castigo imediato do primeiro pecado, a causa dessa vergonha, muito bem fundada, que levou Adão e Eva a se esconderem depois da falta cometida. Tal sofrimento é justo, e temos o dever de submeter-nos a ele. Devemos lastimar as nossas faltas, sem, porém, nos deixarmos abater, sem nos irritarmos contra nós mesmos. A humildade que produz abatimento e desânimo é falsa e ilusória e não provém de Deus, mas do demônio. Reconhece-se a árvore pelos frutos. Quando uma disposição de alma nos leva a suspender, por um instante sequer, a obra de nossa santificação, quando nos interrompe o impulso para o bem e nos paralisa as forças, então essa disposição é sugerida pelo nosso inimigo. 

O maldito perturba as almas ou as desanima a fim de perdê-las; sob a capa da humildade, excita o amor próprio, amor próprio despeitado da alma que contava consigo mesma, que se aflige com sua fraqueza e se envergonha ao reconhecer-se vil e desprezível. Há um recôndito despeito de orgulho em toda alma desanimada. 

O Senhor inspira uma humildade muito diversa e a põe, não somente no espírito, esclarecendo a alma sobre suas misérias, como também no coração, levando-a a consentir, de bom grado, em se humilhar, em se confessar pequenina e má. Então, nada se opõe à segunda graça, que, acompanha sempre a verdadeira humildade, graça de confiança e de paz. Nada posso por mim mesmo, diz o humilde soldado de Jesus, ao experimentar mais uma vez a sua fragilidade, nada sou, tametsi nihil sum, mas tudo posso naquele que me fortifica: omnia possum in eo qui me confortat. Levanta-se, então, cheio de coragem, e corre a vingar a derrota por novas vitórias. 

Paz da alma e posse de si mesmo

Um bom soldado é sempre senhor de si; saberá em caso de necessidade, demonstrar uma coragem impetuosa, mas também, sendo preciso, saberá moderar o entusiasmo, nunca cederá a um ímpeto excessivo, nem a um covarde abatimento; dominar-se sempre é a condição da verdadeira coragem que o torna invencível. Soldados de Deus, devemos também ser sempre senhores de nós mesmos e conservar essa paz que nosso Senhor ressuscitado não se cansava de desejar, aos apóstolos. Na paz encontraremos Deus, na paz receberemos a força de Deus. Se a paz estiver ausente de nosso coração ao lutarmos, lembremo-nos que nosso ardor de combate provém antes de nossas paixões que da graça. Neste caso, é a natureza que opera, são interesses humanos que nos dirigem. Com efeito, é próprio da natureza o afligir-se e perturbar-se. 

Deus nunca Se perturba; Deus vive na paz, Deus é paz, Ele, o ser imutável e imóvel que comunica todo movimento; e Sua ação é forte, mas suave. A alma que deixa Deus agir nela, que não opõe sua atividade humana ao impulso da graça, sentirá forçosamente em si os sinais da ação divina, permanecendo, portanto, forte e calma, venha o que vier. Se, ao contrário, ceder ao ímpeto da natureza, outros serão os caracteres dessa ação, mas nesse caso que valem suas obras, que resultado produzem seus esforços? 

Quem vive na paz, recebe as puras luzes de Deus; quem se entrega à agitação e à angústia, ou quer, a todo custo, satisfazer suas inclinações e ver realizar-se sua própria vontade, obsta o esclarecimento divino; seu espírito obscurecido, velado, qual névoa, pelas inquietações que aceita, ou não procura afastar, pelos desejos naturais que lhe prendem a atenção, pelo receio de ver falhar-lhe os planos, não recebe mais os raios do Sol divino. Tal alma não pensa senão em seus temores, vive mergulhada em suas preocupações, como lhe podem chegar as santas inspirações? Está, pois, muito exposta a enganar-se; pode, por exemplo, conhecer mal seus deveres, exagerar-lhes as dificuldades, não perceber bem as razões que lhe sustentariam a coragem; daí muitas derrotas. Somente quem vive na paz será um valoroso soldado; a luz divina lhe mostrará, por certo, os perigos que corre, os sacrifícios que deve fazer, mas ao mesmo tempo lhe fará compreender que tudo se torna fácil com o auxílio de Deus. Então, a alma porá mãos à obra sem hesitar. 

Os israelitas antes de entrar na terra prometida escolheram doze homens e ali os enviaram como exploradores. Alguns, sob a influência de suas paixões, não viram a terra tal qual era, e, cedendo ao medo e à covardia, julgaram que seria loucura e temeridade tentar conquistá-la. 

Dois somente, entre eles, mais calmos, mais senhores de si, porque, sem dúvida, possuíam mais que os outros a paz, da alma, apreciaram ponderadamente a situação e não perderam a coragem. A posse, o gozo de Deus, a união com Deus, mesmo neste mundo, eis a terra prometida da alma cristã. Mas, ai de nós! pouquíssimas são as almas que a consideram com as devidas disposições e a apreciam ao seu justo valor; a maior parte, como os enviados de Moisés: consideram a sua conquista como impossível; os obstáculos a vencer os intimidam, a visão de sua fraqueza os desanima. Somente aqueles que não cedem ao temor, que permanecem firmes e calmos, aqueles que possuem a paz da alma, põem a sua confiança em Deus e tentam generosamente a conquista.

Não pensemos, como acontece com demasiada freqüência, que a paz da alma seja um dom reservado de que é cioso, e que só concede a alguns privilegiados. É opinião corrente que a paz da alma não pode coexistir com a luta "Não posso gozar da paz nas circunstâncias em que a Providência me colocou; entre múltiplos lides e os cuidados que me cercam; não posso gozar dela com o meu gênio, inclinado ora à agitação, ora ao abatimento; tomo muito a peito proceder bem e ver que os outros procedam bem, como então conservar a paz quando cometo tantas faltas e vejo os outros caírem em tantos erros?" 

Desculpas fúteis, com as quais nos iludimos a nós mesmos e deixamos de prosseguir na conquista de tão estimável bem. Não caem neste erro aqueles que compreendem toda a importância dessa paz; pensam, com razão, que Deus, infinitamente bom, não quer recusar às almas de boa vontade um dom tão necessário. Aqueles que não lhe sabem o valor e não empregam todos os esforços por adquiri-lo, mostram que estão pouco esclarecidos a respeito e que desconhecem o caminho que leva a Deus. 

Quando uma alma provar a paz, com que carinhoso desvelo a deve conservar! Como se deve esmerar por não a perturbar! 

Quer triunfe, quer sucumba, deve sempre conservar a paz, até que suas quedas e suas vitórias, seus pecados e suas virtudes desapareçam na paz. Ao considerar seus inimigos, procurando descobrir-lhes os ataques e os meios de ação e, ao mesmo tempo, reconhecer os seus próprios pontos fracos, deve fazer esse exame dentro da paz como numa fortaleza inexpugnável. Deveria aspirar e respirar essa paz, e dela impregnar todos os seus atos. 

(O caminho que leva a Deus pelo Cônego Augusto Sandreau, 1944, editora Vozes)

PS: Grifos meus

quarta-feira, 13 de julho de 2011

ABENÇOADA FÉ!

ABENÇOADA FÉ!


Sabes o que te proporciona a fé, o que te dá a religião? - Vértebras de aço, convicções, inquebrantável fidelidade aos princípios. 

Pirro, rei do Epiro, enviou Cíneas, seu confidente, ao senador Fabrício, a fim de suborná-lo. 

Cíneas voltou: "Majestade, antes conseguiremos desviar o sol de seu curso secular, do que a Fabrício da senda da honestidade!" 

Vês? Eis o panegírico do homem fiel! Não podemos ter confiança num homem que baseia o conceito de honra e caráter em idéias filosóficas versáteis ou na efêmera frivolidade do mundo. Mas aquele cuja frieza e fidelidade emanam das leis de Deus eterno, este inspira confiança, como a rocha de granito. 

Nas situações críticas da vida é unicamente a religião que nos dá energia para afrontar as dificuldades.

Napoleão, o dominador da Europa, retirava-se de Moscou, em chamas. Terrível tempestade de neve fustigava os soldados mortalmente exaustos: apenas conseguiam arrastar-se, caindo aos milhares, vítimas das garras gélidas da neve. Fazem ligeiro alto. Trevas, com impenetrável nevoeiro, envolvem os poucos sobreviventes. Napoleão caminha pela neve, mortalha de tantos bravos. Eis que um raio de luz brilha na escuridão! À ordem do imperador, seu ajudante de ordens corre a verificar do que se trata... Volta: "Majestade! O major Drouot vela na tenda: ele reza e trabalha". - Na primeira ocasião, o imperador o eleva a general e lhe agradece por ter demonstrado tanta virilidade de alma naquela horrenda noite em que ele mesmo ameaçava desfalecer. 

"Sire", replica o general, "não receio nem a morte nem a fome, só temo a Deus: nisso está toda a minha força". 

"Nisso está toda a minha força!" Sim: A convicção religiosa produz caráter varonil, coragem forte, ânimo constante. Xenofonte já proclamava: "Mais fortes e sábios são os povos e estados que primam pela religiosidade". Mas, os que não servem a Deus obedecem a muitos. 

Sabes o que a fé te proporciona ainda? Tranqüilidade interna, verdadeira paz, real alegria de alma. Talvez penses, de vez em quando, que teus companheiros estróinas, gozadores da vida, são os realmente felizes! Talvez até mesmo tenhas nutrido certos pensamentos, como os de um meu discípulo, que se lastimava dizendo: "Pergunto-me às vezes, se vale de fato a pena lutar e pelejar. Dia a dia combato minhas más inclinações, esforço-me por permanecer bom e correto - e tantos jovens ao redor de mim, levando uma vida desenfreada, sem preocupações, são felizes, ditosos...!"

Meu caro, quando te vierem também esses pensamentos perturbadores, cuidado! não te iludam as aparências! Não suponhas, que uma alma possa ser realmente feliz, uma vez quebradas suas relações com Deus. Encontrarás homens que, embora desfrutem riquezas, saúde e posição invejável, são sumamente: infelizes. Falta-lhes alguma coisa, o essencial. Que? A fé! 

Se o mundo quer te enredar, 
Ao céu te deves alçar! 

Corno tu, que tens vida sinceramente religiosa, também aquele que não se importa de Deus e religião possui uma alma; - entretanto, quanta diferença! O carvão é carbono, o diamante também o é, todavia são dois antagonismos. A alma sem religião é carvão negro, insensível à luz; ao passo que a alma integrada na religião, é como diamante cristalino que absorve sofregamente os raios solares e jubilosamente os reflete em múltiplas fulgurações.

O grande compositor Chopin perdera sua piedade na licenciosa sociedade francesa. Aqui está sua confissão, por assim dizer seu testamento: Doente, às portas da eternidade, foi visitado por um amigo de infância, agora sacerdote. A instância deste, Chopin retomou à sua fé. Banhado em lágrimas de arrependimento e consolo, recitou o "Credo", e, beijando o crucifixo disse: 

"Retorno à fonte da felicidade!
Que mais te concede tua fé? 

Consolo na provação e infelicidade. Dizer "homem" é dizer "sofrer". Serás, também visitado pela dor, pela doença, desenganos talvez e penas morais. Falece alguém a quem muito amavas - Tua mãe querida sofre meses a fio e não lhes podes valer - Elaboraste um plano magnífico... , no último momento tudo desaba... Vêm então os amigos e te aconselham: "Vai divertir-te, gozar; vai ao cinema, ao clube". Tudo em vão. Consolar, só pode Aquele que enviou tão pungente sofrimento. Onde encontrarás conforto? Somente onde encontrou Napoleão, depois de precipitado do apogeu da glória à solidão do exílio: na religião. E então comprovarás por experiência própria a verdade da comparação de Goethe: "A religião é capital acumulado, cujos juros nos sustentam no tempo da desgraça. Pois, só a fé ensina que a adversidade, aceita como vontade de Deus, é penhor de bênção divina". 

Antes de partir para a guerra, os cavaleiros da Idade Média afiavam as espadas numa coluna de igreja. Que significava? Isto: "Confio em mim, mas também confio em Deus". Como a confiança em Deus anima as fracas forças humanas! Quem espera em Deus conquistou poderoso aliado, não luta a sós. 

(A Religião e a Juventude por Monsenhor Tihamér Tóth, editora SCJ, Taubaté, 1951)

PS: Grifos meus.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Imagem pintada por São João da Cruz


(Imagem pintada por São João da Cruz)

"... como é triste, pelo contrário, ver certas almas piedosas pararem à mínima dificuldade, dir-se-ia que preocupadas em fazer uma montanha de cada montículo, constantemente preocupadas consigo próprias e sempre prontas a julgar que lhes fazem mal! É preciso que uma sacudilela de coragem as arranque finalmente desta miséria: elas que olhem para Jesus e Sua Mãe nos Seus indizíveis sofrimentos, e as suas pequeninas dificuldades desfar-se-ão como gotas de água no oceano. A graça de Deus muda o sinal a todas as coisas: só ela tem o poder de dar um valor positivo ao mal que nós suportamos, e de fazer que o aceitemos com amor. 'Corramos com perseverança na carreira que nos é proposta, pondo os olhos no autor e consumador da fé, Jesus, o qual, tendo-Lhe sido proposto gozo, sofreu a Cruz, não fazendo caso da ignomínia... Considerai, pois, aquele que sofreu tal contradição dos pecados contra Si, para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos'". (Hebreus, XII 2,3)

(Intimidade com Deus, por um Cartuxo)

"O homem que não vendeu sua alma"

Nota do blogue: Recomendo o vídeo abaixo com o filme: "O homem que não vendeu sua alma", tratando sobre a vida de São Thomas Morus.

(clique no título acima para assisti-lo)


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Santa caridade e amor imperfeito

De um certo resto de amor que muitas vezes
fica na alma que perdeu a santa caridade



Certamente a vida de um homem que, todo desfalecido, vai morrendo pouco a pouco num leito, quase já não merece lhe chamemos vida: dado que, ainda que ela seja vida, está, todavia tão misturada com a morte, que não se saberia dizer se é uma morte ainda viva, ou uma vida moribunda. Ai! como é esse um lastimável espetáculo, Teótimo! muito mais lastimável é, porém, o estado de uma alma que, ingrata ao seu Salvador, vai de momento em momento para trás, retirando-se do amor divino por certos graus de indevoção e de deslealdade, até que, havendo-O deixado totalmente, fica na horrível escuridão de perdição; e esse amor que está no seu declínio e que vai perecendo e desfalecendo, é chamado amor imperfeito; porquanto, ainda que esteja inteiro na alma, aí não está, ao que parece, inteiramente, isto é, quase não está mais aderente à alma, e está a ponto de abandoná-la. Ora, sendo a caridade separada da alma pelo pecado, múltiplas vezes fica nesta uma certa semelhança de caridade, que nos pode iludir e divertir em vão; e dir-vos-ei o que é.

Enquanto está em nós, a caridade produz muitas ações e amor para com Deus, por cujo freqüente exercício nossa alma adquire um certo hábito e costume de amar a Deus, que não é a caridade, mas apenas um vinco e inclinação que a multidão das ações deu ao nosso coração. 

Depois de adquirir um longo hábito de pregar ou de dizer missa por eleição, múltiplas vezes nos acontece em sonho falar e dizer as mesmas coisas que diríamos pregando ou celebrando, de tal sorte que o costume ou hábito adquirido por eleição e virtude é de alguma sorte praticado depois sem eleição e sem virtude, visto como, geralmente falando, as ações feitas dormindo só têm da virtude uma aparente imagem, e são meros simulacros e representações dela. Assim a caridade, pela multidão dos atos que produz, imprime em nós uma certa facilidade de amar, que ela nos deixa mesmo depois que somos privados da sua presença.


Quando jovem escolar, vi que numa aldeia próxima de Paris, em certo poço havia um eco (1) que repetia várias vezes palavras que pronunciávamos lá ao pé. E, se algum idiota sem experiência tivesse ouvido aquelas repetições de palavras, teria crido que havia no fundo do poço algum homem que as fazia. Mas, pela filosofia, nós já sabíamos não haver ninguém no poço que repetisse as nossas palavras, mas ali haver apenas algumas concavidades, sendo numa das quais as nossas vozes colhidas, e, não podemos passar além, para não perecer de todo e empregarem as forças que lhes restavam produziam segundas vozes, e essas segundas vozes colhidas noutra concavidade produziam terceiras, e essas terceiras de igual maneira quartas, e assim consecutivamente até onze: de tal sorte que aquelas vozes feitas no poço já não eram mais as nossas vozes, porém simples semelhanças e imagens delas. 

(1) o que o autor diz de uma aldeia dos arredores de Paris existia em Paris mesmo; consoante os antiquários, seria essa a origem da rua do Puits-qui-parle, bairro do Panthléon.

E, de fato, muito havia que dizer entre as nossas vozes e aquelas; porque, quando nós dizíamos uma grande série de palavras, elas só repetiam algumas, encurtavam a pronúncia das sílabas que elas passavam muito depressa, e com tons e acentos completamente diferentes dos nossos, e assim só começavam a formar essas palavras depois de havê-las acabado de pronunciar. Em suma, não eram palavras de um homem vivo, mas, por assim dizer, palavras de um rochedo, de um rochedo oco e vazio, as quais, todavia representavam tão bem a voz humana de que se haviam originado, que com elas se teria um ignorante divertido e equivocado. 

Ora, quero agora dizer assim. Quando o santo amor de caridade encontra uma alma manejável, e faz nela alguma longa estada, produz nela um segundo amor que não é um amor de caridade, posto que provenha da caridade; mas é um amor humano, o qual, não obstante, se assemelha tanto à caridade, que, embora depois esta pereça na alma, parece nela estar sempre, visto haver deixado nela após si essa sua imagem e semelhança que a representa; de sorte que um ignorante se enganaria nisso, tal como os pássaros fizeram na pintura das uvas de Zêuxis, as quais eles cuidaram ser verdadeiras uvas, com tanta propriedade havia a arte imitado a natureza. E, todavia há muita diferença entre a caridade e o amor humano que ela produz em nós; porquanto a voz da caridade pronuncia, intima e opera todos os mandamentos de Deus dentro dos nossos corações; o amor humano que fica após ela di-los realmente e os intima às vezes todos, mas nunca os opera todos, e sim alguns apenas: a caridade pronuncia e reúne todas as sílabas, isto é, todas as circunstâncias dos mandamentos de Deus; esse amor humano deixa sempre para trás alguma delas, e, sobretudo a da reta e pura intenção. E, quanto ao tom, a caridade o tem muito uniforme, doce e gracioso; mas esse amor humano vai sempre ou alto demais nas coisas terrenas ou baixo demais nas celestes, e nunca começa a sua tarefa senão depois que a caridade cessou de fazer a sua. 

Porque, enquanto a caridade está na alma, serve-se desse amor humano, que é a sua criatura, e emprega-o para facilitar as suas operações; de tal sorte que, durante esse tempo, as obras desse amor, como de um servo, pertencem à caridade, que lhes é a dona. Estando, porém, a caridade afastada, então as ações desse amor são totalmente dele, e não têm mais a estima e valor da caridade; pois, assim como o bastão de Eliseu, na ausência deste, embora na mão do servo Giezi, que o recebera da mão de Eliseu, não fazia nenhum milagre, assim também as ações feitas na ausência da caridade, pelo simples hábito do amor humano, não são de nenhum mérito nem de valor algum para a vida eterna, posto que da caridade tenha esse amor humano aprendido a fazê-las e seja apenas o servo dela. E isso assim se faz porque, na ausência da caridade, esse amor humano não tem mais nenhuma força sobrenatural para levar a alma à excelente ação do amor de Deus sobre todas as coisas. 

Quanto é perigoso esse amor imperfeito

Ai! meu Teótimo, vede, peço-vos, o pobre Judas, depois que traiu seu Mestre, como vai levar de novo o dinheiro aos Judeus, como reconhece seu pecado, como fala honrosamente do sangue daquele Cordeiro imaculado. Eram efeitos do amor imperfeito, que a precedente caridade passada lhe deixara no coração. 

Desce-se à impiedade por certos graus, e quase ninguém chega ao extremo da malícia num instante. 

Os perfumistas, conquanto já não estejam nas suas lojas, trazem longo tempo o odor dos perfumes que manejaram. Assim os que estiveram nos laboratórios dos ungüentos celestes, quer dizer, na santíssima caridade, guardam-lhe ainda o cheiro por algum tempo depois. Quando o veado passou a noite em algum lugar, mesmo pela manhã o cheiro e a exalação dele ainda ali está fresco: à tarde ele já é mais difícil de sentir, mas à medida que suas pegadas vão ficando velhas e duras, os cães vão também perdendo conhecimento.


Quando a caridade reinou algum tempo numa alma, achamos nesta as suas passadas, a sua pista, as suas pisadas, o seu cheiro por algum tempo depois que ela a deixou; mas pouco a pouco enfim tudo isso se dissipa, e perde-se toda sorte de conhecimento de que alguma vez a caridade nela tenha estado. 

Temos visto jovens bem criados no amor de Deus os quais, desencaminhando-se, ficaram por algum tempo no meio da sua infeliz decadência sem que se deixassem de ver neles grandes sinais da sua virtude passada; e, repugnando ao vício presente o hábito adquirido no tempo da caridade, durante alguns meses a gente custava a discernir se eles estavam fora da caridade ou não, e se eram virtuosos ou viciosos, até que o progresso fazia claramente conhecer que aqueles exercícios virtuosos não tiravam sua origem da caridade presente, mas da caridade passada; não do amor perfeito, mas do amor imperfeito que a caridade deixara após si, como sinal da habitação que fizera naquelas almas. 

Ora, esse amor imperfeito é bom em si mesmo, Teótimo, porque, sendo criatura da santa caridade, e como que do seu séquito, não pode deixar de ser bom e apto a servir fielmente a caridade enquanto ela permanece dentro da alma, e está sempre pronto a servi-la se ela voltar à alma; e, se ele não pode fazer as ações do amor perfeito, nem por isso, entretanto, é para desprezar, porque tal é a condição da sua natureza. Assim as estrelas, que em comparação com o sol são muito imperfeitas, são, todavia extremamente belas, olhadas em particular; e, não tendo lugar na presença do sol, têm no na sua ausência. 

Todavia, embora esse amor imperfeito seja bom em si, contudo nos é perigoso, por isto que muitas vezes nos contentamos com ter a ele só; pois, tendo vários traços exteriores e interiores da caridade, pensando ser a ela mesma que temos, nós nos divertimos, e pensamos ser santos; ao passo que nessa vã persuasão os pecados que no privaram da caridade crescem, aumentam e se multiplicam tanto, que afinal se tornam senhores do nosso coração. 

Se Jacob não tivesse abandonado a sua perfeita Raquel e se houvesse sempre conservado junto a ela no dia de suas núpcias, não teria sido enganado como foi; mas, pela haver deixado ir sem ele ao quarto, no dia seguinte ficou admiradíssimo de achar que em lugar dela tinha apenas a imperfeita Lia, que não obstante ele acreditava ser sua cara Raquel; assim, porém, o enganara Labão. Ora, do mesmo modo nos ilude o amor-próprio. Por pouco que deixemos a caridade ele introduz na nossa estima esse hábito imperfeito; e nos achamos nosso contentamento nele como se ele fosse a verdadeira caridade, até que alguma clara luz nos faça ver estarmos iludidos. 

Ó Deus! não é uma grande pena ver uma alma que se lisonjeia nessa imaginação de ser santa, ficando em repouso como se tivesse a caridade, verificar, todavia finalmente que a sua santidade é fingida, e que o seu repouso não passa de letargia, e a sua alegria de mania? 

Meio de reconhecer esse amor imperfeito

Mas, dir-me-eis, que meio para discernir se é Raquel, ou Lia, a caridade ou o amor imperfeito, que me dá os sentimentos de devoção de que sou tocado? Se, examinando em particular os objetos dos desejos, dos afetos e dos desígnios que tendes presentemente algum achásseis pelo qual quisésseis contravir à vontade e ao beneplácito de Deus, pecando mortalmente, é fora de qualquer dúvida que todo o sentimento toda a facilidade e presteza que tendes em servir a Deus não tem outra fonte senão o amor humano e imperfeito; porque, se o amor perfeito reinasse em vós, ó Senhor Deus! Romperia todo afeto, todo desejo, todo desígnio cujo objeto fosse tão pernicioso, e não poderia sofrer que o olhasse o vosso coração. 

Mas notai que eu disse dever esse exame ser feito dos afetos que tendes presentemente; porquanto não há necessidade de imaginardes os que poderiam nascer depois, visto bastar que sejamos fiéis nas ocorrências presentes, segundo a diversidade dos tempos, e ter cada estação bastante com seu trabalho e sua pena.
           
E se, todavia quisésseis exercitar o vosso coração na valentia espiritual, pela representação de diversos recontros e de diversos assaltos, poderíeis utilmente fazê-la, contanto que, após os atos dessa valentia imaginária que o vosso coração tivesse feito, não vos julgásseis mais valente. Porquanto os filhos de Efraim, que faziam maravilhas em bem desferir seus arcos nos ensaios de guerra que entre si faziam, quando chegou a ocasião de mostrá-lo, no dia da batalha, deram as costas (SI 77 9), e não tiveram sequer ânimo de disparar suas flechas, nem de olhar a ponta das de seus inimigos. 

Quando, pois, se faz a prática dessa valentia para as ocorrências futuras ou meramente possíveis, se se tem um sentimento bom e fiel, agradece-se por ele a Deus; pois esse sentimento é sempre bom; mas, no entanto deve a gente ficar com humildade entre a confiança e a desconfiança, esperando que, mediante a assistência divina faríamos na ocasião o que imaginamos, e receando, todavia que, segundo a nossa miséria ordinária, talvez não fizéssemos nada e perdêssemos ânimo; mas, se a desconfiança se tornasse tão desmedida que nos parecesse não termos nem força, nem coragem, e que, portanto nos adviesse desespero sobre o objeto das tentações imaginadas, como se não estivéssemos na caridade e graça de Deus, então, apesar do nosso sentimento e desânimo devemos tomar resolução de sermos realmente fiéis em tudo o que nos suceder até a tentação que nos aflige, e esperar que, quando ela chegar, Deus multiplicará Sua graça, redobrará Seu socorro, e prestar-nos-á toda a assistência necessária; e que, não nos dando a força para uma guerra imaginária, e não necessária, dar-no-Ia-á quando isso se tornar necessário. Porque, assim como muitos perderam a coragem no assalto, muitos também nele perderam o temor, e tomaram coragem e resolução na presença do perigo e da necessidade, coragem e resolução que nunca teriam sabido tomar na ausência dele.


E assim muitos servos de Deus, representando-se as tentações ausentes espantaram-se com elas quase ao ponto de perderem ânimo, os quais, todavia, em as vendo presentes, se comportaram mui corajosamente. 

Enfim, nesses espantos sentidos pela representação dos assaltos futuros, quando nos parece que o ânimo nos falta, basta desejarmos coragem e confiarmos em Deus, e Ele no-la dará quando for tempo. Por certo, nem sempre Sansão tinha a sua coragem: antes, está assinalado na Escritura que, vindo a ele furiosamente e rugindo o leão das vinhas de Tamnata, o espírito de Deus possuiu-o (Juiz 14, 5-6); quer dizer, Deus deu-lhe o movimento de uma nova força e de uma nova coragem, e ele estraçalhou o leão como o teria feito a um cabrito (Juiz 15), e do mesmo modo quando desbaratou os mil Filisteus que queriam derrotá-lo na campina de Lechi. 

Assim, meu caro Teótimo, não é necessário que tenhamos sempre o sentimento e movimento da coragem requerida para vencer o leão rugidor que anda para cá e para lá rondando para nos devorar (1 Ped 5, 8); isso poderia dar-nos vaidade a presunção. Basta, sim, que tenhamos bom desejo de combater valentemente, e uma perfeita confiança de que o Espírito divino nos assistirá com seu socorro quando se apresentar a ocasião de empregá-lo. 

(Tratado do amor de Deus, São Francisco de Sales, livro quarto, capítulos IX, X e XI)

PS: Grifos meus.

domingo, 10 de julho de 2011

Em paz no meio da guerra

Em paz no meio da guerra 


Se vos fosse possível prestar menos atenção ao ruído interior a tão variadas impressões, e viver em paz na guerra, seria deveras consolador. Lembrai-vos de que Nosso Senhor vos quer em tal estado e que nele Lhe rendeis maior glória do que em qualquer outro, sendo que vossas mesmas misérias e infidelidades se podem tornar uma bela matéria de confiança em Sua Bondade. 

A tempestade purifica a atmosfera, mas é passageira, e o sol surge em seguida mais belo e mais brilhante. Os suspiros, os gemidos, as lágrimas de um coração que só a Jesus ama são muito doces na expansão da reciprocidade do Amor Divino; as humilhações e os sofrimentos aliviam a impotência do pobre coração, o martírio ser-lhe-ia felicidade. Mas acreditais que os gemidos e as lágrimas de Madalena, junto ao túmulo do Salvador, que a agonia de Maria aos pés de Seu Jesus expirando na Cruz, não resultaram de um amor mais heróico? E o Amor de Jesus tão bom e tão terno, sofrendo sozinho e abandonado por Seu Pai e pelos homens, não terá sido o derradeiro grau do amor que sofre e se imola todo inteiro? Ah! viva Jesus, viva a Sua Cruz! 

É verdade que Jesus se queixou ao Pai: "Meu Pai, por que me abandonastes?" Pois bem! Podeis queixar- vos também, mas amorosamente, e depois do combate: é o grito do amor imolado. Quando o inimigo de Jesus e de nossa salvação vos atacar furiosamente, deveis humilhar-vos mais que o próprio demônio, dizendo a Nosso Senhor: 

"Ai de mim, Vós não lhe concedestes as mesmas Graças que a mim; ele não tem Salvador, e eu tenho um que é também Pai; ele só Vos ofendeu uma vez, eu fui ingrato, e infiel, milhares de vezes; é, pois, muito justo que ele seja o executor de Vossa Justiça. Ó meu Pai, eu me abismo no nada, mas Vós sois Pai, não me abandoneis; dai-me a mão e conduzi-me; minha vontade e meu coração pertencem a Vós, à Vossa Justiça". 

Que o Coração ardente de Amor de Jesus vos seja força, asilo, centro e calvário, que seja o túmulo do vosso ser, e depois a ressurreição, a vida, a glória. 

Deus não vos há de abandonar, mas Ele quer que o honreis no abandono e nos horrores das trevas, horrores esses que constituem o suplício do inferno; mas nesta vida é a Glória de Deus e Sua Misericórdia que triunfam dos demônios. As desolações interiores agradam mais ao Coração de vosso Esposo divino que todos os gozos e todas as luzes do Tabor. 

Se habitásseis além das nuvens e das tempestades, defrontando sempre um sol radiante, pouca atenção daríeis aos ventos e às neblinas rasteiras! Deixai, pois, que Nosso Senhor faça o que bem quiser, e segui-O cheio de amor e de gratidão por tudo. 

Coragem! Tende o coração sempre ao alto, sempre contente; que o espírito seja leve para carregar as tristezas, cantando o amor do tempo e da Pátria eterna.

(A Divina Eucaristia, volume 5, São Pedro Julião Eymard)

PS: Grifos meus.

sábado, 9 de julho de 2011

Oração de um esposo e pai a São José

Nota do blogue: Recebi essa bela oração por e-mail. Agradeço a generosidade da pessoa que a enviou. Deus lhe pague!

Oração de um esposo e pai a São José 


Ó São José, virgem fidelíssimo e casto esposo de Maria Santíssima, perfeito modelo dos esposos e dos pais, cheio de respeito e de confiança, a vós recorro, e, com os sentimentos da veneração a mais profunda, prostro-me a vossos pés implorando o vosso socorro. Vede, ó puríssimo São José, vede as minhas necessidades e as da minha família, atendei aos desejos do meu coração, pois é ao vosso tão terno e tão bom que os entrego. 

Espero que, pela vossa intercessão, alcançarei de Jesus a graça de cumprir, como devo, as obrigações de esposo e de pai. Alcançai-me o santo temor de Deus, o amor do trabalho e das boas obras, das coisas santas e da oração, a doçura, a paciência, a sabedoria, enfim, todas as virtudes cristãs, e que fazem a felicidade e ornamento das famílias. 

Ensinai-me a honrar minha esposa, como Vós honrastes à Santíssima Virgem Maria, e como Jesus Cristo ama a Sua Igreja. 

Protegei a minha esposa, dirigi-a no caminho do bem e da justiça, pois tão cara como a minha me é a sua felicidade. 

Encomendo também ao vosso paterno coração os meus filhos, tão amados por mim. Sede seu Pai, inclinai os seus corações à piedade; não permitais que se afastem do caminho da virtude; tornai-os felizes, e fazei com que depois de nossa morte se lembrem de nós, rogando a Deus pelas nossas almas; honrando, outrossim, a nossa memória com as suas virtudes. 

Não permitais que se afastem da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana: Única Igreja de Cristo, Nosso Senhor. 

Terno Pai, tornai-os piedosos, caridosos e sempre católicos exemplares, para que a sua vida, cheia de boas obras, seja coroada por uma santa morte. 

Fazei, ó Beatíssimo José, com que um dia nos achemos reunidos no Céu, e ali possamos contemplar a vossa glória, celebrar os vossos benefícios, gozar de vosso amor e louvar eternamente o vosso amado Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em companhia da Santíssima Sempre Virgem Maria, nossa amabilíssima Mãe. Amém.

Anjo da guarda


"Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor
para conduzi-lo à Vida."
(S.Basílio)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Trechos do livro Diálogo das Carmelitas

Nota do blogue: Segue duas frases bem fortes e sábias extraídas do livro Diálogos das Carmelitas, segundo a Novela de Gertrud von Le Fort, frases da Priora quando conversava com Branca.


"Sim! anseia pelo último lugar. Tenha cuidado... Quando se desce demais, corre-se o risco de exorbitar. Ora, na humildade, como em tudo, a falta de medidas gera o orgulho, um orgulho mil vezes mais sutil e perigoso do que o do mundo, que quase sempre é mera vaidade..." 
"Quem se faz cego em relação ao próximo, pretextando caridade, apenas quebra um espelho para não ver refletida a sua imagem interior. A imperfeição da natureza humana só nos permite descobrir nossas misérias quando as vemos nos outros. Cuidado para não ser dominada por uma benevolência tola, que amolece o coração e falseia o julgamento."

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Cantiga 97 "A Virgen senpr' acorrer"


Cantiga 97 "A Virgen senpr' acorrer"



Que as ocupações legítimas não nos impedem de praticar o divino amor

Que as ocupações legítimas 
não nos impedem de praticar o divino amor 
(São Francisco de Sales)


A curiosidade, a ambição, a inquietação, com a inadvertência e inconsideração do fim para o qual estamos neste mundo, são causa de termos mil vezes mais impedimentos do que afazeres, mais bulício do que obra, mais ocupação do que trabalho. E são esses embaraços, Teótimo, isto é, as fúteis, vãs e supérfluas ocupações de que nos encarregamos, que nos distraem do amor de Deus, e não verdadeiros e legítimos exercícios de nossas vocações. David, e após ele São Luís, entre tantos perigos, trabalhos e afazeres que tiveram, quer na paz, quer na guerra, não deixavam de cantar em verdade: Que quer meu coração senão a Deus, daquilo que no céu se admira? Que é, senão Deus, que neste baixo lugar meu coração despira? (SI 72, 25-29). 

São Bernardo não perdia nada do progresso que desejava fazer nesse santo amor, embora estivesse nas excursões e exércitos dos grandes príncipes onde se empregava em reduzir os negócios de estado ao serviço da glória de Deus: mudava de lugar, mas não mudava de coração, nem seu coração de amor, nem seu amor de objetos; e, para falar a sua própria linguagem, essas mutações faziam-se nele, mas não dele; visto como, se bem que suas ocupações fossem mui diferentes, ele era indiferente a todas as ocupações, e diferente de todas as ocupações, não recebendo a cor dos negócios e das conversas, como o camaleão recebe a dos lugares onde se acha, mas assim ficando sempre unido a Deus, sempre alvo em pureza, sempre vermelho de caridade e sempre cheio de humildade. 

Eu bem sei, Teótimo, o aviso dos sábios: Foge da corte e deixa o palácio aquele que quer viver devoto: raramente nos exércitos se vêem as almas animadas de piedade. A fé, a santidade são filhas da paz. 

E os Israelitas tinham razão de escusar-se aos Babilônios que instavam com eles a cantarem os sagrados cânticos de Sião: Ai! mas em que música, neste triste banimento, poderíamos cantar santamente o sagrado cântico do Senhor? (SI 136).

Mas não vedes também que aquela pobre gente estava não somente entre os Babilônios, mas ainda cativa dos Babilônios? Quem quer que seja escravo dos favores da corte, do êxito do palácio, da honra da guerra, ó Deus, acabou-se! não sabe cantar o cântico do amor divino. Mas quem não está na corte, na guerra, no palácio senão por dever, a esse Deus assiste, e a doçura celeste lhe serve de epítema (Epítema, medicamento) sobre o coração para preservá-lo da peste que reina nesses lugares

Quando a peste afligiu os Milaneses, São Carlos nunca fez dificuldade em freqüentar as casas e tocar as pessoas empestadas: mas também, Teótimo, freqüentava-as e tocava-as só e justamente tanto quanto a necessidade do serviço de Deus o requeria, e por coisa alguma teria ido ao perigo sem a verdadeira necessidade, com medo de cometer o pecado de tentar a Deus. Assim não foi acometido de nenhum mal, conservando a divina providência aquele que tinha nela uma confiança tão pura, não misturada nem de timidez nem de temeridade. Do mesmo modo Deus tem cuidado dos que não vão à corte, ao palácio, à guerra senão pela necessidade do seu dever: e nisso não se deve ser nem tão receoso que se abandonem os bons e justos afazeres para não ir ali, nem tão jactancioso e presunçoso que ali se vá ou ali se fique sem a expressa necessidade do dever e dos afazeres

(Tratado do amor de Deus, Livro décimo segundo, capítulo IV)

PS: Grifos meus.