terça-feira, 12 de julho de 2011

Imagem pintada por São João da Cruz


(Imagem pintada por São João da Cruz)

"... como é triste, pelo contrário, ver certas almas piedosas pararem à mínima dificuldade, dir-se-ia que preocupadas em fazer uma montanha de cada montículo, constantemente preocupadas consigo próprias e sempre prontas a julgar que lhes fazem mal! É preciso que uma sacudilela de coragem as arranque finalmente desta miséria: elas que olhem para Jesus e Sua Mãe nos Seus indizíveis sofrimentos, e as suas pequeninas dificuldades desfar-se-ão como gotas de água no oceano. A graça de Deus muda o sinal a todas as coisas: só ela tem o poder de dar um valor positivo ao mal que nós suportamos, e de fazer que o aceitemos com amor. 'Corramos com perseverança na carreira que nos é proposta, pondo os olhos no autor e consumador da fé, Jesus, o qual, tendo-Lhe sido proposto gozo, sofreu a Cruz, não fazendo caso da ignomínia... Considerai, pois, aquele que sofreu tal contradição dos pecados contra Si, para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos'". (Hebreus, XII 2,3)

(Intimidade com Deus, por um Cartuxo)

"O homem que não vendeu sua alma"

Nota do blogue: Recomendo o vídeo abaixo com o filme: "O homem que não vendeu sua alma", tratando sobre a vida de São Thomas Morus.

(clique no título acima para assisti-lo)


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Santa caridade e amor imperfeito

De um certo resto de amor que muitas vezes
fica na alma que perdeu a santa caridade



Certamente a vida de um homem que, todo desfalecido, vai morrendo pouco a pouco num leito, quase já não merece lhe chamemos vida: dado que, ainda que ela seja vida, está, todavia tão misturada com a morte, que não se saberia dizer se é uma morte ainda viva, ou uma vida moribunda. Ai! como é esse um lastimável espetáculo, Teótimo! muito mais lastimável é, porém, o estado de uma alma que, ingrata ao seu Salvador, vai de momento em momento para trás, retirando-se do amor divino por certos graus de indevoção e de deslealdade, até que, havendo-O deixado totalmente, fica na horrível escuridão de perdição; e esse amor que está no seu declínio e que vai perecendo e desfalecendo, é chamado amor imperfeito; porquanto, ainda que esteja inteiro na alma, aí não está, ao que parece, inteiramente, isto é, quase não está mais aderente à alma, e está a ponto de abandoná-la. Ora, sendo a caridade separada da alma pelo pecado, múltiplas vezes fica nesta uma certa semelhança de caridade, que nos pode iludir e divertir em vão; e dir-vos-ei o que é.

Enquanto está em nós, a caridade produz muitas ações e amor para com Deus, por cujo freqüente exercício nossa alma adquire um certo hábito e costume de amar a Deus, que não é a caridade, mas apenas um vinco e inclinação que a multidão das ações deu ao nosso coração. 

Depois de adquirir um longo hábito de pregar ou de dizer missa por eleição, múltiplas vezes nos acontece em sonho falar e dizer as mesmas coisas que diríamos pregando ou celebrando, de tal sorte que o costume ou hábito adquirido por eleição e virtude é de alguma sorte praticado depois sem eleição e sem virtude, visto como, geralmente falando, as ações feitas dormindo só têm da virtude uma aparente imagem, e são meros simulacros e representações dela. Assim a caridade, pela multidão dos atos que produz, imprime em nós uma certa facilidade de amar, que ela nos deixa mesmo depois que somos privados da sua presença.


Quando jovem escolar, vi que numa aldeia próxima de Paris, em certo poço havia um eco (1) que repetia várias vezes palavras que pronunciávamos lá ao pé. E, se algum idiota sem experiência tivesse ouvido aquelas repetições de palavras, teria crido que havia no fundo do poço algum homem que as fazia. Mas, pela filosofia, nós já sabíamos não haver ninguém no poço que repetisse as nossas palavras, mas ali haver apenas algumas concavidades, sendo numa das quais as nossas vozes colhidas, e, não podemos passar além, para não perecer de todo e empregarem as forças que lhes restavam produziam segundas vozes, e essas segundas vozes colhidas noutra concavidade produziam terceiras, e essas terceiras de igual maneira quartas, e assim consecutivamente até onze: de tal sorte que aquelas vozes feitas no poço já não eram mais as nossas vozes, porém simples semelhanças e imagens delas. 

(1) o que o autor diz de uma aldeia dos arredores de Paris existia em Paris mesmo; consoante os antiquários, seria essa a origem da rua do Puits-qui-parle, bairro do Panthléon.

E, de fato, muito havia que dizer entre as nossas vozes e aquelas; porque, quando nós dizíamos uma grande série de palavras, elas só repetiam algumas, encurtavam a pronúncia das sílabas que elas passavam muito depressa, e com tons e acentos completamente diferentes dos nossos, e assim só começavam a formar essas palavras depois de havê-las acabado de pronunciar. Em suma, não eram palavras de um homem vivo, mas, por assim dizer, palavras de um rochedo, de um rochedo oco e vazio, as quais, todavia representavam tão bem a voz humana de que se haviam originado, que com elas se teria um ignorante divertido e equivocado. 

Ora, quero agora dizer assim. Quando o santo amor de caridade encontra uma alma manejável, e faz nela alguma longa estada, produz nela um segundo amor que não é um amor de caridade, posto que provenha da caridade; mas é um amor humano, o qual, não obstante, se assemelha tanto à caridade, que, embora depois esta pereça na alma, parece nela estar sempre, visto haver deixado nela após si essa sua imagem e semelhança que a representa; de sorte que um ignorante se enganaria nisso, tal como os pássaros fizeram na pintura das uvas de Zêuxis, as quais eles cuidaram ser verdadeiras uvas, com tanta propriedade havia a arte imitado a natureza. E, todavia há muita diferença entre a caridade e o amor humano que ela produz em nós; porquanto a voz da caridade pronuncia, intima e opera todos os mandamentos de Deus dentro dos nossos corações; o amor humano que fica após ela di-los realmente e os intima às vezes todos, mas nunca os opera todos, e sim alguns apenas: a caridade pronuncia e reúne todas as sílabas, isto é, todas as circunstâncias dos mandamentos de Deus; esse amor humano deixa sempre para trás alguma delas, e, sobretudo a da reta e pura intenção. E, quanto ao tom, a caridade o tem muito uniforme, doce e gracioso; mas esse amor humano vai sempre ou alto demais nas coisas terrenas ou baixo demais nas celestes, e nunca começa a sua tarefa senão depois que a caridade cessou de fazer a sua. 

Porque, enquanto a caridade está na alma, serve-se desse amor humano, que é a sua criatura, e emprega-o para facilitar as suas operações; de tal sorte que, durante esse tempo, as obras desse amor, como de um servo, pertencem à caridade, que lhes é a dona. Estando, porém, a caridade afastada, então as ações desse amor são totalmente dele, e não têm mais a estima e valor da caridade; pois, assim como o bastão de Eliseu, na ausência deste, embora na mão do servo Giezi, que o recebera da mão de Eliseu, não fazia nenhum milagre, assim também as ações feitas na ausência da caridade, pelo simples hábito do amor humano, não são de nenhum mérito nem de valor algum para a vida eterna, posto que da caridade tenha esse amor humano aprendido a fazê-las e seja apenas o servo dela. E isso assim se faz porque, na ausência da caridade, esse amor humano não tem mais nenhuma força sobrenatural para levar a alma à excelente ação do amor de Deus sobre todas as coisas. 

Quanto é perigoso esse amor imperfeito

Ai! meu Teótimo, vede, peço-vos, o pobre Judas, depois que traiu seu Mestre, como vai levar de novo o dinheiro aos Judeus, como reconhece seu pecado, como fala honrosamente do sangue daquele Cordeiro imaculado. Eram efeitos do amor imperfeito, que a precedente caridade passada lhe deixara no coração. 

Desce-se à impiedade por certos graus, e quase ninguém chega ao extremo da malícia num instante. 

Os perfumistas, conquanto já não estejam nas suas lojas, trazem longo tempo o odor dos perfumes que manejaram. Assim os que estiveram nos laboratórios dos ungüentos celestes, quer dizer, na santíssima caridade, guardam-lhe ainda o cheiro por algum tempo depois. Quando o veado passou a noite em algum lugar, mesmo pela manhã o cheiro e a exalação dele ainda ali está fresco: à tarde ele já é mais difícil de sentir, mas à medida que suas pegadas vão ficando velhas e duras, os cães vão também perdendo conhecimento.


Quando a caridade reinou algum tempo numa alma, achamos nesta as suas passadas, a sua pista, as suas pisadas, o seu cheiro por algum tempo depois que ela a deixou; mas pouco a pouco enfim tudo isso se dissipa, e perde-se toda sorte de conhecimento de que alguma vez a caridade nela tenha estado. 

Temos visto jovens bem criados no amor de Deus os quais, desencaminhando-se, ficaram por algum tempo no meio da sua infeliz decadência sem que se deixassem de ver neles grandes sinais da sua virtude passada; e, repugnando ao vício presente o hábito adquirido no tempo da caridade, durante alguns meses a gente custava a discernir se eles estavam fora da caridade ou não, e se eram virtuosos ou viciosos, até que o progresso fazia claramente conhecer que aqueles exercícios virtuosos não tiravam sua origem da caridade presente, mas da caridade passada; não do amor perfeito, mas do amor imperfeito que a caridade deixara após si, como sinal da habitação que fizera naquelas almas. 

Ora, esse amor imperfeito é bom em si mesmo, Teótimo, porque, sendo criatura da santa caridade, e como que do seu séquito, não pode deixar de ser bom e apto a servir fielmente a caridade enquanto ela permanece dentro da alma, e está sempre pronto a servi-la se ela voltar à alma; e, se ele não pode fazer as ações do amor perfeito, nem por isso, entretanto, é para desprezar, porque tal é a condição da sua natureza. Assim as estrelas, que em comparação com o sol são muito imperfeitas, são, todavia extremamente belas, olhadas em particular; e, não tendo lugar na presença do sol, têm no na sua ausência. 

Todavia, embora esse amor imperfeito seja bom em si, contudo nos é perigoso, por isto que muitas vezes nos contentamos com ter a ele só; pois, tendo vários traços exteriores e interiores da caridade, pensando ser a ela mesma que temos, nós nos divertimos, e pensamos ser santos; ao passo que nessa vã persuasão os pecados que no privaram da caridade crescem, aumentam e se multiplicam tanto, que afinal se tornam senhores do nosso coração. 

Se Jacob não tivesse abandonado a sua perfeita Raquel e se houvesse sempre conservado junto a ela no dia de suas núpcias, não teria sido enganado como foi; mas, pela haver deixado ir sem ele ao quarto, no dia seguinte ficou admiradíssimo de achar que em lugar dela tinha apenas a imperfeita Lia, que não obstante ele acreditava ser sua cara Raquel; assim, porém, o enganara Labão. Ora, do mesmo modo nos ilude o amor-próprio. Por pouco que deixemos a caridade ele introduz na nossa estima esse hábito imperfeito; e nos achamos nosso contentamento nele como se ele fosse a verdadeira caridade, até que alguma clara luz nos faça ver estarmos iludidos. 

Ó Deus! não é uma grande pena ver uma alma que se lisonjeia nessa imaginação de ser santa, ficando em repouso como se tivesse a caridade, verificar, todavia finalmente que a sua santidade é fingida, e que o seu repouso não passa de letargia, e a sua alegria de mania? 

Meio de reconhecer esse amor imperfeito

Mas, dir-me-eis, que meio para discernir se é Raquel, ou Lia, a caridade ou o amor imperfeito, que me dá os sentimentos de devoção de que sou tocado? Se, examinando em particular os objetos dos desejos, dos afetos e dos desígnios que tendes presentemente algum achásseis pelo qual quisésseis contravir à vontade e ao beneplácito de Deus, pecando mortalmente, é fora de qualquer dúvida que todo o sentimento toda a facilidade e presteza que tendes em servir a Deus não tem outra fonte senão o amor humano e imperfeito; porque, se o amor perfeito reinasse em vós, ó Senhor Deus! Romperia todo afeto, todo desejo, todo desígnio cujo objeto fosse tão pernicioso, e não poderia sofrer que o olhasse o vosso coração. 

Mas notai que eu disse dever esse exame ser feito dos afetos que tendes presentemente; porquanto não há necessidade de imaginardes os que poderiam nascer depois, visto bastar que sejamos fiéis nas ocorrências presentes, segundo a diversidade dos tempos, e ter cada estação bastante com seu trabalho e sua pena.
           
E se, todavia quisésseis exercitar o vosso coração na valentia espiritual, pela representação de diversos recontros e de diversos assaltos, poderíeis utilmente fazê-la, contanto que, após os atos dessa valentia imaginária que o vosso coração tivesse feito, não vos julgásseis mais valente. Porquanto os filhos de Efraim, que faziam maravilhas em bem desferir seus arcos nos ensaios de guerra que entre si faziam, quando chegou a ocasião de mostrá-lo, no dia da batalha, deram as costas (SI 77 9), e não tiveram sequer ânimo de disparar suas flechas, nem de olhar a ponta das de seus inimigos. 

Quando, pois, se faz a prática dessa valentia para as ocorrências futuras ou meramente possíveis, se se tem um sentimento bom e fiel, agradece-se por ele a Deus; pois esse sentimento é sempre bom; mas, no entanto deve a gente ficar com humildade entre a confiança e a desconfiança, esperando que, mediante a assistência divina faríamos na ocasião o que imaginamos, e receando, todavia que, segundo a nossa miséria ordinária, talvez não fizéssemos nada e perdêssemos ânimo; mas, se a desconfiança se tornasse tão desmedida que nos parecesse não termos nem força, nem coragem, e que, portanto nos adviesse desespero sobre o objeto das tentações imaginadas, como se não estivéssemos na caridade e graça de Deus, então, apesar do nosso sentimento e desânimo devemos tomar resolução de sermos realmente fiéis em tudo o que nos suceder até a tentação que nos aflige, e esperar que, quando ela chegar, Deus multiplicará Sua graça, redobrará Seu socorro, e prestar-nos-á toda a assistência necessária; e que, não nos dando a força para uma guerra imaginária, e não necessária, dar-no-Ia-á quando isso se tornar necessário. Porque, assim como muitos perderam a coragem no assalto, muitos também nele perderam o temor, e tomaram coragem e resolução na presença do perigo e da necessidade, coragem e resolução que nunca teriam sabido tomar na ausência dele.


E assim muitos servos de Deus, representando-se as tentações ausentes espantaram-se com elas quase ao ponto de perderem ânimo, os quais, todavia, em as vendo presentes, se comportaram mui corajosamente. 

Enfim, nesses espantos sentidos pela representação dos assaltos futuros, quando nos parece que o ânimo nos falta, basta desejarmos coragem e confiarmos em Deus, e Ele no-la dará quando for tempo. Por certo, nem sempre Sansão tinha a sua coragem: antes, está assinalado na Escritura que, vindo a ele furiosamente e rugindo o leão das vinhas de Tamnata, o espírito de Deus possuiu-o (Juiz 14, 5-6); quer dizer, Deus deu-lhe o movimento de uma nova força e de uma nova coragem, e ele estraçalhou o leão como o teria feito a um cabrito (Juiz 15), e do mesmo modo quando desbaratou os mil Filisteus que queriam derrotá-lo na campina de Lechi. 

Assim, meu caro Teótimo, não é necessário que tenhamos sempre o sentimento e movimento da coragem requerida para vencer o leão rugidor que anda para cá e para lá rondando para nos devorar (1 Ped 5, 8); isso poderia dar-nos vaidade a presunção. Basta, sim, que tenhamos bom desejo de combater valentemente, e uma perfeita confiança de que o Espírito divino nos assistirá com seu socorro quando se apresentar a ocasião de empregá-lo. 

(Tratado do amor de Deus, São Francisco de Sales, livro quarto, capítulos IX, X e XI)

PS: Grifos meus.

domingo, 10 de julho de 2011

Em paz no meio da guerra

Em paz no meio da guerra 


Se vos fosse possível prestar menos atenção ao ruído interior a tão variadas impressões, e viver em paz na guerra, seria deveras consolador. Lembrai-vos de que Nosso Senhor vos quer em tal estado e que nele Lhe rendeis maior glória do que em qualquer outro, sendo que vossas mesmas misérias e infidelidades se podem tornar uma bela matéria de confiança em Sua Bondade. 

A tempestade purifica a atmosfera, mas é passageira, e o sol surge em seguida mais belo e mais brilhante. Os suspiros, os gemidos, as lágrimas de um coração que só a Jesus ama são muito doces na expansão da reciprocidade do Amor Divino; as humilhações e os sofrimentos aliviam a impotência do pobre coração, o martírio ser-lhe-ia felicidade. Mas acreditais que os gemidos e as lágrimas de Madalena, junto ao túmulo do Salvador, que a agonia de Maria aos pés de Seu Jesus expirando na Cruz, não resultaram de um amor mais heróico? E o Amor de Jesus tão bom e tão terno, sofrendo sozinho e abandonado por Seu Pai e pelos homens, não terá sido o derradeiro grau do amor que sofre e se imola todo inteiro? Ah! viva Jesus, viva a Sua Cruz! 

É verdade que Jesus se queixou ao Pai: "Meu Pai, por que me abandonastes?" Pois bem! Podeis queixar- vos também, mas amorosamente, e depois do combate: é o grito do amor imolado. Quando o inimigo de Jesus e de nossa salvação vos atacar furiosamente, deveis humilhar-vos mais que o próprio demônio, dizendo a Nosso Senhor: 

"Ai de mim, Vós não lhe concedestes as mesmas Graças que a mim; ele não tem Salvador, e eu tenho um que é também Pai; ele só Vos ofendeu uma vez, eu fui ingrato, e infiel, milhares de vezes; é, pois, muito justo que ele seja o executor de Vossa Justiça. Ó meu Pai, eu me abismo no nada, mas Vós sois Pai, não me abandoneis; dai-me a mão e conduzi-me; minha vontade e meu coração pertencem a Vós, à Vossa Justiça". 

Que o Coração ardente de Amor de Jesus vos seja força, asilo, centro e calvário, que seja o túmulo do vosso ser, e depois a ressurreição, a vida, a glória. 

Deus não vos há de abandonar, mas Ele quer que o honreis no abandono e nos horrores das trevas, horrores esses que constituem o suplício do inferno; mas nesta vida é a Glória de Deus e Sua Misericórdia que triunfam dos demônios. As desolações interiores agradam mais ao Coração de vosso Esposo divino que todos os gozos e todas as luzes do Tabor. 

Se habitásseis além das nuvens e das tempestades, defrontando sempre um sol radiante, pouca atenção daríeis aos ventos e às neblinas rasteiras! Deixai, pois, que Nosso Senhor faça o que bem quiser, e segui-O cheio de amor e de gratidão por tudo. 

Coragem! Tende o coração sempre ao alto, sempre contente; que o espírito seja leve para carregar as tristezas, cantando o amor do tempo e da Pátria eterna.

(A Divina Eucaristia, volume 5, São Pedro Julião Eymard)

PS: Grifos meus.

sábado, 9 de julho de 2011

Oração de um esposo e pai a São José

Nota do blogue: Recebi essa bela oração por e-mail. Agradeço a generosidade da pessoa que a enviou. Deus lhe pague!

Oração de um esposo e pai a São José 


Ó São José, virgem fidelíssimo e casto esposo de Maria Santíssima, perfeito modelo dos esposos e dos pais, cheio de respeito e de confiança, a vós recorro, e, com os sentimentos da veneração a mais profunda, prostro-me a vossos pés implorando o vosso socorro. Vede, ó puríssimo São José, vede as minhas necessidades e as da minha família, atendei aos desejos do meu coração, pois é ao vosso tão terno e tão bom que os entrego. 

Espero que, pela vossa intercessão, alcançarei de Jesus a graça de cumprir, como devo, as obrigações de esposo e de pai. Alcançai-me o santo temor de Deus, o amor do trabalho e das boas obras, das coisas santas e da oração, a doçura, a paciência, a sabedoria, enfim, todas as virtudes cristãs, e que fazem a felicidade e ornamento das famílias. 

Ensinai-me a honrar minha esposa, como Vós honrastes à Santíssima Virgem Maria, e como Jesus Cristo ama a Sua Igreja. 

Protegei a minha esposa, dirigi-a no caminho do bem e da justiça, pois tão cara como a minha me é a sua felicidade. 

Encomendo também ao vosso paterno coração os meus filhos, tão amados por mim. Sede seu Pai, inclinai os seus corações à piedade; não permitais que se afastem do caminho da virtude; tornai-os felizes, e fazei com que depois de nossa morte se lembrem de nós, rogando a Deus pelas nossas almas; honrando, outrossim, a nossa memória com as suas virtudes. 

Não permitais que se afastem da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana: Única Igreja de Cristo, Nosso Senhor. 

Terno Pai, tornai-os piedosos, caridosos e sempre católicos exemplares, para que a sua vida, cheia de boas obras, seja coroada por uma santa morte. 

Fazei, ó Beatíssimo José, com que um dia nos achemos reunidos no Céu, e ali possamos contemplar a vossa glória, celebrar os vossos benefícios, gozar de vosso amor e louvar eternamente o vosso amado Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em companhia da Santíssima Sempre Virgem Maria, nossa amabilíssima Mãe. Amém.

Anjo da guarda


"Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor
para conduzi-lo à Vida."
(S.Basílio)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Trechos do livro Diálogo das Carmelitas

Nota do blogue: Segue duas frases bem fortes e sábias extraídas do livro Diálogos das Carmelitas, segundo a Novela de Gertrud von Le Fort, frases da Priora quando conversava com Branca.


"Sim! anseia pelo último lugar. Tenha cuidado... Quando se desce demais, corre-se o risco de exorbitar. Ora, na humildade, como em tudo, a falta de medidas gera o orgulho, um orgulho mil vezes mais sutil e perigoso do que o do mundo, que quase sempre é mera vaidade..." 
"Quem se faz cego em relação ao próximo, pretextando caridade, apenas quebra um espelho para não ver refletida a sua imagem interior. A imperfeição da natureza humana só nos permite descobrir nossas misérias quando as vemos nos outros. Cuidado para não ser dominada por uma benevolência tola, que amolece o coração e falseia o julgamento."

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Cantiga 97 "A Virgen senpr' acorrer"


Cantiga 97 "A Virgen senpr' acorrer"



Que as ocupações legítimas não nos impedem de praticar o divino amor

Que as ocupações legítimas 
não nos impedem de praticar o divino amor 
(São Francisco de Sales)


A curiosidade, a ambição, a inquietação, com a inadvertência e inconsideração do fim para o qual estamos neste mundo, são causa de termos mil vezes mais impedimentos do que afazeres, mais bulício do que obra, mais ocupação do que trabalho. E são esses embaraços, Teótimo, isto é, as fúteis, vãs e supérfluas ocupações de que nos encarregamos, que nos distraem do amor de Deus, e não verdadeiros e legítimos exercícios de nossas vocações. David, e após ele São Luís, entre tantos perigos, trabalhos e afazeres que tiveram, quer na paz, quer na guerra, não deixavam de cantar em verdade: Que quer meu coração senão a Deus, daquilo que no céu se admira? Que é, senão Deus, que neste baixo lugar meu coração despira? (SI 72, 25-29). 

São Bernardo não perdia nada do progresso que desejava fazer nesse santo amor, embora estivesse nas excursões e exércitos dos grandes príncipes onde se empregava em reduzir os negócios de estado ao serviço da glória de Deus: mudava de lugar, mas não mudava de coração, nem seu coração de amor, nem seu amor de objetos; e, para falar a sua própria linguagem, essas mutações faziam-se nele, mas não dele; visto como, se bem que suas ocupações fossem mui diferentes, ele era indiferente a todas as ocupações, e diferente de todas as ocupações, não recebendo a cor dos negócios e das conversas, como o camaleão recebe a dos lugares onde se acha, mas assim ficando sempre unido a Deus, sempre alvo em pureza, sempre vermelho de caridade e sempre cheio de humildade. 

Eu bem sei, Teótimo, o aviso dos sábios: Foge da corte e deixa o palácio aquele que quer viver devoto: raramente nos exércitos se vêem as almas animadas de piedade. A fé, a santidade são filhas da paz. 

E os Israelitas tinham razão de escusar-se aos Babilônios que instavam com eles a cantarem os sagrados cânticos de Sião: Ai! mas em que música, neste triste banimento, poderíamos cantar santamente o sagrado cântico do Senhor? (SI 136).

Mas não vedes também que aquela pobre gente estava não somente entre os Babilônios, mas ainda cativa dos Babilônios? Quem quer que seja escravo dos favores da corte, do êxito do palácio, da honra da guerra, ó Deus, acabou-se! não sabe cantar o cântico do amor divino. Mas quem não está na corte, na guerra, no palácio senão por dever, a esse Deus assiste, e a doçura celeste lhe serve de epítema (Epítema, medicamento) sobre o coração para preservá-lo da peste que reina nesses lugares

Quando a peste afligiu os Milaneses, São Carlos nunca fez dificuldade em freqüentar as casas e tocar as pessoas empestadas: mas também, Teótimo, freqüentava-as e tocava-as só e justamente tanto quanto a necessidade do serviço de Deus o requeria, e por coisa alguma teria ido ao perigo sem a verdadeira necessidade, com medo de cometer o pecado de tentar a Deus. Assim não foi acometido de nenhum mal, conservando a divina providência aquele que tinha nela uma confiança tão pura, não misturada nem de timidez nem de temeridade. Do mesmo modo Deus tem cuidado dos que não vão à corte, ao palácio, à guerra senão pela necessidade do seu dever: e nisso não se deve ser nem tão receoso que se abandonem os bons e justos afazeres para não ir ali, nem tão jactancioso e presunçoso que ali se vá ou ali se fique sem a expressa necessidade do dever e dos afazeres

(Tratado do amor de Deus, Livro décimo segundo, capítulo IV)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Padre e o escândalo

O escândalo dado pelo sacerdote
Pecado enorme por sua natureza 




Se devo aborrecer o pecado em geral, devo detestar especialmente aqueles que contrastam de um modo mais repugnante com a minha santa missão. Glorificar a Deus, salvar as almas, servir e consolar a Igreja, tal é o fim do sacerdócio; e pode-se imaginar coisa que lhe seja mais oposta que o escândalo? Quem o dá, é chamado no Evangelho homem inimigo: Inimicus homo hoc fecit (Math. XIII, 28.). Com efeito, um padre escandaloso é inimigo de tudo o que ele mais devia amar. 

I. Inimigo de Deus, que ofende e faz ofender, ele que é obrigado por seu estado a promover a glória de Deus. 
II. Inimigo das almas que perde, ele que devia salvá-las. 
III. Inimigo da Igreja que aflige, ele que devia consolá-la. 

Primeiro Prelúdio. Ouvir com atenção esta palavra de Jesus Cristo: Qui scandalizaverit unum de pusillis istis..., expedit ei ut suspendatur mola asinaria in collo ejus, et demergatur in profundum maris (Ibid. XVIII, 6). 

Segundo prelúdio. Senhor, fazei-me compreender a malícia e desgraça que há no escândalo dos maus sacerdotes, e vigiar de tal sorte sobre mim mesmo, que nunca diga, faça nem omita coisa alguma, que possa escandalizar. 

I. O padre escandaloso é inimigo de Deus.

Ofende a Santíssima Trindade, persegue-A, se assim posso exprimir-me, com uma impiedade que horroriza. Deus Padre elegera-o para fazer conhecer e honrar o Seu nome, para publicar e fazer observar a Sua lei, para trazer à Sua obediência as almas desgarradas, e confirmar no Seu amor as almas inconstantes, para Lhe preparar um povo de escolhidos, fazendo-O reinar sobre os corações; para isto o prevenira com as bênçãos da Sua graça, e o enchera de Seus benefícios. O padre tinha aceitado tão nobre missão, e prometido solenemente consagrar-Lhe toda a sua existência; ora, se chega a escandalizar, que faz ele? Combate a causa de Deus que prometera defender. Longe de submeter ao Senhor os súditos rebeldes, perverte-lhe os súditos fiéis; longe de induzir os homens a respeitar o Seu nome, indu-los a blasfemá-lO; em lugar de O fazer reinar sobre os corações, expulsa-O deles; em lugar de Lhe preparar escolhidos, é para o inferno que os recruta! 

Deus Filho, Redentor das almas, confiava nele para lhes aplicar os merecimentos da Sua morte e do Seu sangue. Para isto o revestira de inefáveis poderes, e lhe pusera nas mãos todos os tesouros da Sua misericórdia; e essas almas, remidas por tão alto preço, não só as deixa perecer, mas ainda, à vista do seu Salvador, as fere, mata e precipita na eterna condenação! aniquila para elas a obra da redenção! 

Deus Espírito Santo tomara-o para Seu instrumento. Queria servir-se dele para combater o pecado, purificar as almas, e fazer delas outros tantos templos, onde residisse com o Pai e o Filho: Ad eum veniemus, et mansionem apud eum faciemus (Joan. XIV, 23.); e o padre escandaloso, em vez de auxiliar estes misericordiosos desígnios, destrói-os; em vez de arruinar o império do pecado, estende-o e consolida-o; em vez de purificar as almas, mancha-as, e fecha para Deus esses templos espirituais, de que era guarda, e abre-os para o demônio! 

Não é isto fazer à Santíssima Trindade uma guerra cruel e pérfida? Nullum puto majus praejudicium, quam quod a malis sacerdotibus tolerat Deus, quando eos quos ad aliorum correctionem posuit, dare de se exempla pravitatis cernit: quando ipsi peccamus, qui compescere peccata debuimus (S. Greg. Homil. 17. in Evang.). 

II. O padre escandaloso é inimigo das almas

Constituindo-nos Seus ministros. Deus queria que cooperássemos para as salvar. Temos rigorosa obrigação de ensinar aos nossos irmãos os caminhos da salvação; de guiá-los e ampará-los; de levantá-los, se caem; e de empregar na sua santificação todos os meios, que foram postos à nossa disposição. Como cumpre o padre escandaloso esta obrigação? Nós só temos acesso junto das almas pela confiança que lhes inspiramos; que confiança pode inspirar aquele que prega uma moral e pratica outra? Entre as palavras que dizem: "Não façais o que eu faço", e as ações que clamam: "Não acrediteis o que eu digo", adivinha-se o que impressionará mais fortemente os espíritos talvez já mal dispostos. Os corações corrompidos autorizam-se em suas desordens com o exemplo daquele que devia reprimi-las. E as almas simples não temerão transviar-se, seguindo o guia que Deus lhes deu? Neste caso, onde parará a licença de costumes?

Quanto à tendência que leva o homem a imitar tudo o que vê, vem juntar-se o impulso das paixões; o exemplo é uma torrente, que rompe todos os diques. Mas, se esta corrente se precipita dos mais altos montes, o seu curso será ainda mais impetuoso e os estragos mais extensos; a elevação da nossa dignidade é a medida do mal causado com os nossos escândalos. O arbusto, ao cair, a nada causa dano; o carvalho frondoso esmaga na sua queda tudo que encontra debaixo de si. Assim, o sal da terra tornou-se um princípio de corrupção para os que ele devia conservar na inocência; a luz do mundo, que devia dirigir as almas nos caminhos da virtude, mete-as nas veredas do vício; o pastor, que devia defender o seu rebanho, faz nele uma horrível carniçaria: Considerate quid de gregibus agatur, quando pastores lupi fiunt (S.Greg.). 

III. O padre escandaloso é o maior inimigo da Igreja

Uma só queda no santuário pode ter conseqüências incalculáveis. O mundo tão indulgente para si, é inexorável para os ministros do Senhor. Ao mesmo tempo que desculpa os seus próprios crimes, não perdoa aos sacerdotes uma fraqueza. E muito longe de encobrir com o seu silêncio os escândalos que neles vê, publica-os aos quatro ventos. Fá-los correr de paróquia em paróquia, de diocese em diocese. Perpetua-os, e dá-lhes uma triste e bem lamentável imortalidade. Por cem anos, talvez mesmo até ao fim dos séculos, fará que as almas pequem, se pervertam e se condenem, em conseqüência de um pecado cometido por um padre escandaloso. A censura que faz cair sobre o seu mau proceder, recai indiretamente sobre todos os membros do clero. Imputa os mesmos vícios aos que exercem as mesmas funções. Chega até a tratar como fábulas as verdades mais sagradas, só porque é testemunha da sua oposição com os costumes daquele que as ensina.

Se este padre, dizem, cresse o que prega, portar-se-ia assim? Eis, pois a honra do sacerdócio manchada, o zelo dos bons pastores paralisado, a piedade destruída, os sacramentos abandonados ou profanados, a fé quase extinta em vastas regiões, milhares de almas perdidas em conseqüência dos escândalos dados por um padre, por um pastor de almas. 

No entanto, qual outra Raquel, a Igreja chora a morte de seus filhos: Rachel plorans filios suos, et noluit consolari, quia non sunt (Math. II, 18.). Desabafa a sua amarga dor pela boca dos seus doutores: Ecce in pace amaritudo mea amarissima (S.Bern.). E quem lhe faz correr as lágrimas, é um homem que ela honrara com a sua confiança, e que devia consolá-la! 

O' Deus todo-poderoso, quão rigorosa será a Vossa justiça, quando vingar as lágrimas da Vossa Igreja, a morte das almas, causada por aquele que deviam conVosco ser o seu salvador e pai, e a guerra sacrílega que Vos faz o padre escandaloso! Vae homini illi! Se castigais de um modo tão terrível o escândalo dado a um só dos Vossos filhos, que suplício reserveis àquele que tiver escandalizado as multidões, os povos? Si ei qui unum aliquem duntaxat offenderit, expedit ut mola asinaria suspendatur a collo ipsius, ac demergatur in profundum maris; qui non unum, non duos, non tres tantum, sed jam multos etiam populos, perdiderint, illis quid tandem fiet? (S. Chris. I, VI. de Sacerd.). 

Recordai-vos de tudo o que na vossa vida poderia escandalizar o próximo; procurai depois reparar o mal, quanto vos for possível. Se a vossa consciência não vos acusa de coisa alguma grave quanto ao presente, chorai de novo os pecados desta natureza, que já tendes chorado; e na missa rogai a Jesus Cristo pela conversão dos padres escandalosos. Uni os vossos gemidos aos de S. Bernardo: Amici tui, Deus, et proximi tui adversum te appropinquaverunt et steterunt... Heu! Heu! Domine Deus, quia ipsi sunt in perseculione tua primi, qui videntur in Ecclesia tua primatum diligere, gerere principatum! Arcem Sion occupaverunt ..., et universam deinceps... tradunt incendio civitalem. Misera eorum conversatio plebis tuae miserabilis subversio est. 

Resumo da Meditação 

I. O padre escandaloso é inimigo de Deus

Deus Padre elegera-o para defender a Sua causa, e ele combate-a; para O fazer reinar sobre os corações, e expulsa-O deles ; para Lhe dar escolhidos, e recruta almas para o inferno. - Deus Filho confiava nele para O ajudar a salvar as almas, e ele perde-as. Deus Espírito Santo tomara-o para Seu instrumento, e em vez de auxiliar os Seus desígnios de misericórdia, frustra-os. 

II. O padre escandaloso é inimigo das almas

Nós não temos acesso junto delas para as santificar, senão pela confiança que elas têm em nós; que confiança pode inspirar um padre que prega uma moral e pratica outra? A elevação da nossa dignidade é a medida dos estragos causados com os nossos escândalos. 

III. O padre escandaloso é inimigo da Igreja

Como esposa e mãe extremosa que é todo o escândalo ofende-a nos dois objetos do seu amor, Jesus Cristo seu esposo, e os fiéis seus filhos. Uma só queda no santuário sacerdotal, pode ter conseqüências incalculáveis. A Igreja chora, e aquele que lhe faz correr as lágrimas, é aquele mesmo que a devia consolar. 

O escândalo dado pelo padre
Suas diferentes espécies 



I. Escândalo de intenção e de perversidade. 
II. Escândalo de tibieza e de negligência. 
III. Escândalo de leviandade e de imprudência

I. Escândalo de intenção e de perversidade

Pode dizer-se do sacerdote o que S. Francisco de Sales dizia dos religiosos: Bonis nihil melius, malis nihil pejus. O homem do santuário, que leva o esquecimento dos seus deveres até espalhar em volta de si um cheiro de morte, justifica a máxima: Corruptio optimi pessima. Todavia, quando falamos do escândalo de intenção, não afirmamos que alguém perca as almas pelo gosto de as perder. Este escândalo que é propriamente o de Satanás, só seria possível em um padre que atingisse o último grau de endurecimento. Mas sem chegarmos a este ponto, sabe-se que certa palavra, certa ação, certo procedimento são capazes de ferir a consciência do próximo; vêem-se as conseqüências funestas, que de certo pecado podem resultar para a honra do sacerdócio, e não se recua, comete-se. Este desgraçado padre ilude-se a si, para pecar livremente; abusa até da autoridade, do ascendente que lhe dá o seu estado, para abalar uma virtude, de que devia ser o amparo. 

Ó padre, ó pastor, que terrível juízo sofrereis um dia! Audite hoc, sacerdotes... quia vobis judicium est (Os. V, 1.). Vós que sois o protetor nato da inocência, armais-lhe laços! Estendeis as vossas abomináveis redes sobre o mesmo Tabor, sobre esse monte santificado por tantos e tão veneráveis mistérios... Quoniam laqueus facti estis... et rete expansum super Thabor (Ibid.). O mais terrível flagelo que Deus podia empregar para punir uma diocese, uma província, um império, seria enviar-lhes semelhantes padres. Eis o que Ele diz por um profeta: Como punirei estes pecadores obstinados? Que novo castigo lhes infligirá a Minha justiça indignada? Super quo percutiam vos ultra? Tirarei do tesouro das Minhas vinganças pastores infiéis, enviar-vos-ei sacerdotes, cuja depravação chegará até ao escândalo: Grex perditus factus est populus meus: pastores eorum seduxerunt eos (Jerem. L.6.). 

II. Escândalo de tibieza e negligência

Este inspira menos horror que o primeiro; mas as conseqüências podem ser também deploráveis. Ai! e quão comum é ele! "Não há quase meio termo para um padre: se não edifica, escandaliza; se não vivifica, dá a morte; se os seus costumes não são um modelo, tornam-se um perigo; se não ensina a piedade com sua vida, inspira, autoriza, multiplica o vício" (Massillon). A vida do sacerdote deve ser a censura não só das desordens públicas, mas ainda das falsas virtudes, que o mundo desejaria substituir às virtudes evangélicas. A sua separação de tudo o que é profano, a sua modéstia, a sua santidade devem recordar incessantemente aos seculares, que os verdadeiros cristãos são homens mortos para si mesmos, cuja vida está escondida com Jesus Cristo em Deus (Col. III, 3.).

Já conhecemos as exigências do mundo em matéria de santidade sacerdotal. Quer que o padre seja um anjo isento de todo o defeito, adornado de todas as virtudes; se vê qualquer coisa de menos, admira-se, escandaliza-se. Se há exageração nas suas idéias neste ponto, esclareçamos os seus juízos, mas não os desprezemos! S. Paulo no-lo prescreve e ensina com o seu exemplo: Noli propter escam destruere opus Dei. Omnia quidem sunt munda; sed malum est homini qui per offendiculum manducat (Rom. XIV, 20). - Si esca scandalizat fratrem meum, non manducabo carnem in aeternum, ne fratrem meum scandalizem (I Cor. VIII, 13.). 

Partindo desses dois princípios: primeiro, que o mundo espera de nós uma perfeição, que em nada se ressinta das fraquezas humanas; segundo, que a nossa vida particular, assim como pública, é examinada e julgada pelo mundo; facilmente se concluirá que a vida de um padre tíbio é, por assim dizer, um escândalo permanente. 

Escandaliza nas suas relações com os seculares, pela oposição flagrante de uma vida imortificada, sensual, desprovida de virtudes sólidas, contra o Evangelho que prega a abnegação, o espírito de sacrifício, a caridade e a imitação de Jesus Cristo. 

Escandaliza nas suas funções, que ou não exerce ou exerce mal. Descuida-se de instruir? E' um pai desnaturado, que mata os filhos, recusando alimentá-los com o pão da palavra. Vai tarde para o confessionário? Apura a paciência dos penitentes, e dá ocasião a que para alguns passe o momento favorável da graça, que talvez nunca mais volte. Desgraçado pastor, essa ovelha estava salva, se viésseis aproveitar a boa disposição em que se achava. Não a tornareis a ver no tribunal da misericórdia; mas encontrá-la-eis terrível no tribunal da justiça divina.

Até no exercício das suas funções, que escândalos! No púlpito exorta à humildade e mostra-se cheio de soberba e de afetação. No santo tribunal impacienta-se repreendendo as almas que se acusam de não ter tido paciência. Vêem-no subir ao altar sem se preparar, depois de faltas que tiveram testemunhas; que coração vai ele apresentar a Jesus Cristo para tabernáculo? Celebra com precipitação, sem recolhimento de espírito, sem parecer compenetrado do que faz. Interrompe talvez o divino sacrifício para falar e repreender.

Que escândalo, quando depois da missa, sem dar atenção ao Senhor do universo, que veio visitá-lo, sai do santuário, como Judas saiu do Cenáculo: Cum accepisset ille buccellam, exivit continuo (Joan. XIII, 30.), e leva Jesus sacramentado, o adorável cativo, para o meio do mundo, esquecendo-O no seu coração, como um morto na sua sepultura: Oblivioni datus sum tanquam mortuus a corde (Ps. XXX, 13.).  

A inutilidade de tantas comunhões, que ele faz sem se corrigir de um só defeito, sem adquirir uma só virtude, não é só por si um perigoso escândalo? Seria para admirar, que essa inutilidade suscitasse dúvidas sobre a presença real no espírito de leigos indevotos, já muito inclinados à incredulidade?

Como se persuadirão eles de que á hóstia consagrada é o Filho de Deus em pessoa, aquele que tem justificado todos os justos, santificado todos os Santos, quando vêem que ela não produz mais efeito na alma desse padre, do que nos vasos sagrados, sempre frios, e sobre a pedra do altar, sempre dura? Poderão eles crer que o sol não alumia, que o fogo não aquece, e que a santidade não santifica? Oh! que obstáculo põe à piedade, e até à fé entre o povo, a vista dum padre tíbio a celebrar os santos mistérios! 

III. Escândalo de leviandade e de imprudência

É uma grande vitória para o inimigo das almas, se pode servir-se, para as perder, daqueles mesmo que Deus elegera para as salvar. Pouco lhe importa o modo como o auxiliam os ministros do Senhor; a leviandade e a imprudência servem-lhe quase tão eficazmente como o crime. Na realidade, a falta de prudência e de circunspeção nunca é inocente em um homem encarregado de interesses tão graves, e obrigado por tantas leis a uma vida mais seria e refletida.

A um sacerdote não se lhe admite tão facilmente como a qualquer outra pessoa a desculpa de que não pensava nisso; pois ninguém tanto como ele deve considerar atentamente o que diz e faz, quando, e em presença de quem o diz e faz. Não basta que seja santo, é necessário que o mostre, e o mostre em tudo: In omnibus teipsum praebe exemplum..., in integratite, in gravitate; verbum sanum irreprehensibile; ut is qui ex adverso est vereatur, nihil habens malum dicere de nobis (Tit. II, 7,8). Uma pergunta, uma palavra indiscreta, um gracejo, uma leviandade, um passo inconsiderado, têm sido muitas vezes semente de escândalo, desgraçadamente muito fecunda. Quantos eclesiásticos, em seu trato com o mundo, em suas viagens, mesmo no interior de sua casa, no meio das crianças, etc., porque desprezam precauções que a malignidade tornou necessária, dão lugar a suspeitas, que ofendem a honra do clero, e vêm a ser ocasião de ruína para as almas!

Senhor, assim como David, eu devo chorar outros pecados além dos meus pecados pessoais, alguns há que não cometi, e nem por isso deixam de me pesar, porque foram efeito dos meus escândalos. Perdoai-nos com os meus: Ab alienis parce servo tuo. Só me resta um meio de satisfazer à Vossa justiça, é ser conVosco e por Vós um zeloso, ardente e infatigável salvador das almas.

Feliz de mim por ter ainda este recurso, e me encontrar num estado, em que possa fazer tanto bem, quanto é o mal que tenho feito. A dívida é justa, ó meu Deus! quero satisfazê-la; o zelo é a penitência do escândalo. Dignai-Vos aceitar o meu arrependimento, abençoar a minha resolução; não tenho senão um desejo, é reparar, com a perfeição que puder, o dano que tenho feito à Igreja, a meus irmãos, mas principalmente à Vossa glória.

Resumo da meditação

I- Escândalo de intenção e perversidade

Sabe-se que certa palavra, ação, ou omissão, são capazes de ferir mortalmente a consciência do próximo; e não se faz caso disto. Abusa-se da autoridade, do ascendente que dá a santidade do estado. Ó sacerdote do Senhor, que terrível juízo que sofrereis um dia!

II - Escândalo de tibieza e de negligência

Inspira menos horror que o primeiro; as suas conseqüências são talvez igualmente funestas; ai! e como é comum! Pode-se fazer idéia disto por estes dois princípios: o mundo quer ver em nós anjos, e observa-nos com malignidade. Relações com os seculares, funções desprezadas ou mal exercidas. Oh! quão numerosas são as ocasiões de escândalo para um homem do santuário, para um pastor das almas!

III. Escândalo de leviandade e de imprudência

Num padre admite-se menos que em qualquer outra pessoa, a desculpa de que não pensava em tal; ninguém deve considerar com maior cuidado que ele, tudo o que diz, tudo o que faz, quando, e na presença de quem o diz e o faz. Não basta que seja santo, é necessário que o mostre em tudo.


(Meditações Sacerdotais ou o Padre santificado pela oração, versão portuguesa pelo Padre Francisco Luís Seabra, 2ª edição, Volume I, Porto, 1934.)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A PAIXÃO DE CRISTO COM RELAÇÃO AO CORPO

CAPÍTULO CCXXXI

A PAIXÃO DE CRISTO
COM RELAÇÃO AO CORPO


1 — Não quis Cristo apenas sofrer a morte, mas também outras conseqüências do pecado do primeiro pai, que as transmitiu aos descendentes, e, assim, suportando integralmente a pena do pecado, fôssemos deste libertados pela Sua satisfação.

2 — Dessas conseqüências, algumas precedem a morte, outras seguem-na. Precedem, com efeito, a morte do corpo, paixões, tanto as naturais, como a fome, a sede, o cansaço, e outras semelhantes, quanto as violentas, como os ferimentos, a flagelação, e outras. Tudo isso quis Cristo sofrer como conseqüência do pecado, pois, se o homem não tivesse pecado não sentiria as aflições da fome, da sede, do cansaço, do frio, nem teria sido assujeitado a violentas paixões provocadas por causas exteriores.

3 — Todavia, essas paixões Cristo as sofreu por motivo diverso daquele que os outros homens sofrem. Com efeito, nos outros homens não há algo que possa afastar essas paixões. Em Cristo, porém, havia donde resistir-lhes, pois Ele possuía não somente a virtude divina incriada, como também a beatitude da alma, cuja virtude era tão forte que, como diz Santo Agostinho, tal beatitude devia, a seu modo, estender-se também ao corpo.

Por isso, depois da Ressurreição, o mesmo motivo que fará aquela alma glorificada pela visão de Deus, e pela franca e plena fruição de Deus, fará também impassível e imortal o corpo glorificado unido àquela alma glorificada. Como a alma de Cristo gozasse da perfeita visão de Deus, enquanto dependesse da virtude dessa visão, seria conseqüente que o Seu corpo fosse tornado impassível e imortal, devido à redundância da glória da alma no corpo. Mas, providencialmente, aconteceu que, não obstante a alma gozasse da visão de Deus, o corpo sofresse, e não houvesse, por isso, redundância alguma da glória da alma no corpo.

4 — Como dissemos acima, o que era a Cristo natural conforme a natureza humana, estava submetido à sua vontade. Podia, por conseguinte, impedir, pela vontade, a redundância natural das partes superiores nas inferiores, permitindo que cada parte sofresse ou agisse de acordo com as respectivas propriedades, sem que as outras partes o impedissem. Mas isso é, efetivamente, impossível aos outros homens.

5 — Segue-se daí também que Cristo suportou, na Paixão, a máxima dor corpórea, porque essa dor em nada lhe fora mitigada pelo gozo superior da razão, como também, por sua vez, a dor corpórea não lhe impedia o gozo da razão.

6 — Donde também concluir-se que somente Cristo era, ao mesmo tempo, viador e compreensor. Fruía Ele da visão divina, o que pertence aos que têm a visão compreensiva de Deus, mas estava, não obstante, o seu corpo sujeito às paixões, o que é próprio do viador.

7 — Como, além disso, é próprio também do viador que pelos bens que opera pela caridade mereça para si, ou para os outros, conclui-se outrossim que Cristo, embora fosse compreensor, mereceu pelas suas obras e pela sua Paixão, para Si e para nós.

Para Si, não a glorificação da alma, o que já possuía desde o princípio, mas a glorificação do corpo, alcançada pela Paixão. Para nossa salvação, cada um dos seus sofrimentos e ações foram também profícuos, não apenas como motivo de exemplo, bem como causa de merecimento, enquanto, devido à abundância de caridade e de graça, pôde, antecipadamente, merecer por nós, e assim, recebessem os membros da plenitude da cabeça. Qualquer sofrimento Seu, por mínimo que fosse, se considerarmos a dignidade do paciente, seria suficiente para a redenção do gênero humano.

Quanto mais elevada é a dignidade da pessoa injuriada, tanto maior se torna a injuria a ela feita, como, por exemplo, é mais grave a agressão feita a uma autoridade do que a um popular qualquer. Ora, sendo infinita a dignidade de Cristo, qualquer sofrimento Seu teve valor infinito, e, sendo assim, seria suficiente para a abolição das penas de pecados infinitos. Todavia, a redenção do gênero humano não foi consumada por qualquer sofrimento, mas pela paixão da morte, a qual Cristo quis suportar, conforme as razões acima relatadas, para redimir o gênero humano do pecado. Em qualquer compra, com efeito, não só é exigida a quantidade da mercadoria, mas também a especificação do preço[3].

[3] Um esclarecimento faz-se necessário com relação ao uso da palavracompra, utilizada no fim deste capítulo. Está ela em íntima conexão com o verbete redimir, sendo mesmo, no latim, um dos seus significados (lt. “redimire” — comprar, pagar o preço devido por um escravo). É assim que se pode dizer do Cristo, ao redimir a humanidade, tê-la comprado, i. e., pago o preço devido por ela, numa dívida contraída pelo primeiro pai do gênero humano. Encontramos, além disso, na Escritura: “Não é Ele teu Pai, que tecomprou, que te fez e te criou?” (Dt 32.6). Este texto faz referência à saída do Egito de onde o Senhor tirou os judeus com milagres tão grandes e inauditos, que, de certa forma, pagava o preço estipulado pelo Faraó para a libertação do povo de Deus.

(Santo Tomás de Aquino, Compêndio de Teologia, Tradução e Notas de D. Odilão Moura, OSB.)

PS: Obra divulgada pelo blogue SPES

O ZELO - MOTIVOS DO ZELO

O ZELO 
MOTIVOS DO ZELO 

(São Francisco Xavier)

Na vida do P. de Smet, o apóstolo das Montanhas Rochosas, lê-se que um pastor protestante queria arrancar ao catolicismo a Inácio, chefe dos Yakimas. 

- Se vieres para nós, ganharás duzentas piastras. 
- É pouco.
- Acrescentarei mais cinqüenta piastras.
- Ainda não basta.
- Ganharás trezentas piastras. 
- E ainda muito pouco. 
- Decididamente, quanto queres? Faz tu mesmo uma proposta. 
- Ei-lo: No dia em que me dês o valor da minha alma, eu farei tudo quanto desejes. 

Sabia muito bem aquele sublime selvagem que jamais se poderia dar o que vale uma alma, ainda que se oferecessem milhões de piastras.

À sua maneira traduzia a doutrina de S. Pedro: «Fostes resgatados... não a preço de coisas perecíveis como o ouro e a prata, mas pelo próprio sangue de Jesus Cristo e do Cordeiro» (1)

A nossa época apaixona-se pelos valores cotados na Bolsa e parece esquecer os da ordem sobrenatural.

A alma é criada por Deus, resgatada por Deus, enobrecida pela graça de Deus, nutrida por Deus no banquete Eucarístico, destinada à visão de Deus. 

(1) 1.ª Epístola, I, 18 e 19. 

Oh! Como é preciosa! E que honra ter «cura de almas»! 

Admiram-se os quadros de Rafael. 

O apóstolo, artista maior ainda, reproduz e pinta na tela imortal das almas, traços daquele que é doce e belo, o modelo ideal: Jesus Cristo.

Miguel Ângelo fez estátuas. Mas nós temos o privilégio de esculpir a Deus nas almas. 

«Certamente que ao pintor, ao escultor, ao artista, eu prefiro muito mais aquele que sabe formar os corações» (1).
             
O conquistador ganha alguns países. Mas a alma é mais preciosa que todos os países. De modo que nós oferecemos a Deus mais que o mundo inteiro quando Lhe damos uma só alma. Uma só. 

Mas quando se verifica esta hipótese? 
A alma nunca está só; sendo todas solidárias, cada uma age sobre as outras.

Que alegria para os astrônomos descobrir uma nova estrela! O homem zeloso, não somente descobre, como coloca as almas no firmamento. Glória Santa!.«Os que levam muitos à justiça, serão como as estrelas em perpétuas eternidades» (2).

(1) S. João Crisóstomo, Hom. LX sur le ch. 18 de Saint Mathieu.
(2) Daniel, XII, 3.

O filantropo compadece-se das misérias humanas: doença, pobreza, fome. O cristão sabe que se esquecem enfermidades mais graves, outras indigências e outras fomes! A história recorda muitas fomes: as do velho Egito, dos Índios, da França durante a Revolução e a grande guerra. Mas os povos sentem mais falta e têm mais necessidade ainda do pão da verdade, do pão sobrenatural. A religião é o primeiro «Comitê de Abastecimentos». Procura-se socorrer as crianças esfomeadas. Isso está muito bem feito. Mas há melhor ainda. Pela Cruzada Eucarística, nós queremos nutrir a alma de todos os pequeninos, de maneira que jamais se justifique por nossa incúria a palavra desolada: «As criancinhas pedem pão e ninguém lhes dá pão» (1).

Como seria lamentável não ter o zelo das almas (2)
«Maldito seja aquele que faz sem zelo a obra do Senhor» (3)

O apóstolo sentirá escrúpulos de malbaratar em futilidades um tempo precioso. Afonso Daudet, em La partie de billard, conta a loucura de um general que perdeu uma batalha para ganhar uma partida de bilhar. Dir-se-á porventura que este caso não se dá jamais. Substitua-se o bilhar por um jogo de cartas, um folhetim frívolo, um passeio inútil. Por isso, se havia de expor um apóstolo a perder contra o demônio a grande batalha das almas? Tem muito mais que fazer do que divertir-se muito e descansar muito.

Mas, objetar-se-á: Deus pode salvar as almas sem nós.

Evidentemente que pode. Mas quere-o de fato? A Sua providência ordinária é que o homem ajude o homem com a graça divina. Os filhos devem muito aos bons pais; e os paroquianos, aos seus pastores. Os povos idólatras têm necessidade de missionários: «Como poderão crer naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão sem haver quem lhes pregue? E como pregarão se não forem enviados?» (4)

(1) Lamentações de Jeremias, IV.
(2) Reler todo o cap.34 de Ezequiel.
(3) Jeremias, XLVIII, 10. 
(4) Romanos, X, 14 e 15. 

A preguiça humana e o demônio segredam-nos ao ouvido: «E já muito belo ser virtuoso; é necessário poupares-te ao trabalho do apostolado». 

Se os apóstolos tivessem raciocinado assim, teriam sido simples pescadores, quando muito, patrões de barcos. 

Se Francisco Xavier tivesse raciocinado assim, a Igreja teria perdido, segundo se crê, mais de um milhão de neófitos. 

Se Francisco de Sales tivesse racionado assim talvez cerca de 70 mil almas se não tivessem convertido (1).

(1) Foi a este grande zelo que a Igreja deveu a conversão de 7.000 hereges. (Hamon, Vie de Saint François de Sales, 1883, t, 2ª, p. 450. 

Não desbaratemos o tesouro das almas. 

Deploramos às vezes que as riquezas florestais, mineiras e industriais, fiquem sem explorar. Tristeza dos valores perdidos! Tristeza maior, a das almas perdidas! Melancolia dos terrenos incultos! Melancolia mais pungente, a das almas incultas! 

Acabamos de considerar a razão intrínseca do zelo: o valor das almas. Examinemos um motivo extrínseco; a doutrina de Jesus.

Cristo sabia muito bem que os homens são sempre crianças: Por isso, lhes falaria como a crianças: em imagens. Eis algumas usadas pelo Mestre para por em evidência o zelo. 

Primeira imagem: A colheita. Para ela convergem todas as preocupações da gente do campo. Essa é a que o lavrador prepara, a que admira, a que põe em gavelas, a que enceleira, a que vende. Suponhamos uma messe soberba, ondulada pela brisa, mas que, à falta de ceifeiros, apodreceu debaixo dos pés! Que pena! Pois bem, é o que se passa na colheita das almas. 

«A colheita é grande, mas os operários são poucos». (1)

Segunda imagem: A pesca. O pescador de água doce maravilha-nos com a sua inconfundível paciência; o pescador do mar arrosta com os perigos. Protegido contra as ondas pelo impermeável e largo chapéu de couro abalança-se a lutar com o oceano e a passar noites lúgubres sobre as ondas. Tudo isto, para encontrar peixes. 

Pois bem: O Senhor promete: «Eu farei de vós pescadores de homens» (2)

Os pescadores a quem Jesus Cristo falava deviam entender muito bem esta comparação tomada do seu oficio. 

Terceira imagem: Se os pescadores se interessavam com a imagem precedente, as mulheres também com a seguinte. A mãe, quando soou a hora de dar à luz, está angustiada. Que gritos! Que dores! E até que perigo de morte! E, no entanto, esquece tudo desde o momento em que deu à luz. «Depois que deu à luz um menino, já se não lembra da aflição, pelo gozo que tem» (3)

O apostolado é um parto espiritual. S. Paulo emprega freqüentemente esta comparação: «Pois fui eu quem vos gerou em Jesus Cristo, por meio do Evangelho» (4). «Rogo-te por meu filho Onésimo que eu gerei nas prisões» (5). «Meus filhinhos, por quem eu sinto de novo as dores do parto» (6).

Todo o apóstolo se dirige ao Senhor, e num sentido mais alto, como grito de Raquel: «Dá-me filhos!» (Da mihi liberos!).

(1) S. Lucas X, 2.
(2) S. Marcos, I, 17.
(3) S. João, XVI, 21.
(4) I Coríntios, IV, 15.
(5) Epístola a Filémon, versículo 10.
(6) Gálatas, IV, 19.

Quarta imagem: É uma grande honra ser enviado como embaixador dum rei, como Cardeal legado do Papa. O apóstolo é o embaixador e o legado deputado pelo próprio Deus. «O Senhor elegeu outros setenta e dois e enviou-os» (1). «Como meu pai me enviou, também eu vos envio» (2). «Nós desempenhamos as funções de embaixadores de Cristo» (3).

Quinta imagem: A luz! No século XX, estamos perdidos de mimos; basta tocar num botão para que se iluminem grandes salas. Mas nos primeiros séculos, que sistemas tão imperfeitos e como haviam de parecer longos os serões melancólicos! O apóstolo dissipa as trevas morais. E a luz, mas não a luz que se esconde debaixo do alqueire, mas aquela que, colocada no alto de um monte, ilumina ao longe e ao largo. Por definição, o apóstolo é irradiação de luz. 

Jesus Cristo não se contentou com fazer frases lindas cheias de imagens sobre o zelo. O exemplo confirma as palavras. 

«Eu vim lançar o fogo a terra!» (4). Foi Ele o primeiro missionário que sacrificou ao Seu ideal apostólico absolutamente tudo: mãe, família, honra, a vida.

O Seu descanso não contava. «Jesus, fatigado do caminho, sentou-Se na borda de um poço» (5).

Mas eis que chega a mulher desgraçada. Que importa o estado de fadiga, a hora do meio-dia, «hora sexta», (depois das 6 horas da manhã), que é a do calor sufocante, e o tempo próprio para o descanso ou para a sesta oriental? Tudo isto Nosso Senhor esquece, para exercer o Apostolado. 

(1) S. Lucas, X, I. 
(2) S. João, XX, 21.
(3) II Coríntios V, 20. 
(4) S. Lucas, XII, 49.
(5) S. João, IV, 6. 

«Jesus de Nazaré ia de lugar para lugar, fazendo o bem» (1)

Estas palavras resumem um número incalculável de caminhadas. 

«Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos à penitência, mas os pecadores» (2). Jesus abandonou o lugar do Seu nascimento. A pátria dos apóstolos não são porventura as almas? 

Nosso Senhor sofreu em Sua delicadeza.

(Padre Damião quando jovem)

Muitos sacerdotes de aldeia dizem que é muito penoso viver em meio de homens sem educação, insensíveis a tudo o que é artístico, que só sabem falar do seu gado ou das suas batatas. E muito duro para um sacerdote ter estudado tanto S. Tomás de Aquino para vir parar neste terra-a-terra.

Jesus, que era muito mais fino do que nós, viveu entre a multidão estúpida dos judeus aferrados aos estreitos horizontes dos seus preconceitos.

Sentimo-nos consolados quando o nosso trabalho é coroado de êxito. Sob o ponto de vista humano, temos uma boa impressão de produtividade, de rendimento. Sob o ponto de vista religioso, temos a consciência de ter feito uma obra fecunda.

A alegria do bom resultado faz esquecer tantas coisas! Porventura recorda-se ainda das fadigas o agricultor ante o sucesso da colheita, ou o caçador à vista de tantas peças de caça? 

Mas Nosso Senhor não quis conhecer a consolação dos apóstolos; magnânima, livremente, privou-Se a Si mesmo do sucesso para deixá-lo aos outros.

(1) Atos, X, 38. 
(2) S. Lucas, V, 31 e 32.

S. Pedro converteu 3.000 homens no primeiro sermão e logo 5.000 (1). Jesus Cristo também pronunciou sermões, como, por exemplo, o da Montanha. Mas não se lê que tivesse convertido 3000 ou 5.000 homens.

Pôs termo ao seu apostolado na humilhação do Calvário.

Humanamente falando, esse fracasso tomava as proporções de uma catástrofe. Assim, Nosso Senhor, para salvar as almas, imolou tudo, até a própria satisfação do apostolado feliz. 
           
Esta lição de coisas foi compreendida pelos apóstolos. 

Paulo, com o seu grande coração, sofreu indizivelmente (2)
Para quê tantos trabalhos? 
«Eu sofro tudo por causa dos eleitos» (3)

Esta última palavra, como todo o mundo sabe, não designa os eleitos do céu. Não se vê como podiam os sofrimentos de Paulo auxiliar os santos. O contexto aliás marca com evidência que os «eleitos» são os cristãos.

«De muito boa vontade, darei o que é meu e me darei a mim mesmo pelas vossas almas» (4).

Poderá haver para o zelo fórmula melhor?

«Eu mesmo desejava ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos» (5)

O zelo, tão recomendado por Cristo, não esmoreceu com o correr dos séculos. Tem os seus heróis.

(1) Atos, 11, 41. - Atos, IV, 4.
(2) II Coríntios, VI, 4 e 5; XI, 23 e 33. 
(3) II Timóteo, 11, 10. 
(4) II Coríntios, XII, 15. 
(5) Romanos, IX, 3. 

Assim como S. Paulo tivera de noite a visão do Macedônio, que lhe dizia: «Passa à Macedônia e vem em nosso socorro» (1), por sua vez S. Francisco Xavier vê em sonhos um negro que o próprio Deus lhe coloca aos ombros. O peso é opressivo. Francisco Xavier compreende que o Senhor lhe confia o pesadíssimo fardo do apostolado entre os negros. Quer partir. Os prudentes objetam: «Tem cuidado com a tua saúde, com a tua vida». Mas ele responde: «Se nesses, países longínquos houvesse madeiras, espécies raras, os comerciantes já teriam tentado a expedição. E um sacerdote não há-de fazer pelas almas o que aqueles fariam pelo negócio?»

Ademais, há a intimação do Senhor: Ide! Ite! Ite! eis em três letras todo o apostolado missionário.

Ite! nada mais oposto à vida cômoda, com cadeiras e pantufas quentes, ao abrigo das correntes de ar. 

Ite! Francisco Xavier partiu. 
Caminho do zelo! «Da mihi animas» (2)

(1) Atos, XVI, 9.
(2) Gén, XIV, 2I; Qual o sentido próprio: deste texto? O Rei de Sodoma dizia a Abraão: «Dá-me os homens e fica com o resto». (Consulte-se Bainvel, S. J., Contresens bibliques des prédicateurs, 2.a ed. p. 65).

(Padre Damião leproso)

Pela tarde são tantos os batizados que os braços lhe caíam de cansados; ao morrer, aos 46 anos de idade, tinha convertido 52 reinos. Ah! O grande conquistador de povos! Que anos tão cheios! Viver assim é que vale a pena. Os apóstolos morrem; mas passam aos outros o brandão aceso no próprio coração de Jesus Cristo. Surgem os gigantes do apostolado. Os Roland, os Du Guesclin, os bravos, os cavaleiros formam uma galeria menos sublime. Ao lado dos apóstolos célebres, conquistadores de almas, colocam-se os humildes sacrificados: em Molokai, o P. Damião leproso com os leprosos; em Caiena, os sacerdotes que viviam como os forçados das galeras; no Canadá, os missionários a quem os selvagens enterram farpas de madeira nas unhas e rasgam a boca até às orelhas. Além disso o apostolado não é um couto reservado somente para aqueles que vestem a sotaina. Em pleno mundo, muitas pessoas compreendem a beleza do zelo:

Esses três irmãos cujo nome treme no bico da minha pena, que durante as férias vinham todos os domingos desde o mar a Líège, para darem assistência ao seu patronato; esse Filibert-Vrau, cuja história foi escrita por Mons. Baunard; essas Damas do Calvário que cuidam dos cancerosos. Desempenham uma tarefa horrorosa? O seu fim último é tratar o cancro? Não. Elas sabem que o pecado é o cancro moral. Querem fazer a alma tanto mais bela, quanto mais disforme é o corpo. Não são tão somente enfermeiras, senão também apóstolas. 

Resumamos esta primeira parte: O zelo explica-se pelo valor das almas; ensina-o o Evangelho. Praticam-no inúmeros apóstolos.

A nós cabe escutar essas lições, imitar esses exemplos. 

Um dia virá em que tenhamos de comparecer diante de Deus. 

- Foste bom cristão? 
- Creio que sim, Senhor. 
- Nunca entristeceste a Igreja nem escandalizaste os fiéis? 
- Nunca. 
- Cumprias os preceitos pascais? 
-Sim. 
- Assistias à Missa dominical?
- Com certeza.
- Rezava?
- Todos os dias.
- Tudo isso está muito bem, servo bom e fiel, tudo isso é muito. Mas não é tudo. Não basta levar uma vida ordenada, ser bom pessoalmente, e, por assim dizer, egoisticamente. Seria inadmissível, recolher-se prudentemente à Arca e daí saborear a segurança pessoal, sem pensar sequer que são tantos os outros que se afogam no dilúvio universal. Ajudaste as almas? Fizeste para salvá-las o que os adversários fizeram para perdê-las?

Bem aventurados aquele que possa responder: «sim, Senhor, eu fui Apóstolo», porque receberá plena recompensa.

(Em face do dever - Volume II, pelo Pe. G. Hoornaert, S.J, traduzido por Pe. M. da Costa Maia, o original que serviu para esta tradução é o da 1ª Edição francesa que tem por título: "Face au Devoir", livraria Cruz, Braga, 1954)

PS: Grifos meus.