domingo, 22 de maio de 2011

Religiosa

Religiosa


Vejo, diz o Apocalipse, uma imensa multidão, difícil de precisar. Toucas de todas as espécies, véus, mantos e cordões de todos os feitios e cores. Uns azuis como pervinca, outros brancos como lírio, outros castanhos, outros cinzentos, e outros ainda negros como o pecado mortal...

Os nomes variam:

As Filhas... de Caridade, da Sabedoria, do Espírito Santo...

As Irmãs de... X, Y, Z...

As senhoras de...

Mas, no fundo, todas elas cantam o mesmo hino em diferentes tons...

Têm o mesmo coração oferecido ao mesmo Jesus Cristo...

É a revoada de Religiosas dispersadas aos quatro ventos da terra...

Benditas sejam elas por causa do sinal de escolhidas que trazem na testa! Quando mortas, todas elas apresentam uma pequenina cruz, sempre igual, tendo em baixo um nome que é o seu nome, mas que também não é seu nome. Não é seu nome perante o mundo, mas é seu nome perante Deus.

Benditas sejam elas! Felizes que são...

O que é uma religiosa

Pondo de parte qualquer diferença secundária, essencialmente falando, a religiosa é, desde o momento em que formula seus votos, uma jovem que:

Abstendo-se do direito de casar-se; pretende-se, por um determinado tempo ou para sempre, aos votos de pobreza, castidade e obediência; dedica-se ao serviço de Deus, entrega-se a Ele, pertence-Lhe e faz dEle seu único Senhor e o único amor de sua vida.

Ela contrai esses votos oficialmente, perante a Igreja, num determinado grupo de que vem a fazer parte e cujos costumes e obrigações aceita voluntariamente.

Distinguem-se comumente: as Religiosas contemplativas, muitas vezes enclausuradas, e que se dedicam especialmente à oração e à penitência; as que ensinam, que têm por missão principal instruir nas escolas e colégios; as enfermeiras, que se dedicam às obras de caridade nos hospícios, hospitais, clínicas, creches e dispensários; as missionárias, consagradas ao apostolado católico nas suas diferentes formas e até em países estrangeiros...

Que pensar da vida religiosa?

A Igreja a considera como a maneira mais digna de viver. Uma cristã, diante de semelhante problema, deve seguir o julgamento da Igreja.

Mas o mundo, naturalmente, pensa de modo diferente.

Ora declara que a vida religiosa é um refúgio oferecido às jovens feias, pobres e imbecis, e que, não se podendo casar por essas três razões, ficam muito felizes por encontrarem no convento o ninho onde esconder sua incapacidade; ora promulga que ela recorre à vida religiosa como um meio de consolar suas desilusões amorosas, delas tirar proveito e torná-las úteis em alguma coisa, sem o que só encontraria desespero; ora considera-a como o cemitério de jovens prematuramente mortas e que, entrando para “essas casas” suscitam respeito, um vago pesar e uma amarga piedade; ora acusa, dizendo: “A vida religiosa é a covardia dos seres que não têm coragem de enfrentar o mundo, de arcar com suas responsabilidades e que, fugindo dele em vez de desafiá-los, são desertoras que se devem desprezar”; Ora ele se zanga, de modo insolente e mau: “A vida religiosa é uma ladra! Tira do mundo as mulheres a que tem direito! Arrebata ao amor belezas com as quais se teria alegrado. Diminui o número dos lares. Faz com que as mães chorem. Revolta os parentes. Faz com que certos valores fiquem escondidos. Enterra as que vivem. Necessário é que a suprimamos”.

Ora ele dá de ombros... Lamenta essas mulheres que também foram feitas para a felicidade e que inocentemente sacrificam as alegrias certas e imediatas da vida por alegrias tardias de um Paraíso duvidoso; ora admite, vencido pela evidência, o bem praticado pelas Irmãs de Caridade nos hospitais, mas condena ainda mais impiedosamente as religiosas enclausuradas; ora consente em agradecer ao convento a solução do problema dos pais, que ficam embaraçados com uma filha em casa. Tomando-a, livra-os de uma preocupação. Ora, e é a maior concessão que lhe faz, declara que cada um é livre e que, além de tudo, a vida religiosa é uma vida como outra qualquer e que aquelas às quais ela agrada podem vivê-la e, embora sejam originais, é prudente deixá-la em paz.

Tudo isso nada prova que o mundo compreenda a vida religiosa, que ele a aprecie, que a venere, que lhe tenha penetrado o sentido por demais elevado e o raro valor.

A igreja pensa mais ou menos o contrário.

Ela bem sabe de todas as críticas e admoestações mais ou menos fundadas que se podem lançar contra tais e tais Religiosas, de vista estreita, mesquinhas, severas, de alma tacanha... Mas ela não se baseia em casos particulares e, encarando a vida religiosa em seu conjunto, aprova-a e exalta-a.

Ela acha que a vida religiosa representa o caminho mais seguro, mais direto, mais bem protegido para a meta suprema da vida humana, que é o Céu.

Afirma que, quanto mais se ama a Deus, maior será o valor que se tem, e a vida religiosa, libertando o coração, unindo-o cada vez mais a Deus, impedindo as necessárias partilhas da vida comum, permite ao ser humano realizar seu maior valor.

Não hesita em afirmar que as contemplativas têm uma utilidade muito maior para o mundo por meio de suas orações e suas penitências, e sob o ponto de vista cristão, o único verdadeiro, representam, na humanidade, um alto cume, porque são a porção de humanidade mais aproximada de Deus!

Julgam, pois, que, se formos classificar teoricamente as diferentes formas de vida, a vida religiosa estaria em primeiro lugar. Afirmar isso não é desacreditar o casamento nem levar a humanidade a encerrar-se nos conventos. É simplesmente dizer o que é.

Também defende obstinadamente a vida religiosa contra todos os seus detratores. Ela cobre com seu manto maternal e envolve com sua especial estima e seus privilégios a imensa multidão de Irmãs espelhadas por toda a Terra. Condena a todos os que a elas se referem desrespeitosamente.

Aprova, encoraja e felicita a todas que a escolheram. Segundo São Paulo, ensina oficialmente que o chamado a esta vida representa uma graça inestimável que é sinal de um amor especial, e que todas as que a ela foram chamadas devem, sem orgulho e sem pesar, sentir-se felizes, muito felizes, por Deus se haver mostrado tão bom ao tomá-las para Si!

Tal é o pensamento da Igreja.

Esse deve ser o pensamento de uma moça cristã sobre a vida religiosa.

Quais são os sinais indicadores do chamado à vida religiosa?

Como a vida religiosa é uma vida excepcional, são precisas, para se entrar nela, garantias que fazem da entrada para o convento um empreendimento legítimo e prudente.

Como se sabe que se pode?
Como se sabe que se deve?

Problema por demais complexo! Existem tantos atalhos que conduzem ao mosteiro! Tantos e diversos segredos aí se escondem! Cada alma tem sua personalidade. A graça é tão pronta! As naturezas variam tanto! A história de cada um é tão pessoal!

No entanto, existem algumas regras gerais.

O caminho de veludo

Desde que se sentiu o primeiro chamado de Deus não se pensa noutra coisa. Não se sonhou com outra coisa. Tudo leva ao convento. Tudo para ele atrai. Uma espécie de instinto vital, cada ano mais forte e seguro, para ele arrasta... Já se nasceu Religiosa...

Então é coisa simples. A hesitação não é permitida, visto não se levantar nenhum obstáculo impressionante. Chegada a idade conveniente, vai-se!

É a vocação por inclinação e que, em circunstâncias especialmente favoráveis, quando a família encoraja em vez de se opor, passa-se suavemente do lar ao noviciado, sem aparente dificuldade.

O caminho de rochedo

Desta vez não sentiu a atração. O pensamento do convento ainda não penetrou no íntimo da criatura, como um fermento sempre em ação, nem cruzou o horizonte da vida como um sonho cuja beleza atrai!

Ao contrário, friamente, por um exercício de vontade, a alma em que Deus age é obrigada a refletir.

Apresenta diante de si a vida religiosa como um problema que ela mesma deve resolver, seja num ou noutro sentido. Ela o encara como o melhor caminho para a salvação, como o mais belo emprego de suas forças íntimas.

A natureza não impele, nem mesmo o temperamento. Mas a vontade reina e decide. É um caminho rude, que sobe cheio de pedras, sem árvores que façam sombra. A jovem obriga-se a caminhar, um pouco semelhante às horas secas de piedade, quando se impunha meditar e rezar. E ela o faz sem outra alegria sentida senão a de uma resolução tomada e a de um dever praticado.

O caminho de areia movediça

É o caso das vocações que se iniciam nitidamente, segundo um rumo bem traçado, e que, pouco a pouco, como os caminhos do deserto que se perdem na areia, ficam incertas de si mesmas.

Não se sabe se é sim ou não, para aqui ou para lá. Porque é ora para um lado, ora para outro, e ora para ambos. Um eterno “talvez”. E não se chega a tomar uma decisão única porque, logo que se pensa decidir, a decisão contrária se tornará possível também.

Algumas vezes, nem sempre, falta coragem ao coração, que fica tão incerto. Outras vezes é questão de temperamento e outras ainda depende do modo com que Deus está agindo. Os santos nem sempre estão seguros do caminho a seguir, quando se trata de sua santidade. E porque, então, quando se trata do seu destino, as jovens hão de estar certas do caminho a percorrer?

Mas é um caso bastante doloroso para em geral ser tratado com bondade. As jovens que estão envoltas por essas sombras devem sondar ainda seu íntimo e procurar socorro.

O caminho de Damasco

Brusca parada em pleno caminho. Um divino imprevisto. Saulo ia em perseguição de Cristo e eis que Cristo o chama para fazer dele um apóstolo.

Jovens há que estão felizes e tranqüilas. O mundo não é para elas uma tremenda decepção. O casamento lhes sorri. Nenhuma touca branca lhes aparece em sonhos. Bastam-lhes os dez mandamentos. Pretendem segui-los e é só. E porque não? Desde que Deus não lhes pede mais nada, terão elas de oferecer mais? Deliciosamente, como o monograma no canto do lenço, bordam em sua juventude o monograma do amor. Se lhes disserem que um dia... serão... (oh!) Religiosas! O queixo lhes cairia! Ser-lhes-ia necessária uma hora para fecharem a boca...

E, no entanto... Ele espera. Quem é esse Ele? Deus.

Sem prevenir, igual aos ladrões, invade essa calma, perturba o suave sonho. Elas nada compreendem. Os que as cercam também nada entendem. Mas existe algo. A alma esta aterrada. A terrível pergunta foi feita: “Queres?” E, mal sabendo o que dizer, respondem: “sim”.

A derrota foi rápida e total. Total a vitória de Cristo. Houve como que uma invasão de luz resplandecente.

E aquela que, no inverno passado, dançava nos bailes até tarde, neste inverno não dança mais. Já traz sua pequena touca de postulante. O único que dança é o diabo que, furioso, a convida a vir dançar novamente o tango...

O caminho da batalha

Neste caminho Jacó lutou contra o Anjo e este foi o vencedor.

Mais do que geralmente se acredita, vocações de certas moças iniciam-se como um encontro de patrulhas, como um choque de armas. Deus e elas. Deus que quer e elas que resistem. Deus é um temível jogador, mas certas almas são rudes adversárias! Durante muito tempo, vendo-O vir de longe, têm evitado o encontro. Agora não há mais jeito. Ambos estão em combate. Não seria mais emocionante assistir ao espetáculo de dois lutadores em plena arena antiga. A sorte sorri, ora para um, ora para outro.

E, quando termina a luta, na submissão total da alma, num longo consentimento da vítima, que atira seu “sim” como se estivesse numa lenta agonia, resta uma Religiosa a mais ao serviço de Jesus Cristo.

Mas algumas vezes, como se não pudesse defender-Se, Deus é vencido!

Respeitando a liberdade, querendo para Si uma alma e não uma escrava, pois que ela recusa, Ele desiste, faz-Se de vencido e retira-Se como um ferido...

Uma Religiosa a menos na Terra.

E inaugura-se um futuro cheio de mistério. Infelizmente, tais vitórias são para a alma a pior das vergonhas. A coroa das condenadas muitas vezes é feita desses triunfos.

O caminho de Getsêmani

É o caminho das dores que conduz ao grande Amor. Quem póde proibir a Deus de escolher Suas eleitas entre as vítimas da vida? E quem é capaz de encontrar defeito no que Deus faz? Quem póde condená-lO porque recolhe náufragos, adota órfãs, oferece o coração a fugitivas e povoa Sua casa com jovens feridas que Ele uma noite recolheu quando percorria o campo de batalha? Deus penetra pela ferida aberta num jovem coração de vinte anos. Está em Seu direito. Ofereceu-Se para vir substituir alguém que partiu. Será a mamãe que morreu. Será o noivo que partiu bruscamente.

Então, uma vocação religiosa originada de uma desilusão amorosa? E porque não? Tantos artistas há que executam sua obra-prima sob uma amarga decepção! E porque não poderá uma jovem transformar a dor numa vida religiosa? Que mal existe se a tristeza desta jovem, transformada em divino amor, faz a felicidade dos pequeninos de que ela cuidará na creche, dos velhos que ela acariciará no hospital...?

Essas vocações têm direito a um respeito comovente.

Seria preferível que a jovem transformasse sua tristeza em desespero e vergonha? Como é que não se compreende poder o sofrimento, que é luz, revelar também bruscamente um caminho até então desconhecido e projetar da porta fechada do convento uma suave claridade que convinha a vir bater a ela com as lágrimas nos olhos?

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Religiosa, parte II - Obstáculos e mais obstáculos.)

PS: Grifos meus

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Segunda palavra: o bom ladrão

Segunda palavra: o bom ladrão


Este episódio do ladrão é um dos mais maravilhosos, dos mais consoladores para nós no grande drama do Calvário.

O que primeiro admira é a rapidez que empolga a cena. Algumas palavras se cruzam por sobre a cabeça inclinada de Jesus Cristo, uma prece a esse Cristo, uma resposta de Jesus, e está tudo acabado. Mas também está tudo mudado. Aquele bandido, coberto de todos os seus crimes mais ainda do que do seu sangue, torna-se, num abrir e fechar de olhos, um santo tão purificado e um eleito tão autêntico, que merecerá naquele dia mesmo ser o companheiro de Cristo no paraíso.

- Hoje, digo-te em verdade, Eu, este Rei achincalhado, mas eterno, hoje mesmo estarás comigo no paraíso – Que rapidez!...

Deus não precisa de muito tempo para entrar numa alma, para transformá-la completamente: e é o que é consolador para nós. Mas, nessa ação tão rápida, que drama profundo e pungente: é mister acompanhar-lhe todas as peripécias.

São, portanto, três na cruz, a dominarem com suas cabeças lívidas e já moribundas a multidão que lhes ondeia aos pés. Ora, daqueles três, só um tem a fronte curvada como um convencido, como um verdadeiro condenado que se envergonha dos seus crimes e os reconhece: é o Cristo.

Os outros dois estão no paroxismo da dor e da revolta. Um frêmito de ódio sacode-lhes os pobres membros regados de sangue. Eles parece terem esquecido todo o seu passado, não pensam em qual tenha sido a sua vida e qual também a sua justa condenação. Voltam-se contra Jesus, que parece a causa do seu suplício. Teriam eles sido crucificados naquele dia mesmo se o Cristo não tivesse tido de o ser? Ele lhes é, pois, ao menos a causa da sua morte antecipada, e em razão disto raivam, rangem de furor, blasfemando o divino Pendurado da Cruz.

Et latrones qui crucifixi erant cum eo improperabant ei (Mt. 27,44).

Jesus, cujo ouvido divino percebe todas as intenções secretas, condói-Se deles mais talvez do que os de baixo; sente nas palavras deles a dor abrasadora que os aguilhoa: e por eles tanto quanto pelos algozes foi que Ele deixou cair a sua doce e primeira prece: - Pai, perdoai-lhes, porque eles, principalmente eles, não sabem o que fazem.

Ó mistério das eleições divinas! Ó profundeza das potências da nossa vontade! Os dois ouviram a santa e abençoada palavra. Um se cala, opresso, aturdido por aquele golpe de misericórdia; o outro, entregue todo à sua dor, ao seu violento desejo de viver, à raiva de ter sido crucificado mais cedo por causa daquele Jesus, o outro, apanhado no ar todas as blasfêmias que sobem de baixo, pega de uma à passagem e exclama:

- Se verdadeiramente és o Cristo, começa por te salvares a ti mesmo, e a nós depois!...

Esta impetração não tinha nada, em si, de blasfêmia: o ladrão exacerbado clama àquele Messias, àquele taumaturgo, àquele Filho de Deus, que se salve a Si, e a eles ainda por cima. Não pede sequer a salvação para si só: Et nos, porém nós contigo, nós dois que estamos sofrendo e morrendo atrozmente. É provável, entretanto, que esse pedido tenha sido acompanhado e seguido de mais odiosas blasfêmias.

Insinua-se o evangelista: um dos ladrões, diz ele, blasfemava contra Ele, chamando:

- Salva-te então a ti mesmo e a nós dois contigo.

Mas a resposta brusca, viva do outro ladrão é a prova disso. Não é mesmo uma resposta, é uma violenta réplica:

- Oh! como! Brada o ladrão que estava defronte, nem tu também tens medo de Deus?... embora estejas morrendo no mesmo suplício?... Ainda para nós é só justiça; mas ele, ele não fez mal.

Que significa isto, em verdade? Eis então aquele ladrão, aquele celerado que cuspia blasfêmias havia apenas um instante, e que subitamente se faz advogado daquele a quem insultava? Chega até a falar de um Deus que estaria ali... pertinho... Será o delírio da agonia, será a demência do sofrimento que assim o fazem disparatar?

Há naquelas palavras uma sucessão rápida de sentimentos que denota o trabalho de uma graça excessiva.

O ladrão ouviu e ainda ouve todas as blasfêmias que sobem para a cruz: ouviu ao mesmo tempo a prece e o silêncio daquele Cristo pregado naquela cruz, daquele Cristo a quem alternativamente e por mofa chamam de Messias, de Rei dos Judeus, de Filho de Deus. A princípio ele se admira; mas em seguida parece apreender a monstruosa injustiça que cravou no mesmo patíbulo aquele Cristo benfeitor e a eles... celerados.

Sente então – por esse instinto supremo de justiça – que um Deus mais cedo ou mais tarde vingador paira sobre aquele drama do Calvário:

- Então não o temes... esse Deus, clama ele ao companheiro... nós, nós temos só aquilo que merecemos... mas Ele, esse companheiro que ai está, no meio... que mal fez?...

E olha para ele... e, à medida que fala, dir-se-ia que uma luz lhe invade o espírito.

- Não, não, esse ente que morre como nós, e que perdoa, e que ora morrendo, não é um ente vulgar: coroaram-no irrisoriamente... e cruelmente... mas, e se fosse um Rei? Matam-no porque ele é o falso Messias: mas, e se fosse o verdadeiro?

Se fosse o Filho de Deus... o próprio Deus?...

- É, eu creio, sinto, confesso-o e imploro-o...

E, volvendo os olhares súplices para o Cristo, murmurou:

- “Senhor, lembrai-vos de mim... quando chegardes ao vosso reino!”

Ó conversão estranha, exclama São João Crisóstomo. Ele vê um crucificado... e confessa um Rei da Glória! (Crisóstomo, homilias. De cruce et latrone.)

Vê chagas abertas e sangue que corre, diz Santo Ambrósio, e, bem longe de o crer um criminoso, reconhece-o como um Deus! (Ambrósio, sermão 50).

Ele não clama como os outros, diz Eusébio: Se é Deus, salva-me; mas sim: Já que és Deus, livra-me do julgamento futuro. (Eusébio, homilia de Latrone beato.) Meu Senhor e meu Mestre... dignai-vos de Vos lembrar de mim...

Assim, aquele homem já não crê, vê, a fé foi absorvida.

Ele já está nos esplendores da graça, compreendeu num instante toda a economia da vida e da morte divinas. (Cornélio a Lapide – Comnent. in Lucam, c. 23 ss 40 – chega até a dizer que, chamando ao companheiro: Neque tu times Deum? [Tu também não temes a Deus?] videtur Christum denotare eumque confiteri esse Deum, q. e.: Times vindictam Christi quem blasphemas, quia ipse non tantum est homo sed et Deus”; parece designar o Cristo e confessar que ele é Deus; ou seja: Não temes a vingança do Cristo que blasfemas? Porque Ele não é só homem, mas também Deus. – Santo Ambrósio e Eusébio têm esses mesmos sentimentos.) O homem que está ali no meio é um Deus, e está condenado embora não tenha feito mal algum, e morre por ser o grande celerado, o grande miserável da humanidade.

Mas é também o Rei lá do alto: tem, pois um reino, um palácio, servos: vai subir a esse reino, e pode fazer ali entrar quantos quiserem crer nEle.

E então ele crê, espera, ama, aquele, pobre ladrão sem letras e sem ciências, repleto de pecados e de ignomínias; mas ele sabe divinamente que todos os seus pecados, todas as suas ignomínias lá estão sobre aquele homem-Deus, como a púrpura real do Rei que Ele é: e diz docentemente fazendo-Se pequeno na Cruz, não podendo estender a mão como um mendigo, mas estendendo a alma dolorida e radiosa:

- Meu Senhor e meu Rei, lembrai-Vos de mim, - uma simples lembrança! – quando entrardes no Vosso grande reino.

E Jesus, que não pode mexer-Se, imóvel também, e Jesus, que não pode nem erguer a cabeça para o ósculo de amor nem levantar os braços para o perdão supremo, Jesus diz-lhe, entretanto com uma irradiação de bondade e de alegria inefável:

- Hoje, amigo, sou eu quem te diz, estarás junto a mim no paraíso.

No paraíso! Com Ele! Ouviste, ó pobre facinoroso? E entre a imobilidade dolorosa daqueles dois homens passou-se num instante a maior e a mais rápida ação que jamais tenha havido.

E agora o ladrão se clã: Jesus igualmente não diz mais nada; porém os seus dois semblantes se entreolham e os seus dois corações se falam: “In hoc enim totius forma salutis”, diz Santo Ambrósio (Sermão 50). E eis aqui todo o segredo da salvação eterna.

Reconhecer um Deus lá onde há um simples homem, e um homem humilhado; discernir através dos desfalecimentos do supliciado a glória do Rei eterno! E, quanto a nós, nas particularidades da vida, não nos escandalizarmos com a mão que nos fere: bem mais ainda, beijarmos essa mão quando nos lacera ou se retira; muito melhor, não murmurarmos do silêncio, às vezes esmagador, de Deus, e da convivência que Ele parece emprestar aos nossos inimigos: enfim, por toda parte e sempre firmes na fé e ardentes no amor, aguardarmos a “revelação futura” e consentirmos em murmurar o nosso Credo até o fim, nas trevas do Calvário: repito, é toda a santificação. In hoc totius forma salutis. Desde agora a noite pode vir, há ao pé da grande vítima um facho que arde: a alma luminosa do ladrão, que lhe ilumina a pavorosa agonia com a rutilação da bondade divina. Ele vela, ora, espera. “Comigo, no paraíso, hoje”; isto lhe basta, e ele torna a entrar na sua escuridão e na sua imobilidade.

Como Deus é bom! Como, depois do que acabamos de ver, não crermos que ele queira perdoar-nos?

Que é que nos impediria, aliás, de receber essa inesgotável misericórdia?...

Olha para o Calvário, ó minha alma: seriam os teus pecados? O número deles? A malícia? Toda a vida pregressa do bom ladrão é como que aniquilada num instante; abisma-se nesta palavra:

- Hoje, comigo, no paraíso. – Mas e ontem?
- Que importa o ontem? Se hoje estás no paraíso, que mais te é preciso?...
- Seria o tempo que te faltaria? Alguns segundos bastaram àquele criminoso.
- É a justiça de Deus que te assusta? – Onde está ela? Na Cruz. Em ti só vejo agora a obra da bondade. E então? Que é que pode atormentar-te?

Ó tortura, ó grandeza, ó suprema piedade de Deus! Ó meus pecados, como me inquietais pouco! Tivesse-os em cem vezes mais, que é preciso para os fazer para sempre perdoar?

É preciso estar na cruz: estaremos ao menos quando morrermos. É preciso reconhecer que sofremos justamente: é a única vantagem que devemos auferir dos nossos pecados. Finalmente, é preciso mendigar um olhar do Rei Jesus. Memento mei; menos do que um olhar, uma lembrança basta.

Tudo o que não passa de um temor ultrajante para com um Deus tão bom. Não só Ele perdoa, não só esquece, mas ao mesmo tempo diz:

- Estarás comigo hoje.
- E o purgatório?
- Comigo, digo-te, e no paraíso. Então eu não posso tudo apagar, tudo tirar, quando me apraz? Ecce agnus Dei qui tollit peccata mundi. Se eu tiro os pecados do mundo, não estão dentro os teus?...

E eis aí o segredo da paz e da confiança dos nossos últimos momentos.

- Mas eu sofro constrangido e forçado.
- Que importa, se sofres!

“Pois Jesus perdoa facilmente aos que sofrem com Ele e fazem um sacrifício voluntário dos seus males mesmos forçados” (Bossuet – meditação para o tempo do Jubileu, 5ª consideração.)

- Mas...
- Pára com as tuas objeções, alma ainda orgulhosa até o fim: acaso o pobre discute quando estende a mão? Estende a tua, recebe, e fica para sempre na gratidão.

Há almas santas que guardam sempre em reserva alguma força a fazer valer contra a justiça de Deus: uma irrisão!... teias de aranha diante de uma chama ardente!... mais vale ainda depender só da sua piedade.

Ir-se para Deus pobre, nu, vazio e despojado, nada mais tendo depois de ter tido tudo; só lhe poder apresentar a própria miséria e decadência, abeirar-se daquele juiz temível que penetra os anjos, e apresentar-se-Lhe sem advogado, sem inocência e sem reparação: de certo, que mais tremenda desgraça!... A não ser que se sinta desabrochar docemente nos lábios, com o espírito do bom ladrão, esta oração única que tudo salvará: In sola misericordia Domini spero salutem. Só da compaixão do Senhor espero a minha salvação. Amém (Epitáfio de uma antiga pedra sepulcral na igreja de São Remígio, em Reims.)

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: Terceira palavra: João e Maria.)

PS: Grifos meus.

domingo, 15 de maio de 2011

Como preparar-se para tal ato? (Casamento)

Como preparar-se para tal ato?


Primeiramente, é preciso prepara-se

Algumas; muitas até, não se preparam.

Seguras de si mesmas, um pouco loucas, provavelmente inconscientes, improvisam o casamento do mesmo modo como improvisa seu discurso... Rebaixam o ideal a tal ponto que não pensam ter de subir muito para atingi-lo. Não refletiram nem nos deveres, nem nos riscos, nem nas responsabilidades que surgirão. Ficam, pois, tranqüilas. De qualquer jeito, elas se desembaraçarão!...

Sempre se desembaraçarão!... Infelizmente, sim, mas de outra maneira que consiste em não se desembaraçarem...

Não se improvisa o traje nupcial nem tão pouco o enxoval. Ele é preparado com tanto afã! Com tanta minúcia! É uma coisa verdadeiramente emocionante...

Toda a família dele participa. O pai, a mãe, os irmãos e irmãs, o avô, a avó, a amiga Emília, a vizinha Deltanira, o tio Augusto, a tia Ondina, cada qual tem sua sugestão a apresentar. Ah! este traje! Este enxoval!...

Coisa alguma é improvisada, exceto o próprio casamento, no que ele tem de essencial.

E sabe-se acaso o que é o casamento? O que exige? A que obriga? Quebra-se a cabeça por causa de um botão a mais ou a menos, mas não se quebra por causa de palavras tão importantes como são: “amor, fidelidade, sinceridade, dedicação”... Será por medo de, uma vez quebrada, nada ser encontrado dentro dela?...

Espalham-se pela mesa os presentes oferecidos. Mas, de antemão, não se espalham os temíveis presentes que a vida poderá trazer.

Percorrem-se todas as casas de modas para a compra dos móveis e da roupa... mas não se põe de joelhos num oratório para pensar maduramente no desconhecido que se vai afrontar e perguntar a si mesma, lealmente, se tem a necessária força para lutar contra as ondas da travessia.

Ora, existem coisas que não se improvisam. O casamento é uma delas. Tanto mais grave se apresenta como obrigações, tanto mais vasto como promessas, tanto maiores conseqüências acarreta, menos se tem o direito de improvisá-lo. Também não se improvisa um tratado de paz. Uma guerra também não. O sacerdócio também não, e a eternidade muito menos.

E o casamento também não. A menos que, pensando-se dissolvê-lo ao primeiro incidente, se deixe de respeitar o que foi desonrado por si mesmo.

Mas, então, não se será mais uma cristã.

Não se é mais honesta visto que, sem que o pareça, o anel nupcial já se rachou sutilmente e está ameaçado de uma fácil ruptura...

Sendo o que é, o casamento deve ser preparado.

E como preparar-se para ele?

Por uma reflexão minuciosa

Não se trata de dizer: “Contanto que eu esteja casada, tanto melhor para o resto!” A palavra “casamento” pode, em certos casos, significar tantos sofrimentos com tão poucas alegrias que, decididamente, é mais do que prudente bem considerá-lo antes.

A vida obriga a não exigir demais. O bom senso quer que as pretensões sejam moderadas. O rapaz “perfeito” não se colhe em qualquer jardim... E tão pouco a moça “perfeita”. Mas, entre tudo e nada, há muita coisa, e a cristã, chegada a hora de escolher ou aceitar, deve saber quem a solicita e exigir dele o mínimo que a possa tranqüilizar.

Saber quem a solicita! Conhecer a quem ela se entrega! Que vale ele, moral e religiosamente falando? Oferecerá algumas garantias de felicidade? Casando-se com ele, a fé correrá algum risco? A piedade ficará comprometida? É ele honesto ou não? Trabalhador ou não? Sobre que bases se organizará a educação dos futuros filhos? O lar comum terá probabilidades de conservar intacta a fidelidade?

Numa palavra, para onde irá ela na companhia dele?...

Muitas vezes os pais mostram-se indiferentes a tais questões. Já consideraram o peso da carteira do pretendente e chegaram à conclusão de que ele é “um bom partido”. Mas isso não deve bastar à jovem ainda livre. Porque é ela quem se casa, é ela quem será feliz ou infeliz, é ela quem carregará o fardo pesado ou leve, ela quem viverá depois que seus pais morrerem. Poderão eles impor-lhe um fardo que não terão de suportar com ela? O rapaz lhes agrada, está bem. Mas é preciso que ele também agrade à filha... Não poderão, pois, forçar seu consentimento, nem censurar suas reflexões, nem recusar o direito de recusar.

O casamento não é um idílio, nem um romance de uma hora, nem um negócio.

Pelo casamento a jovem se entrega. Cristãmente falando, entrega-se sem compensação. Mesmo que os pais, os interesses, a opinião mundana, seu próprio coração diga “sim”, se sua consciência disser “não”, será “não” o que deve ser dito. Melhor será salvar a alma do que ter um marido. Melhor será entrar como solteirona no Paraíso do que ser atirada, casada, ao Inferno.

Ora acontece que com esse casamento a jovem compromete sua saúde. É um pecado. Quantas o cometem! Quantos pais, os primeiros culpados, por ele responderão!

Pelo aprendizado de virtudes que nele devem ser praticadas

A mulher cristã deve ser trabalhadora

Ela o deve ser antes, porque, depois, poderá não vir a sê-lo. O hábito de nada fazer adquire-se num instante e muito custa perdê-lo. Enquanto está em casa de seus pais, a jovem deve procurar criar-se um temperamento de trabalhadora que fará dela, uma vez casada, a dona da casa segura, exata, conscienciosa, que aproveita suas folgas em vez de desperdiçá-las.

A mulher cristã deve ser séria

Por acaso torna-se alguém sério somente com a promessa de vir a sê-lo algum dia? A experiência diz que não. Sem dúvida, com o tempo, alguns se modificam. Muitas vezes, a uma juventude leviana sucede uma maturidade sisuda. Mas essa é uma sorte que nem todos têm e não constitui um princípio. Cantando, a cigarra aprende a cantar; dançando, a gazela aprende a dançar. A uma jovem leviana geralmente sucede uma mulher leviana. E porque não? É normal. As conversões repentinas são raras. Fica-se sendo o que se faz anteriormente. Troca-se de nome, mas não se troca de alma. Denomina-se “senhora” aquela que não passa de uma garota.

A mulher cristã deve ser uma amorosa

O que, na prática, significa uma devotada, o contrário de uma egoísta. Tanto os maridos como os filhos terão muitas vezes direito a seus cuidados, algumas vezes a suas fadigas, algumas vezes aos seus enormes sacrifícios, mas sempre à sua vigilante atenção.

Uma jovem que se preocupa (só) consigo, como e quando será a mulher que se preocupa com os outros? Conta-se com o instinto materno que surgirá com o nascimento dos filhos. Atenção! Essa geração espontânea, esse repentino crescimento de dedicação num terreno em que impera o egoísmo, não é nada certo. Será mesmo prudente prevê-lo?

Mas a jovem pode aprender a esquecer-se de si mesma quando lida com seus pais, com seus irmãozinhos, com suas amigas. Se ela não tiver essa coragem hoje, como a terá amanhã? Isso equivaleria a ceifar em sulcos onde nada foi semeado e, com voz falsa, ambicionar o êxito dos artistas da Ópera...

A mulher cristã deve ser fiel

Senão, que será ela?... Respondam.

Fiel! Isso quer dizer que mantém sua promessa, que conserva seu coração para o único, que ele pode confiar nela, pois não ouve os apelos da rua, que caminha pelo seu braço sem voltar a cabeça, que nenhum outro nome que não o seu é lido em seus olhos, que triunfa da monotonia da vida íntima sempre igual, que o cansaço jamais a domina.

Sendo fiel, a jovem torna-se capaz de ser a mulher fiel. Não se diverte com o coração, não multiplica o “flirt”, não muda de amizades, não borboleteia, entre seus quinze e vinte anos, de uma flor para outra, de uma confissão para outra. Assim se mantém durante alguns anos, para ficar certa de que assim se poderá manter por toda a vida.

A mulher cristã deve ser forte

Como mamãe, para os filhos que têm necessidade de que ela o seja, como esposa, para o marido que nem sempre o é.

Em caso de necessidade, ser-lhe-á preciso sem queixar-se, sorrir com olhos enquanto o coração chora. Outras vezes, quando o dever o ordenar, ser-lhe-á necessária a força de resistir à tentação grave, de manter a energia da moral católica, de não se prestar a imperdoáveis compromissos.

Em matéria de educação, ser-lhe-á indispensável a força de querê-la e praticá-la cristãmente. Daí surgirão, talvez, conflitos, cenas, lutas, desacordos. Força delicada da haste que verga sem se quebrar, força real do carvalho que nem chega a vergar-se.

Força de alma nas provações habituais. Uma noite, é a mulher que apóia a cabeça ao ombro do marido. Mas uma outra noite é o marido quem apóia a cabeça ao ombro da mulher.

Fortaleza de Suzana às voltas com os dois velhos. Fortaleza de Felicidade diante dos injuriadores de Deus. Fortaleza de Maria aos pés da Cruz.

A vida, para ser bela, exige tudo isso de uma jovem. À falta desta fortaleza, quantas não se arruinaram e permaneceram impotentes, desencorajadas, cansadas do grande cansaço das vencidas!...

Durante a juventude aprende-se a ser forte. Não faltam ocasiões. E já seria alguma coisa a força unicamente adquirida com a luta contra os caprichos e paixões para manter-se à altura do dever cumprido. Mas a jovem que se entrega, pronta a qualquer covardia, submissa ao jogo da vida, incapaz de uma decisão firme, comprando um doce todas as vezes que passa por uma confeitaria, dançando todas as vezes que houver um baile, aborrecendo-se todas as vezes que surgir uma contrariedade, só sabendo pronunciar “talvez” e “se assim o quer”, que será feito dela, qual folha atirada ao vento, quando, como esposa e mãe, o vento sul abalar a casa ou, mais simplesmente ou menos dificilmente, a tarefa cotidiana lhe impuser uma reserva extraordinária de coragem?

A mulher cristã deve ser uma condutora para Deus

Durante um tempo, ela trará seus filhos em seu seio, mas para sempre trará a alma deles na dela. Sua alma e a alma do pai, que é seu marido.

Ela, exemplo vivo, educadora responsável, não tem esses filhos se não para, à frente deles e levando-os pela mão, conduzi-los a Deus, que os espera. E ela deve querer conduzi-los a tais alturas, sob pena de se diminuir.

É a isso que chamamos “o ser apostólico”, “praticar o bem”. É, simplesmente, ser uma verdadeira cristã.

E existem muitas que assim o façam? A resposta consoladora ou não, em nada modifica o belo dever. Se muitas o fazem, que ela lhes aumente o número. Se existem poucas, que seja ela uma a mais. E, se não existir nem uma, ela que se torne ou a primeira ou a única.

Mas só se pode dar aquilo que se tem. E tem-se o que se recebeu, ganhou ou conquistou. Aquela que, com dezoito anos, se desinteressa da alma de seus pais, se interessa pouco pela ama de seu noivo, se interessará superficialmente pela alma de seus filhos, com o risco ou a probabilidade de não se interessar de modo algum pela alma de seu marido.

Adquirir para ter. Tornar-se para vir a ser. Preparar-se para estar pronta. Essa é que é a lei. O vestido nupcial e o enxoval são feitos de pano. A fazenda é feita de fios entrelaçados. O fio de linho germinou da terra e o fio de seda não caiu da lua em noite de outono. Tudo tem sua origem longínqua. O que existe foi feito.

A jovem que pensar em tudo isso no momento de vestir seu traje nupcial e de preparar seu enxoval aprenderia uma preciosa lição. Aplicada ao casamento, significa que também ele, como a fazenda do enxoval e do vestido está feito de tudo que se leva e que foi lenta e piedosamente armazenado no bendito cantinho das reservas de valor.

Dentre as mulheres, foram as que teceram para a vida a mais linda vestimenta, o mais rico enxoval, as que, como jovens, no tempo da preparação, fio por fio, praticaram o trabalho, a seriedade, a fidelidade, o amor, a dedicação, o apostolado e, com o cruzamento de todos esses fios, teceram a tela indestrutível do casamento cristão.

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Religiosa)

PS: Grifos meus.

Aos devotos de Santa Filomena (10 belas imagens da Santa)

Aos devotos de Santa Filomena
10 belas imagens da Santa











quinta-feira, 12 de maio de 2011

Os últimos traços do semblante: Pai, perdoai-lhes

Os últimos traços do semblante: Pai, perdoai-lhes


Foi do seio turbulento daquelas zombarias que se elevou, doce e vitoriosa como um incenso em meio aos acres vapores do holocausto, a primeira palavra do Cristo na Cruz. A horrível crucifixão acaba de ser concluída, o patíbulo está ereto, é o momento em que todo o corpo, suspenso de chagas, experimenta a mais intensa dor. Reina desordem no Calvário: gritos, ameaças, soluços, maldições cruzam-se como setas em torno daquele semblante.

Foi então que daquela boca contraída escapou este grito: “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”.

São os últimos traços do semblante do Senhor que se perfazem. Assim como, no momento de entregar o seu quadro, o pintor se concentra e, nos derradeiros toques do pincel, faz passar o resto e o supremo do seu ideal, assim também a Bondade divina termina a Sua obra difundindo-se em tintas mais profundas sobre todo o semblante do Cristo.

Pai, perdoai-lhes!” É uma prece, é um ato de humildade também: o Filho que tudo pode suplica ao Pai que perdoe; em verdade, não podia Ele próprio perdoar? É, ademais, uma doçura que desculpa, que atenua, que procura o que há de bom e de menos mau nos culpados, para justificar o perdão: porque importa que esse perdão seja justificado, tanto a delicada bondade de Deus receia magoar poupando e humilhar absolvendo.

Eles não sabem o que fazem”. Como haveriam de sabê-lo, aqueles homens habituados àquela tarefa? Era acaso o seu primeiro crucificado? Será o último?

Nada deve parecer mais indiferente do que o algoz. Ele mata indistintamente, como outros compram, vendem, edificam e traficam; aquilo se torna uma função da sua existência. Acaba ele, pois, por matar com insensibilidade.

Assim faziam os algozes de Jesus: batendo a golpes redobrados naquelas mãos que se crispam, naqueles pés que se retraem de dor, eles pensam nos proventos que vão tirar da sua rude tarefa, têm o olho no rosto no vaso de vinho que lhes pagará o suor, e no monte das vestes da vítima que eles vão repetir entre si. É preciso dizer todas as coisas como devem ter-se passado.

Meu pai, Vós bem o vedes, eles não sabem o que fazem”.

Os próprios sacerdotes, os anciãos e todo o povo que moteja também ignoram, não sabem. São Paulo (I Cor 2,8) di-lo-á mais tarde: se eles tivessem conhecido que aquele era o Deus de glória, nunca O teriam crucificado. Mas não conheceram, crucificaram-nO mesmo por se haver Ele dito o Messias: logo, é que Ele não o era mesmo.

Matando-O, pretendem eles, ao contrário, render preito à verdade, restabelecer tudo na ordem, confundir a impostura e salvar o povo de perigosa credulidade: “Pai, perdoai-lhes a todos, verdadeiramente eles não sabem o que fazem”.

Nem tampouco aqueles soldados sabem o que fazem, aqueles que, sentados aos pés dos três patíbulos, esperam pelo fim, calejados que estão de convulsões de supliciados e dos estertores daquelas cruéis agonias. – “A eles também, Pai, dignai-Vos de perdoar, porque são ignorantes e não conhecem”. Assim aquela voz do alto, qual orvalho que se esparzisse em derredor, lança sobre todas aquelas almas rancorosas ou indiferentes a doçura e o frescor do perdão.

Esta palavra já nos mostra as culminâncias do Cristo. É a superioridade da bondade. No declínio da sua vida humana, quando Ele sente tudo ceder em torno de Si, a Sua bondade sobe ao ápice como um sol que dardeja ainda sobre ruínas, e o Seu primeiro raio de luz é um perdão universal.

A humanidade, que ficou sendo a mesma, tem sempre necessidade desse perdão. Elevemos, pois, os olhos para essa radiação da bondade indulgente que forma a última e sublime expressão do semblante de Cristo.

Perdoar: poucas palavras há que sejam a um tempo mais perturbadoras e mais consoladoras para o coração do homem.

Perdoar: parece que poucos atos nos sejam tão difíceis, tanto nos custa, decaídos como somos, sermos bons. Aos olhos do mundo, quem perdia facilmente é um fraco: a honra interessa-lhe pouco, nada de grande há que esperar dele.

Em compensação, quem não perdoa sabe fazer-se respeitar, temem-no: é a fórmula do poder pagão: oderint dum metuant, que me odeiem pouco me importa, contanto que me temam. Bem o sabia Jesus Cristo, e foi por isto que Ele quis que a Sua primeira palavra de crucificado fosse uma expressão de perdão.

Nós não perdoamos facilmente porque, no fundo, nos custa compreender que entre homens do mesmo sangue, irmãos pelo destino, unidos pelos mesmos instintos, possa haver essa cruel desunião que se chama o ódio: ao menos é uma homenagem prestada à fraternidade do gênero humano.

E tão verdade é isto, que, quanto mais próximos somos pela família, pelas afinidades e pelo sangue, tanto mais difícil se torna o perdão. Que de mais áspero, às vezes, nos seus rancores do que dois irmãos que sugaram o mesmo leite, amaram a mesma mãe, e cujas vidas se haviam entrelaçado como os ramos de uma virente e mesma vida?  Abismo insondável do coração humano.

Não perdoamos, ainda, facilmente, porque não motivamos os nossos perdões. Cumpre, entretanto, procurar a circunstância atenuante: creiamos que ela lá está. Bem a descobriu Jesus que o crucificavam. Está nisto todo o trabalho divino da caridade. O homem é melhor, no fundo, do que parece; há poucas almas, por mais perversas que sejam, que não tenham ocultas algumas fibras sensíveis. É até estas que deve descer a caridade: é mister ir buscar o verdadeiro homem muito ao fundo, para aí o amar.

Mas, para podermos executar essa obra laboriosa, temos primeiramente que nos elevar e dizer: Pater, pai! Só então saberemos abaixar-nos para dizer: Irmão. Assim também, à medida que nos formos alteando, iremos vendo os óbices à união minguarem, e aquilo que nos pareciam montanhas perder-se aos poucos e confundir-se na linha da planície. Quais os que, no fim da sua vida, não enxergam haverem, muitas vezes, exagerado o seu ódio ou o seu amor?

Era meditando ao pé daquela Cruz, era recolhendo essa suave palavra, que os santos sentiam a alma se lhes fundir de indulgência. Um coração bom é um coração para o qual Deus é bom: mas Ele o reconhece, e então dá daquilo que recebe.

O último raio de luz da santidade é a bondade, a que dá e, sobretudo a que perdoa. Nunca quando imita essa divina prerrogativa, e é por isto que o perdão das injúrias opera às vezes tão depressa a transfiguração e adapta tão bem o semblante da criatura ao do Criador, que a semelhança é completa. Ora, não há serem salvos senão os que forem achados parecidos com Jesus Cristo, e com Jesus Cristo crucificado.

Oh! quando Ele inclinar sobre o nosso leito de morte a cabeça lânguida e coroada de espinhos, e quando murmurar com os lábios frios: - Pai, perdoai-lhe!... apressemo-nos a inclinar-nos sobre a nossa própria vida, antes que ela finde, sondemos, esmerilhemos o nosso passado, para descobrir nele algo que tenhamos a perdoar.

Felizes nós se pudermos achá-lo, para que possamos com segurança murmurar por nossa vez: - Assim como eu perdoei, meu Deus, dignai-Vos de perdoar-me!

Se nada encontrarmos, formulemos mesmo assim esse desejo de suprema indulgência, esse desejo de tudo atenuarmos, de sermos bom, supinamente bom no nosso declínio, a fim de entrarmos, da outra banda, na aurora eterna com o verdadeiro semblante que perdoou.

Quando, no cimo do Calvário que começa a escurecer ligeiramente, caía essa palavra sublime, era um pouco depois da sexta hora. Bem diversamente impressionou ela quantos a ouviram.

Maria foi a primeira a distingui-la; ainda quando fora só um respiro, o Seu ouvido de Mãe, que estava como que colado à boca do Filho, tê-lo-ia recolhido. Mesmo compreendendo aquela sublime generosidade... – ela era nossa Mãe, Jesus vai proclamá-lo dentro em pouco, - Ela não se sentiu menos dolorosamente comovida... pensando nesse perdão divino lançado naquele cimo árido sobre tantos corações mais áridos ainda, e nesse apelo de amor que, com a continuação dos tempos, devia repetir-se, tantas vezes ressoar inútil e sem resposta.

Também Madalena deve ter ficado surpreendida: mas, depois de baixar os olhos sobre si mesma e de rever todo o seu passado, compreendeu, exultou de compreender... e que ósculo de gratidão não devia ela imprimir naqueles pés sangrentos enquanto se elevava a sublime prece, eco do seu próprio perdão: - Pai perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem!...

João, as santas mulheres ficaram suspensos: aquilo era demais. Os soldados também não compreenderam; nunca semelhante palavra vagara nos lábios das suas vítimas comuns. Os Judeus e os fariseus, se a ouviram, aumentaram com ela os seus risos zombeteiros e os seus sarcasmos vergonhosos.

Só um homem, que blasfemava ao lado mesmo do Cristo que perdoava, foi ferido como que por um golpe certeiro, irresistível e vencedor.

Calou-se subitamente, olhou estupefato para aquele ente singular: era um dos ladrões.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: Segunda palavra: O bom ladrão.)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Vocês e vosso futuro

Vocês e vosso futuro


Quando ainda pequenas, vocês procuravam, entre suas companheiras, adivinhar o futuro, enquanto desfolhava com os dedos os mal-me-queres.

E assim contavam:

“Eu te amo... um pouco... muito... nada...

“Irei... para o céu... para o purgatório... para o inferno...

“Ele (o marido)... será grande... médio... pequeno...

“Ficarei casada... religiosa... solteirona...”

E sempre contavam de três em três, como as folhas do trevo.

Casada... religiosa... solteirona!

E não há outra escapatória! A menos que você morra cedo (o que não espero que aconteça), será voluntariamente ou a força: ou casada como santa Isabel – com o avental cheio de rosas; ou religiosa como santa Teresa – com o véu, ou solteirona como santa Catarina – com seu chapéu.

Qual é o mais glorioso dos três; o avental? O véu? Ou o chapéu? Esta é a situação a ser resolvida. Antes de tudo, porém, é preciso que você saiba que uma das três você deve escolher e, caso ainda não esteja em condições para fazer essa escolha, por uma delas se deve decidir e resignar-se.

Não existe uma quarta porta por onde entrar para enfrentar a vida. Nem tão pouco um quarto caminho a percorrer na vida. Com a graça de Deus, os três caminhos podem conduzir ao Paraíso e, do mesmo modo, os três caminhos podem levar ao cemitério...

Casada

Existem sinais desta vocação?

Não é necessário que existam, porque é a vocação mais comum, aquela para qual a natureza chama, quando não há outra indicação. Normalmente, é para ela que a vida leva. Deus quer que a humanidade perdure, que as gerações se sucedam até que esteja completo o número dos eleitos. E, porque o deseja, quer que exista o amor que a ela conduz e o casamento que a realiza.

Se, pois, uma jovem não traz consigo os sinais de uma vocação religiosa; se não possui defeitos físicos ou morais que obriguem a abster-se; se obrigações de família não a convidam, num sacrifício generoso, a renunciar ao seu grande amor humano; se não sente para o matrimônio seus encargos e suas surpresas, uma repugnância difícil de vencer; se, de um modo ou de outro, não tem a certeza de que Deus a chama para praticar a virgindade no mundo por meio das obras sociais; pode-se dizer que esta jovem foi feita para o casamento.

Mas isso não quer dizer que ela deverá casar-se sem mais nem menos, porque, para que haja casamento, é preciso que haja dois. É preciso, pois, que exista um segundo que a queira e a escolha.

De antemão, que pensar do casamento?

1º- É preciso acreditar na sua grandeza

Uma jovem nunca deve rir do próprio casamento nem do casamento de uma de suas companheiras. Nunca deve referir-se a eles de um modo leviano. Nunca deve ridicularizá-lo.

Porque nunca se deve ridicularizar o que é nobre, e o casamento o é.

Jesus Cristo refere-se a ele com respeito. São Paulo refere-se a ele religiosamente e, para a Igreja, é sacramento.

Sem dúvida os que zombam de tudo que existe, também zombam dele. Mas quem são eles? Que valem? Será a essas pessoas que se deve pedir explicações? É de acordo com elas que se deve formar o juízo?

É pelo amor que se realiza o casamento. Ora, o amor, para quem o conhece, é uma sublime realidade. Tanto pior para quem o insulta!

É por meio do casamento que nascem as crianças. Ora o nascimento de uma criança é o nascimento de uma alma imortal, a mais emocionante criação que existe.

É no casamento que as crianças se criam, se educam, que seu futuro se orienta, que se prepara seu destino terrestre e eterno. E, por acaso, isso nada representa? Se não for nada de importante, que será então?

Uma jovem que se refere ao casamento de um modo pouco lisonjeiro dá uma péssima impressão de si mesma. Demonstra o quanto é incapaz e indigna! Se mais tarde, uma vez casada, só encontrar em seu estado civil humilhações e escravidão, e o casamento zombar dela como ela também o fez um dia com ele, quem se espantará? Ela tem o que merece. Foi castigada por seu próprio pecado.

Uma das infelicidades de nossos tempos, digamos melhor, uma das suas tristezas, é a incrível facilidade com que os jovens falam do casamento, como falariam da queda de uma fruta do seu pomar. Para elas, uma “toillete” é mais importante que um casamento! Um baile tem mais importância! A escolha de um marido é menos grave do que a escolha de um batom que se vai comprar numa perfumaria...

Essas jovens não são cristãs. Como hão de ser tão inconscientes para diminuírem a importância de uma coisa tão grandiosa!

- É preciso pesar os deveres

Os deveres do casamento são graves

No casamento não se faz o que se quer. Ele não é realizado como bem se entende. Deve ser feito de acordo com a vontade de Deus e realizado conforme Ele prescreveu.

Mas também a natureza tem seus direitos sagrados. Deus tem suas intenções, que é preciso conhecer, para com elas nos conformarmos.

O casamento deve ser mantido pela dignidade moral

Não é um rótulo novo cobrindo uma mercadoria suspeita. Não é o consentimento de tudo fazer, tudo ousar, como se tivesse o poder mágico de transformar o mal em bem. Não é o sacrifício, aceito pela jovem, de sua pureza, de seu pudor, de sua delicadeza íntima. À sombra do sacramento não é a vida de pecado sucedendo à vida intacta. No casamento, a alma deve prosseguir em sua vida nobre; a consciência conserva seus direitos e mantém seu prestígio. Para que, depois do casamento, a jovem esposa não venha a lastimar a moça que era, é preciso que, antes do casamento, a moça não se envergonhe da mulher que será.

O casamento é uma longa prática da fidelidade

A promessa feita diante do altar, no momento da troca das alianças, tem longa duração. Dura enquanto durar a vida do outro cônjuge. Num sentido, dura até a eternidade.

O amor que se inicia nesse dia deve querer ser definitivo. Não é como a folha da primavera que a gente se resigna a ver cair logo no iniciado o outono. É a folha eternamente verde das árvores sempre vivas.

A dizer verdade, é uma fidelidade bem rigorosa! Tão difícil! Tão ameaçada! Tão entregue à sedução dos maus! Tão exposta nos encontros imprudentes da vida mundana! Tão espreitada, nas esquinas, pelo prazer que atrai, pelos amores que se oferecem! Talvez tão esmagadora quando a alma, cansada do próprio esforço, esgotada pelas decepções, percebe que seu amor é incompreendido ou traído, que seu mérito não é reconhecido, que ela sempre dá sem nada receber, que, sozinha, carrega os grilhões de que o outro já se desvencilhou e que agora, tristemente, desoladamente, a fidelidade dos dois se transformou na fidelidade de um só...

O casamento é um dever de sinceridade

Se não se mente ao contratá-lo, não se deverá mentir ao praticá-lo.

Não se trata de salvar as aparências nem de, sob um manto cuidadosamente estendido, encobrir hipocritamente os adultérios do coração. Deus olha. Ele de tudo sabe. Ele sabe se se ama de fato ou se simula um amor que não possui. Ele sabe quando o coração não diz “sim” as confissões dos lábios. Ele sabe para onde se dirigem secretamente os sorrisos, os desejos íntimos, os olhares furtivos, os pensamentos habituais.

A mulher cristã deve a Deus, a seu marido, deve a si mesma a obrigação moral de não brincar com coisa tão séria e, por muito que lhe custe, deve manter-se leal ao seu amor, defendendo-se contra a tentação contrária.

O casamento é uma dedicação que perdura

É uma dedicação porque traduz amor.

Que é amor? Será sorrir? Entregar o lábio para um beijo? Procurar-se? Sentir-se feliz com o encontro? Bastar-se um ao outro? Não, se pára aí. Sim, se lhe adiciona outra coisa.

Outra coisa que é essencial.

Amar alguém é querer vê-lo feliz, legitimamente feliz. É tudo fazer para que assim seja. Tempo, dinheiro, sorrisos, cuidados, cansaço, sono, saúde, alegria, vida, quem ama dá tudo isso para que o outro se sinta feliz.

Praticamente, e, se tratando de amizade, de amor maternal, de amor conjugal, amar é dedicar-se, é ser capaz de se dedicar indefinidamente, variando a medida da dedicação com a medida do amor.

O casamento é uma enorme responsabilidade

No casamento, a mulher, que é esposa, é parcialmente responsável por seu marido.

A ela cabe o cuidado de sua alma. Deus pedir-lhe-á contas dos conselhos que eficazmente ela lhe poderá dar, do exemplo vivo que ela deverá ser para ele.

Para o homem, a vida é difícil. Ele paga caro sua integridade moral. Tem que lutar contra si mesmo, sofrer concorrência em matéria de negócio. Muitas vezes o mutismo em que se encerra é sinal de angústia. Seu mau humor indica preocupações. Existem suores no pão que se come em casa.

Religiosamente falando, pode lhe ser árdua a missão. Absorvido, cansado, arrastado, tem fraquezas de criança, que devem ser protegidas.

À esposa cabe defendê-lo, consolá-lo, ajudá-lo, guiá-lo. Ela deve ser uma alma amante ao lado de sua alma esgotada; uma consciência vigorosa ao lado de sua consciência tentada; um coração puro ao lado se seu coração perturbado. “Alegria repartida, alegria dobrada; dor repartida, dor dividida.

No casamento, a mulher, quando mãe, é parcialmente responsável por seus filhos.

Crescidos nela, dela nascidos, educados primeiramente e, sobretudo por ela, são sua mais nobre missão. Ela os conserva perto de si, não como um enfeite a acariciar, nem como um quadro a ser admirado, nem como uma suave presença que delicia, nem como uma semelhança de si própria, que encanta, nem como uma planta que cresce e cuja flor se guarda. Ela os tem como uma planta a ser cultivada, a ser regada, a ser guiada, a ser cuidada. Ela os tem como a um mármore a ser esculpido, como a uma frágil alma cuja saúde deve ser vigiada. Tem de ensiná-los a conhecerem a Deus, a receberem a Cristo, enfim, formar-lhes uma consciência e um coração. Tem de criá-los com um longo e doloroso esforço até que, cientes da própria força, não mais tendo tanta necessidade dela, sejam capazes, por sua vez, de viver “sua vida” e de tomar sobre si mesmos as responsabilidades que até então pesavam unicamente sobre ela.

No casamento, a mulher, quando esposa e mãe, é inteiramente responsável por seu lar.

O lar é um recanto de pedra que se deve tornar agradável, acolhedor, fechado aos indiscretos e malfeitores.

Quando chega a noite dos dias laboriosos, é o seguro refúgio dos corações de vinte anos, ardorosos e tristes, e dos corações de quarenta anos, sonhadores e graves.

O lar também é uma alma, um ambiente de ternura, de pureza, de alegria e de paz, a ser criado para que o marido e os filhos se sintam bem vivendo nele. Tudo isso não passa de palavras, dirão vocês!... Não, não são meras palavras, mas sim coisas verdadeiras...

Bem que existe a alma de um lar. A prova está no fato de jovens seres ficarem mortalmente feridos por crescerem em determinadas casas onde reina uma mulher, leviana ou má, e que nela espalha os germes suspeitos.

A alma do lar é obra da esposa. Digamos melhor, a alma do lar é a alma da mulher.

Com quanto orgulho deve pensar nessas coisas!
Quanta honra para ela! Mas, também, quanta angústia!

E é assim.
Que concluir?

As covardes concluirão: “Se o caso se apresenta assim, nunca me casarei”. Mas esquecem-se de que o casamento também tem suas alegrias; que, se se auxilia, também se recebe auxílio; se se ama, também se é amado; se se dá, também se recebe.

Esquecem-se principalmente de que as responsabilidades, que são um encargo, também são um estímulo e, para uma cristã, a grandeza de ser mãe e esposa vale bem o sacrifício de aceitá-las corajosamente e entregar-se a elas com confiança.

As generosas concluirão: “Se é essa a questão, não é um motivo para que não me case, mas um motivo para que, quando me casar, o faça seriamente e, enquanto espero, me preparo para ele.”

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Como preparar-se para tal ato?)

PS: Grifos meus.

O Coração de Maria e os Novíssimos

O Coração de Maria e os Novíssimos

           
A mensagem de Fátima manifesta o que chamamos os “novíssimos” do homem. A morte, por exemplo, se mostra como um fato inevitável, e as preocupações em torno a esta realidade adquiriam então uma gravidade especial em razão da guerra que causava tantas mortes: “Jacinta, em que pensas? E não poucas vezes respondia: “Nessa guerra que deve vir, em tanta gente que vai morrer e ir ao inferno. Que pena! Se deixassem de ofender a Deus não viria a guerra nem iriam ao inferno”.
           
O dogma do Purgatório nos é apresentado também de uma forma tremenda, no caso de uma tal Amélia: “Então me lembrei de perguntar por duas moças que tinham morrido fazia pouco tempo. Eram minhas amigas e iam à minha casa para aprender a ser
tecelãs com a minha irmã maior:

- A Maria das Neves já está no Céu?
- Sim, está. (Parece-me que devia ter uns 17 anos)
- E a Amélia? 33
- Estará no Purgatório até o fim do mundo. (Parece-me que devia
ter de 18 a 20 anos)”.
           
Mas se a morte e o Purgatório aparecem desta maneira tão viva nos relatos de Fátima, sem dúvida é o dogma do Inferno o que ocupa um lugar importante, especialmente nas experiências místicas dos videntes, e ainda de um modo mais impressionante na sensível alma de Jacinta: “Nossa Senhora nos mostrou como que um mar de fogo. Mergulhados nesse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao  cair das fagulhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa”.
           
As crianças tinham já recebido um primeiro ensino de Lúcia. Jacinta lhe pergunta: o que é o inferno? E Lúcia responde como pode: “- É uma cova de bichos e uma fogueira muito grande (assim me explicava minha mãe) e vai para lá quem faz pecados e não se confessa e fica lá sempre a arder.

- E nunca mais sai de lá?
- Não.
- E depois de muitos anos, muitos anos?!
- Não; o inferno nunca acaba. E o Céu também não. Quem vai para o Céu nunca mais de lá sai. E quem vai pra o inferno também não.
- Não vês que são eternos, que nunca acabam?
           
Fizemos, então, pela primeira vez, a meditação do inferno e da eternidade”.
          
Lúcia se perguntava: “Como é que Jacinta, tão pequena, se deixou possuir e chegou a compreender um espírito tão grande de mortificação e de penitência?” E achava a resposta assim: “Parece-me que foi, primeiro, por uma graça especial que Deus quis lhe conceder por meio do Imaculado Coração de Maria. Segundo, pondo seu olhar no inferno e na desgraça das almas que caem ali. Algumas pessoas, mesmo as piedosas, não querem falar às crianças sobre o inferno para não as assustar. Deus, no entanto, não duvidou em mostrá-lo a três crianças, e uma de apenas seis anos, ainda sabendo que se tinha de horrorizar tanto que quase ia morrer de susto”.
          
Mas não só o inferno: o Céu entra também na mensagem de Fátima com a alegria de uns simples e inocentes pedidos infantis. Nossa Senhora responde a Lúcia que lhe pergunta de onde vem: “Sou do Céu”. E já na primeira aparição a Virgem Maria promete o Céu aos seus pequenos interlocutores, depois das perguntas interessadas, mas simples, de Lúcia:

“- E eu também vou para o Céu?
- Sim, vais.
- E a Jacinta?
- Também.
- E o Francisco?
- Também, mas tem que rezar muitos Terços”.
           
Nas últimas despedidas entre Lúcia e seus primos se estabelece um emotivo diálogo: “Chegou, por fim, o dia de partir para Lisboa. A despedida cortava o coração. Permaneceu muito tempo abraçada ao meu pescoço e dizia, chorando: - Nunca mais nos tornaremos a ver! Reza muito por mim, até que eu vá para o Céu”. Francisco diz com toda a naturalidade: “vou para o Céu”. O mesmo dizia Jacinta: “Eu vou para o Céu”. E, apesar desta certeza da salvação, as crianças continuam a sua vida de fé e de esperança como se não tivessem recebido uma graça tão grande. Deste modo até parecia que o Céu estava ao alcance das mãos: as recomendações para o Céu eram feitas como se tratasse de uma região conhecida, onde moram familiares nossos: “Saudações a Nosso Senhor e a Nossa Senhora; e dizei-lhes que sofro tudo o que queiram pela conversão dos pecadores e em reparação do Coração Imaculado de Maria”.

(Retirado do blogue: Escravas de Maria)