terça-feira, 5 de abril de 2011

Acerca da imodéstia

Nota do blogue: As publicações dos capítulos desse livro não serão seqüenciais. 

Décimo terceiro dia


Acerca da imodéstia

I- Que vergonhosa coisa, ó Minha filha, que é a imodéstia! Quem vive puro de toda a mancha dos sentidos, assemelha-se aos anjos que são espíritos puríssimos! Por isso as virgens, as almas castas, são chamadas anjos em carne. Pelo contrário, quem não vive casto, assemelha-se aos irracionais que se deixam governar unicamente pelo brutal instinto dos sentidos.

Por isso os homens impuros são pelo Espírito Santo comparados a um cavalo indomável que não têm nem inteligência nem razão. Ainda mais, quem vive casto não é somente semelhante aos anjos, possui ainda alguma coisa de mais precioso, porque os anjos são puros por necessidade de natureza, enquanto que o homem que é puro é-o por virtude.

Da mesma sorte os homens impuros são de pior condição que os irracionais porque estes são impuros por natureza e não por sua culpa, enquanto que aqueles não o podem senão por vício.

Ora, como é mais gracioso chegar a ser anjo por virtude que sê-lo por natureza, do mesmo modo é mais vergonhoso tornar-se irracional por vício que sê-lo por natureza. Tal era, ó Minha filha, o embrutecimento que já em seu tempo Davi deplorava com amargura, dizendo:

- O homem criado por Deus num estado de honra e glória, não tem cumprido a sua alta dignidade; avilta-se até se pôr na qualidade de besta de carga estúpida, e tornar-se-lhe semelhante.

Abominação horrível! Tornar-se igual aos brutos depois de ter sido criado por Deus à Sua imagem e semelhança! Ó Minha filha, reconhece, Eu vos te rogo, a nobreza da tua condição, e aplica-te fortemente a sustentar-te nela. Ama a pureza, que enobrece tanto, que é como um lírio brilhante de alvura derramando em torno de si um delicioso perfume; a pureza apraz a Deus, e é, sobretudo por causa dela que Eu fui querida Sua e que mereci chegar a ser Sua Mãe; foi ela para mim dum tão grande valor, que teria renunciado primeiro a uma tão alta dignidade, do que sofrer nessa virtude o mais ligeiro golpe.

IINão somente Deus te criou à Sua imagem e semelhança, mas fazendo-te nascer no seio da Igreja te santificou pelo batismo que extinguiu da tua alma a nódoa com que o pecado a tinha manchado. O espírito impuro que nela tinha tomado posse foi expulso pela virtude divina, e cedeu o lugar ao Espírito Santo.

A tua alma tornou-se o templo vivo de Deus, o teu corpo um vaso de honra, os teus membros os membros de Jesus Cristo, Meu Divino Filho. Tu estás, portanto feita herdeira do céu, irmã dos anjos, e querido objeto das atenções de Deus.

Mas, ó Minha filha, uma só imodéstia te priva de tantos privilégios. Ai! É mais que verdade que aquele que se abandona a um vício tão abominável, mancha a sua alma com as nódoas mais vergonhosas, renuncia ao céu e à qualidade de filho de Deus, expele do coração o espírito do Senhor, para introduzir nele o espírito imundo, transforma o corpo num vaso de ignomínia e os membros de Cristo em membros de pecado. E por quê? Por um prazer vergonhoso que apenas gozado desaparece, envenena a alma, enche o coração de amargura, perturba a consciência por implacáveis remorsos. Irrita tanto a Deus, que tem esse vício em mais abominação que todos os outros, ainda que os deteste todos, e castiga-o mais severamente que todos os outros.

Não vês tu, ó Minha filha, um exemplo no fogo que caiu do céu sobre Sodoma e Gomorra, e no dilúvio que submergiu toda a raça humana no tempo de Noé? Contudo estes exemplos nada são comparados aos suplícios que a justiça de Deus irritado tem preparado no inferno para castigar uma tão grande infâmia. Teme, pois, ó Minha filha, mais que a morte, tudo o que pode denegrir o lírio da tua pureza e tornar-te abominável aos olhos de Deus.

IIIMas dize-me, Minha filha, que precauções tens tu tomado até ao presente sobre um ponto tão delicado? Aquele que possui uma pérola de um preço incomparável põe todos os seus cuidados em guardá-la, sobretudo, se está rodeado de numerosos ladrões. Ora aqueles que armam laços à tua pureza são inumeráveis. Os sentidos, as paixões, os desejos desregrados, a beleza do rosto, a elegância do corpo, os adornos, expõem-te cada dia, bem o sabes, o perigo de perdê-la. Além desses laços armados em tua casa, encontras uma multidão doutros por fora; as modas, os espetáculos, as conversações, os costumes dum modo corrupto, as falas pouco reprimidas, as palavras pouco decentes das tuas companheiras, os seus maus exemplos, as maneiras afetadas, as vaidades, as amizades, os jogos, as adulações, as fingidas promessas de falsos amigos e suas freqüentes visitas. De que maneira preservarás tu, no meio de tantos laços armados ao teu pudor, se não fores prudente, se não fugires deles como se foge à maior das desgraças?

Ah! Imprudente, o demônio vem ao teu encontro com fantasmas impuros e tu não os repeles com horror!

Ouves conferência e cânticos pouco decentes, e escutá-los. Em frente de objetos sedutores e contemplá-los! Convidada para espetáculos, danças, conversas, aceitas! Vês ostentações e modas imodestas e imitá-las! Recebes meiguices e mensagens das quais tu conheces bem a ruim intenção, e respondes-lhes! Namoram-te e tu alegras-te! Dize-me, deverei Eu então estar sempre aí para te reprimir por força a fim de que te não precipites no abismo ao qual te expões tão levianamente?

Desgraçada de ti, ó Minha filha, se não estiveres mais atenta para o futuro, uma queda trará após si mil outras. Não te queiras persuadir de poder-Me agradar senão estás casta. Quando mesmo tu tivesses todas as outras virtudes, sem a castidade não Me inspirarias senão horror; não poderias ser abrigada debaixo do manto da Rainha das virgens.

Afetos– Mãe queridíssima e Virgem puríssima, compreendo agora, graças a Vós, quanto é abominável a imodéstia. Que nunca a minha alma seja infamada por tal mancha. Que nunca, por um momento de brutal satisfação, eu me avilte tão indignamente até tornar-me semelhante aos irracionais! Que por um vil e fugitivo contentamento do meu corpo me exponha ao perigo de perder a minha alma, o paraíso e Deus durante toda a eternidade. Mas ai de mim! Os perigos, os laços armados à minha alma são demasiadamente freqüentes e muito numerosos.

Pelo passado não tenho sido senão demasiadamente imprudente e considerada acerca dum ponto tão importante. Desgraçada que eu sou! Quem me livrará? Ah! Eu o espero; a graça do meu Salvador Jesus Cristo Vosso Filho, a qual me esforçarei de cooperar, tenho a confiança de obtê-la, ó Mãe querida, mediante a Vossa intercessão. Ajudai-me, e conVosco serei tal como Deus me quer.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzido do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus. 

Desenho de como ensinar as crianças a fazerem o Sinal da Cruz

Desenho de como ensinar as crianças 
a fazerem o Sinal da Cruz


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Oração pelos moribundos

Oração pelos moribundos

Eterno Pai, pelo amor que tendes a São José, escolhido por Vós para ser o Vosso representante na terra, tende misericórdia de nós e dos pobres moribundos. 
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre.
Eterno Filho, pelo amor que tendes a São José, Vosso guarda fidelíssimo, tende misericórdia de nós e dos pobres moribundos.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre.
Eterno Espírito Santo, pelo amor que tendes a São José, zelosíssimo  guarda da SSma. Virgem Maria, Vossa amada esposa, tende misericórdia de nós e dos pobres moribundos. 
Padre Nosso, Ave Maria, Glória ao Padre.
(Ind., de 500 dias uma vez no dia. - Retirado do manual do Coração de Jesus, 26ª Edição brasileira, 1951)

domingo, 3 de abril de 2011

O “Flirt” e suas falsas justificativas - Primeira parte

O “Flirt” e suas falsas justificativas


(Primeira parte)

Dizem: “Estou segura de mim mesma”.

Segura de mim”... Para pronunciar essa frase, é preciso ser bastante ingênua ou pretensiosa. Ninguém deveria dizê-lo, ninguém tem o direito de o pensar. Mas uma jovem, e principalmente quando se trata do “flirt”, tem muito menos esse direito do que os outros.

Também Eva, quando sorria para a serpente, estava “segura de si mesma”... E São Pedro também estava “seguro de si” quando jurava: “Se todo o mundo O trair eu não O trairei”... E sabe-se o resto da história...

Estar com o coração seguro aos vinte anos! 

Oh! E segura essa mocinha, a ponto de tirá-lo do refúgio secreto onde se encontra para fazê-lo dançar na mão!

Oh! Mas onde é que se está para permitir, sem pestanejar, tão impertinente segurança? Onde se adquire  tanta garantia? Os santos não estavam assim tão “seguros”. Não o estavam de modo algum e a emocionante desconfiança de si mesmos igualava ou excedia a merecida confiança que os outros tinham neles... Esquece-se de que nem sempre a vitória de ontem assegura a vitória de amanhã? Que a pureza moral exige mais prudência do que coragem e que, neste assunto, a verdadeira coragem consiste em impor-se a si mesma as necessárias prudências? Será que São Paulo é menos invencível, ele que não se envergonhava de ter medo da tentação e contra ela protegia sua trêmula fraqueza? A frágil roseira poderá vergar-se sempre sem quebrar? E não sabemos nós que ela também se quebra e que a mesma tempestade que arranca o carvalho do solo também a pode arrancar?

Quando se vêem, na história da humanidade, possantes cedros precipitar-se do alto de sua secular majestade, como crer que as fracas e pequenas hastes possam afrontar a tempestade?

Mas – dirão vocês – não existe tempestade. Faz um tempo tão lindo!”... Pode ser. No entanto, não sentem vocês, nas noites destinadas ao “flirt”, como o ambiente está pesado e como o ar tranqüilo e balsâmico está cheio de uma eletricidade voluptuosa? ...

E, depois, a carícia que amolece não é tão fatal como o golpe que mata? A própria criança que resiste à maldade não é muitas vezes vencida por um sorriso? A que se obstina diante da força fraqueja diante do carinho. Os mártires temiam menos os suplícios do que as delícias.

Não há tempestade... Não, mas há a calma dissimulada e traidora que convida o ente despreocupado a abandonar o leme e entregar-se deliciosamente à doçura dos sonhos, deixando a barca entregue ao balanço das ondas.

Não há tempestade... Mas, se o crocodilo espreita no rio calmo e este rio deslizar por terras sonolentas e febris, bastará trovejar para que haja perigo? Não será o drama ainda mais pungente quando se trata de almas que morrem com um grito selvagem no meio da tempestade ou de almas que agonizam silenciosamente, picadas pelo inseto da volúpia, no país dos “flirts” lânguidos?

Na verdade, não é em nome do passado, nem do presente nem do futuro, nem do da própria experiência, nem no da experiência dos outros que uma jovem poderá sinceramente proclamar-se “segura de si”. Não é em nome de coisa alguma, exceto em nome de suas interesseiras ilusões, de seu orgulho, de sua deslealdade.

No flirt, a única coisa de que pode estar segura é precisamente nunca ter segurança, e mostrar pretensões de tê-la, e expor-se infalivelmente a humilhantes desventuras. A vida não tem por missão endireitar nossos erros nem contentar nossas ilusões. Nós é que temos por obrigação utilizar suas lições respeitando as leis. De todos os fios com que se tece a volúpia, o “flirt” é um dos mais finos e um dos que mais realçam.

Dir-se-ia renda finíssima que um único golpe de unha romperia. E é esse sem dúvida o motivo porque a jovem se julga muito capaz de a poder rasgar à vontade. Mas o fio é forte, a renda unida e as malhas resistentes. E vêem-se, tais como moscas presas na teia de aranha, as namoradeiras emaranhar-se cada vez mais na rede em que lutam desesperadamente por se desvencilhar. A prudência seria aqui a única sabedoria, visto serem as “desconfiadas de si mesmas”, que, não se expondo, mais galhardamente se tiram de embaraços, enquanto que as “seguras de si mesmas”, por se exporem tolamente, se sentem presas. Que dizer, diante de tanta evidência? A única coisa que resta é inclinar-se e, humildemente, abster-se de tudo, receando, após algumas concessões feitas ao “flirt”, ser levada um dia a sacrificar-lhe tudo.

É um método radical. Mas se só ele existe com tal eficácia, não há outra alternativa: ou adotá-lo com todo seu rigor, e então o feliz resultado pagará generosamente os sacrifícios feitos; ou repeli-lo por causa de sua intransigência e, então, a derrota moral será o castigo do erro cometido e da falta de coragem que se lhe seguiu. Sacrifício – pois cedo ou tarde, sob pena de pecado, teremos que com ele nos resignar – melhor será fazê-lo de boa vontade, enquanto ainda é tempo, e é igualmente mais generoso, mais útil e mais belo.

Naturalmente que é aborrecido e quase humilhante termos de contar sempre com a própria fraqueza e não nos podermos basear numa absoluta segurança de nós mesmos. Se assim fosse, ficaríamos tão à vontade, suprimiríamos tantas hesitações, forneceríamos ao nosso orgulho instintivo um alimento tão apetitoso! Mas, que fazer? Também o doente preferiria ter saúde para não ser obrigado a sujeitar-se como doente, a menos que queira antecipar a viagem para o cemitério. Assim também, e em nome da mesma lei da saúde, deve-se agir com respeito à lei moral. Se a vaidade pessoal perde com isso, a segurança ganha.

É mais prudente salvar a colheita abrigando-a da chuva do que perdê-la expondo-a as intempéries. Antes de suprimir a prudência, seria necessário suprimir a fraqueza. Para nos podermos livrar dos golpes é preciso que antes estejamos protegidos por uma couraça impenetrável. E, enquanto se espera (e essa espera será longa como a vida) necessário é proceder como um ente fraco, como de fato se é, e desconfiar de si, visto não se ter nenhuma segurança. Contra tal tática não há argumentos que tenham razão de ser. “Fatos são fatos e a primeira conclusão a tirar é que, se assim são, é porque não são de maneira diferente.” Se um dia houver qualquer alteração, vocês adotam outro método mais amplo e mais brando. Mas, como certamente já estarão mortas antes que “essa alteração se verifique”, conclui-se que vocês, minhas jovens amigas, em matéria de “flirt”, ficarão na dependência do procedimento de sempre: realidade do perigo, como certeza; consciência de sua fraqueza, como convicção; rigorosa abstenção, como método.

Dizem: “Não investiguei muito... Não pensei que fosse mal.”

É bem possível, e, se é verdade, é uma desculpa para o passado, mas não para o futuro.

Não investigaram muito...”. No entanto, vocês bem que investigaram, ao menos um pouquinho, e receio muito que essa maneira de afirmar “não investiguei muito” seja um meio discreto de nos fazer cientes de que “investigamos muito”... Ora, não se trata de procurar muito, nem de “investigar muito”... Trata-se de investigar o necessário, sem um metro a mais, nem um metro a menos. É preciso ver o que há, de fato, porque, desconhecendo-o, expomo-nos voluntariamente a surpresas nada agradáveis. Fazemos mal em exagerar o perigo e vocês fazem mal em diminuí-lo. Mas, se não temos o direito nem que seja unicamente para assustar, de lhes mostrar uma víbora onde só existe uma serpente, vocês também não têm o direito de ignorar as conseqüências quase sempre fatais das imprudências cometidas e muito menos o têm de considerar como inexistente o que, na realidade, existe. Mas Deus sabe quando vocês notam a menor censura que vos fazem, quando notam qualquer ato de uma das companheiras, quando notam a menor aparência de maldade nas outras.

Então, como se compreende que, repentinamente – porque vosso interesse está em jogo – deixais de perceber o que era preciso notar? Porque a trave do olho da vizinha se transforma em argueiro no vosso? Em geral, vocês são tão atentas para as demais coisas e eis que de repente ficais tão moles justamente quando se trata de um assunto para o qual toda atenção e cuidados são poucos... Eis um problema, e vocês é que terão de resolvê-lo. Mas, antes de dizer: “Não examinei bastante”, reflitam e vejam, diante de Deus, se é bem verdade o que dizem...

Não pensei que fosse mal”. Mas também não acreditava ser uma coisa boa. Isso quer dizer que, pelo menos, estava incerta e que, ao invés de dissipar essa incerteza, a conservou, chegou mesmo a alimentá-la, pois com ela tinha um pretexto para ficar tranqüila e sem motivo aparente para ser censurada.

Você estava na incerteza, é verdade. Mais do que isso – não o negue – estava inquieta, tinha qualquer dúvida, pressentia vagamente um perigo e o constrangimento involuntário que minava seu íntimo era, para você, um significativo aviso. Nota-se a aproximação da tempestade ante o abafamento insuportável da atmosfera.

Pela maneira de baixar os olhos percebe-se um amor ou uma falta que não se ousa confessar. E a qualquer coisa que nos rompe a alma certificamo-nos de que o perigo ameaça... Não é verdade?

Se, realmente, você tivesse acreditado que ele era inofensivo e irrepreensível, teria por acaso ficado como ficou, hesitante antes do “flirt”, ansiosa durante e confusa depois? Teria sentido o gosto de mistério, coisa que não lhe é habitual? Teria tido tanto receio de ser vista ou apanhada em flagrante? Teria fugido sabiamente de qualquer confidência ou interrogação a essa respeito? Teria caminhado por estradas sinuosas? Finalmente, teria você ouvido dentro de si mesma como que golpes misteriosos contra o muro, em plena noite, protestos violentos da consciência comunicando-lhe seu receio? Você bem pode dizer que “não desconfiava de coisa alguma”, mas tudo está dizendo que você desconfiava de alguma coisa. Tudo se passou, não como se você fosse uma criança ingênua, de coração inocente, mas como se tivesse sido uma jovem inquieta, com a consciência agitada. Tanto quanto Eva quando estendia a mão para o futuro cobiçado, também você sentiu Deus a seu favor. E, tanto quanto ela, ao mesmo tempo que ouvia o assobio suspeito que iria seduzi-la, também ouvia a poderosa voz do Alto que deveria ter retido seus passos.

Existem sinais que não enganam. E esses sinais estavam bem visíveis quando de sua primeira imprudência. Não é razão suficiente deixar de tomar conhecimento deles por pretender não tê-los percebidos anteriormente, e, à sua fraqueza, não deve juntar a mentira de dizer que não “o fez propositalmente”... Você não gosta de ser tomada por uma ingênua, pelo menos aceite ser considerada como grande responsável! Você já atingiu a idade da razão, ninguém pensa contestá-lo, mas também não conteste você mesma que, naquela ocasião, você já tinha chegado à “idade da consciência”! A fraqueza é mais perdoada do que a lealdade. Dizendo “por minha culpa”, você se condena; maior, porém, será sua condenação se disser: “Não por minha culpa”, pois a voz da verdade clamará no seu íntimo: “Por tua culpa, por tua culpa, por tua grande culpa”... 

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: O “Flirt” e suas falsas justificativas - Segunda parte)

PS: Grifos meus.

sábado, 2 de abril de 2011

O terceiro Pilatos – O medo

O terceiro Pilatos – O medo


Não se deve perder de vista durante essas laboriosas negociações o coração de Jesus Cristo. De pé, sempre atado, digno e silencioso, o Mestre lá está que tudo segue e tudo aguarda: que íntima tortura! Continua Ele a assistir à Sua progressiva decadência; cada minuto fá-lO descer. E, inversamente, a cada minuto Ele vê subir a onda popular que vai arrebatá-lO. Ao lado dEle agita-se aquele só que O pode salvar: esse tem apenas uma palavra a dizer, mas esta palavra ele não a ousa dizer. E Jesus tem pena, cala-Se; e, nesse silêncio profundo, pensa em todos os Pilatos do futuro; Há-os públicos, há-os secretos.

Os públicos são todos os chefes de Estado que podem sustar o mal, entravar a perseguição: sob o pretexto de não haverem sido eles que fizeram a lei, varrem se si a responsabilidade. – Lava as tuas mãos, Pilatos, elas ficarão limpas, mas a nódoa está no fundo da tua alma, e aí ficará. A lei feita sem ti não podia ser executada sem ti. Tu não tinhas feito a lei que condenava Jesus à morte, e, todavia Ele não morreu senão por tua causa.

Os Pilatos secretos somos nós em face da tentação, cedendo terreno de minuto em minuto diante do Barrabás vergonhoso que se ergue entre nós e Jesus. Non hunc, sed Barabbam. Qui potest capere capiat.

Se alguém teve de curtir uma cruel decepção, foi o Procurador quando ouviu a exclamação de todo aquele povo em delírio. Uma espécie de despeito apoderou-se dele: não terá ele então meios de sair-se daquilo? Reponta esse despeito nesta palavra que ele lança ao populacho:

- Que quereis então que eu faça de Jesus?

Foi então que prorrompeu como espontaneamente e pela primeira vez este brado de morte:

- A cruz! A cruz!

Pilatos pareceu revoltar-se. Zurziu os Judeus que vociferavam com esta apóstrofe mordaz:

- Eu crucificar o vosso Rei?
-A cruz! A cruz! Respondeu a multidão.

O Romano fez como se não ouvisse. Volveu então ao seu projeto de cruel flagelação; sem dúvida, a vista do sangue apaziguaria a populaça.

- Vou mandar flagelá-lo, exclamou; é tudo o que vos posso conceder, porque, em verdade, repito-vo-lo pela terceira vez, não acho nada nele que mereça a morte.

E mandou flagelá-lO; sabemos como os algozes se desobrigaram, e em que estado reapareceu A vítima.

Ao primeiro olhar lançado sobre Ela, Pilatos esperou que chegaria finalmente a tudo salvar. Que cólera, que ódio subsistiria ante Aquele farrapo sangrento?

Ai! Ele não sabia que o sangue embriaga os que o vêem correr. Ignorava que a sua covardia descendente o pusera de nível com aquele povo, até mais baixo do que ele, e que, embora falasse do alto do terraço, ele é quem agora estava dominado pela plebe.

- Eis o homem! Exclamou ele.

Equivalia a dizer-lhes:

- Estais satisfeitos agora? Acreditai bem que já lhe não dará a fantasia de se proclamar Rei. Vede: eis o homem!

Os soldados haviam-se rido grosseiramente no pátio interior quando O entrajavam com o manto escarlate e O coroavam irrisoriamente de espinhos. Pilatos esperava que o ridículo entrajo de Jesus O salvaria, e que Este poderia sair das suas mãos definitiva e moralmente morto pelas chacotas e pelos riso. Porém a multidão já não ria. Mercê dos sacerdotes e dos anciãos, chegara a esse grau de bestialidade em que já se não diverte com caretas, frangalhos sangrentos e pauladas; até o sangue que escorre sob os flagelos já não bastava para ela: já não a fazem rir quando ela reclama a morte.

Há neste brado tremendo: À morte! que sai de milhares de peitos, uma superioridade sinistra que esmaga todas as vontades contrárias e aniquila todos os bons desígnios. À morte, ululava a plebe, e escandia esse brado – temo-lo ouvido depois nas nossas revoluções múltiplas, - bem decidida a não cessar de gritar enquanto não obtivesse aquela cabeça.

Pilatos balbuciava em vão algumas palavras que a populaça não ouvia mais. O tumulto crescia.

- A cruz! A cruz! À morte!
- Mas é o vosso Rei, tentou gritar o procurador.
- Não, o nosso Rei é César, redargüiam os sacerdotes que se conservavam na primeira fila.

- A cruz! A cruz! Continuava a uivar a multidão ao fundo, desdobrando e ampliando cada vez mais a sua sombria linha invasora.

- Mas Ele nada fez de mal, repetia desesperadamente o Romano, atestando uma vez mais a inocência de Jesus.

- Disse-se Filho de Deus, bradaram os sacerdotes; a nossa lei é formal nesse ponto, por causa disso ele deve morrer.

Filho de Deus! Finalmente o grande agravo era apresentado. Eles não tinham ousado até agora proferi-lo; pediam a morte para O agitador, a morte pela recusa do imposto, a morte para o louco que se dizia Rei: tudo isto, aos olhos de um homem judicioso e calmo, não justificava semelhante pena.

Desmascaravam-se finalmente: a morte para O blasfemador, pois se disse Filho de Deus.

A estas palavras, Pilatos tremeu. E por que, em verdade? Ia ele crer na divindade dAquele ente escorchado, tiritante diante dele? Não se sabe, mas de repente ei-lo que entra, manda trazer Jesus à sua presença, argúi-lo insistentemente... não conhecemos tudo o que foi dito entre aqueles dois entes a sós, face a face, o homem podendo salvar o Deus, e o Deus querendo certamente salvar o homem. O que sabemos é que, ao cabo daquela conversa solitária e misteriosa, Pilatos saiu absolutamente decidido a livrar Jesus. Exinde quaerebat Pilatus dimittere eum. Enfim ele vai ser mais firme e falar como senhor.

Tudo era, pois, novamente posto em questão. Era o nó antes do supremo desenlace.

Não há dúvida alguma que Pilatos deve ter manifestado essa intenção. Quaerebat. Procura, quer, forceja, está decidido. Simultaneamente fraco e violento, ia balançado de uma borda à outra, conforme o impulso. Agora está na borda da coragem.

Compreenderam-nos os sacerdotes e os anciãos. Acaso vai tudo escapar-lhes?

Jogam então o seu último e poderoso trunfo: e, pegando-se do título de Rei com que Jesus se adornava e que Pilatos só fazia relembrar-lhes, adiantam-se insolentemente:

- Se não o condenas (logo, Pilatos estava novamente indeciso), não és amigo de César. Quem quer que se diz Rei opõe-se a César.

Sabia-se o que queria dizer esta palavra: opor-se a César; César não sofria contradições e chamava-se Tibério.

É certo que esse Tibério estava na mole e voluptuosa Capri, bem longe... Mas os delatores estavam em toda parte, e um aceno do amo, mesmo de longe, como outrora a varinha de Tarquínio, fazia tombarem todas as cabeças.

Num minuto Pilatos viu repassarem todos os antigos quadros e a temível intervenção do imperador.

Volveu à borda da fraqueza; agarrou-se-lhe desesperadamente, e largou tudo o mais.

Ensurdecido pelos clamores, bestificado por aquela luta sem desfecho, sentindo todo o esforço fazer-lhe perder terreno, fatigado – desculpado talvez aos seus próprios olhos – por aquelas tentativas infrutíferas: Tradidit voluntati corum, fazei dele o que quiserdes, exclamou com um gesto timorato e descoroçoado. Mas, - e foi este como que o indigno consolo dado em último pábulo à sua consciência, - mas ele é inocente, e eu serei inocente, eu, da morte deste justo, e dela lavo as mãos, e vós respondereis por esse sangue e por essa morte, vós.

Deplorável restrição, lastimáveis palavras, quando uma só se lhe pedia, a única que ele devia dizer e que só ele podia dizer: Não quero.

Assim se epilogou, ao fim de quatro horas, esse drama de violência e de covardia.

E agora Cristo se vai, está condenado, está tudo em ordem, tudo deve estar justo: o Procurador assinou. Ele próprio escreveu a grandes traços na prancheta de madeira: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. É o crime, parece; poderia ter posto: Filho de Deus; teria sido igualmente verdadeiro. E ele acaba de lavar as mãos repetindo: “Sou inocente da morte deste homem”.

Sim, pensa-o ele, talvez; porém, até o fim dos séculos e para além, não se crerá tal, e repetir-se-á: Passus sub Pontio Pilatos, crucifixus, mortuus est. Creio em Jesus Cristo que padeceu sob Pôncio Pilatos e morreu crucificado.

Et nunc, reges, intelligite, erudimini qui judicatis terram. E agora, reis e juízes da terra, compreendei e aproveitai (Sl. 2,10).

(A subida do Calvário, pelo Padre Luís Perroy. S. J.; 3ª Edição; editora Vozes, 1957, continua com o post: Jerusalém)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Oração a Cristo Rei

Oração a Cristo Rei


Ó Cristo Jesus, eu Vos reconheço como Rei universal.  
Tudo o que foi feito, para Vós foi criado. Exercei sobre mim todos os Vossos direitos. Renovo as minhas promessas do batismo, renunciando a Satanás, às suas pompas e às suas obras, e prometo viver como bom cristão.
E muito particularmente empenhar-me-ei em fazer triunfar por todos os meios ao meu alcance os direitos de Deus e da Vossa Igreja. 
Divino Coração de Jesus, ofereço-Vos as minhas pobres ações para alcançar que todos os corações reconheçam a Vossa realeza sagrada, e que por este modo o Reino da Vossa paz se estabeleça em todo o mundo. 
Assim seja. 
(Ind. plen., uma vez por dia, nas condições costumadas. - Oração retirada do livreto: Manual do Coração de Jesus; 26ª edição brasileira, 1951)

"Miguel, Miguel da manhã..."

"Miguel, Miguel da manhã..."


Esta é a verdadeira história de um "marine" (fuzileiro naval) ferido na Coréia, em 1950. Escrevendo para sua mãe, ele lhe contou sobre um encontro fascinante que teve durante a guerra. O Padre Walter Muldy, capitão da Marinha, que conversou com o fuzileiro e sua mãe, e também com o comandante da unidade militar do jovem - sempre afirmou a veracidade desta narrativa. Nós a ouvimos de uma pessoa que leu a carta original e narra à história em seus mínimos detalhes e na primeira pessoa, para melhor transmitir algo do impacto que o fato deve ter causado quando - pela primeira vez - foi contada pelo filho à sua mãe.

Querida mamãe:

Escrevo à senhora de uma cama de hospital. Mãe, estou bem.  Fui ferido, mas o doutor disse que logo estarei de pé. Mas, não é sobre isso que eu preciso escrever-lhe.  Algo aconteceu comigo que não ouso contar a ninguém com medo de que não acreditem.  Mas, preciso contar a senhora - única pessoa em quem posso confiar, embora mesmo a senhora possa achar difícil de acreditar.

A senhora se recorda da oração a São Miguel que a senhora me ensinou a rezar, quando eu era pequeno?  "Miguel, Miguel da manhã..." Antes de partir para a Coréia, a senhora recomendou com insistência que eu me lembrasse dessa oração antes de qualquer confronto com o inimigo. Mas, realmente, mãe, a senhora não precisaria me ter lembrado isso. Eu sempre a rezei e quando cheguei à Coréia, freqüentemente eu a rezava, várias vezes durante o dia, enquanto marchava ou descansava. 

Bem, um dia, fomos convocados para fazer um reconhecimento em busca de Commies (NT: nome dado aos guerrilheiros comunistas). Era um dia em que fazia muito frio. Quando já havia caminhado um tanto, percebi outro soldado andando ao meu lado e eu olhei para ver quem era. Era um rapaz alto, um fuzileiro de cerca de 1,90m e constituição forte. Estranho, mas eu não o conhecia e pensei que nunca o havia visto em minha unidade. Fiquei satisfeito por ter companhia e quebrei o silencio entre nós.

- “Faz frio, hoje, não?" Comecei então a rir baixinho, porque, de repente me pareceu um absurdo conversar sobre o clima, quando estávamos avançando para enfrentar o inimigo!

Ele também riu suavemente.

-"Acho que conheço todo mundo em minha unidade", continuei, "mas nunca o vi antes". 
- "Não", ele concordou. "Eu acabo de chegar, meu nome é Miguel!"
- "Verdade? É meu nome também". 
- "Eu sei" - disse o fuzileiro. "Miguel, Miguel da manhã..."

Mamãe; fiquei realmente surpreso que ele soubesse assim minha oração, mas eu havia falado dela a tantos rapazes, que supus que o recém-chegado ouvira falar disso através de algum deles.  Na verdade, isso se tornara tão conhecido, que alguns de meus companheiros me chamavam de "São Miguel".

Então, de repente, Miguel disse:

- "Vamos encontrar problemas à frente".

Surpreendi-me, pois não podia perceber como ele sabia disso. Eu respirava fortemente, por causa da marcha e meu hálito enchia o ar frio com densas nuvens de neblina. Miguel parecia estar em ótima forma, porque eu não percebera sua respiração, até então.  Nesse momento, começou a nevar tão fortemente, que logo não mais pude ouvir ou ver o restante da minha unidade. Fiquei um pouco assustado e gritei:

- "Miguel!"

Senti, então, sua forte mão em meu ombro e ouvi sua voz:

- "Vai clarear logo".

De repente, a nevasca parou. E então, a uma pequena distância de nós, assustadoramente reais, estavam sete Commies, eu diria quase cômicos com seus chapéus típicos.  Mas não havia nenhuma graça em suas atitudes: suas armas estavam engatilhadas e apontadas exatamente em nossa direção.

- "Para baixo, Miguel", gritei, e mergulhei para me proteger. 

No chão, olhei para cima e vi Miguel ainda em pé, paralisado, e achei que era por medo, como julguei naquele momento. Balas espocavam de todos os lados e, mamãe, não havia lugar que os comunistas não atingissem a tão curta distância.

Pulei para fazê-lo deitar-se e foi então que fui ferido. Senti a dor como uma forte queimadura em meu peito e desmaiei. Enquanto ia perdendo os sentidos, ainda me recordo que pensei: "devo estar morrendo". Alguém estava me erguendo, braço forte me seguravam e me colocavam, com cuidado, sobre a neve. Apesar do choque, abri os olhos e o sol pareceu penetrar neles.  Miguel ainda estava em pé e havia um enorme clarão em sua face. De repente, abrasou-se como o sol, um resplendor o rodeava intensamente, como as asas de um anjo. Quando perdi a consciência, ainda vi que Miguel segurava uma espada em sua mão e que ela faiscava como milhares de luzes.

Mais tarde, quando recobrei os sentidos, meus companheiros vieram me ver, com o sargento.

- "Como você fez isso, filho?" – ele me perguntou.
- "Onde está Miguel?" O sargento pareceu intrigado.
- "Miguel, o fuzileiro alto, que andou comigo até o último momento. Eu o vi, quando desmaiei"
- "Filho - o sargento disse gravemente - você é o único Miguel em minha unidade. Posso pesquisar entre todos os demais soldados, mas só há um Miguel - você. E, filho, você não estava caminhando com ninguém. Eu o observava, porque você se distanciou muito de nos, e fiquei preocupado. Agora, conte-me, como você fez isso?"

Era a segunda vez que me fazia essa pergunta, e eu me irritei.

- "O que eu fiz?"
- "Como você matou aqueles sete guerrilheiros comunistas?"
- "O quê?"
- "Vamos, filho, eles estavam estendidos ao seu redor, cada um morto por um golpe de espada".

Este, mamãe, é o fim de minha história. Pode ter sido o ferimento, o clarão. Do sol ou o frio. Eu não sei mamãe, mas de uma coisa estou certo: ISTO ACONTECEU! ...

(Traduzido de: Crusade – Nov/dez - 2002. Tradução com pequenas alterações para adaptar ao português).

PS: Retirado do "O Desbravador" - Janeiro de 2004)

quinta-feira, 31 de março de 2011

IV- Meditação (final) - Jesus no Jardim das Oliveiras

IV- Meditação (final)
Jesus no Jardim das Oliveiras


Consideremos Jesus na agonia. Aproxima-se o momento em que Jesus é preso pelos Seus algozes; sofre já no Seu coração todos os tormentos de que Seu corpo vai ser vítima... Não sente somente os tormentos do corpo flagelado senão também todas as dores que merecem os pecados da humanidade.

Ó Jesus, Vós sofrestes também as penas dos meus pecados, para me poupardes, aos tormentos do inferno!

A Vossa agonia foi tão dolorosa que o Eterno Pai Vos enviou um Anjo do céu para Vos confortar. E Vós, Senhor, nesse momento de extrema amargura recorrestes à oração! “Et factus in agonia profixius orabat” e entrando em agonia orava mais intensamente. Que lição Vós me dais, ó Divino Salvador! Por maior que seja a amargura da minha vida, eu terei confiança na bondade do Pai celeste, que sempre me confortará e serei perseverante na oração por mais longo que seja o meu sofrer.

Senhor, antes de terminar esta hora santa passada em união conVosco, permiti que eu faça a minha comunhão espiritual para me unir mais intimamente a Vós.

Comunhão espiritual

Ó Jesus, que tão ardentemente desejais unir-Vos às almas para as santificardes:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, verdadeira luz que nos ilumina neste mundo e nos mostrais o caminho do paraíso:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, força de Deus, que nos amparais em nossas fraquezas e consolais em nossas armarguras.
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, exemplar divino de todas as virtudes:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, fonte inesgotável de todos os bens:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus. Pão da vida, que alimentais com a graça divina as almas que Vos recebem:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, sabedoria infinita, que dissipais as trevas das inteligências que Vos procuram:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus que estais presente na Hóstia Consagrada para que as almas Vos recebam:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ò Jesus, eu Vos amo de todo o meu coração e desejo ardentemente receber-Vos ao menos espiritualmente.
Todos: Vinde e vivei em mim.

(Oração retirada do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

PS: Grifos meus.

Ver as outras meditações desta série:

quarta-feira, 30 de março de 2011

Flirtar é divertir-se com a alma

Flirtar é divertir-se com a alma


Denomino alma a fonte profunda e misteriosa da nossa atividade moral, intelectual e religiosa. É por meio dela que a graça de Deus chega até nós para nos santificar. É nela que Deus reside. É ela que estabelece uma admirável intimidade entre Deus e nós. É por ela que O chamamos Nosso Pai e por ela, efetivamente, é que somos Seus filhos. É o que temos de mais grandioso e imortal. Anima nosso corpo, mas também tem sua vida própria, vida esta que vale tudo. A fim de salvá-la, nenhum sacrifício é demasiado, e, para desenvolvê-la, nenhum esforço deve ser recusado.

Brincar com ela equivale, pois, a brincar com seu eterno futuro. Será uma sinistra brincadeira, se acreditarmos na palavra de Jesus Cristo: “De que vale ao homem ganhar o universo se vier a perder sua alma?

Ora, a alma está aderente ao coração e este, por sua vez, depende de algum modo dos sentidos. Também o “flirt”, brincadeira do coração e dos sentidos, pode, igualmente, transformar-se em brincadeira da alma.

A alma perde o gosto pelo invisível

Com essa brincadeira, a alma desenvolve insensivelmente o gosto pelo que é visível e, na mesma proporção, perde o atrativo pelo invisível, que, segundo o que diz São Paulo, é o verdadeiramente real.

Ela empreende uma viagem de ternura para as baixezas, aprende a deslizar e, depois, a rolar. Em vez de ser a coisa impelida pelas asas e que plana, torna-se a coisa puxada por patas pegajosas.

As imagens voluptuosas flutuam na paisagem interior. Os sonhos que antes divagavam no mistério recolhido, à procura de Deus, agitam-se, ansiosos e atormentados, nas nuvens de recordações suspeitas.

A Igreja não é mais o lugar abençoado em que se rezava, cantava, ouvindo a alma para amar, é o lugar sossegado em que se passa um longo tédio. Seu silêncio inquieta e faz fugir. Suas cerimônias cansam e logo nos desinteressam. Sua calma, em que Deus habita, parece vazia porque falta alguém, alguém cuja presença, cada vez mais indispensável, traz consigo a única felicidade que se espera para o futuro.

Certamente, a jovem mudou muito. Mais do que ela diz, mais do que pensa. Quando se lhe observa isso, protesta, talvez se zangue ou sorria. Mas de que valem esses protestos contra a evidência que irrompe de toda ela? Pode tentar salvar as aparências continuando exteriormente a ser “como era antes”, mas trai-se em mil outras ocasiões. Escapam-lhe reflexões, que põem a descoberto o segredo de sua alma “ausente de onde anima e presente onde ama”.

Mais tarde, nem mesmo as aparências consegue salvar. Quando as coisas nada mais significam, a espécie de sorriso que se lhes dá não pode continuar indefinidamente. Quando Deus é substituído por outro na vida e passa a valer cada vez menos, é preciso que isso se torne conhecido. Aliás, é uma questão de sinceridade.

A menos que sejais de uma hipocrisia revoltante, sentir-vos-íeis miseráveis por prolongar ainda mais tempo essa brincadeira de mentira. E, se a covardia auxilia a sinceridade, como não se tem mais a coragem de ser o que se parece, temos então a coragem de aparecer como de fato somos. Pelo menos é lógico, dirão. Sim, e infelizmente. Porque, para uma cristã, existe outra maneira de ser lógica. Somente essa maneira lhe custará um sacrifício e tal sacrifício não quer praticá-lo, não quer...

A alma perde o gosto pela piedade

Como conseqüência imediata dessa aversão pelo invisível, a alma se afasta da piedade, tanto pelo sentimento quanto também pela prática. Ora, pensando que é principalmente nas ocasiões perigosas que a piedade é ainda mais necessária, como não lamentar essa jovem que se afasta cada vez mais de Deus quando Seu auxílio lhe é mais útil?

No entanto, os fatos aí estão para o provar, ela se afasta de Deus. As comunhões “falam-lhe” menos, e diminui-lhes o número... As confissões, por timidez ou por vergonha, aborrecem-na, e então suprime-as. O exame de consciência só pode condená-la, e ela então deixa de fazê-lo. As meditações, as leituras religiosas entediam cada vez mais, ela então joga o livro para um canto e não o lê mais... Os retiros causam-lhe medo – é bem compreensível, - e ela então não os freqüenta mais... Os ofícios religiosos enfastiam-na, e ela então evita-os o mais que pode. Os sermões arrazam-na, e foge deles... As obras pias, as verdadeiras, são, para ela, trabalhos forçados, e encontra 33 razões suficientes para não mais aparecer...

Digam francamente: não é assim que se passam as coisas nesses períodos da juventude, provisórios ou definitivos, durante os quais o “flirt” ocupa a vida, a absorve e a consome?

Para não ver nisso um inconveniente, por pequeno que seja, é preciso ser bastante ingênuo ou cúmplice de fraquezas tão perniciosas. Mas aqueles que acreditam ser a vida espiritual a verdadeira e única vida não tomam partido assim tão facilmente. Pensam que, ao contrário, o mal é grande, que o séquito que o acompanha é funesto, e que a tranqüila inconsciência que muitas vezes vai a seu lado só pode agravá-lo, pois suprime, na doente, a vontade de curar-se.

Supondo que nada de mais grave aconteça e que, em continuação, depois de perdido o espírito de apostolado e a piedade, não se perca também a fé essencial, já não basta que a vida espiritual esteja em perigo? E que essa, em que antes se admirava uma jovem ardorosa em sua religião, ande agora por uma estrada cujo destino faz tremer? E em que estado se encontrará a filha de Deus já cansada de servi-lO e não tendo mais coração para amá-lO?... A religião pura de Salomão morreu por ter “flirtado” com a idolatria de Moloch e de Baal e de todos os deuses pagãos... O amor de Judas por Cristo acabou por ele ter "flirtado" com o dinheiro dos Fariseus. Quantas jovens cristãs morrem sobrenaturalmente porque sua alma flirta com o coração seduzido, enquanto o coração flirtava com o prazer sensual e, depois, com o pecado?...

A alegre brincadeira transformou-se numa brincadeira fúnebre. Aquela que era a virgem prudente e pura, talvez não mais seja nem virgem, nem prudente, nem pura. E, portanto, também a virgindade religiosa da alma é preciosa. Num sentido, é mais preciosa do que a outra virgindade. Mas, como, ao comprometê-la, se experimenta menos violentamente o sentimento da derrota, sofre-se menos tragicamente ao perdê-la...

Ilusão! Porque derrota existe, visto a fervorosa intimidade com Deus ser substituída por uma indiferença morna num coração entibiado.

Muda a alma para pior

Tudo isso, provoca uma transformação. Seria o caso de felicitações, se houvesse motivo... Mas haverá quem o ouse?

Com efeito, a jovem mudou muito. Ao redor, silenciosamente, o “flirt” teceu sua teia. Cada vez mais enraigados, os hábitos foram adquiridos.

Aquela que, durante tanto tempo, mantinha o equilíbrio, custasse o que custasse, não o mantém mais. Cansada ou enervada de tanto dançar a divertida dança, já atingiu o extremo da corda e é aí que estremece diante da poderosa atração do espaço. Então, rompendo as amarras, deixa-se arrastar pela onda e lança-se à vida na qual se abisma, o “tanto pior” fatal, que tudo aceita, mesmo morrer.

Assombros assustadores

Diante deste espetáculo, alguns se espantam e se aterram. Compreende-se que fiquem aterrorizados, mas não se compreende que se assombrem. Naturalmente, a criança está irreconhecível. Não é mais o que era. Ou melhor, é a mesma, porém estragada; a bela alma ficou-lhe por lá, não se sabe bem onde, nos países insalubres e misteriosos em que reina o “flirt” e onde, dominadas por seu encanto, as consciências apodrecem, os corações murcham, as almas se tornam carnais.

Ficam assombrados. E dizem, modernizando os clássicos: “Como é que o ouro puro se pode transformar num mísero chumbo? Como é que a alma real que, nos dias de sua pureza, voava, vestida de púrpura e coroada de lírios, por entre outras almas amantes e submissas, vai agora, pesada e mesquinha, desprezada e só, toda andrajosa? Que respondam os que sabem, porque explicação existe.

Esta criança chegou aonde chegou porque seguiu o caminho assas conhecido. Espantam-se, e por quê? Seria melhor chorar, pois é bem doloroso. Mas não se deviam assombrar porque aí não há mistério nem milagre. Clara como a luz do sol, o que existe é uma grande imprudência com suas conseqüências, em de deslize em deslize, como atraída pelo declive, desde as alturas para os subterrâneos, dos cumes cheios de neve para os barrancos cheios de lodo, do pico luminoso das águias para a cova dos répteis. A estrela fugiu do firmamento e sua luz embaciada arrasta-se pela poeira das estradas...

Flirtar é divertir-se com um outro

Flirtar é divertir-se com o coração, com a própria consciência, com sua alma, com seus sentidos, mas também é divertir-se com o coração, a consciência, a alma e os sentidos de outra pessoa ou de várias outras. E este segundo perigo é tão impressionante quando o primeiro. Porque se, no segundo caso, o perigo de queda é igual, a esperança do arrependimento é muito mais duvidosa. O tormento implacável das escandalosas, mesmo depois de convertidas, não derivará da sua impotência em converter o “outro”? O carrasco sobrevive à sua vítima. Ele levanta-se e ela permanece hirta...

Nunca poderemos apagar os incêndios por nós mesmos ateados. Seria necessária a miraculosa mão de Deus para que ressuscitassem as pessoas de cuja morte se é autor. Caim olha Abel, compreende e, desesperado, foge. Tendo obtido a graça do arrependimento e, aceitando-a, se recita um ato de contrição, isto não quer dizer que o outro também faça o mesmo... Eis aí razões suficientes para assustarem todo aquele que conserva ainda um pouco de senso moral e se atemoriza com toda razão em frente às responsabilidades que pesam sobre o que é eterno e, talvez, irreparável.

Guardadas as devidas proporções, tal é a situação, no “flirt”, de cada um dos dois com respeito a seu cúmplice... (Se a palavra “cúmplice” lhes parece muito forte, substituam-na por “companheiro da brincadeira”... É a mesma coisa...)

Imaginem a seguinte hipótese, que corresponde à realidade.

São dois. Iniciam junta a sessão. No primeiro ato, um deles, já inquieto e desapontado, não quer prosseguir... E se o outro, que tomou gosto pela coisa, desejar continuar? E se essa recusa em prosseguir só faz com que o companheiro prosseguir só faz com que o companheiro procure outra atriz para com ela continuar o diálogo? E se, a fim de evitar essa conseqüência ameaçadora, ele consente em prosseguir no seu papel, em qual dos casos, se sentirá mais seguro? Em qual deles a responsabilidade não estará empenhada?

São dois. Mas não têm a mesma temperatura sentimental. Com calor idêntico, a madeira queima muito mais depressa que o ferro. Sobre o forno acesso, o alumínio queima, ao passo que o cobre apenas se aquece...

No “flirt”, a mesma lei se verifica. Enquanto um ainda está no idílio, o “outro” já pode ter alcançado o drama.

Um anda com a velocidade de um ônibus, enquanto o outro talvez com a velocidade de um trem-rápido. Um plana no céu calmo, talvez o outro se debata no meio da tempestade. Um sorri amistosamente, talvez o outro tenha sonhos agitados... Um domina-se, talvez o outro se entregue. Um adormece sem sonhar, talvez no outro a febre suba. Um não enxerga mais longe do que a ponta de seu nariz. Talvez o outro pressinta a vida inteira...

São dois, mas não têm o mesmo apetite e não vivem sob o mesmo regime. Um, idealista, contenta-se com o perfume da flor, o outro, mais prático, quer provar o fruto...

São dois... Mas uma, piedosa, encontra na sua piedade uma salvaguarda, em sua fé, um cuidado, em seus princípios, uma luz... O outro, menos religioso, só vê barreiras abertas em caminhos permitidos que convirjam para lugares autorizados.

São dois... Mas um se confessa e se arrepende, o outro não se confessa e não tem remorsos.

São dois... Mas um, que ainda é puro, acredita em sua pureza e não quer perdê-la. O outro, que não mais a possui, não acredita nela e não teme perdê-la...

São dois. Mas um, tímido, não ousa tudo recusar receando pecar. O outro, audacioso, seria capaz de tudo, do pedido e da culpa.

São dois e ambos se divertem. Enquanto divertir-se para um deles consiste apenas em sorrir um pouco, para o outro, que talvez nem ria, quer dizer: brincar até o fim com o brinquedo da volúpia e da morte...

De maneira que dizer que são dois significa, não somente que existe um, depois outro, mas ainda que um não é igual ao outro e que, apesar das aparências oficiais, não é o mesmo problema real que tentam resolver. Esta verificação dá muito que pensar. E, como se impõe a quem deseja ser leal, vê-se bem a que angustiosas conclusões se chega diante da traiçoeira segurança em que se baseia sob pretexto de que “isso não lhes fará mal”... Pode ser que a elas não o faça... mas, e a eles?...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças, editora caravela LTDA, 1950, continua com o post: O "flirt" e suas falsas justificativas)

PS: Grifos meus

terça-feira, 29 de março de 2011

III Meditação – Jesus no Jardim das Oliveiras (III de IV)

III Meditação (III de IV) 
Jesus no Jardim das Oliveiras


Consideremos no horto abandono de Seus discípulos. Jesus, oprimido pelo sofrimento como que necessitando de um socorro, levanta-Se e dirige-Se ao lugar onde mandou a Seus discípulos que esperassem. É bem terrível vermo-nos sós no meio de sofrimentos atrozes! Mas os discípulos dormem. Oh! como devemos contar pouco com os homens ainda que sejam nossos amigos!

Os discípulos dormem; não puderam acompanhar o seu divino Mestre durante uma hora... Judas, porém o traidor, aproveita aquela hora para entregar Jesus aos seus inimigos. Como são diligentes e ativos os homens sob o influxo do espírito maligno!...

Vigiai e orai para não sucumbirdes à tentação, disse Jesus aos Seus discípulos, como que repreendendo-os docentemente: “Já que não pensais em Mim, pensai ao menos em vós, porque o espírito mau está de vigia e a carne ou a criatura humana é fraca”.

Fracos somos nós também, Senhor, e bem reconhecemos os benefícios que nos dispensais. Aceitai, ó Jesus, a nossa ação de graça e ouvi benigno as nossas súplicas para podermos resistir as tentações.

Ação de graças

Meu Deus é a Vós que devo o ser e a vida, o corpo e a alma:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios.

É a Vós Senhor, que eu devo a vida sobrenatural que me faz Vossa filha, herdeira do céu:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios.

É a Vós, Senhor, que eu devo todas as graças necessárias à minha santificação e todos os Sacramentos:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios.

É a Vós Senhor, que eu devo os Anjos e Santos meus protetores, especialmente a minha Mãe do céu:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios

Meu Deus, dignai-Vos aumentar o meu reconhecimento, para poder repetir com um mais vivo sentimento de gratidão:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios.

Atos de súplica

Meu Deus, eu creio em Vós, mas aumentai a minha fé, tornai mais firme a minha esperança e mais ardente o meu amor por Vós:
Todos: Jesus ouvi a minha oração.

Meu Deus abençoai os meus pensamentos, as minhas palavras e as minhas ações:
Todos: Jesus ouvi a minha oração.

Meu Deus abençoai a minha família, preservai-a do pecado e socorrei-a em suas necessidades espirituais e temporais:
Todos: Jesus ouvi a minha oração. 

Meu Deus abençoai o Soberano Pontífice, os Bispos, os Sacerdotes e os fiéis de toda a Igreja Católica:
Todos: Jesus ouvi a minha oração. 

Meu Deus suscitai vocações sacerdotais e religiosas, convertei os pecadores, aumentai o fervor dos justos e assisti aos moribundos:
Todos: Jesus ouvi a minha oração. 

Meu Deus aliviai as almas do Purgatório, particularmente as almas dos meus parentes, benfeitores e amigos:
Todos: Jesus ouvi a minha oração.

(Oração retirada do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

Savall suona la viola da gamba

Savall suona la viola da gamba


domingo, 27 de março de 2011

Por este Sinal vencerás

In hoc Signo vinces.”
Por este Sinal vencerás.
(Euseb. vit. Const., 1,22)


Nota preliminar
(da primeira edição francesa)

No mês de novembro deste ano, chegou a Paris, para seguir os cursos de um colégio de França, um jovem católico, pessoa de grande distinção. Fiel ao uso tradicional de fazer o Sinal da Cruz antes e depois de comer, foi, desde o primeiro dia, objeto de espanto para os condiscípulos pensionistas.

O dia seguinte, em virtude da – liberdade dos cultos – o objeto das zombarias era ele.

Vindo-me visitar, pediu-me que algo lhe eu dissesse a respeito do Sinal da Cruz; pois os condiscípulos pretendiam fazê-lo envergonhar-se de o fazer.

Respondem àquele pedido as cartas seguintes.(Nota do blogue: total de 23 cartas)

Paris, 1862 – Monsenhor Gaume.

Sétima carta
Paris, 2 de dezembro de 1862.

Meu caro Frederico,

Os que desprezam o Sinal da Cruz ou dele desdenham não podem ter dúvida nenhuma com relação ao lugar que o Sagrado Sinal ocupa no mundo.

Tais indivíduos pertencem a uma classe hoje muito numerosa: é a classe dos que de nada duvidam porque ignoram tudo.

Tu, porém, deixa por um instante a sede de Juiz e, dando-me tua mão, em rápida viagem, percorre comigo os mundos – antigo e moderno.

Visitemos primeiro a brilhante antiguidade.
Peregrinos da verdade; entremos no oriente e no ocidente.

Memphis, Athenas, Roma.

São três grandes centros de luzes, que nos convidam a visitar as escolas de seus sábios. Vejamos que dizem estes mestres ilustres sobre os pontos cujo conhecimento mais nos interessa.

O mundo é eterno, ou foi criado?
Se foi criado, quem foi o seu criador?
É corpo ou espírito, o autor da natureza?
É ou não é eterno?
É livre, independente?
É um só ou são muitos?

As respostas são – hesitações, incertezas, flagrantes contradições.

Que é o bem?
Que é o mal?
Qual a origem do bem e do mal?
Como o bem e o mal se acham no homem e no mundo?
Há um remédio para o mal ou é incurável?
Se tem remédio, qual é ele?
Quem o possui?
Como se pode obter?
De que modo se aplica?

Hesitações, incertezas, fragrantes contradições, são as respostas.

Que é o homem?
Entra na sua essência uma coisa chamada – Alma?
É um fogo?
É matéria aeriforme?
Morre com o corpo?
Sobrevive ao corpo?
É espírito?
Qual é o seu destino?
Qual a finalidade de sua existência?

E as respostas a estas e mil outras questões, não passam de hesitações, incertezas, flagrantes contradições.

Ah! Meus grandes povos, meus grandes homens!

Apesar de tão pretensiosos, vós não sabeis nem a primeira palavra de uma resposta a estas questões fundamentais!

Não sois mais do que – notáveis ignorantes!

Que importa saber fabricar sistemas, compor sofismas, inundar de eloqüência as escolas, os senados, os areópagos?

Que importa saber guiar carros no circo, edificar cidades, dar batalhas, conquistar províncias, tornar a terra e os mares tributários de vossa avareza?

Ignorais o que sois, donde vindes, e para onde ides?
No dizer de um de vós mesmos não passais de uns suínos mais ou menos gordo, lá no rebanho d’Epicuro!... – “Epicuri de grege porci.” – Eis o mundo antigo.

Com a divulgação deste Sinal eloqüente que é o Sinal da Cruz essas vergonhosas trevas se dissiparam.

Aprendendo a fazer o Sinal da Cruz, o homem, ilustrado ou não, aprende a ciência de Deus, do mundo, e de si mesmo.

Repetindo-o constantemente, grava-se-lhe no fundo da alma esta doutrina a ponto de jamais esquecê-la.

Digam o que disserem: graças ao uso tão freqüente do Sinal da Cruz em todas as classes da sociedade, tanto nas cidades e como nas aldeias o mundo católico dos primeiros séculos e da idade média conservou em grau até então desconhecido, o conhecimento da ciência divina, mãe de todas as ciências e mestra da vida.

Poderia acontecer o contrário disto?

Se durante anos, certo homem repete um erro dez vezes por dia, dele fica plenamente compenetrado e com ele, para assim dizer, se identifica.

Ora, se isto acontece com o erro, porque não há de acontecer com a verdade?

Desejas a contra-prova?

Continuemos nossa viagem e entremos no mundo moderno.

Abandonou ele o Sinal da Cruz e desde esse tempo, não mais teve a seu lado um monitor que lhe avivasse a cada instante os três grandes dogmas indispensáveis à vida moral.

Por isso que olvidou o Sinal da Cruz, Criação, Redenção e Glorificação, essas três verdades fundamentais são para ele como se não existissem.

Não vês o que ele está sendo em matéria de ciências? Semelhante ao mundo de outrora, tu ouves o mundo de agora gaguejar vergonhosamente sobre os princípios mais elementares da religião, do direito, da família e da propriedade.

Que fundo de verdades alimenta suas conversas? 
Que contêm seus livros de política e de filosofia? 
À luz de que fachos anda ele com sua vida política e particular? 
E que pensas tu dos jornais? 
Na torrente de palavras que despejam diariamente na sociedade, quantas idéias sãs poderás apontar, com relação a Deus, ao homem, e ao mundo? 
Qual é a sabedoria deste mundo, deste século de luzes, que não sabes fazer o Sinal da Cruz?

Igual ao mundo pagão que lhe serve de mestre e de modelo.
O mundo de hoje só conhece e adora

o deus-eu,
o deus-comércio,
o deus-dinheiro,
o deus-ventre,
o deus-prazer.

Conhece e adora

a deusa-indústria,
a deusa-politicagem,
a deusa-volúpia.

Por serem meios de satisfazer a todos os seus maus desejos, ele conhece e adora as ciências da matéria: - a química, a física, a mecânica, a dinâmica; as essências, os sulfatos, os nitratos, os carbonatos.

Eis aqui destes séculos as suas divindades e o seu culto.

Eis aqui a teologia, a filosofia, a política, a moral, a vida do mundo moderno: - O egoísmo com seus vícios. – Progredindo assim, breve estará ele bem a par dos contemporâneos de Noé, destinados a morrer nas águas do dilúvio.

Para aqueles também consistia-lhes toda a ciência em conhecer e adorar os deuses do mundo moderno.

Consistia em comer, beber, edificar, comprar, vender e casar cada um, a si e aos outros na depravação.

O homem tinha concentrado sua vida na matéria.

Havia-se ele mesmo tornado carne: ignorante como as carnes e manchado como as carnes. (1)

De todas estas más tendências, qual é a que falta ao mundo atual?
De resto, nada de melhor o mundo hoje exige de sua própria essência.

Não sabendo fazer e não fazendo o Sinal da Cruz, ele se materializa.

Em virtudes, pois da lei de gravitação moral, o gênero humano tem forçosamente de recair no estado em que estava antes de amar a este Sinal salvador.

Digamos a este mundo ignorante de hoje:

O Sinal da Cruz é um livro que nos educa e nos eleva.

Sob tal ponto de vista, podes agora julgar se era sem razão que nossos pais constantemente faziam o Sinal da Cruz.

Agora vais ver que, há uma ignorância mui deplorável do mundo atual é que se deve imputar, em grande parte, o abandono do Sinal da Cruz.

Que é a ignorância?

É a indigência do espírito.

Em matéria de religião, ela acusa sempre a indigência do coração. E tal indigência procede da fraqueza em – praticar a virtude e repelir o mal.

E porque existe tal fraqueza? É porque o homem despreza os meios de obter a graça e de torná-la eficaz.

O primeiro, o mais pronto, o mais vulgar, o mais fácil destes meios, é, como sabes, a oração. E de todas as orações, a mais fácil, a mais pronta, a mais vulgar, e, talvez, a mais poderosa, é o Sinal da Cruz...

Nota:

1Sicut autem in diebus Noe ita erit et adventus filis hominis. Sicut enim in diebus ante diluvium comedentes nubentes, et nuptui tradentes… donec venit diluvium et tulit omnes. (Math., XXIV, 37,38,39.)

- Edebant et bibebant; emebant et vendebant; plantabant, et oedificabant. (Luc., XVII, 28.)

- Omnis quipe caro corruperat vitam suam super terram. (Gen., VI, 12)
- Quia caro est. (Ibid., 3.)

(Excertos do livro: O Sinal da Cruz por Monsenhor Gaume, Protonotário Apostólico, livro que de Pio IX mereceu um “Breve” especial, primeira tradução brasileira cuidadosamente calcada sobre a 4ª edição francesa, 1950)