sexta-feira, 18 de março de 2011

Livro: As virtudes do Pe. Júlio Maria C.Ss.R.

Nota do blogue: Agradeço a generosidade da Ana Gláucia e da Alexandria católica, sem a ajuda delas não conseguiria disponibilizar esse livro no blogue.

pelo
Padre Júlio Maria C.Ss.R.
(clique em "As Virtudes" para baixá-lo)


A Mãe dolorosa

A Mãe dolorosa


Estava a Mãe dolorosa
Chorando junto a Cruz 
Enquanto o Filho pendia
Cuja alma a gemer,
Triste e magoada
Foi transpassada de um gládio.

Ó, como esteve triste
E aflita, a bendita
Mãe do Unigênito.

Esta Mãe piedosa agonizava
E sofria, vendo as dores
Do ínclito.

Qual o homem que não chorava
Se visse a Mãe de Cristo
Em suplício tão cruel?

Quem não se contristaria
Contemplando a Mãe de Jesus
Agonizando com o Filho.

Pelos pecados de Seu povo
Ela viu Jesus em tormentos
E submetido à flagelação.

Viu o Seu doce amor,
Morrendo desolado
E expirando o último alento.

Eia, Mãe fonte de amor,
Fazei que eu sinta a força da dor
Que eu chore conVosco
Fazei que arda o meu coração
No amor de Cristo Deus
Que eu Lhe dê gosto.

Santa Mãe fazei isto:
Gravai profundamente as chagas
Do crucifixo no meu coração
Compartilhai comigo as penas
Do Vosso Filho que tanto se
Dignou de sofrer por mim.

Fazei que eu chore conVosco
E me compadeça do Crucificado
Enquanto viver.

Junto da Cruz quero estar ConVosco
e desejo unir-me a Vós no pranto.

Ó Virgem entre todas singular,
Não me deixeis de atender.
Concedei-me chorar conVosco.

Fazei que esteja em mim a morte de Jesus,
Que me torne participante da Paixão,
E que Lhe venere as chagas.

Fazei que eu seja ferido pelas Chagas,
Que eu me inebrie na Cruz
E no Sangue do Filho.
Para não ir abrasar-me nas chamas
Que eu seja defendido por Vós
No dia do juízo.

Ó Cristo, quando eu tiver de partir,
Concedei-me, por Vossa Mãe,
De ir receber a palma da vitória,
Quando o corpo morrer,
Fazei que seja dada à alma
A glória do Paraíso.

Amém.

quinta-feira, 17 de março de 2011

II Meditação - Jesus no Jardim das Oliveiras (II de IV)

 II Meditação (II de IV)
Jesus no Jardim das Oliveiras



Consideremos a oração de Jesus no horto. O divino Salvador, sentindo o Seu Coração ferido por uma tristeza, procura na oração o remédio que O console... Como Jesus Cristo sabe orar! Ora com reverência, prostrando-Se com a face em terra... Ora com confiança exclamando: Pater mi, Meu Pai. Ora com humildade e resignação, submetendo-Se em absoluto à vontade de Seu Pai celeste: “Se é possível afaste-se de Mim este cálice, porém não se faça a Minha vontade, mas a Vossa”... Ora com perseverança, pedindo a mesma coisa durante uma hora. Lembremo-nos do modo como temos feito as nossas orações e aprendamos com Jesus no horto a orar como Ele mesmo orou. Afirmemos-Lhe o nosso amor sobre todas as coisas e prestemos-Lhes as nossas adorações.

Atos de caridade

Ó Jesus, Deus infinitamente bom e digno de ser amado:
Todos: Jesus, eu Vos amo.

Ó Jesus, que todos os dias Vos imolais por nosso amor no santo altar:
Todos: Jesus, eu Vos amo.

Ó Jesus, que quereis alimentar a nossa alma com o Vosso sacratíssimo Corpo vivo e verdadeiro:
Todos: Jesus, eu Vos amo.

Ó Jesus, eu Vos amo mais que as riquezas do mundo, mais que a meus amigos, mais que a meus parentes e a meus pais:
Todos: Jesus, eu Vos amo.

Ó Jesus, eu quisera amar-Vos mil vezes mais, e ver-Vos amado como Vós mereceis por meus pais, parentes, amigos e por todos os homens:
Todos: Jesus, eu Vos amo.

Meu Deus aumentai a minha caridade para Vos repetir com maior e mais terno ardor:
Todos: Jesus, eu Vos amo.

Atos de adoração

Ó Jesus muito amado, para Vós todas as minhas homenagens de respeito e amor:
Todos: Jesus, eu Vos adoro.

Para Vós todos os meus pensamentos, palavras, ações e sofrimentos:
Todos: Jesus, eu Vos adoro.

Para Vós o tempo que me dais, para Vós a minha vida inteira:
Todos: Jesus, eu Vos adoro.

Eu me uno aos louvores que recebeis das almas justas e dos santos do céu, dizendo:
Todos: Jesus, eu Vos adoro.

Eu me uno às adorações que vos tributam os Anjos e a Virgem Maria repetindo:
Todos: Jesus, eu Vos adoro. 

Jesus aumentai em mim o espírito de adoração para clamar cada vez com mais fervor:
Todos: Jesus, eu Vos adoro.

(Oração retirada do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

PS: Grifos meus.

Ver a primeira Meditação AQUI

quarta-feira, 16 de março de 2011

Suzana ou a Louca que amua

Suzana ou a Louca que amua


É engraçado ver alguém zangar-se! Uma das coisas mais engraçadas da criação! Oh! esta cabeça! Estes olhos que lançam chispas semelhantes a um fósforo que nega fogo! Esse nariz trêmulo! Esses dentes cerrados que só se abrem para tomar a sopa! Levantar-se sem dizer bom-dia! Deitar-se sem dar as boas-noites! Esse queixo inerte! Esse ar ridículo que quer parecer temível! Essa boca fechada num silencio inútil! Esse sonho assassino que não matará ninguém! Essa face que rumina inofensivos projetos de vingança! Esse barulho de vulcão sem lava, que não intimida a ninguém!

É bonito alguém amuar... Um menino que se zanga! Uma meninota quando se zanga! Uma jovem zangar-se! Depressa, um espelho!

Que faz ela, minha senhora, a sua Suzana? – Ela está amuada, sentada à janela. Ela se aborrece lendo; lê aborrecendo-se. Tem um desejo louco de não mais se zangar, mas zanga-se assim mesmo, porque, quando se zanga, zanga-se e está acabado...”

Também as almas se aborrecem. E isso é mais grave, mais inquietante.

Moralmente falando, é estar descontente, querer mal a alguma coisa ou a alguém, recusar o “sim”, ser indomável, refugiar-se numa resistência que se sabe vil, agir sem entusiasmo, e murmurar embora se obedeça à autoridade que se amaldiçoa e, ao mesmo tempo, se respeita. Existe também despeito e como que uma censura amarga ao ideal que se alimenta.

É tudo ao contrário do que Deus ama naqueles de quem Se serve, Ele que pede generosidades espontâneas e não empregados mal humorados e imprestáveis...

Há quem amue com o dever

O dever é o que tem de ser feito em determinado momento, se é que se quer cumprir com a vontade de Deus. Em si mesmo, não é agradável nem penoso. Agradável ou penoso é o que tem que ser feito.

É aborrecido porque não pode ser escolhido

Ora, comumente, não se escolhe o dever. Aceita-se. E fica-se aborrecido por ele se impor assim, sem primeiramente se informar se agrada ou deixa de agradar. Vindo de Deus, será preciso que se peça permissão? Por acaso a doença, a chuva, a neve e a telha do telhado nos pedem licença para caírem sobre nossa cabeça?

O dever é uma telha? Sim, muitas vezes. Em todo o caso, seja telha ou codorna assada, como vem de cima, nada mais temos que fazer senão apanhá-lo e abraçá-lo respeitosamente.

Mas eis que surge coisa diferente do que sonhávamos. Havíamos organizado de modo diferente a vida. Eram outras as preferências e eis que ele chega, como um indiscreto, um mal educado. Com que direito?... Daí a vontade de mandá-lo para o diabo, esse mensageiro de Deus... Ou então, ao menos, deixá-lo ficar esperando na porta e, depois de fazer o que se quer, vir recebê-lo.

Mas a audácia não chega a tanto. Há educação. Abre-se a porta ao dever. Mas a impressão é de uma amabilidade forçada, que até deixa de ser amabilidade E, muitas vezes, nem chega a isso. A alma torna-se descontente, sem alegria, sem amor, e a criatura, sem poder libertar-se, age a seu modo.

E, no entanto, ele é realmente o mensageiro da vida, aquele que traz consigo o segredo da verdadeira beleza moral, do firme progresso. É o programa infalível. O caminho reto para Deus. Fora dele arrisca-se a encontrar ilusões, capricho, mentira. Para a alma esclarecida, que compreende, é a coisa sagrada que talvez não se tivesse inventado bem desejado, mas que, uma vez dada, se deve apanhar com vigoroso amplexo, deixando de lado tudo o mais.

É aborrecido porque não tem brilho

De fato, muitas vezes não o tem. E como o haveria de ter, se a vida da maior parte das criaturas se compõe de mil pequenos nadas reunidos, com os quais se tece uma existência inteira! Apenas alguns seres, no conjunto geral, têm um destino brilhante a cumprir, e são exceção os que contam com algo de sensacional. Instintivamente, prefere-se trabalhar no macio, no delicado. O fabrico contínuo de meias grosseiras, ao qual alguns estão condenados e resignados, outros, em determinadas horas, não seriam capazes de o suportar. Ah! Produzir alguma coisa notável! Não passar sempre desapercebido! Vir a ser alguém a quem se admira! Se uma artista aplaudida! Uma cantora! Um “giri” seja do que for! Uma rainha de beleza ou mesmo de feiúra, contanto que seja uma rainha, como retrato nos jornais e o nome num cartaz!

Então! São raras as rainhas! Ao passo que camponesas, costureiras, datilógrafas, empregadas, disso “estão cheias as ruas”. Quanto mais houver, menos importância se lhe dará. E assim a vida desliza na obscuridade, cheia de ocupações não de todo inúteis, mas cuja glória única está em ganhar o pão e só preencher o tempo.

Se nos pudéssemos libertar de tudo isso! Mas não é possível. Ainda não resignada, não compreendendo ou só compreendendo as coisas pela metade, a senhorinha fica aborrecida. Aborrece-se por ter que ser quem é em vez de ser de maneira diferente. Pobre dever, cinzento como o céu de Lyon...

É aborrecido por ser monótono

Evidentemente! A menos que se queira mudar de casa, de profissão e de marido todos os anos, assim terá que ser até o fim. É espantoso que o dever de hoje se assemelha ao de ontem, como se assemelhará ao de amanhã.

Apenas uma pequena interrupção, o domingo (uma vez por semana)... as férias (não para todos) uma vez por ano... O casamento (na maioria das vezes) uma vez na vida... E tudo recomeça novamente... Surgirá daí a frase: “A meada da vida?” Talvez. Nesse sentido, têm razão de assim de exprimir. A vida é isso: uma monotonia. E até a morte, que, afinal, não passa de uma novidade, ao menos para aquele que por ela é visitado.

Porque, para o conjunto da humanidade, também a morte age monotonamente. Imaginem seu gesto de ceifadora, seu balanceio contínuo, essa queda, sem igual, da cabeça inerte sobre os ombros...

O dever é monótono. Como ele o é e o será sempre, a sabedoria manda que se o tome como é e, se nada adianta zangarmo-nos, seria mais acertado aceitá-lo com coragem, caso não se possa fazê-lo com um sorriso.
Muitas, que o compreenderam, aceitam-no. E acontece que essa aceitação torna a monotonia menos monótona, elas acabam por amar a esse dever “sempre igual”.

Outras, no entanto, vingam-se ficando amuadas. Parece-lhes que, com tal proceder, desforram-se e compensam-se. A ilusão seria inofensiva se não prejudicasse moralmente a vida. Perde-se tempo, trabalha-se sem alegria e sem alma. O dever foi praticado sem que se obtivesse o benefício espiritual que daí poderia resultar.

Não é a variedade de dever que interessa. As vidas verdadeiramente belas não são essas em que se encontra o inédito, o imprevisto e o novo.

Aborrecer-se é coisa louca, porque é inútil e até mesmo prejudicial. Insensível à careta que lhe fazemos, a vida continua com seu programa. E acontece que, no fim, por termos ficado amuadas, quando era necessário agir, sofremos e pouco merecemos.

Na mesma essa pobre, a Virgem Maria, durante anos seguidos, fez, dia a dia, o mesmo trabalho, a mesma cozinha, a mesma oração. Ao lado, inclinado sobre tábuas da mesma madeira, Cristo aplainava. Ora, dizia Bossuet, “não existe nada de maior neste mundo do que Jesus Cristo”... Naturalmente que não!

Há quem amue com a consciência

Culpada, medíocre, covarde e um pouco envergonhada de ser tudo isso, a consciência não está do lado dela. Não é, pois, feliz. Ela está contra si, assustada. O interior de si mesma está dolorosamente divido. A consciência acusa o coração. O coração despreza a consciência.

Também a alma se aborrece, pois não é bastante generosa para descansar em sua vitória, nem bastante vencida para se conformar com a derrota. Ela se amargura ainda com a nobreza que lhe resta e a precisão de vistas que não a deixa ignorar.

Seria tão simples não ter remorsos, pecar sem constrangimento, deixar de ouvir a voz lancinante, lançar seus apelos! Porque esses golpes repetidos à porta da casa onde ela desejaria divertir-se desenfreadamente? Porque esse olhar penetrante no canto do quadro onde desejaria gozar livremente? Porque essa mão que desperta a alma quando seria agradável dormir tranquilamente? Porque esse sussurro no ouvido esquerdo, quando o direito escuta uma confissão de amor?

Existem, entretanto, algumas que riem a bom rir e, em seus prazeres, por eles ficam dominadas, não tendo nem um minuto disponível para se concentrarem um pouco e se julgarem.

Essas têm sorte!...
Mas não falemos nelas.

Ora, um minuto de clarividência, bendizem seu tormento – sinal de vida – ora, nas horas sombrias, o amaldiçoam. Há quem amua com a consciência, senhora tirânica, incorrutível testemunha. Aborrece-se com aquela que não deixa ninguém sossegado e cujo prazer se diria consiste em importunar as pessoas e cujo ofício está em irritá-las.

E nisso há um fundo de verdade. Existe, na consciência, alguma coisa do estudo atento, alguma coisa do juiz instrutor, e muita coisa da mosca que nos importuna em noites de calor.

Ela aborrece pelo que é, pelo que quer, pelo que proíbe. Mas, apesar de tudo, ninguém ousa abafá-la. Deixa-se que respire profundamente e isso impede de dormir. Receia-se expulsá-la. E ela aí permanece, pertinho, tão perto que chega a penetrar no íntimo da pessoa, o que impede de ficar só. Faltando a necessária coragem para entrar em acordo com ela, pelo simples ato de submissão, fica-se amuada com esse estranho mau humor espiritual de que muitas almas, nascidas para a bonançosa paz, se fatigam sem proveito algum.

E é justamente o contrário, o que deveria ser feito. Quantas vezes somos castigados pelas pessoas que nos amam! O médico que nos opera, cura; quem nos adverte, preserva; quem nos faz mal, faz-nos bem.

Querer mal à consciência pelo papel que representa e continuará representando apesar de todo o nosso mau humor, é querer mal ao próprio Deus porque Ele Se resigna com nossas mediocridades e porque quer arrancar do coração um estilhaço de granada. Há, portanto, de Sua parte, uma prova constante de interesse e de fiel amor. Preferir-se-ia que Ele se calasse, que a chama ardente das íntimas censuras esfriasse no fundo da alma. Mas, desejando-se isso, que é que se quer? O fim da única verdadeira vida.

Se nos tomassem ao pé da letra, que catástrofe! Se, uma noite, a consciência, cansada de tanto mau humor, desistindo de ver um sorriso corajoso em seus lábios e sentindo que ela vos aborrece, se dispõe a ir-se embora por uma vez e para sempre, será a morte para a alma! Tornamo-nos culpados sem o saber. Onde encontrar esse sagrado mal-estar que é o começo da salvação porque provoca arrependimento e esperança? De onde virá o pensamento de sair de um túmulo que se acredita seja um bom leito? Quando se é culpado e se está sossegado, covarde, mas altivo, desonrado, mas feliz, está-se mais perdido que nunca. Naturalmente, não se vai procurar uma corda para nos enforcarmos, pois “tudo vai indo muito bem” (?) e nisso se tem razão, mas, também não se chamará o Salvador para, do alto do precipício, lançar a corda da salvação, e isso é que é de lastimar.

Divina consciência, cujas mãos deveriam ser beijadas na hora mesma em que nos castiga! Louca, três vezes louca, a jovem que com ela se zanga. Não sabe o que faz, como também não o sabiam os fariseus quando criticavam a Jesus.

Entre vocês, jovens cristãs, quantas há que se aborrecem com a consciência? Se fossem marcadas com uma cruz negra pelo anjo do Senhor, quantas não trariam a cicatriz no fundo do pobre coração?

Há quem se aborreça com os chamados de Deus

A consciência é a angustia de se sentir culpado e a recusa oposta aos nossos desejos de ilegítima tranqüilidade. O chamado de Deus é, para nós, a culminância do progresso, o tormento do ideal, a passagem no fundo da vida, de um ser misterioso que, com um gesto, nos indica as alturas!

Não possui os mesmos sons, a mesma intensidade, nem insiste na mesma freqüência com todas as almas.
Porque os desígnios de Deus são individuais, individual é a missão de cada um, os caminhos são diversos, como diversas são as agruras da estrada.

Entre quinze e vinte anos, como soa nas almas o sino do Senhor! Sino dos domingos, chamando a vida à piedade. Sino das bodas, chamando à vida religiosa. Sino dos funerais, que ressoa ao apelo do sacrifício.

E, quando se é inteiramente generosa para com o sino de Deus, logo que ele bate, a jovem levanta-se e, sem hesitar, dirige-se alegre e confiantemente para onde Ele chama.

Quando não se tem coração para responder, embora o ouvido o tenha escutado, fica-se aborrecida.

É o caso do preguiçoso que reclama quando, nas manhãs frias de inverno, precisa deixar a cama. O caso da jovem leitora, encantada com o romance que tem nas mãos, e a quem a mãe pede para varrer a casa. O caso do coração que bate em compasso de amor e que, bruscamente, é interrompido.

Quando se está bem num lugar, porque não virar as costas a quem atrapalhar? E quando se está calmamente bordando num quarto ensolarado, como não indignar-se contra o vento que abre a janela num rompante e contra a voz longínqua que ordena andar só por um caminho coberto de neve?

Foi deste modo que o jovem do Evangelho se aborreceu quando Jesus disse: “Vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e segue-Me”.

Em se tratando dos outros, reconhece-se, teoricamente, que semelhante chamado é uma honra, que a vida melhor é a única digna de ser vivida, que o sacrifício enobrece, que é, até, o mais seguro caminho para a felicidade, e que aquelas a quem o Mestre chama devem ser invejadas. Desde, porém, que se é a escolhida pelo Mestre, quantas vezes não se muda de opinião? O olhar se entristece, os lábios tremem, a fronte cai. Pensa-se minuciosamente em tudo que se terá de sacrificar e em tudo que se terá de sacrificar e em tudo que não mais se poderá fazer. E sentimo-nos tão mal!

O apelo de Deus é exigente
Há quem amue com essas exigências

É coisa inevitável: corresponder a um primeiro chamado é expor-se a ouvir um segundo mais forte. Diante da alma abre-se a perspectiva de um “sempre mais” que atemoriza. Para que isto se verifique, não há necessidade de que o Mestre chame ao Carmelo. É suficiente que Ele, dentro ou fora do mundo, chame a uma vida menos medíocre, a uma vida cuja meta se desconheça, que a conduza por uma íngreme ladeira, coisa que fatiga e, de antemão, desencoraja. Pensa-se naquelas que não foram escolhidas por Cristo e, no entanto, Este, com Seu misterioso amor, parece satisfazer-Se com o pouco que Lhe oferecem. Fica-se com inveja delas. Apreciam-se as que Deus deixa tranqüilas e às quais permite comer, em amargura, o pão dos prazeres cotidianos. Elas dançam, sem que a consciência as acuse, amam, sem que uma voz as perturbe, semelhante ao grito de um ferido dentro da noite.

Pelo exemplo que têm das outras, estão certas de que se, ao invés de amuarem, aceitassem de boa vontade, seriam logo recompensadas. Mas, do saber ao querer, há um grande caminho a trilhar e, enquanto se espera passar de um para o outro, não existe outra coisa a fazer senão amuar.

Além disso, o chamado de Deus significa sacrifício... o sacrifício aborrece.

Se Deus quer transformar-se numa bela realização, quantas coisas, grandes e pequenas, se tornam obstáculos à sua obra!

Impossível é viver a verdadeira viva sem morrer aos poucos. Para se transformar em estátua, o bloco maciço terá de suportar os golpes do martelo. A alma só empreende o vôo para as alturas se arrancar o visgo que a ela adere, se desprezar o alforje pesado, cortar o fio que a aprisiona. Ora, o fio a cortar está preso na carne viva; no alforje está o pão cotidiano dos prazeres, suave de levar; e este visgo que a ela adere é a alegria humana de viver.

A lei do sacrifício é absoluta para aquelas que foram escolhidas por Deus, se aceitam.

Eis porque, na impossibilidade de modificar o programa e, ao mesmo tempo, não podendo transformá-lo a seu bel-prazer, torna-se o ser atormentado, abalado, não sabendo a qual dos dois senhores seguir. Nem a um nem a outro responde “sim” ou “não”. Espera, retarda o tempo. E, até chegar a hora do êxito generoso ou da derrota covarde, amua... Não poderia Ele levantar um método mais brando, menos rude?

De maneira que, nesse mau humor, há, ao mesmo tempo, a censura feita a Cristo por agir assim e nos ter escolhido, a nós, para realizarmos o que traçou.

Loucura, esse mau humor. Mas que adianta dizê-lo à interessada?... Ela bem o sabe. Sabe-o demasiadamente. E o sabê-lo torna-a ainda mais mal humorada porque, às duas razões que tem para se aborrecer, junta-se ainda uma terceira que é a de não ignorar sua loucura.

E até quando durará esta situação? Até que ela ceda inteiramente e, aceitando, encontre o segredo de ser feliz... Até que ela recuse inteiramente e, enfim, encontre o segredo da audaciosa tranqüilidade... São possíveis as duas conclusões. Mas ambas não se equiparam. A primeira é um passo triunfal para a sabedoria, ao passo que a segunda, jovem, é um passo a mais na loucura...

(Jovens: Vocês e a vida, coleção moças pelo Fr. M. A. Bellouard O. P, Edições Caravelas LTDA, RJ, ano de 1950)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Jesus recebendo a Cruz

Jesus recebendo a Cruz


Veni, sponsa mea!
Vem, ó Minha esposa!

Volvei séculos na fantasia; transportai-vos a cidade de Jerusalém: enorme multidão enche as ruas e as praças públicas; arautos fazem soar as suas trombetas; pela cidade desfila ruidoso séquito, cujo caminho abre o centurião.

Todo aquele povo está alvoroçado. Que acontecimento se opera? Que fato tão singular desperta assim a pública atenção?! A história nos diz simplesmente que era Jesus Cristo que seguia o caminho do Calvário, acompanhado dos Judeus, que tripudiavam de infernal alegria por terem, enfim, conseguido da infâmia dos seus magistrados a mais infame de todas as condenações.

Eu também vejo tudo isso; mas, iluminado por melhor luz que a luz da história, vejo naquela multidão um verdadeiro cortejo; ouço nas trombetas que soam verdadeiramente os hosanas do céu; vejo no condenado o Esposo eleito; na Cruz que Lhe dão e que Ele conduz vejo a Sua esposa dileta; no Seu trajeto doloroso para o Calvário vejo a marcha triunfal para o templo onde se consumará o consorcio em que deve receber a única esposa digna do Seu amor!

Então, me perguntareis: esse grande acontecimento, esse fato estrondoso que se passa em Jerusalém não é senão a festividade de um casamento? Sim; é um casamento; porque, fototipo de todos os laços sagrados, o casamento abrange a universalidade das coisas.

Casar, diz católico e erudito publicista, é chamar alguém, alguma coisa para si, identificar-se com ela. Casa-se o monge com o seu monge com o seu mosteiro, o rei com o seu reino, o senhor com o seu domínio, o lavrador com a terra. Também Jesus Cristo se casou: casou-Se com a Cruz.

Sim; é um casamento: e o encanto de todos os esposais; a ternura de todos os noivados; a ventura de todas as núpcias não igualam a felicidade desse casamento, que não foi senão o consórcio da humanidade com Deus.

Este consorcio consumou-se no altar do Calvário; mas os esponsais tiveram lugar nas ruas de Jerusalém, a louca, a cega, a cruel, a obcecada, que não pode divisar através das sombras de seu ódio a beleza de tão divino casamento, cujas pompas triunfais são as próprias crueldades de que ela o cerca, e das quais a sabedoria de Deus tira a exaltação de Seu Filho.

Também o século, eu sei, não compreende estas espécies de casamento: ele, que tem em consideração todos os casamentos, até mesmo o civil, não ouvirá sem incredulidade falar de núpcias místicas, de casamentos espirituais.

Não estamos mais nas épocas de fé em que o mundo admirava e as belas artes celebravam o consorcio de Santa Catarina de Sena com Jesus Cristo, ou o do São Francisco de Assim com a pobreza.

Não obstante, como diz São Bernardo, é verdadeiramente um contrato nupcial a união das almas com Jesus Cristo; e tudo o que se pode dizer de mais belo a respeito da intimidade, de fusão dos corações, da comunhão dos bens, nos casamentos da terra, se realiza no de Jesus Cristo com a alma humana.

O Esposo não é simplesmente uma pessoa que ama: é o Amor em pessoa, em toda a Sua infinita amabilidade.

A união é a união com Deus, a única sem desencantos; porque todas as outras pagam tributo às ilusões da vida e as fraquezas de nossa natureza: só essa não sofre decepções.

A prole é de todas a mais formosa: porque são os frutos da virtude cristã.
O dote não é somente o cêntuplo neste mundo: é a vida eterna no outro.

Também São Tomás comparava o nosso Paraíso futuro a uma espécie de união matrimonial entre Deus e a alma, na qual três dotes bem distintos nos são constituídos: a visão de Deus, a posse de Deus, a deleitação em Deus.

Ora não foi senão para unir a si todas as almas que Jesus Cristo caminha lenta e dolorosamente; todas as Suas feridas sangram; as gotas de sangue envolvem Seu corpo; as fontes abertas pela flagelação deixam ensopar o Seu vestuário. E, vendo-O caminhar fatigado, como que não podendo suportar o peso da cruz, perguntar-se-á: tendo-a desejado com tanto ardor, aceitado com tanta ânsia, como tão fraco se mostra para carregá-la?! Se real fosse a Sua alegria, não devia antes mostrar-se forte e vigoroso?!

Tudo isso, cristão, não é uma enfermidade: é um prodígio.

Ele leva uma cruz carregada de todos os pecados do mundo; e, se Ele a conduzisse com firmeza, com força própria a desconcertar os Judeus, com ar altivo e triunfante, isso não seria útil a nossa redenção. Essa cruz não teria representado a humanidade em toda a sua fraqueza; Jesus Cristo não carregaria a nossa cruz.

Levando-a, porém, vacilante, fraco, no meio de ignomínias e insultos, com esforço, dificuldades e pena, com os sentimentos de um culpado, tremendo sob o seu peso. Ele mostrou que se pôs em nosso lugar e levava a nossa cruz.

Como diz um padre, os mártires podiam, com alegria e ar triunfante contemplar as suas cruzes, porque eles a tinham recebido para glória de Jesus Cristo. Jesus Cristo não – porque Ele levava a Cruz por nós e em nosso lugar.

Na Agonia do jardim vimo-lO revestido de todos os pecados do mundo. Na Flagelação – revestido especialmente das nossas impurezas. Na Coroação de espinhos – especialmente revestido de nossas vaidades e orgulhos. Hoje, recebendo a Cruz, e no caminho do Calvário, vemo-lO mais especialmente revestido de toda a nossa fragilidade, das vacilações e fraquezas da humanidade, que não é senão muita repugnância e com muito esforço que aceita tudo aquilo que aflige a carne e mortifica a natureza.

Não obstante, este mistério é cheio de encantos: é dum mistério de encontros, de concursos e de harmonias.

Em primeiro lugar, é o encontro do Precioso Sangue com a Cruz; e neste encontro é que reside a virtude secreta da redenção.

Bastava um gemido, uma lágrima, uma súplica, o menor sofrimento ou humilhação de Jesus Cristo para salvar este e todos os mundos possíveis; mas a Eterna Justiça tinha decretado que a redenção se fizesse pelo sangue: Sine effusione sanguinis non fit remissio. E o sangue que devia resgatar o mundo não era precisamente o da Circuncisão, o da Agonia, o da Flagelação, o da Coroação de espinhos, mas o que fosse derramado no Calvário. Ora, é hoje que Jesus Cristo recebe a Cruz, é hoje que contrai os Seus esposais; é hoje que vai consumá-los. Este mistério é, pois, o prelúdio da redenção.

Em segundo lugar, este mistério é o encontro da Mãe com o Filho, até então, aos olhos, separados nos diversos mistérios da Paixão, hoje reunidos nos diversos e ambos levando as Suas coroas – o Filho a coroa de espinhos sobre a cabeça; - a Mãe – a coroa da Dor sobre o coração.

Sempre a Mãe e o Filho estiveram unidos. Maria, de fato, tinha sido o primeiro Calvário de Jesus, o primeiro altar em que a Hóstia Pura se tinha imolado; mas é hoje que as Duas Vítimas das nossas iniqüidades se nos mostram solidárias na mesma responsabilidade, no mesmo resgate, na mesma Salvação.

Este mistério é, portanto, não só a vitória do Filho, mas a suprema abnegação da Mãe.

Em terceiro lugar, este mistério é uma figura, uma profecia: a figura da Igreja, caminhando através dos séculos; a profecia de suas vicissitudes, de suas lutas, de seus triunfos; é o precioso Sangue caindo sobre bons e maus; e multiplicado, perpetuado pela Igreja, inundando o mundo inteiro no mar do seu amor.

Eis a tríplice significação do mistério.
Qual o seu ensino?

Ele nos ensina que se não encontra Jesus Cristo senão com a Cruz; e que, se Jesus Cristo a amou tanto, também nós devemos amá-la.

O que melhor do que a Cruz de Jesus Cristo nos ensina a injustiça das nossas queixas nos sofrimentos, nas tribulações, na adversidade?!

Entretanto, amamos a Jesus Cristo; mas não a Sua Cruz. Ele tem muitos, diz o Livro da Imitação, que amam o Seu Reino celestial; mas poucos que levam a Sua Cruz.

Muitos desejam Suas consolações, e mui poucos amam os Seus trabalhos.

Muitos companheiros acha de Sua mesa, e poucos de Sua abstinência. Todos querem gozar da sua alegria; poucos, porém, querem sofrer alguma coisa por Ele.

Sim. Ninguém quer a Cruz; ou, se a deseja, há de ser conformemente aos seus gostos e inclinações.

Cada um quer talhá-la a seu bel-prazer; cada qual quer que a sua cruz seja não a do opróbrio e da ignomínia, mas a do orgulho e da vaidade; cada qual quer escolhê-la.

Sou fraco e sensível; não me fiz a mim próprio; não posso suportar esta cruz; suportaria outra, esta não, porque é uma injuria que se me irrogou, uma calúnia de que sou vítima, uma tribulação que não mereço: - eis a objeção.

Ninguém, seja rei ou papa, pode viver sem cruz. Inocente, penitente ou incrédulo, todos têm de carregá-la; porque, como ainda hoje lembrava piedoso cristão, há a cruz da inocência, há a cruz da penitência, há a cruz da irreligião. Sim: o inocente sofre; o pecador arrependido chora; o ímpio ilude-se fugindo de Jesus Cristo, mas não logra viver sem tribulação.

Todos levam a sua cruz: é uma lei; mas, como ninguém se pode eximir a esta lei, cada qual quer uma cruz ao seu gosto, pretextando a sua fraqueza.

Ilusão! A cruz que cada qual carrega é a que lhe parece oposta à sua natureza, mais apropriada é as suas necessidades.

Jesus Cristo, mandando que cada qual carregue a sua cruz, não distinguiu os que a natureza fez mais fortes dos que a natureza fez mais sensíveis e fracos. As suas regras são remédios; e, por mais que nos pareça a nossa cruz resultado da vontade dos homens, não é senão obra da paternal bondade de Deus.

Sois fraco? Mas é porque sois fraco que essa cruz vos convém. Que é ser fraco e sensível, pergunta eloqüente orador cristão?

É dar tudo a natureza e nada a fé. É amar-se excessivamente a si mesmo; é deixar-se conduzir pela vivacidade de suas tendências; é querer repouso e a paz numa vida de combates. Uma alma cristã, diz o Apóstolo, deve ser uma alma forte, a prova das perseguições, dos opróbrios, da morte mesmo. Arrebatem-se-lhe seus bens, sua honra, sua reputação: que importa?! Conserve-a o tesouro da fé! Sinta, porque a religião não apaga os sentimentos do coração; mas alegra-se, porque a fé transforma as lágrimas carnais em lágrimas de amor, resignação e piedade.”

Não; não lamentais as vossas esperanças frustradas, os vossos projetos de grandeza e de fortuna dissipados, as vossas ilusões de prazer, de bem-estar e de glória aniquiladas pela injustiça, pela ingratidão, ou pela adversidade: são os sinais da vossa predestinação e a matéria de vossa cruz.

Tomai-a. Que significa tomar a cruz?

Significa, diz São Francisco de Sales, receber e sofrer as nossas penas, contradições, aflições e mortificações que nesta vida nos acontecem, sem exceção alguma, com inteira submissão e indiferença. As melhores cruzes são as que mais incomodam a parte inferior da alma. As cruzes que a nós mesmos impomos são inferiores, por serem nossas; e têm menos mérito.

Recebamos, pois, com amor as que não escolhemos e que Deus no deu, ainda que sejam de palha e não de madeira. O mérito da Cruz não consiste no seu peso, mas no modo de levar; e há muitas vezes mais virtude em levar uma Cruz de palha, porque é mais abjeta e menos conforme a nossa inclinação, do que uma bem pesada de madeira, que nos faz brilhar aos olhos do mundo, lisonjeia a nossa vaidade, e nos atrai a fama, a celebridade, o louvor.

Aquela parece abater-nos, e esta elevar-nos. Mas isto foi à mesma ilusão dos Judeus. Eles supunham não dar a Jesus Cristo com a Cruz que Lhe escolheram senão a ignomínia; e deram-Lhe a glória! Nós supomos que na Cruz que aparentemente nos dão os homens só há opróbrios: nela, entretanto, está a vontade de Deus, e, pois, a nossa glória!

Que, portanto, cada um carregue a sua cruz. É pesada?

Mas ali está Jesus Cristo, que nos ensina a carregá-la. Ele nos ajudará, diz o Livro da Imitação, pois é nosso capitão, e nosso guia, e foi também nosso exemplo. Como nosso Rei, vai a nossa frente para combater por nós. Sigamo-lO com valor; ninguém tema nem enfraqueça; ninguém perca sua glória com a vergonha de fugir da Cruz.

(A Paixão, pelo Pe. Julio Maria de Lombaerde; Cruzada da Boa Imprensa - Rio, 1937)

PS: Grifos meus. 

domingo, 13 de março de 2011

VI - Acerca da morte

VI - Acerca da morte


I. - Agora, Minha filha, medita nos tristes efeitos do pecado. Um dos mais terríveis, e que a humanidade está vendo de contínuo, é a morte. Certamente a morte é para ti a verdade mais evidente, mas por uma loucura incompreensível vives em completo esquecimento dela. Se tivesses a certeza de viver durante séculos inteiros, a tua conduta seria menos insensata, mas todos os dias vês pessoas de todas as idades e condições que baixam no sepulcro e que, chegando lá, repetem: - Hoje eu, amanhã tu. – Quantas vezes entras nas igrejas e cemitérios onde jazem muitos cadáveres. Calcas aos pés as suas sepulturas. Não ouves sair delas uma voz que te grita: - Hoje caminhas sobre as minhas cinzas, amanhã talvez caminhem sobre as tuas. – Tu vês que de todos aqueles que têm nascido desde o começo do mundo, nenhum até hoje tem sido isento da morte. Ouves padres que não cessam de te repetir que hás de morrer, mas dir-se-ia que essas palavras te não dizem respeito, porque continuas a viver perdida no meio dos prazeres e divertimentos, como se eles nunca tivessem de acabar.

Dás-te obstinadamente a terra sem nunca lançares um golpe de vista atento e penetrante como se para ela e não para o céu fosses criada, como se devesses ficar nela eternamente. Ostentas orgulhosamente a tua beleza como um pavão; não te aplicas senão a mostrar-te, a obter estima criar amizades.

Ó desgraçada! não vês a morte que levanta já a foice inexorável para te cortar a vida, que te aponta o túmulo e que te diz: - Ali irão acabar a tua vaidade, esplendor, modas, amores e excessos. Ah! Ela virá, Minha filha, está já próximo o dia em que te obrigará a abandonar tudo e baixar à cova onde o corpo que idolatras será presa de podridão e dos vermes.

Oh! pensa bem nela uma vez, se não queres morrer para sempre.

II. - Não só morrerás um dia, ó Minha filha, mas já estás morrendo. Trazes em ti um gérmen de morte, que se desenvolve cada dia. O tempo passa, voa; e um verme roedor devora incessantemente a tua vida como uma planta débil. Cada mês que acaba; cada dia que decorre, cada hora que passa, abrevia outro tanto o curso da vida. É um passo a mais para o sepulcro. Uma geração passa, outra lhe sucede, e assim todos, uns após outros, vão perder-se na eternidade como as águas dos rios se perdem no oceano.

E tu, que estás tão perto da morte, tu, a quem domina já o seu império, ó Minha filha, tu a quem esse algoz inexorável segue pouco a pouco até ao momento em que deverá executar-se sobre ti a sentença proferida no céu: Foi decretado que todas as criaturas morram uma vez; vives sem pensar nela, como se fosses a única preservada. Ah! Este pensamento entristece-te, porque perturba as tuas paixões, faz-te estremecer, derramando a amargura sobre cada um dos teus prazeres; buscas afastar de ti tudo aquilo que te recorda à morte.

Mas poderás assim impedir que ela chegue e se avizinhe de ti? Pensa nela, pelo contrário, seriamente, ó Minha filha, se queres ser verdadeiramente prudente, porque este pensamento é um daqueles que podem pôr um freio as paixões rebeldes e dar-te da terra uma idéia justa. Se tivesses a certeza que o mundo acabava em cinqüenta anos, não poderias mais olhá-lo senão com compaixão, não poderias mais dar-te a ele. Mas julgas seres imortal?

Primeiro que cinqüenta anos sejam decorridos, não estarás morta e o mundo não terá acabado pra ti?! Ah! Solta desde já o coração corajosamente de tantos objetos que o levam ao mal, que o perturbam, que são para a consciência ocasião de pungentes remorsos.

III. – Não há momento fixo para a morte. Ela não considera nem a idade, nem a saúde, nem a força. Descarrega-se a sua foice sobre os velhos para fulminá-los de perto, reteza o arco para os novos a fim de fulminá-los de longe. As mortes imprevistas, tão freqüentes agora, dão-te uma prova evidente. Tantas donzelas de tua idade que viviam há um ano ou dois e hoje nada são, não te ensinam que te pode acontecer o mesmo que lhe aconteceu a elas? Não te julgues mais privilegiadas; não tens mais direito à vida do que elas. Quem te protege contra a cólera do céu, os venenos, as armas dum inimigo, os incêndios, os tremores de terra, as epidemias, as quedas e todos os outros males que são o apanágio do homem?

Não vês por quantos caminhos abertos a morte pode chegar a ti quando nela menos penses? Que é preciso para te dar a morte? Um sofrimento, um golpe de ar violento, muito úmido, muito frio ou muito quente, um inseto, um movimento do sangue ou dos humores. Quantas vezes os alimentos, as bebidas, os próprios remédios se transformam em venenos mortais, e o túmulo se abre antes do tempo. Quantos têm passado de repente dos festins, teatros, prazeres e divertimentos à morte e à eternidade!

Não pode acontecer-te outro tanto? Abre por um momento os sepulcros onde estão enterrados esses desgraçados. Examina!

Essas faces rosadas que excitavam tantos afetos criminosos, esses lábios purpurinos, esses olhos vivos que lançavam tantos olhares impudicos, essas cabeças outrora tão altivas, onde turbilharam tantos pensamentos de grandeza humana, caprichos, desejos de se mostrar, que tanto se aplicavam a enfeitar-se com fitas, tranças, ouro e diamantes, esses pés que caminhavam com elegância e dos quais os passos eram cadenciados, tudo está sendo um horrível misto de vermes e podridão.

Eis aí, Minha filha, em que estado a morte porá um dia o teu corpo, e mais cedo talvez que pensa. E a tua alma, que virá a ser dela se a não cuidas, se te não inquietas? Ó grande pensamento!

Afetos. – Oh! quanto não tenho sido imprevidente e louca até ao presente, ó Maria, minha Mãe amabilíssima, tendo-me afeiçoado tão fortemente a um mundo que foge diante de mim; correndo após uma sombra vã, uma ventura que se dissipa num instante, tendo tanta estima por aquilo que é mortal e tão pouco pelo que é eterno! Ai! A morte cerca-me por toda a parte, não posso dar um passo sem que veja exemplos da minha fragilidade, e, contudo tenho vivido bastantes anos esquecendo-a, afastando de mim o pensamento da morte, para não ser perturbada nas minhas mundanas e criminosas ocupações. Reconheço agora o meu erro, ó querida Mãe, e passo sem demora a repará-lo. De hoje em diante considerar-me-ei como exilada sobre terra estranha; calcarei aos pés valorosamente as vaidades e as pompas do mundo; não me dignarei conceder-lhes um olhar, e dirigir-me-ei incessantemente para a ditosa pátria a que aspiro. Para ali chegar, é necessária a custosa passagem da morte.

Que ela venha em bom momento; encará-la-ei com ânimo e mesmo deseja-lá-ei. Que é ela? Uma lei dada para os filhos de Adão. É bem justo que estando pelo pecado presos com excesso a terra, até ao ponto de esquecer Deus, a morte os force a deixá-la. Adoro as justíssimas disposições da justiça divina, e espero o momento com resignação.

Que esse momento seja feliz para mim; que eu saia do meu exílio para entrar na posse da pátria celeste. Espero alcançar essa ventura, ó Mãe muito amada, com o socorro da Vossa poderosíssima proteção.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzido do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.

Cantigas de Santa Maria - A Virgen Madre de Nostro Sennor

Cantigas de Santa Maria 
A Virgen Madre de Nostro Sennor


sábado, 12 de março de 2011

Coroa de espinhos

Coroa de espinhos


Videte Regem... in die laetitiae

Contemplai Jesus Cristo, o Rei dos céus e da terra, no dia do Seu triunfo!

Sim; contemplai Jesus Cristo no dia do Seu triunfo! Nada falta a Sua vitória: nem a coroa, nem o cetro, nem a púrpura!

A coroa, é verdade, é um diadema de espinhos; o cetro é um arbusto frágil; a púrpura é um farrapo avermelhado pelo Seu próprio sangue!

Mas que coroa querieis que colocassem sobre a Sua cabeça?! uma coroa de ouro? Essa fica melhor na cabeça dos príncipes da terra, que sabem dourar a apostasia da fé com o ouro da realeza. Que cetro querieis que colocassem nas Suas mãos?! um cetro de ferro? Esse fica melhor nas mãos dos falsários da liberdade, que sabem governar a democracia com a vara de ferro do despotismo. Que púrpura querieis que Lhe dessem?! uma púrpura rica e brilhante?! Essa fica melhor no corpo dos ambiciosos da fortuna, dos idólatras da glória, dos adoradores de si próprios, dos súditos escravizados da vaidade universal!

Toda vida tem uma coroa: a de Jesus Cristo devia ter a Sua.

O poeta, o artista, o estadista, o general, não almejam senão uma coroa. Os cuidados todos da sua vida, as preocupações todas da sua inteligência, os sonhos todos da sua imaginação, não se reduzem senão a desejar uma coroa, mas uma coroa que lhes dê a reputação, a honra, a ventura e a glória!

Jesus Cristo devia ter também uma coroa; mas uma coroa que fosse a expressão significativa da Sua vida. Ora, que coroa mais graciosa e expressiva Lhe podia ser dada que essa de espinhos?!

Que importa que ela não seja perfeitamente redonda, e que se não adapte perfeitamente a cabeça do real monarca? Que importa que ela Lhe seja brutalmente colocada no meio de zombarias e blasfêmias?! Que importa que os espinhos Lhe penetrem a pele da fronte e saiam-Lhe pelos olhos?! Que atravessem os nervos de Seu pescoço?! Que penetrem no Seu crânio?! Que lhe rasguem as carnes como aguilhões?! Que importa que Ele trema da cabeça aos pés num suplício intolerável; que uma nuvem de sofrimento cubra Seus olhos, e Seus lábios se tornem lívidos?!

Era essa coroa que Ele desejava; a que Lhe convinha é a que tinha direito a Sua realeza.

A que Ele desejava porque era preciso que a cabeça não invejasse, por dizer, a sorte dos outros membros do corpo, que todos tinham pago um tributo de sangue. A cabeça devia pagá-lo; e derramou também a sua porção de sangue, que, se não foi abundante, foi igualmente precioso, porque foi o sangue de Seu cérebro; o sangue que tinha nutrido os mais fortes, os mais belos e os mais generosos pensamentos: os da nossa Salvação; foi o sangue com que Ele tinha alimentado o mais grandioso de todos os planos humanitários: esse que já dezenove séculos desenvolveram; que há de ter o seu Hosana imenso, e cujos triunfos parciais são bastantes para nos assegurarem o seu profetizado definitivo triunfo.

Era a que Lhe convinha porque a cabeça é a parte do corpo mais em relação com o coração. A cabeça é a sede dos músculos, nervos, veias, artérias, que se relacionam com todos os membros, de modo que a menor lesão da cabeça todos os outros membros do corpo sofrem; e era isto o que convinha ao Amor Encarnado, desejoso de em todos e em cada um dos membros de Seu corpo pagar a pena dos nossos pecados.

Convinha que este corpo, representando toda a carne da humanidade, fosse martirizado e nós pudéssemos hoje dos sofrimentos de todos e cada um dos seus membros tirar a expiração das iniqüidades cometidas por todos e cada um dos membros do nosso corpo.

Era, finalmente, a coroa, a que tinha direito a Sua realeza. Uma de ouro dar-Lhe-ia a aparência de um rei da terra; uma de louros a aparência de um simples triunfador humano; mas uma de espinhos, diz ilustre padre, anuncia-o verdadeiramente como o Rei da Humanidade, isto é, da nova humanidade que Ele veio fundar; e tão perfeitamente Lhe assenta essa coroa que os profetas extasiavam-se, vendo-a de longe.

É uma coroa de espinhos; entretanto, eles chamam-na uma coroa de pedras preciosas: posuiste Domine super caput ejus coronam de lapide precioso.

É uma coroa sem arte sem beleza; entretanto, eles chamam-na uma coroa divinamente formosa: corona speciei.

É uma coroa de loucura e dor; entretanto, eles chamam-na uma coroa de sabedoria: corona sapientiae.

Mas toda a coroa exige um cetro e uma púrpura: uma coroa de espinhos exigia um cetro irrisório e uma púrpura ridícula. Este cetro é o que Lhe convinha; esta púrpura é a que devia orná-lO.

O Rei que veio fundar o Seu Reino com os atrativos da Graça e não com a força das armas; não pelo terror, mas pela doçura; não pela violência, mas pelo amor; não pela sabedoria do mundo, mas pela loucura da Cruz; que veio levantar tudo o que é humilde, glorificar tudo que é abjeto, devia ter como cetro o mais frágil dos vegetais.

O rei do Amor não devia também, como muitas vezes os reis da terra, ter a Sua púrpura manchada pelo sangue das revoluções e das guerras; mas avermelhada pelo Seu próprio sangue.

Era preciso que os reis, e os outros chefes das nações que as não conseguem governar realmente com seus cetros de ferro; nem se fazerem adorar apesar de suas púrpuras majestáticas ou democráticas – vissem Jesus Cristo consegui-lo com um cetro de cana e uma púrpura esfarrapada.

Os Judeus, pois, supondo confundir a Jesus Cristo, não fizeram senão dar-Lhe as insígnias que convinham à Sua realeza.

Era triste então o estado da nação judaica; profunda a sua decadência política, civil e religiosa; e tão obliterados os sentimentos que, supondo aspirar a liberdade, de que o despotismo romano a tinha despojado, de fato não queria senão a escravidão.

Como todos os povos corrompidos, e que não vêm nas calamidades e misérias o justo castigo de seus pecados, o povo judeu volve-se para todos os lados a procura da salvação; mas não atina com o verdadeiro caminho por onde deve seguir.

Se tivesse correspondido a sua vocação divina, seria o povo arauto da humanidade; repudiou-a, porém, e a sua vida nacional não se torna mais que uma humilhação.

O espírito público enfraqueceu-se; as classes sociais desmoralizaram-se; o lar prostituiu-se; o próprio sacerdócio, aviltado, deixou corromper-se a religião, e profanarem-se os templos.

Então, despojado de sua autonomia, perdida a sua grandeza nacional, oprimido pela tutela romana, ele suspira por um libertador.

Mas que libertador? Um general forte e poderoso, acompanhado de exércitos, e que com a espada desembainhada, ganhando batalhas, devastando cidades, subjugando todos os outros povos, lhe restitua com a liberdade política a perdida prosperidade.

Não é esta a sorte de todos os povos que apostatam a fé e repudiam a Deus?! Não é sempre, por um justo castigo, que eles apelam para a espada; e não é sempre a espada que vinga os crimes e as iniqüidades dos povos sem Deus?!

Como, pois, os Judeus haviam de compreender a verdadeira realeza de Jesus Cristo, Rei manso, pacifico, cheio de doçura e de humildade?!

Como poderiam eles tolerar que dentre os seus compatriotas um tão obscuro tivesse a pretensão de salvar a sua pátria sem nenhum dos meios humanos: a força, a riqueza, as armas e o poder?!

Não: não podiam compreender essa realeza; por zombaria dão ao Rei verdadeiro as insígnias mais irrisórias; Deus, porém, da cegueira e maldade do povo infiel, tira a glória de Jesus Cristo, fazendo que essas insígnias sejam justamente as que melhor significam a qualidade da Sua soberania e a natureza do Seu Reino.

O libertador que eles desejavam apareceu; foi recusado pela Sua pátria; mas operou, em maior escala, em todo o universo, e por meios mais prodigiosos do que os que ela imaginava a maior de todas as revoluções da humanidade. Com uma coroa de espinhos, um cetro de cana e uma púrpura esfarrapada, Jesus Cristo tomou posse do mundo, libertou o mundo, fez-Se adorar pelo mundo. Dizei-me agora: a esse Rei deviam dar-se a coroa, o cetro e a púrpura que se dão aos outros reis?!

Não era preciso que as Suas insígnias fossem diferentes, e mesmo tão humilhantes, quanto o triunfo tinha de ser universal e assombroso?!

Não contemples, portanto, simplesmente com os olhos carnais este mistério de Jesus Cristo coroado de espinhos: contemplai antes com inefável júbilo a sua beleza e o esplendor da sua glória: videte Regem... in die laetitiae.

Extrai também deste mistério o seu profundo ensino; tirai da cabeça de Jesus Cristo, coroada de espinhos, todo o proveito para a vossa salvação.

Dizei que sois cristãos. Pois bem; sois súditos de Jesus Cristo.

Mas, se sois súditos de Jesus Cristo, o sois de um Rei coroado de espinhos; e, se o vosso Rei é assim coroado, como quereis, pergunta São Bernardo, vos coroar de rosas efêmeras, isto é, pensamentos vãos, imaginações pueris, ambições loucas, avarezas e vaidades?!

O Reino do vosso Rei nada tem de terrestre e mundano; é o Reino da humildade do espírito, da renunciação das glórias e riquezas, da paz, do amor, da caridade.

Não pode o homem ser súdito desse Rei, nem viver no Seu reino, senão renunciando-se a si próprio no que tem de grosseiro e imperfeito.

Quereis ser súditos de Jesus Cristo? Eu aplaudo deveras a nobreza de vossa aspiração; porque esse reino é de todos o mais formoso.

A humanidade só conhecia três reinos: o da material, sujeito às leis físicas, o reino animal, entregue aos simples instintos, o reino humano, apenas iluminado pela fraca luz da nossa razão.


A estes três reinos Jesus Cristo acrescentou um quarto: o reino de Deus, concebido, realizado, dirigido e perpetuamente sustentado pelo próprio Deus. Todos os homens são chamados a este Reino; mas nele nenhum homem entra senão renunciando-se a si próprio, e sacrificando ao espírito de Deus essas paixões inferiores que não o deixam compreender este profundo mistério da Coroação de espinhos, sempre, mas nunca tão oportuno como na época atual.

Qual é a grande característica da nossa época? O orgulho.

O mundo está cheio de profetas novos; todos se pretendem iluminados. Todo o espírito quer ser um Messias; e todo o livro pretende ser o berço de uma nova revolução da humanidade.

Que digo? Todo o livro?! Não há jornal de aldeia que não pretenda ser um Evangelho; e os chamados apóstolos da Idéia pupulam por toda a parte, pretendendo salvar o mundo e felicitar a humanidade, nome que, em todas as burlescas liturgias das modernas religiões sociológicas, aparece freqüentemente como o símbolo do dogma que elas criaram e único que admitem: o dogma da soberania do homem.

Todos esses novos cultos do que eles chamam Idéia não são mais que uma idolatria humanitária – o culto do eu, a apoteose do homem pelo homem; porque de fato o Deus que eles adoram é a espécie eternamente progressiva e da qual, dizem eles, cada passo é uma vitória sobre a natureza. De sorte que o Cristo, não foi criador da nova humanidade; esta tem ainda de sair do cérebro escaldado dos novos Messias!

Todos esses sistemas que se propõem à razão são irrisórios, sem dúvida: mas, donde todos eles procedem? Do orgulho da inteligência, a qual nunca foi tão fútil nem tão presunçosa como na nossa época, em que todos os países têm os seus Messias, cada cidade os seus profetas, e cada aldeia os seus apóstolos da Idéia, que eles proclamam a nova, a única, a redentora.

Quereis avaliar, devidamente toda a parvoíce desse orgulho? Vede. Sessenta séculos a humanidade tem vivido na terra acreditando no casamento, na propriedade, em Deus, no céu, no inferno, no purgatório, em tudo aquilo que por assim dizer constitui o patrimônio das suas crenças.

Pois da noite para o dia levanta-se nas colunas de qualquer jornal, ou na tribuna de qualquer esquina, um mancebo, ainda imberbe, e diz “a propriedade é um roubo; o socialismo o verdadeiro direito. O casamento não é uma instituição divina nem um sacramento; é um simples contrato sexual. Deus é uma chimera; o mundo foi feito pela matéria e a força. O céu, o inferno, o purgatório são superstições da religião. Jesus Cristo não é o homem-Deus, o redentor da humanidade, o salvador dos povos. Só há uma religião verdadeira: a ciência.”

A conclusão é lógica: a humanidade inteira durante sessenta séculos viveu nas trevas; todos os espíritos, ainda os mais transcendentes de todos os séculos, foram vítimas do erro; e o tal mancebo é que possuí a verdade. Não foi Jesus Cristo o verdadeiro Messias; quem é Ele então? Sem dúvida, o tal mancebo, que não o diz por acanhamento; mas indubitavelmente nasceu para reformar os princípios, as idéias, as crenças, as leis, o direito, as instituições e a religião de sessenta séculos.

Torno a perguntar: de onde vem tudo isso? Do orgulho. E este orgulho do mancebo, aliás, resultado dos livros e jornais em que a pobre vítima se tem nutrido, e que lhe tem proporcionado os ridículos Messias dos outros países, denota algum vislumbre de inteligência?

Não; o orgulho da inteligência, pavoroso mal da nossa época, é a maior aberração da mesma inteligência. Toda a força da inteligência está no bom senso; e o simples bom senso ensina ao homem a humildade, que não é, como se pensa, uma virtude abjeta, mas a mais alta e elevada das percepções da razão.

Coloque-se o homem – diz brilhante escritor – numa planície, onde se veja rodeado de seres animados e inanimados, racionais ou privados de razão. No meio das nuvens, das pérolas, das folhas e flores, que pensamento o preocupa, que sentimento o domina? Que é uma criatura. Sim; é essa idéia a que, em tais circunstâncias, assalta de todos nós. Temos vivido tantos anos, meses e dias: ocupamos uma posição na vida. Não sabemos, porém, o que se fez antes de nós, exceto alguns fatos que a história registra; nem o que será depois, exceto alguma revelação. O homem não deu a vida a si próprio; não sabe se será feliz ou desgraçado, grande ou miserável, são ou enfermo. Por quê? Porque é uma criatura. Podia ter nascido num dia ou noite dos milhares de anos que o precederam, noutro País; mas aquele dia em que nasceu e aquele país onde surgiu à luz lhe foram dados sem audiência sua. Por quê? Porque é uma criatura. Ainda mais: a natureza bruta lhe resiste; só com muito trabalho pode cultivar a terra e fazê-la produzir. É preciso que a terra lhe forneça os minerais e os gazes; os animais - a alimentação. Por quê? Porque não é senhor dos elementos, nem mais que simples usufrutuário do globo. De fato ele sabe que não fez o planeta; e que não pode andar sobre o pó da terra sem pagar-lhe o real tributo de uma aparente dominação. Mas porque tudo isso? Porque é uma criatura. Se é uma criatura, tem um Criador. Mas esta palavra, o Criador, como é entendida em nossa época? É um nome abstrato para significar somente que não somos eternos, é a forma masculina da expressão – criação. Nos livros de moral, ciência, filosofia, política, de certo modo fala-se no Criador; mas sem que isso importe reconhecer o Criador como um ser pessoa e vivo. Deus como pessoa é questão de que ninguém se ocupa; e até nas ciências naturais – a origem, os seus elementos moleculares, as revoluções dos corpos celestes, tudo isso é estudado e explicado numa multidão de livros com um ateísmo tão ingênuo que a palavra criatura não implica nunca a necessidade do Criador.”

Torno a perguntar: donde vem tudo isso?

Do orgulho, cujo maior castigo é este: divorciar-se completamente do bom senso; porque o mais simples bom senso, de todas as reflexões precedentes tira esta conclusão: eu sou uma criatura racional, inteligente, livre; portanto, a razão, a inteligência, vontade são também atributos do meu Criador. Eu pequenina criatura, amo ou sou capaz de amar; portanto, o meu Criador, o foco de todos os seres criados, é um oceano de amor.

O orgulho é, pois, a cegueira da inteligência; a humildade o esplendor da razão.

E não é senão para nos ensinar a humildade de espírito que a cabeça de Jesus Cristo se nos mostra hoje coroada de espinhos. Estes espinhos foram nela os castigos das nossas vaidades, das nossas vanglórias, das variadas e ridículas manifestações do nosso amor próprio, que são inumeráveis!

O orgulho é, depois do dinheiro, o maior déspota desta geração, que não tolera nenhuma superioridade intelectual, não respeita nenhuma elevação moral, não admira e aplaude senão os produtos do seu cérebro enfermo, e as obras da sua torpe imaginação.

Cada espírito sabe tudo!

Mas, se o orgulho da inteligência é a expressão da nossa época; que melhor e mais oportuno ensino que o deste Mistério? Ele é a mais formosa de todas as apoteoses da humildade.

Sois homem? Sois cristãos? Quereis verdadeiramente conquistar a liberdade do coração, a paz da alma, a sabedoria do espírito – frutos da humildade?

Contemplai aquela coroa, beijai-a; proclamai bem alto: Salve, Rei da nova humanidade!

 (A Paixão, pelo Padre Júlio Maria de Lombaerde, Cruzada da Boa Imprensa - Rio, 1937)

PS: Grifos meus.