domingo, 13 de março de 2011

VI - Acerca da morte

VI - Acerca da morte


I. - Agora, Minha filha, medita nos tristes efeitos do pecado. Um dos mais terríveis, e que a humanidade está vendo de contínuo, é a morte. Certamente a morte é para ti a verdade mais evidente, mas por uma loucura incompreensível vives em completo esquecimento dela. Se tivesses a certeza de viver durante séculos inteiros, a tua conduta seria menos insensata, mas todos os dias vês pessoas de todas as idades e condições que baixam no sepulcro e que, chegando lá, repetem: - Hoje eu, amanhã tu. – Quantas vezes entras nas igrejas e cemitérios onde jazem muitos cadáveres. Calcas aos pés as suas sepulturas. Não ouves sair delas uma voz que te grita: - Hoje caminhas sobre as minhas cinzas, amanhã talvez caminhem sobre as tuas. – Tu vês que de todos aqueles que têm nascido desde o começo do mundo, nenhum até hoje tem sido isento da morte. Ouves padres que não cessam de te repetir que hás de morrer, mas dir-se-ia que essas palavras te não dizem respeito, porque continuas a viver perdida no meio dos prazeres e divertimentos, como se eles nunca tivessem de acabar.

Dás-te obstinadamente a terra sem nunca lançares um golpe de vista atento e penetrante como se para ela e não para o céu fosses criada, como se devesses ficar nela eternamente. Ostentas orgulhosamente a tua beleza como um pavão; não te aplicas senão a mostrar-te, a obter estima criar amizades.

Ó desgraçada! não vês a morte que levanta já a foice inexorável para te cortar a vida, que te aponta o túmulo e que te diz: - Ali irão acabar a tua vaidade, esplendor, modas, amores e excessos. Ah! Ela virá, Minha filha, está já próximo o dia em que te obrigará a abandonar tudo e baixar à cova onde o corpo que idolatras será presa de podridão e dos vermes.

Oh! pensa bem nela uma vez, se não queres morrer para sempre.

II. - Não só morrerás um dia, ó Minha filha, mas já estás morrendo. Trazes em ti um gérmen de morte, que se desenvolve cada dia. O tempo passa, voa; e um verme roedor devora incessantemente a tua vida como uma planta débil. Cada mês que acaba; cada dia que decorre, cada hora que passa, abrevia outro tanto o curso da vida. É um passo a mais para o sepulcro. Uma geração passa, outra lhe sucede, e assim todos, uns após outros, vão perder-se na eternidade como as águas dos rios se perdem no oceano.

E tu, que estás tão perto da morte, tu, a quem domina já o seu império, ó Minha filha, tu a quem esse algoz inexorável segue pouco a pouco até ao momento em que deverá executar-se sobre ti a sentença proferida no céu: Foi decretado que todas as criaturas morram uma vez; vives sem pensar nela, como se fosses a única preservada. Ah! Este pensamento entristece-te, porque perturba as tuas paixões, faz-te estremecer, derramando a amargura sobre cada um dos teus prazeres; buscas afastar de ti tudo aquilo que te recorda à morte.

Mas poderás assim impedir que ela chegue e se avizinhe de ti? Pensa nela, pelo contrário, seriamente, ó Minha filha, se queres ser verdadeiramente prudente, porque este pensamento é um daqueles que podem pôr um freio as paixões rebeldes e dar-te da terra uma idéia justa. Se tivesses a certeza que o mundo acabava em cinqüenta anos, não poderias mais olhá-lo senão com compaixão, não poderias mais dar-te a ele. Mas julgas seres imortal?

Primeiro que cinqüenta anos sejam decorridos, não estarás morta e o mundo não terá acabado pra ti?! Ah! Solta desde já o coração corajosamente de tantos objetos que o levam ao mal, que o perturbam, que são para a consciência ocasião de pungentes remorsos.

III. – Não há momento fixo para a morte. Ela não considera nem a idade, nem a saúde, nem a força. Descarrega-se a sua foice sobre os velhos para fulminá-los de perto, reteza o arco para os novos a fim de fulminá-los de longe. As mortes imprevistas, tão freqüentes agora, dão-te uma prova evidente. Tantas donzelas de tua idade que viviam há um ano ou dois e hoje nada são, não te ensinam que te pode acontecer o mesmo que lhe aconteceu a elas? Não te julgues mais privilegiadas; não tens mais direito à vida do que elas. Quem te protege contra a cólera do céu, os venenos, as armas dum inimigo, os incêndios, os tremores de terra, as epidemias, as quedas e todos os outros males que são o apanágio do homem?

Não vês por quantos caminhos abertos a morte pode chegar a ti quando nela menos penses? Que é preciso para te dar a morte? Um sofrimento, um golpe de ar violento, muito úmido, muito frio ou muito quente, um inseto, um movimento do sangue ou dos humores. Quantas vezes os alimentos, as bebidas, os próprios remédios se transformam em venenos mortais, e o túmulo se abre antes do tempo. Quantos têm passado de repente dos festins, teatros, prazeres e divertimentos à morte e à eternidade!

Não pode acontecer-te outro tanto? Abre por um momento os sepulcros onde estão enterrados esses desgraçados. Examina!

Essas faces rosadas que excitavam tantos afetos criminosos, esses lábios purpurinos, esses olhos vivos que lançavam tantos olhares impudicos, essas cabeças outrora tão altivas, onde turbilharam tantos pensamentos de grandeza humana, caprichos, desejos de se mostrar, que tanto se aplicavam a enfeitar-se com fitas, tranças, ouro e diamantes, esses pés que caminhavam com elegância e dos quais os passos eram cadenciados, tudo está sendo um horrível misto de vermes e podridão.

Eis aí, Minha filha, em que estado a morte porá um dia o teu corpo, e mais cedo talvez que pensa. E a tua alma, que virá a ser dela se a não cuidas, se te não inquietas? Ó grande pensamento!

Afetos. – Oh! quanto não tenho sido imprevidente e louca até ao presente, ó Maria, minha Mãe amabilíssima, tendo-me afeiçoado tão fortemente a um mundo que foge diante de mim; correndo após uma sombra vã, uma ventura que se dissipa num instante, tendo tanta estima por aquilo que é mortal e tão pouco pelo que é eterno! Ai! A morte cerca-me por toda a parte, não posso dar um passo sem que veja exemplos da minha fragilidade, e, contudo tenho vivido bastantes anos esquecendo-a, afastando de mim o pensamento da morte, para não ser perturbada nas minhas mundanas e criminosas ocupações. Reconheço agora o meu erro, ó querida Mãe, e passo sem demora a repará-lo. De hoje em diante considerar-me-ei como exilada sobre terra estranha; calcarei aos pés valorosamente as vaidades e as pompas do mundo; não me dignarei conceder-lhes um olhar, e dirigir-me-ei incessantemente para a ditosa pátria a que aspiro. Para ali chegar, é necessária a custosa passagem da morte.

Que ela venha em bom momento; encará-la-ei com ânimo e mesmo deseja-lá-ei. Que é ela? Uma lei dada para os filhos de Adão. É bem justo que estando pelo pecado presos com excesso a terra, até ao ponto de esquecer Deus, a morte os force a deixá-la. Adoro as justíssimas disposições da justiça divina, e espero o momento com resignação.

Que esse momento seja feliz para mim; que eu saia do meu exílio para entrar na posse da pátria celeste. Espero alcançar essa ventura, ó Mãe muito amada, com o socorro da Vossa poderosíssima proteção.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzido do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.

Cantigas de Santa Maria - A Virgen Madre de Nostro Sennor

Cantigas de Santa Maria 
A Virgen Madre de Nostro Sennor


sábado, 12 de março de 2011

Coroa de espinhos

Coroa de espinhos


Videte Regem... in die laetitiae

Contemplai Jesus Cristo, o Rei dos céus e da terra, no dia do Seu triunfo!

Sim; contemplai Jesus Cristo no dia do Seu triunfo! Nada falta a Sua vitória: nem a coroa, nem o cetro, nem a púrpura!

A coroa, é verdade, é um diadema de espinhos; o cetro é um arbusto frágil; a púrpura é um farrapo avermelhado pelo Seu próprio sangue!

Mas que coroa querieis que colocassem sobre a Sua cabeça?! uma coroa de ouro? Essa fica melhor na cabeça dos príncipes da terra, que sabem dourar a apostasia da fé com o ouro da realeza. Que cetro querieis que colocassem nas Suas mãos?! um cetro de ferro? Esse fica melhor nas mãos dos falsários da liberdade, que sabem governar a democracia com a vara de ferro do despotismo. Que púrpura querieis que Lhe dessem?! uma púrpura rica e brilhante?! Essa fica melhor no corpo dos ambiciosos da fortuna, dos idólatras da glória, dos adoradores de si próprios, dos súditos escravizados da vaidade universal!

Toda vida tem uma coroa: a de Jesus Cristo devia ter a Sua.

O poeta, o artista, o estadista, o general, não almejam senão uma coroa. Os cuidados todos da sua vida, as preocupações todas da sua inteligência, os sonhos todos da sua imaginação, não se reduzem senão a desejar uma coroa, mas uma coroa que lhes dê a reputação, a honra, a ventura e a glória!

Jesus Cristo devia ter também uma coroa; mas uma coroa que fosse a expressão significativa da Sua vida. Ora, que coroa mais graciosa e expressiva Lhe podia ser dada que essa de espinhos?!

Que importa que ela não seja perfeitamente redonda, e que se não adapte perfeitamente a cabeça do real monarca? Que importa que ela Lhe seja brutalmente colocada no meio de zombarias e blasfêmias?! Que importa que os espinhos Lhe penetrem a pele da fronte e saiam-Lhe pelos olhos?! Que atravessem os nervos de Seu pescoço?! Que penetrem no Seu crânio?! Que lhe rasguem as carnes como aguilhões?! Que importa que Ele trema da cabeça aos pés num suplício intolerável; que uma nuvem de sofrimento cubra Seus olhos, e Seus lábios se tornem lívidos?!

Era essa coroa que Ele desejava; a que Lhe convinha é a que tinha direito a Sua realeza.

A que Ele desejava porque era preciso que a cabeça não invejasse, por dizer, a sorte dos outros membros do corpo, que todos tinham pago um tributo de sangue. A cabeça devia pagá-lo; e derramou também a sua porção de sangue, que, se não foi abundante, foi igualmente precioso, porque foi o sangue de Seu cérebro; o sangue que tinha nutrido os mais fortes, os mais belos e os mais generosos pensamentos: os da nossa Salvação; foi o sangue com que Ele tinha alimentado o mais grandioso de todos os planos humanitários: esse que já dezenove séculos desenvolveram; que há de ter o seu Hosana imenso, e cujos triunfos parciais são bastantes para nos assegurarem o seu profetizado definitivo triunfo.

Era a que Lhe convinha porque a cabeça é a parte do corpo mais em relação com o coração. A cabeça é a sede dos músculos, nervos, veias, artérias, que se relacionam com todos os membros, de modo que a menor lesão da cabeça todos os outros membros do corpo sofrem; e era isto o que convinha ao Amor Encarnado, desejoso de em todos e em cada um dos membros de Seu corpo pagar a pena dos nossos pecados.

Convinha que este corpo, representando toda a carne da humanidade, fosse martirizado e nós pudéssemos hoje dos sofrimentos de todos e cada um dos seus membros tirar a expiração das iniqüidades cometidas por todos e cada um dos membros do nosso corpo.

Era, finalmente, a coroa, a que tinha direito a Sua realeza. Uma de ouro dar-Lhe-ia a aparência de um rei da terra; uma de louros a aparência de um simples triunfador humano; mas uma de espinhos, diz ilustre padre, anuncia-o verdadeiramente como o Rei da Humanidade, isto é, da nova humanidade que Ele veio fundar; e tão perfeitamente Lhe assenta essa coroa que os profetas extasiavam-se, vendo-a de longe.

É uma coroa de espinhos; entretanto, eles chamam-na uma coroa de pedras preciosas: posuiste Domine super caput ejus coronam de lapide precioso.

É uma coroa sem arte sem beleza; entretanto, eles chamam-na uma coroa divinamente formosa: corona speciei.

É uma coroa de loucura e dor; entretanto, eles chamam-na uma coroa de sabedoria: corona sapientiae.

Mas toda a coroa exige um cetro e uma púrpura: uma coroa de espinhos exigia um cetro irrisório e uma púrpura ridícula. Este cetro é o que Lhe convinha; esta púrpura é a que devia orná-lO.

O Rei que veio fundar o Seu Reino com os atrativos da Graça e não com a força das armas; não pelo terror, mas pela doçura; não pela violência, mas pelo amor; não pela sabedoria do mundo, mas pela loucura da Cruz; que veio levantar tudo o que é humilde, glorificar tudo que é abjeto, devia ter como cetro o mais frágil dos vegetais.

O rei do Amor não devia também, como muitas vezes os reis da terra, ter a Sua púrpura manchada pelo sangue das revoluções e das guerras; mas avermelhada pelo Seu próprio sangue.

Era preciso que os reis, e os outros chefes das nações que as não conseguem governar realmente com seus cetros de ferro; nem se fazerem adorar apesar de suas púrpuras majestáticas ou democráticas – vissem Jesus Cristo consegui-lo com um cetro de cana e uma púrpura esfarrapada.

Os Judeus, pois, supondo confundir a Jesus Cristo, não fizeram senão dar-Lhe as insígnias que convinham à Sua realeza.

Era triste então o estado da nação judaica; profunda a sua decadência política, civil e religiosa; e tão obliterados os sentimentos que, supondo aspirar a liberdade, de que o despotismo romano a tinha despojado, de fato não queria senão a escravidão.

Como todos os povos corrompidos, e que não vêm nas calamidades e misérias o justo castigo de seus pecados, o povo judeu volve-se para todos os lados a procura da salvação; mas não atina com o verdadeiro caminho por onde deve seguir.

Se tivesse correspondido a sua vocação divina, seria o povo arauto da humanidade; repudiou-a, porém, e a sua vida nacional não se torna mais que uma humilhação.

O espírito público enfraqueceu-se; as classes sociais desmoralizaram-se; o lar prostituiu-se; o próprio sacerdócio, aviltado, deixou corromper-se a religião, e profanarem-se os templos.

Então, despojado de sua autonomia, perdida a sua grandeza nacional, oprimido pela tutela romana, ele suspira por um libertador.

Mas que libertador? Um general forte e poderoso, acompanhado de exércitos, e que com a espada desembainhada, ganhando batalhas, devastando cidades, subjugando todos os outros povos, lhe restitua com a liberdade política a perdida prosperidade.

Não é esta a sorte de todos os povos que apostatam a fé e repudiam a Deus?! Não é sempre, por um justo castigo, que eles apelam para a espada; e não é sempre a espada que vinga os crimes e as iniqüidades dos povos sem Deus?!

Como, pois, os Judeus haviam de compreender a verdadeira realeza de Jesus Cristo, Rei manso, pacifico, cheio de doçura e de humildade?!

Como poderiam eles tolerar que dentre os seus compatriotas um tão obscuro tivesse a pretensão de salvar a sua pátria sem nenhum dos meios humanos: a força, a riqueza, as armas e o poder?!

Não: não podiam compreender essa realeza; por zombaria dão ao Rei verdadeiro as insígnias mais irrisórias; Deus, porém, da cegueira e maldade do povo infiel, tira a glória de Jesus Cristo, fazendo que essas insígnias sejam justamente as que melhor significam a qualidade da Sua soberania e a natureza do Seu Reino.

O libertador que eles desejavam apareceu; foi recusado pela Sua pátria; mas operou, em maior escala, em todo o universo, e por meios mais prodigiosos do que os que ela imaginava a maior de todas as revoluções da humanidade. Com uma coroa de espinhos, um cetro de cana e uma púrpura esfarrapada, Jesus Cristo tomou posse do mundo, libertou o mundo, fez-Se adorar pelo mundo. Dizei-me agora: a esse Rei deviam dar-se a coroa, o cetro e a púrpura que se dão aos outros reis?!

Não era preciso que as Suas insígnias fossem diferentes, e mesmo tão humilhantes, quanto o triunfo tinha de ser universal e assombroso?!

Não contemples, portanto, simplesmente com os olhos carnais este mistério de Jesus Cristo coroado de espinhos: contemplai antes com inefável júbilo a sua beleza e o esplendor da sua glória: videte Regem... in die laetitiae.

Extrai também deste mistério o seu profundo ensino; tirai da cabeça de Jesus Cristo, coroada de espinhos, todo o proveito para a vossa salvação.

Dizei que sois cristãos. Pois bem; sois súditos de Jesus Cristo.

Mas, se sois súditos de Jesus Cristo, o sois de um Rei coroado de espinhos; e, se o vosso Rei é assim coroado, como quereis, pergunta São Bernardo, vos coroar de rosas efêmeras, isto é, pensamentos vãos, imaginações pueris, ambições loucas, avarezas e vaidades?!

O Reino do vosso Rei nada tem de terrestre e mundano; é o Reino da humildade do espírito, da renunciação das glórias e riquezas, da paz, do amor, da caridade.

Não pode o homem ser súdito desse Rei, nem viver no Seu reino, senão renunciando-se a si próprio no que tem de grosseiro e imperfeito.

Quereis ser súditos de Jesus Cristo? Eu aplaudo deveras a nobreza de vossa aspiração; porque esse reino é de todos o mais formoso.

A humanidade só conhecia três reinos: o da material, sujeito às leis físicas, o reino animal, entregue aos simples instintos, o reino humano, apenas iluminado pela fraca luz da nossa razão.


A estes três reinos Jesus Cristo acrescentou um quarto: o reino de Deus, concebido, realizado, dirigido e perpetuamente sustentado pelo próprio Deus. Todos os homens são chamados a este Reino; mas nele nenhum homem entra senão renunciando-se a si próprio, e sacrificando ao espírito de Deus essas paixões inferiores que não o deixam compreender este profundo mistério da Coroação de espinhos, sempre, mas nunca tão oportuno como na época atual.

Qual é a grande característica da nossa época? O orgulho.

O mundo está cheio de profetas novos; todos se pretendem iluminados. Todo o espírito quer ser um Messias; e todo o livro pretende ser o berço de uma nova revolução da humanidade.

Que digo? Todo o livro?! Não há jornal de aldeia que não pretenda ser um Evangelho; e os chamados apóstolos da Idéia pupulam por toda a parte, pretendendo salvar o mundo e felicitar a humanidade, nome que, em todas as burlescas liturgias das modernas religiões sociológicas, aparece freqüentemente como o símbolo do dogma que elas criaram e único que admitem: o dogma da soberania do homem.

Todos esses novos cultos do que eles chamam Idéia não são mais que uma idolatria humanitária – o culto do eu, a apoteose do homem pelo homem; porque de fato o Deus que eles adoram é a espécie eternamente progressiva e da qual, dizem eles, cada passo é uma vitória sobre a natureza. De sorte que o Cristo, não foi criador da nova humanidade; esta tem ainda de sair do cérebro escaldado dos novos Messias!

Todos esses sistemas que se propõem à razão são irrisórios, sem dúvida: mas, donde todos eles procedem? Do orgulho da inteligência, a qual nunca foi tão fútil nem tão presunçosa como na nossa época, em que todos os países têm os seus Messias, cada cidade os seus profetas, e cada aldeia os seus apóstolos da Idéia, que eles proclamam a nova, a única, a redentora.

Quereis avaliar, devidamente toda a parvoíce desse orgulho? Vede. Sessenta séculos a humanidade tem vivido na terra acreditando no casamento, na propriedade, em Deus, no céu, no inferno, no purgatório, em tudo aquilo que por assim dizer constitui o patrimônio das suas crenças.

Pois da noite para o dia levanta-se nas colunas de qualquer jornal, ou na tribuna de qualquer esquina, um mancebo, ainda imberbe, e diz “a propriedade é um roubo; o socialismo o verdadeiro direito. O casamento não é uma instituição divina nem um sacramento; é um simples contrato sexual. Deus é uma chimera; o mundo foi feito pela matéria e a força. O céu, o inferno, o purgatório são superstições da religião. Jesus Cristo não é o homem-Deus, o redentor da humanidade, o salvador dos povos. Só há uma religião verdadeira: a ciência.”

A conclusão é lógica: a humanidade inteira durante sessenta séculos viveu nas trevas; todos os espíritos, ainda os mais transcendentes de todos os séculos, foram vítimas do erro; e o tal mancebo é que possuí a verdade. Não foi Jesus Cristo o verdadeiro Messias; quem é Ele então? Sem dúvida, o tal mancebo, que não o diz por acanhamento; mas indubitavelmente nasceu para reformar os princípios, as idéias, as crenças, as leis, o direito, as instituições e a religião de sessenta séculos.

Torno a perguntar: de onde vem tudo isso? Do orgulho. E este orgulho do mancebo, aliás, resultado dos livros e jornais em que a pobre vítima se tem nutrido, e que lhe tem proporcionado os ridículos Messias dos outros países, denota algum vislumbre de inteligência?

Não; o orgulho da inteligência, pavoroso mal da nossa época, é a maior aberração da mesma inteligência. Toda a força da inteligência está no bom senso; e o simples bom senso ensina ao homem a humildade, que não é, como se pensa, uma virtude abjeta, mas a mais alta e elevada das percepções da razão.

Coloque-se o homem – diz brilhante escritor – numa planície, onde se veja rodeado de seres animados e inanimados, racionais ou privados de razão. No meio das nuvens, das pérolas, das folhas e flores, que pensamento o preocupa, que sentimento o domina? Que é uma criatura. Sim; é essa idéia a que, em tais circunstâncias, assalta de todos nós. Temos vivido tantos anos, meses e dias: ocupamos uma posição na vida. Não sabemos, porém, o que se fez antes de nós, exceto alguns fatos que a história registra; nem o que será depois, exceto alguma revelação. O homem não deu a vida a si próprio; não sabe se será feliz ou desgraçado, grande ou miserável, são ou enfermo. Por quê? Porque é uma criatura. Podia ter nascido num dia ou noite dos milhares de anos que o precederam, noutro País; mas aquele dia em que nasceu e aquele país onde surgiu à luz lhe foram dados sem audiência sua. Por quê? Porque é uma criatura. Ainda mais: a natureza bruta lhe resiste; só com muito trabalho pode cultivar a terra e fazê-la produzir. É preciso que a terra lhe forneça os minerais e os gazes; os animais - a alimentação. Por quê? Porque não é senhor dos elementos, nem mais que simples usufrutuário do globo. De fato ele sabe que não fez o planeta; e que não pode andar sobre o pó da terra sem pagar-lhe o real tributo de uma aparente dominação. Mas porque tudo isso? Porque é uma criatura. Se é uma criatura, tem um Criador. Mas esta palavra, o Criador, como é entendida em nossa época? É um nome abstrato para significar somente que não somos eternos, é a forma masculina da expressão – criação. Nos livros de moral, ciência, filosofia, política, de certo modo fala-se no Criador; mas sem que isso importe reconhecer o Criador como um ser pessoa e vivo. Deus como pessoa é questão de que ninguém se ocupa; e até nas ciências naturais – a origem, os seus elementos moleculares, as revoluções dos corpos celestes, tudo isso é estudado e explicado numa multidão de livros com um ateísmo tão ingênuo que a palavra criatura não implica nunca a necessidade do Criador.”

Torno a perguntar: donde vem tudo isso?

Do orgulho, cujo maior castigo é este: divorciar-se completamente do bom senso; porque o mais simples bom senso, de todas as reflexões precedentes tira esta conclusão: eu sou uma criatura racional, inteligente, livre; portanto, a razão, a inteligência, vontade são também atributos do meu Criador. Eu pequenina criatura, amo ou sou capaz de amar; portanto, o meu Criador, o foco de todos os seres criados, é um oceano de amor.

O orgulho é, pois, a cegueira da inteligência; a humildade o esplendor da razão.

E não é senão para nos ensinar a humildade de espírito que a cabeça de Jesus Cristo se nos mostra hoje coroada de espinhos. Estes espinhos foram nela os castigos das nossas vaidades, das nossas vanglórias, das variadas e ridículas manifestações do nosso amor próprio, que são inumeráveis!

O orgulho é, depois do dinheiro, o maior déspota desta geração, que não tolera nenhuma superioridade intelectual, não respeita nenhuma elevação moral, não admira e aplaude senão os produtos do seu cérebro enfermo, e as obras da sua torpe imaginação.

Cada espírito sabe tudo!

Mas, se o orgulho da inteligência é a expressão da nossa época; que melhor e mais oportuno ensino que o deste Mistério? Ele é a mais formosa de todas as apoteoses da humildade.

Sois homem? Sois cristãos? Quereis verdadeiramente conquistar a liberdade do coração, a paz da alma, a sabedoria do espírito – frutos da humildade?

Contemplai aquela coroa, beijai-a; proclamai bem alto: Salve, Rei da nova humanidade!

 (A Paixão, pelo Padre Júlio Maria de Lombaerde, Cruzada da Boa Imprensa - Rio, 1937)

PS: Grifos meus.

Tratado dos escrúpulos de consciência (PDF - espanhol)

Tratado dos escrúpulos de consciência
em espanhol
Abade Grimes
(em PDF)


sexta-feira, 11 de março de 2011

Um Conto Medieval - Frei Ave-Maria

Um Conto Medieval



FREI AVE-MARIA 

Era uma vez um jovem e valente cavaleiro, de barbas douradas como o trigo maduro banhado pelo sol. Entusiasmado pelo ideal, ele havia partido para as Cruzadas, edificando os cristãos pela sua piedade e, aterrorizando os turcos, pelo seu valor.  Sua fé e sua coragem lhe haviam merecido estar na primeira fila em todos os combates. Espada na mão foi o primeiro a romper o cerco que os turcos fizeram. No dia 14 de julho de 1099, de espada na mão, foi o primeiro a entrar na cidade de Jerusalém, ao lado do comandante Godofredo de Buillon.  E, abrindo um claro entre a turba muçulmana que lutava e que fugia, foi o primeiro a se ajoelhar nas lages do Santo Sepulcro, beijando sua espada ensangüentada e, dando graças a Deus.

Era um valente, e Deus o quis provar permitindo-lhe uma cruz na proporção do seu valor. Quando atravessava, vitorioso, as ruas de Jerusalém seus olhos vislumbraram os movimentos de um muçulmano covarde que, do alto de uma torre, lançava um bloco de pedra contra Godofredo de Buillon.  Para salvar o seu chefe, o cavaleiro o empurrou e o pesado bloco o atingiu na cabeça. Quando o acudiram e retiraram o seu elmo todo amassado, viram horrorizados aquele enorme talho de onde o sangue brotava como de uma fonte. O maior dos combates do jovem cruzado estava para começar.

Seus amigos solícitos o levaram de volta a Europa, e seu jovem corpo se recuperou, mas um pouco de seu espírito havia ficado para sempre entre os muros de Jerusalém. O filho, que a mãe chorosa abraçou na volta, era quase que apenas um invólucro daquele que a havia beijado ao partir. Os olhos ainda sorriam quando ela o penteava, ou quando mostrava seus brinquedos de criança, ou quando apontava a pequena Virgem de marfim que sempre estivera à sua cabeceira. Mas... que tristeza! Suas mãos não tinham mais coordenação. Andava cambaleando, como um velho embriagado. E, mal balbuciava as palavras, num enorme esforço de mãos crispadas e lábios torcidos, uma caricatura grotesca que fazia rir os insensatos, de um riso maldoso, que atravessava o coração de sua mãe.

Que seria de seu filho quando ela morresse?

Sem parentes, sem esposa e sem filhos, quem dele cuidaria? Sentindo a passagem dos anos, a senhora procurou o superior de uma Ordem beneditina que ocupava um pequeno e desconjuntado convento próximo. E, foi clara e franca, no que disse: deixaria em herança para a Ordem, o seu castelo, o seu feudo, todos os seus rendimentos e toda a sua fortuna. Só lhes pedia a condição de que cuidassem bem de seu filho, até o dia em que Deus o quisesse levar.

Os olhos do superior brilharam. A nobre senhora não deveria se preocupar, que seu filho seria bem cuidado.  Ele até o admitiria na Ordem como irmão leigo. E, com o tempo e com a paciência dos monges, que carinhosamente o assistiriam ele poderia até mesmo aprender a rezar as Horas e lhe fazer companhia no Coro.

E assim foi. A senhora faleceu e os monges se transferiram para o castelo, passando a ocupar seus quartos, suas salas e seus salões. Ao cruzado, agora irmão leigo, foi permitido que ocupasse seu antigo quarto de menino, conservando alguns dos móveis e a Virgem de marfim. Ajoelhado diante da Virgem, o cruzado rezava, repetindo sempre as duas únicas palavras que conseguia reter em sua memória: "Ave Maria". O resto da oração, tudo o mais, lhe escapava. Bem que os monges, a princípio, tentaram lhe ensinar outras orações. Mas era um trabalho inútil.

Por fim, o superior mandou que desistissem, pois o novo convento, com seus campos e suas vinhas, precisava de muita gente para ser administrado com eficiência, e não se podia ficar perdendo tempo.

O antigo cavaleiro foi deixado de lado. Estabeleceram que se alimentasse na cozinha e não no refeitório, para que sua vista não chocasse os visitantes.  Pelo mesmo motivo, ele não deveria freqüentar a capela, mas assistiria a missa por uma janela estreita que dava para o jardim. Seu trabalho seria o de carregar a lenha. O resto do tempo poderia ocupar da forma que entendesse. Desde que não atrapalhasse ninguém. Mas ele não atrapalhava.

Desligado das coisas e dos homens passava seu tempo, ora de joelhos no quarto diante da Virgenzinha de marfim, ora caminhando pelos campos e vinhedos, rezando sempre "Ave Maria... Ave Maria... Ave Maria..." Os noviços o apelidaram de "Frei Ave Maria", e logo o apelido pegou. Riam-se quando ele passava.

Pelas costas, atiravam-lhe pedrinhas.  Reservavam-lhe os restos da mesa, que ninguém mais queria. Mudaram seu quarto para um cômodo ao lado do depósito de lenha. Onde só cabiam uma enxerga e a Virgem de marfim. Mas ele não parecia se incomodar.

Sorria sempre e continuava rezando: "Ave Maria, Ave Maria".  Tanta paciência acabou por incomodar. Alguns frades foram reclamar ao superior que, aquele murmúrio contínuo que fazia o frei Ave Maria, não os deixava se concentrar nem em suas orações, nem nas contas da administração. Em vista disso, o superior lhe proibiu o acesso ao interior do castelo.  Lá fora, haveria espaço suficiente para ele rezar.

E, assim envelheceu aquele frei. Em um dia de inverno, um noviço auxiliar da cozinha o foi encontrar. Em seu quarto, ajoelhado diante da Virgem de marfim. Estava morto. Foi com alívio que os monges, depois de uma rápida cerimônia, o sepultaram. O noviço que o encontrara se lembrou de prender a cruz da sepultura, a pequena Virgem de marfim. Depois, foi todos cuidar dos seus negócios e a neve cobriu tudo.

Quando veio a primavera, a neve derreteu, e o mesmo noviço reparou que uma plantinha nascia na terra do túmulo. E se enroscava na cruz. Depois de um mês, a trepadeira cobria todo o lenho, circundando a imagem de marfim. Pequenos botões pareciam surgir se multiplicar, pulular... E, no mês de maio, os botões se abriram em flor. E os monges, assustados com a gritaria que fazia o noviço, vieram todos contemplar as flores, que rodeavam a pequena Virgem de marfim. Eram lírios, mas lírios dourados como o trigo maduro banhado pelo sol, e, em cada uma de suas pétalas se podia ler, em letras de sangue: Ave Maria...  Ave Maria... Ave Maria...

(O Desbravador - Dezembro de 2007)

quinta-feira, 10 de março de 2011

XXX - A mortificação

XXX - A mortificação


I. – Depois de ter te escolhido para discípulo e ministro de um Deus crucificado, será muito que te diga, filho: Se queres vir após de Mim, abnega-te a ti mesmo toma a tua cruz, e segue-Me? (1)

Eu, por teu amor, não recusei levar a mais pesada Cruz, e tu não aceitarás por Meu amor a mais leve?

Tantos leigos com a penitência e austeridade Me sacrificam honras, riquezas, prazeres, até a mesma vida no meio dos martírios; e tu que, sendo Sacerdote, Me representas e fazes todos os dias na Missa comemoração da Minha Paixão e morte, e Me vês em tuas mãos, feito Hóstia e Sacerdote por teu amor, porque não queres imitar-Me, fazendo-te Sacerdote digno e hóstia aceitável, com a mortificação da carne e de suas concupiscências?

Se queres, filho, que a Minha Cruz seja tua redenção, abraça-a e leva-a como teu divino mestre. Não tive Eu mesmo de padecer, se quis entrar na Minha glória?

Quem quiser ser Meu, há de renunciara si mesmo. Quererás antes ser discípulo de Epicuro, que de Jesus? (2)

II.- Pertence-te, filho, ensinar a mortificação aos outros; mas como poderás dizer-lhes que reprimam a cólera, os caprichos, o interesse: que amem a mortificação dos sentidos, a renúncia da própria vontade, que fujam das conversações perigosas, se tu o não fazes?

Ainda que lhes pregues, que eficácia terão tuas palavras, desmentidas pelas tuas obras?

Ah! Quanta razão tem os povos de dizer de ti o que dizem de tantos outros: Que os Sacerdotes e Religiosos nada fazem senão comer, beber, divertir-se; ao que os pobres podiam acrescentar com vitupério: É nosso patrimônio o que comem estes valorosos soldados, que, em vez de trazerem a divisa da mortificação de Cristo, não respiram senão delícias e efeminada moleza! (3)

Que seria, pois se chegassem a dar à abnegação o nome de escrúpulos e melancolias de visionário?

Pobre da Minha Igreja! Houve tempos em que tinha ministros consumados na penitência, pobres em rendas, macerados pelos jejuns, desaprimorados nos vestidos, mortos para o mundo e para si mesmos; hoje está ela entregue a estes delicados paraninfos! (4)

Que farão os seculares, em um século tão aferrado aos prazeres, ao luxo e aos passatempos, vendo assim viver os Sacerdotes, que deviam ser os exemplares da mortificação?

Não deverei eu queixar-Me de que, em lugar de aumentares, como devias, o número dos discípulos da Minha Cruz, aumentas o de seus inimigos?

III. – Desengana-te, filho: sem abnegação nunca poderás desempenhar tantas obrigações que tens comuns como as dos leigos, e muito menos tantas que são próprias do teu estado.

És obrigado a fugir dos negócios do século e ocupações profanas; a fugir de litígios, e a ser antes o pacificador dos seculares; mas como o farás se não renuncias o desejo das riquezas e das honras? Como abominarás os divertimentos mundanos, jogos, banquetes, espetáculos, luxo, bailes, conversações, etc., proibidas especialmente a ti, se não refreias o desejo dos prazeres?

Vivendo no meio dum mundo tão corrupto, e tratando até com mulheres por necessidade de teu ministério, como te conservarás casto e puro, se não mortificas os sentidos e maus desejos da carne?

Como te aplicarás ao estudo, a oração, ao zelo e trabalho pelo bem do próximo e da Igreja, se amas tanto tuas comodidades, se não queres vencer os respeitos humanos, nem sabes sofrer um ditério, nem uma afronta por Meu amor? Toda a desobediência a Minha lei e aos cânones da Minha Igreja não procede porventura da repugnância que tens à mortificação?

Pesa-te a Minha Cruz? Mas tu sofres e padeces pelo mundo, e não hás de padecer nada por Mim? Não é pois o padecer que te molesta, será só o padecer por Meu amor?

E sabes o que rejeitas, rejeitando a Minha cruz, filho? rejeitas aquele conforto e consolação que sentirias em padecer Comigo e seguir-Me; rejeitas o auxílio da Minha graça que te tornaria o jugo não só leve, mas doce e suave; rejeitas o prêmio pelo qual, convertida a tristeza em gozo, e reinando já Comigo para sempre, bendirias a hora em que padeceste Comigo.

Quererás antes ser mártir do mundo, do que Meu? e não é isto um querer padecer miseravelmente nesta vida, e padecer depois ainda na outra eternamente? Vê pois qual te será melhor. (5)

Fruto. – Examina qual seja a paixão que te domina e te faz cair mais vezes, e procura domá-la com a penitência e a abnegação própria. Quanto maior violência fizeres a ti mesmo, tanto mais adiantarás na virtude.

Enche-te de coragem para vencer os ditérios e respeitos humanos, e não correres após as tuas comodidades. O luxo, a moleza e os respeitos humanos, dizia São Francisco Xavier, são a origem principal do deplorável estado da Igreja.

Santo Ambrósio, daquelas palavras do Apóstolo: Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão para não ser réprobo, deduz esta ilação: Logo, quem o não castiga, ainda que viva como o Apóstolo, é um réprobo.

Notas:

1-     Ubi Christus muletatur morte, cruce turpatur, quis suorum delicias, seu gloriam sustinere queat, nedum audeat quaerere...? Ceterum, si omnis, qui dicitur se in Christo manere, debet sicut ille ambulavit, et ipse ambulare. (I. Joan., II, 6) Multo magis qui pro eo manere se dicit, qui pro eo legatione fungitur, qui ei ministrat, si eum non sequitur, inexcusabile est. Sane nisi abnegaverit semetipsum, et tulerit crucem suam, sequi eum omnino non potest. Math. 16. (São Bern., Declam., XIV. 49).

2-     Qui Christi sunt, carnem suam crucifixerunt cum vitiis et concupiscentiis. (Ad. Galat., V, 24.) Non sic hodie, non sic: sed animae curam negligunt, curam autem corporis perficiunt in omni desiderio; nec virtuti cordis opera datur, sed valetundini corporis, immo etiam voluptati. De schola Hippocratis et Epicuri didicerunt haec: neque enim suis Christus horum quidquam tradit. (S. Bern., Declam., XII, n. 38.)

3-     Penuria pauperum clamat: clamant nudi, clamant famelici, conqueruntur et dicunt: nostrum est quod effunditis, nobis necessitatibus usurpatur quidquid accedit desideriis vestris... Et haec pauperes, modo quidem coram Deo tantum: ceterum in futuro stabunt in magna constantia adversus eos qui se angustiaverunt... (Bern., Ep. 44.) Vae, vae tibi, clerice! mors in ollis carnium, mors in deliciis tuis! Sumptus ecclesiasticos gratis habere te reputas? Cantando, ut aiunt, tibi provenire videntur. Ate a tibi noveris imputanda, quae modo inter delicias comedis. (S. Bern., Declam., VII, n. 20.)

4-     Et  horum quidem isti sortiti sunt ministerii locum, sed non zelum. Successores omnes cupiunt esse, imitatores pauci. Non omnes sunt amici aponsi, quos hodie sponsae hinc assistere cernis. Pauci admodum sunt, qui non quae sua sunt querant ex omnibus caris ejus. Intuere quomodo incedunt nitidi, et ornati, circumamicti varietatibus, tanquam sponsa procedens de tálamo suo. Unde vero hanc illis exuberare existimas rerum affluentiam, vestium splendorem, mensarum luxuriem, nisi de bonis sponsae? (Bern., In Cant. Sem. 77.)

5-     Durus multis videtus hic sermo: Abnega temetipsum, tolle crucem tuam, et sequere Jesum: sed multo durius erit audire illud extremum verbum: Discedite a me maledicti in ignem aeternum. Qui enim modo libenter aundiunt, et sequuntur verbum crucis; tunc non timebunt ab auditione aeternae damnationis. (Kemp., II, 12,1).

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)

ATENÇÃO!!! Hoje inicia-se a novena de São José

Atenção!!!
Hoje inicia-se a novena de São José




(Clique aqui para obtê-la)

Ó José, virgem Pai de Jesus, puríssimo Esposo da Virgem Maria, em cada dia, ora por nós, ao próprio Jesus, Filho de Deus, a fim de que, munidos das armas da Sua graça, combatendo legitimamente durante a vida, pelo menos, sejamos coroados na morte. Tudo por Jesus, tudo por Maria, tudo à vossa imitação, ó patriarca São José! Esta será a minha divisa na vida e na morte.

Nos, Jesus, Maria et Joseph bone,
Benedicite, nunca et in mortis agone.

(300 dias de indulgência cada vez)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Meu céu na terra

Meu céu na terra


Jesus, Vossa imagem inefável
É o astro que guia meus passos.
Ah, bem, sabes que a Vossa doce Face
É o céu para mim nesta existência.
O meu amor sempre descobre encantos
Desta face que os prantos embelezam
Eu sorrio em meio a minhas lágrimas,
Cada vez que contemplo Vossas dores...

Quero, para poder-Vos consolar,
Viver ignorada nesta terra!...
Esta beleza que tão bem escondes
Me revela, entretanto, o Vosso mistério.
Para junto de Vós quero voar!...

Minha única Pátria é Vossa face,
Ela é também o meu Reino de amor,
Ela é minha campina sorridente,
Meu encantado sol de cada dia.
Ela é o lírio do vale, Vossa face,
Da qual se evola o olor misterioso
Que consola minh’alma neste exílio
E a faz saborear a paz do céu.

Ela é minha Doçura, meu Repouso,
A minha lira cheia de harmonia...
A Vossa face, ó terno Salvador,
É esta mirra divina em ramalhete
Que sobre o coração quero guardar!

Ela é minha única riqueza,
A qual, se eu possuir, não peço mais;
Escondendo-me nela, sem cessar,
Eu serei semelhante a Vós, Jesus.
Ah, deixa bem impressa em mim a marca
Dos Vossos traços repletos de ternura
E assim me tornarei logo uma santa
E atrairei para Vós os corações

Para poder aqui armazenar
Uma bela colheita bem ceifada,
Abrasa-me, Senhor, com Vossas Chamas
Dá-me logo, com Vossos lábios dourados,
O beijo da Eternidade!

(12 de agosto de 1895)

Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face


 (Santa Teresa do Menino Jesus na foto acima)

Gregorian chant - Deus, Deus meus

Gregorian chant - Deus, Deus meus


I Meditação - Jesus no Jardim das Oliveiras ( I de IV)

I Meditação (I de IV)
Jesus no Jardim das Oliveiras


Imaginemo-nos no Jardim das Oliveiras, vendo Nosso Senhor Jesus Cristo, prostrado por terra em oração e suando sangue e peçamo-Lhes a graça de meditarmos a grandeza dos Seus sofrimentos e a imensidade do Seu amor, na hora da Sua agonia.

Consideremos a mortal tristeza que se apodera do divino Coração de Jesus: "A Minha alma está triste até a morte", exclama o Divino Mestre.

Senhor! que palavra tão comovente!... que dor tão atroz ela manifesta! Jesus deseja remir os homens, deseja-o ardentemente e, vendo aproximar-se o momento em que ia começar a Sua Paixão quis que o Seu amor por nós fosse o primeiro instrumento do Seu martírio: era o amor que O entregava aos Seus algozes; e, considerando os tormentos que ia padecer senti-os tão vivos, tão intensos, tão penetrantes que entrou em agonia e do Seu Sagrado Coração rebentou sangue que correu até o chão.

Duas causas aumentaram a tristeza de Jesus: uma, os muitos e grandes pecados dos homens, que tinha bem presentes, pelo muito que a Seu Eterno Pai ofendiam e pelo grande dano que os pecadores faziam; a outra, era a lembrança de que nem todos os homens se aproveitariam dos merecimentos da Sua Paixão e perderiam as suas almas. Acompanhemos nós o Divino Salvador, na Sua agonia , com uma verdadeira dor dos nossos pecados com o firme propósito de não os cometer, e afirmemos a nossa fé e a nossa esperança no amor de Jesus por nós.

Atos de fé

Ó meu Deus, Vós que criastes o céu e a terra pela vossa onipotência.
Todos: Eu creio que Vós estais aqui presente.

Vós que tomastes um corpo humano e nascestes no presépio de Belém.
Todos: Eu creio que Vós estais aqui presente.

Vós, que passastes 30 anos na humilde casa de Nazaré, obedecendo a Vossos pais.
Todos: Eu creio que Vós estais aqui presente.

Vós, que passastes pelo mundo fazendo o bem e sofrestes e morrestes na Cruz por amor dos homens.
Todos: Eu creio que Vós estais aqui presente.

Vós, que ressuscitastes ao terceiro dia após a morte, que reinais agora no céu cheio de glória e majestade.
Todos: Eu creio que Vós estais aqui presente.

Vós, que os Anjos adoram dia e noite escondido neste humilde tabernáculo.
Todos: Eu creio que Vós estais aqui presente.

Meu Deus aumentai a minha fé, para vos dizer com respeito mais e mais profundo
Todos: Eu creio que Vós estais aqui presente.

Ato de esperança

Como Sois bom, ó Jesus, em ficar no meio de nós, para nos consolardes em nossas penas.
Todas: Jesus, eu espero em Vós.

Como Sois bom, ó Jesus, em ficar no meio de nós, para podermos visitar-Vos e receber-Vos.
Todas: Jesus, eu espero em Vós.

Dia e noite pensais em nós, velai por nós, intercedeis por nós junto de Vosso Pai celeste.
Todas: Jesus, eu espero em Vós.

Dia e noite nos ofereceis as Vossas graças para a nossa santificação.
Todas: Jesus, eu espero em Vós.

Meu Deus, aumentai a minha esperança para vos repetir com temor mais filial.
Todas: Jesus, eu espero em Vós.

(Oração retirada do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

PS: Grifos meus.

terça-feira, 8 de março de 2011

XII - O primeiro Pilatos: nada de questões

XII - O primeiro Pilatos: nada de questões


A personagem de Judas é repugnante, o papel de Caifás revoltante; o de Pedro é doloroso. Pilatos é triste. Nada mais complexo do que a cena do Pretório. A bem dizer, é o único episódio que apresenta um drama em resumo no grande drama do conjunto. Em qualquer outro caso, o assédio está feito: Judas sabe o que quer; Anás e Caifás ainda mais; quando Jesus comparece perante eles, já está condenado: todo o aparato que se ostenta é uma sinistra encenação. “A sentença já estava decretada, buscavam-se só pretextos”. (E. Renan, Vida de Jesus, XXI.) Pedro, este é surpreendido; em todo caso, esboça pouca resistência para defender seu Mestre.

À primeira palavra da porteira, começa a trair. Pilatos é o único, nesse conflito de paixões e interesses caldeados, que sinceramente procura salvar Jesus. Porquanto não há dúvida alguma sobre este ponto: ele queria arrancá-lo ao suplício que vêm requerer dele: Quaerebat Pilatus dimittere eum (Jo 12,2).

E é o que torna tristemente dramática a personagem de Pilatos. Ele não sabe querer; flutua, não quisera condenar o inocente, e manda-o ao suplício proclamando que Ele nada fez de mal. O medo, a fraqueza, o respeito humano podem, pois, num dado momento, sufocar os melhores sentimentos do homem. É isto que é triste. A fraqueza no ódio e no crime é ainda preferível: chega ao mesmo resultado, mas sabe e quer esse resultado.

Jesus perante Pilatos é o eterno conflito do dever perante o interesse próprio: nada é mais pungente na cena íntima do coração do homem.

Pilatos é o melhor representante desse interesse a braços com a consciência. Passa por todos os sentimentos que experimentamos quando há luta entre o dever e a paixão.

De começo, Pilatos enfada-se com aquele embaraço. É o primeiro instinto de todo homem de posição que aceitasse gostosamente as honras, desde que lhe não dessem nenhum cuidado. – Nada de questões. – A virtude administrativa de certos homens não vai, amiúde, além dessa destreza em evitar, em contornar as dificuldades, ou em fazê-las jeitosamente resvalar sobre outro. É o primeiro Pilatos.

Anunciam-lhe, desde a manhã, que lhe vão trazer Jesus. Ele não está sem ter ouvido falar de Jesus, todos falavam dEle. Sabia ainda muito bem – a polícia romana não contraviera a nenhuma lei essencial: então que queriam dele Pilatos?

Por outro lado, Pilatos sabia-se impopular entre os Judeus; não gostava, assim, de entrar em contato com eles.

A sua impopularidade datava de longe (Fouard, Vida de Jesus Cristo, t. 1, I. II, c. 1. – Josefo, Antiguidades judaicas, 1. XIII, c. IV). Desde a assunção do cargo, quisera ele, como todos os que estréiam arvorar-se em senhor absoluto: assim, prentedera instalar em Jerusalém uma guarnição com os seus estandartes. Favorecidas pela noite, as tropas haviam entrado. Grande alvoroto do dia seguinte: a cidade subleva-se, corre-se até Cesaréia, onde se achava o procurador, a pedir-lhe a retirada daquela soldadesca ofensiva. Recusa de Pilatos, teima dos Judeus, clamores excessivos durante cinco dias. Maçado, manda Pilatos carregar contra os recalcitrantes; deitam-se todos imediatamente no chão, declarando que lhes hão de passar por cima, mas eles não cederão uma polegada dos seus direitos. E Pilatos cede. Foi assim que ele estreara.

Desgostoso consigo mesmo e com os outros, daí a algum tempo ele ensaiava de novo a sua autoridade. Desta vez são escudos de ouro portadores do nome das divindades pagãs que ele suspende, em Jerusalém, aos muros do seu palácio vizinho do templo. Novas borrascas: o povo entra em fermentação, quer fazer tirar aquelas insígnias profanas. Há resistência; todo aquele barulho acaba por atravessar os mares, e logo, a uma ordem de Tibério, Pilatos é forçado a ceder ainda. Decididamente, faltava-lhe jeito, pois corria risco de não ser prestigiado junto aos altos poderes.

Como sucede aos espíritos fracos e, todavia bem intencionados, tenta ele então agradar.

Jerusalém carecia de água: quer-lha ele trazer por meio de um gigantesco aqueduto. Iam os trabalhos começar, quando um boato se propala entre o povo: - Vão empregar naquela construção os rendimentos do templo! Novamente os Judeus se amotinam, e lançam-se sobre os operários. Faz-se mister parar o trabalho, e Pilatos tem de ceder ainda.

Tudo isto faz-nos compreender a mentalidade e o caráter desse homem. Um primeiro movimento no sentido da autoridade ou da bondade; depois, ante o obstáculo, há primeiramente contumácia de parte a parte; a dificuldade cresce, a contumácia acarreta a violência, mas de repente a imagem de Tibério surge no horizonte qual espectro ameaçador. Se Tibério ainda tem de intervir, adeus do Procurador inábil que de longe dá esse cuidado de amo.

E Pilatos cederá.

Por isto mesmo, ele já tomou este partido. Desde aquelas três questões mal-afortunadas, como ele não quer mais conflitos com aquele povo fanático da sua lei e do seu Deus, retira-se pelo ano todo para Cesaréia, naquela bela planície de Saron, onde florescem as laranjeiras e onde se estendem as longas searas douradas. A residência era agradável; ela a tornava régia.

Quando muito, aparecia em Jerusalém pelas festas da Páscoa; mas conservava-se fechado na Antônia, onde era o seu Pretório, e cercava-se então de todo o aparato do poderio militar, como para mostrar estar pronto para a repressão. De fato, porém, a sua autoridade era suportada como a sua presença: não era aceita.

Ora, por uma secreta fatalidade, era justamente durante uma daquelas curtas permanências, na véspera daquela grande festa da Páscoa, que o embaraço tão cuidadosamente evitado e o conflito temido se lhe apresentavam sob a forma e a presença de Jesus. Compreende-se o mau humor do Procurador quando o vieram incomodar naquela manhã da véspera das Páscoas judias.

Esse mau humor cresce ainda de ponto quando lhe dizem que os Judeus não querem entrar: vedava-o a lei deles, pois se inquinariam com a presença de um pagão – fosse ele Procurador, - e não poderiam, portanto cumprir naquela mesma noite o seu rito pascal. (Fouard, Vida de Jesus Cristo, t. 1, p. 369). Esta exigência era, pelo menos, impertinente; forçosamente, deve ter duplicado o azedume de Pilatos. Mas ele cede ainda, cede sempre. De que servia a resistência? Ele se lembra daquele povo a se deitar por terra, lembra-se, sobretudo dos escudos retirados por ordem de Tibério... em suma, sai, adianta-se, e, quase em cólera:

- De que é que acusais este homem?

Os Judeus sentiram o azedume secreto; respondem insolentemente:

- Se não fosse um malfeitor, não o teríamos trazido.

- Custodiai-o então vós mesmos, retruca Pilatos: tendes uma lei... – e havia nesta palavra um amargor que lhe relembrava um passado inteiro, - tendes uma lei, julgai-o segundo a lei, julgai-o segundo a vossa lei. Isto equivalia a dizer: Deixai-me sossegado; nada de questões, sobejas já as tive convosco. Eis aí todo o primeiro Pilatos.

Ele existe ainda; temo-lo encontrado em nós e nos outros. Nós não queremos ser incomodados nem mesmo por Deus. Se Ele se torna um empeço para os nossos negócios, para a nossa carreira e para o nosso acesso, buscamos a evasiva e implicamos talvez no mal, conosco mesmo, aqueles que nos cercam ou que de nós dependem. É difícil amar a Deus acima de alguma coisa, mormente se essa alguma coisa tem ligação com o nosso coração ou com a honra mundana.

Sem embargo, cumpre a todo transe receber tal e qual aquele prisioneiro estorvante. Jesus lá está, no meio dos soldados, sentindo a humilhação. Pilatos manda-O entrar. Teve tempo de apanhar no ar três capítulos de acusação que Lhe bradam os sacerdotes. É um agitador, - recusa pagar o tributo a César, - diz-se Rei dos Judeus.

O Romano despreza as duas primeiras acusações. Bem sabe que não são fundadas. A província está calma, e todos os impostos lhe advêm. Retém então o terceiro agravo, e, bruscamente, meio zombeteiro, meio irritado pergunta:

- É verdade que és o Rei dos Judeus?

Havia tal contraste no objeto da pergunta, entre a realeza e o ente miserando que estava em pé diante do Romano onipotente, que facilmente se compreende a amarga ironia que devia apartar num sorriso de dó os lábios do Procurador.

Jesus quer saber se lhe fazem seriamente a pergunta, e interroga:

- Dizeis isto vós mesmo, ou vo-lo disseram outros de Mim?

- Então eu sou Judeu, eu, - (o mau humor reapodera-se de Pilatos) – para saber o que é verdadeiro ou falso sobre este ponto? Vejamos: entregaram-te nas minhas mãos, os teus patrícios; que foi que fizestes?

Jesus desdenha responder a esta pergunta, mas retoma o fio da primeira interrogação que Pilatos parece desprezar, e fala da Sua realeza, afirma-a; Ele também tem soldados, mas o Seu reino não é deste mundo. Acusava assim o Seu título, a realidade dos Seus direitos, e a realidade também de um outro mundo, onde estavam a Sua corte, o Seu exército, o Seu poder.

- Então és mesmo Rei? insiste Pilatos.

- Sim, responde Jesus. E justamente vim desse outro mundo à terra para fazer conhecer a verdade sobre todas as coisas, sobre as da Minha realeza como sobre as do Meu Reino.

- A verdade! Prossegue Pilatos, cético e cismador; que coisa é a verdade?...

E sai.

O interrogatório lhe basta: ele tem diante de si um utopista, um alucinado, um místico, tudo, menos um criminoso.

- Mas, diz ele aos sacerdotes que esperam amotinados à porta, mas não há matéria alguma para condenação neste homem.

Ele punha nesta simples frase um tom de sinceridade, e também uma secreta satisfação. Não se lhe dava, com efeito, depois das exigências dos Judeus que vinham incomodá-lo e lhe impunham aquelas marchas e contramarchas, não se lhe dava de lhes mostrar a inanidade das suas acusações.

No pensamento de Pilatos, o incidente está, pois, absolutamente encerrado: não há sequer matéria para processo, como iria ele então condenar? É uma improcedência pura e simples.

E Pilatos manda trazer Jesus para soltá-lO e recolher-se em seguida ele próprio, contente de se haver desvencilhado tão comodamente de uma aborrecida questão.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy. S. J, tradução de Luís Leal Ferreira, III edição, Editora Vozes, continua com o post: O segundo Pilatos – Os expedientes)

PS: Grifos meus.