quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

II - O destino da humanidade

II - O destino da humanidade


I - Tu sabes, minha filha, para que fim te criou Deus? E se o sabes, como tens podido desviar-te dele tão estranhamente? Certamente te não foi dado esse corpo com sua sensibilidade, seus dons de graça e de beleza, para fazerdes dele um instrumento de escândalo e de pecado. Da mesma sorte te não foi dada essa alma, com suas nobres faculdades, inteligência, memória e vontade para estudar as vaidades do século para conceberes imagens impudicas ou frívolas, para procurares o teu bem nas criaturas em lugar de o procurares no Criador.

Ah! que culpável abuso tens feito até ao presente dos benefícios do céu! Tu bem sabes, Minha querida filha, para que fim Deus te criou. É para O conheceres, amares e servires nesta vida, e por esse meio adquirires a glória eterna que te preparou na eternidade.

Poderias acaso desejar fim mais nobre e sublime? Poderia Ele, não obstante a Sua onipotência, dar-t'o melhor? Não o têm os príncipes mais graduados e gloriosos da corte celeste; não o tem Eu mesma. Mas de que modo tens tu correspondido à bondade de Deus? Ah! se queres que Eu seja para ti uma verdadeira Mãe, mostra-te para Mim uma verdadeira filha: não degeneres dos Meus exemplos. Desde o primeiro instante que a Minha inteligência se abriu à razão, dediquei-Me logo a Deus com a veemência dum coração ardente, e a chama feliz, que neste momento m'o abrasa, não mais se extinguiu. Desde então, o Meu pensamento foi fazer a vontade de Deus e tornar-Me cada vez mais digna dEle.

Mas tu que tens feito? Ah! o teu primeiro desejo foi agradar o mundo, a tua aplicação foi seguir-lhe as máximas e costumes. Não tens conhecido Deus senão para O ofender.

Gastastes a infância, que é a mais bela  idade, - a idade da inocência, - em puerilidades, em preocupações que fazem corar, em desobediências a teus superiores, em desprezo por teus inferiores e iguais. Tens-te deleitado desde então com as modas e vaidades. Tens-las seguido sem compreender bem o mal que te acarretam. Fizestes delas um ídolo para conseguires seres tu própria um ídolo dos outros corações. Não sentes confusão alguma à vista duma vida tão indigna duma virgem cristã? Não te aflige teres-te desviado tão tristemente do fim para que foste criada?

II - Que engano é o teu, ó querida filha, se crês achar no mundo a felicidade que sonhas, mesmo quando tudo corresse conforme os teus desejos, as riquezas e grandezas do mundo não podem fazer-te feliz. O teu coração, apto a gozar um bem imutável e infinito, coração criado para um igual bem, nunca poderá estar satisfeito gozando apenas felicidades limitadas e passageiras.

Deixa-te convencer pelo exemplo de tantas pessoas que no mundo vivem no meio de delícias e riquezas. Julga-las felizes, mas se pudesses penetrar com a vista em seus corações e ver a tempestade terrível de aflições, de temores e remorsos que incessantemente lhes agita e tortura a consciência, em vez de lhes invejares a sorte terias piedade da sua desgraça. Quantas têm achado a ruína no meio do mesmo que devia ser-lhes glória! Não, Minha filha, o ímpio não pode ter paz verdadeira, nem sincero contentamento. Só uma alma reta e inocente goza na paz do coração as delícias antecipadas do Paraíso. Nenhuma catástrofe as perturba.

Os pecadores, ao contrário, conforto algum podem tirar das consolações terrestres. Não te assuste portanto a penitência, ó Minha querida filha, porque só de terrível tem o nome. Acredita-Me: as lágrimas daqueles que na amargura do seu coração chora as próprias culpas, são mais suaves que a alegria daquele que se inebria com os prazeres da vida. Criada por Deus e para Deus, só nEle acharás a paz.

Desgraçada da alma que ousa crer que se pode achar coisa alguma melhor que Deus. Cessa pois de amar a vaidade e a mentira e volta-te para Aquele que é o único que pode dar-te a paz e fazer a tua verdadeira felicidade.

III- Demais, ó Minha querida, o tempo nada é comparado com a eternidade. Tens de viver eternamente numa alegria soberana, ou na mais terrível dor. Deves habitar para sempre o Paraiso ou o Inferno. Qual será a tua eternidade? Interroga a consciência e ela te responderá. Crês que a moleza em que vives, a dissipação, o afã pelas festas e divertimentos, o desejo de te mostrares, de amar e ser amada, o hábito de rir e acompanhar livremente com pessoas das quais até devias evitar o encontro com cuidado, são o caminho que conduz ao céu? Ah! minha filha, Eu própria me impus o dever de proteger a Minha inocência por meio de retiro, da modéstia e duma oração contínua, pela prática de todas as virtudes que devem servir de norma à vida duma verdadeira serva do Senhor, e tu crer-te-ias segura vivendo no meio de tantos perigos, com tão pouca vigilância e tamanho horror ao sofrimento?

Meu próprio divino Filho subia ao céu pelo caminho dos prazeres?! De que te servirá ter gozado todas as delícias do mundo se te perdes e precipitas num fim de dor eterna para que não foste criada?

De que te servirá teres nascido no seio da Igreja, teres sido remida pelo sangue precioso do Meu Filho, alimentada por sacramentos divinos, inscrita no livro do Filho de Deus, pertenceres a uma nação cristã, a um povo de eleição, se acabas por te condenar como aqueles que nunca conheceram nem Deus, nem o Seu Cristo?

Afetos.- Como Vossas palavras fortificam meu coração e me esclarecem o espírito, ó Maria, minha Mãe amabilíssima! Ah! agora conheço quanto tenho andado mal até ao presente e o dever que me obriga a dar-Lhe um pronto remédio se não quiser perder o fim para que fui criada. Oh! como as minhas passadas loucuras me confundem! Quanto era insensata em renunciar a Deus e a Sua glória por um bem passageiro e uma vã felicidade! Que desgraçada eu era! Não tinha Deus em conta alguma; só seguia as minhas vontades desregradas e os absurdos caprichos do mundo. Que devo eu esperar senão que Deus me não avalie em nada e me confunde com os Seus inimigos?

Mas é tempo ainda; vou pois apressar-me, sem perder um momento, a emendar o meu erro. Detesto e aborreço todos os prazeres, encantos, festas e vaidades que têm sido ou serão para mim uma ocasião de ofender o meu Deus. Renuncio de novo a eles, como já tinha renunciado no meu batismo; em lugar de os procurar, pisa-los-ei aos pés sem medo e valorosamente. Chorarei incessantemente o meu erro. Não pensarei senão em agradar a Deus sem me importar com o que dirá o mundo, servi-lO-ei e amarei de todo o coração para conseguir o meu fim. Sob a Vossa poderosíssima proteção, estou certa de obter o perdão que imploro e de praticar tudo o que tenho resolvido.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzidas do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Bela gravura

Bela gravura

(clique nela para ampliá-la)

Adoro-Vos, meu Jesus, erguido na Cruz sobre o Calvário e agora elevado nas mãos do sacerdote, levantai também, Senhor, o meu coração à contemplação dos Vossos tormentos, assim como do extremoso amor que nos mostrais nesse mistério da Eucaristia, para que possa dizer com toda a devoção e fervor:

Graças e louvores se dêem em todo o momento
Ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento

Oração para os dias de carnaval

Oração para os dias de carnaval



Meu Jesus, que sobre a Cruz perdoastes aqueles que nela Vos chegaram, e desculpastes diante de Vosso Pai o seu delito. Vós que da Cruz lançastes um olhar de piedade ao ladrão que expirava sobre o patíbulo e o convertestes e salvastes; Vós que entre as agonias da morte declarastes ter ainda sede de padecimentos para tornar mais copiosa a universal Redenção, tende piedade de tantos infelizes que seduzidos pelo espírito da mentira nestes dias de falsos prazeres e de escandalosa dissipação correm risco de se perder.

Ah! pelos méritos de Vosso preciosíssimo Sangue e da Vossa morte não os abandoneis como merecem nem permitais fique sem remédio o miserável estado em que se vão precipitar. Reservai para eles um dia de misericórdia e de salvação. Vós que a Pedro estendestes prontamente a mão para sustentá-lo, quando submergia, socorrei também a estes infelizes que estão para cair no abismo infernal; acordai-os, sacudi-os, iluminai-os, convertei-os e salvai-os.

Tende, pois, sempre firme sobre nós a Vossa dextra, para que nunca sejamos seduzidos por tantos escândalos que nos rodeiam; pelo contrário, a semelhança de José de Tobias que vivendo num ambiente superticioso, nunca se afastaram da verdade e da justiça, mereçamos nós o Vosso amor, ao passo que outros provocam o Vosso desdém e nos apliquemos nos exercícios de piedade enquanto que ela é esquecida pelos ingratos filhos do século que terão de chorar para sempre a sua atual estultícia.

Padre nosso, Ave Maria e Glória.
(Oração retirada do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

III- A dignidade do Sacerdote

III- A dignidade do Sacerdote


JESUS CRISTO
FALANDO AO
CORAÇÃO DO SACERDOTE
OU
MEDITAÇÕES ECLESIÁSTICAS
PARA TODOS OS DIAS DO MÊS
por
Escritas em italiano pelo Missionário e doutor
Bartholomeu do Monte
Traduzidas pelo
Pe. Francisco José Duarte de Macedo
(1910)

I- Se compreenderas, filho, a altura da tua dignidade, com quanto desvelo procurarias sustentá-la com decoro!

Entra em ti mesmo, e considera a eminência do ministério a que te exaltei.  Reflete em todas as dignidades, honras e reinos do mundo, compara-os com a tua dignidade: porventura não é muito mais elevada? (1) não te exaltei sobre todos os leigos, tirando-te do pó da terra? não te dei, com o Meu real Sacerdócio, um poder que te faz maior que todos os grandes do mundo, que curvam sua cabeça ao Sacerdote?

Compara-te, filho, até como os mesmos Anjos. Que eu te dei um ministério angélico para bem das almas, e que ainda te levantei acima dos mesmos Anjos, até eles o confessam, tendo em suma veneração a tua sublime dignidade.

E tu não lhes dá importância?! e tu não a estimas? e tu, devendo viver uma vida de Anjo, imitando suas graças e virtudes, vives uma vida toda mundana; e, cego pelos interesses, pelos prazeres e por insensata vaidade, te aviltas, assemelhando-te e até confundindo-te com mulheres vaidosas e loucos mundanos?!

II- Filho, qual dos Anjos ou dos Serafins, teve jamais o poder que Eu te dei? (2)

Causa-te admiração o poder de Moisés que abria os mares, de Josué que fez parar o sol, de tantos taumaturgos a quem obedeciam os elementos, as enfermidades, a mesma morte e os demônios; não é, porém, muito maior o teu poder em absolver do pecado as almas, e em fazer que o próprio Deus baixe dos Céus a tuas mãos? Oh! quanto é veneranda e sublime a tua dignidade!

Minha própria Mãe, ainda que a mais excelente de todas as criaturas, nunca teve o poder de perdoar pecados, como tu tens: se uma vez abriu o Céu, e me trouxe em Seu seio virginal, tu, com autoridade mais maravilhosa, podes chamar-Me e deter-Me em tuas mãos, não uma vez, mas muitas e todos os dias.

Dizê-Me pois, filho, não é divino o teu poder? Poderia Eu dá-lo maior? Ah! quão grande injúria me fazes, se não estimas nem honras a tua dignidade  divina! Quanto maior ainda, se a profanas, fazendo-te escravo de paixões torpes e culpas infames!...

III - Não te queixes, filho, de que os seculares, te não respeitem, e que murmurem de ti, se vestes como secular, se pensas, se falas e se vives como secular, ou talvez pior que os seculares: queixa-te somente de ti, porque és tu o primeiro que não estimas nem respeitas o teu caráter; e até, com o teu procedimento, Me obrigas a permitir que os seculares, em castigo, te desacreditem e te escarneçam (3).

Porque desonras, filho, o teu caráter? porque não correspondem tuas obras à tua dignidade? será sublime a tua honra, e péssima a tua vida?! divina a profissão, e perversa as obras?! Assim correspondes ao bem que te tenho feito, e ao muito que te quero?

Lembra-te que, quanto maior é a dignidade do Sacerdote, tanto maiores hão de ser as penas e suplícios, se a vida não é conforme com a dignidade.

E quererás, depois de receber de Mim tantos benefícios, depois de dominar no Céu, na terra e nos infernos, quererás viver como bruto, cerrar a ti mesmo o Céu, e acabar finalmente cativo os pés do demônio?

Fruto - Quer sejas Sacerdote regular quer secular, mede tuas ações pela tua dignidade, e não pelas máximas do século, nem pelo procedimento dos outros. Considera frequentemente que, pela tua dignidade, tens uma grande honra (4); e respeita o teu caráter em ti e nos demais sacerdotes, teus colegas.

Procura ser em tudo exemplar de boas obras, na doutrina, na pureza, na gravidade, na integridade, de sorte que os adversários não possam dizer senão bem de ti.

Se julgas que hás de sustentar a tua dignidade com luxo e ostentação, atende ao que te diz o grande Arcebispo, o Venerável D. Fr. Bartholomeu dos Mártyres:

"Ó enorme cegueira! Julga um ministro de Jesus Cristo ser mais prudente, que o mesmo Jesus Cristo! Ele venceu o mundo com o espírito de humildade e de pobreza, e tu julgas vencê-lo com o espírito do mesmo mundo, isto é, com as pompas do século?!"

Poderá imaginar-se coisa mais absurda? Satanás, diz o Salvador, não pode expulsar a Satanás, nem um homem com o espírito do mundo pode vencer o espírito do mundo.

O mundo, em vez de te respeitar, se rirá de ti e do teu fausto com que se escandaliza. São Carlos Borromeu, dando-se a uma heróica modéstia, parcimônia e frugalidade, respondia a quantos o criticavam: Que a verdadeira honra e glória dos ministros de Deus não consistia nos adornos e atavios mundanos, mas na religiosidade, virtude e santidade, só as quais tornam grandes, diante de Deus e dos homens, aqueles que as possuem.

Notas:

1- Etenim sacerdotium in terris quidem peragitur, sed in rerum coelestium classem ordinemque referendum est. (Chrysost., De Sacerdotio).

2- Sacerdotibus datum est, ut potestatem habeant, quam Deus neque Angelis, neque Archangelis datam esse voluit. Neque enim ad illos dictum est: Quaecumque ligaveritis; etc. (Chrysost., De Sacerdotio).

3- Vos (sacerdotes) recessistis de via, et scandalizastis plurimos in lege, dicit Dominus: propter quod et ergo dedi vos contemptibiles, et humiles omnibus populis. (Malachias, II, 8)

4- Dignitas sacerdotalis prius noscatur a nobis, ut servetur a nobis...: ne sit nomem inane, et crimen inmane; ne sit honor sublimis, et vita deformis...; quia sicut sacerdotio nihil excellentiuns, sic hihil miseranbilius, si crimine teneatur. (Ambros., De Sacerdotio.)

PS: Grifos meus.

Modo de se consagrar a si mesmo e a N.N ao glorioso Patriarca São José

Modo de se consagrar a si mesmo
e a N.N ao glorioso Patriarca São José

Oração de consagração



Ó glorioso Patriarca São José, que por Deus fostes estabelecido cabeça e guarda da mais santa de todas as famílias, dignai-vos lá no céu ser também cabeça e guarda desta (N.N), que aqui está prostrada diante de vós, e pede a recebais sob o manto do vosso Patrocínio. Nós desde este momento vos escolheremos para pai, protetor, conselheiro, guia e padroeiro, e pomos debaixo do vosso especial amparo a nossa alma, corpo e bens, quanto temos e somos, a vida e a morte.

Olhai-me como vossos filhos e coisa vossa. Defendei-nos de todos os perigos, de todos os ardis, de todos os enganos dos nossos inimigos, visíveis e invisíveis. Assisti-nos em todos os tempos em todas as necessidades, consolai-nos em todas as amarguras da vida; mas em especial na agonia da morte. Dizei em nosso favor uma palavra Àquele amável Redentor, que em menino trouxestes em vossos braços, Àquela Virgem gloriosa, de que fostes amantíssimo esposo.

Oh! alcançai dEles as bênçãos que conheceis serem proveitosas ao nosso verdadeiro bem, à eterna salvação. Numa palavra, ponde esta família no número das que amais, e ela procurará por meio de uma vida verdadeiramente cristã não se tornar indigna do vosso especial Patrocínio.
Assim seja.

Pater, Ave, Gloria.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzidas do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

I - Convite para meditar as verdades eternas

I - Convite para meditar as verdades eternas



I- A ignorância, minha filha, é a principal origem dos erros que cometem as jovens cristãs. Não meditam suficientemente nas coisas de Deus e da sua salvação, e daí provêm que, enganadas pelas ilusões do mundo, vivem a ele tão presas como se para ele e não para o céu fossem criadas. Não se apercebem do princípio onde as conduz a corrupção do século; correm loucamente para ele seduzidas por um sonho vão de felicidade.

Ah! Minha querida filha, tudo se perde por causa da leviandade! Para te eximires a tal desgraça, escuta a Minha voz; quero guiar-te e instruir-te. Não recuses ouvir uma Mãe que te ama com todas as véras do coração, e que anseia ver-te feliz. Convido-te a reconcentrar-te todos os dias no silêncio da santa solidão. Aí, repousarás sobre Meu seio maternal: dir-te-ei palavras salutares. A meditação das verdades eternas que te hei de propor, inflamará em tua alma as castas chamas do divino amor e ensinar-te-á a procurar em Deus, e não nas mentiras do mundo, a tua verdadeira felicidade. Ah! menos seria o número dos cristãos que se perdem desgraçadamente, se eles amassem mais o recolhimento e a meditação.

Coragem, pois, ó Minha filha; afastando-te todos os dias durante alguns momentos do bulício do século, acompanha-Me na solidão da tua câmara para meditares nas verdades eternas, - únicas que podem tornar-te prudente. Se porventura estás ainda alistada sob  bandeira das virgens puras e inocentes, a meditação aí se conservará; se és fraca na virtude, dar-te-á forças; se esmoreces e és tíbia para o serviço divino, abrasar-te-á num santo fervor, esclarecer-te-á nas fraquezas e temores, defender-te-á nos perigos e alcançarás de Deus perdão e misericórdia para as culpas passadas.

Dedica-te pois a contemplar na meditação as belezas da virtude, a gozar as doçuras da graça, a fazer constituir a tua felicidade das palavras suaves do teu Deus.

II - Acautela-te, Minha filha, dos pensamentos enganadores que o inimigo das almas faz brotar no coração de muitas donzelas cristãs da tua idade para as impedir de se entregarem a Deus, fazendo-lhes ver que a aplicação à oração e ao recolhimento tornam a vida triste e aborrecida, que é ao presente o tempo de gozar, que se pode esperar para tratar da alma o momento em que o rosto esteja enrugado, em que o viço e os atrativos da mocidade estejam extintos, e em que o mundo não lhes dê mais atenção. Não te deixes persuadir por tais sugestões que tendem a fazer-te dar ao mundo os mais belos dias da tua vida, para não reservares a Deus e a virtude mais que o refugo do mundo, ó Minha querida filha!

Acautela-te desse laço funesto que tem feito cair no inferno milhões de almas. A juventude é a mais bela idade para aprender a conhecer e a servir Deus. É a idade em que melhor se pode fazer um rico tesouro de merecimentos e adquirir para sempre bons costumes, aplicando-se a seguir o caminho da virtude. As máximas e as práticas santas que aprenderas e com as quais te familiarizaras na juventude, servir-te-ão como de fiéis companheiros até teus dias provectos e decidirão da tua eternidade. Mas se para te entregares a Deus esperas uma idade avançada, a tua oferenda será muito tardia e aconselhada mais pelo receio que pelo amor.

Demais, tens a certeza de chegar a essa idade avançada? Chegando a ela, tens a certeza que Deus te fará a graça de mudar as tuas inclinações viciosas e os costumes inveterados? Desprezada pelo mundo e querendo então entregar-te a Deus, aceitará Ele semelhante dádiva? Consagra-Lhe agora o coração sem demora. Não o deixeis empedernir à voz de Deus que te chama. Ele é cioso de primícias e concede a abundância das Suas graças a todos aqueles que se Lhe dedicam desde os primeiros anos; tens belos exemplos em Santa Catarina de Sena, Santa Catharina de Bolonha, Santa Rosa Viterbo e outras muitas, queridas Minhas.

III - Vem, pois, ó Minha querida filha, vem todos os dias aprender aos pés do teu Deus, na meditação, os deveres de cristã. Ele te comunicará todas as luzes e graças de que careces. Aprenderás a conhecê-lO, a bem apreciar a tua alma, o céu e a eternidade, e a desprezar o mundo e suas sedutoras vaidades. Descobrirás as más inclinações da tua alma e os teus defeitos; receberás a graça de corrigir esses defeitos e força para combater essas inclinações.

Conhecerás os laços que o demônio te arma e o meio de os evitar. Numa palavra, - na meditação aprenderás tudo quanto uma virgem cristã que se aplica a agradar em tudo a Deus, deve saber para bem viver. Não te falta o tempo. Tem-lo para as loucuras, as conversações, modas e vaidades. Não é verdade ser para a alma e para Deus que não sabes achá-lo? Anima-te, minha filha, foge à indolência e à dissipação e tê-lo-ás. Pode ser, dirás tu, que tu não saibas meditar; prometi instruir-te e fa-lo-ei. Basta amar a Deus de todo o coração. Esse amor é que te ensina a meditar santamente. Tens um exemplo na minha devota Maria d'Oignie, uma simples camponesa. Oh! como o amor de Deus que lhe abrasava o coração lhe tornou fácil e natural a meditação!

Quando arrancava as ervas no campo, pensava nos judeus que arrancavam os cabelos ao Meu divino Filho durante a paixão. Quando o peso dos feixes de lenha que conduzia a oprimia, pensava no peso mais opressivo da Cruz que Jesus suportava por amor dela. Quando se sentia picada pelas silvas, recordava logo os espinhos que romperam a cabeça do seu amado Salvador. Era assim que tudo se lhe tornava em objeto de santa meditação, com grande proveito da sua alma.

Afetos - Reconheço, ó minha Mãe Santíssima, que tenho grande necessidade de reconcentrar-me na meditação para reformar a minha vida, descobrir os laços que o inimigo me arma a cada passo e evitar e fugir do precipício para que corria cegamente. Ah! sim, os dias que tenho passado no esquecimento de Deus, têm sido os mais tristes da minha vida. Que viria a ser de mim, desgraçada, se para o futuro me não dedicasse  à oração? Deus prometeu Suas graças, mas unicamente àqueles que lh'as pedissem, porque disse - pedi e ser-vos-á dado. - Recusa-as, pois, justamente, a quem lh'as não pede.

Quanto vos sou reconhecida, ó minha terna Mãe, por quererdes descer ao ponto de me instruir!

Vossa bondade não pode ser maior para comigo, indigna serva Vossa. Falai-me pois; quero aproveitar-me do Vosso ensino: serei dócil ás Vossas palavras, porque são as da vida eterna. Não mais me deixarei seduzir pelo prestígio do inimigo, nem pelas ilusões do mundo. Para não diferir por mais tempo de oferecer-me a Deus, desde já Lhe consagro o coração e me entrego toda a Ele. Que jamais passe um só dia da minha vida sem recorrer ao trono das graças divinas, sem apresentar aos pés de Jesus as minhas humildes homenagens, sem Lhe expor as minhas precisões com os votos mais ardentes do meu coração. Tal é a minha firme resolução. Recorro a Vós, Mãe misericordiosíssima, para que a torneis eficaz com a graça do Vosso divino Filho.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzidas do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

ESPECIAL: Maria falando ao coração das donzelas (Meditações)

Nota do blogue: Esse livro é dividido entre meditações e algumas orações, transcreverei (para transformar em arquivo PDF) as meditações e as orações no decorrer do ano vou colocando-as no blogue.
Nota 2 incluída no dia 15/06/2011: Livro disponível em PDF, ver AQUI.

MARIA
FALANDO
AO CORAÇÃO DAS DONZELAS

____________

Meditações para todos os dias do mês
Traduzidas do italiano
pelo Abade A. Bayle
Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix

Quinta edição
revista por Guilherme Edmond Gomes da Silva,
e seguida de muitas orações aprovadas, recomendadas
e indulgenciadas pelo Emmo. Sr. D. Américo,
Cardeal Bispo do Porto

Livraria Catholica Portuense
1917

ÍNDICE

Meditações para todos os dias

Donzelas cristas: Vocês e vossa pureza

DONZELAS CRISTÃS:
VOCÊS E VOSSA PUREZA


Puras!

Corpo puro, corpo casto - eis o programa cristão para as jovens de vinte anos, tanto hoje como sempre, e apesar de tudo.

Disse Deus em Seu mandamento:

"Não pecarás contra a castidade, nem de corpo nem de consentimento".

Em Seu Evangelho disse Jesus:

"Bem-aventurados os corações puros, pois verão a Deus".
"Se teu olho é objeto de escândalo, arranca-o e atira-o longe".

Um olhar cheio de desejo é "o adultério cometido no coração".

Coração puro, que só ama aquilo que verdadeiramente pode amar e com um amor que não é pecaminoso.
Corpo casto, que se proíbe todo prazer culpável.

E este o programa cristão.
Esplêndido, na verdade. Demasiado, pensam alguns.

Irrealizável, censuram outros. Difícil, todos o reconhecem. Mas é um programa, fórmula do dever, ideal que todos devem procurar realizar. Somente aí se encontram a beleza moral e a verdadeira vida.

Em que consiste ele? Disseram-no as Escrituras na descrição profética que fizeram da Mulher perfeita. Virgem e Mãe.

Está escrito no Gênesis, Livro do Início das Coisas:

"Serpente, farei inimizade entre ti e a mulher; ela te pisará a cabeça e tu lhe machucarás o calcanhar." (Gênesis, III, I).

Está escrito nos Evangelhos:

"Quando a ti, mulher, uma espada te trespassará a alma." (São Lucas, II, 35)

Está escrito no Apocalipse, livro do Fim das Coisas:

"Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher resplandescente de luz, com uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça." (Apocalipse, XII, I)

Serpente esmagada.
Coração despedaçado.

As lutas

Os pés sobre a serpente

Não se conquista nem se conserva a pureza senão por uma luta generosa que a vitória culmina. Principalmente quando se trata de jovens que prementes razões atiram ao reboliço do mundo, com seus perigos, suas seduções, seus atrativos, suas inimizades, de que a vida está cheia.

A vida não é o inferno onde tudo é feio e mau. Também não é o paraíso onde tudo é luz, inocência e paz.

Ela é a vida, o campo de cultivo no meio da floresta, a vaga que se atravessa em alto mar e quando a tempestade se aproxima, o campo de batalha onde os inimigos se chocam.

Os impuros são os vencidos que, ou ficam prisioneiros ou são mortos pelos vencedores.

Ora, o inimigo, tanto nos Livros Santos como na Aparição, é uma serpente. Uma serpente amarelada. Uma víbora esverdeada.

Símbolo mais do que significativo! terrivelmente exato. Sabem-no melhor do que ninguém as vitoriosas, aquelas que, sob o pé virginal, a sentem ainda fremente, e, embora esmagada, ainda viva.

A serpente constitui, contra a pureza, as múltiplas e infinitas tentações.

Quando falo em tentação, não a considero como um leão: ele é por demais franco; não como o touro, ele é muito forte; não como um boi: ele é muito pesado. É uma víbora, a falada serpente do Paraíso terrestre, que nunca mais se modificou.

A serpente é aquilo que rasteja

Não anda, não salta, desliza apenas. Seu ventre toca a terra. Rasteja entre as pedras, os espinhos, as ervas secas. Sorrateia, ágil, silenciosa, semelhante à patrulha que, em noite calma, surpreende uma sentinela.

Tem asco de si própria, não é como o pássaro que voa em plena luz.

Rasteja cheia de terra, de lama úmida ou quente, de acordo com o terreno ou a hora do dia.

É assim que se insinua a tentação. Ela se agita no mais íntimo da sensibilidade, contorna as resistências da consciência, penetra pelas menores fendas e, pouco a pouco, entra no coração onde descansa um pouco como se fosse uma serpente que se apoia numa moita.

A serpente é aquilo que se adapta

Toma a cor das coisas e do meio. Está presente sem denunciar claramente sua existência. Mal se distingue se de fato é uma serpente ou uma haste verde ou um galho seco caído ao chão. Assim na guerra usam os soldados o capote cor de terra quando atacam pelos campos verdejantes, ou a roupa branca quando patrulham na neve, em noite de lua.

A tentação também se tinge com as cores do ser que pretende conquistar. Existem almas delicadas e, para com elas, é necessário mais tato. Há almas grosseiras para as quais não é preciso tanto rodeio. Existem, finalmente, almas delicadas que exigem um licor mais forte. De qualquer maneira, trata-se de impedir a fuga, de não assustar a ingênua quietude.

Para o sedutor, o adaptar-se é o meio mais eficaz de bom êxito. Terna era a voz da serpente quanto tentava Eva. E ela, devido à juventude de seu coração intacto, se encantava com sua voz. Pouco a pouco dela se aproximava, confiante e maravilhada, à medida que ouvia suas palavras. Astuciosa como era, a serpente nada dizia que pudesse sobressaltar. Adaptação.

A serpente é aquilo que se renova

Em certas estações, muda de pelo, rejuvenesce, transforma-se, de feia que é, numa beleza. No fundo, continua a mesma, mas os homens também trocam de vestimenta para irem às festas. As modas femininas se renovam, também a natureza na primavera. E ela, a serpente, porque não o fará também? Sua pele velha, suja, quase sem cor, arrastada ao longo dos caminhos, achamo-la num atalho qualquer do bosque, enquanto que, com sua pele nova, sempre rastejando, a serpente prossegue em sua caça silenciosa.

Do mesmo modo, a Tentação muda de processos, aprimora sua sedução, para, no momento decisivo, propor o que tem proposto há milhares de séculos. Em sua essência, não há novidade quanto ao modo de pecar, de decair, tornar-se impuro. O desejo humano, no que tem de mais atraente, são os mesmos sob todos os céus e em todas as épocas. A única coisa que muda é o modo de atingir o fim, como também o modo de chamar a atenção provocando a curiosidade.

Vemos, pois, que os sedutores, (livros, teatro, cinemas, prazeres) de geração, de país em país, adquirem um novo hábito, um acento inédito. Rejuvenescem a forma sem, contudo, alterarem a essência secular do vício.

Eis o porque o mundo, que varia tão pouco de aspecto, nos aparece tão deliciosamente diferente, e o pecado, que é coisa banal, sempre com um tom de frescura. Cuidado com o cansaço por saturação e com a falta de apetite pela repetição contínua da mesma refeição. A tentação o sabe.

Como a serpente, ela se renova.

A serpente é aquilo que espreita


Algumas vezes, preguiçosamente enroscada na terra quente, espera de olhos abertos. Outras vezes, suspensa num galho de árvore, pronta a cair sobre o viajante, observa, vigia. Ela conhece a hora propícia; já estudou os hábitos dos pássaros e dos outros répteis. Pois o leão não tem fome justamente na hora em que os outros animais da floresta, que têm sede, descem para as fontes?

A pressa passa. A serpente a observa, salta e a engole.

Também assim, nas esquinas, nas praças públicas, a janela, nos salões, por onde passam e vivem as vítimas escolhidas, a tentação espreita. Para esperar, tem toda a paciência e multiplica todas as ocasiões.

Observa qualquer distração, qualquer sinal de tristeza numa fisionomia, os menores sorrisos reveladores, as atitudes que demonstram que o ser está fraco e, por conseguinte, não terá forças para se defender. Ela adivinha quando seu encanto vai entrar em jogo e quando a carícia de sua voz se tornará irresistível.

Tem fome e, como aprecia sobretudo o pão que se lhe oferece e não aquele que consegue violentamente, espreita o momento único e decisivo. É chegada a hora de atacar. A boca da serpente está agora completamente aberta para devorar sua vítima...

A serpente é aquilo que silva

Porque será que ela silva, ela que comumente esconde sua presença e desliza em silêncio? É para que, ouvindo-a, procuremos vê-la ou, então, que fujamos dela.

No primeiro caso, se é vista, consegue despistar a curiosidade da futura vítima. No segundo, se se lhe foge, segue a pista, encontrando logo o caminho para atingir a vítima. Daí o silêncio e o assobio; ora um, ora outro. Sábia alternativa, pois é preciso esconder-se para não atemorizar e apresentar-se para chamar a atenção.

E como poderia a tentação seduzir se se mantivesse ignorada? Trata, pois, de ser vista, procura hipnotizar, tenta deter os passos diante de si.

O esplendor de certas vitrines, a audácia de certas fazendas, a insolência de alguns olhares, o título de alguns livros ou de algumas peças teatrais, o desenho de alguns cartazes, que é senão a serpente que silva?

Chama a tentação: "Por aqui! Por aqui!... vejam! vejam!"

A jovem de nossos dias ouve esse assobio por toda a parte. Quase sempre será uma infeliz se o escutar! Porque, na verdade, é belo, diabolicamente belo o que a tentação oferece ao tolo que se detém. Tantos doces atrás do vidro! Porque não desejar prová-los? Porque não adquiri-los se temos o dinheiro? Porque não aceitá-lo se no-los oferecem? Seria preciso, embora com sacrifício, não voltar a cabeça e, precipitadamente, tão desdenhosa quanto ansiosa, fugir para não ver, receando desejar.

A serpente é aquilo que fascina

Os olhos da serpente! a corrente magnética que deles se desprende e cria, em sua volta e a uma grande distância, uma zona de atração de temíveis efeitos!

Já se sabe a história; inútil, pois, dar-lhe minúcias. A serpente e o pássaro! Os olhos da serpente e os olhos do pássaro! A irresistível fascinação! O tremor das asas! A descida imperceptível, angustiosa e fatal! A goela aberta, o desaparecimento do pássaro na boca enfaímada... e a demorada digestão...

É o drama das florestas.
Fronte aureolada.
Eis toda a pureza de uma jovem.

Assim foi que, no dia 29 de novembro de 1830, a Virgem Imaculada apareceu a Catarina Labouré, Irmã de Caridade, na capela da Casa-Matriz, rua do Bac.

Estava a Virgem esmagando com os pés a cabeça de uma grande serpente amarelo-esverdeada. De suas mãos estendidas jorrava luz e sobre sua cabeça havia uma coroa de estrelas. E atrás da visão estavam dois corações, o Coração de Cristo com seus espinhos, e o Coração de Maria trespassado pela espada.


Está tudo explicado.

As lutas que a pureza supõe, é a serpente sob os pés da Virgem.
Os sacrifícios que a pureza reclama, é o coração ferido que sangra.
O deslumbramento que a pureza cria, é a fronte coroada de estrelas.

As puras são vitoriosas, sofredoras, irradiantes...

É o drama da vida. E como é fascinante a vida! Um atordoamento de luzes, de "toilettes", de espetáculos! E o pecado que prende com tão pérfidos olhares! E o magnetismo de certas vozes! E o tirânico torpor de fisionomias ternas e afetadas! Canções... músicas... perfumes... risos... cochichos... Tudo a que o mundo chama "vida" e constitui grande tentação para as almas jovens! Afim de vê-la uma só vez, quantas não se foram, encantadas e vencidas, com um sorriso cruel e doce! E, depois, tornam-se assíduas! E que será agora para ela o caminho obscuro e pedregoso da aldeia natal, depois da iluminação feérica da cidade!... A consciência se agita. Mas a vertigem delas se apodera e a fascinação fá-las adormecerem no grande sono dos corações enfraquecidos e condescendentes!

A serpente é aquilo que envolve

Todo o mundo sabe que a cobra, em baixo de um determinado dente, segrega, acumula e conserva o veneno, e como é mortal esse veneno! Dizem que o compõe com a sua própria maldade, com a necessidade que tem de prejudicar, com seus instintos dúbios e vingativos. É uma mistura sabiamente dosada para, com ela, matar.

Também os sedutores têm seu veneno. São maus. O vício corrompeu-lhes a alma; a paixão transformou-lhes o coração e o sangue. Reduziram-se aos seus próprios pecados. O mundo está cheio de orgulho, de inveja, de luxúria, com toda a sua cínica desenvoltura. Existe veneno na língua do mundo, também o há em seus olhos, na ponta dos dedos e nos lábios. Tanto em suas obras como em suas palavras, encontramos uma ponta de veneno. Licor perfumado e venenoso, cuidadosamente chamado por um nome inofensivo. Quem o bebe acredita tomar um aperitivo ou um entorpecente. E bebe a própria morte. Quem por ele também se deixa picar, pensa que vai apenas dormir para ter lindos sonhos e diminuir um pouco uma dor passageira. E suicida-se. Arsénico com gosto de licor, cica cheirando a flor de laranjeira, eis o veneno da serpente. Mas, como a serpente se apresenta com uma fisionomia humana e sorri, quem cuidará de enxugar essa pequena gota de saliva que lá ficou como vestígio de um beijo e que só mais tarde se perceberá ser a mordida fatal?

A serpente é aquilo que cospe

Existe uma espécie de serpente cuspideira que, de longe e habitualmente, lança seu veneno aos olhos da vítima, cega-a, queima-a e suja.

Foi este cuspo que profanou a fronte e as faces de Jesus quando, na noite da Paixão, Satanás lho arremessava pela boca dos criados.

Quando é preciso, a tentação tem a garganta cheia desse cuspo nojento. Quando não pode matar, suja, calunia, desonra. Faz corar a vítima por tudo aquilo de que ela se sente enlameada.

A ameaça de tais escarros intimida. O receio de os receber talvez convide a trêmulas concessões. E é isto mesmo que imagina a serpente-tentação quando, para se aliviar de seu próprio tormento ou vingar-se de seus malogros, enlameia a reputação dos outros, impotente que é para envenenar a consciência deles.

A serpente é aquilo que se ergue

A ágil se endireita. A besta encrespada, de pé, nervosa, irritada, ameaçadora, assassina, ergue-se. E sua cabeça se alonga, fremente, os olhos injetados, para a derradeira luta. Já acabou de rastejar, de fascinar, de esperar. Luta de morte. Qual será o mais forte?

E nisto está, em sua maldade provocante, pronta para tudo, a tentação da vida contra os corações puros. Conseguiram fugir, esconderam-se, resistiram aos seus encantos, fingiram não compreender seus acenos, responderam com repugnância. Não se deixaram aprisionar, o magnetismo do olhar carregado de volúpia, com toda a sua meiguice, não arrastou a alma ansiosa até a goela do pecado. Mas ainda ficam a brutalidade, a crueldade, o segredo de prejudicar, enfim, todo um conjunto de sutilezas de que dispõe o vício para a arrastar a juventude indefesa. Jogo sinistro, tão odioso como era o de Nero após suas orgias, sem piedade como era, na época das perseguições, o que se lançava contra as virgens cristãs.

Imaginem pois! Uma moça, só, que pretende ter razão contra todo o mundo! O mundo não se conforma. Na verdade, para quem quer ser reta, direita, existem lutas tremendas a enfrentar. Em seu redor, na sua frente, perto de si está erguida a serpente.

A serpente é aquilo que morde

Ela morde. Pela ferida que fica penetra o veneno.

A vítima já foi contaminada. A febre sobe, o sangue se decompõe, é lenta ou rápida a agonia. Terríveis convulsões e o corpo esfria.

Assim é que, diariamente, morde em tantos jovens corações. Estão calmos, a serpente morde e eis que se agitam com batimentos desordenados. Estão seguros, a serpente morde e eis que estranhos desejos, vergonhosas curiosidades os oprimem. São piedosos, a serpente morde e eis como que um sorriso desdenhoso que substitui a antes suave oração da manhã e da noite. São nobres, altivos, cheios de luz, a serpente morde e eles se encerram num mutismo absoluto, como para esconder seu vergonhoso desastre.

***

Muito mais numerosas que as serpentes dos bosques, das moitas, das grandes florestas, estão espelhadas pelas casas e pelas ruas as serpentes-tentadoras. Existem aos milhões. A espécie pulula. Arrastando-se, adaptando-se, renovando, espreitando, fascinando, envolvendo, venenosas, cuspindo, erguidas, mordendo, com quantas surpresas ameaças as jovens! Cercam-nas com tantos horrores!

Por demais comprida, com a sinuosidade de suas curvas, percorre a terra com sua pele verde-amarelada. Está em toda a parte, em todo o lugar é vista, em todo lugar se tropeça nela.

Não é necessário, para que uma jovem, obrigada a percorrer os caminhos da vida, chegue intacta aos seus vinte anos, não é necessário que tenha resistido, que tenha fugido, que tenha lutado heroicamente? A jovem de nossos dias, que se conserva pura, pode considerar-se uma vitoriosa. Sob seus pés, boca escancarada, a serpente se agita. Retorce-se, grita... mas a jovem pisa-lhe a cabeça e a esmaga.

Exagero?

Perguntem a quem de direito. Elas, que são conhecedoras do assunto, lhe responderão.

E quais são as que o sabem?

As que frequentam os salões mundanos, os escritórios, as oficinas, as fábricas, numa palavra, aquelas para as quais desde então se torna impossível ver, cedo ou mais tarde, a serpente amarelo-esverdeada arrastar-se pelos caminhos.

Dentre elas, existem as corrutoras, filhas da víbora, por ela mortas e por ela geradas. Bem que sabem que o método mais eficaz é justamente o empregado pela serpente.

Dentre elas também encontramos, pobres almas a lamentar, as vencidas, as perdidas, carcomidas pelo vício. Essas bem que sabem, devido à experiência humilhante, que é realmente a serpente, a tentação impura e universal. Ouviram o assobio, viram o olhar fascinante, tremeram diante da chegada sinuosa, sentiram o cerco feito á sua consciência e a ameaça diante de sua fronte. O coração ferido sabe qual o veneno que o intoxicou e de que espécie é a mordida que a picou. Sabem que foi uma luta de serpente contra pássaro e que sua queda foi uma queda de pássaro hipnotizado.

Dentre elas há, finalmente, as vitoriosas, as virgens cuja virgindade foi cuidadosamente conservada ou valentemente defendida. Não mais se iludem devido ás suas recordações, não mentem devido à sua lealdade. Dessa luta ficou-lhes uma angústia calma ou uma calma angustiada. Ambas as coisas. É a lição da vida e a experiência da luta. Não que tenham necessidade de lutar durante toda a sua juventude, e desviar sempre os olhos e apelar para quem lhes pudesse valer, mas desde que venceram, é porque combateram. Sabem que nem sempre a luta se processa em pleno dia, sob o céu límpido, como dois leões da floresta, mas que é um empreendimento sorrateiro da serpente em volta de sua presa e, como diz o Gênesis, entre o coração puro e a tentação da vida existe realmente uma inimizade como a existente entre a mulher e a serpente. As triunfantes, quando estão pisando o inimigo, são verdadeiras "filhas da Mulher" de pé sobre a serpente esmagada.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Os sacrifícios)

PS: Grifos meus.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Gregorian Chant - "Salve Regina"

Gregorian Chant - "Salve Regina"

O mais eficaz de todos os meios de santificação dados ao sacerdote, é a missa.

O mais eficaz de todos os meios de santificação
dados ao sacerdote, é a missa.

Meditações sacerdotais
ou
O padre santificado pela oração
Volume I, pelo Pe. Chaignon
versão portuguesa pelo padre
Francisco Luís Seabra
Porto, ano de 1934

Tem-se-nos dito muitas vezes: Sede santos, para merecerdes oferecer dignamente o divino sacrifício; diz-se-nos agora: celebrai-o com toda a devoção de que sois capazes, para alcançardes a perfeição que Deus espera de vós. Consideremos hoje o altar como uma escola, em que Jesus nos dá com os Seus exemplos as mais úteis lições; amanhã meditaremos sobre os prodigiosos socorros que Ele nos oferece.

A santificação para os simples fiéis, reduz-se a dois pontos: Morrer e viver, despojar-se do homem velho e revestir-se do novo (Exploantes vos veterem hominem, et onduentes novum. Coloss. III, 9). O sacerdote deve além disso comunicar às almas a vida sobrenatural e divina, que ele recebeu em Jesus Cristo. Para ele, o santificar-se é morrer, viver, e dar vida, três graus de perfeição sacerdotal, cujo modelo mais belo e perfeito, o Filho de Deus imolado por nosso ministério, nos oferece no altar. Ele ensina-nos:

- A morrer para o mundo e para nós mesmos.
II - A viver a vida mais santa.
III - A vivificar o próximo com o nosso zelo.

I- Jesus Cristo no altar, modelo de mortificação

Esta virtude custa-nos mais que todas as outras; mas com energia no-la prega o Salvador na celebração dos santos mistérios! A missa é a viva imagem da Paixão. O corpo e o sangue do Homem-Deus, consagrados separadamente e consumados com uma morte mística, os paramentos esmaltados de cruzes, a cruz figurada em todas as cerimônias, a elevação da Vítima pelo sacerdote, que a põe entre o céu e a terra, tal como esteve no Calvário; a paciência e o silêncio deste Cordeiro de Deus, que ali está sem fazer movimento, sem dar sinal de vida: tudo nos recorda no altar as cenas dolorosas de Seu sacrifício cruento. Demais, os indignos tratos e ultrajes não cessaram para Jesus Cristo com a Sua vida mortal; não encontra Ele nos nossos santuários quase todas as cruéis provações da Sua Paixão? A mesma tristeza do Seu Coração, à vista de tantos crimes que se cometem, enquanto Ele Se oferece para reparar a glória de Seu Pai; a mesma frieza, a mesma indiferença, o mesmo abandono da parte daqueles a quem mais encheu de benefícios. Ora Ele tudo tinha previsto, quando instituiu o sacramento do Seu amor: as perseguições futuras tinha-as presentes, assim como as que sofria. A Sua ardente caridade superou todas as repugnâncias: o duplo cálice foi aceito.

E este exemplo de um Deus redentor, não só entregando-Se por nós aos tormentos e à morte, mas também prolongando, perpetuando a Sua Paixão no meio de nós, não será capaz de nos fazer amar a mortificação, ou ao menos de nos suavizar a sua prática? Diante deste pensamento, que é inseparável da celebração dos santos mistérios, ficarei eu sem generosidade e sem energia para me vencer?

Senhor, Vós fizeste-Vos minha Vítima, e eu recusarei ser Vossa vítima? Instituindo o augusto sacrifício e elegendo-me para ser o Seu ministro, sabíeis por quantas tribulações Vos seria necessário passar para chegar até mim; sabíeis quantos ultrajes sacrílegos teríeis de sofrer neste longo espaço de dezoito séculos, e quantos Judas encontraríeis no Vosso caminho: esta horrorosa perspectiva não diminuiu o Vosso amor! E eu nada quererei padecer por Vós? Sacrificastes por mim as Vossas consolações, a Vossa honra, a Vossa liberdade, a Vossa vida; e eu hesitarei em sacrificar-Vos a minha delicadeza, o meu melindre? Consentistes por meu amor em ser cuspido, espezinhado, crucificado; ser desconhecido, insultado até por muitos dos Vossos próprios discípulos, e tudo isto até a consumação dos séculos; e eu queixar-me-ei de que me esqueçam durante alguns dias da minha passageira existência neste mundo?

E desalentar-me-á uma leve ofensa, ou uma momentânea contradição? E continuarei a ser soberbo, sensual e exigente? Semelhante contraste indigna-me contra mim mesmo.

Um padre que se não descuida de meditar na Eucaristia, e que se utiliza das lições que dela recebe, não faz caso dos sofrimentos, qualquer que seja a sua natureza e a sua origem, como os mártires, alimentados com este pão celestial, não faziam caso dos cárceres, dos patíbulos e das fogueiras.

Morre para si mesmo, como lhe foi aconselhado na sua ordenação: Imitamini quod tractatis, quatenus mortis Dominicae mysteriam celebrantes, mortificare membra vestra a vitiis et concupiscentiis omnibus procuretis (Pontif.)

II - Jesus Cristo no altar, perfeito modelo da vida sacerdotal

A vida do Salvador na Eucaristia é toda dirigida por uma sabedoria divina. A prudência humana não compreende esta profunda obscuridade, em que se esconde a suprema majestade, esta soledade, este misto inefável de contemplação e de ação; porque, neste mistério, Jesus parece inativo e faz tudo: do Seu tabernáculo governa o mundo. Glorificar a Deus com Sua adoração e humilhação, salvar os homens derramando continuamente sobre eles as bênçãos da Sua graça, tal é a vida de Jesus Cristo nos nossos altares. Ela não é mais que um exercício contínuo de todas as virtudes, praticadas com infinita perfeição.

Que mansidão! que paciência! Como deixa que se cheguem a Ele, O toquem, O tomem como alimento, e até O insultem! Não repele pessoa alguma.

Os pequenos e os grandes, os ignorantes e os sábios, os pecadores e os justos têm junto dEle o mais fácil acesso. - Que humildade! Afasta de Si tudo o que Lhe daria consideração e esplendor; oculta as Suas divinas perfeições e até a Sua humanidade.

Não parece o que é, ou antes nada parece. Que obediência! Senhor dos senhores, submete-se, e a quem? em quê? quanto tempo? Decorre uma só hora, em que não esteja em alguma parte, na mão dos Seus ministros que O apresentam à adoração do povo, ou O encerram no Seu tabernáculo, e dispõem dEle como querem? Que recolhimento! Que união com Deus! Que oração! Ela não tem sido interrompida um só instante desde a instituição da Eucaristia, e é a esta divina oração, que o mundo deve toda a felicidade que tem.

Eis o modelo da vida sacerdotal. Ensinando-nos essa sublime sabedoria, que é uma estultícia para o mundo, o exemplo do Salvador neste mistério instrui-nos na pura caridade, que só busca a Deus e só trabalha para Deus, e na caridade que tudo sofre. Este exemplo, em que a força se junta à suavidade, atrai-nos e guia-nos ao mesmo tempo nos caminhos da vida interior, toda retirada em Deus, que é a alma da vida apostólica. Assim, depois de nos ter ensinado a morrer para nós mesmos, o Salvador na Eucaristia ensina-nos a viver da Sua própria vida, e a vivificar as almas comunicando-lhes o Seu espírito.

III- Jesus Cristo no altar, modelo de verdadeiro zelo

A missa recorda-nos o que Jesus Cristo fez, o que faz ainda todos os dias e a todo o instante pela salvação das almas. Ela é o memorial de todos os mistérios da Sua vida e principalmente da Sua morte: O memoriale mortis Domini! Ora nesta vida e nesta morte, tudo foi dirigido para um só fim: glorificar a Deus com a salvação das almas.

Não foi pela almas que Jesus Cristo desceu à terra? Não era o pensamento da felicidade dos escolhidos que O amparava nas angústias do Horto das Oliveiras, nos sofrimentos do Pretório e do Calvário?

Na Eucaristia é sempre o grande zelador das almas.

É pela salvação delas que desce ainda todos os dias a milhares de altares. Procura incessantemente dissipar-lhes as ilusões, corrigir-lhes as inclinações, salvá-las. No tabernáculo espera os pecadores, e convida-os a virem aliviar no Seu seio o peso dos seus remorsos. Oferece-lhes os Seus merecimentos, o Seu valimento, a Sua onipotente mediação.

Ó sacerdote cristão! que exemplo vos dá Jesus!

E prevendo que este exemplo mudo não inflamaria ainda bastante o vosso zelo, junta-lhe uma veemente exortação, mesmo no momento da Sua imolação mística; porque é então, que Ele manda que vos lembreis da Sua Paixão: Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis. Recordar-vos, em uma ocasião tão solene, o que Ele padeceu pelas almas, não é porventura recomendar-vos vivamente o cuidado da sua salvação?

Não podeis dizer missa sem ouvir soar ao vosso coração a palavra que comoveu tão profundamente o de São Pedro: "Amas-Me? amas-Me mais que os outros? Apascenta as Minhas ovelhas, cuida das almas; deixarás tu perecer os teus irmãos, por quem sabes que Eu morri"?

Excitando o nosso zelo com o exemplo que nos dá no altar, Jesus regula-o e dirige-o. - Que pureza nos Seus motivos! Buscar-se Ele a Si mesmo? Há alguma mistura de interesse próprio, intuitos pessoais no que faz pela salvação das almas? - Que empenho para as tirar do pecado e sujeitá-las à graça!

Não repele nem ainda os maiores pecadores. Se não os admite logo à Sua mesa, ao menos tolera-os na Sua presença.

Tenho eu imitado até agora, tenho eu ao menos estudado tão perfeito modelo? Ah! Senhor, eu não sabia sequer considerar-Vos sob este aspecto na adorável Eucaristia. Dignai-vos tornar-me daqui em diante mais atento, mais dócil às lições que me dais todos os dias na celebração dos santos mistérios. Infundi-me essa mortificação, essa vida, esse zelo, de que me ofereceis tão grandes exemplos no altar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Oração à Virgem Imaculada antes do estudo

Oração à Virgem Imaculada antes do estudo


Debaixo do Vosso patrocínio, ó Mãe diletíssima, e invocando o mistério da Vossa Imaculada Conceição, quero prosseguir os meus estudos e trabalhos literários; e protesto fazê-lo para propagar a honra divina e o Vosso culto. Rogo-Vos, pois, Mãe amantíssima, sede da sabedoria, que favoreçais benignamente os meus trabalhos; e eu, de boa vontade, piedosamente Vos prometo o que é justo: todo o bem que me provier dos meus estudos hei de atribui-lo inteiramente à Vossa intercessão junto de Deus. Amém.
(100 dias de indulgência).
(Oração retirado do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

Violin Sonata in D, HWV 371 - 1. Affettuoso

Violin Sonata in D, HWV 371 - 1. Affettuoso