quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Donzelas cristãs: Se não vigiardes

 Donzelas cristãs: Você e vossas responsabilidades

Se não vigiardes


Mas, e se não prestardes toda a vossa atenção, jovens minhas! Se, fatigadas de tanta vigília, cansadas de responsabilidades, ébrias de vida folgada e livre, não vos passardes para o grupo das que não mais vigiam!

Oh! se tal fizésseis...
Muitas há que já não são mais guardiãs.

Não tendo mais nelas o que preservar, como poderias fazê-lo para as demais?

Não crêem mais "nisso", e "isso" é a fé, o pudor, o verdadeiro amor, a nobreza moral.

Não crêem mais nisso, sacudiram o jugo, alçaram voo. Quando ouvimos suas risadas, quando as vemos viverem, quando sabemos do que é feita sua alegria, quando se lê em seus olhos, achamos que esse voo é belo. Levantaram voo. Digamos antes: "Rastejam, dançam na lama, sujam os sapatos". Mas voar é que não voam. Precisariam de asas para o fazer. E suas asas se quebraram, caíram, foram arrancadas.

E logo assim tão cedo... Aquelas a quem Jesus amou, aquelas que beijaram a Hóstia com seus lábios puros...

Não vigiam.

Estragam tudo; no presente que profanam mancham o futuro, e na espessa mediocridade em que se instalam enterram, com o ideal cristão, a única beleza do mundo.

Prometei-me que jamais pertencereis ao número delas, que jamais seguireis pela estrada em que vão ficando abandonadas suas virtudes, umas após outras.

Prometei-me que jamais fixareis nervosamente vossos olhos no que manchou seus olhos... que jamais abandonareis vossos corações aos prazeres que sufocaram seus corações... que jamais abandonareis vossas asas às tesouras que cortaram suas asas d'alma...

Prometei que guardareis o que elas perderam.
Porque, se não guardásseis...

Quando a guarda-barreira não presta atenção e à passagem de nível a carroça do camponês é esmagada pelo trem, os tribunais julgam essa mulher e condenam-na.

Quando o guarda-caça não presta atenção à floresta e os caçadores a invadem, matando os faisões do fazendeiro, o fazendeiro se indigna, e que é que acontece?

Quando o soldado de guarda não presta atenção ao paiol de pólvora e à trincheira, e a trincheira é tomada pelo inimigo, e o paiol de pólvora voa pelos ares, o conselho de guerra julga esse homem, e a sanção será terrível.

Desgraça e vergonha para aqueles que não souberam ou não quiseram vigiar...

Assim também vós, investidas da guarda das mais santas realidades deste mundo, se não vigiardes bem, ser-vos-á lançada a culpa, e lançada por Aquele que vos deu uma prova de a confiança quando contou convosco.

Nada há mais tremendo do que ter de dar resposta a certas perguntas:

"Caim - dizia a voz - que fizestes de teu irmão?"
"Mas serei eu acaso o guardo de meu irmão?".
"Sim", replica a voz impiedosa.

Que fizeste de tua , jovem? "Mas era eu acaso a guardiã dela?". Sim, em teu próprio coração e em alguns outros unidos ao teu. E tu a traíste, como Judas traiu. Por quanto? Pela vaidade de uma leitura, pelo miserável orgulho de uma independência de pensamento, por uma ruim paixão em que julgavas achar alegria e vida... Que fizestes de tua fé, jovem minha?

Que fizestes de teu pudor? "Mas era eu acaso guardiã dele?". Sim, eras, mas esse pudor te aborrecia. Achavas que esse pudor, encanto das mocinhas, se tornava ingênuo e até grotesco no semblante das mais velhas? Abriste então os olhos. E que é que entrou pelos teus olhos abertos? que é que saiu? Chegou o dia em que, audaciosa e risonha, não teve mais segredos para ti aquilo a que se chama vida. Trêmula, deixaste de vigiar. Se numa lágrima, quase feliz, enrolaste o pudor numa mortalha. Onde está ele agora? que fizeste de teu pudor, jovem minha?

Que fizeste do teu ideal? "Mas era eu acaso a guardiã dele?". Sim, e podes fechar os olhos e bater no peito, porque há motivos para ter vergonha. Jovem, ardorosa, confiante, com o coração palpitante, visitada pelo sonho que faz as belas almas e as santas, devias ir estrada em fora, a fronte iluminada, as asas  soerguendo os pés, a esperança e o entusiasmo flutuando ao redor da alma como uma basta cabeleira ao vento. Deverias. Tinhas a idade desses arroubos. Contigo, atrás de ti, arrastadas por ti, outras, mais jovens ou mais velhas, deveriam ir também, e todas juntas deveríeis levedar a massa, colocar óleo na lâmpada, acender estrelas na escura noite em que se arrastam tantas outras... Que fizestes do ideal? Teu rosto é terroso; teu olhar envelhecido e sem luz. Teu coração, ao sopro das grandes coisas, fica inerte como o rochedo açoitado pelos ventos. E Cristo abandonou esse túmulo, que é tua alma agora vazia de sua verdadeira vida. Só ficaram os panos dobrados do sepulcro, como recordação, e dois Anjos tristes, chorando o que não mais voltará... Que fizeste do ideal?

Que fizeste do Amor, jovem minha? "Mas era eu acaso a guardiã dele?". Sim. E acabaste sendo a que desperdiça e profana. De teu coração divino fizeste um coração de carne, que não tardará a ser um coração de pedra. Nem chegas mais a acreditar no Amor. Delicadeza, ternura, frémitos misteriosos, santas angústias à aproximação do Amado, alegria de vir a ser feliz, fidelidade em todos os minutos, dedicação que não se fatiga nem se lastima, que fizeste de tudo isso? Em que se transformou em ti o Amor? Pela estrada do egoísmo, das frivolidades e das sensualidades, desceste até onde te esperavam, para te marcarem com seu sinal, todas aquelas às quais outrora olhavas de longe com pavor...

Oh, minha jovem, que fizestes? sabes o que fizestes? Imóvel em sua grande dor, com seus dois braços estendidos e rasgados, Sua face lívida jorrando sangue, o Cruxifixo olha-te amargurado. O amor que Ele próprio foi, e que quis ofertar ao mundo, era contigo que contava para lhe realizar a santa beleza... O Amor cristão abandonava o coração indigno dos homens. Contava com teu coração, mas tua alma abandona o amor que sofre para se entregar ao amor que goza. O Amor está morto em mais uma criatura. Jovem, que fizeste do Amor?

Palavras, palavras - direis vós. Mas palavras que Deus jamais pronunciará.

Responderei: "Sim, palavras que Ele pronunciará".

Que vem a ser o juízo final? Uma pergunta de Deus, uma resposta do homem. E a pergunta de Deus é esta: "Que fizeste do que te foi dado? Que guardaste do que te foi confiado?" E a resposta do homem é a sua vida e nela, se fiel, as obras vivas, e se o não foi o amontoado de flores murchas, o acúmulo das ruínas, o silêncio acusador das coisas mortas e perdidas.

Se não vigiardes, jovens minhas...

Mas sereis guardiãs

Santa Inês, Santa Águeda, Santa Lúcia, Santa Cecília, Santa Joana d'Arc, Santa Teresa de Lisieux, todas as juvenis e admiráveis guardiãs de outros tempos e de agora serão vosso modelo.

Em sua fidelidade lereis vosso dever. Aprendereis com elas o que se guarda e como se guarda.

Em vossas casas e em vossas paróquias, guardareis a pureza praticando-a.

Em vossas igrejas guardareis o fervor, ali orando nas horas solitárias, ali enfeitando de flores os altares, ali entoando cânticos, ali comungando à Sagrada Mesa.

Em vossas ternuras, guardareis o pudor; em vossos prazeres guardareis a inocência.

Guardareis em vós, e por vós em outras, a dedicação pelos patronatos e pelas escolas cristãs... Guardareis vossos corações e vossos olhos. Sendo assim guardados, não perderão a beleza nem a profundidade. Muito pelo contrário.

E continuará a ser verdade que, graças a vós, que o tiverdes guardado realizando-o, o ideal cristão, tão necessário para o mundo, pairará sobre suas misérias, soerguerá seus desejos e fará com que, se os pés se arrastarem pela lama, o semblante, pelo menos, fique aureolado de luz, ó jovens, ó minhas jovens!

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Vocês e vossa pureza)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Oração a Santíssima Virgem Dolorosa

Oração
a Santíssima Virgem Dolorosa


Virgem Maria, Mãe de Deus, Mártir de amor e de dor, a ponto de testemunhar os tormentos e opróbrios de Jesus Cristo; Vós concorrestes ao benefício de minha redenção com as angústias sem número que sofrestes, e com a oferta que fizestes ao Eterno Padre do Seu e Vosso Unigênito, em holocausto e vítima de propiciação por meus pecados. Eu me compadeço da acerbíssima dor que padecestes; dou-Vos graças pelo amor quase infinito com que Vos privastes do fruto de Vossas entranhas, de Jesus verdadeiro Deus e verdadeiro homem, para que, fosse salva esta pecadora. Interponde a Vossa intercessão que nunca é infrutuosa na presença do Filho, do Pai, para que eu invariavelmente corrija os meus costumes e não torne a crucificar com novas culpas o amoroso Redentor; e, perseverando na Sua graça até a morte, obtenha a vida eterna pelos merecimentos da Sua dolorosa Paixão e Morte de Cruz.

Três Ave-Marias

(Oração retirado do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

O Padre santificado - A Fé

O Padre santificado
(resumo)
por
Pe. Antônio d' Almeida Moraes Júnior
ano de 1943, editora vozes
Resumo do livro escrito por Pe. Dubois


Primeiro meio de santificação para o Padre
As virtudes

Fé - Vida e espírito de Fé - Prática da Vida da Fé

A fé, diz Santo Ambrósio, é o fundamento sólido de todas as virtudes. Se me tirais a fé, que virtudes me deixais? Como esperarei em Deus, como O amarei, se, primeiro que tudo, não creio nEle? Como praticarei a humildade, a mortificação, a paciência, a castidade, se não creio firmemente que Deus me recomenda formalmente estas virtudes, e me reserva castigos terríveis, se as transgrido?

Mas, se, roubando-me a fé, me roubais as outras virtudes, que zelo posso eu ter para cultivar em outros o que desprezo em mim mesmo?

É por estas considerações que São Vicente de Paulo escreveu: "É absolutamente necessário, quer para nosso adiantamento, quer para a salvação dos outros, seguir sempre em tudo a luz da fé".

Falemos da vida da fé. Encontramos em quatro lugares da Santa Escritura esta sentença: O justo vive da fé. Trata-se aqui da vida da alma. Deve haver, portanto, para ela, um alimento espiritual, próprio para entreter seu princípio espiritual, próprio para entreter seu princípio vital. Deus diz-nos que este alimento é a fé. Convençamo-nos disto, examinando o que se passa na alma de um infiel, de um selvagem, que não tem o menor conhecimento das verdades reveladas. Deus vem em seu auxílio, ensinando-lhe as verdades eternas. O infiel bebe em Deus e na fé, com que Ele o esclarece, uma vida, e torna-se uma nova criatura, segundo estas belas palavras do grande apóstolo: Se alguém é renegerado em Jesus Cristo, ei-lo tornado uma nova criatura; tudo o que era do velho homem desaparece para ele; passa para uma nova vida.

É certo  que, se esta alma se deixa docemente guiar pelo princípio da fé que possui, tudo muda para ela, tudo, até seus atos, os mais indiferentes, até seus sentimentos, os mais íntimos.

Possuir a fé - e viver da fé, são duas coisas que não podemos confundir. Quantos santos e quantos criminosos possuem a mesma fé! Mas só os primeiros vivem da fé!

As verdades da fé são e serão indubitavelmente sempre misteriosas e ocultas neste mundo, mas é tão denso para nós o véu que as encobre, e tão transparente para os justos de Deus, que vivem da fé, que isto bem dá a conhecer o fervor de sua alma e a frieza da nossa, - a generosidade de seus sacrifícios e a  frouxidão que experimentamos da nossa parte, quando é necessário combater.

Devemos, a todo custo, viver constantemente da vida da fé, porque, fora desta vida, não poderemos nunca desempenhar com pleno merecimento para nós mesmos, nem com abundância de frutos para os outros, as santas funções do nosso ministério.

Que é viver da vida de fé? Viver da vida da fé é desprezar o que o mundo estima, e estimar o que ele despreza quando se tem de escolher entre ele e o Evangelho: é, por exemplo, separar-se dos filhos do século que gritam, como insensatos: felizes dos ricos! felizes os que se divertem! e opor a esta linguagem mundana as bem-aventuranças que Jesus Cristo proclama: felizes os pobres! felizes os que choram! felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça!

Viver da vida da fé é entreter esta vida divina, fortificá-la, desenvolvê-la mais e mais, nutrir sua alma das verdades cristãs, trazê-las a miúdo ao seu pensamento, escolhê-las para assunto de suas meditações as mais comuns, e procurar nelas só as luzes, a força e as consolações de que se precisa nas dúvidas, nos combates e nas tribulações.

Eia qual deveria ser a vida de todos os cristãos, porque todos são regenerados em Jesus Cristo, porque o Evangelho é a sua regra e a fé sua bandeira. Mas quanto esta vida da fé não é mais obrigatória para o Padre que a prega no púlpito, que insinua no tribunal da penitência, que faz dela a cada momento profissão pública nas diviníssimas funções que desempenha!

Onde iremos procurar a vida da fé, se o próprio Padre não a conhece?

O Padre só é grande pela fé; dela é que tira o esplendor de sua glória: na esfera da fé é que se exercem todos os atos do seu sacerdócio; ele não é nada senão pela fé. Logo, sejamos homens de fé; sejamos os primeiros a praticar o que pregamos aos outros. Fiéis imitadores de Jesus Cristo, nosso chefe, comecemos por praticar antes de ensinar.

Envergonhemo-nos de ensinar aos simples fiéis a santificar suas obras comuns, e não sabermos nós mesmos desempenhar dignamente as funções divinas do nosso sacerdócio. Vivamos da vida da fé, porque é da fé que resulta nossa glória, e entremos nos sentimentos desse homem venerável, Mr. de Renty, piedoso leigo, cuja vida escreveu o sábio P. Santa-Jura, o qual dizia na expansão da sua fervorosa piedade: "Ah! quanto é bom viver da vida da fé! De dia para dia conheço a sua graça. Os que vivem esta vida dos justos, tocam afinal o cúmulo da sua perfeição, e recebem as primícias da glória". Não consintamos que os leigos sejam nossos mestres, nós que somos seus pastores, e todos os dias temos a eles por nossos ouvintes e discípulos.

Santa Rita de Cássia - Algumas anotações

Algumas anotações feitas pelo blogue do livro:
Santa Rita
por
Padre Agostinho Rueli





Divisão das anotações:

I- Infância e juventude
II- Esposa e mãe
III- Viúva e religiosa 

O livro foi composto por trechos selecionados do livro: Notas biográficas de Santa Rita de Cássia, de autoria do Padre Agostinho Rueli, Agostiniano, no ano de1929.


I- Infância e juventude

Santa Rita nasceu no ano 1381 em uma vilazinha a três quilômetros de Cássia na Itália, chamada Rocca Porena, lugar de difícil acesso por caminho íngreme.

Filha de Antônio e Amata Mancini, muito piedosos e conhecidos como “pacificadores de Cristo” na cidade, pois apaziguavam os vizinhos inimigos entre si, ou em litígio, com boas obras e bom exemplo. Quando Santa Rita nasceu, sua mãe tinha 62 anos, todos consideravam Rita como um prodígio do Céu, o nome Rita é a forma reduzida de Margherita, que significa pérola.

Infância

- Foi verdadeiramente extraordinário e maravilhosa a luminosidade que de tempos em tempos era vista circundando a cabecinha da menina.

- Mamava o leite apenas três vezes ao dia e nas sextas-feiras fazia jejum, ainda neném. Os que conversavam entre si a respeito da sobriedade da menina em mamar tão pouco e abster-se de qualquer alimento às sextas-feiras, já prognosticavam a exímia virtude da abstinência e da penitência que, mais tarde, ia ser praticada por Santa Rita.

- Sinal certo de que Rita foi prevenida da grande bênção de doçura é o prodígio das abelhas que vinham, com frequência, esvoaçar sobre a menina, entrando e saindo da boca da santa sem lhe fazer nenhum dano, esse tipo de abelhas que se vêem até hoje no Mosteiro de Cássia, escondidas em pequenas frestas, costumam sair todos os anos, na Semana da Paixão. Essas abelhas são bem diferentes das que conhecemos, não têm ferrão e não picam quem as toca, parecem destinadas a simbolizar as virtudes da doçura e mansidão da santa.

Juventude

Tomando conhecimento pelos pais dos favores com os quais tinha sido favorecida, santa Rita logo compreendeu que deveria agradar a Deus em todos os seus atos.

- Procurava abster-se de brinquedos e travessuras infantis.

- Prestava muita atenção às orações de seus pais e esforçava-se para aprendê-las de cor e as recitava com piedade.

- Foi da educação que recebeu dos pais e da formação religiosa que recebia na Igreja, que adquiriu uma devoção especial para com Nossa Senhora, e também era devota de São João Batista, por essa devoção veio-lhe a estima da solidão, Santo Agostinho, provinha o amor de Deus e São Nicolau de Tolentino, fez-lhe apreciar a mortificação e a penitência.

- Ainda na juventude dentre os afazeres domésticos, meditava muito, e sempre foi muito obediente aos pais, mas se algo que eles mandavam a pudesse afastar de Deus, a santa resistia-lhes com muito jeito. Certo dia, a mãe queria enfeitá-la e vesti-la para que a filha ficasse bonita, elegante e atraente, a santa negou-se...

- Amava a solidão, e queria que os pais permitissem-lhe ficar em um quartinho bem escondido, onde pudesse meditar na Paixão de Nosso Senhor, os pais sabiam que a filha viera de uma graça especial de Deus e não contrariaram a filha. Ali ela permaneceu por um ano inteiro, e dele somente desejaria sair para continuar a viver em um convento, como esposa de Cristo.

- Se entregava as austeras penitências e jejuns, e se dedicava muito aos cuidados dos pobres.

- Tinha muita caridade para com as almas do purgatório.

- Com seu bom exemplo as moças a buscavam para pedir conselhos.

II- Esposa e mãe

Noivado

Santa Rita, queria ser freira no mosteiro das Agostinianas de Cássia, esperava apenas a hora oportuna para falar aos pais, porém esses já em idade avançada e pensando nas dificuldades da velhice se opuseram a vontade da filha, destinando-a a vida conjugal.

Deus queria fazer da santa modelo de mãe e esposa e a consolou.

Seu noivo era o jovem Paulo Ferdinando, natural de sua cidade, Santa Rita entendia o estado matrimonial como uma missão especial de caridade, para ganhar para Deus a alma do marido e da prole que o Céu lhe desse.

Casamento

Paulo Ferdinando, que a princípio parecia ser um bom homem, mostrou-se um carrasco, batendo e ameaçando a esposa, vivendo em vida de bebedeira, um esposo muito violento. Santa Rita procurava calar-se, falava muito pouco, estudava o modo de tratar com ele, esperava as ocasiões oportunas para conversar com o marido e lhe fazer ver a sua injustiça.

Depois de muita oração e sofrimento, Paulo Ferdinando se converte, uma vitória que Santa Rita alcançou não com a arma da língua, mas com a eficácia do bom exemplo.

Porém pouco tempo depois Paulo foi cruelmente assassinado... muita tristeza, não tanto pela preocupação do sustento dos pequenos, mas sobretudo porque temia pela sorte da alma de Paulo Ferdinando.

Educação dos filhos

Santa Rita perdoou os assassinos, mas os filhos, que herdaram do pai o gênio colérico não, e conforme os dias iam passando eles arquitetavam a vingança da morte do pai.

E com toda a responsabilidade moral sobre os filhos, e aflita com a idéia deles mancharem a alma com o pecado mortal recorreu a Deus em suas orações para que mudasse o coração dos filhos ou os chamassem naquela idade juvenil.

Deus ouviu as preces da santa e no espaço de um ano, levou-os para a eternidade, tinham 15 anos, e Santa Rita por volta de 35 anos.

III- Viúva e religiosa

Santa Rita santificou e honrou o estado de viuvez, se entregou às obras de religião e a oração.Tomou a resolução de entrar no Mosteiro de Santa Maria Madalena, das religiosas Agostinianas, mas seu pedido foi negado pois o costume do mosteiro proibia a entrada de viúvas, a santa não quis insistir com a superiora e recorreu à proteção da Virgem Santíssima e de seus santos protetores.

Entrada no Mosteiro - No alvorecer de certo dia, as religiosas Agostinianas de Cássia encontraram Rita dentro do seu mosteiro em posição de quem rezava com devoção, as irmãs com muito espanto ouviram Santa Rita dizer que estava em oração noturna em Rocca Porena, quando ouviu que a chamavam do lado de fora de sua casa, abriu a porta e viu-se diante de seus santos protetores, os quais deram-lhe a ordem de se dirigir para o mosteiro sob a direção deles, obedeceu e viu-se de repente naquele lugar.

Diante desse milagre ela foi recebida com muita alegria no mosteiro, e sua fama de santidade aumentou entre os moradores da cidade.

Virtudes – Santa Rita fez o ano de noviciado e jurou os votos solenes, desejava para si os serviços mais humildes e baixos do convento, por amor a pobreza, escolheu a cela mais escura, estreita e incômoda; dormia sobre a terra nua ou sobre uma tábua; como vestimenta só teve um hábito que envergaria ate à morte.

Flagelava-se rudemente três vezes ao dia, uma pelas almas do purgatório, outra pelos benfeitores do mosteiro e a terceira pela conversão dos pecadores.

Dormia com o cilício à cintura, ou vestida com uma túnica tecida de espinhos.

Também era muito obediente. Vendo a obediência da santa sua superiora mandou-lhe que plantasse num canto do pátio um galho inteiramente ressecado de vinha e o regasse todos os dias. Santa Rita cumpriu essa obrigação pacientemente por um ano, depois disso a planta produziu flores e frutos. É a mesma planta que ainda hoje, passados mais de cinco séculos, se conserva frutífera, embora esteja plantada em terra pouco favorável, não sendo adubada ou cuidada, e no mês de novembro é possível colher os grandes e saborosos cachos de uvas nascidos dessa planta.



Amor ao Crucificado - Desde muito nova a santa sempre meditava sobre a Paixão de Nosso Senhor, criando raízes profundas na alma da santa, a tal grau chegou sua contemplação que, algumas vezes, quinze dias seguidos não eram suficientes para meditar os mistérios.

Um dia depois de ouvir um sermão pregado por São Tiago da Marca, em Cássia, sobre a Paixão, Santa Rita senti-se mais inflamada no desejo de ter em seu corpo um sinal doloroso da Paixão, recolhida então em um oratório no velho jardim do mosteiro, viu desprender-se da imagem do Crucificado um espinho da Coroa que cingia a cabeça de Jesus e, rápido como uma flecha, finco-se na sua testa, causando-lhe uma dor profunda, esse ferimento a acompanhou até a morte, e devido ao mau cheiro da ferida infeccionada, Rita passou a viver isolada das demais freiras.

Ida à Roma – No ano de 1450 ocorreria à canonização de São Bernardino de Sena, falecido 6 anos antes. Santa Rita desejava muito ir à Roma para homenageá-lo, foi pedir licença à superiora, mas devido a sua ferida, que causava repugnância seu pedido foi negado; então a santa rezou para que Deus afastasse dela aquele obstáculo, pediu para que as dores continuassem mas que a ferida desaparecesse, e suas preces foram aceitas.

E quando retornou de Roma a ferida reapareceu, causando muita alegria em Santa Rita e mais admiração ainda das pessoas; a fama de sua santidade se espalhava e muitos recorriam a ela em busca de conselhos e para recomendarem às suas orações.


Morte – O sofrimento da ferida piorava a cada dia, e uma enfermidade desconhecida nos últimos anos de sua vida causava-lhe mais tormentos que a ferida.

Rita morreu na idade de 76 anos, a 22 de maio de 1457 depois de ter recebido os sacramentos. No momento em que as religiosas se dirigiam para a igreja a fim de cantar em ação de graças pela morte de Rita, os sinos do mosteiro foram tocados por mãos invisíveis, atraindo muitas pessoas até lá.

Sua cela úmida e escura foi iluminada por grande esplendor, todos sentiam um perfume especial que se espalhava por todo o mosteiro.

Incorrupção do corpo – No ano de 1626 depois de 169 anos da morte da santa, seu corpo foi examinado e apareceu como se tivesse morrido recentemente.

Em outro exame realizado 56 anos depois do primeiro, o corpo foi encontrado “íntegro, incorrupto, com as feições nítidas e coisa admirável, com os olhos abertos”.

No terceiro exame realizado 247 anos depois de sua morte feito no ano de 1704 o corpo continuava intacto e incorrupto com a mesma aparência e frescor. Dos três milagres propostos e aprovados para a canonização de Santa Rita, esse odor sobrenatural é o primeiro em ordem e em dignidade.

Cito trecho do livro:

"O odor suave e intenso da cela da Santa logo após a sua morte encheu de admiração todos os que o sentiram. Em redor do corpo de Rita tem continuado, por séculos, a derramar-se o mesmo aroma prodigioso.

Deus exaltou a Santa Rita naquele mesmo corpo que pelas penitências, pelas doenças e pelo repugnante cheiro da chaga, fora objeto de desprezo e de abandono.

Eis o que se narra acerca desse odor perene no processo sobre os milagres examinados para a canonização de Rita:

"Tanto as testemunhas, quase unânimes, como a opinião pública, falam de um odor agradável proveniente do corpo da Bem-aventurada Rita, e de tudo que tenha tocado nele, Ninguém sabe precisar a natureza desse cheiro; todos, porém, o afirmam celestial. Sente-se até fora da igreja e espalha-se pelos lugares afastados do mosteiro. Não se pode atribuir a aromas derramados no corpo, porque não os houve; não se desprende das flores, ao lado, sobre o altar vizinho, porque as freiras têm especial cuidado em não permitir objetos olorosos a que se pudessem atribuir mistificações por parte das religiosas. A intensidade, a difusão e a constância, por tanto tempo, desse ordor, são provas de que se trata de um fato para ser admirado e digno de sobrenatural consideração".

A ciência fecha-se num círculo vicioso, do qual não sabe sair... é obrigada a confessar a sua ignorância na explicação desse fenômeno! Por essas razões, e por muitas outras de ordem moral, que se lêem no processo, é forçoso concluir que o aroma desprendido do corpo de Santa Rita, é sobrenatural, é um verdadeiro milagre".
Urbano VII a beatificou em 1628 (171 anos depois de sua morte); e a canonização em 1900, 443 anos depois por Leão XIII.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

São Bento e sua medalha - Algumas anotações


Algumas anotações feitas pelo blogue do livro:
Vida e milagres de São Bento 
escrito por
São Gregório Magno, Papa
e do livro
A medalha de São Bento
escrito por Dom Próspero Guéranger O.S.B

Autor do primeiro livro – São Gregório Magno escreveu esse livro no ano de 593, ele é redigido em forma de diálogo com o Diácono Pedro, amigo e secretário do Pontífice.

Para escrever esse livro baseou-se em dados que ouviu de quatro dos discípulos de São Bento: Constantino, Valentiniano, Simplício e Honorato.

São Gregório jamais abandonou seus estudos teológicos e místicos, e escreveu diversas obras de espiritualidade que tiveram grande influência não só em seu tempo, mas em toda a Idade Média.

Divisão das anotações:

1 – Vida de São Bento e seus milagres
2 – Regra de São Bento
3 – Medalha de São Bento

I -Vida de São Bento e seus milagres

Família e solidão

Nascido na região de Núrsia (Itália), de uma nobre família, segundo antiga tradição nasceu no ano de 480, quase nada se encontra sobre a família do santo, apenas se tem registro de sua irmã gêmea Santa Escolástica, mulher de grande virtude, amante da solidão.

São Bento foi enviado pelos pais a Roma para estudar as Letras, mas vendo que muitos se deixavam arrastar no estudo para o caminho da perdição, desprezou os estudos literários, abandonou a casa e os haveres paternos, e procurou o hábito da vida monástica. Buscou a solidão em um lugar chamado Subiaco, cerca de 40 milhas de Roma. Enquanto caminhava para esse destino, encontrou com um monge chamado Romano (São Romano); este sabendo pela boca do santo de suas intenções o ajudou, impondo-lhe o hábito da vida monástica.

São Bento isolou-se em uma gruta muito pequena, e ali permaneceu por três anos, isolado de todos os homens, nessa época foi muito tentado pelo demônio, principalmente com tentações de impureza. Um dia para se livrar de uma tentação violenta, o santo se jogou nu entre os espinhos, deixando seu corpo todo chagado, de tal modo ficou nele domada a tentação da volúpia que nunca mais sentiu nada semelhante.

Nesses três anos sua alimentação era baseada nos poucos pedaços de pães que São Romano levava para ele; como a gruta era de difícil acesso, o alimento era amarrado em uma corda, e descido até a gruta.

Mas Deus queria que a vida de São Bento fosse dada a conhecer como exemplo para os homens, ordenou a certo sacerdote que vivia longe dali, que levasse comida ao servo São Bento: “Tu preparas delícias para ti mesmo, enquanto meu servo passa fome em tal lugar”.

E o sacerdote levantou-se e foi em busca do servo de Deus, e por essa forma seu nome foi conhecido a todos os que habitavam nas circunvizinhanças, e começou a ser visitado com freqüência.

Ações

- Abade de um mosteiro corrompido

Não longe, dali havia um mosteiro cujo abade havia falecido, e os membros dirigiram-se a São Bento rogando-lhe que os dirigisse. Durante muito tempo o santo negou dizendo que seu modo de proceder não se ajustava aos daqueles irmãos, mas acabou por consentir.

Impôs para aquele mosteiro regras, não permitindo a ninguém desviar-se como antes, nem para o lado direito e nem para o lado esquerdo, mas os monges deveriam andar no reto caminho da perfeição.

Irritados com tanta severidade, os irmãos colocaram veneno em seu vinho.

Como de costume, o abade abençoava os alimentos e bebidas. Quando levantou a mão e fez o sinal da cruz, um vaso que estava a certa distância se quebrou o santo homem levantou-se e disse: “Que Deus onipotente tenha piedade de vós irmãos; por que quisestes fazer isso comigo? Por acaso não vos disse antecipadamente que eram incompatíveis meus modos de proceder com os vossos? Ide e buscai um pai de acordo com vossos caprichos, porque a partir de agora de modo algum podereis contar comigo”.

Retornou então a sua amada solidão, e como o santo crescia em virtude, muitos foram os que quiseram segui-lo, foram então construídos ali doze monastérios. São Bento nomeou um abade para cada um dos monastérios e permaneceram com ele alguns outros discípulos os quais ainda receberiam formação do santo homem.

- Educador

Também nessa época começaram a visitá-lo nobres e pessoas religiosas da cidade de Roma e ofereciam-lhe seus filhos para que fossem educados no temor de Deus.

Dois deles foram São Mauro e São Plácido.

São Mauro foi um dos primeiros discípulos de São Bento, muito enviado em missões para espalhar a regra beneditina, faleceu em 584.

São Plácido, é considerado discípulo amado de São Bento, pois ainda era muito pequeno quando foi entregue para ser educado, a tradição conta que foi mártir.

Muitos milagres realizaram pela invocação da santa cruz.

- Fundador do Mosteiro de Monte Cassino

Havia um sacerdote que tinha muita inveja de São Bento, e tomado por esse mau sentimento mandou um pão envenenado a São Bento como presente.

O homem de Deus por sua parte aceitou-o com agradecimentos, mas não lhe era desconhecido o mal que o pão ocultava.

Na hora da refeição, como de costume um corvo da floresta vizinha, vinha receber alimento do santo, e São Bento ordenou: “Em nome de Jesus Cristo Nosso Senhor, toma esse pão e lança - o em algum lugar onde não possa ser achado por homem algum”. O corvo, abrindo e estendendo as asas começou a grasnar, e o homem de Deus ordenou novamente: “Toma-o, toma-o sem medo, e lança-o num lugar onde não possa ser encontrado”. O corvo obedeceu.

Não conseguindo matar o corpo de São Bento, o sacerdote, resolveu perder as almas dos discípulos do santo, introduziu no jardim do mosteiro, sete mulheres desnudas.

São Bento vendo da cela, e temendo pela perda dos seus, distribuiu os seus discípulos pelos monastérios e levando consigo poucos monges, afastou-se para outra morada.

Florêncio -- esse era o nome do sacerdote-- , enquanto comemorava no terraço a saída de São Bento, sem que se abalasse em nada o resto da construção, desabou, entretanto o terraço em que ele estava esmagando-o e matou-o.

São Bento partiu em direção a fortaleza chamada Cassino, situada entre Nápoles e Roma. Houve nessa fortaleza um templo pagão, onde se rendia cultos ao deus Apolo, em volta havia bosques, onde tinha sido realizado culto aos demônios.

Segundo a tradição a fundação do Mosteiro de Monte Cassino ocorreu no ano de 528 ou 529. Ao chegar àquele local o homem de Deus destruiu o ídolo e colocou por terra o seu altar, construindo no lugar do ídolo um oratório em honra de São Martinho e no lugar do altar um oratório a São João.

O antigo inimigo furioso aparecia claramente aos olhos do Pai Bento, e muitas foram às vezes em que tentou acabar com o Mosteiro.

Gritava dizendo: “Bento, Bento”, e recebia o silêncio como resposta, logo acrescentava: “Maldito és tu, e não bendito. Que tens comigo? Por que me persegues?”


  
(Mosteiro Monte Cassino destruído
na Segunda guerra mundial e posteriormente restaurado)

Milagres e profecias

- Ressurreição de um jovem monge

Enquanto os irmãos levantavam uma parede que se fazia necessária no Mosteiro, São Bento estava a rezar, quando o inimigo apareceu a ele, ameaçando-o.

Logo em seguida o espírito do mal derrubou a parede, esmagando um jovem monge, destroçando-o completamente.

O Pai Bento então ordenou que levassem até ele o menino destroçado, os irmãos juntaram os pedaços dos membros e ossos em um lençol, e assim o fizeram.

Pôs-se a rezar com mais fervor. E -- coisa admirável -- logo em seguida estava enviando de novo o menino, são e salvo, para que terminasse também ele a parede com os irmãos.

- Morte de São Bento

No mesmo ano em que morreria, anunciou a sua morte aos irmãos; seis dias antes da morte, mandou abrir sua sepultura. Logo depois, atacado por febres, começou a ressentir-se de seu ardor violento.

No dia de sua morte, fez-se conduzir ao oratório para receber a Santa Eucaristia; e apoiando seus enfraquecidos membros nos braços dos discípulos, permaneceu de pé com as mãos erguidas para o céu, e exalou o último suspiro entre palavras de oração.

II- Regra de São Bento


Não quero que ignores que o homem de Deus, entre tantos milagres com que resplandeceu no mundo, brilhou também de modo não menos admirável por sua doutrina; porque escreveu para os monges uma regra notável pela sabedoria e muito clara em sua linguagem. Se alguém quer conhecer mais profundamente a vida e os costumes de Bento, poderá encontrar no próprio ensinamento da regra que escreveu todas as ações de seu magistério, por que o santo varão não poderia ensinar outra coisa senão o que ele mesmo praticou.”

(São Gregório Magno)

A regra é dividida em 73 capítulos, segue alguns pontos dela:

Prólogo – “Devemos, pois constituir uma escola de serviço ao Senhor. Nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado. Mas se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivos de eqüidade, para emenda os vícios ou conservação de caridade não fujas logo, tomado de pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre senão por estreito caminho”.

Gênero dos monges - Há quatro gêneros de monges: 1- Cenobitas (monasterial), que militam sob uma regra e um Abade; 2- Anacoretas (eremitas), que militam no deserto; 3- Sarabaítas, detestável gênero, são conhecidos por mentir a Deus pela tonsura, não seguem nenhuma regra, e vivem a sua satisfação como lei e os Giróvagos se hospedam em diferentes províncias, sempre vagando e nunca estáveis, escravos das próprias paixões.

Abade – Ele faz às vezes de Cristo... Por isso não deve ensinar, determinar ou ordenar, nada que seja contrário ao preceito do Senhor, mas que a sua ordem e ensinamento, como fermento da divina justiça se espalhe na mente dos discípulos; lembre-se sempre o abade de que da sua doutrina e da obediência dos discípulos, de ambas essas coisas, será feita apreciação no tremendo juízo de Deus... Antes de tudo não se trate com mais solicitude das coisas transitórias, terrenas e caducas, negligenciando ou tendo em pouco a salvação das almas que lhe foram confiadas.

Oração – Se queremos sugerir alguma coisa aos homens poderosos, não ousamos fazê-lo a não ser com humildade e reverência; quando mais não se deverá empregar toda a humildade e pureza de devoção para suplicar ao Senhor Deus de todas as coisas? E saibamos que seremos ouvidos, não com o muito falar, mas com a pureza do coração e a compunção das lágrimas. Por isso, a oração deve ser breve e pura, a não ser que, por ventura, venha a prolongar-se por um afeto de inspiração da graça divina.

Doentes – Antes de tudo e acima de tudo devem tratar-se dos enfermos de modo que se lhes sirva como verdadeiramente ao Cristo, pois Ele disse: “Fui enfermo e visitaste-Me” e “Aquilo que fizestes a um destes pequeninos, a Mim fizestes”.

Da recepção dos hóspedes -Todos os hóspedes que chegarem ao mosteiro sejam recebidos como Cristo... Logo que um hóspede for anunciado, corra-lhe ao encontro o superior e os irmãos, com toda a solicitude da caridade... Em todos os hóspedes que chegam e que saem, adore-se, com a cabeça inclinada ou com todo o corpo prostrado por terra, o Cristo que é recebido na pessoa deles.

Candidatos - Apresentando-se alguém a vida monástica, não se lhe conceda fácil ingresso, mas como diz o Apóstolo: “Provai os espíritos, se são de Deus”. Portanto, se aquele que vem perseverar batendo á porta e se depois de quatro ou cinco dias, sendo-lhe feitas injúrias e dificuldades de entrar, parecer suportar pacientemente e persistir no seu pedido conceda-se-lhe o ingresso... Que haja solicitude em ver se procura verdadeiramente a Deus, se é solícito com o Ofício Divino, a obediência e os opróbrios. Sejam-lhe dadas a conhecer, previamente, todas as coisas duras e ásperas pelas quais se vai a Deus.

III- Medalha milagrosa de São Bento

A medalha de São Bento tornou-se célebre por sua eficácia extraordinária no combate ao demônio e a suas manifestações; na defesa contra malefícios de todas as espécies, contra doenças, principalmente hemorragias, picadas de animais peçonhentos; na proteção de animais domésticos, veículos, e na conversão dos mais incrédulos.

Descrição da medalha

Imagem da Santa Cruz - Instrumento da redenção do mundo. A Cruz, que a Igreja saúda como a nossa única esperança.

A representação da Cruz desperta, em nós, todos os sentimentos de gratidão para com Deus, pelo benefício de nossa salvação. Depois do Santíssimo Sacramento, nada há sobre a terra que mais digno seja de nosso respeito do que a Cruz; é por isso que lhe tributamos um culto de adoração, o qual se refere á Nosso Senhor, que a regou com Seu sangue divino.

Imagem de São Bento – A honra de figurar na mesma medalha com a imagem da Santa Cruz foi concedida a São Bento, com a finalidade de bem indicar a eficácia que teve em suas mãos aquele sagrado sinal, muitos foram os milagres que São Bento realizou e também seus discípulos através da invocação da Santa Cruz.

O próprio Salvador do mundo parece ter querido por um especial favor, confiar aos filhos de São Bento considerável parte da Cruz na qual resgatou os homens.

Existem fragmentos do sagrado madeiro nos mosteiros na França, em Paris, Veneza, Espanha, Suíça, Alemanha, Áustria, etc.

Os caracteres – além das imagens a medalha traz ainda certo número de letras, e cada letra representa uma palavra. As diversas palavras reunidas formam frases que manifestam a intenção da medalha.

Às quatros letras que vêem colocadas entre as hastes da referida Cruz:

C S
P B

Significam: Crux Sancti Patris Benedicti (Cruz do Santo Padre Bento)

Na linha vertical da Cruz lê-se:

C
S
S
M
L

Significam: Crux sacra sit mihi lux (A Cruz sagrada seja a minha luz)

Na linha horizontal da mesma Cruz, lê-se:

N.D.S.M.D.

Significam: Non draco sit mihi dux (Não seja o dragão o meu chefe)

Em redor da medalha existe uma inscrição mais extensa, a qual em primeiro lugar apresenta o santíssimo nome de Jesus, expresso pelo monograma: I.H.S.

Vêm depois, da direita para a esquerda, as seguintes letras:

V.R.S.N.S.M.V.S.M.Q.L.I.V.B

Significam: Vade reto satana; nunquan suade mihi vana: Sunt mala quae libas; ipse venena bibas. (Afasta-se, satanás; nunca me aconselhe tuas vaidades, a bebida que ofereces é o mal: bebe tu mesmo teus venenos).

Tais palavras supõem-se terem sido ditas por São Bento: as do primeiro verso, por ocasião da tentação contra a pureza; e a segunda no momento em que os seus inimigos lhe apresentaram uma bebida envenenada.

Existe na medalha uma junção de tudo o que satanás mais teme: a Cruz, o santo Nome de Jesus, as próprias palavras do Salvador quando tentado, e por fim, a recordação das vitórias que o grande Patriarca São Bento alcançou sobre o dragão infernal.

Origem – É impossível fixar com precisão a época em que se começou a usar a medalha.

Em 1647 na Baviera, umas feiticeiras, acusadas de terem feito malefícios contra os habitantes da região, foram encarceradas e no processo, elas declaram que suas supersticiosas maquinações sempre ficavam sem resultado nos lugares em que a imagem da Santa Cruz estivesse e elas acrescentaram que nunca tinham podido exercer poder algum sobre a abadia de Metten.

Os investigadores ao visitarem o mosteiro notaram nas paredes muitas representações da Santa Cruz, acompanhadas de alguns caracteres.

Depois de muitas investigações, afinal encontrou-se na biblioteca da abadia, um manuscrito, notável pela encadernação enriquecida com relíquias e pedras preciosas, e trazia na primeira página, treze versos que indicavam terem sido escrito por ordem do Abade Pedro, no ano de 1415.

Havia vários desenhos a bico de pena e um dos escritos representa São Bento, tendo na mão direita, um bastão terminado por uma cruz, sobre o bastão lia-se este verso:

Crux sacra sit m lux n draco sit michi dux.

Da mão direita do santo Patriarca saia uma flâmula com mais estes dois versos:

Vade retro sathana nuq suade m vana.
Sunt mala que libas ipse venena bibas.

Assim, no começo do século XV, São Bento já era representado com uma cruz; e já existiam os versos cujas iniciais se lêem hoje na medalha.

Essas descobertas despertaram à devoção do povo para com São Bento, representado com a Santa Cruz.

Juntaram-se os caracteres cuja explicação tinha sido fornecida pelo manuscrito de Metten, e as imagens da santa Cruz e a de São Bento.

A Alemanha foi o primeiro lugar onde foi cunhada a medalha, e ela se espalhou com rapidez por toda a Europa católica.

Aprovação da Medalha pela Sé Apostólica - A medalha havia sido denunciada como supersticiosa pelo J.B.Thiers, em seu Tratado das Superstições, obra condenada pela Igreja.

Esse crítico pretendia fundamentar suas invectivas com o pretexto de que, não sendo fácil adivinhar o sentido das letras capitais que se lêem na medalha, elas se tornavam por isso mesmo suspeitas de alguma intenção mágica.

Dom Guéranger argumenta:

“J.B.Thiers, a quem faltavam, com a tantos outros hipercríticos de seu tempo, estudos arqueológicos; a não ser assim, ele por certo não acharia mais estranho exprimir as palavras Vade retro, Satana, etc. Pelas letras V.R. S, etc., do que usar, como faziam os primitivos cristãos, a palavra I CH TH Y S (peixe, em grego) para significar IESUS CHRISTOS THEU YIOS SOTER (Jesus Cristo Filho de Deus salvador). Em Roma sempre se conheceu o sentido daquelas coisas; não poderia encontrar obstáculos com receio de parecer sancionar alguma fórmula cabalística.”

Para tranqüilizar a fé dos fiéis o Papa Bento XIV, aprovou a medalha por um Breve de 12 de março de 1742, sancionou ademais a fórmula da benção que lhe deve ser aplicada, que, aliás, é de rigor (em um livro pequeno conta-se duas páginas de benção-frente e verso) e concedeu inúmeras indulgências aos que a levassem consigo, uma delas que é bem interessante é a seguinte:

Aquele que orar todos os dias pela extirpação das heresias ganhará, uma vez por semana, uma indulgência de vinte anos” (e levar a medalha consigo)

Segue algumas observações sobre a validade das indulgências:

Não obstante qualquer prescrição em contrário, Sua Santidade declarou que as Medalhas de que se trata se não tiverem sido bentas pelos monges designados, ou por aqueles a quem a Santa Sé por privilégio especial conceder essa faculdade, não gozarão absolutamente de indulgência alguma, igualmente proibiu que as referidas Medalhas fossem de papel, ou de outra matéria semelhante, exigindo que sejam somente de ouro, prata, bronze, cobre ou outro metal sólido; sem o que não gozarão de indulgência alguma.”

Interessante notar que na mesma breve o papa Bento XVI manda observar o Decreto de Alexandre VII, publicado a 6 de fevereiro de 1657, onde diz que as medalhas bentas não podem ser emprestadas ou vendidas (por isso no livro de Dom Próspero Guéranger ele salienta que a medalha que acompanha o livro é um presente), pois senão perderão as indulgências que lhe foram aplicadas. E proíbe expressamente que algum Sacerdote, ou secular, ou qualquer Ordem, à exceção dos ditos Monges designados, ou daqueles a quem a Santa Sé houver concedido um indulto por especial privilégio que se atreva ou presuma benzer as ditas Medalhas, ou distribuí-las aos fiéis.

O privilégio de benzer as medalhas era reservado aos Beneditinos da Boêmia, Moravia e Silésia, posteriormente estendida a todos os Sacerdotes da Ordem de São Bento.

Na medalha não se deve acrescentar nenhum pormenor, pois um estudo feito em 1906 catalogou 241 variantes.

Nos últimos anos cunhou-se na França um grande número de medalhas sem a efígie de São Bento; outras medalhas que representam São Bento com uma corda na cintura, como os franciscanos, e não revestidos da cogula, indispensável sinal dos beneditinos.

Medalha do Jubileu


Em 1877 na preparação do 14º Centenário de nascimento de São Bento, a Abadia de Monte Cassino mandou cunhar um modelo de medalha que ficou conhecida como Medalha do Jubileu. Essa medalha é redonda; São Bento é nela representado segurando na mão direita a Cruz e na esquerda a Regra; à direita do Santo vê-se uma taça partida e uma serpente e à esquerda do Santo vê-se um corvo com um pão. Aos pés de são Bento, figuram as seguintes palavras: Ex S. M. Cassino MDCCCLXXX (Do Santo Monte Cassino, 1880).

Ao redor da imagem, lê-se um trecho da tradicional oração dirigida a São Bento para suplicar a graça da boa morte: Eivs. In. Obitv. Nro. Praesentia. Mvniamvr. (À hora de nossa morte sejamos defendidos pela sua presença); e na outra face da medalha, no alto da Cruz de formato grego lê-se a palavra Pax (paz).

Essas são as três diferenças da medalha original da abadia de Metten e dessa medalha do Jubileu: 1 – o escrito aos pés de São Bento; 2 – A oração pedindo a boa morte; 3 – Pax ao invés de I.H.S, e salientando que essa é mais arredondada.

O Papa Pio IX concedeu um grande número de indulgências específicas em um breve de 31 de agosto de 1877, as quais só eram válidas para os exemplares cunhados e distribuídos pela própria Abadia de Monte Cassino.

Devoção a São Bento

Um dia, ele apareceu à Santa Gertrudes, e a mesma pediu assistência na hora da morte para cada uma das religiosas que então compunha o mosteiro, respondeu-lhe com doce autoridade São Bento: “Todo aquele que meu Mestre dignou-se honrar meus últimos momentos, obrigo-me a assisti-lo eu mesmo na hora da morte. Serei para ele um baluarte, que o defenderá com segurança contra as investidas dos demônios. Fortificado por minha presença, escapará ás ciladas dos inimigos de sua alma, e o céu se abrirá diante dele”.

Belíssima gravura da indignação de Moisés diante da idolatria

Belíssima gravura da indignação de Moisés diante da idolatria

(clique nelas para ampliá-las)


Explicação da gravura


Oração a Nosso Senhor dos passos

Oração a Nosso Senhor dos passos



(De Santo Afonso de Ligório -
Pode-se rezar nas sextas-feiras, especialmente na Quaresma
e nos dias da semana da Paixão e da Semana Santa.
 É bom rezá-la também com a família e outras pessoas)

Dulcíssimo Jesus, no Horto das Oliveiras, triste até a morte, profundamente angustiado, oprimido da agonia, coberto de suor de sangue.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, pelo ósculo traidor, entregue às mãos dos Vossos inimigos, maltratado, atado e preso com cordas abandonado pelos discípulos.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, pelo injusto conselho dos judeus, julgado réu de morte, entregue a Pilatos, desprezado e escarnecido pelo ímpio Herodes.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, despido, preso a uma coluna e açoitado cruelmente.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, coroado de penetrantes espinhos, ferido na sagrada cabeça com uma cana; vestido por escárnio, de um manto de púrpura, saciado de opróbrios.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, mais odiado que um ladrão e um assassino, reprovado pelos judeus condenado à morte de Cruz.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, carregado com a pesada Cruz, caído por terra, levado ao Calvário, como o cordeiro em matadouro.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, homens das dores, despojado das Vossas pobres vestiduras, contado entre os criminosos imolado em sacrifício pelos nossos pecados.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, cravado cruelmente na Cruz, ferido dolorosamente por causa das nossas iniquidades, quebrantado por causa das nossas culpas.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, escarnecido ainda na Cruz, atormentado e oprimido de dores inefáveis, consumido de sede, abandonado na mais dolorosa agonia pelo próprio Pai celestial.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, morto na Cruz, transpassado por uma lança, a vista de Vossa dolorosa Mãe.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, descido da Cruz, depositado nos braços de Vossa santíssima Mãe e banhado em Suas lágrimas.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, ungido e embalsamado pelos discípulos amantes com preciosos aromas e envolvido em lençóis limpos e depositado no Santo Sepulcro.

- Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

V. Ele tomou verdadeiramente sobre Si as nossas iniquidades.
R. E as nossas dores Ele mesmo suportou.

Oração: - Ó Jesus, Filho Unigênito de Deus e da Virgem Imaculada, que pela salvação do mundo quisestes ser reprovado pelos judeus, traído por Judas, atado com cordas conduzido como um cordeiro, apresentado injustamente aos juízes Anás, Caifás, Pilatos e Herodes, acusado por falsas testemunhas, ferido com pancadas, saciado de opróbrios e injúrias, cuspido no rosto, açoitado barbaramente, coroado de espinhos, condenado a morte, despojado dos vestidos, condenado a morte, pregado com toda a crueldade na Cruz, suspenso entre dois ladrões, vexado, com fel e vinagre, abandonado em tormentosa agonia e finalmente transpassado por uma lança: por estes tormentos, Senhor, dos quais nós, indignos filhos Vossos, agora com devoção, gratidão e amor nos lembramos, e pela Vossa santíssima morte na Cruz, livrai-nos das penas eternas do inferno, e dignai-Vos conduzir-nos ao paraíso, onde levastes conVosco o bom ladrão. Tende piedade de nós, ó Jesus, que com o Padre e o Espírito Santo viveis e reinais por todos os séculos dos séculos.

Amém.

(Oração retirado do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

X- PERANTE OS TRIBUNAIS

X- PERANTE OS TRIBUNAIS


A alma que sofre isola-se no seu sofrimento.

Qualquer bulício que se lhe faça em torno, de boa mente ela o tem por coisa alguma, porque está demasiado ocupada por dentro.

No fundo dos corações feridos trocam-se diálogos apressados, agitam-se cenas pungentes, todo um sussurro de palavras entrecruzadas, variantes deste tema doloroso: Oh! como! Judas, tu... por um beijo... ou ainda: Eu nem sequer conheço esse homem de quem falais...

Porque há a traição brutal dos Judas que beijam e que entregam.

Há o medo covarde dos amigos que no momento do perigo nunca nos conheceram.

A Igreja, que é a continuação de Jesus, terá de suportar essas duas traições; tem-no também o cristão, e pelo mesmo título: ele continua Cristo.

Desde aquelas duas feridas, Jesus, dolorosamente ocupado no interior, vai sobretudo guardar silêncio. Daqui em diante, é silenciosamente que Ele atravessará os pretórios e comparecerá perante os tribunais.

A boca se fecha naturalmente diante da justiça que se torna injusta.

Nós temos todos, gravados na melhor parte de nossa alma, um tal senso de justiça, uma tal confiança nela, uma crença tão viva de que ela paira, quando ela vem a faltar a este grande dever e se faz parcial evidentemente, achamo-nos sem palavras.

Jesus autem tacebat.

Já é doloroso ver um homem oprimido justamente pelos seus delitos ou pelos seus crimes; é odioso senti-lo acabrunhado pelo ódio, pela opinião preconcebida e pela injustiça, mormente quando vêm daqueles que são juízes.

Jesus sentiu esta ferida interior.

Sentiu-a viva e profunda quando Se viu no meio daquela malta de criados, naquela sala alumiada pelos clarões ainda agitados das tochas e principalmente quando se viu em face de Anás, o ex-sumo Pontífice.

À primeira vista, a gente mal se explica que hajam conduzido o prisioneiro ao tribunal de Anás, visto não ser mais este sumo sacerdote: esta honra suprema coubera a José Caífas, seu genro. Mas, para os judeus, Anás permanecia sempre e apesar de tudo o sumo sacerdote tradicional.

Eles se recordavam de que ele fora deposto arbitrariamente pelos Romanos, e não se esqueciam de que arbitrariamente Caifás fora imposto por aqueles mesmos Romanos.

Os Judeus, como todos aqueles que perderam o seu antigo esplendor, aproveitavam a menor ocasião para lhe relembrarem o moribundo revérbero. Arrastaram Jesus primeiramente até Anás como um protesto.

Era pelo menos uma puerilidade, e era também uma bajulação para com o velho; era principalmente uma satisfação dada à invejosa ambição deste. Anás bem que pretendia governar fizera escolher pelos Romanos... em qualquer caso, devia ver em Jesus um rival perigoso do velho sacerdócio que ruia.

Sabia-se disso... e condescendia-se.

E depois, aos olhos do vulgo, era começar acertadamente os debates o pô-los assim sob o alto patrocínio dele.

Jesus, que compreendeu todos esses cálculos, sente-lhes vivamente o odioso, e quer, antes de entrar na via do silêncio, mostrar bem que não está sendo embaído em nada. Por isto, desde a primeira interrogação, responde com certa altivez, com certo desdém, que visa a provar que Ele não é nem conspirador vulgar nem obscuro agitador.

Inquirem-no sobre a Sua doutrina e sobre os Seus discípulos, como se fosse só isto que estivesse em jogo.

- Eu nada disse que seja secreto, responde Ele: a Minha doutrina todos a conhecem, e Eu nada tenho a informar-vos sobre este ponto... todos os que aqui estão a ouviram; interrogai-os, eles poderão responder!...

Isto Lhe valeu a bofetada de um bruto.

- Por que Me baterdes? responde Jesus. Se falei mal, mostrai-o... porém se não falei mal, por que baterdes?...

Essa bofetada provava a que grau de ódio mal contido e de violência disfarçada se havia chegado naquela assembléia convocada à pressa.

Vai-se logo às vias de fato; já não é, pois, um acusado, é já um condenado.

Jesus compreende-o tão bem, que muda então de atitude; a partir de agora calar-se-á... Para que falar? os juízes são executores.

Compreende-o igualmente Anás, e apressa-se a enviar Jesus, atado, ao genro. José Caífas morava em frente ao sogro.

Era só atravessar o pátio largo e lajeado, aquele pátio onde se aquecia a tropa e onde Pedro já começara a sua lamentável negação.

Jesus é arrastado, é uma passagem rápida, uma corrida de fachos; mal se pode distingui-lO através dos soldados que O comprimem e O empurram.

Ei-lo diante de Caifás, a sala está cheia. Devia haverem sentados a uma ponta, pelo menos vinte e três juízes, era o número estritamente necessário; sórdido, as testemunhas de acusação.

A borra está sempre no fundo.

Jesus está no meio. Entre aquelas duas massas sombrias, a Sua figura se destaca, nobre, alva, como que iluminada.

Ele olha fixamente os juízes, e atrás ouve saírem murmúrios confusos daquela turba malsã.

O interrogatório que se queria legal começa. Tudo se faz segundo os ritos augustos da justiça, previu-se, aliás, até a mais pequena minúcia: os secretários lá estão; as testemunhas, subornadas e apanhadas não se sabe onde, lá estão também... há só uma coisa que se não previra... e que sucede... Jesus não responde.

Nada Lhe pode abrir a boca altivamente fechada. O sangue lateja-Lhe ainda na face batida pela bofetada: Ele sabe muito bem com quem está tratando.

Jesus autem tacebat. Mas Jesus guardava silêncio.

Nada era mais exasperador para os Seus juízes, o efeito falhava e o plano lhes abortava; como pegar aquele homem pelas Suas próprias confissões, se Ele nada diz e nada quer dizer obstinadamente?

Aquele silêncio domina-os, vai esmagá-los.

Então, para lhe atenuar o alcance, falam todos ao mesmo tempo, juízes, sacerdotes e testemunhas. Só Jesus, que devia falar, se cala.

Que coisa mais augusta do que esse silêncio?

Quando tudo se esboroa em torno de nós, conservemos ao menos essa dignidade do silêncio. Deus o ouve, é o bastante.

In silentio et in spe erit fortitudo vestra (Is. 30,15).

A tua força, ó alma acabrunhada e traída, estará nesse silêncio em face dos homens que te não compreendem, e também na esperança em face de Deus, que a Seu tempo se lembrará da opressão que por Ele sofres.

É então que, num movimento culminante de exasperação, Caifás salta, de algum modo, no meio.

- Então nada tens a responder? chama-Lhe; e, a um novo silêncio de Jesus: - Pois bem: adjuro-te, em nome do Deus vivo, que me digas se verdadeiramente és o Cristo, o Filho do Deus bendito...

- Sim, Eu o Sou, respondeu Jesus.

Houve um momento de estupor; depois, repentinamente prorrompeu e avultou um imenso clamor. Precipa-se aquela gente, Jesus é subitamente assaltado, empurrado, batido... e logo arrebatado, como um felpa de palha desprezível por aquela turba infrene.

Chovem as pancadas, as bofetadas estalam, as bocas escarram:

- Blasfemou, blasfemou; e ei-lO que lá se vai, levado, arquedo, através do pátio frio, onde os soldados se esquentam ainda, onde Pedro acada de negá-lO, onde o galo canta à plena voz.

Foi então, nessa levada de um instante, que Ele olhou para o apóstolo, e o apóstolo se pôs a chorar.

Lançaram-nO numa prisão, para ali aguardar a manhã.

Ele ainda não havia liqüidado contas com a justiça. Certo que falara, a confissão estava registrada, mas sabia-se que aquela confissão arrancada de noite, numa sessão, por sua natureza, ilegal, qualquer que lhe tenha sido o aparato, não teria nenhuma força de lei.

Aos primeiros albores do dia torna-se, pois, à carga. Com grande pressa reúne-se de novo o Conselho; a encenação é visivelmente a mesma que durante a noite, apenas as testemunhas (que falta faziam?) não são chamadas. - Trazem-no, é um novo interrogatório: novos ultrajes. Ele sente profundamente o que há de ofensivo para a Sua dignidade na correrias que O obrigam a fazer por zelo da legalidade, perante tantos juízes e tntos tribunais.

Esta preocupação da legalidade no momento em que mais descaradamente é ela violada será um traço que se reproduzirá em todas as causas dos mártires de Jesus Cristo.

Assim, arrastado perante Anás, para satisfazer as susceptibilidades ambiciosas do velho; arrastado perante Caifás uma primeira vez para aí fornecer, com o favor da surpresa e do depoimento de testemunhas peitadas, um capítulo de acusação contra Si; arrastado perante Caifás uma segunda vez para ouvir oficialmente sancionar uma condenação que já e desde muito se havia decretado; todos estes ignóbeis processos revoltariam provavelmente Jesus se Ele não soubesse que desse modo devia expiar todas as injustiças humanas; se não visse ao longe os Seus apóstolos, os Seus fiéis, os Seus melhores amigos arrastados também de tribunal em tribunal, de pretório em pretório, e sem sobretudo, numa ordem mais alta, não sentisse que então nos merecia a tranquilidade  a confiança de que haveríamos mister quando, de pecados em pecados, como por uma longa cadeia rastejante, fôssemos trazidos ao tribunal dos sacerdotes para sairmos, não condenados como Ele, porém absolvidos e libertados pelo Seu silêncio e pela Sua resignação ante a injusta sentença que naquela manhã proferiam contra Ele.

Porquanto ela está definitivamente proferida.

Caifás tornou a representar a mesma cena, com algumas variantes diminutas, e tornou a perguntar-Lhe, outorgando-Lhe o juramento solene, se verdadeiramente Ele era o Messias.

- Se és o Cristo, dize-no-los então, bradava ele exasperado pelo silêncio e pela impassibilidade de sua vítima.

- Se eu vo-lo disser, não Me crereis... respondeu Jesus... Então, para que dizer?... Se eu vos interrogar para saber o que é que Me retém nas vossas mãos... não Me respondereis e nem Me soltareis... então para que dizer? Entretanto eu vos declaro, repetiu Ele altivamente: dia virá em que Me vereis, a Mim que esbofeteais e em quem cuspis, sentado à direita da Majestade.

- Então és mesmo o Filho de Deus?
- Sim, Eu o Sou...

Era tudo quanto eles desejavam, e nós também. Jesus vai morrer por afirmar que é Deus.

Jamais homem, se simples homem, fosse ainda "o mais belo gênio, o mais encantador dos doutores, a alma mais lírica ou mais idílica" (Renan), pois tudo isto se tem disto d'Ele só para O não chamar um Deus, jamais homem, se não passasse de homem, poderia ter falado desse modo sem uma deplorável, sem uma inexplicável loucura.

No momento em que é abandonado por todos os Seus, traído, renegado, sem esperança de ver subsistir a Sua obra, é exatamente nesse momento, quando tudo desaba em torno de nós, que por duas vezes, em face da morte que O espera, Ele afirma: Eu sou o Filho de Deus.

Ou isto era verdade, ou isto não era verdade.

Se não era verdade, então o homem já digno de lástima que se tinha diante de si não passava de um louco, de um desses alucinados de sonhos de grandeza ridícula: esta gente costumava-se enclausurá-la, acorbertá-la com a própria comiseração, mas não matá-la!

Fazer-se passar por um Deus, em verdade isto não molestava ninguém, se fosse falso.

Mas, e se fosse verdadeiro?...

De certo, a coisa valia a pena de ser estudada de perto. Com o passado, semeado todo de milagres e de prodígios, daquele homem, dada a Sua doutrina tão pura, tão elevada, ante a Sua calma e o Seu silêncio inexplicáveis, tinha-se de que suspeitar e com que instruir um processo que devia durar um pouco mais do que algumas horas numa metade de noite.

Eis aí o que reclama a mais comezinha eqüidade, se Ele fosse um simples homem... mesmo alucinado... Mas, e se fosse um Deus?...

Então ei vo-lo digo em verdade, escutai todos, opressores dos tempos futuros, digo-vo-lo em verdade, escribas, sacerdotes, anciãos do povo, e, para além de vós, juízes, tiranos, fazedores de leis, reis coroados ou sem coroa, vereis um dia... este Filho do homem vir na Majestade que corusca, sobre nuvens que reluzem no seio das tempestades e dos relâmpagos. Vê-lO-eis, - guardai bem, - e vós, que O haveis julgado, por vossa vez sereis julgados por Ele, sem apelação, desta vez, e para a Eternidade.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy. S. J, tradução de Luís Leal Ferreira, III edição, Editora Vozes. Neste dia assumo a transcrição -- publicada no blogue -- deste livro)

PS: Grifos meus.